Que invisível se vê…

“Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.”

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

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Sonhatório

 

O carnaval nunca foi teu feriado preferido. Sempre me disseste que teu mundo acontecia doze dias antes dele, ou apenas quando ele se ia embora e o ano finalmente começava no Brasil. Acho que odeias o carnaval porque odeias o meu pai. E ele é fruto de uma noite mascarada em teu verão.

Meu pai nunca foi um homem comum. Éramos como estranhos que se comunicavam por sonhos. Havia qualquer cousa que nos afastava. Eu percebo a estranheza da ausência, a vertigem de ver a si, em olhos de outrem. Mas as nossas demoras derivavam de outros escândalos.

Houve, pois, um dia em que descobrimos nossa afinidade. Morávamos, na altura, aquela casa, em Alfama. Um rés-de-chão duplex. Tu sempre gozavas, mamã, da nossa verticalidade para baixo. No entanto, foi lá que tivemos a inventar o sonhatório. E a colecionar todos os sonhos do mundo.

Era segunda-feira, como qualquer outra poderia ter sido. Mas Papá havia sido demitido do trabalho, em Lisboa. Não imaginava que aquilo precederia nossa viagem ao Brasil e à vossa brutal separação. É engraçado como um dia tão feliz possa antever a tragédia. E que nunca estamos imunes à tristeza, nem abençoados pelo céu de churrasco da minha terra.

Papá chegou, olhos marejados, distantes, como se visse o Tejo para sempre. O azul desferia uma beleza improvável. Os olhos de Papá estavam ainda mais azuis, por causa das lágrimas. Eu, com as minhas mãozinhas pequenas, afastei a dor dele. “A cada milágrimas sai um milagre”, cantei.

Declamar com os olhos é algo que a genética me trouxe. Como é vulnerável estar com os olhos a recitar as vísceras! E papá se encheu de oxigênio para impedir que lêssemos as mesmas poesias melancólicas.

O sonhatório foi o nome que ele deu, para nosso jardim. Ensinou-me que era um sótão às avessas, pois não havia janela para ofuscar o horizonte; assim como deveriam ser os sonhos. Descortinados. Infindos. Vingativos.

Pois. Para o meu ídolo, sonhos são vinganças pacíficas que travamos com a vida. Quando a vida se põe a nos fazer chorar, há-se de sonhar. E sonhar estratosferas, universos, galáxias. Vingar-nos de nossa condição.

Perdi meu sonhatório quando o Carnaval de vocês acabou. E jamais consegui me vingar novamente da vida. Então, aceitei a Poesia como segunda vingança. Só a Poesia é senhora do mudar, a partir deste dia, Mamã.

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Sexta-feira

Sextas-feiras são os dias mais bonitos da semana. Tu chamas os amigos para vir a beber uns copos na nossa morada. Eu penso nas interpretações incríveis que lhes posso fazer, para adentrar essas noites contigo. Preparo poesias, ensaio canções, busco fantasias no fundo dos armários, repletos de poeira, e salvação. Não durmo nas quintas anteriores.

Tens um amigo, bêbedo, insuportável, que me vê como um puto paneleiro. Eu só quero deitar a noite na companhia dos realejos. Porque é que te importas com esse tipo de gente, acéfalos em dores de sentir? Talvez exista qualquer inveja que pulse em ti, da qual eu não percebo nada. Tua dor é o teu dom mais belo, mamã.

Quando temos sapateira, tu sempre dizes que é a comida dos deuses. Eu imagino os deuses se lambuzando, perdendo as realezas para lambidas mundanas. Gosto de pensá-los assim: enobrecendo as mãos em saliva. Tu só és feliz ao comer as sapateiras. Porque não gostas de te alimentar, Mamã?

Detestas que os pratos, sujos de histórias e risadas, fiquem à mesa, para contar as decadências. Eu os lavo, feliz, à espera das tertúlias improvisadas. Nessa hora o amigo agressivo vai-se embora. Ele não tolera os dizeres da poesia.

A guitarra está sempre a postos, na nossa sala de estar. Os brasileiros a chamam de violão. Eu amo as palavras inventadas pelos brasileiros. Eu te amo tanto, mamã.

Um Vinícius de Moraes para inaugurar os trabalhos. Fazes sempre essa piada, à luz da Umbanda. Proíbes teus convidados de tocar Garota de Ipanema. A seguir, como é óbvio, tuas cordas vocais ameaçam um português de Portugal – ridículo – porém amado, ao recitar o teu Pessoa: “canções tristes, como as ruas estreitas, quando chove.”

