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A cidade em milagres

quarto do pessoa

Eu sabia que na manhã do dia 13 iria acontecer um milagre. É meu dia favorito. Nasci em uma segunda-feira, 13 de junho. Como Lisboa e Fernando Pessoa.

Fui tomar café, sem a menor hipótese de escolhê-lo, em frente à paragem onde estava o senhor cego do dia do milagre do aniversário da Marielle.

Ao meu lado sentou a dona Luísa, com óculos maravilhosos e uma faixa na mão. Eu, que sou extrovertida, atrevi-me a contar que a praia de Avencas é famosa por curar as nossas dores ósseas. Curou o meu joelho no outro dia.

Luísa, daquela música incrível de Tom, nasceu no dia 30 de junho, como duas pessoas que eu amo muito. Uma delas já foi capaz de me curar por duas vezes. A outra eu estou à espera que me cure, ainda.

Não me contive e me ofereci para fazer reiki em seu braço. Compreendi, em harmonia com o Universo, que deveria comer algo, tomar mais café, água das pedras e fumar um cigarro antes de iniciar a sessão mediúnica de cura. Naquele instante uma epifania me acometeu, verde em folha. Eu sou psicóloga.

A dor havia começado dois meses antes, após um desentendimento com uma vizinha polonesa. Minha família veio da Polônia. A vida já pulsava em sincronicidades.

Ficamos ali, nós duas, a conversar sobre a vida. O azul do céu e a simpatia da dona Luísa já seriam milagres para mim. Mas apareceu novamente, enquanto eu falava sobre ele, João, o cego. Ele tomou um tiro na cabeça do amante de sua mulher. “A dor da gente não sai no jornal”, diria o Chico. João também é Quíron.

Nós somos nossos maiores Deuses. E há diversas formas de curar a humanidade. Eu fui capaz de encontrar a minha. Ela envolve o Fernando Pessoa, o Chico Buarque, Lisboa, o número 13 e a Poesia. As sincronicidades da minha vida são pautadas única e exclusivamente nas minhas ideias, convicções, mas, inevitavelmente, naquilo que eu amo. O que eu amo é capaz de chegar até mim e o Universo é generoso. Ele nos pode oferecer tudo o que desejamos. Basta perguntar, com carinho e respeito. Libertos do medo e da culpa.

Se cada um de nós buscar profundamente os próprios Deuses, os próprios fantasmas e as próprias curas, seremos capazes de nos libertar, como Humanidade, para um outro nível de vínculo.

Jung estava certo. Devemos passar pelo processo de individuação, experimentar as oito funções, mas nunca na dualidade luz e sombra, certo e errado, bom e mau. Essas são nossas maiores prisões.

A Poesia é a maior riqueza do homem.

Entanto, é imprescindível que cada um seja capaz de perdoar D’us por ter nascido.

E me perdoem.

Lilith

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Morada

amor

O amor me ensinou a chorar durante o sexo. O amor me distraiu e tropecei em Paris. Amanheci em Lisboa. O amor me fez perder o voo e o comboio. O amor me fez parar na sua cama, sem você estar lá.

Eu vi o amor na manhã de Alfama porque o inventei. Ele tinha sotaque da Sardenha e uma bagunça digna de Monicelli. O amor é leve como o autocarro 758, cheio de anedotas, velhos, cegos e crianças sorridentes.

O amor atravessa as encarnações, em amizades inseparáveis, em ódios mortais, em abismos intransponíveis. Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Monica e Marielle. Hamlet e Ophelia. Hilda Hilst e Nélida Piñon. Clarice Lispector e Lúcio Cardoso. Caetano Veloso e Gilberto Gil. Jung e Freud.

O amor gera filhos lindos, louros, que nos fazem amar ainda mais os nossos companheiros. O amor também acaba, como sabiamente nos profetizou Paulo Mendes Campos. E quando ele acaba sobra o vazio. Às vezes fértil. Às vezes apocalipse. Mas sempre, porque houve amor, há uma galáxia sendo gestada. Há futuro.

Ontem eu me encontrei com o amor numa dedicatória psicografada. E numa música que há anos não ouvia. E vi o amor entrelaçado nas mãos de um casal.

Tenho visto o amor em tudo: nas garagens, nas esquinas, nas ventanias, no azul. E você não está aqui para cantar comigo todas as canções. Não tenho o seu olhar cúmplice, quando apanho o autocarro. Caminho só pela avenida Liberdade. Quando disse que o meu poema favorito do Pessoa era aquele, não havia ninguém para me imitar.

