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Imobiliária poética

tia-helena

À procura de inquilinos afetivos

 

Eu herdei esse apartamento quando minha tia avó, a tia Helena, faleceu, no natal de 2002. Ela era enfermeira do Hospital das Clínicas e a melhor pessoa do Mundo. Morreu com 88 anos, sem filhos. Eu era a grande paixão da vida dela.

Lembro-me bem de como ela era capaz de pentear os meus cabelos como ninguém mais conseguia. Uma leveza nas mãos que até os anjos invejavam. Guardava, no dia do seu aniversário, em cima da cama, todos os presentes e todos os bilhetes, incluindo os telegramas do banco, com igual carinho e bondade.

 

XL

 

Solidão é agradecer

Aos parabéns

Do Bradesco.

                        Fernando Portela in Poemínimos

 

Na casa da tia Helena morava também a Arlete, uma empregada completamente maluca, que tinha uma linguagem própria e um coração muito maior que os seus olhos arregalados. Eu tinha um pouco de medo, mas todo meu medo sempre se misturava com o cheiro de mofo perfumado; com as duvidosas cores dos carpetes; com os sons insuportáveis do Chacrinha, das tevês sempre ligadas; com as balinhas vencidas e com o azul que desferia da íris, dos óculos enormes da tia Helena.

Às vezes, confesso, ficava com preguiça de ir visitá-la. Mas porque a tevê estava ligada, a Arlete falava dialetos, a bala grudada ao papel. A tia Helena era a única, naquela casa, que me inundava de ternura. Generosidade irritante. E sempre eu ia, com a canalhice felina – escova em punhos – a ofertar-lhe meus fios.

Nos almoços, na casa dos meus pais, minha mãe fazia questão de comprar aqueles vinhos alemães, doces, vagabundos, garrafas azuis. E embriagava a tia Helena. Ela, no auge da sua doçura, em janeiro, proferia: “Daqui a pouco já é natal! ” Como era sábia, meu Deus! Outras vezes, completamente ébria, colocava o cálice dentro do potinho de sorvete. E todos nós ríamos e, por alguns segundos, sentia-me família.

Minha avó, sempre exibida, sempre mais gordinha, sempre imponente, jamais deixava que a tia Helena pudesse ser protagonista de nada. Mas cá, dentro das minhas memórias afetivas, nas vísceras mais trôpegas dessas estúpidas ancestralidades, é ela quem me faz mais falta.

Quando fui morar no ap. da tia Helena, em 2011, várias epifanias me abrigaram também. Era minha primeira morada em São Paulo, como adulta. Aquela região perfeita, que tem a padoca na esquina, o boteco, o japa, as infindas lojas de música. Cozinha psicodélica, com suas laranjas e espirais. Aos sábados, de ressaca, eu acordava com jazz – que o sebo oferece. Se eu extrapolava nas festinhas, em casa, a janela, imensa, batia forte, e eu sabia que era a tia Helena me dando uma bronca doce, com piedade da minha loucura.

Ao me mudar de lá, em 2014, com sonhos de mangueira, cachorro e promessas de que o amor iria durar para sempre, meu coração sangrou um pouquinho.

Afinal, vivemos no apartamento da tia Helena toda a emancipação da Poesia. Os afters dos saraus, os jantares que viravam manhãs, os amanheceres que davam nomes a personagens. Ultimatos, Caubys Peixotos, amnésias poéticas. Eu fui imensamente feliz naquele ninho.

E a tia Helena, nas profundezas da sua solidão, inúmeras vezes, convidava-me a entrar em contato com os meus personagens, com a minha literatura, com a minha poesia. Ela dormia cedo e roncava altíssimo. E eu, já insone, habitava os devaneios mais puros de intimidade: solidões de cabana, à revelia de quaisquer subterfúgios.