Teus amigos são seres de uma arquitetura imaterial. Sabem à cachaça, aos versos, à eternidade! Estão, às vezes, embriagados demais para sucumbir à tua força de anfitriã. Todavia, mostram suas garras, sempre bem-vindas. Esparramam, cuidadosamente, gentilezas absurdas, obviedades advindas, ignorâncias delicadas. Eu também vos amo, mamã.

O silêncio, quando reina em nossa casa, dilacera meu sorriso, infante. Cálices encarnados, pedaços de queijo pelo chão, palavras escritas em papéis, sujos de vinho. Eu pego, com as mãozinhas envergonhadas, os dizeres que ficaram. Para a próxima sexta-feira.

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O mito de Faetonte à luz da contemporaneidade: uma breve análise dos jovens líderes

“O mito nos oferece, sempre aludida, a plenitude e o sentido, de modo que toda atividade humana, até os menores gestos, aparecem carregados de significação e ligados a algo enormemente importante que se apresenta atrás de cada realidade.” Paul Ricœur

O mito é uma linguagem que organiza a vida, embora muitas vezes não saibamos o significado de suas origens. Identificamo-nos com eles de forma quase intuitiva, desprovida de racionalizações. Por isso, o mito é uma imagem esclarecedora, irrenunciável do autodesenvolvimento.

Neste artigo, pretende-se vincular o mito de Faetonte à era da liderança prematura, clarificando o poder das imagens mitológicas ao entendimento dos cenários atuais.

Faetonte era filho do deus Hélio com a ninfa Climene. Ao nascer, o Deus Sol prometeu à mãe da criança que jamais negaria a realização de um desejo ao filho. Na adolescência, depois de exaustivos questionamentos do jovem, foi revelada essa parte importantíssima de sua narrativa. Quando descobre a identificação paterna, Faetonte resolve ir conhecê-lo, para provar a sua ascendência divina.

Ao chegar no suntuoso palácio, onde jamais existia a escuridão, Faetonte se pôs a imaginar como seria dirigir a carruagem de seu pai, composta por imponentes corcéis, que levava a luz, os dias e as noites a todas as regiões do planeta. A fascinação de estar à frente daquele veículo o consome por inteiro. Ele, então, pede ao pai que o permita pilotar, apenas por uma vez.

Hélio não pode negar o desejo do filho, pela promessa feita à sua mãe. Todavia, ele alerta o jovem dos perigos da vertiginosa trajetória, explicitando suas próprias dificuldades e medos. Hélio, preocupado, diz que ele não terá maturidade para dirigi-lo. O jovem insiste. Nenhum conselho o impediria de navegar pelo céu magnífico que se abria no horizonte.

A tragédia estava anunciada. Ao subir na carruagem, os cavalos já pressentiam a diferença de peso do seu condutor. Poucos foram os momentos de glória, para Faetonte. Alguns instantes de completo êxtase, ínfimos, perto do desastre. Ele perdia, a cada segundo, o controle sobre os poderosos corcéis, desequilibrando-se nas alturas. Cada lugar pelo qual passava sofria as consequências de seu voo irresponsável.

Após quase destruir toda a uniformidade da Terra, Zeus é impelido a matá-lo, com um de seus desconcertantes raios. Seu corpo foi, como um meteoro, até o fundo do rio Erídano. Lá, diz o mito, suas irmãs erigiram um túmulo, em homenagem à sua ousadia juvenil.

Quais ensinamentos este mito pode nos trazer, no contexto do século XXI? Como podemos nos apropriar dessa história, na busca pelo autoconhecimento? Onde vemos Faetontes e Hélios, transformados em pessoas de carne e osso?

Uma consideração fundamental acerca desse mito diz respeito à figura paterna que percebemos atualmente. O pai – culpado pelo excesso de trabalho e pelo contato reduzido com seus filhos – escolhe não impor limites como parte da educação. O medo ao desamor de seus descendentes o torna escravo de caprichos desajuizados. Deixá-los passar por experiências para as quais não estão preparados.

A impossibilidade do não é terrível na construção psicológica de uma criança. O sentimento de onipotência será cruelmente aniquilado no futuro, caso não seja estipulado desde a tenra infância. Conhecer a insuficiência e deparar-se com os próprios defeitos é imprescindível para degustar alguma sabedoria, ao longo da vida.