Talvez seja a grande lição da sua ausência: descobrir onde há amor dentro de mim, endereçado exclusivamente a mim mesma.

 

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Estrela da tarde

Carlos do Carmo 

Era a tarde mais longa de todas as tardes
Que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas
Tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca,
Tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste
Na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhamos tardamos no beijo
Que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz
Que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto
Tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite,
Para haver outro dia.
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.

Foi a noite mais bela de todas as noites
Que me aconteceram
Dos noturnos silêncios que à noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.

Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram.

Eu não sei, meu amor, se o que digo
É ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
Dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto.
Meu amor, nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto!

 

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Viver é Fictício em Lisboa

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Ontem a Marielle faria 39 anos. O meu lançamento, em São Paulo, foi um dia depois de sua morte. Hoje, estreio meu filho, em Lisboa, junto ao meu irmão de alma, Flavio Tris, e celebro o nascimento de Marielle. Coincidência? Eu nunca acreditei nesta palavra.

Sincronicidade.

Quando voltava para casa, nesta tarde, à espera do autocarro, tive imenso desejo de tomar café. Decidi cruzar a rua. A moça que me atendeu disse, em presságio:

– Vais sentar para beber o café e o autocarro vai chegar!

Não me importei. A descoberta do aniversário de Marielle me alumbrou em uma esperança muito mais doce que os dezanove minutos que me atrasariam, naquele instante. E a vida é feita dessas pequenas clarividências silenciosas.

Ao terminar o café, voltei à paragem do autocarro. Lá estava um senhor cego que precisaria de alguém para o orientar. Perguntei se ele esperava pelo 735, como eu. Ele assentiu. Explicou-me, ainda, que todos têm o prefixo 7 por conta das colinas da cidade. Entramos no autocarro e indaguei qual era a sua paragem. Ele me respondeu que desceria já na próxima. Uma velhota, atenta, depois que ele saiu, veio me esclarecer, à surdina:

– Ele não gosta de ser ajudado por ninguém.

Ri-me, sozinha. Lisboa é mesmo uma cidade mágica. Um cego que odeia ser ajudado! Que maravilhoso! Depois disso, no mesmo ônibus, vi dois idosos que se recusaram sentar no lugar reservado a pessoas de idade. Cada um deu desculpas distintas. Mas, cá, nos meus olhos de escritora, estava nítido: ninguém quer que a idade seja estampada na cara.

Por não estarmos distraídos, como diria Clarice, percebemos as conexões cósmicas que nos cercam.

Nós, os loucos, os psicóticos, os bêbados, os desencontrados, os excluídos, os gays, as travestis, as mulheres, as putas, os corruptíveis, os sensíveis, os destroçados, os carinhosos, os inconformados, os insones, os desempregados, os estrábicos, os desapontados, os sofredores, as crianças, os mendigos, os cegos, os surdos, os introvertidos, os torturados, os aleijados, as minorias, os angustiados, os depressivos, as ralés de todas as origens somos aqueles que estamos ligados à uma sintonia maior. Porque buscamos o sagrado, o tempo todo.

“Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha”, disse Bernardo Soares.

Mas nós, os lúcidos, aprendemos, ao longo dessa árdua luta contra o ego, em busca de nós mesmos, que os papéis, inúmeras vezes, estão invertidos. O casamento é falso. O traficante é bom. O rico é devasso. O padre é pedófilo. Não se deve cobrar pela generosidade.

Tamanhas obviedades parecem-me tão claras, agora. Mas nem sempre aconteceu assim. Foi-me preciso alcançar o último degrau de minha solidão para chegar até aqui. Comigo e com os comigos de mim.

Nessa trajetória, entre Lisboa, Zurique, São Paulo, Aeroporto da Portela e, finalmente Lisboa, descobri que a Poesia foi (e é) a maior prisão da minha vida. E dela jamais me libertarei. Embora não tenha vivido a beleza triunfal nestes tempos de trevas, alcancei a poética da solidão. Pude libertar, enfim, as minhas palavras, e todas as correntes que carreguei, ancestrais.

Obrigada, queridos amigos, por testemunharem, enfim, a minha verdadeira estreia.

Às minhas Babuskas.

