Projecto de bodas

Hoje apetece que uma rosa seja
o coração exterior do dia
e a tua adolescência de cereja
no meu bico de Isolda cotovia.

Hoje apetece a intuição dum cais
para a lucidez de não chegar a tempo
e ficarmos violetas nupciais
com a lua a celebrar o casamento.

Apetece uma casa cor-de-rosa
com um galo vermelho no telhado
e os degraus duma seda vagarosa
que nunca chegue à varanda do noivado.

Hoje apetece que o cigarro saiba
a ter fumado uma cidade toda.
Ser o anel onde o teu dedo caiba
e faltarmos os dois à nossa boda.

Hoje apetece um interior de esponja
E como estátua a que moldar o vento.
Deitar as sortes e, se sair monja,
Navegar ao acaso o meu convento.

Hoje apetece o mundo pelo modo
Como vai despenhar-se um trapezista.
Abrir mais uma flor no nosso lodo:
Pedir-lhe um salto e retirar-lhe a pista.

Hoje apetece que a cor dum automóvel
Seja o Egipto de novo em movimento;
E que no espaço duma gota imóvel
Caiba a possível capital do vento.

Hoje apetece ter nascido loiro
Como apetece ter havido Atenas;
E tu nas curvas rápidas de um toiro.
E eu quase intangível como as renas.

Hoje apetece que venhas no jornal
Como um anúncio. Sem fotografia.
E inventar-te uma lenda de cristal
Para reflectir a minha biografia.

Natália Correia, in ‘O Sol nas Noites e o Luar nos Dias’

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Bibliocleptomaníaca

            A Reinaldo Ribeiro

Quando Bastian Balthazar Bux se abriga no sebo do velho Coreander, fica completamente inebriado pela mistura de poeira, chuva e adrenalina. Os livros, amarelecidos, fazem nosso herói esquecer, por um átimo, daqueles que impingiram pequenas memórias traumáticas em sua infância. Fumando cachimbo e avesso às crianças, o guardião de etimologias e florilégios, tem de atender ao telefone, esquecendo-se de Bastian. É neste ponto que o furto de A História sem fim se dá. E o resto, acredito que todos conhecemos.

Lembrei-me desse e outros roubos literários porque, há tempos, gostava de contar três roubos de um mesmo livro. A ladra sou eu. E a minha história tem fim, não é de Michael Ende, nem possui o contexto de uma Alemanha órfã de sonhos, possuída pelo Nada. E meu livro é de Clarice, que morreu dois anos antes desse, mágico, ser escrito. Acho que ela o amaria, como eu o amei.

Antes de chegar no meu furto literário clariciano, quero espalhar ao mundo o que pesquisei sobre a loucura de roubar livros. O “Caso Libri”, como ficou conhecido, conduz-nos ao Conde de Firenze, Guglielmo Libri Carucci dalla Sommaja, que nasceu em 1803. Matemático brilhante, foi nomeado, aos 20 anos, professor na cidade de Pisa, mas odiava a academia. Sua paixão pelas bibliotecas o levou a Paris, onde descobriu um amor ainda mais profundo: conspirar pelo elitismo intelectual.

Na década de 1840, a ele foi confiado o cargo de Inspetor das Bibliotecas Públicas da França. Lá ele roubou livros valiosíssimos, dentre eles Códice de Leonardo da Vinci, manuscritos originais de Galileu Galilei e textos iluminados do século VII.

Quando foi descoberto, ele fugiu para a Inglaterra com 18 caixas cheias de tesouros da humanidade. O ladrão acreditava que as obras não deveriam estar em bibliotecas públicas, onde qualquer pessoa pudesse estudar, mas em seus bolsos. A ele foi cunhado o termo bibliocleptomaníaco.

O ego, a vaidade e a ganância são os antagonistas de nosso Bastian.

Eu não sou uma bibliocleptomaníaca.

A primeira vez que roubei Clarice, estava prestes a embarcar para Lisboa, em 2008. Talvez eu seja bibliocleptomaníaca, mas só da biblioteca dos meus pais. Entanto, a minha mãe sempre soube, infelizmente, todas as vezes que eu peguei um livro daquela imensa estante. Aliás, posso contar nos dedos quando eu menti e ela não me percebeu. Apesar de odiar os clichês, as mães dificilmente se enganam. Às vezes, por doçura, ou bondade, elas relevam as pequenezas.

Pus na mala o livro da Clarice, em frangalhos de tanto uso, preso por fita cola castanha. Tinha uma pintura na capa. A primeira edição, de 1984, com a textura do tempo, e um rio serpenteando uma deusa que vai embora.

Demorou uns dois meses até a minha mãe sentir falta dele:

– Mariana!!!! Você levou o meu livro da Clarice! Não acredito… Que absurdo.

– Agora já foi, mãe. E ele tem vivido tantos saraus, comigo. A Clarice conheceu Alfama, o Bairro Alto, as manhãs nos telhados encarnados. A minha amiga da Galícia está apaixonada por ela. Você pode me perdoar por este roubo?

E eu juro, mais sagrado que uma música do Milton, ao acabar de ler Clarice, eu me tremia toda, sentia a pulsação dela em mim, agradecia. E fechava o livro, as folhas soltas, com marcas de vinho e da estante que ficou para trás.

Na segunda vez que o roubei, em 2015, fazia minha mala, ao sair de casa. Meus olhos quase não abriam, de tanto chorar. Iria deixar os móveis, meu cachorro e todos os sonhos de tantos anos. O amor acaba, disse o amigo da Clarice, o Paulo Mendes Campos, aquele que a levou aos psicodélicos e a tantas aventuras líricas. Onde os escuros são mais sábios. Peguei uma pequena valise, porque uma separação não se faz de uma vez só. A nossa vida se fragmenta em decibéis, em ternuras, em encontros que demoram décadas, às vezes no café às seis da tarde, às vezes na palavra não dita, ou às vezes no sofá que já cansei de dormir. Naquela sexta-feira, quando decidimos o adeus, eu pensei, vou roubar a Clarice. Foda-se. Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim, não me valeu. Mas a Clarice vai comigo. Aquela dedicatória tão linda, dentre todas as dedicatórias e cartas e duetos, aquela vai comigo. Porque eu já roubei esse livro uma vez, e hoje eu vou roubá-lo de novo. Eu dei tanto, e ele também meu deu universos, mas a Clarice é minha, e eu não quero a Clarice sendo transferida para ninguém. E eu sei que, amanhã, num domingo, distraído, porque é bom demais passar a Clarice por amor a alguém, ele vai endereçar a minha Clarice a qualquer outro amor, e eu não aceito. A Clarice sou eu. Eu dei a Clarice a ele, mas eu não dei a ele, porque a Clarice sou eu. Logo, a Clarice é minha. Pode ficar com o sofá e a televisão, o cachorro eu vou sentir saudades, o curso de roteiro eu te dei, porque é para você. A Clarice sou eu.

Em 2017, vendi todos os meus livros, para regressar a Lisboa. Inclusive o segundo furto. Alívio. Não sou bibliocleptomaníaca.

Contudo, chegamos ao ano de 2019. Uma grande feira de livros. Antes de estar lá, encontrei meus amigos comunistas, portugueses. Eles me disseram: Tu tens de roubar um livro durante a feira! Essas livrarias ganham milhões! Essas feiras são altamente comerciais e os autores vivem aqui, nessas tascas, contando moedas, vivendo na miséria! A vida dos poetas é um verdadeiro horror. Tu, como uma pessoana, mais do que ninguém, sabes disso. Nunca roubaste um livro na vida? De uma livraria, dessas, assim, chiques? Tem de ser agora! Olha, se tens medo de roubar, rouba um livro de alguém que já está morto.

Parti no autocarro, com a cabeça baralhada, sem saber como faria aquela contravenção. Uma cousa é roubar a biblioteca dos teus pais, outra é a tua própria casa. Mas uma livraria, no meio de uma feira literária?

Não sou capaz.

Entrei na primeira palestra, olhei para as montras, despreocupadamente, e não encontrei amigos com que falar. Sentei e vi a prateleira do meu lado direito. Livros brasileiros. Especificamente, livros da Clarice. Clarice está morta! E aquele livro. Imenso. Olhei para o meu próprio livro, Viver é Fictício, na minha mão. Decidi que ele seria o meu oráculo. Vou abrir numa página aleatória e ele selará o meu destino:

p. 115: A Ladra

Peguei o livro da Clarice, fingi que o folheava ou floreava, coloquei embaixo do meu, aplaudi a palestra que jamais escutei. Enfiei o livro, gigantesco, tremendo, na bolsa. Fiz o sinal da cruz e rezei.

Na porta da livraria, em pânico, acendi um cigarro. Uma pessoa me cutucou. Olhei para trás:

– Dá-me lume?

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Gilda

Gilda atravessou a minh’alma, durante séculos, ou milênios, ou somente aqueles pequenos instantes em que a vi, hoje, no palco. Entanto, eu a conheço, muito antes. Gilda, aquela icônica de Rita Hayworth, alisando suas luvas, enquanto põe a culpa em si. No beijo que incendiou Chicago, no terremoto em Frisco, na tempestade de neve, em Manhattan.

Gilda foi amante criada por Hilda Hilst, do livro que não li, mas que admiro, pela riqueza pornográfica absurda. A mestra cita até à vulva portuguesa – cona – para trazer aos leitores o perfil mais inóspito do humano. Perversa, irônica, canalha. Farta de ser humana.

Se eu quiser chegar ao trágico, Verdi tem a sua Gilda. Embora seja considerada heroína dessa peça magistral, nada mais é do que uma ode ao patriarcado. Um pai, obsessivo, a esconder sua filha de uma sociedade extremamente doente. Uma menina entusiasmada com o primeiro amor. Um nobre repleto de vilezas. E, depois de muita música, acabamos em feminicídio.

A Gilda de Nathalia é de outras ordens cósmicas. Veio carregada de seus próprios punhos. Surpreende a plateia com a estranheza. Quiçá, todos sentimos a mesma indagação. Será que somos humanos? Mas a Nathalia precisou se despir e sacrificar seus sábados em etimologias. Acompanhada de deuses gregos e macróbios. Alimentos ancestrais, nas esquinas transversais do centro de São Paulo.

Durante cinco meses e quinze dias, Nana não pestanejou. Respirou o teatro. Figurino, máscaras, idas ao centro espírita, feridas em carne viva. Sua Gilda é muito mais do que as interrogações: o que roubas, querida? Por que comes chocolates, pequena?

Fernando Pessoa nos revela: “A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis.”

Hoje, ao encontrar-me com Gilda, e não a minha amiga, senti um orgulho imenso: posso também acreditar na minha arte! Todos os amigos dela, tenho a certeza, foram contagiados: por suas vestes, pelo cenário, na energia absurda de transe que ela é! Evoé! E eu, graças às Deusas e à amada Angelina, estive na construção dessa personagem, naveguei por esses textos, perscrutei essas vulnerabilidades, achei espacial cada passo do caminho e aplaudi de pé, no silêncio do sofá, invadindo madrugadas, minuto por minuto, a sua criação.

Ver a Gilda ter um andar próprio, maquiagem, mala, até roubar um poema de regresso à casa. Degustando em minhas papilas gustativas.

Agora, parei para ouvir, uma vez mais, a Gilda de Verdi. Depois de ter lido, sem tesão, a Gilda da Hilda. Porque a arte é isso. Lembrar quem somos, rever quem queremos ser e vislumbrar os nossos sonhos. Te amo, Nana. Quero ser abduzida, Gilda.

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“Morrer talvez seja voltar para a Poesia”  

Morrer talvez seja voltar para a Poesia”                                                                                                                                                        João Guimarães Rosa

Quem irá corrigir os meus textos, na alta madrugada, a partir de hoje? Ah, meu amado pai, desde o dia em que partiste, as homenagens não cessam. Quantas histórias incríveis deixaste, para a memória de todos nós…

Teus amigos – centenas deles – confessaram a tua missão de mestre. Que tu os ajudaste a serem jornalistas, a escreverem melhor, a rir dos absurdos e nunca desconfiar da existência dos anjos.

Nossas conversas, infinitas, também reverberam nos meus amigos. Todos, sem exceção, possuem uma admiração imensa pelo homem que foste. As piadas infames, as confidências familiares do Recife, a ironia finíssima e o amor à língua. O que vou fazer, agora, sem ti? Quem vai me guiar, na contramão das obviedades, nas profundezas etimológicas, no coração de cada palavra escrita?

A tua presença está em tudo: em cada cachorrinho que eu pude escolher, trinta anos atrás; no bullying com o meu boneco, que foi transformado em aberração; no teu medo de cavalos, por minha causa.

Penso na Judith, a tua avó portuguesa, e no dia que consegui, finalmente, encontrar a sua certidão de nascimento, na Torre do Tombo. A alegria que sentimos, juntos, quando o broche da tua mãe chegou até às tuas mãos.

Recordo a raiva que sentias quando alguém não entendia meus escritos e a tua devoção aos seres superiores. O projeto dos anjos que ficou sem colocarmos na lei, as tuas últimas entrevistas com os teus amados amigos, o cheiro abafado do Araguaia.

Agradeço às Deusas por ter conhecido Veneza, a tua cidade favorita desse planeta, e por poder partilhar o encanto pela Itália: a língua mais doce da Universa, os manjares, os licores com biscoito, o vinho do Piemonte. E por ter trazido meias bem quentinhas de lá para ti, meu friorento preferido.

Não me arrependo de ter passado esses anos em Lisboa, porque nós nos falávamos, religiosamente, todos os dias. Tu conhecias a minha vida como se estivesses morando comigo, na Estrela, onde nasceu a tua avó.

Certa vez interroguei, ao colocar a nossa foto:

“A gente saberia, nesse instante, quando as vírgulas seriam empregadas, corretamente? Nós dois vislumbraríamos as interrogações, os clichês, os preciosismos linguísticos?! Dilacerariam, os astros, nossas saudades estratosféricas?

Queria compreender essa sabedoria infante, uma vez mais, com todo o amor que me transborda em tua presença, aqui e agora, meu pai!”

Deste-me, como último presente, a certeza de que a vida continua, em outra dimensão. E este mundo estava pequeno demais para a tua genialidade.

Espero que tenhas encontrado aquela biblioteca que estavas a visualizar, no quarto do hospital, na nossa última noite, neste plano.

Quem vai corrigir os meus textos e as minhas falhas mundanas?

Quem vai corrigir este texto?

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A resposta do Destino

Dia manxe klaru na txon di mundu
Di séu azul, rai di sol fuji na rostu di nha kretxeu
Se dos odjus, dos fonte di lus spia-m ku amor

Dia manxe klaru na txon di mundu
Di séu azul, rai di sol fuji na rostu di nha kretxeu
Se dos odjus, dos fonte di lus spia-m ku amor

Kretxeu di surizu dóxi
Bo k’é di-meu, nha lus, nha spritu
Trase-m na bunitéza di bus odjus
Es dusura di bo liberdadi

Kretxeu di surizu dóxi
Bo k’é di-meu, nha lus, nha spritu
Trase-m na bunitéza di bus odjus
Es dusura di bo liberdadi

N kre-bu ku forsa di distinu
Pa nu ben símia nes txon di dor
Nos flor di amor, nos flor di grasa
K’é pa no dose surizu konxe séu

N kre-bu ku forsa di distinu
Pa nu ben símia nes txon di dor
Nos flor di amor, nos flor di grasa
K’é pa no dose surizu konxe séu

Kretxeu di surizu dóxi
Bo k’é di-meu, nha lus, nha spritu
Trase-m na bunitéza di bus odjus
Es dusura di bo liberdadi

Kretxeu di surizu dóxi
Bo k’é di-meu, nha lus, nha spritu
Trase-m na bunitéza di bus odjus
Es dusura di bo liberdadi

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Lua de Vindima

Uma Lua cheia em Peixes estava prestes a nascer. Aquário regia seus últimos graus, fazendo-a crescer na festa do Avante. Eu cheguei, amargurada, nessa festa. Fui testemunha, momentos antes de um homem destruindo o pouco que sobrava da infância de seu filho. E eu vi o quanto da sua infância também estava destruída, ao destruir aquele menino. Não acredito em maldades desacompanhadas. Contudo, não serei eu a acompanhar a maldade, calada. Viemos ao mundo para romper os horrores que nos foram trazidos pelas crianças antes de nós. E para cuidar das crianças que estarão depois de nós.

