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Erro

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nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez

Paulo Leminski

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Prefácio

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VIVER A LITERATURA

 

Claudio Willer

 

Querem uma definição de cronista? Dos cronistas realmente bons, daqueles excelentes? São autores que não se satisfazem com limites. Inclusive, com os limites entre os gêneros literários tradicionais, aqueles tidos como maiores: poesia, narrativa em prosa. Querem sempre ir além, escrever outra coisa. Viajar pela criação. Exemplar, sob este aspecto, é Paulo Mendes Campos: suas crônicas atropelam as definições de gêneros.

Por maior que seja sua evidência, por mais que se façam presentes no periodismo — ou talvez por isso, pela imprensa periódica ser ao mesmo tempo tão evidente e perecível — cronistas são marginais da literatura. Ou, quando se consagram em outros gêneros, as crônicas vão integrar a marginália de suas obras. Veja-se Drummond: foi preciso transcorrer uma geração de leitores para que se dessem conta do alcance do que publicava periodicamente.

Uma das crônicas deste Viver é fictício, sobre São Paulo, tem valor como metáfora: a autora visita os lugares “bons” da metrópole, mas nenhum a satisfaz. “Não amo lugar algum em São Paulo”, declara. É impelida a mover-se, do Theatro Municipal à Praça do Por do Sol, para acabar aportando à sua própria subjetividade: “O amor que eu tanto procurava não estava preso a lugar algum”. É alguém no trânsito e perpetuamente em trânsito. A mesma relação que mantém com a escrita, bem evidenciado em “Semeando constelações”: na terceira pessoa, encarna a declaração de Rimbaud, “O EU é um outro”, ao apresentar uma protagonista no limiar da loucura — “Os meses seguintes foram levando a sua lucidez” — que promove a irrupção de incríveis imagens poéticas em seu relato: “as dores são pássaros ininterruptos do cantar”.

Lisboa, onde tem residido, aparece como contraponto à ciclópica e desgastante São Paulo. Mas, justamente, por sua condição de mínima capital política e máxima capital literária, lugar onde se lê e se escreve tanto e tão bem, por tangenciar o impossível, por ser lugar de confusão do simbólico e do mundo das coisas, ou onde o simbólico toma a frente: “Há, pois, um lugar que transcendeu sua existência para atravessar as distâncias insuportáveis da poesia”. O mundo cabe no Tejo Bar.

Um autor exemplar sob esse aspecto, da permanente inquietação, por ser tão atópico — e muito bem lido por Mariana Portela — é Julio Cortázar: sempre, ao estar em uma das modalidades ou gêneros, quer estar em outro. Ao relatar uma história, precisa das imagens poéticas; ao poetizar, adiciona imagens visuais; em alguns dos seus livros, a página é pouco, tem que permutá-las ou cortá-las; e, em qualquer um dos seus modos de expressar-se, conclama a música, gostaria que seus textos fossem sonoridades que, tarefa impossível, tenta traduzir em palavras. Por isso, celebrou tanto o jazz, gênero que, especialmente na vertente bop, mimetiza inflexões e entonações da língua falada — e seu expoente Charlie Parker foi tema de um conto especialmente impactante, “O perseguidor”, assim como ouvir discos de jazz suscitou alguns dos pontos altos da prosa poética no século XX em Rayuela, O jogo da amarelinha. Cortázar, tão bem homenageado e mimetizado aqui, inclusive em “Instruções para matar um fantasma”, texto breve que, bem ao modo do argentino, se contradiz, apresenta paradoxos: além de ser impossível matar fantasmas, eles fariam falta se efetivamente fossem mortos, pois “nenhum corpo humano é capaz de apagar uma estrada” e, ademais, “Fantasmas são, via de regra, ótimas companhias oníricas, devoradores de madrugadas”.

Confronte-se essa crônica com outra, imediatamente precedente: “O colecionador de saudades”. Talvez Viver é fictício não deva ser lido linearmente, porém ao modo de um jogo — assim seguindo a recomendação de Cortázar — e as sequências possíveis engendrem outras narrativas, outras conexões. O confronto das duas crônicas sugere que para colecionar lembranças e, portanto, ter saudades, os fantasmas são indispensáveis.