Às Deusas.

À Lilith

À Empatia.

Ao Perdão.

Ao Miguel Angelo Perosa, meu terapeuta.

Ao Santo António, Cristo e Santo Estêvão.

Ao Fernando Pessoa.

À Lisboa.

Ao meu pai, aos meus irmãos. À minha família. À minha mamã.

À sincronicidade, maior do que o destino.

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Desassossegar

Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez.

A monotonia das vidas vulgares é, aparentemente, pavorosa. Estou almoçando neste restaurante vulgar, e olho, para além do balcão, para a figura do cozinheiro, e, aqui ao pé de mim, para o criado já velho que me serve, como há trinta anos, creio, serve nesta casa. Que vidas são as destes homens? Há quarenta anos que aquela figura de homem vive quase todo o dia numa cozinha; tem umas breves folgas; dorme relativamente poucas horas; vai de vez em quando à terra, de onde volta sem hesitação e sem pena; armazena lentamente dinheiro lento, que se não propõe gastar; adoeceria se tivesse que retirar-se da sua cozinha (definitivamente) para os campos que comprou na Galiza; está em Lisboa há quarenta anos e nunca foi sequer à Rotunda, nem a um teatro, e há um só dia de Coliseu — palhaços nos vestígios interiores da sua vida. Casou não sei como nem porquê, tem quatro filhos e uma filha, e o seu sorriso, ao debruçar-se de lá do balcão em direcção a onde eu estou, exprime uma grande, uma solene, uma contente felicidade. E ele não disfarça, nem que razão para que disfarce. Se a sente é porque verdadeiramente a tem.

E o criado velho que me serve, e que acaba de depor ante mim o que deve ser o milionésimo café da sua deposição de café em mesas? Tem a mesma vida que a do cozinheiro, apenas com a diferença de quatro ou cinco metros — os que distam da localização de um na cozinha para a localização do outro na parte de fora da casa de pasto. No resto, tem dois filhos apenas, vai mais vezes à Galiza, já viu mais Lisboa que o outro, e conhece o Porto, onde esteve quatro anos, e é igualmente feliz.

Revejo, com um pasmo assustado, o panorama destas vidas, e descubro, ao ir ter horror, pena, revolta delas, que quem não tem nem horror, nem pena, nem revolta, são os próprios que teriam direito a tê-las, são os mesmos que vivem essas vidas. E o erro central da imaginação literária: supor que os outros são nós e que devem sentir como nós. Mas, felizmente para a humanidade, cada homem é só quem é, sendo dado ao génio, apenas, o ser mais alguns outros.

Tudo, afinal, é dado em relação àquilo em que é dado. Um pequeno incidente de rua, que chama à porta o cozinheiro desta casa, entretem-no mais que me entretem a mim a contemplação da ideia mais original, a leitura do melhor livro, o mais grato dos sonhos inúteis. E, se a vida é essencialmente monotonia, o facto é que ele escapou à monotonia mais do que eu. E escapa à monotonia mais facilmente do que eu. A verdade não está com ele nem comigo, porque não está com ninguém; mas a felicidade está com ele deveras.

Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha. O caçador de leões não tem aventura para além do terceiro leão Para o meu cozinheiro monótono uma cena de bofetadas na rua tem sempre qualquer coisa de apocalipse modesto. Quem nunca saiu de Lisboa viaja no infinito no carro até Benfica, e, se um dia vai a Sintra, sente que viajou até Marte. O viajante que percorreu toda a terra não encontra de cinco mil milhas em diante novidade, porque encontra só coisas novas; outra vez a novidade, a velhice do eterno novo, mas o conceito abstracto de novidade ficou no mar com a segunda delas.

Um homem pode, se tiver a verdadeira sabedoria, gozar o espectáculo inteiro do mundo numa cadeira, sem saber ler, sem falar com alguém, só com o uso dos sentidos e a alma não saber ser triste.

