Para Fefê

FefeDada

Nenhum domingo deveria ser digno de tédio. Sempre acreditei na abundância invisível dos domingos, silenciosa, quase casta, sublime em seu poder transformador. Muitos se amparam nas certezas que os domingos nos trazem. Almoços marcados há semanas, jogos de futebol, tristezas ao pensar no eterno retorno ao trabalho. Domingos são, geralmente, fraseados pelos contornos.

Minha vida mudou para sempre em um domingo. Era dia 24 de junho de 1990. Nosso pai estava cobrindo o Brasil na Copa do Mundo da Itália. Fui acordada, por volta das cinco, com a inquietude de mamã. A bolsa havia se rompido.

A Rose estava aflita, ligava sem parar à tia Helena e à Tereza. As duas prepararam, às pressas, a mala do hospital. Só agora me dei conta que foi um momento de bruxaria estelar, feito apenas por mulheres.

A tia Helena morava a vinte metros de casa. Por conta da idade e do horário, demorou para se aprontar. Tereza atravessou todos os faróis vermelhos. Atravessou também o nosso apartamento, em desespero, juntando as roupas e os olhares de todas nós.

Não me deixaram ir ao hospital. Lembro-me tão bem do Caminhoneiro Shell, passando na televisão. Até hoje não compreendo como puderam acreditar que o pior de todos os programas iria me entreter. Eu estava repleta de pavor e ansiedade, assim como ocorre em quase todas as mudanças da vida.

Tu chegaste a este mundo às onze horas. O fofinho já estava no hospital, como num passe de mágica. Em todas as minhas narrativas, este fato só pode acontecer porque o Brasil havia perdido da Argentina. Ele, então, foi dispensado da cobertura. Hoje, descobri que o jogo fatídico aconteceu no mesmo dia do teu nascimento. E ninguém soube me explicar como – entre as cinco e as onze da manhã – ele se locomoveu tão rápido entre dois continentes, só para assistir à tua vinda.

Passado o trauma do Caminhoneiro Shell, e de todos os medos que me inauguraram, naquela manhã, escolhi um bichinho de pelúcia para te dar, comprado, também às pressas, no andar da maternidade.

Tu, por escolher nascer no dia de São João, para completar a nossa família abençoada pelos santos, vieste prematura. Um mês de U.T.I. Não tinha um milésimo da beleza que compõe tua alma, agora.

Escrevi-te um poema, logo no primeiro dia. Foste tu a apagar os rastros de princesa para o fado da Poesia.

Quando tu tinhas três anos fizemos coreografias do Paratodos, em Londres. Brigamos muito, como é óbvio entre irmãs. Temos as piadas internas mais infames e mais engraçadas de toda a Universa.

Eu converso contigo telepaticamente, todos os dias. As sincronicidades celestiais nos invadem pelas madrugadas.

Espero que tu possas me perdoar pelos bullyings de irmã mais velha e por todos os meus defeitos. Já faz quatro anos que não nos vemos, meu amor.

Desejo-te sonhos de mar. Pinturas em nanquim e aquarela. Poemas que ultrapassem a condição humana e alcancem a Deusa. Caldeirões com livro das sombras, pães mágicos e gatos pretos. Risadas incontroláveis, maratonas de filmes, cidades imaginárias.

Amo-te muito my precious, com todas as forças galácticas.

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Pessach

Uma espiral no sentido anti-horário sobe pelas minhas pernas. Desorganiza todas as células. Dança, imprevidente, pelo contorno dos ossos, salta no umbigo, cresce e borbulha no chacra cardíaco. Sua cor é dourada. Apossa-se de mim, instrumento, para rodopiar em volta do pescoço. Acelera meus olhos: um está com lentes de contacto; outro insiste na miopia. A energia, bailarina, encontra-se, enfim, com a glândula pineal. Expande-se tanto, tão absurda, tão sincrónica, a ponto de dissipar-se pela coroa da minha mente. O corpo todo estremece.

Aprendi a meditar em Janeiro do ano passado. Havia fugido de Lisboa, com a certeza de ser feliz, em outro sítio. As redes sociais, na altura, só me lembravam dos fracassos, da loucura, da incapacidade de pertencer a este mundo. Desliguei-me, por alguns dias, daqueles sorrisos insuportáveis, das fotos paradisíacas, dos encontros amorosos.

Meditar nada tem a ver com a ausência de pensamentos. Meditar é aceitar que as nuvens passam. É um exercício de desobsessão das ideias. Agradecer a impermanência de todas as cousas. Venerar a eternidade do instante.

Tive a ilusão de que este período de cárcere pudesse trazer à luz a destrutibilidade. Quantos seres humanos já terão passado pela prisão, anteriormente? Navego, embasbacada, pelas mesmas redes sociais que outrora intensificaram minha depressão. Vejo um arsenal de coachs quânticos, sem nenhum estudo ou formação. “Como melhorar sua autoestima com a dança”, “Aprenda a ser líder da quarentena”, “Tome as rédeas de sua vida com o Yôga”, “Aumente seus seguidores com lives”.

Minha melhor amiga me confessou como estão os grupos de whatsapp das mães da escola da minha afilhada. Ególatras, elas clamam pelo posto de mãe da quarentena. Humilham as outras mães, com bonecos feitos de pepino, cabanas educativas, lições de casa em aquarelas.

Escrevi, há muito, quando o despertar me levou aos confins da minh’alma: somos nossos maiores Deuses. As pessoas, no entanto, ainda desejam ser deuses para os demais, esquecendo a si mesmas e sucumbindo aos seus egos.

Que paradoxo incrível! O mesmo ego, frágil e dilacerado, é quem dita as fórmulas irrisórias de sucesso.

Não julgar essas pessoas é o maior desafio para mim, neste momento. Contudo, é nítido que a vulnerabilidade se faz cada dia mais necessária para discutirmos os possíveis futuros do ser humano. Ninguém está tranquilo, nenhuma invertida trará ao seu cérebro as respostas, muitos não têm acesso a verduras para comer.

Desde sábado, quando o portal se abriu, não preciso mais meditar para sentir a eletricidade percorrendo todo o meu espírito, em sentido anti-horário. Como é óbvio, D’us!

A Universa é avessa ao tempo.

Ontem, todavia, acordei completamente derrotada. Os espasmos se intensificaram mais. A poesia cósmica acometeu todo o meu corpo. Não consegui ler uma linha de Foucault, senti-me burra, não tinha dinheiro nem para comprar ovos. Uma tristeza sem proporções literárias me atingiu. Apenas a meditação me trouxe paz, por algumas horas. Pedi perdão à minha professora do mestrado, pois não possuía forças para aproximar filosofia à realidade. E ela, com a nobreza do sagrado feminino, acolheu minha ferida.

Chorei até jogar a lente de contacto no lixo. Como ultimato aos estranhos desígnios dessa missão terrestre, liguei à minha Mamã. O útero, sem respostas, sem receitas, sem vontade de competir, é-me a única salvação.

A Terra, Gaia, Danuih, não espera que sejamos fortes. Ela nos alerta sobre a fragilidade na qual vive, desde a nossa invasão. Pede-nos para, em espiral anti-horária, sustentarmos o renascimento profético.

Pessach, sagrada travessia, é chegada a hora de enaltecer incompletudes.

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Guarda-rios

Meu avô era apaixonado por passarinhos.
Curiós, canários, coleiros.
Todos confinados em gaiolas
desde o nascimento.

Ele os alimentava
e sentia um amor profundo
tenho a certeza.
Cantavam
à revelia de suas prisões.

O raríssimo guarda-rios anão de Mindanao
foi fotografado
Hoje
pela primeira vez
em cento e trinta anos.

Um golfinho espalha sua linguagem
Cósmica
nos canais azuis de Veneza.

A Natureza se refaz
Magistral
enquanto o vírus humano
está em quarentena.

Meu avô confinava passarinhos
e eu sei o amor que tinha por eles.

Hoje,
Enjaulados,
vejo o amor
que o planeta
ainda tem por nós.

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Às avessas

 

“Para além das ideias de certo e errado existe um campo. Eu me encontrarei com você lá”  Rumi

 

Esta noite sonhei com alguém que fez parte do meu convívio íntimo por anos. Eu e ele,  apesar de vivermos próximos, nunca nos aturamos. No sonho havia uma estrada repleta de buracos e desfiladeiros. Eu conduzia a partir do banco de trás, com dificuldade, desviando do perigo. Um caminhão, desgovernado, ultrapassava-me e capotava, logo a seguir. Parei, aturdida. Meu desafeto saia da mata, inconformado com a cena grotesca. Reconhecíamo-nos, pois, a assistir os destroços do veículo. Ele me abraçava, chorando. Juntos, buscamos socorrer os passageiros. Não havia ninguém.

Olhei-o nos olhos e o questionei, mentalmente: “por qual razão sempre foste tão duro comigo?” Ele, desamparado, respondeu, também em silêncio: “porque jamais tolerei a tua capacidade de ser frágil.”

Acordei aliviada, a sentir uma reparação, vinda do Universo.

Acolheria-o, se pudesse, imediatamente no meu colo, afagaria seus cabelos, conectar-me-ia com a sua dor. Eu não sou uma pessoa rancorosa.

Ao descobrir o livro de Marshall Rosenberg, Comunicação Não Violenta, tive o ímpeto de pedir perdão a todos os seres humanos com os quais convivi. Pai, mãe, irmãos, amigos de infância, ex-namorados, colegas de trabalho. Para alguns pude enviar pequenos textos. Para outros enviei mensagens através das meditações. Contudo, jamais tive a coragem de escrever para a personagem do sonho. Foi uma profunda libertação cármica.

Sei que posso parecer arrogante, superior, ao declarar isso. Mas é o inverso. Sou imensamente falha com os meus. Inúmeras vezes fui ingrata com aqueles que mais amo. Sinto que, com eles, posso errar.

Talvez a linguagem seja o maior paradoxo humano.

A palavra é o amor mais doloroso da minha vida. Nasci, sem a menor possibilidade de escolher, em uma família literária. Em nenhum momento tive chance com os lápis de cor, telas, instrumentos musicais.

A escrita foi-me, desde menina, a maior de todas as libertações. Não sei falar, posso escrever. Não sei pedir perdão, posso escrever. Não sei amar, posso escrever.

Escrever em uma tempestade, encostada no caixote do lixo. Escrever, com a caneta violeta e cheirosa, no papel de carta. Escrever um bilhete no caderno rasurado. Escrever antes de viver, escrever acima do vivido, escrever para seduzir o interlocutor. Escrever.

No nascimento da minha irmã: escrevi. Ao perder meu namorado, na oitava série, escrevi. Para dominar o pavor que sentia, escrevi. Sinto que não existo, desprovida dessas armas sutis, escritas.

Por que as confissões, não escritas, parecem tão laboriosas?

Dizem que há um outro planeta, muito semelhante à Terra, onde são todos telepatas.

E se fôssemos todos telepatas? O que aconteceria com nossas relações, caso os outros soubessem verdadeiramente o que se passa dentro de nossas mentes vis? O que aconteceria com a literatura?

A comunicação, quando afastada da vulnerabilidade, leva-nos à violência. Somos treinados, desde crianças, a esconder nossos desejos, a travestir nossas carências, a ocultar as fraquezas. Entanto, há mais magia em sermos incompletos. E a poesia nos devolve esse sentimento. A poesia livra-nos da sordidez.

Hoje, ao acordar, mentalizei esse ser humano que fez parte da minha existência. Essa pessoa que eu julguei ter-me feito mal. E a ele pedi perdão. E a mim também. Libertei-me dessas memórias não afetivas. Espero que um dia possamos nos encontrar, em absoluta fragilidade, no mundo invertido.

Quem sabe, em uma manhã de outono, acordarei desarmada, telepática.

Enquanto isso vou enfrentar a realidade com poesia, escrever delírios, revisitar meus fantasmas no porvir.

 

Dedico este texto ao meu querido amigo Adriano Toloza, aquele me ensinou a olhar para os paradoxos com afeto.

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Milagres em Sigilo

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Para André Pratas

Há uma cousa peculiar, cá, no mundo invertido, que diz respeito aos milagres. É o anonimato. Não conheci, em nenhum outro lugar do mundo, um país que abrigasse tantos e tão diversificados milagres, em absoluto silêncio.

As águas em Portugal são milagrosas. Uma delas, a água das pedras, gaseificada naturalmente, pode vir de chuvas que ocorreram há mais de dez mil anos. Com um gosto levemente salgado, é capaz de curar todos os tipos de enfermidades: ressacas, dores de estômago, envelhecimento das células.

Eu, que fui até então viciada em coca-cola, há muito tempo já não tenho a menor vontade de trocar uma água das pedras pelo refrigerante. Em todas as horas do dia: de manhã, com café e pastel de natas; de noite para tentar impedir o álcool de assombrar meu espírito; e novamente de manhã, caso o vinho tenha sido em demasia. Alguns meses atrás aprendi, contudo, outro segredo dessa bênção: não se deve bebê-la gelada. E sabe bem na mesma.

A segunda água que é milagrosa não fui eu que descobri. Uma amiga, filha de oftalmologista, contou-me que seu pai não podia acreditar no ocorrido com uma paciente. A mulher, quase cega, veio para alguma região portuguesa e depois de levar a água à face, não precisou mais ser operada. Sua visão sarou completamente. Tentamos descobrir onde está essa fonte poderosa mas, como disse no início, aqui os milagres preferem ficar incógnitos.

Contarei sobre a terceira água milagrosa – porque eu fui curada com ela. Em 2018, depois de passar por um trauma, fiquei profundamente fragilizada. Andar se tornou uma obsessão, proveniente do estresse que passei. Necessitava flanar por Lisboa, às vezes o dia todo. Em alguns deles, cheguei a contabilizar os 40 quilômetros. Meu espírito me dizia que os passos me seriam capazes de controlar a angústia. O azul me protegeria da desumanidade vivida. As colinas apaziguariam as memórias. Tudo em vão.

Em volta do meu joelho direito, que já foi operado, formou-se um edema gigantesco. Ironia das águas. Mal conseguia colocar o pé no chão. E o verão ignorou completamente meu sofrimento.

Um dia, sem conseguir me mexer, recebi um telefonema para ir à praia de Avencas, na linha de Cascais:

– Não posso, mal consigo andar – respondi, tristíssima.

– Foda-se, Mari, estás parva? Estou a convidar-te justamente por isso. A praia de Avencas é famosa por curar os ossos. Há até um sanatório para os velhotes lá. Vais ver que teu joelho estará recuperado, depois de um banho de mar. Confia em mim.

Pensei no nível de loucura desse amigo. Eu sou fiel aos loucos. E mais fiel ao absurdo, ao imponderável, ao milagre. Nunca confiei na realidade. Decidi, pois, aventurar-me com ele, já que não precisaríamos do comboio. Ele me levaria de boleia em seu carro.

Chegamos à praia. Pequenina e doce. Abarrotada de gente. Um bar fica logo à direita. É preciso descer as escadas para ter acesso ao mar. Meu amigo, um verdadeiro lorde, ajudou-me com a perna, imóvel.

O calor era brutal mas incapaz de acalmar a gelidez da água. Sentei-me numa pedra porque meus pulmões quase congelaram, no primeiro mergulho. Foi quando aconteceu o milagre: peixinhos amarelos dançavam à minha volta. Senti o golpe. Três facadas marinhas, travestidas de arrepios. Diretamente no meu joelho direito. Submergi, novamente, implorando aos deuses aquáticos para que me preservassem o respirar, no retorno. Era humanamente impossível permanecer mais tempo naquele oceano.

Levantei, ainda incrédula. O edema já não fazia parte de mim. Caminhei na areia, esticando todos os membros do corpo. Olhei para o meu amigo, embasbacada. Ele assentiu, como se o milagre fosse o óbvio. Não havia inchaço, não havia dor.

Uma melancólica sensação tomou conta do meu enternecimento. Como seria possível curar, em questão de segundos, um trauma que durou 13 dias? Em quais magias navegam esses portugueses, que não contam a ninguém seus santos? Por que não estranham esses acontecimentos? Por um átimo de segundo senti que D’us finalmente se rendia às minhas injúrias. A vida reverenciava meus sortilégios.

Minha mãe, desesperada com os meus abismos, decidiu passar uma temporada em Lisboa. Aquele ímpeto maternal. A tentativa de deitar fora minhas mazelas, de botar unguentos na minha alma. Levei-a imediatamente à praia de Avencas, na estúpida tentativa de curar suas ruínas. Pena que ela não seja crédula como eu.

Ao subirmos as escadas, para comer um camarão e tomar uma imperial, vimos a placa do bar: não é permitido entrar molhado, descalço ou com areia. Mundo invertido.

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A igreja profana

A noite estava gelada. O vento atravessava os cem quilômetros por hora. Quase nenhum ser humano saia às ruas. Eu, que não carrego a normalidade nas veias, jamais me importei com a magnitude do frio. As chuvas, invernais, causavam-me muito mais desespero. Em partes porque, naquela época, meus pés escorregavam nas calçadas. Não cair era um trunfo diário.

Que saudades daquele novembro, 2008!

Matilde estava se despedindo de Lisboa. Depois de dois meses, concluía o intercâmbio. Ela, formada em Letras, tradutora, conheceu Clarice Lispector pela minha voz. Tive uma tremenda sorte de a ter cruzado em minha breve estadia na cidade. Eu havia alugado o quarto, em uma vila operária, na travessa das Recolhidas, ao pé do Campos Mártires da Pátria.

Quando adotei a casa, não fazia ideia das personagens que chegariam depois de mim. Primeiro veio o Wagner, um paulistano de quarenta anos, solteiro, bizarro. Nunca tinha morado sozinho, como eu. Era fissurado em aeroplanos. Acordava às seis da manhã para colocar seus brinquedos a voar. Não fazia a menor ideia de como se cozinhava. Eu, que me considero uma péssima cozinheira, compadecia-me da sua inabilidade. Com receio, também, das suas esquisitices. Trancava-me, às vezes, no quarto, à espera que ele saísse. Ele insistia em contemplar a solidão.