Imediatamente a seguir, após a mimese de Cortázar, outra homenagem: “Clarice Lispector, minha” — como se já não houvesse tantas marcas da sua leitura, através de passagens como esta: “esquecemos o cheiro incompreensível de existir”; e não houvesse títulos que são paráfrases da autora de Felicidade clandestina.

O narrador ingênuo apresentaria imediatamente o tema: diria algo sobre suas emoções, evocações ou o que fosse, relacionadas à leitura de Clarice. Mariana, não — abre escrevendo sobre tomar café às três da madrugada. Em seguida, declara-se possessiva — “Não suporto conceber que há outros livros por aí, que não seja o meu A descoberta do mundo” — para concluir expondo uma poética, a declaração de que leu muito, apaixonou-se por algo do que leu, e dedicou-se ao empreendimento de confundir literatura e realidade; ou de experimentar a contradição entre as duas esferas, do mundo das coisas e aquele dos símbolos. A opção é pelo simbólico: “A sua voz, Clarice, reside única dentro dos meus olhos e não posso ferir minha imaginação com a realidade”. Uma esquizofrênica? Não, uma viajante por dois mundos, pela intersecção possível da “voz”, do símbolo, e o das coisas.

É assim que Viver é fictício enfrenta os desafios da crônica, o gênero injustamente rotulado como “menor”, que se confunde com o relato e a prosa poética, mas pode ser literatura total, absoluta. O lugar daqueles que não querem ferir a imaginação com a realidade. Inclusive, através de dois dentre os autores especialmente apreciados, referências diria, para ela: Clarice Lispector e Paulo Mendes Campos — ambos mencionados e homenageados neste conjunto, ao lado de outras presenças fortes; especialmente a do Fernando Pessoa / Bernardo Soares, integrando um leque que se abre desde Mario Quintana até Gaston Bachelard. Aliás, aí está outra qualidade desta cronista: exibe paixões literárias, sem tornar-se sentenciosa, sem usá-las como amparo ou justificativa.

Uma chave para sua leitura está neste início de “O colecionador de saudades”: “Eu gostava mesmo de escrever em terceira pessoa”. Isso, lembrando que os portugueses — e Mariana Portela tem residido em Lisboa — confundem os tempos verbais, e “gostava” pode significar “gostaria”. Mas não, nesta crônica que mimetiza um conto, que simula um relato, a objetividade naufraga — e com ela também a subjetividade, como esferas autônomas: “Levo meu espírito para abrigar outra identidade. Crio um semi-heterônimo. Sem passado algum”. A crônica expõe uma poética: “Eu já não me serei”, diz. A criação literária é para quem é e não é, está e não está aí. A extrema lucidez e a loucura podem confundir-se — Mariana simula a loucura ao exibir sua penetrante lucidez.

E assim nos oferece a gama completa das possibilidades de expressar-se. Combina e harmoniza o registro da subjetividade, manifesto através de uma prosa poética de imagens luminosas e a falsa confessionalidade dos narradores. Em primeira instância, seu compromisso ou seu envolvimento mais profundo é com a literatura; com uma experiência poética por vezes apresentada como antagônica com relação ao real, a uma realidade imediata — certamente, a uma realidade prosaica — mas que cria a realidade, ao iluminar experiências, os lugares, as pessoas e as coisas através do olhar poético.

 

São Paulo, 10 de fevereiro de 2018.

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Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer…

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Lisboa, 14 de Março de 1916

Meu querido Sá-Carneiro:

Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.

Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.

No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.

Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.

Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.

Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no «Livro do Desassossego». Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.

As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.

Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.

De que cor será sentir?

Milhares de abraços do seu, sempre muito seu

Fernando Pessoa

P. S. — Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si próprio que dele são tão características…

Você acha-me razão, não é verdade?

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Cortesia dos cegos

O poeta lê seus versos para os cegos
Não imaginava que fosse tão difícil.
Treme-lhe a voz.
Tremem-Ihe as mãos.

Sente que cada frase
é posta aqui à prova da escuridão.
Vai precisar se virar sozinha
sem luzes e cores.

Aventura perigosa
para as estrelas em seus versos,
a aurora, o arco-íris, as nuvens, os neons, a lua,
para os peixes até aqui tão prateados sob a água
e o falcão tão alto e silencioso no céu.