Cheguei na festa no Avante, em frangalhos – quase cúmplice – de uma antiga criança, prestes a machucar um adolescente que já está também em frangalhos. E a Lua, prestes a se erguer, imensa, em Peixes. E aquela gente toda, o verão, a ilusão de que somos todos 25 de Abril, sempre.

Pelo calendário lunar de tradições neocélticas, a Lua que nos acolhia, naquele instante, era a Lua da Vindima, a Lua da Colheita. É um momento de agradecer e se transformar: a Deusa começa a se mover da Mãe para a Anciã.

Foi assim que me senti, quando fugi. Depois de horas a aguentar o homem e o menino. A minha cabeça dizia: eles não são meus. E eu não posso mais cuidar deles, eles não são meus. Esse menino, por mais que eu queira salvar a vida dele, eu preciso me salvar. E esse homem, que também é um menino traumatizado, eu preciso me salvar dele, antes que ele vá me fazer mal. Porque essa Lua cheia está chegando, nessa festa do Avante, e eu não conheço ninguém, e eu estou ficando cada vez com mais medo desse homem menino, e com mais pena desse menino que um dia vai virar um homem também.

Desliguei meus dispositivos e confiei na Lua, bruxa que sou.

Desci para ouvir o som de Mario Lucio, alquimista de Cabo Verde, sozinha, junto à luz dela. Tocava Hino à Gratidão, quando o encontrei:

– Te mandei uma foto da Lua, agora!

– Desliguei o meu celular, estou fugindo de um psicopata!

– Mas eu pedi para a Lua te trazer aqui!

– Cuidado, João, todos os seus desejos se realizarão.

No princípio, era só eu e você.

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COR DE MÃE

A tempestade findara. Éramos poucos, ao convés. O alívio de sobreviver, a mais um dia. Uma nesga de sol. Uma resga de sol, diferente de todas as outras, Não era alaranjada, não era rosa, não era lilás. Tinha uma cor que eu não sei o nome. Chamei essa cor de cor de mãe. Para mim, era o único nome possível.

Os homens festejavam, com violas e runs. A felicidade imensa de estarem vivos, depois de mais uma tormenta. Os cânticos de saudades de casa. As palmas, os choros, os poemas. Alguns passaram mal. Por vinho ou por poesia. Poucos por Lisboa. Sabem o Destino que os espera, se retornam à Praça do Comércio. Voltar nunca foi uma saída. Para nenhum de nós.

Hoje é 21 de Abril de 1500. A Lua está crescente. O rum voa bem alto pela minha cabeça. Nunca tinha atravessado essa cor de mãe antes. Será que estamos próximos das Índias? Será que estamos próximos do fim? Será que o fim é próximo dessa cor que vi, que chamei de Mãe?

Já faz 43 dias que estamos ao mar. Uma exaustão me consome, enquanto me arrasta para o fundo deste oceano. E eu não sei se isto é o fim ou é começo. Se estou a ser engolido pela sereia, pela loucura, pela ganância de conhecer o infinito… ou se chegaremos em terra firme: amanhã. Depois de ver estas cores tão imponentes, que só poderiam ser pintadas por uma mãe.

Talvez eu esteja alucinando. Ou embriagado demais para raciocinar. O mar é um útero traiçoeiro, para um pobre coração de Alfama. Ladrão, vagabundo. Os ventos alísios parecem auspiciosos. Ninguém aqui sabe acerca dos meus conhecimentos astrológicos.

Fiz umas pequenas anotações (aproximadas):

1.            Sol: 0°47′ de Touro (signo de terra, estável e prático).

o            Simboliza a materialização, recursos naturais e a “terra” a ser descoberta.

2.           Lua: 26° de Aquário (conjunção com Saturno em Peixes).

o            Indica um momento de transição coletiva, mas com rigidez (Saturno). A Lua em Aquário sugere inovação, mas a conjunção com Saturno pode representar desafios na adaptação.

3.           Mercúrio: 13° de Áries (retrógrado).

o            Comunicação confusa, possíveis erros de navegação ou interpretação. Mercúrio retrógrado em Áries pode indicar decisões impulsivas sendo revisadas.

4.           Vênus: 6° de Gêmeos.

o            Diplomacia e trocas culturais, mas também dualidade (dois mundos se encontrando).

5.           Marte: 12° de Câncer.

o            Ação (Marte) ligada a emoções e proteção (Câncer). Pode simbolizar a chegada a um novo “lar” simbólico.

6.           Júpiter: 20° de Câncer.

o            Expansão (Júpiter) em Câncer: conexão com novas terras e possíveis riquezas naturais.

7.           Saturno: 26° de Aquário (conjunção com a Lua).

o            Restrições, estruturas rígidas e a imposição de ordem sobre o desconhecido.

o            Urano: 9° de Escorpião (transformação oculta).

o            Netuno: 20° de Sagitário (ilusões e ideais expansionistas).

o            Plutão: 16° de Escorpião (poder e profundas mudanças).

Agora vou tocar meu violão, porque preciso ver de novo aquela cor, cor que não sei o nome, cor de mãe, na alvorada.

Será que ela volta?

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Poema partilhado

Na esquina da Nestor Pestana
com a Consolação
Puseste meu nome.

Eu, que te conheço
pessoanamente bem.
Nasci, por ti,
numa rua
onde não me pude ver.
Escritora.

Que escritores são esses?
Deveriam ajoelhar-se às Musas.
Ao invés de mergulhados
Nas montras
De seus belos egos.

Não invoquem meu nome!
Reverenciem as leituras…

Acesos como nós
já são poucos.
Os apartamentos da Roosevelt
onde estamos
sonhando tão alto.

Tu me fizeste chegar à casa?

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Arte Poética IV

Fernando Pessoa dizia: «Aconteceu-me um poema.» A minha maneira de escrever fundamental é muito próxima deste «acontecer». O poema aparece feito, emerge, dado (ou como se fosse dado). Como um ditado que escuto e noto.

É possível que esta maneira esteja em parte ligada ao facto de, na minha infância, muito antes de eu saber ler, me terem ensinado a decorar poemas. Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos, imanentes. E que bastaria estar muito quieta, calada e atenta para os ouvir.

Desse encontro inicial ficou em mim a noção de que fazer versos é estar atento e de que o poeta é um escutador.

É difícil descrever o fazer de um poema. Há sempre uma parte que não consigo distinguir, uma parte que se passa na zona onde eu não vejo.

Sei que o poema aparece, emerge e é escutado num equilíbrio especial da atenção, numa tensão especial da concentração. O meu esforço é para conseguir ouvir o «poema todo» e não apenas um fragmento. Para ouvir o «poema todo» é necessário que a atenção não se quebre ou atenue e que eu própria não intervenha. É preciso que eu deixe o poema dizer-se. Sei que quando o poema se quebra, como um fio no ar, o meu trabalho, a minha aplicação não conseguem continuá-lo.

Como, onde e por quem é feito esse poema que acontece, que aparece como já feito? A esse «como, onde e quem» os antigos chamavam Musa. É possível dar-lhe outros nomes e alguns lhe chamarão o subconsciente, um subconsciente acumulado, enrolado sobre si próprio como um filme que de repente, movido por qualquer estímulo, se projecta na consciência como num écran. Por mim, é-me difícil nomear aquilo que não distingo bem. É-me difícil, talvez impossível, distinguir se o poema é feito por mim, em zonas sonâmbulas de mim, ou se é feito em mim por aquilo que em mim se inscreve. Mas sei que o nascer do poema só é possível a partir daquela forma de ser, estar e viver que me torna sensível — como a película de um filme — ao ser e ao aparecer das coisas. E a partir de uma obstinada paixão por esse ser e esse aparecer.

Deixar que o poema se diga por si, sem intervenção minha (ou sem intervenção que eu veja), como quem segue um ditado (que ora é mais nítido, ora mais confuso), é a minha maneira de escrever.

Assim algumas vezes o poema aparece desarrumado, desordenado, numa sucessão incoerente de versos e imagens. Então faço uma espécie de montagem em que geralmente mudo não os versos mas a sua ordem. Mas esta intervenção não é propriamente «inter-vir» pois só toco no poema depois de ele se ter dito até ao fim. Se toco a meio o poema nas minhas mãos desagrega-se. O poema «Crepúsculo dos Deuses» (Geografia) é um exemplo desta maneira de escrever. É uma montagem feita com um texto caótico que arrumei: ordenei os versos e acrescentei no final uma citação de um texto histórico sobre Juliano, o Apóstata.

Algumas vezes surge não um poema mas um desejo de escrever, um «estado de escrita». Há uma aguda sensação de plasticidade e um vazio, como num palco antes de entrar a bailarina. E há uma espécie de jogo com o desconhecido, o «in-dito», a possibilidade. O branco do papel torna-se hipnótico. Exemplo dessa maneira de escrever, texto que diz esta maneira de escrever, é o poema de Coral:

Que poema, de entre todos os poemas,

Página em branco?

Outra ainda é a maneira que surgiu quando escrevi O Cristo Cigano: havia uma história, um tema, anterior ao poema. Sobre esse tema escrevi vários poemas soltos que depois organizei num só poema longo.

E por três vezes me aconteceu uma outra maneira de escrever: de textos que eu escrevera em prosa surgiram poemas. Assim o poema «Fernando Pessoa» apareceu repentinamente depois de eu ter acabado de escrever uma conferência sobre Fernando Pessoa. E o poema «Maria Helena Vieira da Silva ou O Itinerário Inelutável» emergiu de um artigo sobre a obra desta pintora. E enquanto escrevi este texto para a Crítica apareceu um poema que cito por ser a forma mais concreta de dar a resposta que me é pedida:

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos

Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente

Durante vários dias disse a mim própria: «tenho de responder à Crítica». Sabia que ia escrever e sobre que tema ia escrever. Escrevi pouco a pouco, com muitas interrupções, metade escrito num caderno, metade num bloco, riscando e emendando para trás e para a frente, num artesanato muito laborioso, perdida em pausas e descontinuidades. E através das pausas o poema surgiu, passou através da prosa, apareceu na folha direita do caderno que estava vazia.

Ninguém me tinha pedido um poema, eu própria não o tinha pedido a mim própria e não sabia que o ia escrever. Direi que o poema falou quando eu me calei e se escreveu quando parei de escrever. Ao tentar escrever um texto em prosa sobre a minha maneira de escrever «invoquei» essa maneira de escrever para a «ver» e assim a poder descrever. Mas, quando «vi», aquilo que me apareceu foi um poema.

Sophia de Mello Breyner Andresen | “Dual”, 1972

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Em jejum

Apesar de ter nascido na Babilônia, tive o raro privilégio de vir de duas famílias oceânicas. A minha mãe nasceu em Florianópolis. Lá eu fui feliz. A infância vestida de golfinhos, brigadeiros, baleeiras, mar azul e violento. E a alegria indizível, da menina que podia fazer tudo o que quisesse, nas águas. As ondas ninavam os sonhos. A praia, à frente da mesa posta, no café da manhã. O único trauma era a hora depois do almoço: a digestão. Se penso em memórias mais perfeitas de criança, não consigo imaginar. E, aos Deuses, agradeço, por este imenso presente.

Do lado do meu pai, eu sou pernambucana. Ou melhor, eu sou de Olinda. Porque quem nasce em Olinda acha que é de uma raça superior. Eu não consigo diferenciar nada disso, e acho uma grande bobagem. Mas, quem é de Olinda se sente ainda mais cósmico que o recifense. E eu, como filha de olindense, preciso que saibam que faço parte dessa conjectura galáctica, quando nos resgatarem, finalmente.

Talvez, como Clarice Lispector.

Em Olinda, meu avô tinha sua granja. Nós não íamos com a mesma frequência, como é óbvio. Pela maldita distância. E só redescobri, outro dia, a celebridade náutica que era o meu avô, Carlinhos. Foi campeão de natação, na década de 1930, pelo clube de Regatas Barroso. Depois foi atropelado pelo bonde, aos 23 anos.

A ferida nunca cicatrizou.

Meu pai não gosta da minha teoria, mas vovô e seu irmão, tio Aloísio, desde os 14 anos, tinham o sonho de se aposentarem. Às vezes, o Cosmos pode ouvir nossos desejos, sem compreender os pormenores.

No hospital, uma das visitantes era a minha avó. Tinha 13 anos e odiava aquele programa macabro. Mas depois, sei lá, Destino, amou aquele nadador aleijado e quis se casar com ele.

As ondas fortíssimas do mar de Olinda não eram os únicos perigos. Minha avó, pisando distraída, encontrou-se com um prego contaminado pelo tétano. E o destino conduziria aquela entidade marinha e sua cria, Fernandinho, com 11 meses, à orfandade.

Nenhum deles iria se curar dessa chaga.

Meu avô, todos os dias, cumpria o ritual sagrado de ir ao encontro do mar. Suicida, em lentas braçadas. Por horas inesgotáveis. Ninguém o esperava. Encontrava, por vezes, no caminho, botos. Sobre o que falavam, eu não sei.

Meu avô jamais me confessou suas travessias. Durante os anos que morou conosco, ele rememorou infinitas histórias, mas o mar não estava entre elas. Seriam secretas? Iria nadar em jejum?

Quantas anedotas devem existir, entre um navegante e um cetáceo?

Apesar de o pélago ser o único capaz de pôr fim à sua ferida, meu avô desejava permanecer vulnerável. Era a sua maneira de não ter de voltar a trabalhar. Como eu seria capaz de o culpar?

Ele, que havia sido campeão de natação, teve de mudar o périplo, quando o bonde o escolheu como fado. Ou será ele que escolheu o bonde? O mar, por sua vez, sempre o elegeu. Segundo os relatos mais tranquilos, ele desaparecia no horizonte, em braçadas sutis. Nadadas milimétricas. As horas ganhavam nomes. E o meu avô, o Seu Carlinhos, difundia-se, ora em passos ao redor, ora em mansuetude serena. Sublime.

Será que conversava com a Nave Mãe? 

Vovô sumia durante a imensidão na água. E sempre voltava. Com o pé machucado, atropelado, que nunca cicatrizou. Entidade marinha. Hoje suspeito que tenha sido um espião de outra galáxia. Os humanos são muito estúpidos.

Em outra ocasião, dando pistas de sua verdadeira identidade, meu avô, quando soube dos avistamentos insistentes de OVNIS da região, reuniu os trabalhadores do sítio e avisou:

– Não importa a hora que apareçam as luzes, me chamem! Eu quero voltar para casa!

Mas eu comecei essa crônica com uma outra intenção, que não é sobrenatural, embora ser pernambucana pareça ser digno de outras esferas.

Como paulista, desde pequenina, sempre senti o maior dos preconceitos em relação aos nordestinos. Ouvi as atrocidades mais absurdas. Físicas, intelectuais, econômicas.