Monotonizar a existência, para que ela não seja monótona. Tornar anódino o quotidiano, para que a mais pequena coisa seja uma distracção. No meio do meu trabalho de todos os dias, baço, igual e inútil, surgem-me visões de fuga, vestígios sonhados de ilhas longínquas, festas em áleas de parques de outras eras, outras paisagens, outros sentimentos, outro eu. Mas reconheço, entre dois lançamentos, que se tivesse tudo isso, nada disso seria meu. Mais vale, na verdade, o patrão Vasques que os Reis de Sonho; mais vale, na verdade, o escritório da Rua dos Douradores do que as grandes áleas dos parques impossíveis. Tendo o patrão Vasques, posso gozar o sonho dos Reis de Sonho; tendo o escritório da Rua dos Douradores, posso gozar a visão interior das paisagens que não existem. Mas se tivesse os Reis de Sonho, que me ficaria para sonhar? Se tivesse as paisagens impossíveis, que me restaria de impossível?

A monotonia, a igualdade baça dos dias mesmos, a nenhuma diferença de hoje para ontem — isto me fique sempre, com a alma desperta para gozar da mosca que me distrai, passando casual ante meus olhos, da gargalhada que se ergue volúvel da rua incerta, a vasta libertação de serem horas de fechar o escritório, o repouso infinito de um dia feriado.

Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar. O ajudante de guarda-livros pode sonhar-se imperador romano; o Rei de Inglaterra não o pode fazer, porque o Rei de Inglaterra está privado de ser, em sonhos, outro rei que não o rei que é. A sua realidade não o deixa sentir.

s.d.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.

– 56.

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Erro

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nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez

Paulo Leminski

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Prefácio

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VIVER A LITERATURA

 

Claudio Willer

 

Querem uma definição de cronista? Dos cronistas realmente bons, daqueles excelentes? São autores que não se satisfazem com limites. Inclusive, com os limites entre os gêneros literários tradicionais, aqueles tidos como maiores: poesia, narrativa em prosa. Querem sempre ir além, escrever outra coisa. Viajar pela criação. Exemplar, sob este aspecto, é Paulo Mendes Campos: suas crônicas atropelam as definições de gêneros.

Por maior que seja sua evidência, por mais que se façam presentes no periodismo — ou talvez por isso, pela imprensa periódica ser ao mesmo tempo tão evidente e perecível — cronistas são marginais da literatura. Ou, quando se consagram em outros gêneros, as crônicas vão integrar a marginália de suas obras. Veja-se Drummond: foi preciso transcorrer uma geração de leitores para que se dessem conta do alcance do que publicava periodicamente.

Uma das crônicas deste Viver é fictício, sobre São Paulo, tem valor como metáfora: a autora visita os lugares “bons” da metrópole, mas nenhum a satisfaz. “Não amo lugar algum em São Paulo”, declara. É impelida a mover-se, do Theatro Municipal à Praça do Por do Sol, para acabar aportando à sua própria subjetividade: “O amor que eu tanto procurava não estava preso a lugar algum”. É alguém no trânsito e perpetuamente em trânsito. A mesma relação que mantém com a escrita, bem evidenciado em “Semeando constelações”: na terceira pessoa, encarna a declaração de Rimbaud, “O EU é um outro”, ao apresentar uma protagonista no limiar da loucura — “Os meses seguintes foram levando a sua lucidez” — que promove a irrupção de incríveis imagens poéticas em seu relato: “as dores são pássaros ininterruptos do cantar”.

Lisboa, onde tem residido, aparece como contraponto à ciclópica e desgastante São Paulo. Mas, justamente, por sua condição de mínima capital política e máxima capital literária, lugar onde se lê e se escreve tanto e tão bem, por tangenciar o impossível, por ser lugar de confusão do simbólico e do mundo das coisas, ou onde o simbólico toma a frente: “Há, pois, um lugar que transcendeu sua existência para atravessar as distâncias insuportáveis da poesia”. O mundo cabe no Tejo Bar.

Um autor exemplar sob esse aspecto, da permanente inquietação, por ser tão atópico — e muito bem lido por Mariana Portela — é Julio Cortázar: sempre, ao estar em uma das modalidades ou gêneros, quer estar em outro. Ao relatar uma história, precisa das imagens poéticas; ao poetizar, adiciona imagens visuais; em alguns dos seus livros, a página é pouco, tem que permutá-las ou cortá-las; e, em qualquer um dos seus modos de expressar-se, conclama a música, gostaria que seus textos fossem sonoridades que, tarefa impossível, tenta traduzir em palavras. Por isso, celebrou tanto o jazz, gênero que, especialmente na vertente bop, mimetiza inflexões e entonações da língua falada — e seu expoente Charlie Parker foi tema de um conto especialmente impactante, “O perseguidor”, assim como ouvir discos de jazz suscitou alguns dos pontos altos da prosa poética no século XX em Rayuela, O jogo da amarelinha. Cortázar, tão bem homenageado e mimetizado aqui, inclusive em “Instruções para matar um fantasma”, texto breve que, bem ao modo do argentino, se contradiz, apresenta paradoxos: além de ser impossível matar fantasmas, eles fariam falta se efetivamente fossem mortos, pois “nenhum corpo humano é capaz de apagar uma estrada” e, ademais, “Fantasmas são, via de regra, ótimas companhias oníricas, devoradores de madrugadas”.