 

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Fahrenheit 451*, Oralidade e Memória


O caixão passa despercebido pela multidão, inerte pelas imagens paralisantes de uma televisão. Uma criança – pois a infância é menos distraída – pergunta aos pais: quem é o morto? O pai responde, sem tirar os olhos entorpecidos: “É a literatura, meu filho. Ela não tem mais lugar nesse mundo”.

Já nos anunciava Ray Douglas Bradbury, escritor da história que deu origem à obra prima de François Truffaut “Fahrenheit 451” (1966) que a televisão nos deixaria órfãos do prazer literário. Embriagados pelo imediatismo dos videoclipes, em poucos anos não só deixaríamos de ler, como passaríamos a repreender aqueles que quisessem passar horas solitárias em companhia de um livro.

As palavras podem soar extremistas, ou mesmo absurdas. No entanto, é inegável a metáfora. Até mesmo nossas refeições são apimentadas pelo televisor. Dificilmente uma pessoa passa um dia sem ligar o aparelho. Postas de lado, as pequeninas folhas tornam-se cada vez mais amareladas, esquecidas na cabeceira. O livro se tornou uma espécie de adorno, mais um item indispensável na decoração de uma morada.

O início do filme já anuncia uma de suas simbologias. Os créditos são lidos por uma voz em off. Não há nenhuma letra, nada que possa ser lido pelo espectador. A primeira cena do filme já demonstra o suspense que irá permear toda a trajetória da película. Um rapaz recebe um telefonema que o alerta do perigo de permanecer em sua casa. Em poucos segundos ele abandona o recinto. Na sequência, uma equipe de bombeiros chega ao local e começa a busca por livros. A primeira referência é uma edição condensada de Dom Quixote. Toda a literatura impressa presente na casa é defenestrada. No meio de uma multidão de curiosos transeuntes, os livros são incendiados pelos bombeiros.

Em nenhum momento do filme fica explícito qual é o país ou a época. Entretanto, trata-se claramente de um regime totalitário no qual as pessoas são proibidas de ler. O único meio de comunicação permitido para os cidadãos é a televisão – fonte de informações nitidamente manipuladas.

O protagonista, Montag (Oskar Werner), é um jovem bombeiro dedicado ao trabalho. No princípio do filme ele não se questiona sobre a natureza de seu ofício, nem entra em conflitos existenciais. Todavia, ao conhecer uma vizinha, a professora Clarisse (Julie Christie), sua vida é posta em xeque. Ela o questiona se ele nunca lê nada daquilo que queima. A primeira epifania do filme é então anunciada – por que se deve incendiar os livros se nem ao menos se sabe o que neles está contido?

A partir desse momento, Montag aproveita suas buscas para guardar os livros em sua casa. Com uma dificuldade terrível, consegue ler as primeiras linhas de David Cooperfield (Charles Dickens). É engraçado identificar o movimento infantil da personagem. A falta de intimidade com a leitura faz dele um analfabeto funcional: é preciso ler em voz alta e pausadamente.

Em contraposição à evolução interna de Montag está sua mulher, também vivida pela atriz Julie Christie. A personagem Linda é praticamente um zumbi. Passa os dias em frente à televisão, absorvendo sem consciência crítica tudo aquilo que lhe é mostrado. Toma diversos comprimidos que a anestesiam dos sentimentos mais sofridos.

Um dos momentos fundamentais para compreender a mente de uma sociedade pautada em televisores é o diálogo entre Montag e Linda. Logo depois da transformação instantânea da personagem principal pela leitura, ambos discutem sobre a importância do livro. Ela demonstra uma profunda ojeriza. Diz ao marido que os livros deixam as pessoas tristes. A essa altura, Montag já se deu conta de que a tristeza é parte integrante e essencial do ser humano.

Montag vê-se, pois, títere do sistema. Incendiar a memória humana já não é mais concebível para ele. O ápice de sua epifania ocorre quando ele testemunha uma velha senhora a preferir ser queimada junto com seus livros do que existir em um mundo desprovido da imaginação literária.