Meses atrás, vi o cinema ganhando Cannes, com frevo, com o Wagner Moura, com o sotaque mais lindo do mundo.

E passei a semana ensaiando para dizer que amo muito ser descendente desse povo. Dessa cultura. Desse Brasil. Filha do meu pai. Prima dos meus primos. Neta do meu avô. O homem, ou não, que saía para nadar nessas águas de Olinda, em braçadas lentas, que conversava com os peixes, por éons, parecendo que jamais voltaria. O meu avô que foi dilacerado pelo tétano e pelo bonde. Neste cenário alucinante que é Olinda.

Também magistralmente descrito pelas suntuosas letras da Clarice – lambendo o braço, pleno de sal, saciada pelo gosto de mar. Na antemanhã.

Em jejum.

Como todos os sagrados acontecem.

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um país sem sonhos

Quando estive no Inferno, a vida era muito melhor do que hoje. Eu ainda tinha esperanças de que o mundo iria ser melhor. Ao viver no Inferno, tecem-se sonhos inexpugnáveis, cantados em meditação, fronteiras da alma.

Lá, conheci amigos inigualáveis, vindos de todas as partes do mundo: Somália, Iraque, Rússia, Marrocos, Angola. Uma menina marroquina, chamada Safa, de três anos, aumentava a minha capacidade de brincar, a cada instante. Hoje, supostamente longe do Inferno, penso nela, todos os dias.

Havia, também, dois meninos ucranianos, cuja mãe, racista, tinha medo de que eu brincasse com eles. Mas a gente burlava as regras, e fugia dela, desbravando o terreno, como Velociraptor, Pterodáctilo e Tricerátops.

Olho o Tejo, nostálgica, a bruxulear. Lisboa, cemitério da Poesia. Com saudades da época em que sai do Inferno, cheia de sonhos, códigos galácticos e vontade de ajudar a Humanidade. Sete anos se passaram. É inacreditável que o governo tenha piorado, as condições imigratórias possam ter ficado mais desumanas e há ainda mais psicopatas regendo o planeta.

 Graças à Deusa, existem as sincronicidades para superar os desejos homicidas e suicidas. E hoje, fui levada às memórias de Jung:

“Mas, como toda personalidade criadora, não era livre, mas tomada e impelida pelo demônio interior.

Vergonhosamente

Uma força arrebata-nos o coração

Pois todos os deuses exigem oferendas,

E quando nos esquecemos de algum,

Nada de bom acontecerá,

Disse Hoelderlin.”  

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Disponíveis venceremos

Inspirada por Leminski, para ser um poema coletivo…

Venceremos os abomináveis cursos rápidos que duram menos que as terapias. E as promessas de leituras transversais. Disponíveis venceremos os telhados, as injeções de metanfetamina e as agências fingidas, que nunca vão te dar castings. Juntos vamos acabar com os trabalhos escravos na Tailândia, infernizando o cônsul no Natal.

Eu prometo que não destruiremos o réveillon porque alguém vai chamar um uber para levar o inconveniente para casa, antes que ele esteja afundado, nas esquinas da Graça. Disponíveis, venceremos.

Venceremos o ímpeto de esmagar a cabeça do vizinho e também acolheremos a avidez de novidade de nossos amigos, maravilhados pelos sonhos patéticos de riqueza. Sabemos que nem tudo o que o reluz é ouro. Disponíveis venceremos, apesar das treze tempestades que inundam uma Lisboa distópica de gringos maravilhados por tudo, menos pela beleza de suas palavras em português.

Disponíveis venceremos, com fados vadios, vinhos finos, poemas escritos na porta das igrejas e miradouros que servem de palcos suntuosos para noites intermináveis. Disponíveis venceremos a pobreza intelectual de nosso tempo, em que supostos escritores romantizam os apagões para permanecerem mais tempo com os seus amados, ou por se encontrarem com estranhos nas ruas.

Disponíveis venceremos os imbecis que se julgam guerreiros da luz e, em um átimo de segundo, estão fazendo propaganda política de neonazistas, ao lado de frequências cristalinas e posições iogues.

Disponíveis venceremos, com cachaça, sombra e erro. Repletos de amanheceres com culpa. Ainda bem que existe café e água das pedras. E banhos de mar. E amor de amigos, que também são falhos e errantes nessa jornada. Amigos disponíveis como nós.

Disponíveis venceremos, com saudades do Brasil, que também é uma merda, mas que tem os nossos úteros de mãe, a Bahia, e a Bahia pode ter a estreia de tanta cousa ruim, como o ego de pessoas infames. E, através de pessoas insuportáveis, chegamos em lugares inimagináveis.

Disponíveis venceremos, com as nuvens engarrafadas, Bachelard e recreio. Disponíveis para procurar a sala de arteterapia, através de apenas uma única mensagem.

Disponíveis venceremos as esquerdas fascistas, as direitas analfabetas, as burrices de berço, as exposições não autorizadas, as escritoras neomarginais filhas de diplomatas, as topzeras do Jardim Botânico, a escrita autoficcional, a nostalgia do prédio velho.

Disponíveis venceremos todas as renúncias, os vícios mal curados, os débitos e as falsas generosidades. Disponíveis venceremos nossas vulneráveis ilusões. E os violões que não aprendemos, por termos provocado o impeachment da professora de música, na terceira série.

Disponíveis venceremos o rivotril, a cocaína, o antidepressivo e a ideação homicida. Se tudo der certo, nunca mais precisaremos trabalhar. Disponíveis venceremos.

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Plano de fuga

Às vésperas do 25 de Abril, veio o choque. O governo ameaçava adiar as comemorações, com as esfarrapadas desculpas de respeitar a morte do Papa. No ano anterior, ano dos cinquenta anos da Revolução dos Cravos, impediram o povo de celebrar, no Largo do Carmo, o símbolo máximo, onde se escondia o último dos ditadores, Marcelo Caetano.

Desde que comecei a me aprofundar na ditadura portuguesa, tenho algumas teorias. Uma delas é que Fernando Pessoa foi morto por Salazar, acometido por uma tristeza incurável, pela absoluta burrice de seu carrasco.

Neste ano, os neonazistas tinham o foco em irritar os muçulmanos, numa imitação barata da França da década de 1980. Queriam assar um porco, em plena praça do Martim Moniz, porque sabem que eles não comem porcos, assim como os judeus ortodoxos. Na França de quarenta anos atrás, também fizeram isso, quando colocavam pequenos pedaços de porco nas sopas para os miseráveis, nessa desumana humilhação com os imigrantes.

Eu estava, com os meus amigos, conduzindo a tertúlia poética Doidos Diversos na sagrada Cooperativa Mula, no Barreiro, dia 23, quando soube da patética tentativa nazi. Os companheiros me contaram da estratégia da extrema-direita. Prontos para reagir.

Fui para casa pensando na Rosinha, a porca que seria assada. Perguntei para o Ulysses, meu gato, se ele se importaria de ter uma irmãzinha, por uns tempos, em casa. Ele disse que tudo bem, desde que ela se comportasse e não comesse o patê dele.

O plano era simples: desceríamos a avenida Liberdade, chegaríamos no meio da confusão, passaríamos despercebidas pelos machos, que estariam à porrada, salvaríamos a Rosinha e pronto. Era só pedir um uber pet, deixá-la no quintal e voltar para a festa.

Entanto, as cousas raramente acontecem como eu gostaria. Gastamos muito mais tempo na Liberdade do que estava previsto. É esperar um amigo que não chega, é ir à casa de banho lotada. A caravana de Guaianases nunca tem fim. E o 25 de Abril é uma mistura de Carnaval com velório. Uma festa muito peculiar. A luta pelos direitos conquistados, sempre questionados, com uma espécie de micareta enrustida. Um estágio no Brasil não faria mal a nenhum português, em termos festivos.

E eu pensando na pobre da Rosinha, seus pés sendo derretidos… Uma bochecha ficando esturricada. Coitada da Rosinha, pensava, desolada!

E vinham as notícias de que os fachos estavam sendo detidos pela polícia. Parece que não conseguiram executar o plano, afinal.

Quando chegamos ao Martim Moniz, não havia vivalma. Nem os bravos guerreiros, combatentes de fascistas, nem as aberrações, plagiadores de antigos nazistas franceses. Paramos para almoçar, na simpática tasca da senhora Pumba Madalena.

Imensos camburões estavam ao nosso redor. Minhas amigas se animaram com os policiais, todos giros. E eles também gostaram delas. Fui questionar se a Rosinha foi salva. E eles me garantiram que ela estava bem. Graças à Deusa!

Contudo, houve mais um chamado. Algum anormal nazista estaria incomodando, em outro canto da cidade. Mas, como o mundo invertido não perdoa, os policiais queriam mostrar o quanto acharam minhas amigas bonitas… E saíram mostrando suas algemas, dizendo que mais tarde estariam de folga.

Rosinha, se você estiver lendo essa crónica, saiba que aqui em casa tem um quintal enorme e que eu pensarei sempre em ti!

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Próxima internação

Para Cesar Meneghetti

O visionário pensador israelense, Itzhak Benton, alertou a humanidade: sabe onde estão os marginais da supraconsciência humana? Em hospitais psiquiátricos. O destino de quase todos os gênios não é ocupar cadeiras em Harvard, ou possuir bilhões de dólares. A genialidade é travessia, inúmeras vezes, da loucura.

Ao alargar o tamanho da realidade, o louco percebe as nuances infinitesimais da Universa. Os milagres que vem são uma ameaça à normalidade. E, por isso, postos em clausura.

Doutora Nise da Silveira, inspirada pelas ideias de Jung, foi capaz de transformar as sujíssimas alas do hospital em ateliers de pintura. Seus primeiros artistas eram esquizofrênicos. Uma mulher esplêndida, capaz de humanizar seus colegas, ávidos por eletrochoques. Fundou, em 1952, o Museu do Inconsciente.

Franco Basaglia, psiquiatra italiano e antimanicomialista, criou a revolução em Trieste. Derrubou as paredes dos hospícios. Abriu as amarras do frágil inconsciente coletivo. Os loucos dão mais medo aos humanos que os presidiários. Por quê? Porque o crime não necessariamente nos habita. A loucura nos é condição.

Nichan Dichtchekenian, brilhante professor de Fenomenologia, ensinou-me logo no primeiro ano: a loucura não se eleva pela qualidade do vivido, mas pela quantidade do viver de seu portador. Todos nós carregamos os abismos multipolares, depressivos, esquizoides. O louco, ora, o louco repete a vivência até abdicar da existência mundana.

A lei de 13 de maio de 1978, na Itália, que aniquilou os cárceres da alma, deixou profundas marcas em seus internos. Apesar de não terem existido, naqueles anos psiquiátricos, já também não sabiam como recomeçar, em liberdade.

A quem interessa, até hoje, a cristalização de pessoas em instituições desumanas? Ao mercado, que os recolhe, como lixo. À indústria farmacêutica, que congela as angústias em gotas de rivotril. Ao trabalhador mediano, em sua roda de hamster, apavorado pelo fantasma do enlouquecimento.

Conheço a loucura de dentro da minha família, como parte fundamental de nossa criatividade. Mas também já a vi em camisa de força, quando a frequência superou a poesia, sempre dual. A loucura me é uma companhia inefável, enquanto espanta os instantes de plenitude.

Possuo cada vez menos tolerância ao normal, a aceitar as regras impostas por psicopatas, a prisioneiros de seus egos esvaziados. Outro dia, ao conversar com a minha mãe, implorei que ela me fizesse uma promessa: próxima encarnação, por favor, vamos habitar em Júpiter. E ela, muito doida, entendeu: na próxima internação, vamos a Júpiter.

E talvez ela tenha razão: internados estamos, nesse planeta rodeado por muros intransponíveis da inconsciência mesquinha. Sendo lobotomizados pelas redes sociais. Agarrados aos ansiolíticos de relações vazias. Encarcerados pela ilusão de sermos únicos.

Semanas atrás descobri outro grande artista que não possui lugar de fala na loucura, digamos assim. Não tem familiares malucos. Nunca foi envenenado por um aldol na bunda. Jamais presenciou o horror da ambulância que chega, para levar o amado à força.

Entanto, apesar de seu total desconhecimento íntimo, este artista decidiu ouvir a poesia dos doentes. A filmar as anedotas de crianças em formas adultas. A enaltecer que o eu também é outro. E, por causa dele, coloquei a loucura, uma vez mais, na sala de jantar. Porque a arte é essa casa que resiste às tempestades terrenas. E quiçá, qualquer dia, ela possa me levar para ser internada também. Em Júpiter.

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Carta à amiga que regressa

Lisboa, 31 de Janeiro de 2025

Amada amiga, minha…

Escrevo-te, hoje, para iniciar nossa promessa de escrita. Juntas, alheias aos anticristos e satanazes. Encapsuladas por uma redoma cósmica de poetas e músicos e animais delirantes. Sob o manto inexorável de Mnemosyne. Filhas que somos, literalmente, dos célebres servos da Deusa.

Primeiro, gostava que soubesses como é bom ter a ti, de novo, no meu coração. Tua luz me traz tanta força, tanto entusiasmo. Eu me sinto em comunhão com as divindades, quando oiço a tua voz. Desesperada por não ter cumprido teus prazos, invisíveis. Louca por me sentir farsa:

“(…)Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.”

Álvaro de Campos, 15-1-1928

E vou escrever esta história para provar que sou sublime. Essa lição das águas. És a única que me perceberá, em cada vão instante. E aquela a quem foi destinada as minhas palavras.

Na madrugada do dia 30 de Novembro de 2023 eu assisti a um filme, meio cafona, meio bruxaria pornô, anos 70. Contava a história de Baba Yaga, a feiticeira poderosa que carrega a anciã e a prostituta – este arquétipo paradoxal de quase toda divindade feminina.

Logo depois, adormeci. Em poucos minutos estava em uma paralisia do sono – algo comum, vida afora. Mas dessa vez foi diferente. Fui liberta do congelamento corpóreo. Havia, em minha casa, um homem, velho e cego do olho direito, com uma maquiagem pálida e preta. Uma mulher a seu lado. Jovem e sedutora. Eram capazes de me ouvir pensar.

O homem, ao me ver levantar na cama, disse-me:

– Mariana, parabéns! Amanhã começa sua iniciação. Neófita que és. Precisamos, todavia, de uma garrafa de vinho verde de Verona.

Eu fiquei um pouco tonta. Não existe vinho verde de Verona. Vinho Verde pertence à uma região portuguesa. Logo, a confluência italiana seria impossível. E aí, a auxiliar daquele palhaço estranho cochichou, ao pé do seu ouvido. Ele riu-se de mim, e continuou:

– Fiques tranquila, vais encontrar o vinho que te ordeno. És intuitiva, eu não preciso desenhar contigo. Descobrirás esse casamento entre Portugal e Itália. E beberás o vinho verde de Verona, no teu ritual de iniciação.

Eu continuei a pensar… e a maldita auxiliar do bruxo ouvia meus pensamentos. Todos. Apelei para as técnicas meditativas, para fugir dessa cobardia. Não quero que ninguém oiça o meu pensar, nem em processo iniciático.

Os dois permaneceram, sentados, à minha frente, por mais alguns minutos. E decidiram ir embora. De repente, senti minha mãe amparar minhas costas. E que alívio foi! Eu não estava sozinha e desnuda nos pensamentos. Tinha minha leoa atrás de mim.

O velho clown e sua aprendiz se levantaram, caminharam até à porta. Minha mãe, então, disse:

– Até breve, Fernando!