Lê — porque já é tarde demais para não ler —
sobre o rapaz de casaco amarelo num prado verde,
sobre os telhados vermelhos, que se podem contar, no vale,
sobre os números agitados nas camisas dos jogadores
e sobre a desconhecida nua na porta entreaberta.

Queria se calar — embora seja impossível —
sobre todos aqueles santos no teto da catedral,
aquele gesto de despedida na janela do trem,
a lente do microscópio e o raio de luz no anel
e a leia e o espelho e o álbum de retratos.

Mas é grande a cortesia dos cegos,
grandes sua compreensão e magnanimidade.
Ouvem, sorriem e aplaudem.

Um deles até se aproxima
com um livro aberto de cabeça para baixo
pedindo o autógrafo que não verá.

Wislawa Szymborska

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Razão de ser

 

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Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Paulo Leminski

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Ano que passou

a-origem-dos-fogos-de-artificio

Quis escrever sobre feminismo,

esse ano que passou.

Não consegui.

Minhas ideias talvez atinjam

a obviedade ululante.

Engatinho frente às mulheres

que admiro nesse aspecto.

Não me sinto dona

dos saberes inexoráveis.

Aceito a minha pequenez.

 

Quis argumentar

que não era racista,

ano esse que passou.

Aos prantos,

a recolher

doces epifanias de infância,

nas quais

os pretos,

os japoneses,

os filhos do porteiro

e todas as crianças do mundo,

tinham meu afeto em igualdade.

Não consegui.

Minhas memórias não bastaram

para explicar os horrores

pelos quais meus queridos

haviam passado.

Uma vez mais,

fracassei.

 

Quis buscar a quietude,

do outro lado do oceano.

Farta das noites viradas,

dos planetas sem vozes,

de sentir-me ínfima

e ingrata,

ao rejeitar a saúde que tenho,

apesar dos pesares.

 

Frustei-me.

Eu me carrego

aonde quer que me vá.

E as dores

são imunes às marés.

 

Quis também amar,

ano que passou.

Encontrei almas

de outras encarnações,

Encolhi-me diante

de instantes plenos.

Assustei-me com a humanidade

das pessoas à minha volta.

Mas não pude colocar

meu coração em dizeres.

Falhei.

Os astros me disseram

que meus portos silenciosos

vêm para a era de Júpiter.

 

Tentei emagrecer,

parar de fumar,

não ter amnésias,

voar em sonhos lúcidos,

ignorar as insônias,

comer cinco frutas por dia,

não beber mais

do que três taças de vinho,

ser menos agressiva

quando me supusesse inferior,

meditar,

rezar,

estocar comida,

dinheiro,

pulmões

para o dia a seguir.

 

Indesculpavelmente,

posso afirmar:

a Poesia

permanece,

pois,

esse ano que passou,

sendo

a

única

aliada

a atravessar

o meu futuro.

 

E eu a desejo,

em proporções

ESTRATOSFÉRICAS,

a todos os meus.

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Carrego as estações comigo

Lisboa

“Carrego as estações comigo
e tenho as mãos cansadas.
No bolso esquerdo um riacho murmura.
Ali, onde pequenas pedras se acumulam,
uma canção exala seu vapor,
depois se perde.

Jardins de Primavera circulam no meu corpo
Um céu de ouro verte seu perfume
e um vento ignorado agita suas asas.
Pasto de segredos, mescla de memória
e desejo, meu corpo caminha com a chuva
(carrego as estações comigo)
à procura do sonho de uma nuvem fria.

Tantas folhas trago nos braços
que um pássaro, solidário, se oferece
para carregar as estações comigo.
Do peito aberto os meus jardins se vão
e o pássaro me ajuda, memória
e desejo, a semear meu corpo.

Ali planto meus braços.
Debaixo daquelas flores meus olhos ficam.
Os pés, roídos pela terra, penduro numa árvore.
O tronco multiplico em cem pedaços:
Lá vai, junto com as pedras,
no bojo do riacho antigo.

E pois que carrego as estações comigo
os lábios deixo além, no descampado.
E peço ao pássaro que pelos cabelos atire
o que sobrou de mim
àquele mar onde me espera a memória
e o desejo do tempo em que não soube
carregar as estações comigo.”

Carlos Felipe Moisés, in ‘Círculo Imperfeito’

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