Matilde, porém, chegou em um dia azul, travestido de primavera. O mais pequeno dos três dormitórios estava à sua disposição. Ela não falava muito português. Cabelos negros e invejáveis, um sorriso misterioso. Ar de realeza. Vinha da Galiza, onde as línguas se misturam e se esquecem de pertencer a territórios. Tornamo-nos amigas e confidentes, desde o primeiro cumprimento.

Uma dor inenarrável me engolia, com a partida dela. Para além da ausência, há qualquer cousa que nos toma, quando perdemos a companhia, nessa trajetória inexplicável que permeia o estrangeiro. Pensei, então, em fazer uma surpresa e levá-la ao sítio que me foi recomendado, por inúmeros residentes.

Alfama.

Passamos três horas à procura. Xinguei todos os deuses e reclamei por sete vidas, naquela espera. Eu, que odeio esperar, que odeio me perder. Quando finalmente desistimos, chegamos. Obviedades de quem precisa curar as cármicas demoras.

A porta era ínfima. O entorno, silencioso. Será que haveria o tesouro prometido, atrás daquilo? Batemos. Um homem muito estrábico, muito mais estrábico que a conjunção de todos os existencialistas, atendeu. E nos deixou entrar.

Um universo mínimo abriu-se, à nossa volta. Mesas quadradas e jogadores de xadrez. Senhores com guitarras portuguesas e vozes de fado. A dona, atrás do bar, antipática, bravíssima, parecia uma entidade de outro planeta, mais delicado.

Alguns bêbados se juntaram às cantorias e o mínimo se transformou em cósmico. O barulho, no entanto, desfavorecia o habitat. Teriam que fechar, pelo medo às denúncias de vizinhos. Eu só agradecia por ter acessado o lugar mais belo que existia no mundo.

Às três da manhã, embalados pelo vinho e pela música, fomos convidados a nos retirar.

A Lua acalmou os ventos.

Os antigos frequentadores nos convocaram, então, a saborear o fim da noite, na igreja:

– Na igreja? – disse, com profundo pavor pelos instantes futuros.

– Não é uma igreja usual, podes confiar em mim. Moro ali ao pé – retrucou Jorge, o fadista vadio, surpreso com a minha indignação.

Passamos pelo Beco da Maria da Guerra, antes de subir as escadas. Uma esplanada imensa, branca, repleta de árvores e ancestralidades. O belo miradouro, encharcado pelo Tejo e pelos telhados encarnados.

A cruz, à esquerda, daquelas em que Cristo não reside.

Aos poucos, músicos foram chegando. Será que ouviram os chamados, indubitáveis?

Como é possível, meu D’us, uma igreja condensar essa malta dissidente?

 

Não houve santos, nem castidade. Apenas alma e poesia.

Saímos de lá às sete da manhã.

Exaustos.

Matilde apanhou o comboio. Eu fui trabalhar. Estarrecida de não ter comigo alguém que testemunhasse, uma vez mais, a surrealidade.

Quando retornei ao bar, na semana seguinte, sozinha, percebi que a igreja fazia parte do espetáculo.

Violões, guitarras, flautas, percussões, trompetes.

Ébrios, todos os amores e todas as sandices eram abençoados por Santo Estêvão.

Sem imagens, sem sacrifícios.

Pensei em escrever à Matilde, imersa em uma nostalgia inconsolável.

O amanhecer mais belo de toda a minha existência foi ali, no instante em que vi o profano acarinhar as estrelas.

Na parede, insuportavelmente virgem, os dizeres, pichados:

 

“É tão difícil

guardar um rio

quando ele corre

dentro de nós”.   

Jorge Souza Braga

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Neon

Neon

Ele devia ter uns oito anos. Eu, uns três. A gente assistia, de forma ininterrupta,  História sem Fim. Eu era completamente apaixonada por aquele menino. Ficava a imaginar que era meu Atreyu.

Não sei quando percebi que ele era anão. Minha excêntrica memória não me permite acessar essa descoberta. Desde então, tenho uma profunda admiração por anões. Virou quase um fetiche, quando me deparei com a volúpia que contorna Peter Dinklage, o Tyrion Lannister.

Eu contava essa história a dois amigos de infância de uma amiga querida, aqui no mundo invertido. Estávamos em um restaurante, ao pé da Sé, conhecido pelas amêijoas à Bulhão Pato e seus garçons piadistas. Nenhum tio do pavê se sentiria tão humilhado, nesse dia, se ouvisse a comédia de erros a qual assistimos. Piada ruim vira a maior piada do mundo, se a companhia é certeira.

Já saímos um pouco embriagados e, acima de tudo, atordoados pela infinitude que cercava o cérebro daqueles garçons, incansáveis em encontrar o cúmulo dos absurdos. Era a final da Libertadores e todos os nossos corações já sabiam da alegria que nos viria encontrar, em algumas horas.

Fomos descendo, agradecendo o existir ao cruzar o miradouro das Portas do Sol. As cores mudavam, a cada tocar dos sinos, entre amarelos, azuis improváveis e encarnados divinais. O céu dessa cidade está além de todas as psicodelias.

Na encruzilhada da Mouraria, ao fim da rua dos Cavaleiros, avistamos uma personagem absolutamente surreal, frente às conversas de antes: uma anã com um colete fosforescente.

Ali é um sítio conhecido por circulação de entorpecentes e prostituição. Um contraste com a Lisboa betinha, cafona, rica. Esta é uma junta de freguesia de imigrantes, miscigenações, conflitos.

A anã, bravíssima, orgulhosa e nem um pouco discreta, pulava por cima dos carros para verificar possíveis ações policiais ou eventuais clientes. Eu fiquei extasiada em ver a cena. Parecia que os deuses – que me conhecem muito bem – presentearam-me com uns takes de Fellini.

O Flamengo foi campeão. Pensei no meu tio, que foi médico deles e recebeu uma homenagem quando deixou esse plano. Chorei litros, com algumas esperanças renovadas em ser humana. Tivemos uma noite inenarrável.

Entanto, eu jamais me esqueci da anã, dona da boca. Era uma das materializações mais incríveis do mundo invertido. Assim, sempre que podia, passava pelo seu ponto, à espera de encontrá-la novamente.

Eu não sou jornalista, mas filha deles. Há qualquer cousa que clama pela investigação, dentro da minh’alma.

Foi então que, em uma despedida de visitas, a última ceia lisboeta deles, descemos as ruas da Graça, para almoçar no chinês clandestino que toda a gente conhece. Poderia ser mais uma anedota invertida. Eu contei a história da mulher que era a rainha daquela zona, soberana.

Disfarçada com o colete neon, lá estava ela. A orquestrar aquela gente toda. A entrar nas lojas e confiscar guarda-chuvas, meias ou qualquer utensílio que lhe apetecesse. Ela é a rainha e, como é óbvio, não paga por isso. Percebi seu olhar, cuidadoso.

Do outro lado da rua, melancólica e indecisa, pousada na parede triste da esquina, havia uma travesti de moletom.

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Bacalhau com natas

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“Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribundos.

Aquela relação que há entre o sono e a vida é a mesma que há entre o que chamamos vida e o que chamamos morte. Estamos dormindo, e esta vida é um sonho, não num sentido metafórico ou poético, num sentido verdadeiro.

Tudo aquilo que em nossas actividades consideramos superior, tudo isso participa da morte, tudo isso é morte. Que é o ideal senão a confissão de que a vida não serve? Que é a arte senão a negação da vida? Uma estátua é um corpo morto, talhado para fixar a morte, em matéria de incorrupção. O mesmo prazer, que tanto parece uma imersão na vida, é antes uma imersão em nós mesmos, uma destruição das relações entre nós e a vida, uma sombra agitada da morte.

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.

Povoamos sonhos, somos sombras errando através de florestas impossíveis, em que as árvores são casas, costumes, ideias, ideais e filosofias.

Nunca encontrar Deus, nunca saber, sequer, se Deus existe! Passar de mundo para mundo, de encarnação para encarnação, sempre na ilusão que acarinha, sempre no erro que afaga.

A verdade nunca, a paragem [?] nunca! A união com Deus nunca! Nunca inteiramente em paz mas sempre um pouco dela, sempre o desejo dela!”

Autobiografia sem factos, in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

 

As primeiras gotas de chuva se esqueciam de me pingar, protegida pelo ombrelone do quiosque, na Praça de Camões. Alguns minutos antes, em uma conversa digna da faculdade, daquelas em que saímos plenos de coragem e amor pelo existir, senti-me ínfima, perante o alumbramento. Meu amigo foi embora e eu tinha a obrigação de desvendar os caminhos, sedentos de futuro.

Como seria possível retornar à Lisboa, depois de tantos anos?

O choro começou em calmaria. Não havia pelo que desesperar. O voo estava confirmado para a próxima manhã. A cidade parecia destronada, em minha profética ausência. Alguns turistas insistiam em comer pastel de nata. Já não havia mais ninguém na esplanada, além de mim. Do outro lado, um homem com um chapéu de chuva, bem pequenino, tentava proteger seus pertences, coberto pelo telhado do banco. O slogan de um cor de rosa tão familiar, anos 90.

“Se ele ficar um pouquinho mais à esquerda, tiro uma foto primorosa”, pensei. E pedi. Já não possuía nenhuma dúvida, nada me era mais importante do que ser eu, em Lisboa. E, se possível, eternizar aquela noite, aquele dilúvio. Talvez a nossa última separação.

O homem assentiu, como se soubesse do nosso encontro. Depois de tirar umas tantas fotos, dirigindo meu modelo, fui ao pé dele, para agradecer aos instantes cinematográficos.

Só ai é que pude enxergar os seus pertences: meia dúzia de papelões, encharcados. Ele, muito ruivo, barbudo, logo veio reclamar:

– É muito difícil ser morador de rua cá, no Camões. Especialmente quando chove!

– Não posso concordar. Não é fácil ser mendigo em qualquer parte do mundo. O senhor não conhece a Cracolândia, em São Paulo.

David é romeno, mas já mora em Lisboa há treze anos. Fala oito línguas fluentes e é viciado em História.

Fumamos um cigarro. Peguei meu telemóvel, para checar as horas: 20h20. Havia combinado de jantar no Bairro Alto, para me despedir do Matheus, amigo lisboeta de longa data.

Olhei para a beata do cigarro de David. Ela se diluia na calçada de pedra sabão. Talvez mais próxima aos seus sonhos do que ao meu jantar. E decidi. Iria levá-lo para comer bacalhau com natas. Telefonei ao Matheus:

– Vou levar o mendigo para o jantar.

Ele, de família circense, canceriano e leve, nada questionou. Disse-me:

– Óbvio que sim!

Fomos ao Baiuca, na rua da Barroca. A gentileza de Izidro, o garçom, e da Eliana, a dona, já amenizavam as águas e o medo que eu tinha de levar um morador de rua a um restaurante. Pensamento burguês e nefasto.

Por qual razão teria problema em fazer isso?

De qual sociedade eu tentava me esconder, com meu inusitado convite?

De quem eu estava com vergonha, ao dividir uma refeição com outro ser humano?

Pedimos vinho, aceitamos o couvert farto. Esqueci-me dos euros e da lógica mesquinha. Era minha última noite na cidade em que iria viver para sempre, um dia. David ria, contava suas desventuras amorosas, as dores sutis.

Não havia reclamações sobre a comida, sobre o colchão, acerca das estrelas. Matheus e eu ficamos inertes, naqueles relatos tão certeiros, tão nossos. Como é que uma casa pode nos afastar tanto de alguém que também sonha os óbvios?

Decidi continuar a festa com o mendigo. Fomos à Alfama, ouvir clássicos fadistas, jovens brasileiros e toda a gente que se dispôs a tocar um instrumento, entre o Beco do Vigário e a igreja de Santo Estêvão.

E eu, não sentia pena alguma de pagar uns copos para o gajo. Sentia era pena de mim, obrigada a apanhar o voo, às 10 da manhã. Alfama amarelecia a minha ira, a fome, a lucidez. E as horas passavam entre ginjas e silêncios. Em poesia e despejos. Entre o cúmplice e o cárcere.

No dia a seguir, perdi o voo e o trabalho.

Tive de deixar Lisboa, pela última vez, dois dias depois.

Passei exatos seis meses em São Paulo, arquitetando a espera, condenando a saudade, suplicando por aqueles papelões na praça.

Quando voltei, ao mesmíssimo restaurante, com os olhos repletos de quimeras e os julgamentos afiados, fui surpreendida:

– Mariana, o mendigo foi o maior presente que esse restaurante já teve. Ele vem cá toda semana, traz inúmeros gringos e ainda diz que temos o melhor bacalhau com natas da cidade. Tu nos fizeste um bem enorme de o ter trazido.

Aceitei aquelas palavras.

O mundo invertido foi inaugurado naquele instante.

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A memória em vertigem

Democracia em vertigem

“(…)Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa?” Bernardo Soares in o Livro do Desassossego

 

Mnemosyne estava farta daquela espera ancestral. Ébria de viver na antemanhã do futuro, decidiu pôr fim aos séculos de clausura e mansuetude. Seus irmãos, Cronos e Oceanos, já haviam concluído seus reinados patriarcais. A hora de equilibrar sua ira com a potência havia, enfim, chegado.

Filha de Urano e Gaia, a deusa titã da memória, mãe das musas, avó dos aedos, sabia que sua aparição, em terra de mortais, poderia alterar o rumo de todos os périplos cósmicos. Também reconhecera o perigo de adentrar em Lethe, o rio do esquecimento. Ah, como sofrera, imbuída em desalento, quando cada alma anunciava o reencontro à vida!

Será que se lembraria de si mesma? Poderia dançar os cânticos que ela havia escrito? Quando seria venerada pelo Universo?

Sentou-se, à beira das águas, contemplativa. Seriam mais fortes as vicissitudes da existência, ao ponto de fazê-la perder-se por toda a eternidade? Sua partida seria, também, a última chance da humanidade. Como não falhar, desmemoriada?

Despiu-se. Nunca havia sido um corpo antes. Como sentiria ter seios, boca, ventre e pés? Há dor na gravidade? Quais exercícios poderia utilizar, como rituais de purificação?

Mnemosyne, como uma nau que parte de Belém, mergulhou no alheamento, para receber a carne. Cronos, no entanto, foi imperdoável: não a deixaria ter a força de uma entidade, por completo. O deus do tempo conhecia os possíveis desdobramentos de sua fuga: a perda de seu trono. O tempo é quem mais se alimenta da amnésia.

Assim, quando ingressou no planeta, Mnemosyne se fragmentou em doses homeopáticas de memória, em diversos seres ao redor do globo.

A história já não reinava, soberana, na Terra. As mãos dos vencedores perceberam que há outras formas de escrever o mundo. Como não há unanimidade para o que foi vivido, é possível perverter os fatos e distorcê-los, em prol da ignorância.

Clandestina, Mnemosyne se defrontava com sua própria face, em poetas, em canções, em gritos pela democracia. Supliciada pelos pavores que se repetem, inadvertidos.

Seria possível, perdida em tantos rostos, preconizar? Recordava-se, aos poucos, nos corações de seus descendentes, de todas as guerras que havia perdido, milênios e milênios. Evocava as lições apreendidas, nas ditaduras, nos campos de concentração, nos massacres escravocratas, no sorriso banguela dos miseráveis. A descida ao inferno não teria valido a pena? Assistir ao inevitável término, do Olimpo, seria menos doloroso?

Certo dia, ao pesquisar os antigos deuses gregos, conheci Mnemosyne. É engraçado porque jamais havia ouvido falar da deusa que é a guardiã da função poética, a diva da música, a senhora da inspiração possuída. Hesitei. Eu sabia que esse conhecimento iria me mudar. Por que nos afastam, com tamanha canalhice, das verdades mais profundas da humanidade? Por qual motivo a sua feição me parecia tão familiar?

“A memória transporta o poeta ao coração dos acontecimentos antigos, em seu tempo”, dir-nos-á Platão.

Todos os poetas são intérpretes de Mnemosyne. Capazes, como os profetas de escutar o futuro e acessar o invisível. Não à toa, Chico Buarque nos presenteou com o verso, em Choro Bandido: “saiba que os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão”.

Mnemosyne supera o tempo e o espaço, porque aquilo que é, aquilo que foi e o que será, entrelaçam-se, em melodias e poemas. O cíclico, eterno retorno, faz parte da maldição do esquecer. Enquanto houver esquecimento, haverá repetição.

Somos aqueles que lembramos de ter sido?

Contudo, após longa e profunda meditação, desvendei a misteriosa familiaridade com a deusa. Mnemosyne é Lian, que carrega, nos olhos clandestinos, a lucidez da aletheia. Sua memória, implacável, não se curvou a todas as notícias com que tentaram-na massacrar, camuflando o horroroso passado do Brasil. É curioso perceber como, diante de tantas falsidades, ausentar-se da violência é resistir ao fascismo. Porque todo fascista deseja que nos tornemos iguais a ele. Sanguinários e sujos, com o ímpeto de matá-lo. Evadir-se dos absurdos é algo sublime.

Mnemosyne é Petra, que ilumina a intimidade poética de seus ancestrais em narrativas. A inexorável robustez de trazer às pessoas seus afetos. Parcial, como é óbvio. Sem vergonha, nem culpa. Porque só a mentira é travestida de facciosidade.

Numa época em que a história não possui nenhum valor, a memória talvez seja nossa arma derradeira.

Mnemosyne é a sagrada fonte da consciência.

 

 

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Previsões de ontem

 

Nesta madrugada de fim de ano

aqui,

no mundo invertido,

encontro-me sozinha.

Feliz.

 

Os estranhos desígnios cármicos

me levaram ao profeta português:

Gonçalo Anes Bandarra.

 

Nas minhas pesquisas herméticas

só recolho uma certeza:

as profecias jamais invocaram

a presença feminina.