E eu compreendi. Meu ritual era composto pelo Fernando Pessoa, sua discípula, a Madame Blavastky, vinho verde de Verona, Baba Yaga e a minha mãe. Haja Jung para interpretar a anunciação.

No dia seguinte, aniversário de morte do Pessoa, choviam as lágrimas da Rainha Serpente, ao perceber que Ulysses fugira de seu amor. Nunca havia visto Lisboa daquela maneira. Raios e trovões dignos da Amazónia. Águas de março exportadas para a Europa. Sai ao cabeleireiro.

Demorei duas horas. Depois de cortar o cabelo, passei no mercado, para comprar vinho verde mesmo. Ainda não existe o vinho verde de Verona. Embora eu tenha descoberto que foi feito um pacto entre as duas regiões. Selado como um casamento divino.

Quando cheguei à casa, as águas invadiam a porta do prédio. Minha habitação completamente alagada. O quintal tinha se transformado numa piscina de águas turvas, com vestes de cachoeira. Pensei no Pessoa e na Madame Blavastky, na minha iniciação. Chorei.

Porque nascer tem de ser assim?

Desse fatídico, desastroso evento (penso que o desastre é a desconjuntura das estrelas), meu quintal alagou mais quatro vezes. Trouxe a mim o trauma das águas, amada. E também a capacidade de ler as nuvens, decifrar os trovões, alinhar-me às tempestades.

Nesta última quarta-feira eu retirei da minha jacuzzi improvisada uns quarenta baldes de sofrimento, cólera e fado. Exausta, reclamei com um grande sábio, que me disse:

– O Pessoa decidiu te iniciar nessas águas, no controle dos sentimentos. E só tu podes desenhar a evasão das marés.

Precisei de muitas entidades ao meu lado para abrandar essas chuvas de Janeiro. Tive a presença inenarrável da minha mãe. Ela dizia: “filha, pensa neste pequeno ralo como um buraco negro que engole galáxias. E acredita que a chuva pode cessar, pelo poder da oração”.

Amada, o que eu te posso dizer é: acredite nos milagres! Porque o meu ralo secou uma piscina, impossível de escoar. E a meteorologia, de repente, mudou o caminho das águas.

Eu permaneço, insólita, nesta casa que tanto gostastes. Conheço mundos em que o absurdo ultrapassa a realidade. Quero vencer o medo de chuva, como o Raul. Não a desejo em excesso, nem em escassez. Quero a água que encontre o Destino. As mágoas – águas paradas – não nos fazem navegar. E como diria o Pessoa: “Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer.”

Saudade, este fardo de navegar.

Amo-te

Mari.

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Capítulo primeiro: o encontro com Manuela Nogueira, sobrinha de Fernando Pessoa

O amigo me alertou sobre a belíssima matéria, escrita quase como um poema. Logo nas linhas inaugurais, o mais improvável: havia a morada da Manuela, antiga casa pessoana. A existência desse endereço, contudo, não foi capaz de me seduzir, em um primeiro momento. Entanto, meus amigos me conhecem o suficiente para compreender o nível da minha insanidade. E este, em particular, teve o bom senso de dizer:

– És maluca o suficiente para bater na casa dela!

Essa ideia ficou fervilhando durante quase um mês. Convidei Mauricio e Pedro, netos de Drummond, para irem comigo. Mas eles não sabiam que eu nunca a havia visto:

– Poxa, Mariana, eu imaginei que você já a tivesse encontrado! – disse Mauricio, sem muitos alardes… Mauricio é um ser que compreende toda loucura como poesia.

– Quem disse que não a conheço? Apenas não a reencontrei, nessa existência. Ainda.

Esse diálogo deve ter ocorrido entre o querido mês de agosto. Mês em que todos os portugueses revisitam suas casas de veraneio, no Algarve. Apenas os mais desavisados permanecem na Lisboa, trôpega e abandonada.

Ensaiei minha ida ao Estoril por vários dias. E planos. E inventei tantos diálogos possíveis com a Mimi, a Manu, a Manuela. Graças aos Deuses, todos os meus roteiros foram superados pela realidade.

Dia 7 de setembro de 2022 o Brasil vivia a personificação do absurdo. O absoluto pavor estético, ético, moral. Arquetípico. O calor, em casa, parecia vir da Bahia. A minha autocomiseração, ao assistir aos jornais, estava atingindo todas as receitas psiquiátricas que eu não possuo, longe da minha terra.

Depois do banho, sempre repleto de epifanias, veio a decisão: é hoje! Vou vestir esse florido e escolher um verde amarelo que combine com Caeiro. Girassóis.

Peguei meu carro, enaltecendo a minha própria lucidez: quem seria capaz de bater na porta da Manuela, que não fosse eu? Agradeci à dica do Lulu. Como é importante ter amigos que conhecem a nossa perspicácia!

Como a memória não acessa a banda sonora, vou inventar que foi Salvador Sobral. Porque ele é outro pessoano, porque também acredito que já o conheci, em outras encarnações:

“… Sei por onde vou
É o melhor caminho
Não deixo nada ao acaso
Por favor, anda trocar-me o passo

Tenho uma rotina
Pra todos os dias
Há de durar muitos anos
Por favor, anda estragar-me os planos…”

Quando o Waze alertou que passávamos pela rua Fernando Pessoa, no Estoril, todo o calor se esvaneceu. Era chegada a hora. O que a Manuela pensaria de uma pessoa como eu? Será que chamaria a polícia? Estaria dormindo? Quão alucinada sou, para estacionar na frente da sua casa? Não é possível! Ela está na porta?! O que eu faço agora? Sou a mesma covarde que não assumiu o crime cometido contra a professora de português da oitava série e… fujo? Fico e sou internada num hospício luso?

Sai do carro. Alguns funcionários mexiam no jardim. O portão semiaberto, a Manuela ali na minha frente. Eu e os girassóis, a única expressão que correspondia à nação verde-amarela. Toquei a campainha.

– Olá, menina, que giros esses girassóis. Para quem são?

– São para si, Manuela.

– Ah! E de quem são?

– São meus!

– Entre… entre, minha querida.

“O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar p’ra ela,

Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há-de dizer.

Fala: parece que mente…

Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

P’ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar…”

                              Fernando Pessoa, inéditos.

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Dona Eu

“Mas sei de uma coisa: meu caminho não sou eu, é outro, é os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro, estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada.” (LISPECTOR, 1999a, p. 119)

Nasci com olhos azuis, marinhos. Disse a minha mãe. Meu pai nunca a contradisse, mas também nunca disse que foi assim. Como psicóloga, tenho a obrigação de rever as histórias contadas por eles. Não pela redenção, freudiana, ou pela extinção de comportamentos, anormais. São eles, todavia, nossos primeiros outros. Existindo ou não, a criança foi feita dessa matéria cósmica, que abarca esses DNAs, as ancestralidades.

Em minha descoberta pelo Outro, encontrei muitos outros dos quais não quero pertencer. E são aqueles que mais me incomodam. Por que sempre me aparecem essas figuras ególatras, incapazes de perceber o poder da coletividade? Onde está o meu eu, pequenino, que clama pela atenção deste outro, em letras minúsculas? O outro que não me percebe como Outro. Maldito outro, ínfimo.

– Eu não quero a sua baixeza.

Ganhei essas lentes, azuis, sem as pedir. Uma intrusa as me deu. Com o meu grau de miopia. Disse-me, quando fui comprar, as minhas claras lentes humanas de defeito de fábrica:

– Tenho cá umas lentes azuis, que estão a ser extintas. Queres para ti? Vais viver a personagem que carrega tua alma, mas não, ainda, imprime teu nome. E podes mudar o teu nome. A alma, nunca. É meu presente de Ano Novo.

Ao colocar as lentes, achei-me igual a mim. Não me mudei em nada. Que Outro é capaz de me mudar, se nem meus olhos o são? Ah, sim, os outros minúsculos, com seus egos imensos. Os Outros, imensos, com seus egos transparentes.

Tinha a certeza de que a cor dos olhos iria me traçar novas aventuras, personagens históricos, vinhos com gosto de mar. Eu sei que, às vezes, o vinho traz mais tormenta à esta nau. Quando vais ao mar, esperas pela mansuetude?

Para os outros, o inferno é a Dona Eu.

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Robin dos bosques

São três horas da manhã. A chuva, finalmente, parou. Eu sei que a deveria desejar, incessante, robusta e dolorosa. Em granizos. Nenhum ser humano, em posse de sua humanidade, deseja a escassez – nem de águas, nem de quaisquer outras abundâncias. E vivemos, semana passada, nossa triste face apocalíptica do arder.

Meu tabaco acabou, assim como a bateria do meu telefone. Passei algumas horas à procura de um novo. Baterias, via de regra, não costumam ressuscitar tantas vezes. E nós somos escravos desses aparelhos. E eu sou ainda mais escrava do porvir sem tabaco. E das insônias infinitas.

Decidi limpar minhas sujeiras: a areia do Ulysses, as garrafas de vidro, o lixo que não se pode colocar em caixas. Levei as garrafas para as suas irmãs, naquele gesto semelhante ao jogo de futebol. A gente arremessa toda a ira do mundo na reciclagem que se quebra, tilintando, fervorosa, nos ouvidos.

Atravessei a avenida, deparando-me com duas viaturas. Quando a gente não tem medo da polícia, é capaz de desfilar na passarela. Segui, em sincronia com os faróis abertos, até o posto de gasolina, esse luxo vinte e quatro horas. Mas cá, desde a pandemia, ele é limitado aos cigarros e salgadinhos, águas e refrigerantes. A droga líquida mais pesada, depois da meia-noite, é o café.

Já sabia que iria me encontrar com o vizinho, sempre atento à profunda madrugada. O Bruno. Ele mora aqui por perto, em algum papelão de cinquenta polegadas, entre as margens do Jardim da Estrela e a riqueza esnobe da Lapa. Talvez em Campo de Ourique.

Bruno deve ter uns vinte e sete anos, é loiro de cabelos compridos. Veste-se com trajes de Robin Hood. Um chapéu com pena e roupas verdes. Sempre muito bem alinhado, apesar da imundície que teima em pintar seus dedos.

Hoje, imaginei ter visto um cachorro ao seu lado. Era apenas seu chapéu de chuva, meio dálmata. Quando estou perto de cruzar a encruzilhada, ele sempre se levanta, como os lordes faziam às damas, em séculos esquecidos. E nunca mendiga aquilo que quer. Ele me oferece a oportunidade de o perguntar. E me sinto menos esdrúxula com o seu gesto, nobre.

Nem sempre tenho moedas. E hoje, prevendo o nosso encontro, fui procurar todas elas. Não chegavam a um euro. Eu, patética, tenho vergonha de dar a um morador de rua menos do que a etiqueta mendicante estabelece como mínimo.

Perguntei-lhe se poderia oferecer um sanduíche, umas batatas fritas, meia de leite ou coca-cola. E ele me pediu as pouquíssimas moedas douradinhas que estavam na minha carteira, sem julgar o despreparo de uma viciada em tabaco que só utiliza o cartão.

– Aceito uma água, menina.

– Com ou sem gás?

Ele sorriu, como se a minha pergunta fosse algo da realeza.

– Com gás e sabor de frutas vermelhas, se faz favor.

Comprei-lhe a água, o maço de cigarros. Ele se sentou, ao pé do guarda-chuva com cara de dálmata.

Desci as escadas, escorregando nas folhas secas. Agradeci à chegada do outono em Lisboa. Com tanta pena de mim mesma. Eu, aquela que rouba dos pobres para alimentar minha literatura.

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Setênio Português

Imensa madrugada última

aqui nos despedimos

dessa casa sem ninguém.

Eu,

que te conheço

há tão pouco tempo,

casa dos meus pais.

Branca e nova

desprovida de retratos.

Os quadros ainda sonham

Em desvirginar as paredes.

Já sinto saudades tuas

dessas horas instantâneas,

entre o café e o banho,

o cinzeiro e a janela,

os lixos orgânicos.

Teimo na brincadeira de menina:

se eu puder atravessar

essa casa nos escuros,

essa casa já é minha.

Durante este mês

atravessei essa casa

no escuro.

Às vezes,

pé ante pé,

voltando da festa,

cheia de culpa.

Em outras cegueiras,

caminhei por estes cômodos

reconhecimento militar.

Nenhuma luz é bem-vinda

De uma casa da qual não faço parte.

Quebrarei, enfim, as regras,

acenderei um cigarro,

E o sol, em breve,

tingirá o sofá,

porque abri as cortinas.

Perverter as ordens

me traz

a indizível alegria

de quem foi desenhada.

Aceito ter fingido.

Ser subjugada,

Condição de fado.

Não aceito perpetuar

Destinos.

A rebeldia não é fruto

de um setênio português.

A rebeldia sou eu.

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[Carta a Mário Beirão – 1 de Fev. 1913]

Meu querido Mário Beirão:

Deu-me um grande prazer a sua carta de 25, que há dias recebi. Tinha muita pena, é certo, que v. não me tivesse escrito ainda, mas, como eu também lhe não tinha escrito, não me cabia o direito objectivo de ter essa pena. O pior para mim é que eu, por certo, sinto mais a falta de correspondência que v. Estou, quanto a companhia espiritual e imediata, quase só, se não só em absoluto… Não sou das pessoas menos acompanháveis por si próprias, mas ainda assim — e de vez em quando aborreço-me de não andar senão comigo.

Por isto a sua carta, ainda que breve, me causou uma grande alegria.

Estou actualmente atravessando uma daquelas crises a que, quando se dão na agricultura, se costuma chamar «crises de abundância».

Tenho a alma num estado de rapidez ideativa tão intenso que preciso fazer da minha atenção um caderno de apontamentos, e, ainda assim, tantas são as folhas que tenho a encher, que algumas se perdem, por elas serem tantas, e outras se não podem ler depois, por com mais que muita pressa escritas. As ideias que perco causam-me uma tortura imensa, sobrevivem-se nessa tortura, escuramente outras. V. dificilmente imaginará que Rua do Arsenal, em matéria de movimento tem sido a minha própria cabeça. Versos ingleses, portugueses, raciocínios, temas, projectos, fragmentos de coisas que não sei como começam ou acabam, relâmpagos de críticas, murmúrios de metafísicas… Toda uma literatura, meu caro Mário, que vai da bruma — para a bruma — pela bruma…

Destaco de coisas psíquicas de que tenho sido o lugar, o seguinte fenómeno que julgo curioso. V. sabe, creio, que de várias fobias que tive guardo unicamente a assaz infantil mas terrivelmente torturadora fobia das trovoadas. O outro dia o céu ameaçava chuva e eu ia a caminho de casa e por tarde não havia carros. Afinal não houve trovoada, mas esteve iminente e começou a chover — aqueles pingos graves, quentes e espaçados — ia eu ainda a meio do caminho entre a Baixa e minha casa. Atirei-me para casa com o andar mais próximo do correr que pude achar, com a tortura mental que v. calcula, perturbadíssimo, confrangido eu todo. E neste estado de espírito encontro-me a compor um soneto — acabei-o uns passos antes de chegar ao portão de minha casa —, a compor um soneto de uma tristeza suave, calma, que parece escrito por um crepúsculo de céu limpo. E o soneto é não só calmo, mas também mais ligado e conexo que algumas coisas que tenho escrito. O fenómeno curioso do desdobramento é coisa que habitualmente tenho, mas nunca o tinha sentido neste grau de intensidade. Como prova do género calmo do soneto, aqui lho transcrevo:

                                                          ABDICAÇÃO

Toma-me, ó Noite Eterna, nos teus braços

E chama-me teu filho… Eu sou um Rei

Que voluntariamente abandonei

O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,

Em mãos viris e calmas entreguei,

E meu ceptro e coroa — eu os deixei

Na antecâmara, feitos em pedaços.

