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Que invisível se vê…

“Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.”

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

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Sexta-feira

Sextas-feiras são os dias mais bonitos da semana. Tu chamas os amigos para vir a beber uns copos na nossa morada. Eu penso nas interpretações incríveis que lhes posso fazer, para adentrar essas noites contigo. Preparo poesias, ensaio canções, busco fantasias no fundo dos armários, repletos de poeira, e salvação. Não durmo nas quintas anteriores.

Tens um amigo, bêbedo, insuportável, que me vê como um puto paneleiro. Eu só quero deitar a noite na companhia dos realejos. Porque é que te importas com esse tipo de gente, acéfalos em dores de sentir? Talvez exista qualquer inveja que pulse em ti, da qual eu não percebo nada. Tua dor é o teu dom mais belo, mamã.

Quando temos sapateira, tu sempre dizes que é a comida dos deuses. Eu imagino os deuses se lambuzando, perdendo as realezas para lambidas mundanas. Gosto de pensá-los assim: enobrecendo as mãos em saliva. Tu só és feliz ao comer as sapateiras. Porque não gostas de te alimentar, Mamã?

Detestas que os pratos, sujos de histórias e risadas, fiquem à mesa, para contar as decadências. Eu os lavo, feliz, à espera das tertúlias improvisadas. Nessa hora o amigo agressivo vai-se embora. Ele não tolera os dizeres da poesia.

A guitarra está sempre a postos, na nossa sala de estar. Os brasileiros a chamam de violão. Eu amo as palavras inventadas pelos brasileiros. Eu te amo tanto, mamã.

Um Vinícius de Moraes para inaugurar os trabalhos. Fazes sempre essa piada, à luz da Umbanda. Proíbes teus convidados de tocar Garota de Ipanema. A seguir, como é óbvio, tuas cordas vocais ameaçam um português de Portugal – ridículo – porém amado, ao recitar o teu Pessoa: “canções tristes, como as ruas estreitas, quando chove.”

Teus amigos são seres de uma arquitetura imaterial. Sabem à cachaça, aos versos, à eternidade! Estão, às vezes, embriagados demais para sucumbir à tua força de anfitriã. Todavia, mostram suas garras, sempre bem-vindas. Esparramam, cuidadosamente, gentilezas absurdas, obviedades advindas, ignorâncias delicadas. Eu também vos amo, mamã.

O silêncio, quando reina em nossa casa, dilacera meu sorriso, infante. Cálices encarnados, pedaços de queijo pelo chão, palavras escritas em papéis, sujos de vinho. Eu pego, com as mãozinhas envergonhadas, os dizeres que ficaram. Para a próxima sexta-feira.

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Canção amiga

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

Carlos Drummond de Andrade

 

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Compreensões inexplicáveis

Cousa mais bela essa música… E eu não sei nada sobre a vida do Leo…

Leo

Milton e Chico

Um pé na soleira e um pé na calçada, um pião
Um passo na estrada e um pulo no mato
Um pedaço de pau
Um pé de sapato e um pé de moleque
Leo

Um pé de moleque e um rabo de saia, um serão

As sombras da praia e o sonho na esteira
Uma alucinação
Uma companheira e um filho no mundo
Léo

Um filho no mundo e um mundo virado, um irmão
Um livro, um recado, uma eterna viagem
A mala de mão
A cara, a coragem e um plano de vôo
Leo

Um plano de vôo e um segredo na boca, um ideal
Um bicho na toca e o perigo por perto
Uma pedra, um punhal
Um olho desperto e um olho vazado
Leo

Um olho vazado e um tempo de guerra, um paiol
Um nome na serra e um nome no muro
A quebrada do sol
Um tiro no escuro e um corpo na lama
Leo

Um nome na lama e um silêncio profundo, um pião
Um filho no mundo e uma atiradeira
Um pedaço de pau
Um pé na soleira e um pé na calçada

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Imobiliária poética

tia-helena

À procura de inquilinos afetivos

 

Eu herdei esse apartamento quando minha tia avó, a tia Helena, faleceu, no natal de 2002. Ela era enfermeira do Hospital das Clínicas e a melhor pessoa do Mundo. Morreu com 88 anos, sem filhos. Eu era a grande paixão da vida dela.