Não houve, para os jovens líderes, uma educação que reivindicasse o limite como aprendizagem. Os pais, apavorados com o fantasma do desamor, delegaram às escolas a transmissão de valores e a construção da cidadania. Mas, ao livrarem-se da culpa, esqueceram-se de que o papel do ensino formal não supriria a orientação parental, no que concerne à vivência da restrição.

O medo de não ser amado pelos filhos, traz-nos, agora, um nítido retrato da geração que chega à liderança nas organizações. Estes jovens não se defrontaram com as sábias frustrações limitadoras. Na ausência do limite o jovem se sente capaz de conduzir o carro do Sol, produzindo catástrofes inimagináveis.

As empresas, portanto, tornaram-se o lugar onde os jovens recebem, pela primeira vez, a percepção de impossibilidades. São obrigados a se deparar, subitamente, com a própria falibilidade. Isto tem sido um dos maiores desafios para as organizações. Como é possível ensinar tardiamente a necessidade de impotência? Como a carreira desses jovens será traçada, em suas expectativas insustentáveis de grandeza?

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Quiçá

A gente devia parar todo dia e ver o pôr-do-sol
A gente saia correndo de alegria
Só de ter dez minutos mais com quem a gente ama
Que fosse mais bike que carro
Mais abraço que esbarro
Mais horas de colchão
Cada tartaruga chegasse no mar
Cada bicho encontrasse um lar
E toda mãe fosse, sim, muito mãe

Dizer mais sim do que não
E que não faltasse pão
E fosse lindo de ver o rio tietê
Tivesse um medo pequeno
E fosse um amor tão sereno
Ser feliz até o ultimo fio de cabelo
Se for caso de ser indeciso
Abre um riso que de dor já chega a do mundo, amor

Que fosse mais bike que carro
Mais abraço que esbarro e mais horas de colchão
Cada tartaruga chegasse no mar
E cada bicho encontrasse
Um lar e toda mãe fosse, sim, muito mãe
Dizer mais sim do que não

E que não faltasse pão
Fosse de lindo de ver o rio tietê
E fosse um medo pequeno
Tivesse um amor tão sereno
Ser feliz até o ultimo fio de cabelo
Se for caso de ser indeciso abre
Um riso que de dor, já chega a do mundo
Que de dor já chega a do mundo, amor

Larissa Baq, essa artista incrível que tive o privilégio de escutar no meu último sarau

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Botella al mar para el Dios de las palabras

A mis 12 años de edad estuve a punto de ser atropellado por una bicicleta. Un señor cura que pasaba me salvó con un grito: «¡Cuidado!»

El ciclista cayó a tierra. El señor cura, sin detenerse, me dijo: «¿Ya vio lo que es el poder de la palabra?» Ese día lo supe. Ahora sabemos, además, que los mayas lo sabían desde los tiempos de Cristo, y con tanto rigor que tenían un dios especial para las palabras.

Nunca como hoy ha sido tan grande ese poder. La humanidad entrará en el tercer milenio bajo el imperio de las palabras. No es cierto que la imagen esté desplazándolas ni que pueda extinguirlas. Al contrario, está potenciándolas: nunca hubo en el mundo tantas palabras con tanto alcance, autoridad y albedrío como en la inmensa Babel de la vida actual. Palabras inventadas, maltratadas o sacralizadas por la prensa, por los libros desechables, por los carteles de publicidad; habladas y cantadas por la radio, la televisión, el cine, el teléfono, los altavoces públicos; gritadas a brocha gorda en las paredes de la calle o susurradas al oído en las penumbras del amor. No: el gran derrotado es el silencio. Las cosas tienen ahora tantos nombres en tantas lenguas que ya no es fácil saber cómo se llaman en ninguna. Los idiomas se dispersan sueltos de madrina, se mezclan y confunden, disparados hacia el destino ineluctable de un lenguaje global.

