
À minha mamã, aniversariante do dia 3 de Outubro
O filho que não morreu, afogado nas águas de Copacabana. A criança que tossiu a bala, depois de minutos infindos. O cachorro abraçado ao bebê por dois dias, depois do terramoto. O amor que sobrevive às intempéries, 50 anos depois. O abraço de um esquilo, na neve. Cheiro de árvore sendo plantada. Sobreviver. Sobreviver ao abandono contínuo da vida.
O que é um milagre?
Na Teologia católica, segundo São Tomás de Aquino, um milagre é o acontecimento feito por Deus, fora da ordem de toda a natureza criada: nenhuma causa natural consegue explicar. Para a Igreja, ele é também um sinal, que aponta para algo além de si mesmo. Por isso, a igreja o chama de signum, e não só de prodígio. Sua origem etimológica nos remete ao olhar com espanto: mira! Mergulhando mais, a anatomia da palavra torna-se mais insana, menos santa: o ato de sorrir, ad-mirando, a contemplação ao sagrado. Milagre e smile carregam a mesmíssima raiz. E eu sorrio, estupefata, pela minha descoberta abençoada.
No caso de Nossa Senhora Aparecida, o milagre remonta ao ano de 1717. O Conde de Assumar, governador de São Paulo e Minas Gerais, ia passar por Guaratinguetá, a caminho de Vila Rica. A câmara da vila pediu peixe para o banquete.
Três pescadores, Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso, lançaram as redes no rio Paraíba do Sul. Pescaram o indizível.
Primeiro veio o corpo de uma pequena imagem sem cabeça. Num segundo lance, veio a cabeça. Depois disso, a pesca foi farta. Quase afundou os barcos. Era ela, uma virgem negra. Nossa Senhora da Conceição, a que ali apareceu, para brindar as mesas e enaltecer a fé, frente às enxurradas de desânimo.
Escassez é palavra que deriva dos humanos, jamais das águas. Os peixes sempre saltam às redes inauditas dos crentes.
Nossa Senhora Aparecida.
Em Portugal, de onde trouxemos essas alegorias fantásticas, veio-me à mente outra Senhora, com igual nobreza. De outras águas, talvez mais caras, ou talvez mais doces, ou talvez mais abastadas.
Nossa Senhora do Pranto.
Guilherme de Pavia, feitor da rainha, foi o primeiro a ouvir o canto e o pranto de nossa Pietá. Às margens do Rio Zêzere. Eram sons que o afetavam profundamente, pois entranhavam-lhe os ouvidos. Nenhum ser, a não ser uma mãe, choraria tamanha amargura.
Quando retornou a Coimbra, afoito e incrédulo, e também inebriado pela dor daquela Mãe, confrontou-se com sua mestra. Ao confidenciar à Rainha, ocorreu o seguinte diálogo:
“– Vindes por via dos gemidos, Guilherme?
– …!
– Não precisais espantar-vos! Três noites a fio sonhei com eles e sei do que se trata.
– O que é então, Senhora? Procurei por todo o lado e nada vi!…
– Bem sei. Deus contou-me tudo nos sonhos. Agora vais voltar ao local e procurar onde te vou dizer: aí acharás uma imagem santa de Nossa Senhora, com o Filho morto em seus braços.
– Assim farei, minha senhora Dona Isabel! Mas, e depois, que faço eu dessa imagem?
– Guardá-la-ás contigo até me veres chegar junto a ti!”
O cavaleiro, embasbacado, assentiu. E, de volta ao Rio Zêzere, foi à procura, em terras vermelhas, da imagem reluzente do sonho de sua senhora, Isabel. Em busca de Nossa Senhora. Enrodilhada em urzes, após tantos caminhos, lá estava a imagem da Virgem, pranteando a morte de seu Filho.
Guilherme guardou a miragem, a imagem, silenciosamente, embora se deleitasse com a visão do milagre:
– Ah, vontade de explanar a todos a existência da Santa, em minha casa! Ah, vontade de dizer aos homens o que me disse Deus. Gostava de ser reconhecido, pela dádiva de me tornar instrumento…
Contudo, Guilherme sabia a resposta. As vaidades dos homens não alcançavam a realização da verdade. Ele, inconfesso, nunca confiou em Deus, antes de abrigá-La.
Em 1285, a Rainha manda construir o primitivo santuário de Nossa Senhora. Junto a uma velha torre pentagonal, que já ali existia, Isabel mandou erigir uma ermida para a Virgem achada nas moitas. Na torre, ornamentada pelos templários, decretou a instalação dos sinos. E o nascimento daquela pequenina eternidade.
Ermida de Dornes.
O Rio Zêzere nasce na Serra da Estrela. Tem três barragens, ao longo do seu percurso: Cabril, Bouçã e a barragem do Castelo do Bode.
Entre mergulhos infantes e promessas de barco, conheci a Nossa Senhora do Pranto, refém do sol, nas límpidas águas que torneiam a barragem do Castelo do Bode. Quando soube dessa manifestação, vieram presságios, nostálgicos de quimeras. O pranto da Pietá seria transformado em verso, em lirismo, em poesia. À revelia do milagre dos peixes, o milagre do choro é inclusivo: toda lágrima é uma experiência íntima; toda alma é coletiva.
No Brasil, Aparecida virou padroeira. Em Portugal, a escolha do mistério. E as duas, santas, caminham pelas águas, uterinas, até chegar ao nosso cerne:
O coração,
Ágape,
navegante
de mares
inconclusos.
Nascente
das Mães.
Referência bibliográfica:
in Frazão, Fernanda. “Lendas Portuguesas”, vol. IV, pág. 75-79. Ed. Multilar. Lisboa: 1988

