Lembro-me bem de como ela era capaz de pentear os meus cabelos como ninguém mais conseguia. Uma leveza nas mãos que até os anjos invejavam. Guardava, no dia do seu aniversário, em cima da cama, todos os presentes e todos os bilhetes, incluindo os telegramas do banco, com igual carinho e bondade.

 

XL

 

Solidão é agradecer

Aos parabéns

Do Bradesco.

                        Fernando Portela in Poemínimos

 

Na casa da tia Helena morava também a Arlete, uma empregada completamente maluca, que tinha uma linguagem própria e um coração muito maior que os seus olhos arregalados. Eu tinha um pouco de medo, mas todo meu medo sempre se misturava com o cheiro de mofo perfumado; com as duvidosas cores dos carpetes; com os sons insuportáveis do Chacrinha, das tevês sempre ligadas; com as balinhas vencidas e com o azul que desferia da íris, dos óculos enormes da tia Helena.

Às vezes, confesso, ficava com preguiça de ir visitá-la. Mas porque a tevê estava ligada, a Arlete falava dialetos, a bala grudada ao papel. A tia Helena era a única, naquela casa, que me inundava de ternura. Generosidade irritante. E sempre eu ia, com a canalhice felina – escova em punhos – a ofertar-lhe meus fios.

Nos almoços, na casa dos meus pais, minha mãe fazia questão de comprar aqueles vinhos alemães, doces, vagabundos, garrafas azuis. E embriagava a tia Helena. Ela, no auge da sua doçura, em janeiro, proferia: “Daqui a pouco já é natal! ” Como era sábia, meu Deus! Outras vezes, completamente ébria, colocava o cálice dentro do potinho de sorvete. E todos nós ríamos e, por alguns segundos, sentia-me família.

Minha avó, sempre exibida, sempre mais gordinha, sempre imponente, jamais deixava que a tia Helena pudesse ser protagonista de nada. Mas cá, dentro das minhas memórias afetivas, nas vísceras mais trôpegas dessas estúpidas ancestralidades, é ela quem me faz mais falta.

Quando fui morar no ap. da tia Helena, em 2011, várias epifanias me abrigaram também. Era minha primeira morada em São Paulo, como adulta. Aquela região perfeita, que tem a padoca na esquina, o boteco, o japa, as infindas lojas de música. Cozinha psicodélica, com suas laranjas e espirais. Aos sábados, de ressaca, eu acordava com jazz – que o sebo oferece. Se eu extrapolava nas festinhas, em casa, a janela, imensa, batia forte, e eu sabia que era a tia Helena me dando uma bronca doce, com piedade da minha loucura.

Ao me mudar de lá, em 2014, com sonhos de mangueira, cachorro e promessas de que o amor iria durar para sempre, meu coração sangrou um pouquinho.

Afinal, vivemos no apartamento da tia Helena toda a emancipação da Poesia. Os afters dos saraus, os jantares que viravam manhãs, os amanheceres que davam nomes a personagens. Ultimatos, Caubys Peixotos, amnésias poéticas. Eu fui imensamente feliz naquele ninho.

E a tia Helena, nas profundezas da sua solidão, inúmeras vezes, convidava-me a entrar em contato com os meus personagens, com a minha literatura, com a minha poesia. Ela dormia cedo e roncava altíssimo. E eu, já insone, habitava os devaneios mais puros de intimidade: solidões de cabana, à revelia de quaisquer subterfúgios.

 

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Confissões e canções de uma antiga suicida

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“nos demais – eu sei,

qualquer um o sabe –

o coração tem domicílio

no peito.

comigo

a anatomia ficou louca.

sou todo coração –

em todas as partes palpita.”

Vladimir Maiakóvski

Eu havia escolhido. Parece que os olhos ficam mais atentos, depois que o coração invoca as estradas. A miopia desaparece. Os instantes se agigantam, ávidos de finitude.