 

Assim, distancio-me delas.

 

Não há futuro sem mulher.

 

Meu desejo mais profundo

ano novo

é acreditar no equilíbrio

entre os sagrados.

 

Inaugurar a fraternidade.

 

Esquecer dos pavores

que enfrentamos,

duais.

 

Bandarra previu Portugal

como desbravador das intuições.

Eu o corroboro,

com o seguinte adendo:

só uma mãe

é capaz de mapear

o coração.

 

Eu não sou mãe.

 

Às vezes, sinto-me indigna

de receber essa missão.

 

Nenhum corpo cresceu dentro de mim,

afora minhas personagens

e devaneios.

 

Sinto-me inferior por isso.

Como se o peso do mundo

não pudesse ter me tocado,

inteiramente,

pela gelidez do meu útero.

 

Tive inúmeras comprovações,

nesse ano do qual me despeço.

Sou pequena,

sou imensa,

fomos todos escritos,

ontem.

 

Tenho medo de não aguentar

o expurgo

que é necessário à evolução.

 

Prometo,

Contudo,

ser a mais atenta:

Ouvir flores e crianças;

Abraçar todos os verdes,

Meditar os azuis.

 

Anotar as palavras

Virgens à minha caneta.

Traduzir as marés,

Límpidas,

reminiscentes

 

Mas,

se já fomos declamados

Em saraus do Olimpo

Por que há tantas letras

(eu as conheço)

que ainda não foram ditas?

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Quando o poeta te lê…

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A propósito do belo livro ‘Viver é Fictício’, de Mariana Portela.

Sabe-se que existem rios ocultos sob as várias colinas de Lisboa. São eles que
levam nas suas águas para o Tejo tranquilo, saudades, amores, culturas, alegrias
e tristezas. Ah! E as Tágides.
Sim, essas ninfas, inspiradoras de poetas, nascem nas águas cristalinas das
fontes subterrâneas das colinas e fazem do Tejo o seu lar.
Mergulhada na poesia de Camões e Pessoa, Mariana Portela, oriunda de outras
geografias, de outras águas e de outras atmosferas, quis conhecer esses seres
mitológicos. Nessa busca, percorreu becos, travessas e recantos da cidade
seguindo os rumores que ouvia nos fados cantados nas tabernas e, sem se
aperceber, apaixonou-se por Lisboa e pelas suas gentes.
Hoje, impregnada pela mística que emana das colinas debruçadas sobre o Tejo,
Mariana faz deslizar pela corrente dos seus textos, ricos em poesia e
introspecção, o amor pela cidade que aprendeu a amar, principalmente, nas
silenciosas horas da madrugada.
A leitura deste livro foi, para mim, uma surpresa muito agradável que venho
recomendando com prazer e com orgulho por ter conhecido a sua autora.

Reinaldo Ribeiro
09DEZ2019

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A divina maldição

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“Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos.” Albert Camus

 

Na madrugada de 19 de junho de 2018, ao deitar-me naquela cama de beliche, camuflada de delito, fechei os olhos e tentei meditar. Uma velha senhora, negra, invadiu a íris do meu terceiro olho. Seus dizeres não habitavam o sonho de poetas ou as linhas proféticas da razão. Sua voz enaltecia meus escuros, em espiral para dentro, exaurida:

“Amanhã vais-te embora daqui. Não é coincidência, sabes bem. Nunca houve nenhuma. É o décimo terceiro dia neste horror. Já aprendeste o essencial. Nós sabemos como esta lição te doeu, querida.

Os dias posteriores serão de festa, como é óbvio. Estarás livre para contar aos teus amigos as desventuras que viveste. Conhecerás, também, as mentiras que cercaram a prisão. Para muitos, existirá a ira, incontrolável. Peço que tenhas calma. Aprendeste, há séculos, com o Miguel, a etimologia do perdão. Sabes, agora, a nulidade do ódio.

Estamos sempre contigo. Não preciso te lembrar de todos os fantasmas e de todas as vezes em que teu polegar ficou trêmulo. Antes dos grandes aconteceres, tua alma e tua lama estavam conosco. Abobadadas de liturgia e de vesúvios.

Vai-te embora, bebé, sabendo que a dor ainda assombrará tuas manhãs e que a noite, inúmeras vezes, poderá te matar. Esquece tudo o aquilo que te foi ensinado. Bizarros, não estranhos, são os desígnios do Cosmos. E nós escolhemos a ti porque a loucura é tua amiga.

Para amenizar a jornada, todos os teus sonhos de criança vão te dar abrigo. Quando pensares em abandonar este périplo, recorda a ervilha que zombava dos teus ossos. Escolheu-se, hoje, aniversário do teu ídolo. Nasceste no mesmo dia do outro. És tu, bebé, a única capaz de compreender-nos. Ajuda-nos a salvarmos a todos.”

Passei a manhã de terça-feira, 19 de junho, sem esperanças ou fantasias. A preta velha, o aniversário do Chico Buarque. Os imigrantes caminhavam, silenciosos, pelo minúsculo pátio do aeroporto. Eu fumava um cigarro atrás do outro, acalentada pela brasa das bitucas. A menininha marroquina corria atrás de mim: – Linda!

Já tinha me acostumado a lavar as roupas com sabonete. Negociava os shampoos com as camaradas africanas. A sopa, do almoço, tomei por duas vezes, em troca do meu pão. Meu acordo com o querido nepalês.

Às três da tarde emprestei meu cartão ao general russo. Ele, que fugira da guerra no Afeganistão. Alertei-o do advogado, ilustre, e a ele concedi meus minutos de conversa, abdicando de ligar ao meu pai. Nenhum exército me ensinou, foi só a minha mãe, há anos. Não devemos, jamais, negar ao outro o que já temos.

Pouco depois, a guarda me chamou, à surdina. “Vais embora hoje, menina! Quero o teu livro, posso?” Eu assenti, guardei minhas roupas. Doei shampoos e sabonetes. A copa do mundo amenizava os tormentos.

Quando saí dali, o corpo era só liberdade. Uma alegria a poucos consentida.

Só quem sabe a sede é tradutor de maresia.

Os dias que a preta tinha falado foram profundamente curtos. Insónia. Se pescasse, quatro horas, odiava-me ainda mais. Como fui covarde em projetar a euforia!

Contudo, o pesadelo não é senhor das letargias. A memória me vinha, ora travestida em saudade, ora estancada em volúpias. Nenhuma angústia seria a mesma. Muito menos a minha, de escritora. Posso terminar essa missão? Como esquecer aqueles rostos, todos, que clamavam por um sítio para viver em Lisboa? Poderia eu ajudá-los a sair daquele terrível confinamento, que quase ninguém conhece?

Em uma dessas andanças ensandecidas pela cidade, evoquei o presente que havia ganhado. Um elixir, composto de cannabis e óleo de coco. Decidi colocá-lo dentro de mim. Encharcar meu ventre em maconha.

Conheci, finalmente, D’us.

O óleo, afrodisíaco, não dizia nada sobre mim. Era apenas uma das formas de almejar prazer. Mas houve qualquer cousa naquele dia, naquele óleo, em mim, qualquer cousa de mulher.

A Mulher.

Lilith.

Primeira de todas, a mãe embriagada, a última feminista, antes dos suspiros. Lilith se apoderou do meu corpo.

Possuída por sua presença, lambuzei-me naquela poção. Estava em casa. Eu e a Deusa e mais ninguém. Decidi ir ao mercado, comprar vinho para ela. Algum pão para a mortal que a carregava. Um incenso doce. Velas brancas. Laranjas.

Um ritual muito invulgar nos aguardava. Botei as ervas a fritar no côco. Acendi todos os cheiros, benditos. Água quente na banheira.

Ela me obedecia, e eu a ela, infusão de bruxaria.

Bebemos os goles de velhice daquele tacho.

Fui me deitar na cama, com o cansaço de milénios que Pessoa tanto me alertou. De repente, estava a dançar códigos galácticos, de um lado para o outro. Sentia que um portal, como o meu nome, abrira-se naquele instante. A espera, estava, enfim, terminada.

Entanto, fiquei três dias sozinha, ensimesmada, aspirando a chegada de um homem. Malditas são as histórias infantis de princesas inertes. Chegaram, pois, minhas amigas, desesperadas com minha possessão. Viram a banheira que fiz, em homenagem ao novo mundo. Escândalo.

No outro dia, quando ouvi meu nome nas vozes delas, abri a porta, farta de aguardar alguém que jamais iria me encontrar. Eram os bombeiros, e a polícia, temendo que eu cometesse suicídio. Definitivamente essas pessoas pouco me conhecem. A morte, para mim, será uma grande festa, da qual não sairei ilesa.

Apesar do aldol na nádega e do absurdo em que me vi, naquela maca de hospital, acordei bem cedo, ainda drogada. E sumi dali, sem deixar testemunha. Apanhei o autocarro, a caminho de Alfama. Um corpo conhece suas moradas e perigos.

Houve, então, a segunda tentativa de me aprisionar. Mas a vida é, por vezes, generosa com os insanos. E eu pude, graças a pessoas muito amadas, permanecer em liberdade.

Pedi perdão para todos os que amei, e desamei. Fui perdoada por alguns deles, em generosidade rudimentar.

Uma depressão abissal me acompanhou, durante meses. Mal conseguia abrir os olhos, todos os dias. Se fui escolhida, onde está o Apocalipse, em sua condição de verdade? Onde foi parar aquele mundo, tão belo, tão perfeito, que construí em curry e resignação?

Em janeiro deste ano, imbuída de utopias, deparei-me com os presságios de Chico Xavier e o fim da quarentena do planeta. Feriu-me imenso voltar a ter esperanças. Entreguei-me a todos os grupos de extraterrestres, em todas as plataformas virtuais.

O Brasil, a cada dia, vai perdendo uma criança negra, um filho pobre, um idoso miserável que necessita de remédios. Por qual razão há tantos ratos dirigindo a nossa nau?

Estaria eu adiantada? Ou já não temos tempo, mãe Terra, de nos refazermos, uma vez mais? Lembro-me dos dilúvios como se fosse agora. Lembro-me dos desertos, das cruzes, das aflições. E que o único de nossos pecados é não estarmos cientes da divindade.

Eu, que tenho visto sincronicidades em toda a Poesia universal. Eu, irreplicavelmente bastarda. Eu, que fugi de tantos socos, dos enxovalhos, da lucidez. Eu que amei tanto essa outra face do Caos, em harmonia com Cronos. Por que diabos me entregaram a luminescência se nada posso fazer em vida?

A existência, nova em folha, atendeu finalmente às minhas súplicas.

Hoje, Mnemosyne esteve em minha casa. Titubeou, antes de esclarecer. Andou, vagarosa, pela imersão do meu banho. E confessou: enquanto a saudade maltratar o teu espírito, nada podemos fazer para acelerar esse processo. Não há homem nenhum, Lilith. Nunca foste gémea de ninguém.

A completude do feminino é, talvez, a última morada da redenção humana.

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Sempre, vens?

“ESPEREMOS: Há outros dias que não têm chegado ainda, que estão fazendo-se como o pão ou as cadeiras ou o produto das farmácias ou das oficinas – há fábricas de dias que virão – existem artesãos da alma que levantam e pesam e preparam certos dias amargos ou preciosos que de repente chegam à porta para premiar-nos com uma laranja ou assassinar-nos de imediato”.

Pablo Neruda

 

Num dia 15 de abril distante, bem antes da tua mamã saber que seria o dia mais importante da vida dela, Reinaldo estava a apanhar o comboio, no Rio de Janeiro. Ele havia pedido demissão da Globo. Estava radiante pois iria começar um novo emprego. A página branca sabe à eternidade.

No outro lado do vagão estava Ana. Ele em pé. Ela sentada. A beleza da menina o deixou embriagado. Quando estava prestes a descer, avistou, inseguro, na comissura de seus lábios, a estreia de um sorriso. Decidiu permanecer na jornada, até o destino dela.

Amaram-se durante vinte e um anos. Entre Lisboa, Moçambique e Rio, inauguraram a caridade. Transformaram-se em infinito, na concepção de seus filhos.

A vida, contudo, também desfigura o amor. O mesmíssimo dia 15 de abril, duas décadas depois, levou Ana para o Paraíso e Reinaldo aos infernos.

Eu vivia me escondendo das sincronicidades, Diè. Fechava os olhos quando via uma cantina. Nunca gostei de pizza. Ignorava os brancos, verdes e vermelhos, todos. Desligava a televisão quando passava um jogo do Inter.

Ai eu descobri Mnemosyne, a Deusa da Memória. Ela, rainha das Musas, irmã de Oceano e de Cronos. Avessa ao contrário da verdade, que é o esquecimento, para os gregos.

A verdade invadiu as minhas manhãs, sem garantir-me a minha sanidade. Por que é que Cronos não para com esses sinais? A cada noite a Lua ia ficando maior, menos pálida, violeta.

Júlia, minha amiga cósmica de cinco anos, escreveu códigos galácticos no meu caderninho. E eu só queria achar o teu nome naqueles escritos. Uma esperança de desmascarar a Universa.

Aproveitei, numa outra tarde, a presença da Júlia para que eu tivesse mais pistas tuas. Ela escreveu um arquivo no meu computador. Ele deveria chamar  “Cidade do Oito”, disse-me.

Domingo foi ano novo judaico. E eu, acometida por Mnemosyne, tive a certeza de que minha bisavó, por amor, mentiu para o mundo sobre a nossa ascendência. Somos judias clandestinas. Clandestina, como aquela frase que escrevi na tua lousa. Clandestino, o amor que vivemos apenas uma estação. Como a felicidade da Clarice.

Naquela noite a memória me veio. Outubro é o mês oito, no calendário romano. Tu vens de Latina, perto de Roma. Sou pessoa de excessos, sabes bem. A vida tem me inebriado da tua presença, o tempo todo.

Não quero mais escrever meus sonhos. Estou exausta de cantar a minha musa.

A máscara foi tudo o que não pintei. Escrever nunca foi sobre a memória, mas sobre o medo do ilimitado. As estrelas, outrora, insultaram o meu silêncio. Fui crime, serei Poesia.

Pensa, amor, que inventamos a saudade. Ela é nostalgia do que já foi. Esperança no que virá.

Milênios são segundos para a eternidade. O instante, contudo, é urgente. Cabe a mim, pois, ensinar o agora a ser para sempre.

Sempre vens?

 

 

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A morte da donzela

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Camões se levantou da estátua, em pleno largo, com sua espada imponente e sua poesia cinza. A manifestação em defesa da Amazónia abrigava a fauna mais diversa. Verdes e amarelos de todas as formas. Tambores.

Nos cartazes, quase todos, erros grotescos de português. Eu ri-me, ao pensar que Camões despertaria com aquela estranha festa. Um casal de pernas de pau, no entanto, protegia-nos da multidão.

O Sol estava se pondo, como acontece nos contos de fada. A luz precisa reverenciar os escuros, para que as transformações se concretizem.

Eu não conseguia parar de obedecer as estrelas, dançando os códigos galácticos que elas me forneciam. Uma nuvem se aproximava, rapidamente. Talvez a nave mãe.

Ah, Universa, como pensei em eliminar esse demónio do planeta! Queimado? Enforcado? Cruxificado? Logo depois me ocorreu a ideia de Camões e sua espada. Que ele iria voando até o Brasil, para atender ao meu desejo.

Contudo, a vontade de o matar era tanta que pensei em lhe pedir a espada e acabar com esse sofrimento, que assola meu povo e atrapalha tanto a evolução. Este pensamento durou apenas um átomo, e me doeu imenso.

Não sou capaz de matar um ser humano. Mesmo os da pior espécie cósmica, que deveriam ser pedras em mundos inferiores. Devolvi a espada a Camões, meu herói, talvez a representação do Pai. Ele fará isso por mim.

Mas, Mariana, e o fim do patriarcado? Vais deixar que um gajo faça isto por ti?

O poeta, pois, volta à sua condição de morte e eu desço, frustrada, a maldita rua onde mora a estátua de meu mestre. Não haveria festa da Ascensão.

Fiquei profundamente irritada contigo. Depois pensei que estavas a me pregar uma peça, pois uma suntuosa alegria me esperava em casa. Eu sempre descobri minhas festas surpresas e achei que, dessa vez, tu irias conseguir me enganar.

Quando cheguei em casa, não havia ninguém.

Fui meditar.

Se os outros são espelhos meus, é uma honra estar em Lisboa, neste momento abominável. As sincronicidades inauguram as esquinas, fartas. Tu, Universa, és muito engraçada. Irónica. Tens espertezas que eu demoro, às vezes, em perceber. Teu senso de humor é deveras peculiar.

As músicas, os sons, as crianças e os amores são reflexos da minha alma.

Por que, então há um monstro tão assustador desgovernando meu país?

Foi ai que Clarice me apareceu, misteriosa e elegante, nas páginas que compõem a Descoberta do Mundo. Ela também decidiu ser mãe do universo. E foi confrontada com um rato morto no meio da rua.

Se aquele desgraçado também sou eu, com seus impropérios e violências, com sua misoginia e vileza, como posso eliminá-lo da minha existência? Será que eu, como D’us, carrego a culpa de ter criado o Mal?

Como é que o mal pode morrer?

Ao exercitar a empatia foi-me fácil reconhecer. Aquele menino que não teve, como eu, livros e mar e mousse de chocolate. Uma família que, provavelmente, nunca se amou. A ignorância em achar que vídeos possam ensinar a história do Brasil. Fiquei triste por eles, com profunda compaixão.

Eu queria poder ensinar as pessoas a serem crianças, uma vez mais. A desaprender o dinheiro. Lembrá-las que elas são deuses enclausurados por obrigações e medo. Sim, é o medo que nos desconecta do divino.

Eu nunca poderia ser mãe da Universa se não amasse o rato que nos assombra, hoje. Ele não está morto, como a da Clarice. E eu já não quero a sua morte, como donzela de outrora. Vou amá-lo e emanar toda a solenidade do amor para todos os ratos. Só uma mãe pode amar assim.