Minha cota de malha, tão inútil,

Minhas esporas dum tinir tão fútil —

Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a Realeza, corpo e alma

E regressei à Noite antiga e calma

Como a paisagem ao morrer do dia.

Dê saudades minhas ao Vila-Moura e escreva-me breve e o mais extensamente que puder.

Um grande abraço do seu dedicadíssimo

FERNANDO PESSOA

Rua Passos Manuel, 24, 3.º E.

1-2-1913

Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966.  – 29.

1ª publ. in Diário Popular, 28-11-1957

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Um amor epistolar

Lisboa, 14 de Dezembro de 2023.

Meu querido,

Às vezes, sinto-me a própria reencarnação da quintessência, embriagada pelas epifanias divinais, liberta dos arroubos de galáxia, plena de renúncias. Acabo de tomar banho – são três horas da manhã. Banho é luxo dos navegantes de solidões, nessa porção cronológica.

Gostei imenso de receber as tuas cartas. Tenho aberto, uma por uma, todas as que posso. Elas vêm de inúmeros remetentes, como Carl Gustav Jung, Wislawa Szymborska, Alberto Caeiro, Clarice Lispector.

Lembrei-me, noutro dia, de que sou uma Madame Blavatsky das cartas. Desde os quinze anos, tento atingir a alquimia através delas. Fui capaz de enfeitiçar a avó do meu amor adolescente, ao invés dele mesmo. E jamais saberei o que lhe escrevi, na grafia pueril.

Ah, querido, gostaria de te contar, com detalhes, que presenciei um mendigo fantasiado de chinês, na Praça Paiva Couceiro. E que vi o fantasma de uma amiga, na minha varanda. As quimeras não me perdoam, nestes últimos meses do ano. Vejo as tuas mensagens no açúcar do café, nos letreiros infames das paragens de autocarro, nas placas dos ubers que me carregam, aos pontos finais.

Como sabes, dei-me de presente a viagem à Itália. Fui resgatar minha amizade em Trieste, onde encontrei livrarias belíssimas, e o amor da minha irmã. Escolhi todos os queijos que pude, e fui feliz, ao comê-los, no mínimo terraço de sua casa. Planejei a viagem à Veneza, um pouco receosa. Dantes, jamais havia pisado em um lugar tão sagrado para o meu pai. E não amei Veneza como ele. O cheiro de esgoto se parece tanto comigo. Mas eu não possuo esses canais fingidos de azul, como a cidade perfeita.

Ah, querido, foi em Vicenza que me encontrei.

Conheces?

É uma cidade de bonecas, ou de sonhos de menina. Com palácios e jardins. Um castelo de anões! Bebi café com creme de pistache. E tive o sonho de rodopiar pelo teatro mais antigo do mundo, coberto pelas memórias do paganismo.

Os vinhos de Veneto são diversos dos nossos, querido. Talvez nunca atinjam a mediunidade. E isso é um alívio para mim. A vivência hedonista, ausente de subsolos imundos, ou de raízes cicatrizadas.

Ao retornar à Lisboa, encontrei-me com velhas matriarcas deste reino. Baba Yaga e Nanã, só para teres uma ideia. Fui levada aos confins da minha alma. Abri meus calabouços, entre a loucura e a lucidez, tal como gostas de me ver. Sabes o que existe, no mais escuro de mim? Alguém que se escreveu a si mesma. Acordei, com a caneta em punho, como um bebê, na pia. Entanto, não parti a loiça, não me sangrei – dessa vez.

Renasci.

Houve, também, um dilúvio, dentro da minha casa. Neste mesmíssimo dia. Eu, sabes bem, sou desprovida de vaidade. Nesta tarde, fui ao salão, para cortar os cabelos. Uma chuva alucinante cobria Lisboa. Em duas horas de tormenta, a casa virou piscina. Foram dois dias, até controlar os anseios de Oxum, cá.

A minha iniciação cósmica inconsciente ocorreu no último dia 30 de Novembro. Aniversário de morte, pois, do Fernando Pessoa. E aniversário do meu avô, Carlinhos. Desde então, passo meus dias a estudar o movimento de circumambulação junguiano. A vivência da centelha numinosa, que há, na escuridão absoluta.

Tenho, amado amigo, acedido a fórmulas que conduzem às almas gêmeas. Confesso que, de tanto rezar, talvez tenha conhecido a minha. Todavia, nenhum ser humano que conhece a sua metade deve celebrar. O espelho está longe dos devaneios de finais felizes. A metade é apenas uma maneira da gente se salvar, depois, parafraseando o Cazuza.

Estou fumando muito, querido. E peço ao Niemeyer que me permita chegar ao cerne de mim, sem grandes dores pulmonares. Agarro-me ao meu Desassossego, para vibrar em espirais que me transportem dos abismos.

Faz duas semanas que só saio de casa para comprar tabaco. Não me reconheço, nesse turbilhão de começos. Tenho medo de atropelar a chuva de estrelas cadentes, as Gemínidas, com esses toscos alumbramentos pessoais. Pessoanos.

Cada vez mais, sinto-me menos eu. Mas não te preocupes, não estou enlouquecendo. A morte que me consola é esta: o ego serpentino está pronto para se tornar o dragão alado.

Estou cheia de saudades de ti. Quero a tua companhia, para que possamos abrir todas essas declarações de amor, em harmonia. Porque a harmonia é infinitamente mais sábia que o amor: ela nos traz a exata medida que há, entre o peso e a leveza.

Um pouco cansada de desamarrar meu próprio corpo, finalizo esta carta, meu amor: as promessas são dúvidas, e não dívidas. Podes me ajudar?

Beijinhos grandes,

Mari

P.S: Dedico esta carta ao meu amigo Pedro Drummond.

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Terapia Cósmica Universal

Para Laura e Emília, minhas meninas

Era uma vez um planeta azul, muito bonito e repleto de cores, luzes, animais, florestas, sonhos, mares e crianças. Tudo vivia em perfeita harmonia. As crianças inventavam o que elas queriam, passeavam por todas as culturas, aprendiam a cantar parabéns em diversos idiomas, comiam brigadeiro sem culpa de engordar.

Se estavam com vontade de brincar na neve, iam para o topo da montanha. Deslizavam, tranquilas, com esquis e snowboards pelas colinas. Depois faziam bonecos de neve e atiravam bolinhas umas nas outras.

Outras vezes, iam à praia, mergulhar com os golfinhos, surfar nas ondas gigantes, ouvir o canto das sereias e navegar com os piratas. À noite, faziam uma grande fogueira na praia, tocavam violão à luz da lua e esperavam o dia nascer, em tons de rosa e amarelo. O mar estava sempre na temperatura que elas queriam. Nunca mais quente ou mais frio.

As crianças também brincavam nas florestas, exploravam, juntos aos elefantes e onças os mistérios das árvores. Construíam suas casas, se quisessem passar a noite por lá. Os bichos todos eram amigos. Não existia medo.

Outra brincadeira muito divertida era voar. As crianças não precisavam de asas, porque as suas imaginações eram muito poderosas. Bastava pensar em uma cousa bem boa.

Um dia, um menino teve um sonho muito ruim. Sonhou em ser adulto. E, ao decidir ser adulto, ele fez com que as outras crianças também crescessem. E o mundo que era lindo e harmônico ficou triste, escasso. E quase foi destruído.

As árvores estavam morrendo. As florestas começaram a arder. As baleias atacavam os barcos. Os homens matavam-se uns aos outros. Seus próprios irmãos. A religião roubava dinheiro das pessoas e toda a política era composta de uma maioria de psicopatas. Quase ninguém mais era feliz. E, quando era, estava alienado da realidade.

Foi então que uma menina decidiu ter um sonho. O sonho impossível de salvar o mundo. Mas ela não podia sonhar sozinha, senão não se realizaria. Porque sonho se sonha junto.

E ela descobriu que teve uma infância muito privilegiada, como de uma princesa. Foi quase tudo amor. Com muito mar, cavalo, mousse de chocolate, amigos. Um papai que a levava na livraria. Uma mamãe mais criança que ela. Irmãos, primos, avós. E mar de todos os lados do Brasil. O seu único trauma de infância foi ter compreendido errado o que seria o nascimento de sua irmã.

Os adultos são especialistas em não ditos. Eles acham que, ao esconder as cousas das crianças, estão poupando-as das verdades. Mas as crianças percebem e sentem tudo. A palavra não falada e a palavra errada são os grandes males. Este mal se desdobra em todas as formas de desconexão com o Cosmos.

Se quisermos nos curar, como seres humanos, precisamos curar nossas crianças internas. Precisamos parar de ser escravos do nosso ego. Equilibrar a realidade com a surrealidade. Rir dos nossos erros, porque eles são o caminho da aprendizagem.

A consciência coletiva só irá aumentar se percebermos que a única mentira que existe é mentirmos para nós mesmos. O outro somos nós também. E não há escassez na Universa, como nos ensinam os indígenas. O mundo ficou invertido quando a Europa colonizou a sabedoria do coletivo. Espero que ele desinverta com a liderança de nossos ancestrais da América do Sul, suas curas da floresta, suas medicinas mágicas.

Hoje, dia das crianças e de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, desejo que seja o fim do pecado, o dia do perdão. Que as crianças pilotem o mundo, uma vez mais.

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Laura, minha Deusa afilhada

Tenho medo de dormir cedo, Lalá.

E no escuro

E sapos 

Odeio os sapos e toda a frieza que eles carregam.

Tenho medo de palhaços, Lalá.

da dor escondida nas risadas. 

Tive medo das focas, quando percebi

Que elas não eram golfinhos. 

Gostaria de ser golfinho

E inventar minha língua por ai.

Tenho medo de paralisar, como os lagartos

Ou explodir como os dinossauros.

Um medo, taciturno, Lalá

Eu me apavoro com a ausência das palavras.

Tenho medo da roda gigante, Lalá

De algodão doce e avião.

Tenho um medo, Lalá.

De não sonhar com aquilo que me prometi

ao deitar

Lalá

Há cousas das quais não tenho medo:

O amor

A música

E a solidão 

que nos inaugura, 

quando inventamos uma história

ou a nós mesmas.

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Clarice, a Deusa

Meu tema é o instante? meu tema de vida. Procuro estar a par dele, divido-me milhares de vezes em tantas vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentária que sou e precários os momentos – só me comprometo com vida que nasça com o tempo e com ele cresça: só no tempo há espaço para mim.
Escrevo-te toda inteira e sinto um sabor em ser e o sabor-a-ti é abstrato como o instante. é também com o corpo todo que pinto os meus quadros e na tela fixo o incorpóreo, eu corpo-a-corpo comigo mesma. Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro. Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras – e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão.

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Fado

Hoje faz cinco anos

que regressei

a Portugal,

depois de três longos meses

em uma Babilónia

 destruída

pelos zigotos do nazismo.

Seis de Junho será,

para sempre,

 um portal inigualável

de sublimar as dualidades.

Entanto,

é preciso que o viajante de quimeras

saiba em qual eixo

da espiral serpentina

ele se encontra.

Se estiver na parte inferior da espiral,

o navegante é convidado

a conhecer suas profundezas,

confundir sua casca egóica;

 estilhaçar-se em epifanias.

As vivências da sombra,

infelizmente,

traduzem melhor

o sentido da jornada.

Ser alegre também dói,

Mas dói

como o corte de uma folha de papel,

no dedo indicador,

distraído.

A dor universal

pode ser iniciada

em um concerto do Chico Buarque,

naquele panetone

Palácio de Cristal,

no Porto.

A dor indizimal

acontece quando os sangues evaporam

 as crianças almejadas.

Os troféus de matemática.

A primeira dança

entre os pés do bebé.

Somos muitos, fomos escritos.

Aconteceu, Humanidade, entre nós:

uma tragédia!

Conheço muitos sonhos,

travestidos em cianureto.

Invejei, por vezes,

Sonhos

Desprovidos de intelecto.

Jamais,

Ora eu?

Jamais vislumbrei

Destino analfabeto!

Destino.

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Amizades revolucionárias, fábricas de utopias

Li, noutro dia, um texto genérico, com gosto de autoajuda, sobre as três formas de amizade descritas por Aristóteles. Segundo o artigo, com a audácia de simplificar um pensador dessa magnitude, é possível separar a amizade em três níveis: utilidade, prazer ou caráter.

Tenho certa dificuldade com listas e suas funções. Embarquei, todavia, nos reinos da aletheia, para buscar quais amizades me rodeavam, hoje. E não consigo distinguir o que me é prazer ou o que me é caráter.

A utilidade sempre foi uma inimiga mortal.

Embasbacada pelas reduções, pedi ajuda àquele que considero um dos maiores filósofos da minha vida. Seria uma amizade de caráter? O prazer não está, também, cravado na elevação da alma?

Fábio prontamente me respondeu, em um áudio que ultrapassa quaisquer aulas de Filosofia. Ele começa rindo, declarando seu amor à nossa amizade. Depois – ele que é dono da elegância mais humilde da qual fui testemunha – inicia os ensinamentos.

De acordo com o Fá, o grande problema da autora autoajuda é esquecer um conceito inexorável da ética aristotélica: o modo como nos relacionamos com os outros, com nós mesmos e com o mundo deve, indubitavelmente, buscar a melhoria de caráter. É, por esse viés da existência, que a nossa estadia no planeta deve se pautar.

A melhoria de caráter, segundo ele, está intimamente atrelada à capacidade de nos autogovernarmos, tendo a excelência como utopia. Fábio e Aristóteles quebram, nesses pequenos segundos de áudio, todas as esperas pelas novidades.

Nada precisa ser inaugurado!

A romântica ideia de criação se desfaz, no sotaque insólito do meu filósofo preferido, que oiço pelo whatsapp. Jung vem assobiar no meu ouvido: é óbvio que nada há de novo. E existe, órfãos que somos, a jornada pela excelência.

Quando acabei de o ouvir, veio o suspiro. Eu, feita de bibliotecas e mata atlântica, cachorros e mar, vitrolas e saraus. Quantas vezes, ó Deuses, quantas vezes minhas inquirições foram ditadas por egos inéditos?

Ah, outra poesia me habitaria, ao saber da excelência de Aristóteles!

Nos últimos meses fui capaz de encontrar almas irmãs, palácios de banda desenhada, parceiros improváveis. A meditação comum é perceber: o que de meu tem nessa sala, o quanto aprenderei, nas curvas desse castelo? As pessoas e os lugares me ressoam, como antiquarias de consciência. E, em suas mesquinhezes ou abundâncias, os ensinamentos são sempre óbvios.

Ontem, estive com uma das mulheres que mais admiro no mundo. A gente consegue rir da aristocracia portuguesa, decadente, cafona. Suas calças pula-brejo, os namoros de conveniência e espumantes com morango.

E é bom não nos sentirmos espiritualmente superiores.

Depois dos bullyings telepáticos, abrimos os livros e os cardápios que viram sonhos. Escrevemos como será o futuro para a humanidade. Inebriadas do teatro que ainda não existe. Ao pé do cachorro emprestado. Entre a bruma e a vela. Segundas-feiras assintomáticas. Homens brilhantes sem nenhuma redenção.

A vida, finalmente,

inventada.

Antes de me ir embora de sua casa, aceito o conselho ancestral, do avô da minha amiga. Amiga-prazer. Amada-caráter:

“Faz da tua vida

O sonho.

