Arquivo da categoria: Outros poetas

O espelho

espelho

“Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me, a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.”

Mia Couto

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Tinha paixão?

Grecia

“Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,

quando alguém morria perguntavam apenas:

tinha paixão?

quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:

se tinha paixão pelas coisas gerais,

água,

música,

pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,

pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,

paixão pela paixão,

tinha?

e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,

se posso morrer gregamente,

que paixão?

os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,

os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,

homens e mulheres perdem a aura

na usura,

na política,

no comércio,

na indústria,

dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,

trémulos objectos entrando e saindo

dos dez tão poucos dedos para tantos

objectos do mundo

e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,

pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,

e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,

palavra soprada a que forno com que fôlego,

que alguém perguntasse: tinha paixão?

afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,

ponham muito alto a música e que eu dance,

fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,

os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão

e eu me perdesse nela

a paixão grega.”

Herberto Helder

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Quando eu acho que ele já me salvou de todas as maneiras…

REGRET

 

I would that I were again a child

And a child you sweet and pure,

That we might be free and wild

In our consciousness obscure;

That we might play fantastic games

Under trees silent and shady,

That we might have fairy-book names,

I be a lord, you a lady.

 

And all were a strong ignorance

And a healthy want of thought,

And many a [prank?], many a dance

Our unresting feet had wrought;

And I would act well a clown’s part

To your childish laughter winning,

And I would call you my sweetheart

And the name would have no meaning.

 

Or sitting close we each other would move

With tales that now gone are sad;

We would have no sex, would feel no love,

Good without fighting the bad.

And a flower would be our life’s delight

And a nutshell boat our treasure:

We would lock it in a cupboard at night

As in memory a pleasure.

 

We would spend hours and days like a wealth

Of goodness too great to cloy,

We would deep enjoy innocence and health

Knowing not we did enjoy…

Ah, what bitterest is is that-alone

Now one feeling in me I trace –

That knowledge of what from us hath gone

And of what it left in its place.

Alexander Search/ Fernando Pessoa

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Em prosa é mais difícil de se outrar

 

“Nestes desdobramentos de personalidade ou, antes, invenções de personalidades diferentes, há dois graus ou tipos, que estarão revelados ao leitor, se os seguiu, por características distintas. No primeiro grau, a personalidade distingue-se por ideias e sentimentos próprios, distintos dos meus, assim como, em mais baixo nível desse grau, se distingue por ideias, postas em raciocínio ou argumento, que não são minhas, ou, se o são, o não conheço. O Banqueiro Anarquista é um exemplo deste grau inferior; o Livro do Desassossego e a personagem Bernardo Soares são o grau superior.

Há-de o leitor reparar que, embora eu publique (publica-se) o Livro do Desassossego como sendo de um tal Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, o não inclui todavia nestas Ficções do Interlúdio. É que Bernardo Soares, distinguindo-se de mim por suas ideias, seus sentimentos, seus modos de ver e de compreender, não se distingue de mim pelo estilo de expor. Dou a personalidade diferente através do estilo que me é natural, não havendo mais que a distinção inevitável do tom especial que a própria especialidade das emoções necessariamente projecta.

Nos autores das Ficções do Interlúdio» não são só as ideias e os sentimentos que se distinguem dos meus: a mesma técnica da composição, o mesmo estilo, é diferente do meu. Aí cada personagem é criada integralmente diferente, e não apenas diferentemente pensada. Por isso nas Ficções do Interlúdio predomina o verso. Em prosa é mais difícil de se outrar.”

Prefácio às Ficções do Interlúdio

“Referem os astrólogos os efeitos em todas as coisas à operação de quatro elementos — o fogo, a água, o ar e a terra. Com este sentido poderemos compreender a operação das influências. Uns agem sobre os homens como a terra, soterrando-os e abolindo-os, e esses são os mandantes do mundo. Uns agem sobre os homens como o ar, envolvendo-os e escondendo-os uns dos outros, e esses são os mandantes do além-mundo. Uns agem sobre os homens como a água, que os ensopa e converte em sua mesma substância, e esses são os ideólogos e os filósofos, que dispersam pelos outros as energias da própria alma. Uns agem

sobre os homens como o fogo, que queima neles todo o acidental, e os deixa nus e reais, próprios e verídicos, e esses são os libertadores. Caeiro é dessa raça. Caeiro teve essa força. Que importa que Caeiro seja de mim, se assim é Caeiro?