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Em meio ao irritante espetáculo dos dez anos,

memórias violentas de janeiro de 2009.

O primeiro inverno em Lisboa.

Sentia um pouco de ódio pela cidade.

 

Adorava lavar minhas roupas,

numa tentativa grotesca de lavar

a mim mesma.

elas permaneciam úmidas

e tinha medo de apodrecer.

 

Jamais hesitaria em começar

a escrever

às quatro da manhã

como temo agora.

 

Estranhas são as amarras que tecemos

para os nossos talentos

sem traumas aparentes

(onde foi que a literatura me violou?)

 

Há dez anos eu passava

talvez

o mesmo frio

O relógio despertava cedo

 

Outrora, quiçá,

acreditasse em mais sonhos

Ah,

Quem sabe,

ainda não conheça

os sonhos

em que devo acreditar.

 

Terei sido mais feliz?

 

Hoje,

vi personagens irretocáveis.

 

E lembrei:

a escritora que perseguia à altura,

cá está.

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A cidade e os livros

para D. Vanna Piraccini

“O Rio parecia inesgotável 
àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo,
saltar no fim da linha, andar sem medo
no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava
que eu não lhe pertencia — e de repente,
anônimo entre anônimos, notar
eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim —, entrar em becos,
travessas, avenidas, galerias,
cinemas, livrarias: Leonardo
da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca
Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrão
Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis
por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante
ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam: que em princípio
haviam sido escritos para mim
os livros todos. Hoje é diferente,
pois todas as cidades encolheram,
são previsíveis, dão claustrofobia
e até dariam tédio, se não fossem
os livros infinitos que contêm.”

ANTONIO CÍCERO
In A cidade e os livros, 2002

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A cidade em milagres

quarto do pessoa

Eu sabia que na manhã do dia 13 iria acontecer um milagre. É meu dia favorito. Nasci em uma segunda-feira, 13 de junho. Como Lisboa e Fernando Pessoa.

Fui tomar café, sem a menor hipótese de escolhê-lo, em frente à paragem onde estava o senhor cego do dia do milagre do aniversário da Marielle.

Ao meu lado sentou a dona Luísa, com óculos maravilhosos e uma faixa na mão. Eu, que sou extrovertida, atrevi-me a contar que a praia de Avencas é famosa por curar as nossas dores ósseas. Curou o meu joelho no outro dia.

Luísa, daquela música incrível de Tom, nasceu no dia 30 de junho, como duas pessoas que eu amo muito. Uma delas já foi capaz de me curar por duas vezes. A outra eu estou à espera que me cure, ainda.

Não me contive e me ofereci para fazer reiki em seu braço. Compreendi, em harmonia com o Universo, que deveria comer algo, tomar mais café, água das pedras e fumar um cigarro antes de iniciar a sessão mediúnica de cura. Naquele instante uma epifania me acometeu, verde em folha. Eu sou psicóloga.

A dor havia começado dois meses antes, após um desentendimento com uma vizinha polonesa. Minha família veio da Polônia. A vida já pulsava em sincronicidades.

Ficamos ali, nós duas, a conversar sobre a vida. O azul do céu e a simpatia da dona Luísa já seriam milagres para mim. Mas apareceu novamente, enquanto eu falava sobre ele, João, o cego. Ele tomou um tiro na cabeça do amante de sua mulher. “A dor da gente não sai no jornal”, diria o Chico. João também é Quíron.

Nós somos nossos maiores Deuses. E há diversas formas de curar a humanidade. Eu fui capaz de encontrar a minha. Ela envolve o Fernando Pessoa, o Chico Buarque, Lisboa, o número 13 e a Poesia. As sincronicidades da minha vida são pautadas única e exclusivamente nas minhas ideias, convicções, mas, inevitavelmente, naquilo que eu amo. O que eu amo é capaz de chegar até mim e o Universo é generoso. Ele nos pode oferecer tudo o que desejamos. Basta perguntar, com carinho e respeito. Libertos do medo e da culpa.

Se cada um de nós buscar profundamente os próprios Deuses, os próprios fantasmas e as próprias curas, seremos capazes de nos libertar, como Humanidade, para um outro nível de vínculo.

Jung estava certo. Devemos passar pelo processo de individuação, experimentar as oito funções, mas nunca na dualidade luz e sombra, certo e errado, bom e mau. Essas são nossas maiores prisões.

A Poesia é a maior riqueza do homem.

Entanto, é imprescindível que cada um seja capaz de perdoar D’us por ter nascido.

E me perdoem.

Lilith

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Morada

amor

O amor me ensinou a chorar durante o sexo. O amor me distraiu e tropecei em Paris. Amanheci em Lisboa. O amor me fez perder o voo e o comboio. O amor me fez parar na sua cama, sem você estar lá.

Eu vi o amor na manhã de Alfama porque o inventei. Ele tinha sotaque da Sardenha e uma bagunça digna de Monicelli. O amor é leve como o autocarro 758, cheio de anedotas, velhos, cegos e crianças sorridentes.

O amor atravessa as encarnações, em amizades inseparáveis, em ódios mortais, em abismos intransponíveis. Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Monica e Marielle. Hamlet e Ophelia. Hilda Hilst e Nélida Piñon. Clarice Lispector e Lúcio Cardoso. Caetano Veloso e Gilberto Gil. Jung e Freud.

O amor gera filhos lindos, louros, que nos fazem amar ainda mais os nossos companheiros. O amor também acaba, como sabiamente nos profetizou Paulo Mendes Campos. E quando ele acaba sobra o vazio. Às vezes fértil. Às vezes apocalipse. Mas sempre, porque houve amor, há uma galáxia sendo gestada. Há futuro.

Ontem eu me encontrei com o amor numa dedicatória psicografada. E numa música que há anos não ouvia. E vi o amor entrelaçado nas mãos de um casal.

Tenho visto o amor em tudo: nas garagens, nas esquinas, nas ventanias, no azul. E você não está aqui para cantar comigo todas as canções. Não tenho o seu olhar cúmplice, quando apanho o autocarro. Caminho só pela avenida Liberdade. Quando disse que o meu poema favorito do Pessoa era aquele, não havia ninguém para me imitar.

Talvez seja a grande lição da sua ausência: descobrir onde há amor dentro de mim, endereçado exclusivamente a mim mesma.

 

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Estrela da tarde

Carlos do Carmo 

Era a tarde mais longa de todas as tardes
Que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas
Tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca,
Tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste
Na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhamos tardamos no beijo
Que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz
Que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto
Tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite,
Para haver outro dia.
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.

Foi a noite mais bela de todas as noites
Que me aconteceram
Dos noturnos silêncios que à noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.

Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram.

Eu não sei, meu amor, se o que digo
É ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
Dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto.
Meu amor, nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto!

 

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Viver é Fictício em Lisboa

MariTris.jpg

 

Ontem a Marielle faria 39 anos. O meu lançamento, em São Paulo, foi um dia depois de sua morte. Hoje, estreio meu filho, em Lisboa, junto ao meu irmão de alma, Flavio Tris, e celebro o nascimento de Marielle. Coincidência? Eu nunca acreditei nesta palavra.

Sincronicidade.

Quando voltava para casa, nesta tarde, à espera do autocarro, tive imenso desejo de tomar café. Decidi cruzar a rua. A moça que me atendeu disse, em presságio:

– Vais sentar para beber o café e o autocarro vai chegar!

Não me importei. A descoberta do aniversário de Marielle me alumbrou em uma esperança muito mais doce que os dezanove minutos que me atrasariam, naquele instante. E a vida é feita dessas pequenas clarividências silenciosas.

Ao terminar o café, voltei à paragem do autocarro. Lá estava um senhor cego que precisaria de alguém para o orientar. Perguntei se ele esperava pelo 735, como eu. Ele assentiu. Explicou-me, ainda, que todos têm o prefixo 7 por conta das colinas da cidade. Entramos no autocarro e indaguei qual era a sua paragem. Ele me respondeu que desceria já na próxima. Uma velhota, atenta, depois que ele saiu, veio me esclarecer, à surdina:

– Ele não gosta de ser ajudado por ninguém.

Ri-me, sozinha. Lisboa é mesmo uma cidade mágica. Um cego que odeia ser ajudado! Que maravilhoso! Depois disso, no mesmo ônibus, vi dois idosos que se recusaram sentar no lugar reservado a pessoas de idade. Cada um deu desculpas distintas. Mas, cá, nos meus olhos de escritora, estava nítido: ninguém quer que a idade seja estampada na cara.

Por não estarmos distraídos, como diria Clarice, percebemos as conexões cósmicas que nos cercam.

Nós, os loucos, os psicóticos, os bêbados, os desencontrados, os excluídos, os gays, as travestis, as mulheres, as putas, os corruptíveis, os sensíveis, os destroçados, os carinhosos, os inconformados, os insones, os desempregados, os estrábicos, os desapontados, os sofredores, as crianças, os mendigos, os cegos, os surdos, os introvertidos, os torturados, os aleijados, as minorias, os angustiados, os depressivos, as ralés de todas as origens somos aqueles que estamos ligados à uma sintonia maior. Porque buscamos o sagrado, o tempo todo.

“Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha”, disse Bernardo Soares.

Mas nós, os lúcidos, aprendemos, ao longo dessa árdua luta contra o ego, em busca de nós mesmos, que os papéis, inúmeras vezes, estão invertidos. O casamento é falso. O traficante é bom. O rico é devasso. O padre é pedófilo. Não se deve cobrar pela generosidade.

Tamanhas obviedades parecem-me tão claras, agora. Mas nem sempre aconteceu assim. Foi-me preciso alcançar o último degrau de minha solidão para chegar até aqui. Comigo e com os comigos de mim.

Nessa trajetória, entre Lisboa, Zurique, São Paulo, Aeroporto da Portela e, finalmente Lisboa, descobri que a Poesia foi (e é) a maior prisão da minha vida. E dela jamais me libertarei. Embora não tenha vivido a beleza triunfal nestes tempos de trevas, alcancei a poética da solidão. Pude libertar, enfim, as minhas palavras, e todas as correntes que carreguei, ancestrais.

Obrigada, queridos amigos, por testemunharem, enfim, a minha verdadeira estreia.

Às minhas Babuskas.

Às Deusas.

À Lilith

À Empatia.

Ao Perdão.

Ao Miguel Angelo Perosa, meu terapeuta.

Ao Santo António, Cristo e Santo Estêvão.

Ao Fernando Pessoa.

À Lisboa.

Ao meu pai, aos meus irmãos. À minha família. À minha mamã.

À sincronicidade, maior do que o destino.

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Não tenho pressa

“Não tenho pressa: não a têm o sol e a lua.

Ninguém anda mais depressa do que as pernas que tem.

Se onde quero estar é longe, não estou lá num momento.

Sim: existo dentro do meu corpo.

Não trago o sol nem a lua na algibeira.

Não quero conquistar mundos porque dormi mal,

Nem almoçar o mundo por causa do estômago.

Indiferente?

Não: filho da terra, que se der um salto, está em falso,

Um momento no ar que não é para nós,

E só contente quando os pés lhe batem outra vez na terra,

Traz! na realidade que não falta!

Não tenho pressa. Pressa de quê?

Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.

Ter pressa é crer que a gente passe adiante das pernas,

Ou que, dando um pulo, salte por cima da sombra.

Não; não tenho pressa.

Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega –

Nem um centímetro mais longe.

Toco só aonde toco, não aonde penso.

Só me posso sentar aonde estou.

E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,

Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,

E somos vadios do nosso corpo.

E estamos sempre fora dele porque estamos aqui.”

20-6-1929

Alberto Caeiro/ Fernando Pessoa, meu amor maior

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Desassossegar

Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez.

A monotonia das vidas vulgares é, aparentemente, pavorosa. Estou almoçando neste restaurante vulgar, e olho, para além do balcão, para a figura do cozinheiro, e, aqui ao pé de mim, para o criado já velho que me serve, como há trinta anos, creio, serve nesta casa. Que vidas são as destes homens? Há quarenta anos que aquela figura de homem vive quase todo o dia numa cozinha; tem umas breves folgas; dorme relativamente poucas horas; vai de vez em quando à terra, de onde volta sem hesitação e sem pena; armazena lentamente dinheiro lento, que se não propõe gastar; adoeceria se tivesse que retirar-se da sua cozinha (definitivamente) para os campos que comprou na Galiza; está em Lisboa há quarenta anos e nunca foi sequer à Rotunda, nem a um teatro, e há um só dia de Coliseu — palhaços nos vestígios interiores da sua vida. Casou não sei como nem porquê, tem quatro filhos e uma filha, e o seu sorriso, ao debruçar-se de lá do balcão em direcção a onde eu estou, exprime uma grande, uma solene, uma contente felicidade. E ele não disfarça, nem que razão para que disfarce. Se a sente é porque verdadeiramente a tem.

E o criado velho que me serve, e que acaba de depor ante mim o que deve ser o milionésimo café da sua deposição de café em mesas? Tem a mesma vida que a do cozinheiro, apenas com a diferença de quatro ou cinco metros — os que distam da localização de um na cozinha para a localização do outro na parte de fora da casa de pasto. No resto, tem dois filhos apenas, vai mais vezes à Galiza, já viu mais Lisboa que o outro, e conhece o Porto, onde esteve quatro anos, e é igualmente feliz.

Revejo, com um pasmo assustado, o panorama destas vidas, e descubro, ao ir ter horror, pena, revolta delas, que quem não tem nem horror, nem pena, nem revolta, são os próprios que teriam direito a tê-las, são os mesmos que vivem essas vidas. E o erro central da imaginação literária: supor que os outros são nós e que devem sentir como nós. Mas, felizmente para a humanidade, cada homem é só quem é, sendo dado ao génio, apenas, o ser mais alguns outros.

Tudo, afinal, é dado em relação àquilo em que é dado. Um pequeno incidente de rua, que chama à porta o cozinheiro desta casa, entretem-no mais que me entretem a mim a contemplação da ideia mais original, a leitura do melhor livro, o mais grato dos sonhos inúteis. E, se a vida é essencialmente monotonia, o facto é que ele escapou à monotonia mais do que eu. E escapa à monotonia mais facilmente do que eu. A verdade não está com ele nem comigo, porque não está com ninguém; mas a felicidade está com ele deveras.

Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha. O caçador de leões não tem aventura para além do terceiro leão Para o meu cozinheiro monótono uma cena de bofetadas na rua tem sempre qualquer coisa de apocalipse modesto. Quem nunca saiu de Lisboa viaja no infinito no carro até Benfica, e, se um dia vai a Sintra, sente que viajou até Marte. O viajante que percorreu toda a terra não encontra de cinco mil milhas em diante novidade, porque encontra só coisas novas; outra vez a novidade, a velhice do eterno novo, mas o conceito abstracto de novidade ficou no mar com a segunda delas.

Um homem pode, se tiver a verdadeira sabedoria, gozar o espectáculo inteiro do mundo numa cadeira, sem saber ler, sem falar com alguém, só com o uso dos sentidos e a alma não saber ser triste.

Monotonizar a existência, para que ela não seja monótona. Tornar anódino o quotidiano, para que a mais pequena coisa seja uma distracção. No meio do meu trabalho de todos os dias, baço, igual e inútil, surgem-me visões de fuga, vestígios sonhados de ilhas longínquas, festas em áleas de parques de outras eras, outras paisagens, outros sentimentos, outro eu. Mas reconheço, entre dois lançamentos, que se tivesse tudo isso, nada disso seria meu. Mais vale, na verdade, o patrão Vasques que os Reis de Sonho; mais vale, na verdade, o escritório da Rua dos Douradores do que as grandes áleas dos parques impossíveis. Tendo o patrão Vasques, posso gozar o sonho dos Reis de Sonho; tendo o escritório da Rua dos Douradores, posso gozar a visão interior das paisagens que não existem. Mas se tivesse os Reis de Sonho, que me ficaria para sonhar? Se tivesse as paisagens impossíveis, que me restaria de impossível?

A monotonia, a igualdade baça dos dias mesmos, a nenhuma diferença de hoje para ontem — isto me fique sempre, com a alma desperta para gozar da mosca que me distrai, passando casual ante meus olhos, da gargalhada que se ergue volúvel da rua incerta, a vasta libertação de serem horas de fechar o escritório, o repouso infinito de um dia feriado.

Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar. O ajudante de guarda-livros pode sonhar-se imperador romano; o Rei de Inglaterra não o pode fazer, porque o Rei de Inglaterra está privado de ser, em sonhos, outro rei que não o rei que é. A sua realidade não o deixa sentir.

s.d.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.

– 56.

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Nossa conexão cósmica

No dia brancamente nublado entristeço quase a medo

E ponho-me a meditar nos problemas que finjo…

Se o homem fosse, como deveria ser,

Não um animal doente, mas o mais perfeito dos animais,

Animal directo e não indirecto,

Devia ser outra a sua forma de encontrar um sentido às coisas,

Outra e verdadeira.

Devia haver adquirido um sentido do «conjunto»;

Um sentido, como ver e ouvir, do «total» das coisas

E não, como temos, um pensamento do «conjunto»;

E não, como temos, uma ideia do «total» das coisas.

E assim — veríamos — não teríamos noção de conjunto ou de total,

Porque o sentido de «total» ou de «conjunto» não seria de um «total» ou de um «conjunto»

Mas da verdadeira Natureza talvez nem todo nem partes.

O único mistério do Universo é o mais e não o menos.

Percebemos demais as coisas — eis o erro e a dúvida.

O que existe transcende para baixo o que julgamos que existe.

A Realidade é apenas real e não pensada.

O Universo não é uma ideia minha.

A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha.

A noite não anoitece pelos meus olhos.

A minha ideia da noite é que anoitece por meus olhos.

Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos

A noite anoitece concretamente

E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.

Assim como falham as palavras quando queremos exprimir qualquer pensamento,

Assim falham os pensamentos quando queremos pensar qualquer realidade.