La lengua española tiene que prepararse para un oficio grande en ese porvenir sin fronteras. Es un derecho histórico. No por su prepotencia económica, como otras lenguas hasta hoy, sino por su vitalidad, su dinámica creativa, su vasta experiencia cultural, su rapidez y su fuerza de expansión, en un ámbito propio de 19 millones de kilómetros cuadrados y 400 millones de hablantes al terminar este siglo. Con razón un maestro de letras hispánicas en Estados Unidos ha dicho que sus horas de clase se le van en servir de intérprete entre latinoamericanos de distintos países. Llama la atención que el verbo pasar tenga 54 significados, mientras en la República de Ecuador tienen 105 nombres para el órgano sexual masculino, y en cambio la palabra condoliente, que se explica por sí sola, y que tanta falta nos hace, aún no se ha inventado. A un joven periodista francés lo deslumbran los hallazgos poéticos que encuentra a cada paso en nuestra vida doméstica. Que un niño desvelado por el balido intermitente y triste de un cordero dijo: «Parece un faro». Que una vivandera de la Guajira colombiana rechazó un cocimiento de toronjil porque le supo a Viernes Santo. Que don Sebastián de Covarrubias, en su diccionario memorable, nos dejó escrito de su puño y letra que el amarillo es «la color» de los enamorados. ¿Cuántas veces no hemos probado nosotros mismos un café que sabe a ventana, un pan que sabe a rincón, una cerveza que sabe a beso?

Son pruebas al canto de la inteligencia de una lengua que desde hace tiempo no cabe en su pellejo. Pero nuestra contribución no debería ser la de meterla en cintura, sino al contrario, liberarla de sus fierros normativos para que entre en el siglo venturo como Pedro por su casa. En ese sentido me atrevería a sugerir ante esta sabia audiencia que simplifiquemos la gramática antes de que la gramática termine por simplificarnos a nosotros. Humanicemos sus leyes, aprendamos de las lenguas indígenas a las que tanto debemos lo mucho que tienen todavía para enseñarnos y enriquecernos, asimilemos pronto y bien los neologismos técnicos y científicos antes de que se nos infiltren sin digerir, negociemos de buen corazón con los gerundios bárbaros, los qués endémicos, el dequeísmo parasitario, y devuélvamos al subjuntivo presente el esplendor de sus esdrújulas: váyamos en vez de vayamos, cántemos en vez de cantemos, o el armonioso muéramos en vez del siniestro muramos. Jubilemos la ortografía, terror del ser humano desde la cuna: enterremos las haches rupestres, firmemos un tratado de límites entre la ge y jota, y pongamos más uso de razón en los acentos escritos, que al fin y al cabo nadie ha de leer lagrima donde diga lágrima ni confundirá revólver con revolver. ¿Y qué de nuestra be de burro y nuestra ve de vaca, que los abuelos españoles nos trajeron como si fueran dos y siempre sobra una?

Son preguntas al azar, por supuesto, como botellas arrojadas a la mar con la esperanza de que le lleguen al dios de las palabras. A no ser que por estas osadías y desatinos, tanto él como todos nosotros terminemos por lamentar, con razón y derecho, que no me hubiera atropellado a tiempo aquella bicicleta providencial de mis 12 años.

Gabriel Garcia Márquez, o génio tão amado.

 

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Todos os caminhos me levam à Lisboa

pessoeu

Eu no tempo não choro que me leve

A juventude, o já encanecer

A cabeça que pouco ainda esteve

Sob o Sol solto e a tarde a arrefecer.

 

Nem choro que não me ames, que faleça

O amor que vi em ti, que também haja

Uma tarde do amar, que desfaleça

E a noite fique, (…)

 

Mais que tudo choro já não te amar,

Sim, choro a tragédia de não ser o mesmo na alma,

De te ser infiel sem infidelidade,

De me ter esquecido de ti sem propriamente te aborrecer.

 

Não é o tempo ido em que te amei que choro.

Choro não te amar já por isso ser natural.

Choro ter-te esquecido, choro não me poder lembrar

Com saudade do tempo em que te amei.

 

Isso é que choro, sim, com as verdadeiras lágrimas

Que contém em si os piores mistérios —

A morte essencial das coisas,

O acabar das almas, mais grave que o dos corpos,

O abismo onde a única esperança é poder haver Deus

E um outro sentido desconhecido a tudo que se teve e se foi

Um outro lado, nem côncavo nem convexo à curva da vida.

Fernando Pessoa, ortónimo e amado e perfeito, sempre…

 

Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim pude esquecer-me na visão do seu movimento.

Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumam — quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes de paisagem — uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar.

A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. Não alinho hoje nas minhas gavetas carros de linha e peões de xadrez — com um bispo ou um cavalo acaso sobressaindo — mas tenho pena de o não fazer… e alinho na minha imaginação, confortavelmente, como quem no Inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas.