Do teu sonho

A realidade.”

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Fernando António Torres Portel(l)a

Meu pai nasceu

três dias depois de mim.

Adoro estes paradoxos.

quarenta anos

menos três dias,

ele me veria,

nessa existência,

pela primeira vez.

Já nos vimos

muitas faces,

infâmias,

em mares taciturnos.

O meu pai me ensinou

a temer os escorregadores

e a mentir sobre minhas falhas juvenis.

Entanto,

levou-me à livraria,

onde pude ser rainha de inefáveis.

O meu pai me proporcionou

a minha primeira tartaruga

– foram tantas, nesta vida!

E todos os cachorros que escolhi.

O meu pai tem,

por minha causa,

trauma de cavalos.

E as histórias mais absurdas

verdadeiras.

Memórias de família.

O meu pai me ensinou

que a orfandade

é condição espiritual da grandeza,

embora adoeça todas as infâncias.

O meu pai encontrou aviões na Amazônia

e naus reticentes em atracar.

Meu pai trouxe,

entre militares,

os ossos de Dom Pedro ao Brasil.

Meu pai escreve,

divinal,

através dos anjos

e satãs.

Meu desejo

Para o dia de seus anos,

Meu pai,

É permanecer a resgatar

Os lugares onde viveram

As mulheres que te formam

Às vezes na mudez

Daquilo que eles chamam

Morte

Ou seria ancestralidade?

O meu pai,

Ah, o meu pai,

Seu nome

É também

Eternidade.

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Elegia na Sombra

“Lenta, a raça esmorece, e a alegria

É como uma memória de outrem. Passa

Um vento frio na nossa nostalgia

E a nostalgia touca a desgraça.

Pesa em nós o passado e o futuro.

Dorme em nós o presente. E a sonhar

A alma encontra sempre o mesmo muro,

E encontra o mesmo muro ao despertar.

Quem nos roubou a alma? Que bruxedo

De que magia incógnita e suprema

Nos enche as almas de dolência e medo

Nesta hora inútil, apagada e extrema?

Os heróis resplandecem a distância

Num passado impossível de se ver

Com os olhos da fé ou os da ânsia;

Lembramos névoas, sonhos a esquecer.

Que crime outrora feito, que pecado

Nos impôs esta estéril provação

Que é indistintamente nosso fado

Como o sentimos bem no coração?

Que vitória maligna conseguimos —

Em que guerras, com que armas, com que armada? —

Que assim o seu castigo irreal sentimos

Colado aos ossos desta carne errada?

Terra tão linda com heróis tão grandes,

Bom Sol universal localizado

Pelo melhor calor que aqui expandes,

Calor suave e azul só a nós dado.

Tanta beleza dada e glória ida!

Tanta esperança que, depois da glória,

Só conhecem que é fácil a descida

Das encostas anónimas da história!

Tanto, tanto! Que é feito de quem foi?

Ninguém volta? No mundo subterrâneo

Onde a sombria luz por nula dói,

Pesando sobre onde já esteve o crânio,

Não restitui Plutão [a ver?] o céu

Um herói ou o ânimo que o faz,

Como Eurídice dada à dor de Orfeu;

Ou restituiu e olhámos para trás?

Nada. Nem fé nem lei, nem mar nem porto.

Só a prolixa estagnação das mágoas,

Como nas tardes baças, no mar morto,

A dolorosa solidão das águas.

Povo sem nexo, raça sem suporte,

Que, agitada, indecisa, nem repare

Em que é raça e que aguarda a própria morte

Como a um comboio expresso que aqui pare.

Torvelinho de doidos, descrença

Da própria consciência de se a ter,

Nada há em nós que, firme e crente, vença

Nossa impossibilidade de querer.

Plagiários da sombra e do abandono,

Registramos, quietos e vazios,

Os sonhos que há antes que venha o sono

E o sono inútil que nos deixa frios.

Oh, que há-de ser de nós? Raça que foi

Como que um novo sol ocidental

Que houve por tipo o aventureiro e o herói

E outrora teve nome Portugal…

(Fala mais baixo! Deixa a tarde ser

Ao menos uma extrema quietação

Que por ser fim faça menos doer

Nosso descompassado coração.

Fala mais baixo! Somos sem remédio,

Salvo se do ermo abismo onde Deus dorme

Nos venha despertar do nosso tédio

Qualquer obscuro sentimento informe.

Silêncio quase? Nada dizes! Calas

A esperança vazia em que te acho,

Pátria. Que doença de teu ser se exala?

Tu nem sabes dormir. Fala mais baixo!)

Ó incerta manhã de nevoeiro

Em que o rei morto vivo tornará

Ao povo ignóbil e o fará inteiro —

És qualquer coisa que Deus quer ou dá?

Quando é a tua Hora e o teu Exemplo?

Quando é que vens, do fundo do que é dado,

Cumprir teu rito, reabrir teu Templo

Vendando os olhos lúcidos do Fado?

Quando é que soa, no deserto de alma

Que Portugal é hoje, sem sentir,

Tua voz, como um balouço de palma

Ao pé do oásis de que possa vir?

Quando é que esta tristeza desconforme

Verá, desfeita a tua cerração,

Surgir um vulto, no nevoeiro informe,

Que nos faça sentir o coração?

Quando? Estagnamos. A melancolia

Das horas sucessivas [?] que a alma tem

Enche de tédio a noite e chega o dia

E o tédio aumenta porque o dia vem.

Pátria, quem te feriu e envenenou?

Quem, com suave e maligno fingimento

Teu coração suposto sossegou

Com abundante e inútil alimento?

Quem faz que durmas mais do que dormias?

Que faz que jazas mais que até aqui?

Aperto as tuas mãos: como estão frias!

Mão do meu ser que tu amas, que é de ti?

Vives, sim, vives porque não morreste…

Mas a vida que vives é um sono

Em que indistintamente o teu ser veste

Todos os sambenitos do abandono.

Dorme, ao menos de vez. O Desejado

Talvez não seja mais que um sonho louco

De quem, por muito ter, Pátria, amado,

Acha que todo o amor por ti é pouco.

Dorme, que eu durmo, só de te saber

Presa da inquietação que não tem nome

E nem revolta ou ânsia sabes ter

Nem da esperança sentes sede ou fome.

Dorme, e a teus pés teus filhos, nós que o somos,

Colheremos, inúteis e cansados

O agasalho do amor que ainda pomos

Em ter teus pés gloriosos por amados.

Dorme, mãe Pátria, nula e postergada,

E, se um sonho de esperança te surgir,

Não creias nele, porque tudo é nada,

E nunca vem aquilo que há-de vir.

Dorme, que a tarde é finda e a noite vem.

Dorme que as pálpebras do mundo incerto

Baixam solenes, com a dor que têm,

Sobre o mortiço olhar inda desperto.

Dorme, que tudo cessa, e tu com tudo,

Quererias viver eternamente,

Ficção eterna ante este espaço mudo

Que é um vácuo azul? Dorme, que nada sente

Nem paira mais no ar, que fora almo

Se não fora a nossa alma erma e vazia,

Que o nosso fado, vento frio e calmo

E a tarde de nós mesmos, baça e fria

Como longínquo sopro altivo e humano

Essa tarde monótona e serena

Em que, ao morrer o imperador romano

Disse: Fui tudo, nada vale a pena.”

2-6-1935

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).  – 125.

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Ulysses-Gin-Júpiter

Lisboa, 10 de Maio de 2023, madrugada.

Aprendi, uma semana atrás, que os herméticos cuidam de seus dias.

Chegaste, terça-feira passada. És aquariano do dia sete. Tens a lua em Virgem. Teu ascendente, misterioso, há de justificar esse amor todo que me endereças, sem limites.

É madrugada e dormes, mergulhado na minha bolsa. Passei o dia todo fora, desbravando os sítios que Portugal insiste em guardar. Eu vou mostrar ao mundo, Ulysses, todos os lugares sagrados desta terra. E contigo no meu colo, na carteira, no despertador. Na memória de todas as naus, e náufragos, e naufrágios.

Adoro o nome que escolhi para ti.

Ulysses-Gin-Júpiter, o primeiro de seu nome. Filho de Mariana, que já foi mãe da Bohemia, do Kognac e do Baden. Com menção honrosa para Hermes, sobrinho adotado por ela, quando a irmã o deixou, na casa dos avós.

O cachorro da Clarice se chamava Ulisses. E, juro, nunca a quis imitar. Tenho minhas próprias obrigações para com o teu nome, meu amor.

Vieste de uma linhagem cósmica. És afilhado de David – não aquele da Estrela. Vieste do David que descobriu onde nasceu minha bisavó: este bairro nobre, repleto de estrelas cadentes, tão longe dos céus. E não sei se é a minha predileção pela Grace, ou constatar o óbvio: detesto quem finge a riqueza.

Às vezes, também detesto a riqueza.

Quando vi as tuas fotos, dias antes de te buscar, mandei-as para o meu pai. Homem digno de decifrar os bichos. Ele sentenciou, num primeiro reconhecimento:

– Ele enxerga através da tua alma!

Ulysses, tu nunca vais me ler, mas esperas-me a vociferar os impropérios. Almejo que saibas da tua escolha, entre a primeira foto, até a última.

Desde 2018 tenho visões. Acelero linhas de tempo. Recupero epifanias. Tenho, Ulysses, anunciado futuros, com a precisão inaudita, em conhecimentos astronômicos. Os humanos, entanto, buscam me enclausurar, nos hospícios de outrora. Nos silêncios sepulcrais. Mal sabem eles: uma bruxa se expande nas fogueiras; se retrai em completudes.

Eu agradeço a todos. Jamais me seria, se o mundo me aceitasse.

A rebeldia, para mim, constitui um dos maiores paradoxos mundanos. Espernear – eis a chave de tudo. Se te calas; o vazio é mestre. Entre o escândalo e a mudez, sigo aqui, decifrando templários e colhendo as cerejas.

Ulysses, meu gato amoroso aquariano. Sabes a etimologia de Lisboa? Contei-te que a cidade foi um presente, para ti? Sabes que o navegar, impreciso, é o cerne de tuas colinas?

De quais matérias são feitas tuas colunas, capazes de atravessar os meus confins?

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12 de Junho

Às escritoras todas…

São duzentos e trinta e cinco degraus que separam o miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen, na Graça, do resto de Lisboa. Este foi o lugar escolhido para a nossa foto antológica das escritoras.

Se eu fosse infância, mais uma vez, essa escada jamais esgotaria as forças da manhã dessa magnitude. Feliz, subiria, saltitante, degrau por degrau, intercalando os pés. Uma amarelinha, quase literal, aos céus.

Infelizmente, reconheço-me adulta. Testemunhei, insone, a alvorada daquele domingo. Reencontrei-me com a menina que fui, outrora. Incapaz de dormir, frente a um grande acontecimento.

Recebi este convite com o maior orgulho: postar uma foto das escritoras residentes em Lisboa. O movimento parecia delicado, cauteloso, simples. O tempo, todavia, escasso.

Uma semana separou os desejos soberanos e a dignidade do agora. Tivemos sete dias para realizar este sonho ancestral: conectar mulheres artistas. Deusas de antigamente, e de depois; juntas para celebrar a incompletude. Literária.

Nessa busca, pude vislumbrar algumas faces do rosto, cansado, de Mnemosyne, mãe guardiã das memórias. Fractais límpidos, letras que sangram. A Universa, pois, movia-se, desenfreada, entre tórridas vertigens, vinganças matriarcais e sonhos de crianças.

A data, eleita: quase uma gravura! 12 de junho. Doze de Junho, véspera de Santo António, padroeiro da cidade. Nosso Carnaval português. Lisboa consegue ser ainda mais bela entre os decimais de junho. E, por isso, a tarefa era inóspita. Entre muitos bêbados, clausuras e festas, pós escuridão.

Uma espiral cósmica abrigou as horas de meus dias, neste minúsculo intervalo entre a vigília e o silêncio:

– Convida-as todas, para que a foto se torne símbolo daquilo que, há séculos, prometemos!

Marcamos para as quinze horas.

O coração, supernova radiante, extravasou-se, em lágrimas milenares e resquícios de culpa.

Nenhuma alma está atenta ao cair da tarde.

As greves, os devaneios e a rapidez para divulgar. Inventei as desculpas mais reconfortantes, frente ao nosso suposto fracasso. Lembrei-me que nossas irmãs, divindades, não estavam competindo conosco. As mensagens e fotografias, originárias do Brasil e adjacentes, invadiam-me os pensamentos, embriagados de orgulho e sororidade.

O mundo inteiro, naquele doze de junho, reverenciava nossas tessituras poéticas.

Ficamos ali, inebriadas pelo horizonte, enganando os minutos, à espera de artífices e cantautoras. Redações sobre o multiverso feminino. Contudo, as multidões existiram apenas no meu imaginário. Os autocarros, por vezes, não alcançam seus destinos; o metro está parado.

Dia 12 de junho de 2022, eis o caos, as paralisias dos transportes, mas também um gosto de tertúlia. E esta belíssima missão de reuni-las. No miradouro que homenageia uma de suas maiores poetas. Abracei sua estátua, Sophia. Pedi alento para invocar entidades. E o tempo, cronológico, à revelia de minhas confirmações, fagocitava os segundos. Já passava das quatro horas da tarde. Poucas de nós, ali.

Entanto, naquelas reviravoltas que só acontecem às estrelas, apareceu Violeta, sete anos incompletos. De mãos dadas com sua mamã, também escritora. Ela ainda não sabe escrever, mas dita suas histórias às autoridades competentes.

Violeta me mostrou seu livro desenhado com dizeres sobre a Lua, cartazes de cometas, e sorrisos seculares. Agradeci àquele bálsamo:

– Violeta, eu tenho visto a ti, em todos em os meus sonhos. Revi-me nos teus sonhos também, ao ler seu livro, escrito por memórias lunares.

E ela respondeu, em ares de obviedade:

– Através do meu livro, inventei a cura para o planeta!

– E você me lembrou, Violeta, porque comecei a escrever. Agora que vocês, crianças, chegaram, podemos eternizar o instante, nessa foto.

Em esferas imperfeitas, há ausência de dúvidas. Na clareza de que a palavra tem mais força, quando amada.

(Foto do querido Ozias Filho)

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O bule

A chaleira elétrica

dessa casa

demora séculos

para ferver a água.

Se calhar,

valia mais a pena

acender o fogo,

trazer a panela

ao seu encontro,

tampá-la com carinho.

Paciência

é uma dádiva que invejo,

sem almejar.

Detesto as ebulições tardias.

Enquanto oceanos se formam

deuses se refletem no espelho

e galáxias inauguram aglomerados;

a água da chaleira elétrica

permanece a trabalhar.

Lenta como a onda

que alcança Moreré.

Insólita,

como todo o humor

que coleciono

em terras pessoanas.

Entanto,

apesar dos desesperos mundanos,

toda água atinge os cem graus celsius,

seja em fogo brando,

ou em tomadas.

O ápice de sua certeza

de ser,

 ainda,

líquida.

E eu

rejubilo-me,

a presenciar transformações:

a água corrente que se guia,

em si mesma

até efervescer.

Assim também me sinto

translúcida

em meus deveres de água.

Pálida,

como o chá de maçã com canela.

Lisboa ultrapassa

o maior frio dos séculos,

entre trens, solidões e náufragos.

Tristes são as almas,

à espera dos comboios

que jamais virão.

Estilhaçada,

vejo o eléctrico

passar pela minha janela,

ao pé da Graça.