Mas, como a essência do pensamento não é ser dita, mas ser pensada,

Assim é a essência da realidade o existir, não o ser pensada.

Assim tudo o que existe, simplesmente existe.

O resto é uma espécie de sono que temos,

Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.

Pensar é essencialmente errar.

Errar é essencialmente estar cego e surdo.

Estas verdades não são perfeitas porque são ditas,

E antes de ditas, pensadas:

Mas no fundo o que está certo é elas negarem-se a si próprias

Na negação oposta de afirmarem qualquer coisa.

A única afirmação é ser.

E ser o oposto é o que não queria de mim…

1-10-1917

“Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença,

1994.

– 135.

 

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E daí?

Milton Nascimento/Ruy Guerra

 

Tenho nos olhos quimeras

Com brilho de trinta velas

Do sexo pulam sementes

Explodindo locomotivas

Tenho os intestinos roucos

Num rosário de lombrigas

Os meus músculos são poucos

Pra essa rede de intrigas

Meus gritos afro-latinos

Implodem, rasgam, esganam

E nos meus dedos dormidos

A lua das unhas ganem

E daí?

 

Meu sangue de mangue sujo

Sobe a custo, a contragosto

E tudo aquilo que fujo

Tirou prêmio, aval e posto

Entre hinos e chicanas

Entre dentes, entre dedos

No meio destas bananas

Os meus ódios e os meus medos

E daí?

 

Iguarias na baixela

Vinhos finos nesse odre

E nessa dor que me pela

Só meu ódio não é podre

Tenho séculos de espera

Nas contas da minha costela

Tenho nos olhos quimeras

Com brilho de trinta velas

E daí?

 

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Há poesia em tudo

fernando-pessoa.jpg

Eu era um poeta impulsionado pela filosofia, não um filósofo dotado de faculdades poéticas. Adorava admirar a beleza das coisas, descortinar no imperceptível, através do que é diminuto, a alma poética do universo.

A poesia da terra nunca morre. É possível dizermos que as eras transactas foram mais poéticas, mas podemos dizer (…)

Há poesia em tudo — na terra e no mar, nos lagos e nas margens dos rios. Há-a também na cidade — não o neguemos — facto evidente para mim enquanto aqui estou sentado: há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia na trepidação dos carros nas ruas em cada movimento ínfimo, vulgar, ridículo, de um operário que, do outro lado da rua, pinta a tabuleta de um talho.

O meu sentido interior de tal modo predomina sobre os meus cinco sentidos que — estou convencido — vejo as coisas desta vida de modo diferente do dos outros homens. Existe para mim — existia — um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Encontro toda uma plenitude de sugestão espiritual no espectáculo de uma ave doméstica com os seus pintainhos que, com ar pimpão, atravessam a rua. Encontro um significado mais profundo do que os terrores humanos no aroma do sândalo, nas latas velhas jazendo numa montureira, numa caixa de fósforos caída na valeta, em dois papéis sujos que, num dia ventoso, rolam e se perseguem rua abaixo. E que poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus em plena consciência da sua queda, atónito com as coisas. Como de alguém que conhecesse a alma das coisas e se esforçasse por rememorar esse conhecimento, lembrando-se de que não era assim que as conhecia, não com estas formas e nestas condições, mas de nada mais se recordando.

Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação.

Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966.

– 14.

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O óbvio lancinante

imagem the ljilja

Sil Guimarães

a morte é um milagre: ela vem leva um
e outros morrem ao redor de quem foi:
todo morto nunca é um só na sua dor

não existe rota de fuga não há esconderijo
ela chega e acaba com as flores pássaros
espaço consciência memória tempo beleza

descobre códigos senhas mapas da cidade
nada está a salvo: nada segura a sua gula
nenhuma valentia lhe dobra a arrogância

nunca mais eu te amo, te ligo amanhã
nunca mais essa música: olha que triste
nunca mais aquela viagem aquela droga

fica faltando um verso no poema impossível
tudo o que podia ter acontecido e não vai ser
o morto carregando seus mortos que respiram

bendita seja a morte: essa rainha da liberdade
que me faz rastejar nesse escuro dia das mães

 

(imagem ljilja)

 

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A confecção de um mapa mental amado

As práticas mais refinadas de coaching, nos últimos tempos, possuem a Neurociência como principal fonte de saber. Assim, a compreensão do funcionamento cerebral nos auxilia a obter resultados incríveis com os coachees, e um maior nível de satisfação de ambas as partes. O conhecimento científico é, sem sombra de dúvidas, o maior aliado para as técnicas visionárias de desenvolvimento humano.

Nossa metodologia, pautada nos estudos de David Rock, ensina-nos que é preciso estabelecer três principais objetivos para o processo de coaching. Estes objetivos são extraídos em um processo que se assemelha à lapidação de uma pedra preciosa, e é dividido em quatro etapas distintas:

  1. Extração – áreas da vida relevantes ao coachee;
  2. Refinamento – redução dessas áreas para três;
  3. Lapidação – criação de métricas específicas para cada uma das áreas eleitas;
  4. Polimento – transformar cada objetivo em algo inspirador, sucinto e motivador para o coachee.

É fundamental que o coachee, no início do processo, esteja totalmente aberto à uma sessão de brainstorming, na qual não se deve questionar tudo aquilo que venha à sua mente. Quanto mais aberto ele estiver, mais chances ele tem de trazer à tona os seus principais desafios e desejos de mudança.

Depois de listadas todas as áreas relevantes de sua vida, é necessário reduzi-las, posto que um processo de coaching tem um tempo de duração (normalmente de três meses ou 12 sessões) e também para garantir que os objetivos sejam alcançados. Quando o cérebro se dispersa, fica muito mais difícil de atingir aquilo que foi inicialmente proposto.

Contudo, é extremamente importante que os coaches tenham em mente algumas descobertas da Neurociência, que associam o cérebro ao coração. Quando o coração está completamente conectado aos objetivos, é muito mais fácil de alcançá-los. Ou seja, um objetivo que seja verdadeiramente “amado” pelo coachee, possui muito mais chances de ser efetivo, como mudança em sua vida.

Os estudos recentes que comprovam a ligação entre coração e cérebro

Um dos estudos prestigiados que transformam essa conexão em ciência foi feito na Inglaterra, por Marcus Gray, da University College de Londres, e publicado na edição da revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, a “PNAS”.

Os pesquisadores estudaram pacientes com problemas cardíacos, durante tarefas experimentais levemente estressantes. No geral, as pessoas respondem com o aumento da frequência cardíaca, mas não foram esses os resultados obtidos pela equipe:

“Observamos uma forte associação entre o desempenho cardíaco e a actividade cerebral, o que sugere que algumas regiões do cérebro ouvem atentamente à performance do coração”, conclui.

Os estudos confirmaram que havia grandes alterações no córtex pré-frontal dos pacientes, região relativa à consciência. Em suas próprias palavras:

“Nós encontramos evidências de que a atividade cerebral nas regiões temporal esquerda e lateral pré-frontal está fortemente associada ao desempenho do coração”, diz Gray.

“A nossa pesquisa sugere que regiões evolutivamente mais novas, ou avançadas, também acompanham as batidas do coração.”

Gray aposta que o coração pode, assim, induzir o cérebro a raciocinar diferente, quando está em contato com emoções positivas.

Outro estudo realizado pelo Dr. Rollin McCraty, pelo Instituto HeartMath, uma entidade sem fins lucrativos, afirma que “há um cérebro no coração, metaforicamente falando. O coração contém neurônios e gânglios que têm a mesma função que as do cérebro, tais como a memória. É um fato anatômico.”

O médico acrescenta, ainda, que as pessoas não sabem, mas o coração envia mais informações ao cérebro do que o cérebro ao coração.

Segundo a Escola de Medicina de Harvard as conversas ‘químicas’ entre o coração e o cérebro afetam ambos os órgãos. O estresse, a depressão ou mesmo uma perspectiva positiva perante a vida influenciam os batimentos cardíacos. Se há harmonia entre o vivido e o sentido, há coerência nas batidas. Se há um desequilíbrio, o coração começa a ritmar fora de sincronia, desencadeando doenças.

McCraty explica, assim, que as batidas do coração funcionam como um código Morse para o cérebro. O estado emocional de cada situação influenciará como a consciência irá agir.

Os estudos do instituto ainda revelam dados surpreendentes:

– O campo elétrico do coração é 40 a 60 vezes superior ao campo elétrico gerado pelo cérebro. Registros já mostram também que o seu campo magnético é de 4.000 a 5.000 vezes mais potente que o do cérebro, e podem ser medidos até 3 metros.

– Os batimentos cardíacos são gerados a partir do interior do próprio coração, não precisando de uma ligação com o cérebro para continuar a bater. Os cientistas ainda não sabem exatamente o que o faz o coração de um feto começar a pulsar.

– Dentro do coração existe um pequeno cérebro, um sistema nervoso independente, com aproximadamente 40.000 neurônios, o cérebro do coração. Este complexo neuronal é gerador de uma inteligência própria, diferenciada e altamente intuitiva, que processa informações e envia sinais para o cérebro, em seu sistema límbico e neocórtex, esta a parte do cérebro responsável pelo raciocínio e pensamento.

A performance individual, portanto, é diretamente afetada pelas condições emocionais da pessoa. Os batimentos sincronizados levam à maior intuição e inteligência.

Embora sejamos ensinados que o cérebro é o nosso principal maestro, é o coração o principal gerador de campos eletromagnéticos no corpo, e o primeiro órgão a ser formado, quando somos apenas embrionários. Mais da metade do coração é composto de neurônios da mesma natureza do que o cérebro, segundo o Dr. Joseph Chilton Pearce, em seu livro “A Biologia da Transcendência”.

O coração seria, pois, o primeiro lugar onde as informações são processadas. Em outra pesquisa liderada pelo Dr. McCraty, denominada “Eletrofisiologia da Intuição”, os cientistas descobriram que o corpo responderia a eventos futuros, prevendo-os, se o evento futuro estivesse emocionalmente conectado à história da pessoa em questão. Os sujeitos da pesquisa eram expostos a imagens perturbadoras ou belas, escolhidas de forma aleatória pelo computador. Os impulsos cerebrais e cardíacos eram monitorados, para checar as reações. Os resultados foram impressionantes: o coração respondeu antes do que o cérebro. E seu código se modificava, de acordo com o sentido emocional atribuído. Ou seja, literalmente o coração enviou mensagens distintas ao cérebro que, por sua vez, alterava as respostas corporais, a cada imagem.

Atualmente, em nossos processos de coaching, atrelamos as práticas aprendidas com a Neurociência aos ensinamentos de Inteligência Emocional e autoconhecimento.

É muito comum, em práticas de coaching, que o coachee se engaje com muito mais facilidade a insights que tragam memórias prazerosas. Parece que as sessões acontecem quase intuitivamente, sem precisar de tantas técnicas. Ao despertar o que foi importante ao coração, o cérebro se conecta com grande entusiasmo.

Assim, não só é possível monitorar os novos mapas mentais, construídos pelo coachee através de insights, tarefas e comprometimento. Seus objetivos precisam estar ligados às experiências afetivas, que façam o coração pulsar em harmonia com o cérebro.

Referências bibliográficas:

http://muitoalem2013.blogspot.pt/2015/09/luzes-do-mundo-joseph-chilton-pearce.html

http://www.universidadedocoracao.com.br/index.php/rss-da-univerdade-do-coracao/item/211-o-coracao-o-nosso-segundo-cerebro

https://www.youtube.com/watch?v=PEHRtwNZ45Q

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Erro

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nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez

Paulo Leminski

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Prefácio

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VIVER A LITERATURA

 

Claudio Willer

 

Querem uma definição de cronista? Dos cronistas realmente bons, daqueles excelentes? São autores que não se satisfazem com limites. Inclusive, com os limites entre os gêneros literários tradicionais, aqueles tidos como maiores: poesia, narrativa em prosa. Querem sempre ir além, escrever outra coisa. Viajar pela criação. Exemplar, sob este aspecto, é Paulo Mendes Campos: suas crônicas atropelam as definições de gêneros.

Por maior que seja sua evidência, por mais que se façam presentes no periodismo — ou talvez por isso, pela imprensa periódica ser ao mesmo tempo tão evidente e perecível — cronistas são marginais da literatura. Ou, quando se consagram em outros gêneros, as crônicas vão integrar a marginália de suas obras. Veja-se Drummond: foi preciso transcorrer uma geração de leitores para que se dessem conta do alcance do que publicava periodicamente.

Uma das crônicas deste Viver é fictício, sobre São Paulo, tem valor como metáfora: a autora visita os lugares “bons” da metrópole, mas nenhum a satisfaz. “Não amo lugar algum em São Paulo”, declara. É impelida a mover-se, do Theatro Municipal à Praça do Por do Sol, para acabar aportando à sua própria subjetividade: “O amor que eu tanto procurava não estava preso a lugar algum”. É alguém no trânsito e perpetuamente em trânsito. A mesma relação que mantém com a escrita, bem evidenciado em “Semeando constelações”: na terceira pessoa, encarna a declaração de Rimbaud, “O EU é um outro”, ao apresentar uma protagonista no limiar da loucura — “Os meses seguintes foram levando a sua lucidez” — que promove a irrupção de incríveis imagens poéticas em seu relato: “as dores são pássaros ininterruptos do cantar”.

Lisboa, onde tem residido, aparece como contraponto à ciclópica e desgastante São Paulo. Mas, justamente, por sua condição de mínima capital política e máxima capital literária, lugar onde se lê e se escreve tanto e tão bem, por tangenciar o impossível, por ser lugar de confusão do simbólico e do mundo das coisas, ou onde o simbólico toma a frente: “Há, pois, um lugar que transcendeu sua existência para atravessar as distâncias insuportáveis da poesia”. O mundo cabe no Tejo Bar.

Um autor exemplar sob esse aspecto, da permanente inquietação, por ser tão atópico — e muito bem lido por Mariana Portela — é Julio Cortázar: sempre, ao estar em uma das modalidades ou gêneros, quer estar em outro. Ao relatar uma história, precisa das imagens poéticas; ao poetizar, adiciona imagens visuais; em alguns dos seus livros, a página é pouco, tem que permutá-las ou cortá-las; e, em qualquer um dos seus modos de expressar-se, conclama a música, gostaria que seus textos fossem sonoridades que, tarefa impossível, tenta traduzir em palavras. Por isso, celebrou tanto o jazz, gênero que, especialmente na vertente bop, mimetiza inflexões e entonações da língua falada — e seu expoente Charlie Parker foi tema de um conto especialmente impactante, “O perseguidor”, assim como ouvir discos de jazz suscitou alguns dos pontos altos da prosa poética no século XX em Rayuela, O jogo da amarelinha. Cortázar, tão bem homenageado e mimetizado aqui, inclusive em “Instruções para matar um fantasma”, texto breve que, bem ao modo do argentino, se contradiz, apresenta paradoxos: além de ser impossível matar fantasmas, eles fariam falta se efetivamente fossem mortos, pois “nenhum corpo humano é capaz de apagar uma estrada” e, ademais, “Fantasmas são, via de regra, ótimas companhias oníricas, devoradores de madrugadas”.

Confronte-se essa crônica com outra, imediatamente precedente: “O colecionador de saudades”. Talvez Viver é fictício não deva ser lido linearmente, porém ao modo de um jogo — assim seguindo a recomendação de Cortázar — e as sequências possíveis engendrem outras narrativas, outras conexões. O confronto das duas crônicas sugere que para colecionar lembranças e, portanto, ter saudades, os fantasmas são indispensáveis.

Imediatamente a seguir, após a mimese de Cortázar, outra homenagem: “Clarice Lispector, minha” — como se já não houvesse tantas marcas da sua leitura, através de passagens como esta: “esquecemos o cheiro incompreensível de existir”; e não houvesse títulos que são paráfrases da autora de Felicidade clandestina.

O narrador ingênuo apresentaria imediatamente o tema: diria algo sobre suas emoções, evocações ou o que fosse, relacionadas à leitura de Clarice. Mariana, não — abre escrevendo sobre tomar café às três da madrugada. Em seguida, declara-se possessiva — “Não suporto conceber que há outros livros por aí, que não seja o meu A descoberta do mundo” — para concluir expondo uma poética, a declaração de que leu muito, apaixonou-se por algo do que leu, e dedicou-se ao empreendimento de confundir literatura e realidade; ou de experimentar a contradição entre as duas esferas, do mundo das coisas e aquele dos símbolos. A opção é pelo simbólico: “A sua voz, Clarice, reside única dentro dos meus olhos e não posso ferir minha imaginação com a realidade”. Uma esquizofrênica? Não, uma viajante por dois mundos, pela intersecção possível da “voz”, do símbolo, e o das coisas.

É assim que Viver é fictício enfrenta os desafios da crônica, o gênero injustamente rotulado como “menor”, que se confunde com o relato e a prosa poética, mas pode ser literatura total, absoluta. O lugar daqueles que não querem ferir a imaginação com a realidade. Inclusive, através de dois dentre os autores especialmente apreciados, referências diria, para ela: Clarice Lispector e Paulo Mendes Campos — ambos mencionados e homenageados neste conjunto, ao lado de outras presenças fortes; especialmente a do Fernando Pessoa / Bernardo Soares, integrando um leque que se abre desde Mario Quintana até Gaston Bachelard. Aliás, aí está outra qualidade desta cronista: exibe paixões literárias, sem tornar-se sentenciosa, sem usá-las como amparo ou justificativa.

Uma chave para sua leitura está neste início de “O colecionador de saudades”: “Eu gostava mesmo de escrever em terceira pessoa”. Isso, lembrando que os portugueses — e Mariana Portela tem residido em Lisboa — confundem os tempos verbais, e “gostava” pode significar “gostaria”. Mas não, nesta crônica que mimetiza um conto, que simula um relato, a objetividade naufraga — e com ela também a subjetividade, como esferas autônomas: “Levo meu espírito para abrigar outra identidade. Crio um semi-heterônimo. Sem passado algum”. A crônica expõe uma poética: “Eu já não me serei”, diz. A criação literária é para quem é e não é, está e não está aí. A extrema lucidez e a loucura podem confundir-se — Mariana simula a loucura ao exibir sua penetrante lucidez.