Confronte-se essa crônica com outra, imediatamente precedente: “O colecionador de saudades”. Talvez Viver é fictício não deva ser lido linearmente, porém ao modo de um jogo — assim seguindo a recomendação de Cortázar — e as sequências possíveis engendrem outras narrativas, outras conexões. O confronto das duas crônicas sugere que para colecionar lembranças e, portanto, ter saudades, os fantasmas são indispensáveis.

Imediatamente a seguir, após a mimese de Cortázar, outra homenagem: “Clarice Lispector, minha” — como se já não houvesse tantas marcas da sua leitura, através de passagens como esta: “esquecemos o cheiro incompreensível de existir”; e não houvesse títulos que são paráfrases da autora de Felicidade clandestina.

O narrador ingênuo apresentaria imediatamente o tema: diria algo sobre suas emoções, evocações ou o que fosse, relacionadas à leitura de Clarice. Mariana, não — abre escrevendo sobre tomar café às três da madrugada. Em seguida, declara-se possessiva — “Não suporto conceber que há outros livros por aí, que não seja o meu A descoberta do mundo” — para concluir expondo uma poética, a declaração de que leu muito, apaixonou-se por algo do que leu, e dedicou-se ao empreendimento de confundir literatura e realidade; ou de experimentar a contradição entre as duas esferas, do mundo das coisas e aquele dos símbolos. A opção é pelo simbólico: “A sua voz, Clarice, reside única dentro dos meus olhos e não posso ferir minha imaginação com a realidade”. Uma esquizofrênica? Não, uma viajante por dois mundos, pela intersecção possível da “voz”, do símbolo, e o das coisas.

É assim que Viver é fictício enfrenta os desafios da crônica, o gênero injustamente rotulado como “menor”, que se confunde com o relato e a prosa poética, mas pode ser literatura total, absoluta. O lugar daqueles que não querem ferir a imaginação com a realidade. Inclusive, através de dois dentre os autores especialmente apreciados, referências diria, para ela: Clarice Lispector e Paulo Mendes Campos — ambos mencionados e homenageados neste conjunto, ao lado de outras presenças fortes; especialmente a do Fernando Pessoa / Bernardo Soares, integrando um leque que se abre desde Mario Quintana até Gaston Bachelard. Aliás, aí está outra qualidade desta cronista: exibe paixões literárias, sem tornar-se sentenciosa, sem usá-las como amparo ou justificativa.

Uma chave para sua leitura está neste início de “O colecionador de saudades”: “Eu gostava mesmo de escrever em terceira pessoa”. Isso, lembrando que os portugueses — e Mariana Portela tem residido em Lisboa — confundem os tempos verbais, e “gostava” pode significar “gostaria”. Mas não, nesta crônica que mimetiza um conto, que simula um relato, a objetividade naufraga — e com ela também a subjetividade, como esferas autônomas: “Levo meu espírito para abrigar outra identidade. Crio um semi-heterônimo. Sem passado algum”. A crônica expõe uma poética: “Eu já não me serei”, diz. A criação literária é para quem é e não é, está e não está aí. A extrema lucidez e a loucura podem confundir-se — Mariana simula a loucura ao exibir sua penetrante lucidez.

E assim nos oferece a gama completa das possibilidades de expressar-se. Combina e harmoniza o registro da subjetividade, manifesto através de uma prosa poética de imagens luminosas e a falsa confessionalidade dos narradores. Em primeira instância, seu compromisso ou seu envolvimento mais profundo é com a literatura; com uma experiência poética por vezes apresentada como antagônica com relação ao real, a uma realidade imediata — certamente, a uma realidade prosaica — mas que cria a realidade, ao iluminar experiências, os lugares, as pessoas e as coisas através do olhar poético.

 

São Paulo, 10 de fevereiro de 2018.

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