Os bondes

brinquedos de ontem,

são patéticos,

carregados de estrangeiros

que teimam

em ninar

a história da cidade,

entre fotos infames

e delírios nostálgicos.

A chávena que escolhi,

óbvia,

pode abrigar meio litro.

E o bule,

tão pequenino,

supre

dois goles.

Sua palidez me intimida.

e eu?

sou violenta:

decidi, apenas,

apanhar os hibiscos.

A palidez do chá

resume um clássico europeu:

iogurtes são pálidos,

cá.

estar na Europa,

é pálido.

Quando comprei esse bule,

quis ser pálida também.

Minha alma bebe vinho,

se deixá-la escolher.

Já o hibisco,

vegano,

pode encenar o gosto

de tintas

de outras eras.

Comprei um bule

à espera de me redimir.

Mas não sou pálida.

Em minha face está estampada

o gosto de outrora:

Fervi inúmeras águas

até aqui chegar.

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Entre anjos

Ao Assulus Sentinela, exu galáctico e à Diana Motta, a Deusa.

– Vou lá, encontrar-me com Rimbaud!

Escrevi essa frase, há pouquíssimos instantes, ao me despedir do anjo que teceu o caminho em magia, nessa quarta-feira lemuriosa em Lisboa.

Tenho experimentado tristezas nada solenes e vazios indignos de poesia, nos meses que me cercam. Sem afagos ao ego, minha vida se resume ao trabalho, com requintes de destruição, horas vagas. Os instantes deixaram de ser suntuosos, para abrigar a mediocridade de madrugadas sem amanheceres.

Entanto, eis que surge a dádiva dos viventes: apesar dos murmúrios, estar alerta. Atenta aos ínfimos milagres que compõem a existência, quando todos os suspiros residem na desesperançada mudez cotidiana.

Nessa semana, inaugurada pelos astros, amanhã, Lua Cheia em Gémeos, os motes patéticos do amor foram silenciados. Afinal, se existe Copa do Mundo, reside dentro de mim uma poesia futebolística, primeira, afetiva, capaz de silenciar os arroubos de falta. As entidadess, tenho a certeza, também amam a imprevisibilidade das bolas, dos gols, das nações anestesiadas pela alegria – efêmera.

Qual alegria reproduz o signo de eternidade?

Ela existe?

Vim me encontrar em Rimbaud, nesta noite sem jogos, mas com memórias afetivas das mais espetaculares acerca de minha infância. Porque o futebol, para o Brasil, traduz o meu sonho favorito: o sonho que é ilimitado. Nunca sonhei com pequenezas, como a casa própria ou um verão à beira-mar. Os sonhos, meus e de todos os brasileiros, são conduzidos por intransponíveis habitares.

Em junho de 1990, precisamente no dia de São João, meu pai desembarcava em São Paulo, junto com a seleção, que perdeu, prematura, a Copa na Itália. Minha irmã nasceu, também prematura. E meu pai pode chegar para vê-la. Viver é ululante.

Em 1994, meus sentimentos são ainda mais descompassados. Cai do cavalo literalmente – antes do primeiro jogo da Copa. E, por causa disso, pude assistir à loucura do Maradona; ao amor entre Romário e Bebeto, ao escândalo de perder o Leonardo, violência mais compatível com deuses que com os humanos.

Em 1998, contrária aos traumas de todos os meus conterrâneos, restou-me os beijos recém aprendidos; os amores com trilha sonora; minha mãe tomando licor de ouro na fatídica final contra a França. Minha mãe, sempre à frente de toda a humanidade. E o ouro, mais à frente do que ela, já era ostentado desde os tempos coloniais.

Todas as copas passam pelas nossas mentes, tenho a certeza. A identidade do nosso país está acoplada ao sonho impossível de vencer. É no futebol, e na música, e na literatura, e em todas as artes que ainda sonhamos.

Na última Copa do Mundo, mal lembro quais foram meus passos. Não houve beijos, nem porres. A mente inaugurou outros lugares tenebrosos. E tampouco me recordo com amor da Copa de 2014, apesar da obviedade traumática. Outros são meus fantasmas, àquela altura.

Eu ando tristíssima e desesperançada, há meses. Mas assisto, e insisto, ao primeiro jogo do Brasil, concomitante ao concerto do Lenine, no Casino.

O telão improvisado, no Estoril, fez jus à empolgação com o Brasil que abria os paradoxos do Qatar. E Richarlison pode reavivar a menina dentro de mim. A menina que ganhou uma irmã, caiu do cavalo, apaixonou-se, sedimentou-se e se separou, nestas copas que haviam, por ela, passado.

Como é delicioso ver mulheres árbitras, num país de misóginos. Como é belo torcer pelas colônias, gigantes pela própria natureza. Tantos paradoxos permeiam o futebol e, às vezes, a história.

Estou lendo Rimbaud, nessa noite de Lemúria em Lisboa. Tudo foi alagado. O futebol só volta na sexta. Um anjo passou por mim e me disse:

– A Copa, aos poucos, desvanecerá. Teus sonhos, jamais. Escreve, pequena.

* Foto gentilmente oferecida por Canato, que pintou, em outras estrelas, as asas do nosso rei.

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Cartas visionárias de Rimbaud

“O Poeta faz-se visionário por um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, acaba-se em todos os venenos para guardar somente a quintessência. Inefável tortura na qual necessita de toda fé, de toda força sobre-humana, onde se torna, entre todos, o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito — e o supremo Sábio! — Pois ele chega ao desconhecido! Visto que cultivou sua alma, já rica, mais do que a de qualquer outro! Ele chega ao desconhecido e quando, enlouquecido, acabaria por perder a inteligência de suas visões, ele as vê! Que ele se arrebente no seu sobressalto pelas coisas inauditas e inomináveis: virão outros trabalhadores horríveis; eles começarão pelos horizontes onde o outro se abateu.

(…)

— Retomo: Então, o poeta é verdadeiramente um ladrão de fogo. Ele é carregado de humanidade, dos animais mesmo; ele deverá sentir, apalpar, escutar suas invenções; se o que ele conta do além possui forma, ele dá forma, se é informe, ele dá o informe. Encontrar uma língua; — De resto, toda palavra sendo ideia, o tempo de uma linguagem universal virá! É preciso ser acadêmico — mais morto que um fóssil — para aperfeiçoar um dicionário de qualquer língua que seja. Os fracos colocar-se-iam a pensar sobre a primeira letra do alfabeto e poderiam rapidamente se lançar na loucura! — Essa língua será da alma para a alma, resumindo tudo, perfumes, sons, cores, ao pensamento se agarrando e desfazendo o pensamento. O poeta definiria a quantidade de desconhecido que em seu tempo desperta na alma universal: ele daria mais — que a fórmula de seu pensamento, que a anotação de sua marcha ao Progresso! Enormidade tornando-se norma, absorvida por todos, ele seria verdadeiramente um multiplicador de progresso! Esse futuro será materialista, o senhor verá. — Sempre cheio de Números e de Harmonia, os poemas serão feitos para ficar. — No fundo, isso seria ainda um pouco a Poesia grega. A arte eterna teria suas funções, como os poetas são cidadãos. A Poesia não ritmará mais a ação; ela estará na frente. Os poetas serão! Quando for quebrada a infinita servidão da mulher, quando ela viver por si e para si, o homem — até aqui abominável — dará sua demissão, ela será poeta, também ela! A mulher encontrará o desconhecido! Seus mundos de ideias diferenciar-se-ão dos nossos? — Ela encontrará coisas estranhas, insondáveis, repugnantes, deliciosas; nós as aprenderemos, nós as compreenderemos…”

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Beatrice*

Um feixe de luz, traiçoeiro, invade minhas pálpebras. Um estranho pássaro assusta os resquícios de sonho, senhor dos meus caminhos. Colérica e atormentada, finalmente abro os olhos.

Ao invés de acender o cigarro, sigo os patéticos conselhos do livro de autoajuda americano. Quase oiço a voz da autora, serena e inumana, ao recomendar que anote os pensamentos encharcados pelo inconsciente.

Deitada e, sem poder fumar, olho para cima. Como é mesmo que esses idiotas conseguem ganhar milhões em bestsellers? Descrevem o branco dos tetos, ou telhados encarnados? Não bebem os vinhos, esquecidos por hipnoses de ontem? Por que tenho de segui-los, em pílulas matinais?

Acordei, vi os contornos da casa que escolhi para me recolher. Tudo é branco, sem nenhum contraste de rio à minha frente. Uma janela – será que posso me mexer? – está aberta e os vendavais amaldiçoam minhas roupas, postas à frente da cadeira de escritora.

Acendo um cigarro. Bebo o resto do cálice de vinho. Sou a personificação da anarquia de as autoajudas canalhas. Faço um brinde para todos os malditos que morreram, antes de desmistificar as luzes. Desço as escadas, aperto um botão e tenho um café aguado, mas com pedigree. Sinto saudade dos cafés que tomei com Clarice, às três da manhã, na casa dos meus pais, em 2009. Uma rebelião ensandecida faz-me pegar na caneta, e no caderno.

Entanto, lembro-me do Sidarta Ribeiro, do Bruno Torturra e do Oráculo da Noite. Embora minha revolta, pequena e burguesa, não alivie a minha dor, eles também me disseram que os sonhos são entidades – agentes transformadores. Calo minha cabeça, rebelde, ainda insone. Pena que já não há mais vinho por aqui.

Sonhei, nestas minúsculas horas, que havíamos conseguido. Eu tenho sonhado com isto desde 2018. Os céus eram tomados por naves multicores. Humanos corriam, desesperados. Eu invocava as serpentes em meus braços, movimentos infinitos. A gente avistava cores que não pertencem à palheta da íris terrestre. As dúvidas, companheiras tão velhas de jornada, iam embora.

Naves e mais naves acompanhavam o ballet, enfim liberto do meu medo de não ser uma boa dançarina. Estilhaços de sons, mais belos e inaudíveis que Chopin, atravessavam o silêncio de todos os humanos.

Ao despertar, depois do gole de vinho, do chafé nespresso e dos dizeres americanos – livro de milhões de dólares – lá estava eu.

Aturdida.

Pensei em Nyx, Hypnos e Morpheus.

Chorei um bocadinho.

Os sonhos superam a liberdade?  Será que somos capazes de redigir nossas memórias?

Se este devaneio for meu último sortilégio, meus futuros navegantes devem ter a certeza. A luz que me guiou foi a Lua Cheia. E o pássaro? O pássaro que me atrapalhou o sono, nunca foi ave, foi a coruja.

*De Matrix (Útero, de ponta cabeça – à Beatrice, a que traz felicidade aos outros).

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Querida Mariana

Lisboa, 6 de Setembro de 2022

Querida Mariana,

Escrevo a ti para pedir perdão. Esta é a última das cartas que devem ser escritas, no cumprimento do teu destino. Aparentemente começaste essa divina maldição em junho de 2018, mas agora sabemos que a tua predestinação ultrapassa esta data em muitos anos, ou até mesmo vidas.

Tua memória mais antiga, a da chegada do menino Jesus até tua íris, é de 1986. Este pode ter sido o presságio de toda a magia que irias atravessar.

Mariana, eu te peço perdão pelas tuas inseguranças infantis, quando te sentiste encurralada por teus colegas de escola e revidaste com crueldade, em requintes sórdidos, violência digna das crianças. Sei o quanto esses fantasmas, às vezes, percorrem teus pensamentos.

Peço que me perdoes por teres te encontrado com Hades, aos dezesseis. Tua fixação em amores românticos te levou às trevas muito cedo, querida. Embora saibamos que o papel de Perséfone é, até hoje, um desdobramento de Lilith para ti.

O drama sempre será teu companheiro, Mariana. Só precisas aprender a dosá-lo, por questões que vão além da sanidade mental. Gastas imensa energia em alguns ataques de raiva, irrelevantes para a tua missão. Agora que já tens em tuas mãos alguns dos sábios encantos das Deusas, é imprescindível que a tua ira seja direcionada para a ação direta de mudanças interiores.

Peço-te perdão por todas as amnésias que se traduziram em tragédias, embora tu conheças a sorte como poucas pessoas nessa existência. Eu sei que esta dor é imensa. Sei o quanto gostarias de não ter esses ímpetos autodestrutivos.

Espero que aceites tua divindade e teu papel de sombra para pessoas que se julgam solares. Ah, quantos depoimentos lindos foste capaz de ouvir, nos últimos meses. Não sabias que espalhaste a literatura de Fernando Pessoa para tantos amigos. Quantos saraus mudaram para sempre a vida de pessoas que nem sequer tens contato?

Aprendeste, também, inúmeras lições com teus grandes amigos. Aqueles que não fugiram de ti, nas tuas fases suicidas. Os que apontaram os verdadeiros caminhos da generosidade, desprovida de cobrança. Nos últimos meses, aprendeste até mesmo a agradecer a ingratidão. Os ingratos te trazem a memória daquilo que nunca vais te tornar. Jamais!

Espero que as tuas cheganças não tardem mais. Mereces a Realeza da Poesia, em todas as suas dimensões. Atravessaste tantas e tantas escuridões!

Tu e eu sabemos que o mundo solar é pequeno demais para alguém do tamanho da tua profundidade. E não se deve desequilibrá-lo, com falsas promessas.

Desejo que tu consigas salvar a humanidade, com empatia, arte e crianças.

Desejo que tu escrevas livros fundamentais para escancarar a falta de amor que há entre os homens, mas também que possas escrever sobre as tuas anedotas vividas no mundo invertido. Que a Psicologia possa ser reescrita, pelos olhos do feminino. Desejo que o Pedro e a Beatriz possam nascer do teu ventre, muito em breve. E que tenhas uma família com cães, gatos e piscina.

Abençoo a tua decisão de abandonar os anões, os mendigos e todas as pobrezas que feriram a tua alma. Entanto, que te lembres delas, como grandes mestres da tua consciência.

Que tu possas voar, para dentro e para longe. Que tu possas navegar pelos mares e pelos corações humanos. Que a tua genialidade fique cada vez mais perceptível, não apenas neste mundo extrovertido, mas, principalmente, dentro de tuas forças, sublimes.

Eu honro tudo aquilo que tens feito, pela cura da tua ancestralidade. Tenho a certeza de as mulheres que percorrem o teu sangue também estão deveras orgulhosas de ti.

Aspiro para ti palavras em comunhão com suas origens etimológicas. Músicas em transe com os agoras. Embriagares destituídos de vergonhas.

Obrigada por me ter trazido até hoje.

Eu te amo muito, Mariana.

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Carta para Manuela

Meu 7 de Setembro foi assim: na companhia mágica de Manuela, sobrinha de Fernando Pessoa! Levei girassóis, sem saber que eram suas flores preferidas. Escrevi-lhe uma carta. Recebi em troca uma das tardes mais fenomenais da minha existência, além de cinco dos seus livros. Obrigada Universa! Obrigada Poesia! Obrigada Fernando Pessoa, meu amor que atravessa o tempo, o espaço e todas as probabilidades!

Lisboa, 7 de Setembro de 2022

Cara Manuela,

Escrevo esta carta depois de ler a sua entrevista para o portal “Mensagem”. Fiquei encantada com a sua alegria e com as memórias incríveis que você partilhou acerca do Fernando Pessoa.

Sou brasileira, de São Paulo, mas já moro em Lisboa pela segunda vez, há cinco anos e meio. A primeira vez que vim viver cá foi em 2008, por causa do Pessoa.