Alguns passam dificuldades, outros têm uma vida boémia, pitoresca e humilde. Há outros que são caixeiros-viajantes. (Poder sonhar-me caixeiro-viajante foi sempre uma das minhas grandes ambições — irrealizada infelizmente!) Outros moram em aldeias e vilas lá para as fronteiras de um Portugal dentro de mim; vêm à cidade, onde por acaso os encontro e reconheço, abrindo-lhes os braços, numa atracção… E quando sonho isto, passeando no meu quarto, falando alto, gesticulando… quando sonho isto, e me visiono encontrando-os, todo eu me alegro, me realizo, me pulo, brilham-me os olhos, abro os braços e tenho uma felicidade enorme, real.

Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram! O que eu sinto quando penso no passado, que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida…, isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos, as próprias figuras secundárias que me recordo de ter visto uma só vez, por acaso, na minha pseudovida, ao virar uma esquina da minha visionação, ao passar por um portão numa rua que subi e percorri por esse sonho fora.

A raiva de a saudade não poder reavivar e reerguer nunca é tão lacrimosa contra Deus, que criou impossibilidades, do que quando medito que os meus amigos de sonho, com quem passei tantos detalhes de uma vida suposta, com quem tantas conversas iluminadas, em cafés imaginários, tenho tido, não pertenceram, afinal, a nenhum espaço onde pudessem ser, realmente, independente da minha consciência deles!

Oh, o passado morto que eu trago comigo e nunca esteve senão comigo! As flores do jardim da pequena casa de campo e que nunca existiu senão em mim. As hortas, os pomares, o pinhal da quinta que foi só um meu sonho! As minhas vilegiaturas supostas, os meus passeios por um campo que nunca existiu! As árvores de à beira da estrada, os atalhos, as pedras, os camponeses que passam… tudo isto, que nunca passou de um sonho, está guardado em minha memória a fazer de dor e eu, que passei horas a sonhá-los, passo horas depois a recordar tê-los sonhado e é, na verdade, saudade que eu tenho, um passado que eu choro, uma vida real morta que fito, solene, no seu caixão.

Há também as paisagens e as vidas que não foram inteiramente interiores. Certos quadros1 sem subido relevo artístico, certas oleogravuras que havia em paredes com que convivi muitas horas — passam a realidade dentro de mim. Aqui a sensação era outra, mais pungente e triste. Ardia-me não poder estar ali, quer eles fossem reais ou não. Não ser eu, ao menos, uma figura a mais, desenhada ao pé daquele bosque ao luar que havia numa pequena gravura dum quarto onde dormi já não em pequeno! Não poder eu pensar que estava ali oculto, no bosque à beira do rio, por aquele luar eterno (embora mal desenhado), vendo o homem que passa num barco por baixo do debruçar-se de um salgueiro! Aqui o não poder sonhar inteiramente doía-me. As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do meu desespero eram diferentes. A impossibilidade que me torturava era de outra ordem de angústia. Ah, não ter tudo isto um sentido em Deus, uma realização conforme o espírito de nossos desejos, não sei onde, por um tempo vertical, consubstanciado com a direcção das minhas saudades e dos meus devaneios! Não haver, pelo menos só para mim, um paraíso feito disto! Não poder eu encontrar os amigos que sonhei, passear pelas ruas que criei, acordar, entre o ruído dos galos e das galinhas e o rumorejar matutino da casa, na casa de campo em que eu me supus… e tudo isto mais perfeitamente arranjado por Deus, posto naquela perfeita ordem para existir, na precisa forma para eu o ter que nem os meus próprios sonhos atingem senão na falta de uma dimensão do espaço íntimo que entretém essas pobres realidades…

Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo… É cedo ainda. Mal passa o meio-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o meu próprio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para os inconfortáveis, alamedas vetustas, inencontráveis de antes, para os isolados no sonhar! Ter de viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra gente, real também, na vida! Ter de estar aqui escrevendo isto, por me ser preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não poder sonhá-lo apenas, exprimi-lo sem palavras, sem consciência mesmo, por uma construção de mim próprio em música e esbatimento, de modo que me subissem as lágrimas aos olhos só de me sentir expressar-me, e eu fluísse, como um rio encantado, por lentos declives de mim próprio, cada vez mais para o inconsciente e o Distante, sem sentido nenhum excepto Deus.

Bernardo Soares/Fernando Pessoa

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