E assim nos oferece a gama completa das possibilidades de expressar-se. Combina e harmoniza o registro da subjetividade, manifesto através de uma prosa poética de imagens luminosas e a falsa confessionalidade dos narradores. Em primeira instância, seu compromisso ou seu envolvimento mais profundo é com a literatura; com uma experiência poética por vezes apresentada como antagônica com relação ao real, a uma realidade imediata — certamente, a uma realidade prosaica — mas que cria a realidade, ao iluminar experiências, os lugares, as pessoas e as coisas através do olhar poético.

 

São Paulo, 10 de fevereiro de 2018.

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posfácio

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ANOTAÇÕES SOBRE UMA LÍRICA INTENSA E FILOSOFAL

 

Silvana Guimarães

 

Primeira

 

Contos ou crônicas: prefiro chamar de histórias o conjunto de textos vertiginosos apresentados neste livro de Mariana Portela. Pequenas grandes histórias que contêm os elementos essenciais da narrativa: tempo, espaço, personagens e conflitos bem articulados. Embora divididas em seções, seu conteúdo demonstra certa predominância do assunto amor, especialmente, em seus encontros e desencontros [todo livro, de certo modo, é uma história de amor]: E o amor era uma crase. Construídas com um vocabulário rico e variado, em que algumas palavras parecem cheias de frescor de tão pouco usadas: A sabedoria é crudívora. Deliberada ou aparentemente confessionais: Com os olhos inchados de tamanha realidade, sinto-me pequena, frente àquilo que nós não vivemos. De todas as dores, essa, mais clichê, é a que mais dilacera uma alma bipolar: o lado que sonha. É assim que Mariana consegue revirar naufrágios [salvar afogados].

 

 

Segunda

 

Entre textos sombrios e ensolarados, entre o sentido e a razão, a autora revela-se explicitamente ou de forma implícita, propõe e desvenda enigmas. Em diálogos com interlocutores especiais [Fernando Pessoa, o mais fiel deles], onde se percebe um leve sotaque português [Mariana vive em Lisboa, lá “Há um rio, digno de aorta”], ela devasta os tormentos e dilemas cotidianos de todo escritor e desabafa amarguras, em um claro exercício de fôlego e solidão: “O que a noite me ensinou sobre todas as coisas, pode ser traduzido na meditação desesperada dos silêncios. Esses instantes de exílio poético, em que as clausuras do amanhã não se sobrepõem às eternidades imaginadas”. Ao mesmo tempo, convoca o leitor a reviver passados, iluminar memórias, seguir ao seu lado, decifrando e arrebatando seus códigos linguísticos: “E reitero, enfim: nunca se esqueçam da minha devoção às palavras. Pois aprendi que não se morre de amor; morre-se de cachaça. Quando ideias se tornam interiores, esqueço-as como moedas. Um dia, reencontro-me com elas, em lugares inusitados. A mim, sobram-me os caminhos, que perco tanto quanto canetas. Só que as canetas me fazem mais falta do que as estradas. As canetas são as avós do futuro”. É assim que Mariana usa a literatura como arma de sequestro.

 

 

Terceira

 

Do realismo puro e simples, textos apinhados de ricas imagens poéticas transitam pelo realismo fantástico e pela fantasia: “Não há memória que atinja, em igual beleza, uma superfície perfumada, com firma reconhecida. E isso constitui o maior fardo e o maior dom que alguém pode carregar. Todas as verdades só existem antigamente, quando a coragem legitimou o delírio de uma assinatura”. É dela a previsão certeira: “Quando a arte nos atinge, não adianta mais tentar arrancar os brancos fios, enluarados. Há de se aceitar a ancestralidade libertária, como as árvores que assumem ser berço dos passarinhos”. Nesses caminhos — escancarados ou secretos — a sua arte, por meio de tantas minúcias, revela-nos [e provoca-nos] reflexões, surpresas, perplexidades, angústias: “Pincelamos as mesmas cores, mesmo quando possuímos mais tintas”. Como um sol que incendeia o horizonte e nos concede o privilégio de ler muito mais do que está escrito. Ou responder às perguntas sem respostas de alguém que acredita — e nos convence de — que a vida é ficção. “Aos deuses, aplausos. Fui abençoada com o fardo incurável das palavras”. É assim que Mariana faz mágica.

 

 

Belo Horizonte, 25 de janeiro de 2018.

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Teoria e prática do duende

garcia lorca

Federico García Lorca, esse gênio imprescindível

 
Desde o ano de 1918, quando ingressei na Casa de Estudantes de Madri, até 1928, quando a abandonei, ao terminar meus estudos de Filosofia e Letras, ouvi naquele refinado salão, para onde acorria a velha aristocracia espanhola com o fim de corrigir sua frivolidade de praia francesa, cerca de mil conferências.

No desejo de ar e de sol, me aborreci tanto que, ao sair, me sentia coberto por uma leve cinza, quase a ponto de se transformar em pó-de-mico.

Não.  Eu não gostaria que entrasse na sala essa terrível mosca do aborrecimento que costura todas as cabeças com um fio tênue de sono e põe nos olhos dos ouvintes pequenos tufos de pontas de alfinete.

De um modo simples, com o registro que em minha voz poética não tem luzes de madeiras, nem curvas de cicuta, nem ovelhas que subitamente são facas de ironias, vou procurar dar-lhes uma simples lição sobre o espírito oculto da dolorida Espanha.

Quem encontra-se na pele de touro que se estende entre os Júcar, Guadalete, Sil ou Pisuerga (não quero citar as torrentes junto às ondas cor de juba de leão que agitam o Plata), ouve-se dizer com certa freqüência: “Este tem muito duende”.  Manuel Torres, grande artista do povo andaluz,  dizia  a  alguém  que cantava: “Tu tens voz, conheces os estilos, mas jamais triunfarás, porque tu não tens duende”.

Em toda Andaluzia, rocha de Jaén e búzio de Cádiz, as pessoas falam constantemente do duende e o descobrem naquilo que sai com instinto eficaz.  O maravilhoso cantador El Lebrijano, criador da Debla, dizia: “Nos dias em que canto com duende não há quem possa comigo”; a velha bailarina cigana La Malena exclamou um dia, ao ouvir Brailowsky tocar um fragmento de Bach: “Olé!  Isso tem duende!”, e aborreceu-se com Glück, com Brahms e com Darius Milhaud.  E Manuel Torres, o homem com maior cultura no sangue que conheci, disse, escutando o próprio Falla tocar seu Nocturno del Generalife, esta esplêndida frase: “Tudo o que tem sons negros tem duende”.  E não há nada mais verdadeiro.

Esses sons negros são o mistério, as raízes que penetram no limo que todos conhecemos, que todos ignoramos, mas de onde nos chega o que é substancial em arte.  Sons negros, disse o homem popular da Espanha, e coincidiu com Goethe, que define o duende ao falar de Paganini, dizendo: “Poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica”.

Assim pois o duende é um poder e não um obrar, é um lutar e não um pensar.  Eu ouvi um velho violonista dizer: “O duende não está na garganta; o duende sobe por dentro a partir da planta dos pés”.  Ou seja, não é uma questão de faculdade, mas de verdadeiro estilo vivo; ou seja, de sangue; ou seja, de velhíssima cultura, de criação em ato.

Esse “poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica” é, em suma, o espírito da terra, o mesmo duende que abraçou o coração de Nietzsche, que o buscava em suas formas exteriores sobre a ponte Rialto ou na música de Bizet, sem encontrá-lo e sem saber que o duende que perseguia tinha saltado dos misteriosos gregos às bailarinas de Cádiz ou ao dionisíaco grito degolado da seguiriya de Silvério.

Assim, pois, não quero que ninguém confunda o duende com o demônio teológico da dúvida, ao qual Lutero, com um sentimento báquico, lançou um frasco de tinta em Nuremberg, nem com o diabo católico, destruidor e pouco inteligente, que se disfarça de cadela para entrar nos conventos, nem com o macaco falante que tem o espertalhão de Cervantes, na comédia dos ciúmes e das selvas de Andaluzia.

Não.  O duende de que falo, obscuro e estremecido, é descendente daquele alegríssimo demônio de Sócrates, mármore e sal que o arranhou indignado no dia em que tomou a cicuta, e do outro melancólico demoniozinho de Descartes, pequeno como amêndoa verde, que, farto de círculos e de linhas, saiu pelos canais para ouvir cantarem os marinheiros bêbados.

Todo homem, todo artista, dirá Nietzsche, cada degrau que sobe na torre de sua perfeição é às custas da luta que trava com um duende, não com um anjo, como se diz, nem com sua musa.  É preciso fazer essa distinção fundamental para a raiz da obra.

O anjo guia e presenteia como São Rafael, defende e evita como São Miguel, e previne como São Gabriel.

O anjo deslumbra, mas voa sobre a cabeça do homem, está acima, derrama sua graça, e o homem, sem nenhum esforço, realiza sua obra, ou sua simpatia, ou sua dança.  O anjo do caminho de Damasco ou o que entrou pelas fendas do balcãozinho de Assis, ou o que segue os passos de Enrique Susson, ordena, e não há maneira de recusar suas luzes, porque agita suas asas de aço no ambiente do predestinado.

A musa dita, e, em algumas ocasiões, sopra.  Pode relativamente pouco, porque já está distante e tão cansada (eu a vi duas vezes) que teve que colocar meio coração de mármore.  Os poetas de musa ouvem vozes e não sabem de onde elas vêm; são da musa que os alenta e às vezes os merenda.  Como no caso de Apollinaire, grande poeta destruído pela horrível musa que foi pintada a seu lado pelo divino angélico Rousseau.  A musa desperta a inteligência, traz paisagem de colunas e falso sabor de lauréis, e a inteligência é muitas vezes a inimiga da poesia, porque imita demasiadamente, porque eleva o poeta a um trono de agudas arestas e o faz esquecer que logo podem comê-lo as formigas ou pode cair-lhe na cabeça uma grande lagosta de arsênico, contra a qual nada podem as musas que há nos monóculos ou na rosa de tíbia laca do pequeno salão.

Anjo e musa vêm de fora; o anjo dá luzes e a musa dá formas (Hesíodo aprendeu com elas).  Pão de ouro ou prega de túnicas, o poeta recebe normas no bosquezinho de lauréis.  Ao contrário, o duende tem que ser despertado nas últimas moradas do sangue.

E rechaçar o anjo e dar um pontapé na musa, e perder o medo da fragrância de violetas que exala a poesia do século XVIII, e do grande telescópio em cujos cristais dorme a musa enferma de limites.

A verdadeira luta é com o duende.

Os caminhos para buscar a Deus são conhecidos, desde o modo bárbaro do eremita até o modo sutil do místico.  Com uma torre como Santa Teresa, ou com três caminhos como São João da Cruz.  E embora tenhamos que clamar com voz de Isaías: “Verdadeiramente és um Deus escondido”, ao fim e ao cabo Deus manda ao que o busca seus primeiros espinhos de fogo.

Para buscar o duende não há mapa nem exercício.  Só se sabe que ele queima o sangue como uma beberagem de vidros, que esgota, que rechaça toda a doce geometria aprendida, que rompe os estilos, que faz com que Goya, mestre nos cinzas, nos pratas e nos rosas da melhor pintura inglesa, pinte com os joelhos e com os punhos com horríveis negros de betume; ou que desnuda Mosén Cinto Verdaguer com o frio dos Pirineus, ou leva Jorge Manrique a esperar a morte no páramo de Ocaña, ou veste com uma roupa verde de saltimbanco o corpo delicado de Rimbaud, ou põe olhos de peixe morto no conde Lautréamont na madrugada do boulevard.

Os grandes artistas do sul da Espanha, ciganos ou flamengos, quer cantem, dancem ou toquem, sabem que não é possível nenhuma emoção sem a chegada do duende.  Eles enganam as pessoas, e podem dar a sensação de duende sem que ele esteja lá, como as enganam todos os dias autores ou pintores ou modistas literários sem duende; mas basta atentar um pouco, e não se deixar levar pela indiferença, para descobrir o engodo e fazê-lo fugir com o seu tosco artifício.

Uma vez, a “cantadora” andaluza Pastora Pavón, A Menina dos Pentes, sombrio gênio hispânico, equivalente em capacidade de fantasia a Goya ou a Rafael o Galo, cantava em uma pequena taberna de Cádiz.  Cantava com sua voz de sombra, com sua voz de estanho fundido, com sua voz coberta de musgo, e a enredava em seus cabelos ou a molhava em camomila ou a perdia entre estevais obscuros e longínquos.  Mas nada; era inútil.  Os ouvintes permaneciam calados.

Estava ali Ignacio Espeleta, formoso como uma tartaruga romana, a quem perguntaram uma vez: “Como não trabalhas?”, e ele, com um sorriso digno de Argantônio, respondeu: “Como vou trabalhar se sou de Cádiz?”

Estava ali Eloísa, a quente aristocrata, rameira de Sevilla, descendente direta de Soledad Vargas, que em trinta não quis casar com um Rothschild porque não a igualava em sangue.  Estavam ali os Floridas, que as pessoas crêem carniceiros, mas que na realidade são sacerdotes milenares que continuam sacrificando touros a Gereão, e em um canto, o imponente dono de gado Don Pablo Murube, com ar de máscara cretense.  Pastora Pavón terminou de cantar em meio ao silêncio.  Só, e com sarcasmo, um homem pequenino, desses homenzinhos bailarinos que saem de súbito das garrafas de aguardente, disse com voz muito baixa: “Viva Paris!”, como se dissesse: “Aqui não nos importam as faculdades, nem a técnica, nem a maestria.  Nos importa outra coisa.”

Então A Menina dos Pentes levantou-se como uma louca, tronchada como uma carpideira medieval, e bebeu de um trago uma grande copo de cazalla como fogo, e sentou-se a cantar sem voz, sem alento, sem matizes, com a garganta abrasada, mas… com duende.  Conseguira matar todo a estrutura da canção para dar lugar a um duende furioso e abrasador, amigo de ventos carregados de areia, que fazia com que os ouvintes rasgassem suas roupas quase com o mesmo ritmo com que as rasgam os negros antilhanos do rito, agrupados perante a imagem de Santa Bárbara.

A Menina dos Pentes teve que descarregar sua voz porque sabia que estava sendo escutada por gente estranha que não pedia formas, mas tutano de formas, música pura com o corpo exíguo para poder manter-se no ar.  Teve que empobrecer em faculdades e em seguranças; quer dizer, teve que afastar a musa e ficar desamparada, para que seu duende viesse e se dignasse a lutar com os braços nus.  E como cantou!  Sua voz já não cantava, sua voz era um jorro de sangue dignificado por sua dor e por sua sinceridade, e se abria como uma mão de dez dedos pelos pés cravados, mas cheios de borrasca, de um Cristo de Juan de Juní.

A chegada do duende pressupõe sempre uma transformação radical em todas as formas sobre velhos planos, dá sensações de frescor totalmente inéditas, com uma qualidade de rosa recém criada, de milagre, que chega a produzir um entusiasmo quase religioso.

Em toda música árabe, dança, canção ou elegia, a chegada do duende é saudada com enérgicos “Alá, Alá!”, “Deus, Deus!”, tão próximos do “Olé!” dos touros que talvez seja o mesmo; e em todos os cantos do sul da Espanha a aparição do duende é seguida por sinceros gritos de “Viva Deus!”, profundo, humano, terno grito de uma comunicação com Deus por meio dos cinco sentidos, graças ao duende que agita a voz e o corpo da bailarina, evasão real e poética deste mundo, tão pura como a conseguida pelo raríssimo poeta do século XVIII Pedro Soto de Rojas através de sete jardins, ou a de João Clímaco por uma estremecido acesso de pranto.

Naturalmente, quando essa evasão é alcançada todos sentem seus efeitos: o iniciado, vendo como o estilo vence uma matéria pobre, e o ignorante, no não sei quê de uma emoção autêntica.  Há anos, em um concurso de baile de Jerez de la Frontera, quem ganhou o prêmio foi uma velha de oitenta anos, contra formosas mulheres e meninas com a cintura de água, pelo simples fato de levantar os braços, erguer a cabeça e dar um golpe com o pé sobre o tablado; mas na reunião de musas e de anjos que havia ali, belezas de forma e belezas de sorriso, tinha que ganhar e ganhou aquele duende moribundo que arrastava pelo chão suas asas de facas oxidadas.

Todas as artes são capazes de duende, mas onde ele encontra maior campo, como é natural, é na música, na dança e na poesia falada, já que elas necessitam de um corpo vivo que interprete, porque são formas que nascem e morrem de modo perpétuo e alçam seus contornos sobre um presente exato.

Muitas vezes o duende do músico passa para o duende do intérprete, e outras vezes, quando o músico ou o poeta não são tais, o duende do intérprete, e isto é interessante, cria uma nova maravilha que tem na aparência, e nada mais, a forma primitiva.  Este é o caso da enduendada Eleonora Duse, que buscava obras fracassadas para fazê-las triunfar, graças ao que ela inventava, ou o caso de Paganini, descrito por Goethe, que fazia com que se ouvisse melodias profundas em verdadeiras vulgaridades, ou o caso de uma deliciosa garota do Porto de Santa Maria, que vi cantar e dançar a horrorosa canção italiana O Mari!, com uns ritmos, uns silêncios e uma intenção que faziam da bugiganga italiana uma dura serpente de ouro puro.  O que acontece é que eles encontravam efetivamente alguma coisa nova, que não tinha nada a ver com a anterior, que punham sangue vivo e ciência em corpos vazios de expressão.