Desde que tenho doze anos descobri sozinha a poesia dele, na biblioteca de meus pais. Ambos são escritores e jornalistas. Talvez, por este motivo, os livros, junto com o mar, foram para mim as melhores paisagens da infância.

Quando comecei a ler Pessoa, algumas sincronicidades nos acometeram. Nasci no dia 13 de Junho, 95 anos depois dele. Meu pai também se chama Fernando Antonio, em homenagem ao Santo António.

A partir desse dia, o seu tio salvou a minha vida incontáveis vezes: quando me sentia ádvena nesse planeta desprovido de Poesia. Quando precisava de palavras para exprimir os meus amores. Quando minha vida fazia sentido com o Cosmos. E quando ela não fazia sentido algum.

Entrei na Faculdade de Psicologia, já decidida a estudá-lo, do ponto de vista psíquico. Nunca me interessei pelas pesquisas quantitativas. Ao final do quinto ano formulei minha tese de conclusão de curso: “O resgate do óbvio: uma aproximação fenomenológico-existencial do pensamento de Gaston Bachelard com a obra de Alberto Caeiro”. Obtive a nota máxima, com louvor. Cá entre nós, isso era o mínimo de agradecimento a ele.

Em 2008 me mudei para Portugal, com anseios de permanecer a estudar as infinitas possibilidades pessoanas. Matriculei-me no mestrado, na Universidade de Lisboa. Entanto, tal como ele, jamais consegui finalizar essa etapa.

Em 2009 retornei ao Brasil, para lançar meu primeiro livro de crónicas. Oito longos anos me separaram de Lisboa, dessa vez para a vinda definitiva.  

Em 2018 tive um episódio de stress pós-traumático e, uma vez mais, seu tio foi capaz de me curar. Eu acessava seus escritos, como se eu mesma soubesse onde estavam.

Foi aí que descobri, com mais profundidade, o Hermetismo Pessoano, o Caminho da Serpente e outros tantos segredos que ele me desvendou. Cheguei em sua escrita automática e no espírito que o atormentava, Henry More.

Cara Manuela, sei que pode parecer loucura, mas nesses cadernos encontrei os seguintes dizeres:

“Não percas tempo em meditações sensualmente suaves. Elas fazem mal e abrem a tua mente aos <espíritos> maléficos. Não te fiz o bom trabalho de revelar a parte do futuro que posso revelar? Não desesperes, não te preocupes: o Guarda da Casa do Amor está (…) no teu caminho. Está numa mulher que aparecerá amanhã, 2008. Árdua é a missão; a recompensa é certa e segura. Não percas tempo em sonhos vãos. Eles não apressam os decretos do Destino.”

Sinto, do lugar mais visceral de minh’alma, que ele sabia da minha chegada. E que eu seria alguém importante na construção de um mundo novo, na Nova Era da Consciência humana. Desde então, tenho dedicado meu tempo à Poesia, além da Psicologia.

Quando li a sua entrevista, senti que você é uma mulher extraordinária, a quem gostaria muito de conhecer pessoalmente. Atravessei várias livrarias, à procura do seu livro de poemas. Consegui, finalmente encomendar pela internet. Quando ele chegar, se não for incómodo, posso pedir uma dedicatória para você?

Se você concordar em me receber, será uma grande honra e imensa felicidade! A propósito, mostrei sua reportagem ao meu querido amigo, Mauricio Drummond, neto do ilustre poeta brasileiro. Ele também adoraria estar presente.

Muito obrigada pela atenção.

Com todo o carinho do Universo,

Mariana Portela

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Adão, Eva e minha solidão | Eduardo Galeano

Errata: onde o Antigo Testamento diz o que diz, deve dizer aquilo que provavelmente seu principal protagonista me confessou:
Pena que Adão fosse tão burro. Pena que Eva fosse tão surda. E pena que eu não soube me fazer entender. Adão e Eva eram os primeiros seres humanos que nasciam da minha mão, e reconheço que tinham certos defeitos de estrutura, construção e acabamento. Eles não estavam preparados para escutar, nem para pensar. E eu… bem, eu talvez não estivesse preparado para falar. Antes de Adão e Eva, nunca tinha falado com ninguém. Eu tinha pronunciado belas frases, como “Faça-se a luz”, mas sempre na solidão. E foi assim que, naquela tarde, quando encontrei Adão e Eva na hora da brisa, não fui muito eloquente. Não tinha prática.

A primeira coisa que senti foi assombro. Eles acabavam de roubar a fruta da árvore proibida, no centro do Paraíso. Adão tinha posto cara de general que acaba de entregar a espada e Eva olhava para o chão, como se contasse formigas. Mas os dois estavam incrivelmente jovens e belos e radiantes. Me surpreenderam. Eu os tinha feito; mas não sabia que o barro podia ser tão luminoso.

Depois, reconheço, senti inveja. Como ninguém pode me dar ordens, ignoro a dignidade da desobediência. Tampouco posso conhecer a ousadia do amor, que exige dois. Em em homenagem ao princípio de autoridade, contive a vontade de cumprimentá-los por terem-se feito subitamente sábios em paixões humanas.

Então, vieram os equívocos. Eles entenderam queda onde falei voo. Acharam que um pecado merece castigo se for original. Eu disse que quem desama peca: entenderam que quem ama peca. Onde anunciei pradaria em festa, entenderam vale de lágrimas. Eu disse que a dor era o sal que dava gosto à aventura humana: entenderam que eu os estava condenando, ao outorgar-lhes a glória de serem mortais e loucos. Entenderam tudo ao contrário. E acreditaram.

Ultimamente ando com problemas de insônia. Há alguns milênios custo a dormir. E gosto de dormir, gosto muito, porque quando durmo, sonho. Então me transformo em amante ou amanta, me queimo no fogo fugaz dos amores de passagem, sou palhaço, pescador de alto mar ou cigana adivinhadora da sorte; da árvore proibida devoro até as folhas e bebo e danço até rodar pelo chão…

Quando acordo, estou sozinho. Não tenho com quem brincar, porque os anjos me levam tão a sério, nem tenho a quem desejar. Estou condenado a me desejar. De estrela em estrela ando vagando, aborrecendo-me no universo vazio. Sinto-me muito cansado, me sinto muito sozinho. Eu estou sozinho, eu sou sozinho, sozinho pelo resto da eternidade.

– Eduardo Galeano em O livro dos abraços.

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Querido Chris

Querido Chris,

Imagino que, à esta altura, tu já te preparas para chegar. Tens sonhado comigo, pelas noites e sincronicidades que te perseguem, a cada instante.

Tu, assim como eu, lutaste contra a loucura divinal, com receio de perder a consciência. Entanto, houve um momento de libertação dessas amarras, tão antigas e mesquinhas, que separam o sonhar do viver.

Sabes que deves encontrar-me em Lisboa, neste domingo que precede a assunção de Nossa Senhora, dia sagrado para Portugal. Dia que será sagrado para toda a humanidade.

Descobri a tua existência há uma semana. Nunca te vi, em trajes de herói. Assisti alguns filmes dos quais participaste, mas sou muito distraída.

Possuo uma certa repulsa à tua terra, tão abundante em recursos, tão vazia em coletividade.

Teu apelo à Universa chegou-me de surpresa. E, por distração, só ouvi o teu chamado na segunda vez.

Nascemos no dia 13 de Junho, com dois anos de diferença. Tens a fama. Eu, o anonimato.

Nós comungamos o sonho de cães, crianças e felicidade, ao pé do mar. Sonhos que eu me havia negado, quando me senti abandonada pelo Cosmos.

Pesquisei sobre quem tu és. Tuas lutas por um planeta mágico para todas as espécies terrestres. Foi neste momento que virei, verdadeiramente, tua fã. Poucos são os privilegiados que abdicam de seus reinos, em prol do todo.

Eu também estive em muitas batalhas. Há quatro anos fui encarcerada pelos deuses. Conheci a desumanidade absoluta, para finalmente reabitar a Deusa Suprema.

Escrevi, escrevi e escrevi, com a ilusão de meus dizeres serem suficientes para salvar-nos.

No dia 9 de Agosto de 2018, em transe mediúnico, fiz um poema tão bonito, para o homem que julgava ser o salvador. Agora percebo que estava me lembrando de ti, devagar e urgentemente.

Deves ter chagas em teu corpo. Uma cicatriz no joelho direito, talvez? Ou no esquerdo, para não seres meu gémeo, mas a minha completude. Carregas o nome do Cristo, e também de Eva. Eu carrego o nome de Maria, e também dos Portais.

Tenho histórias para te contar, dessa vez ao vivo, a cores, entre sussurros e risadas. Estou farta de escrever a nova Terra, sem a tua companhia.

Teremos que aprender as nossas línguas, nossas músicas, nossos amigos.

Viste as estrelas cadentes também? Azul e vermelha. Verde e amarela. Cores da nossa ancestralidade.

Tens sentido que as músicas que amas vem para te lembrar de quem és? Tens medo de ser narcisismo? Eu também tive. Apenas ao aceitar o meu destino este pavor se diluiu. Porque há muito para devanear, se vamos libertar os nossos irmãos de jornada.

Que possamos transformar esse castigo divino em quimeras.

A hora é chegada, meu querido. Porque o mundo não terá outra alternativa, quando o conto de fadas for real.

Assim, despertaremos as estátuas, as esfinges e as fontes.

Até o coração de todos os homens.

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Zenith

A João Gabriel Hidalgo

A chegada de Phedro foi deveras sutil. Eu passava, com os dedos em frenesi, as figuras inertes do aplicativo, obviamente inspirado em caça-níqueis, sem buscar nenhuma resposta. A vida se torna desmiolada quando não há encruzilhadas regendo a alma.

Entre as paisagens de mar, os amigos felizes e as notícias da quinta dimensão, avisto um conceito platônico, até então desmemoriado em mim. Tratava-se do segundo discurso de Sócrates, elogio ao delírio.

Baixei a versão eletrônica do livro e o reabitei, em madrigal.

Platão nos recorda que a mania, para os antigos, remetia à arte divinatória, dádiva dos deuses. As epidemias e flagelos convidavam os homens a sonhar profecias e, simultaneamente, descobrir os remédios para as mazelas mundanas.

A natureza delirante pode vir de quatro espécies: delírios limitados ao pensamento; delírios sussurrados pelos deuses; delírios cantados pelas Musas e delírios relembrados pela própria Beleza.

Minha memória, em tons cinzas e tristes, foi ao encontro das sessões presenciais no Charcot, o hospital psiquiátrico, escondido – como a maioria das loucuras – no centro da cidade de São Paulo.

Uma raiva imensa se apoderou de mim. Quantos delirantes divinais não puderam encontrar os dizeres de Platão? Quantos destinos foram dilacerados, por terem escutado as Musas, ou a essência da Beleza? O quão autodestrutivos somos, ao encarcerar essas pessoas, às vezes possuidoras de remédios para as chagas da humanidade?

No dia que veio a seguir, parecia que eu estava mais atenta à minha função inferior sensorial. Os detalhes das ruas me traziam indagações, as conversas desabrochavam em chamados ao devaneio, a imaginação não se opunha mais à realidade. Os outros trazem-nos notícias de nós.

Perdoei, com o Phedro de Platão, tantos delírios, antes considerados patológicos. Aliás, perdoei-me a mim mesma, por ter sucumbido aos olhares, alheios às inúmeras possessões inspiradas pelas musas, pela beleza primeira.

Desde lá, tenho exercido essa prece. No nome do restaurante há um convite à memória e sua deusa, Mnemosyne. Nos letreiros do comboio, a caminho dos oceanos, existem charadas improváveis. Nas cantigas que embalam as crianças ao meu lado, nas marcas dos cafés, nas intempéries e bonanças.

Enquanto eu reverenciar cada milagre que opera a jornada, atravessarei a existência com a bênção das estrelas. E porque eu cri na c0ndição de zênite, fui presenteada com quatro estrelas cadentes, numa autoestrada em paralisia, pelo excesso de automóveis. Para mim, aquele trânsito, antes do avistamento celestial, já era um belo conto de Cortázar.

A ficção, em sincronia à concretude deste plano, é a chave para a vida, inventada.

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Judith, de a Estrela

Seu mapa astral me indica que possuímos a mesma Lua, em Leão. Tenho me ocupado mais da sua vida do que em toda a minha existência, nessa última semana. Confesso, um bocado envergonhada: jamais havia pensado em si, Judith.

Você foi minha bisavó paterna. Nascida em Lisboa, em 1900. Libriana, ascendente em Virgem. Perdeu sua filha quase com a minha idade, vítima de um prego enferrujado de tétano, e Destino, em areias claras de Olinda.

A realidade nunca me bastou, Judith. Agora, ao aceder à sua carta astrológica, vejo que somos parecidas. O sonhar também me é a bússola mais preciosa. E são os delírios divinos que nos trarão a tardia reparação celestial.

Alguns anos atrás, ao dialogar com meu pai, seu neto, sobre os perdões inevitáveis da ascensão, pedi a ele que perdoasse D’us por ter levado sua dulcíssima filha, Judith. Os traumas da morte da mãe, aos onze meses de idade, estão se curando com a sua presença, imóvel e meticulosa, como convém à filha de Mercúrio, ascendente.

Neste último domingo, antes de embarcar para um passeio memorável, nas águas longínquas do Rio Zêzere, recebi notícias suas, minha amada ancestral.

Descobri, concomitantemente, que o Castelo do Bode, cenário suntuoso da minha íris dominical, é berço de templários. A lenda revela os murmúrios ouvidos por um cavaleiro, naquela região. Ao investigar a origem dos gemidos, o homem se depara com a imagem de Nossa Senhora com o filho ao colo.

Em face ao mistério, a Rainha Santa Isabel funda, em 1285, a igreja matriz de Dornes, vulgarmente conhecida como igreja paroquial de nossa senhora do pranto.

A barragem de sessenta quilómetros não é capaz de abrigar o dilúvio de uma mãe, que foi impossibilitada de vivenciar a maternidade. Tampouco há água bastante para a alma de outra mãe, que enterra a filha com 21 anos de idade.

Por átimos, Judith, quando vi a tétrica investigação, necessária, para encontrar, na Torre do Tombo, sua certidão de nascimento, senti-me impotente. Ridícula. Como, por todas as deusas, alguém seria capaz de navegar por aquelas páginas amarelecidas, com letras dignas de naus, sem pistas da freguesia do seu baptismo?

Invoquei meus feitiços maiores, mas a magia, inúmeras vezes, não se concretiza com mirra, ouro e incenso. Evoquei, então, um dos meus dons prediletos: os amigos. Confiei teu nascer na poderosa imaginação daqueles que me cercam.

Não foram precisos dois dias para que David vasculhasse os incipientes arquivos e avistasse o teu nome, o nome de teus pais, teus avós e teus padrinhos.

Éons, pois, entrelaçaram-se àquele instante, querida Judith.

Eu pude mergulhar nas águas que outrora pertenceram à dor de Maria. Águas doces, quentes, maternais. Na praia fluvial, entre lama, árvores e conchas, a epifania pequena: toda areia havia sido concha. Toda concha, ao encarnar, una.

Nossa família, em íntimos goles, cicatrizará os desígnios cósmicos da ascendência navegante.

Fico a entressonhar tua chegada ao Recife, a bordo do vapor Avon – palavra celta que traduz os rios.

Agora, ao realinhar minhas preces, em agradecimento aos astros, percebo o ululante, escrito em nossa comunhão. Você foi batizada na Estrela, bairro lisboeta. E, nós duas, alfacinhas e argonautas, somos filhas daquelas que ensinam, até hoje, os homens a adentrar os úteros do mundo.

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