A dor ficava constantemente anestesiada pelos remédios. Afinal, depois de dois muros, três psiquiatras, uma irmã, uma amiga e um quase-pseudo-namorado, qual sofrimento seria vencido pela medicina?

Os amigos? Uns poucos tentaram. As pessoas têm ojeriza à dor. As pessoas também têm ojeriza à alegria. As pessoas não aceitam os excessos, não importa a natureza. Quaisquer transbordamentos, quaisquer dilúvios, quaisquer tempestades remetem aos humanos que a Natureza nos é maior.

Nenhum poeta mendiga por acolhimento, seus idiotas! Dai-me um papelão molhado, na Praça do Comércio. Uma cama no Jaguaré. Um quarto, abandonado, no feudo. Uma esplanada, de frente para a igreja de Santo Estevão. Ah, como dói quando a alma vai viajar e não se sabe o nome do sítio.

 

96 days

 

I’ve got no reason to feel so blue

Woke up this morning with coffee and sugar

It’s 96 days since I’ve thought of you

I’ve just got this coffe and I feel a little rough

I’ve been smoking too much these days

 

I have been eating well

You would be pleased to know

Windows are clean

do there’s no much to see

 

So I go down to the street

where the cars are like riverboats

Inching along

Cause I light up again

I’ll light up another one

this one is for you and your memory

I guest that you’ve quit it

but left me to have it

I’ve been smoke too much theses days

 

I’ve got no reason to feel so blue

Woke up this morning with coffee and sugar

It’s 96 days since I’ve thought of you

I’ve just got this coffee and I feel a little rough

I’ve been smoking too much these days

 

I have been eating well

You would be pleased to know

Windows are clean

do there’s no much to see

 

So I go down to the street

where the cars are like riverboats

Inching along

Cause I light up again

I’ll light up another one

this one is for you and your memory

I guest that you’ve quit it

but left me to have it

I’ve been smoke too much these days

                                                [Hugh Coltman]

E eu, Pedro, nunca tive medo de ser despejada da minh’alma. Confesso, o meu verdadeiro pavor é não respeitar mais esse planeta. Desprovido de poesia, escasso em generosidade. Lá, de onde viemos, a fartura é condição.

Só que me deparo com Vinícius e a sua casa aberta. São cinco da manhã em Santo André. O céu exige de mim a tradução maior de todas as psicodelias. Sou capaz de atravessar esses azuis, Pedro? Ninguém está pronto para decifrar as alegrias.

No entanto, os roteiristas da vida são uns caras surpreendentes. Eles mudam a cabeça dos personagens, indiscriminadamente, como se as mudanças não tivessem passado por gestações infindas. A gente só arrepia no instante que precede os absurdos.

Leve, como leve pluma

Muito leve, leve pousa.

Muito leve, leve pousa.

 

Na simples e suave coisa

Suave coisa nenhuma

Suave coisa nenhuma.

 

Sombra, silêncio ou espuma.

Nuvem azul

Que arrefece.

 

Simples e suave coisa

Suave coisa nenhuma.

Que em mim amadurece

                                    Ney Matogrosso

Por que será que há tanto glamour em sofrer? Por quais razões eu me identifico tanto com aquele poeta tuberculoso, pobre, derrotado? Onde mora essa bizarra união entre a arte e o fracasso?

Ou será ao contrário? Estamos ainda engatinhando na cosmicidade, ludibriando as ciências, envergonhando as estrelas?

Será que a beleza tem sempre que doer, ou somos nós, seres estéreis, incapazes, inconformados com os estrondos, insustentáveis, free jazz, da vida?

Por que eu ainda tenho medo do escuro, já que eu quero morrer?

Por que eu ainda olho para trás, à procura de um estranho, se eu quero morrer?

“(…). És importante para ti, porque é a ti que te sentes.

És tudo para ti, porque para ti és o universo,

E o próprio universo e os outros

Satélites da tua subjectividade objectiva.

És importante para ti porque só tu és importante para ti.

E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?”

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

Ninguém nunca te vai sentir, Pedro. E pior aqueles que acham que te sentem. São muito menos generosos. Estes me doeram muito mais. Porque a tua dor vai ser sempre mais pequena, mais medíocre, menos válida.