Todas as artes, e também os países, têm capacidade de duende, de anjo e de musa; e assim como a Alemanha tem, com exceções, musa, e a Itália tem permanentemente anjo, a Espanha é em todos os tempos movida pelo duende, como país de música e dança milenares, onde o duende espreme limões de madrugada, e como país de morte, como país aberto à morte.

Em todos os países a morte é um fim.  Ela chega e fecham-se as cortinas.  Na Espanha, não.  Na Espanha elas são abertas.  Muita gente vive ali entre suas paredes até o dia em que morre e é colocada ao sol.  Um morto na Espanha está mais vivo como morto que em qualquer lugar do mundo: fere seu perfil como um fio de uma navalha bárbara.  O chiste sobre a morte e sua contemplação silenciosa são familiares aos espanhóis.  Desde O sonho das caveiras, de Quevedo, até o Bispo apodrecido, de Valdés Leal, e desde a Marbella do século XVII, morta de parto na metade do caminho, que diz:

La sangre de mis entrañas
cubriendo el caballo está.
Las patas de tu caballo
echan fuego de alquitrán…  (1)

ao jovem moço de Salamanca, morto pelo touro, que clama

Amigos, que yo me muero;
amigos, yo estoy muy malo.
Tres pañuelos tengo dentro
y este que meto son cuatro…  (2)

há uma balaustrada de flores de salitre, de onde assoma um povo de contempladores da morte, com versículos de Jeremias em seu lado mais áspero, ou com cipreste fragrante pelo lado mais lírico; mas um país onde o mais importante de tudo tem um último valor metálico de morte.

A faca e a roda do carro, e a navalha e as barbas pontudas dos pastores, e a lua despida, e a mosca, e as despensas úmidas, e os destroços, e os santos cobertos de renda, e a cal, e a linha cortante dos alpendres e dos mirantes têm na Espanha diminutas ervas de morte, alusões e vozes perceptíveis para um espírito alerta, que nos traz à memória o ar rígido de nosso próprio trânsito.  Não é casualidade toda a arte espanhola ligada à nossa terra, cheia de cardos e de pedras definitivas, não é um exemplo isolado a lamentação de Pleberio ou as danças do maestro Josef María de Valdivielso, não é um acaso que de toda balada européia se destaque esta amada espanhola:

–  Si tu eres mi linda amiga,
cómo no me miras, di?
–  Ojos con que te miraba
a la sombra se los di.
–  Si tú eres mi linda amiga,
cómo no me besas, di?
–  Labios com que te besaba
a la tierra se los di.
–  Si tú eres mi linda amiga,
cómo no me abrazas, di?
–  Brazos com que te abrazaba,
de gusanos los cubrí.  (3)

Nem é estranho que nos alvoreceres de nossa lírica soe esta canção:

Dentro del vergel
moriré,
dentro del rosal
matar me han.
Yo me hiba, mi madre,
las rosas coger,
hallara la muerte
dentro del vergel.
Yo me hiba, madre,
las rosas cortar,
hallara la muerte
dentro del rosal.
Dentro del vergel,
moriré,
dentro del rosal
matar me han.  (4)

As cabeças geladas pela lua que Zurbarán pintou, o amarelo manteiga com o amarelo relâmpago de El Greco, o relato do padre Sigüenza, a obra inteira de Goya, a abside da igreja de El Escorial, toda a escultura policromada, a cripta dos Benavente em Medina de Rioseco, equivalem no culto às romarias de San Andrés de Teixido, onde os mortos tomam lugar na procissão, aos cantos fúnebres que cantam as mulheres de Astúrias com lanternas cheias de chamas na noite de novembro, ao canto e à dança da Sibila nas catedrais de Mallorca e Toledo, ao obscuro In Recort tortosino e aos inumeráveis ritos da Sexta-Feira Santa, que com a cultíssima festa dos touros formam o triunfo popular da morte espanhola.  No mundo, somente o México pode ombrear com meu país.

Quando a musa vê a morte chegar fecha a porta ou ergue um plinto ou passeia uma urna e escreve um epitáfio com mão de cera, mas em seguida começa a rasgar seu laurel com um silêncio que vacila entre duas brisas.  Sob o arco truncado da ode, ela junto com sentido fúnebre as flores exatas que pintaram os italianos do século XV e chama o seguro galo de Lucrécio para que espante sombras imprevistas.

Quando vê chegar a morte, o anjo voa em círculos lentos e tece com lágrimas de gelo e narciso a elegia que vimos tremer nas mãos de Keats, e nas de Villasandino, e nas de Herrera, e nas de Bécquer e nas de Juan Ramón Jiménez.  Mas que horror o do anjo ao sentir uma aranha, por menor que ela seja, sobre seu terno pé rosado!

Ao contrário, o duende não chega se não vê possibilidade de morte, se não sabe que ela há de rondar sua casa, se não tem segurança de que há de balançar esses ramos que todos carregamos e que não têm, que não terão consolo.

Com idéia, com som ou com gesto, o duende gosta das bordas do poço em franca luta com o criador.  Anjo e musa escapam com violino ou compasso, e o duende fere, e na cura dessa ferida, que não se fecha nunca, está o insólito, o inventado da obra de um homem.

A virtude mágica do poema consiste em estar sempre enduendado para batizar com água obscura a todos os que o vêem, porque com duende é mais fácil amar, compreender, e é certeza ser amado, ser compreendido, e essa luta pela expressão e pela comunicação da expressão adquire às vezes, em poesia, caracteres mortais.

Recordai o caso da flamenguíssima e enduendada Santa Teresa, flamenga não por dominar um touro furioso e dar-lhe três passes magníficos; não por enfrentar frei Juan de la Miseria nem por dar uma bofetada no Núncio de Sua Santidade, mas por ser uma das poucas criaturas cujo duende (não anjo, porque o anjo não ataca nunca) a transpassa com um dardo, querendo matá-la por ter roubado seu último segredo, a ponte sutil que une os cinco sentidos com esse centro em carne viva, em nuvem viva, em mar vivo, do Amor libertado do Tempo.

Valentíssima vencedora do duende, e um caso oposto ao de Felipe da áustria, que, ansiando buscar musa e anjo na teologia, viu-se aprisionado pelo duende dos ardores frios nessa obra de El Escorial, onde a geometria ombreia com o sonho e onde o duende põe máscara de musa para eterno castigo do grande rei.
Dissemos que o duende ama a orla, o limite, a ferida, e se aproxima dos lugares onde as formas se fundem em um anelo superior a suas expressões visíveis.

Na Espanha (como nos povos do Oriente, onde a dança é expressão religiosa) o duende tem um campo sem limites nos corpos das bailarinas de Cádiz, elogiadas por Marçal, nos peitos dos que cantam, elogiados por Juvenal, e em toda a liturgia dos touros, autêntico drama religioso onde, da mesma maneira que na missa, se adora e se sacrifica a um Deus.

É como se todos os duendes do mundo clássico se juntassem nessa festa perfeita, expoente da cultura e da grande sensibilidade de um povo que descobre no homem suas melhores iras, suas melhores bílis e seu melhor pranto.  Nem no baile espanhol nem nos touros alguém se diverte; o duende se encarrega de fazer sofrer através do drama, em formas vivas, e prepara as escadas para uma evasão da realidade que circunda.

O duende opera sobre o corpo da bailarina como o vento sobre a areia.  Transforma com mágico poder uma garota em paralítica da lua, ou enche de rubores adolescentes um velho roto que pede esmola pelas tendas de vinho, dá aos cabelos um cheiro de porto noturno, e em todo momento opera sobre os braços com expressões que são mães da dança de todos os tempos.

E é impossível que ele se repita, isso é muito interessante de sublinhar.  O duende não se repete, como não se repetem as formas do mar na tempestade.
Nos touros ele adquire seus acentos mais impressionantes, porque tem que lutar, por um lado, com a morte, que pode destruí-lo, e por outro lado com a medida, base fundamental da festa.

O touro tem sua órbita: o toureiro, a sua, e entre órbita e órbita um ponto de perigo onde está o vértice do terrível jogo.

Pode-se ter musa com muleta e anjo com bandeirinhas e passar por bom toureiro, mas na faina de capa, com o touro limpo ainda de feridas, e no momento de matar, necessita-se da ajuda do duende para acertar no cravo da verdade artística.

O toureiro que assusta o público na praça por sua temeridade não toureia, mas encontra-se neste plano ridículo, ao alcance de qualquer homem, de jogar com a vida; ao contrário, o toureiro mordido pelo duende dá uma lição de música pitagórica e faz esquecer que arrisca constantemente o coração sobre os cornos.

Lagartijo com seu duende romano, Joselito com seu duende judeu, Belmonte com seu duende barroco e Cagancho com seu duende cigano, ensinam, desde o crepúsculo do anel, a poetas, pintores e músicos, quatro grandes caminhos da tradição espanhola.

A Espanha é o único país onde a morte é o espetáculo nacional, onde a morte toca longos clarins à chegada das primaveras, e sua arte está sempre regida por um duende agudo que lhe dá sua diferença e sua qualidade de invenção.

O duende que enche de sangue, pela primeira vez na escultura, as faces dos santos do mestre Mateo de Compostela, é o mesmo que faz São João da Cruz gemer ou queima ninfas nuas com os sonetos religiosos de Lope.

O duende que levanta a torre de Sahagún ou trabalha ladrilhos quentes em Calatayud ou Teruel é o mesmo que rasga as nuvens de El Greco e põe a rodar a pontapés os aguazis de Quevedo e as quimeras de Goya.

Quando chove faz surgir Velázquez enduendado, em segredo, por trás de seus cinzas monárquicos; quando neva faz Herrera sair nu para demonstrar que o frio não mata; quando arde, põe em suas chamas Berruguete e o faz inventar um novo espaço para a escultura.

A musa de Góngora e o anjo de Garcilaso hão de soltar a guirlanda de laurel quando passa o duende de São João da Cruz, quando

el ciervo vulnerado
por el otero asoma.  (5)

A musa de Gonzalo de Berceo e o anjo do Arcipreste de Hita devem separar-se para dar lugar a Jorge Manrique, quando chega ferido de morte às portas do castelo de Belmonte.  A musa de Gregoria Hernández e o anjo de José de Mora devem separar-se para que cruze o duende que chora lágrimas de sangue de Mena e o duende com cabeça de touro de Martínez Montañes, como a melancólica musa da Cataluña e o anjo molhado de Galicia olham, com amoroso assombro, o duende de Castilla, tão distante do pão quente e da dulcíssima vaca que pasta com normas de céu varrido e terra seca.

Duende de Quevedo e duende de Cervantes, com verdes anêmonas de fósforo um, e flores de gesso de Ruidera o outro, coroam o retábulo do duende da Espanha.

Cada arte tem, como é natural, um duende de modo e forma distintos, mas todas unem suas raízes em um ponto de onde manam os sons negros de Manuel Torres, matéria última e fundo comum incontrolável e estremecido de lenho, som, tela e vocábulo.

Sons negros por trás dos quais estão já em terna intimidade os vulcões, as formigas, os zéfiros e a grande noite apertando a cintura com a Via Láctea.

Senhoras e senhores; ergui três arcos e com mão torpe coloquei neles a musa, o anjo e o duende.

A musa permanece quieta; pode ter a túnica de pequenas pregas ou os olhos de vaca que miram em Pompéia o narizinho de quatro caras com que seu grande amigo Picasso a pintou.  O anjo pode agitar cabelos de Antonello de Mesina, túnica de Lippi e violino de Massolino ou de Rousseau.

O duende…  Onde está o duende?  Pelo arco vazio entra um ar mental que sopra com insistências sobre as cabeças dos mortos, em busca de novas paisagens e acentos ignorados; um ar com cheiro de saliva de menino, de erva pisada e véu de medusa que anuncia o constante batismo das coisas recém criadas.
Notas

(1)   O sangue de minhas entranhas
cobrindo o cavalo está.
As patas de teu cavalo
deitam fogo de alcatrão…

(2)  Amigos, estou morrendo;
amigos, estou muito mal.
Tenho três lenços dentro
e com este que ponho são quatro…

(3)  – Se tu és minha linda amiga,
como não me olhas, diz?
– Olhos com que te olhava
à sombra eu os dei
– Se tu és minha linda amiga,
como não me beijas, diz?
– Lábios com que te beijava
à terra eu os dei.
– Se tu és minha linda amiga,
como não me abraças, diz?
– Braços com que te abraçava,
de vermes eu os cobri.

(4)   Dentro do vergel
morrerei,
dentro do roseiral
me hão de matar.
Eu ia, minha mãe,
As rosas colher,
Encontrei a morte
Dentro do vergel.
Eu ia, minha mãe,
As rosas cortar,
Encontrei a morte
Dentro do roseiral.
Dentro do vergel
morrerei,
dentro do roseiral
me hão de matar.

(5)  o cervo ferido
pelo outeiro assoma.

 

In Federico García Lorca.  Obras Completas.  Ed. Aguillar.  Tradução: Roberto Mallet.

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Estação

Foi com pontualidade

que não cheguei à cidade de N.

 

Uma carta por enviar

te avisara.

 

Conseguiste não chegar

à hora prevista.

 

O comboio parou na linha n. 3.

Saiu imensa gente.

 

Seguiu na multidão para a saída

a minha ausência.

 

Tomou apressadamente o meu lugar

um grupo de mulheres

em toda aquela pressa.

 

Correu para uma delas

alguém que desconheço,

mas que ela reconheceu

de imediato.

 

Trocaram então ambos

um beijo que não nosso

durante o qual levou sumiço

a mala que não minha.

 

A estação da cidade de N.

passou sem problemas o exame

de existência objetiva.

 

Permaneceu no seu lugar o todo,

moveram-se os detalhes

pelos carris previstos.

 

Chegou mesmo a efectuar-se

o combinado encontro.

 

Fora do alcance

da nossa presença.

 

No paraíso perdido

da verossimilhança.

 

Noutro lugar.

Noutro lugar.

Como elas vibram, estas palavritas.

 

Wislawa Szymborska

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Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer…

pessoasacarneiro

Lisboa, 14 de Março de 1916

Meu querido Sá-Carneiro:

Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.

Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.

No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.

Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.

Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.

Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no «Livro do Desassossego». Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.

As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.

Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.

De que cor será sentir?

Milhares de abraços do seu, sempre muito seu

Fernando Pessoa

P. S. — Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si próprio que dele são tão características…

Você acha-me razão, não é verdade?

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DANUIH

Ayahuasca2.jpg

“Sou homem; duro pouco e é enorme a noite. Mas, olho para cima: as estrelas escrevem. Sem entender compreendo: também sou escritura… E neste mesmo instante, alguém me soletra.” Octavio Paz

Quando finalmente o vi, na claridade inaudita do Sol, que invade indubitavelmente meu quarto, às três da tarde, tornei-me oferenda da sua presença. Eu respirava, ansiosa, e todo meu corpo se expandia para dentro dos lençóis, recém trocados pela faxina. Tímidas mãos brancas velavam meu espectro, trêmulo. Ouvia, ao fundo, a voz irritante da meditação guiada.

A ternura dessa sumidade ignorara meus pavores, todos. A cada inspirar, aprofundava-se, inconsolável, em carinhos. E eu, possessiva, absorvia os ares eriçados do outono, para comungar a incompreensão em plenitude. Pensei que estivesse, enfim, morta de quem havia sido, antes.

O sentimento, contudo, não me era novo. Já lá havia estado, algures: nos dizeres bonitos do amigo de infância, que sente saudades de um nós que nunca fomos; em goles de ar que afundaram, alma adentro, formigamentos líricos; na unicidade do ayahuasca, abstêmia de chá há quase um ano.

Outra solenidade também se fez abrigo quando chorei por todas as ressacas das avessas mundanidades. E ofendeu-me, nas lágrimas não desanuviadas, em noites de lua cheia.

E os deuses inauguraram meus vestidos rasgados pelas traças. Escreveram os sons de  flores desmesuradas, naquela página em que se grifou a existência, quando toda dor foi submetida às quimeras.

Estive, também, em contacto com a Deusa Wicca, ao devorar um pão mágico. E, enfim, ver meu desejo ser atendido, em uma semana. Também estanquei a solidão dos olhos de um pai que perdeu seu primogênito, ao invocar os Espíritos.

Eu vi, e juro por D’us, um menino jesus fugir do meu quarto na Vila Mariana. E pus as mãozinhas alinhadas em intimidade, assistindo a lacuna do ser incandescente, ao desdenhar meus olhos de criança.

Por quê?

Sem nenhuma prepotência, nesse instante, fui capaz de dar nome a tantas divindades que, em ausência de compromisso ou vaidade, vieram ter-me como lugar. As ondas, oriundas do Universo, escolheram-me como habitat, inconformadas de serem mudas.

Eu percebi o tempo preparando a sua chegada, enquanto minha caneta era incapaz de dormir. Eu, que sem os meus contrários, escorrego pelas ruas esmagadas pela morte das folhas. A brutalidade não ajuda-me a nivelar o mundo em sincronia.

Aos poucos, fui recolhendo cada um desses deuses póstumos que enfraquecem as minhas pálpebras e me deixam mais míope. “Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes”, diria Clarice, enquanto perdoava o deus dela. Eu, contudo, aprendi a obedecer aos milagres.

Ps: dedico essa viagem astral hermética ao Rodolfo Wrolli.

 

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Cortesia dos cegos

O poeta lê seus versos para os cegos
Não imaginava que fosse tão difícil.
Treme-lhe a voz.
Tremem-Ihe as mãos.

Sente que cada frase
é posta aqui à prova da escuridão.
Vai precisar se virar sozinha
sem luzes e cores.

Aventura perigosa
para as estrelas em seus versos,
a aurora, o arco-íris, as nuvens, os neons, a lua,
para os peixes até aqui tão prateados sob a água
e o falcão tão alto e silencioso no céu.

Lê — porque já é tarde demais para não ler —
sobre o rapaz de casaco amarelo num prado verde,
sobre os telhados vermelhos, que se podem contar, no vale,
sobre os números agitados nas camisas dos jogadores
e sobre a desconhecida nua na porta entreaberta.