A obra de Truffaut é toda envolta em maneirismo. A inversão dos valores humanos – salvaguardar a cultura e a história através das bibliotecas – é uma forma de lidar com a ambivalência constituinte do humano. O uso dos paradoxos por Truffaut não é apenas intuitivo ou acidental. Colocar as coisas de cabeça para baixo – bombeiros que provocam fogo, pessoas voluntariamente impossibilitadas de ler, livros vistos como armadilhas para a humanidade, etc. – tudo faz parte de um tear chamado Nouvelle Vague, movimento artístico da década de 60. Os realizadores que participaram dessa vanguarda, como Godard em Acossado, tinham como principal objetivo expor a palavra louca.

Talvez o grande triunfo do filme ainda fique para o final. Após o abandono de sua função, Montag descobre através de Clarisse que há uma sociedade alternativa, marginal ao regime totalitário. É a sociedade dos homens-livros. Todas as pessoas que não suportaram a ditadura televisiva formam uma espécie de aldeia onde cada um tem a obrigação de se tornar um livro, decorando-o.

É necessário ressaltar que a origem etimológica da palavra decorar tem o sentido de colocar no coração. Ou seja, em seu signo primeiro, decorar nada tem a ver com o movimento mecânico de ensino.

Sendo assim, os homens-livros têm a missão de memorizar o livro preferido e depois disso queimá-lo, para não serem condenados pelo regime. A beleza da mensagem é simples: nenhuma ditadura pode atingir o coração e a imaginação do ser humano.

Fahrenheit 451 e a Idade Média: aproximações

A primeira consideração diz respeito ao livro. No filme os livros são considerados diabólicos, elementos que retiram o homem do contato com seus semelhantes. É uma oposição à dimensão sagrada que o livro assumiu durante os tempos medievais. Há uma inversão de tudo: bombeiros que incendiam, televisões que educam, livros amaldiçoados. De acordo com Chevalier & Gheerbrant (2002), “o livro fechado significa a matéria virgem, conservando o seu segredo, mas se aberto a matéria está fecunda e o conteúdo é tomado por quem o investiga”.

As casas do filme também requerem uma breve análise: são todas à prova de fogo. Isso pode carregar o sentido de que toda forma é preservada, frente ao conteúdo. Os primeiros livros da Idade Média tinham características semelhantes: como eram objetos muito caros para serem confeccionados, suas capas eram enfeitadas por diamantes. As pessoas gostavam de mostrar os livros como símbolo de status.

A supremacia do fútil, da superficialidade é apontada por diversas ocasiões no filme. Uma muito nítida é a personagem Linda, esposa de Montag. Ela supre suas angústias com pílulas que a retiram da tristeza. Para ela a verdade não tem nenhuma importância, “porque dói”. Outro exemplo é o toque. Em várias cenas é possível ver as personagens a tocar em suas peles, como se o corpo fosse a única fonte de prazer.

Assim como as bruxas foram condenadas por estarem a difamar a palavra de Deus, a enxergar outras realidades inconcebíveis para a Igreja Católica, os livros em Fahrenheit 451 são oráculos da dúvida, do sofrimento, da transcendência. Diz o capitão a Montag: “A única maneira de sermos felizes é que sejamos todos iguais”. O diferente, aquele que tem consciência crítica torna-se demasiado perigoso para os regimes totalitários.

O filme apresenta duas imagens muito belas que dizem respeito à memória. A primeira delas é um dos últimos diálogos que Montag tem com sua mulher. Ele a questiona onde foi que os dois se conheceram. Ela não consegue mais se recordar. A incapacidade de lembrar-se impede a evolução do ser humano.

A segunda imagem é ainda mais nítida. No fim do filme, quando Montag descobre que existe uma sociedade alternativa, na qual as pessoas são os livros, é quase impossível não ter o questionamento: isso é totalmente inverossímel! Nenhuma pessoa é capaz de decorar um livro inteiro!