 

“(…) All romantics meet the same fate

Someday, cynical and drunk and boring someone

In some dark cafe

You laugh, he said you think you’re immune,

Go look at eyes

They’re full of moon

You like roses and kisses and pretty men to tell you

All those pretty lies, pretty lies

When you gonna realize they’re only pretty lies

Only pretty lies, pretty lies(…)”

                                    Joni Mitchell

Em um mundo onde a derrota do pensamento impera, ser suicida é quase realeza. E, como fenomenóloga, eu luto, veementemente, pelo direito ao protagonismo. Todavia, o meu caso era de Poesia, misturado com muitas escolhas erradas: além de pessoas extremamente egoístas ao meu lado.

Contudo, eu não poderia ser igual aos suicidas óbvios. Então fui aproveitar, com classe. E, assim, quase matei meus pais. Prometi que, antes de morrer, ia te escrever, Pedro. Já que fracassei em tudo, absolutamente tudo nessa merda de planeta, eu ia inventar, eu ia me vingar, eu ia te fazer.

Meu pacto, por fim, comigo e com os comigos de mim era o seguinte: acabar a ti e me divertir. O resto que se foda. E jamais deixar de ser generosa, por mais que me desse vontade. Afinal, é a minha natureza.

Como meu derradeiro presente: fugir do natal. Odeio natal. A hipocrisia maior. Consumismo bizarro, shopping, amigo secreto. Reúne algumas das cousas que eu mais desprezo ao mesmo tempo. “Meu último natal vai ser na Bahia, não me importa com quem”.

No fundo, no fundo, bem lá no fundo, eu não queria me matar. Eu queria encontrar a minha casa. Mas as transformações são demoras que me desesperam. Eu não queria partir de mim. Assim como eu não quis partir de Lisboa. Assim como eu não quis partir dos amores que se estraçalharam, na minha memória. Eu tenho medo de não me ser boa anfitriã.

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“Pelos caminhos que ando

um dia vai ser

só não sei quando”

                        Leminski

Não sei te dizer onde foi, Pedro. Se ocorreu no banho de rio, quando a ostra quase decepou o meu dedo do pé, à luz da lua. A caminho do forró, a reclamar das distâncias, aparentemente instransponíveis. Nas risadas intermináveis, com aqueles desconhecidos tão amáveis! Nas madrugadas que fiz amigos pela vila. Nos intermináveis amanheceres que vivi.

Qualquer cousa se passou nessa passagem de ano. Lá estava eu a reverenciar o nascer do sol, no dia primeiro. A deitar fora minhas trevas. A vestir levezas que nem me cabem. A aprender que a beleza pode não mais doer.

E eu já não sei mais, Pedro. Tu não eras para ter uma mãe que passasse por isto. Eu vou ter que reaprender a ser mãe para te escrever também. A felicidade não estava calculada no nosso romance, meu querido.

Canção bõnus:

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Natureza-morta com um balãozinho

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(Le Ballon Rouge – Laurent Chehere)

Em vez da volta das lembranças

Na hora de morrer

Quero ter de volta

As coisas perdidas.

 

Pela porta, janela, malas,

Sombrinhas, luvas, casaco,

Para que eu possa dizer:

Para que tudo isso.

 

Alfinetes, este e aquele pente,

rosa de papel, barbante, faca,

para que eu possa dizer:

Nada disso me faz falta.

 

Esteja onde estiver, chave

tente chegar a tempo,

para que eu possa dizer:

Ferrugem, minha cara, ferrugem.

 

Caia uma nuvem de atestados,

licenças, enquetes,

para que eu possa dizer:

Que lindo sol se pondo.

 

Relógio, aflore do rio

e permita que te segure na mão,

para que eu possa dizer:

Você finge ser a hora.

 

Vai aparecer também um balãozinho

levado pelo vento,

para que eu possa dizer:

Aqui não há crianças.

 

Voe pela janela aberta,

voe para o vasto mundo,

que alguém grite: Ó!

para que eu possa chorar.

 

Wislawa Szymborska

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