Queria se calar — embora seja impossível —
sobre todos aqueles santos no teto da catedral,
aquele gesto de despedida na janela do trem,
a lente do microscópio e o raio de luz no anel
e a leia e o espelho e o álbum de retratos.

Mas é grande a cortesia dos cegos,
grandes sua compreensão e magnanimidade.
Ouvem, sorriem e aplaudem.

Um deles até se aproxima
com um livro aberto de cabeça para baixo
pedindo o autógrafo que não verá.

Wislawa Szymborska

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“Quero ir buscar quem fui onde ficou”*

“Definitivamente, o coração não é o lugar adequado para o ódio. Qual é o seu lugar? Não sei. Esta é uma das incógnitas do Universo. Até parece que os Deuses gostam da confusão, pois ao não terem criado um lugar específico para lá porem o ódio, provocaram o caos eterno. O ódio procura forçosamente um lugar, introduzindo-se onde não deve, ocupando um lugar que não lhe pertence, expulsando inevitavelmente o amor.” 

Laura Esquivel in A Lei do Amor.

O fumo das castanhas assadas pinta as esquinas da minha rua. Pela varanda, os azuis são imensos, céu escrito em poesia. Os telhados, encarnados, ficam mais belos, no outono. Uma chuva, finíssima, cala os passos dos visitantes. Lisboa poderia ser perfeita, hoje.

No entanto, a perfeição é incapaz de tergiversar a xenofobia e o racismo. Sussurrada nas escadinhas de São Cristóvão. Abafada pelos professores de História. Apaziguada em copos de Ginjinha. O não dito é o inimigo mais perigoso.

Outro dia, uns amigos iam ao meu encontro, no Largo do Carmo. Moravam longe e pegaram o metrô até a famosa estação que abriga a estátua do Fernando Pessoa. Eram seus últimos dias cá. Inconsoláveis de partir e ter de enfrentar um Brasil tão nefasto, tão carente de horizontes.

Eles estavam cheios de saudades de mim. E eu, obviamente, já vivia a dor antecipada da partida. Nosso encontro era urgente. E teria sido inamolgável, se não existisse uma personagem que estragasse essa narrativa. Protagonista da angústia desesperadora que carrego, hoje.

A mulher, de uns quarenta e poucos, ouviu-os a conversar, no cais, à espera do comboio. Cuspiu, subitamente, no pé da minha amiga. E proferiu os dizeres:

– Estou enojada! Volta para o seu país, brasileira vagabunda!

A sucessão de erros já estava anunciada. A violência residente na gratuidade nos é a mais avassaladora.

Foi assim que, nos dias seguintes, meus amigos discutiram com mais de vinte pessoas sobre a manifestação xenófoba. Criaram desafetos. Debulharam-se em lágrimas. Puseram as certezas em suspensão. E, por alguns instantes, agradeceram a todas as entidades cósmicas por estarem indo embora da cidade.

Há dias que minha alma tenta compreender o porquê da covardia se sobrepor ao afeto…

Será que as nossas roupas, coloridas, servem de gatilho? Ou será a indiscutível beleza da minha amiga? Algum homem a teria abandonado, por uma brasileira? Há alegria demais na forma com a qual pronunciamos as palavras?

Questionei-me, dura e lentamente: será que me sinto uma puta, quando assim me veem? Será que ela tem razão e devo voltar à minha terra? A amarga senhora terá alguma ideia da explosão de ódio que causou, com as suas mágoas entregues a outrem?

Fui pesquisar algumas alternativas, que destituam o poder inevitável dos xenófobos. Uma delas é o silenciamento. Ignorar a existência de um ser humano tão desprezível e estúpido como essa infeliz. Fingir que o coração não se estraçalha, ao ouvir tamanhas inverdades. Perguntei, enfim, ao grande estudioso que me explicou essa técnica: funciona? E ele, generoso na tradução mais fidedigna, apenas riu-se da minha pergunta. É óbvio que não.

Gostaria de desvendar, todos os dias, mecanismos de combate à xenofobia e ao racismo. Quando era pequena eu não sabia que as pessoas tinham cores. Aliás, para mim, cada pessoa era de uma cor, de um formato diferente, com olhos intransferíveis. Em que momento da infância me roubaram essa sabedoria? Onde foi que meu sotaque se transformou em símbolo de desamor?

“O dito não vai sem o dizer.” Disse, outrora, Lacan. E, talvez, venha dele a esperança. Escancarar os preconceitos para dar luz às epidermes imaculadas. Vociferar as sombras que carregamos, e darmos a elas, nomes. Reinventar as percepções primeiras, antes de cores, gêneros, rótulos. E, quiçá, como disse Pessoa, um dia: “buscar quem fui onde ficou”. 

*O título é verso deste poema:

“A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

 

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou

A vinda tem a regressão errada.

Já não sei de onde vim nem onde estou.

De o não saber, minha alma está parada.

 

Se ao menos atingir neste lugar

Um alto monte, de onde possa enfim

O que esqueci, olhando-o, relembrar,

 

Na ausência, ao menos, saberei de mim,

E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar

Em mim um pouco de quando era assim.”

Fernando Pessoa

22-9-1933

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).  – 90.

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Eu sou exasperadamente sensível e exasperadamente inteligente.

alberto-caeiro2.jpg

É costume dizer-se, desde que alguém começou a dizê-lo, que, para compreender um sistema filosófico, é preciso compreender o temperamento do filósofo. Como todas as coisas com ar de cenas, e que se espalham, isto é asneira; se o não fosse, não se teria espalhado. Confunde-se a filosofia com a formação dela. O meu temperamento pode levar-me a dizer que dois e dois são cinco, mas a afirmação de que dois e dois são cinco é falsa independentemente do meu temperamento, seja ele qual for. Pode ser interessante saber como é que eu vim a afirmar essa falsidade, mas isso nada tem com a própria falsidade, tem que ver somente com a razão do seu aparecimento.

O meu mestre Caeiro era um temperamento sem filosofia, e por isso a filosofia dele – que a tinha, como toda a gente – não é susceptível sequer destas brincadeiras do jornalismo intelectual. Não há dúvida que, sendo um temperamento, isto é, sendo um poeta, o meu mestre Caeiro exprimiu uma filosofia, isto é, um conceito do universo. Esse conceito do universo é, porém, instintivo e não intelectual; não pode ser criticado como conceito, porque não está lá, e não pode ser criticado como temperamento, porque o temperamento não é criticável.

As ideias organicamente ocultas na expressão poética do meu mestre Caeiro tentaram definir-se, com maior ou menor felicidade lógica, em certas teorias do Ricardo Reis, em certas teorias minhas, e no sistema filosófico -esse perfeitamente definido – do António Mora. Tão fecundo é Caeiro que cada um de nós três, devendo todos o pensamento da alma ao nosso mestre comum, produziu uma interpretação da vida inteiramente diferente da de qualquer dos outros dois. Verdadeiramente, não há direito de comparar a minha metafísica, e a do Ricardo Reis, que são meras vaguidades poéticas tentando esclarecer-se (ao contrário de em Caeiro, onde a alma era de certezas poéticas não buscando esclarecer-se), com o sistema de António Mora, que é realmente um sistema, e não uma atitude ou um remexer. Mas, enfim, ao passo que Caeiro afirmava coisas que, estando todas certas umas com as outras (como todos percebíamos) numa lógica que excede – como uma pedra ou uma árvore – a nossa compreensão, não eram contudo coerentes na sua superfície lógica, tanto o Reis, como eu (não falemos no Mora, por nosso superior em qualidade nesta matéria) tentávamos encontrar uma coerência lógica no que pensávamos, ou supunhamos que pensávamos, a respeito do Mundo. E isso, que pensávamos ou supunhamos que pensávamos, a respeito do mundo, isso devíamos a Caeiro, descobridor das nossas almas, colonizadas depois por nós.

Propriamente falando, Reis, Mora e eu somos três interpretações orgânicas de Caeiro. Reis e eu, que somos fundamentalmente embora diversamente poetas, interpretamos ainda com sujidades do sentimento. Mora, puramente intelectual, interpreta com a razão; se tem sentimento, ou temperamento, anda disfarçado.

O conceito da vida, formado por Ricardo Reis, vê-se muito claramente nas suas odes, pois, quaisquer que sejam os seus defeitos, o Reis é sempre claro. Esse conceito da vida é absolutamente nenhum, ao contrário do de Caeiro, que também é nenhum, mas às avessas. Para Ricardo Reis, nada se pode saber do universo, excepto que nos foi dado como real um universo material. Sem necessariamente aceitarmos como real esse universo, temos que o aceitar como tal, pois não nos foi dado outro. Temos que viver nesse universo, sem metafísica, sem moral, sem sociologia nem política. Conformemo-nos com esse universo externo, o único que temos, assim como nos conformariamos com o poder absoluto de um rei, sem discutir se é bom ou mau, mas simplesmente porque é o que é. Reduzamos a nossa acção ao mínimo, fechando-nos quanto possível nos instintos que nos foram dados, e usando-os de modo a produzir o menos desconforto para nós e para os outros, pois tem igual direito a não ter desconforto. Moral negativa, mas clara. Comamos, bebamos e amemos (sem nos prender sentimentalmente à comida, à bebida e ao amor, pois isso traria mais tarde elementos de desconforto); a vida é um dia, e a noite é certa; não façamos a ninguém nem bem nem mal, pois não sabemos o que é bem ou mal, e nem sequer sabemos se fazemos um quando supomos fazer o outro, a verdade, se existe, é com os Deuses, ou seja com as forças que formaram ou criaram, ou governam, o mundo – forças que, como na sua acção violam todas as nossas ideias do que é moral e todas as nossas ideias do que é imoral, estão patentemente além ou fora de qualquer conceito do bem ou do mal, nada havendo a esperar delas para nosso bem ou até para mal nosso. Nem crença na verdade, nem crença na mentira; nem optimismo nem pessimismo. Nada: a paisagem, um copo de vinho, um pouco de amor sem amor, e a vaga tristeza de nada compreender e de ter que perder o pouco que nos é dado. Tal é a filosofia de Ricardo Reis. É a de Caeiro endurecida, falsificada pela estilização. Mas é absolutamente a de Caeiro, de outro modo: o aspecto côncavo daquele mesmo arco de que a de Caeiro é o aspecto convexo, o fechar-se sobre si mesmo daquilo que em Caeiro está virado para o Infinito – sim, para o mesmo infinito que nega.

É isto – este conceito tão fundamente negativo das coisas – que dá à poesia de Ricardo Reis aquela dureza, aquela frieza, que ninguém negará que tem, por mais que a admire; e quem a admira – pouca gente – é por essa mesma frieza, aliás, que a admira. Nisto, de resto, Caeiro e Reis são iguais, com a diferença que Caeiro tem frieza sem dureza; que Caeiro, que é a infância filosófica da atitude de Reis, tem a frieza de uma estátua ou de um píncaro nevado, e Reis tem a frieza de um belo túmulo ou de um maravilhoso rochedo sem sol nem onde haver musgos. E é por isto que, sendo a poesia de Reis rigorosamente clássica na forma, é totalmente destituída de vibração – mais ainda que a de Horácio, apesar do maior conteúdo emotivo e intelectual. A tal ponto é intelectual, e portanto fria, a poesia de Reis, que quem não compreender um poema dele (o que facilmente sucede, dada a excessiva compressão) não lhe apreende o ritmo.

Comigo o que se passou foi o mesmo que o que se passou com Ricardo Reis, com a diferença que foi o contrário. O Reis é um intelectual, com o mínimo de sensibilidade de que um intelectual precisa para que a sua inteligência não seja simplesmente matemática, com o mínino do que ente humano precisa para se poder verificar pelo termómetro que não está morto. Eu sou exasperadamente sensível e exasperadamente inteligente. Nisto pareço-me (salvo um bocado mais de sensibilidade, e um bocado menos de inteligência) com o Fernando Pessoa; mas, ao passo que no Fernando a sensibilidade e a inteligência entrepenetram-se, confundem-se, interseccionam-se, em mim existem paralelamente, ou, melhor, sobrepostamente. Não são cônjuges, mas gémeos desavindos. Assim, expontaneamente formei a minha filosofia daquela parte da insinuação de Caeiro de que Ricardo Reis não tirou nada. Refiro-me à parte de Caeiro que está integralmente contida naquele verso, «E os meus pensamentos são todos sensações»; o Ricardo Reis deriva a sua alma daquele outro verso, que Caeiro se esqueceu de escrever, «as minhas sensações são todas pensamentos». Quando me designei como «sensacionista» ou «poeta sensacionista» não quis empregar uma expressão de escola poética (santo Deus! escola!); a palavra tem um sentido filosófico.

Não creio em nada senão na existência das minhas sensações; não tenho outra certeza, nem a do tal universo exterior que essas sensações me apresentam. Eu não vejo o universo exterior, eu não oiço o universo exterior, eu não palpo o universo exterior. Vejo as minhas impressões visuais; oiço as minhas impressões auditivas; palpo as minhas impressões tácteis. Não é com os olhos que vejo, mas com a alma; não é com os ouvidos que oiço, mas com a alma; não é com a pele que palpo, é com [a alma.] E, se me perguntarem o que é a alma, respondo que sou eu. De aqui a minha divergência fundamental do fundamental intelectual de Caeiro e de Reis, mas não do fundamental instintivo e sensitivo em Caeiro. Para mim o universo é apenas um conceito meu, uma síntese dinâmica e projectada de todas as minhas sensações. Verifico, ou cuido verificar, que coincidem com as minhas grande número das sensações de outras almas, e a essa coincidência chamo o universo exterior, ou a realidade. Isso nada prova da realidade absoluta do universo porque existe a hipnose colectiva. Já vi um grande hipnotizador obrigar um grande número de pessoas ver, positivamente ver, a mesma hora falsa em relógios que o não estavam. Concluo de aqui a existência de um Hipnotizador supremo, a quem chamo Deus, porque consegue impor a sua sugestão à generalidade das almas, as quais, contudo, não sei se ele criou ou não criou, porque não sei o que é criar, mas que é possível que criasse, cada uma para si mesma, como o hipnotizador me pode sugerir que sou outra pessoa ou que sinto uma dor que eu não posso dizer que não sinto, pois que a sinto. Para mim ser «real» consiste em ser susceptível de ser experienciado por todas as almas; e isto obriga-me a acreditar num Hipnotizador Infinito, pois criou uma sugestão chamada universo capaz de ser experienciado por todas as almas, não só reais, mas até possíveis. À parte isto, sou engenheiro – isto é, não tenho moral, política ou religião independente da realidade real mensurável das coisas mensuráveis, e da realidade virtual das coisas imensuráveis. Também sou poeta, e tenho uma estética que existe por si mesma, sem ter que ver com a filosofia que tenho ou com a moral, a política ou a religião que sou ocasionalmente forçado a ter.

António Mora, sim. Esse realmente, recebendo de Caeiro a mensagem na sua totalidade, se esforçou por traduzi-la em filosofia, esclarecendo, recompondo, reajustando, alterando aqui e ali. Não sei se a filosofia de António Mora será o que seria a de Caeiro, se o meu mestre a tivesse. Mas aceito que seria a filosofia de Caeiro, se ele a tivesse e não fosse poeta, para a não poder ter. Assim como da semente se evolve a planta, e a planta não é a semente magnificada, mas uma coisa inteiramente diferente em aspecto, assim do gérmen contido na totalidade da poesia de Caeiro saiu naturalmente o corpo diferente e complexo que constitui a filosofia de Mora. Vou deixar a exposição da filosofia de Mora para o trecho seguinte a este. Estou cansado de querer entender.

27-2-1931

Pessoa por Conhecer – Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990.

– 372.

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Adeus!

Eugénio0001

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa”

 

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Razão de ser

 

leminski

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Paulo Leminski

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Ano que passou

a-origem-dos-fogos-de-artificio

Quis escrever sobre feminismo,

esse ano que passou.

Não consegui.

Minhas ideias talvez atinjam

a obviedade ululante.

Engatinho frente às mulheres

que admiro nesse aspecto.

Não me sinto dona

dos saberes inexoráveis.

Aceito a minha pequenez.

 

Quis argumentar

que não era racista,

ano esse que passou.

Aos prantos,

a recolher

doces epifanias de infância,

nas quais

os pretos,

os japoneses,

os filhos do porteiro

e todas as crianças do mundo,

tinham meu afeto em igualdade.

Não consegui.

Minhas memórias não bastaram

para explicar os horrores

pelos quais meus queridos

haviam passado.

Uma vez mais,

fracassei.

 

Quis buscar a quietude,

do outro lado do oceano.

Farta das noites viradas,

dos planetas sem vozes,

de sentir-me ínfima

e ingrata,

ao rejeitar a saúde que tenho,

apesar dos pesares.

 

Frustei-me.

Eu me carrego

aonde quer que me vá.

E as dores

são imunes às marés.

 

Quis também amar,

ano que passou.

Encontrei almas

de outras encarnações,

Encolhi-me diante

de instantes plenos.

Assustei-me com a humanidade

das pessoas à minha volta.

Mas não pude colocar

meu coração em dizeres.

Falhei.

Os astros me disseram

que meus portos silenciosos

vêm para a era de Júpiter.

 

Tentei emagrecer,

parar de fumar,

não ter amnésias,

voar em sonhos lúcidos,

ignorar as insônias,

comer cinco frutas por dia,

não beber mais

do que três taças de vinho,

ser menos agressiva

quando me supusesse inferior,

meditar,

rezar,

estocar comida,

dinheiro,

pulmões

para o dia a seguir.

 

Indesculpavelmente,

posso afirmar:

a Poesia

permanece,

pois,

esse ano que passou,

sendo

a

única

aliada

a atravessar

o meu futuro.

 

E eu a desejo,

em proporções

ESTRATOSFÉRICAS,

a todos os meus.

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