Só um pesquisador atento pode desconstruir essas exclamações. Apenas alguém que estudou a fundo a Idade Média conhece a capacidade do ser humano de memorização. Decorar – de coração – é algo que há em nossas capacidades intelectuais, embora tenha se perdido ao longo do tempo. Segundo Bradbury (2003):

— […] Todos nós possuímos memória fotográfica, mas passamos a vida aprendendo a bloquear as coisas que estão realmente lá dentro. Simmons trabalhou nisso durante vinte anos e agora dispomos de um método pelo qual podemos evocar tudo o que já tenhamos lido. Montag, algum dia você gostaria de ler a República de Platão?

— Claro!

— Eu sou a República de Platão. Gostaria de ler Marco Aurélio? O senhor Simmons é Marco Aurélio. […] Quero que conheça Jonathan Swift, autor daquele pernicioso livro político, As viagens de Gulliver! E esse sujeito aqui é Charles Darwin, e este aqui é Schopenhauer, este outro é Einstein, e este aqui ao meu lado é o senhor Albert Schweitzer, um filófoso realmente muito gentil. Estamos todos aqui, Montag. Aristófanes, Mahatma Gandhi, Gautama Buda, Confúncio, Thomas Love Peacock, Thomas Jefferson e o senhor Lincoln, se você quiser. Somos também Mateus, Marcos, Lucas e João. […] Somos todos fragmentos e obras de história, literatura e direito internacional. Byron, Tom Paine, Maquiavel ou Cristo, tudo está aqui. (2003, p. 186-187)

O menino que está a guardar o livro de seu tio, em uma das últimas cenas, é uma metáfora para a aparente dicotomia memória/esquecimento. Ele só consegue memorizar as últimas frases porque coincidem com a neve e a morte do seu mentor. O esquecimento é o desejo do menino em eternizar o seu tio, tal como na Idade Média o esquecimento dos poetas não está assim tão distante da memória. Segundo Ferreira (1991), esquecer também faz parte do legado do trovador medieval pois é algo:

que desliza, sob os mais diversos pretextos, nas sequências narrativas, situações em que se mascaram, eufemizam ou simplesmente se omitem fatos e passagens. Deve-se lembrar a questão da seletividade e de como o indivíduo, a comunidade ou o próprio atrito entre eles expulsa os elementos indesejáveis, aquilo que faz explodir a tensão. A dupla esquecimento/memória, portanto, é apenas uma aparente oposição. Numa grande medida, estas oposições são instrumentos conjuntos e indispensáveis em projetos narrativos que dão conta de eixos do conflito.

A oralidade, tanto no filme como na Idade Média, é parte constitutiva da comunidade. É só no grupo de exilados que Montag encontra seu lugar, liberto da ditadura igualitária que paralisa. Jamais seria possível encontrar seu caminho sem estar no mundo com outras pessoas que o compreendessem.

As pessoas que eram responsáveis pelas tertúlias medievais também representavam o arquétipo da comunidade na qual viviam. Segundo Zumthor, “A voz poética assume a função coesiva e estabilizante sem a qual o grupo social não poderia sobreviver” (ZUMTHOR, 1993: 139).

Uma última consideração que aproxima os leitores da Idade Média ao protagonista do filme é o ruminar. Montag precisa ler em voz alta, devagar. Passa os dedos por cima das palavras, como uma criança que inicia a alfabetização. Porque na realidade é uma metáfora: ele está a irromper todo um mundo imaginário, como se fosse a primeira vez – e é.

Não é possível nem necessário imaginar se Bradbury ou Truffaut pensaram em resgatar os antigos ensinamentos da oralidade ou da memória. Todavia, o filme ultrapassa as óbvias análises. Não é apenas um alerta aos perigos totalitários. Não é um hino de amor à literatura, somente. É um filme que toca em nossas potencialidades adormecidas. Desperta das trevas conceitos e símbolos que caminham com a humanidade há milhares de anos. Arde os olhos como o fogo.

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*O título Fahrenheit 451 é uma referência à temperatura que os livros são queimados. Convertido para Celsius equivale a 233 graus.

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