Assim, operando sobre Reis, que ainda não havia escrito alguma coisa, fez nascer nele uma forma própria e uma pessoa estética. Assim operando sobre mim mesmo, me livrou de sombras e farrapos, me deu mais inspiração à inspiração e mais alma à alma. Depois disto, assim prodigiosamente conseguido, quem perguntará se Caeiro existiu?”

Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1966.

 

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Sol Velho Lua Nova

Eu havia acabado de chegar ao Mezinhas de Alfama, bar de um querido, à espera do encontro que poderia render umas boas conexões em Lisboa. Gente do bem, projecto lindo, lua de gato de Alice.

Recebi, inesperada, a mensagem dele, meu amigo, Flavio Tris, sobre o lançamento do seu disco, uma semana depois daquela quinta-feira, minguante. Ganhava o maior presente de aniversário adiantado, naquelas janelas pululantes de facebook. Entre um gole de vinho e um suspiro para a madrugada, a engatinhar.

“Não se preocupe, meu bem!” “Aproveite a sua noite. O disco é pra ser ouvido de fone, com calma.”

Respeitei os dizeres, sábios, humildes, desencontrados das falsas iluminações egóicas. Ao amanhecer, quando voltei para casa, pés descalços e alma imaculada pelo nascer do novo dia, finalmente ouvi Sol Velho Lua Nova.

Lembrei-me de que a arte nos é selvagem. Perto do coração, tudo nos deixa primitivos.

Em meados de dezembro, prematuro disco, assisti ao show que anunciava a mudança: sereno será. Ele convida-nos a degustar tempestades posteriores, alheias às harmonias de suas nove redondas cancões.

És Bob Dylan. E eu nem gosto de inglês. És xamã, em noite de mirações. Cantas as manhãs ancestrais à nossa redenção cósmica. Faz-nos mergulhar nos azuis uterinos que abençoam os sonhos mais pueris.

Chamei os orixás, os dilúvios, os litorais. Oiço o teu canto, além-mar. Que sejam mais quinze mil eras para descrever as nuanças da tua Terra. E oitocentas mil galáxias para cobrir a tua voz, única.

Incendeias os amores que me virão, banda sonora obrigatória. Cá estou, exausta, inebriada por luzes e horizontes.

Hoje, Flavio, eu não quero esquecer de mim. Cantas pelas janelas que desnudam o Tejo, ao pôr-do-sol. Tua música se confunde com o céu de Van Gogh. Meu escrever almeja ser rupestre.

Não sei quantas estrelas se apagaram. Mas encontraste os caminhos que nos trazem à essência. O som primeiro ignora todas as metáforas. Pulsa, pertence, atrás da palavra. Antes de alvorecer os insones futuros, tu os previste.

Alcancei, ao ouvir-te, a mansuetude de dentro, enfim.

O álbum está disponível na íntegra no YouTube:

 

 

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Dividir os domingos

“O que um dia vou saber, não sabendo eu já sabia” Guimarães Rosa

Quando o amor, enfim, feneceu em mim, tive a certeza de que já não me apaixonaria mais. Uma mistura de liberdade com esmorecimento, de alegria e desespero. Páginas brancas finalmente povoavam os meus sonhos, antes escritos em nanquim e escarlate. Aquela cama que jamais seria bagunçada de novo. Os olhares, negros em maquiagem, que deitariam molhados no travesseiro, gélido.

Eu já me prometi que o amor seria a última das bobagens a me chatear, nessa incansável solidão.

Contudo, ao ser convidada para revisar esse livro, confesso que me senti ofendida pela vida. Por que seria eu a pessoa a corrigir seus erros, se o maior deles era escrever sobre o amor? Eu nunca soube escrever sobre o amor, Bruno. Eu estarreço de cólera em ser piegas, óbvia, redundante. Nunca acreditei que o viver deva ser sentenciado pela palavra.

Entre delírios de Clarice, sussurros de Paulo Mendes Campos e estalos dos meus próprios dizeres, aceitei esse trabalho. Afinal, esse amor durou só uma estação! Como poderá atar-me a todos os meus invernos?

Você brinca com os olhos que se fecham para descer aos sorrisos da amada. Como se os próprios olhos fossem capazes de se encantar com as tessituras infantes. E você me alerta sobre o quão difícil é carregar uma saudade, sozinho. Ah, Bruno, será que existem saudades compartilhadas?

Fui, inebriada, entre os clichês, inevitáveis, e as paisagens, inusitadas. Com as ressalvas de proximidade ao leitor. Encontrei-me com dias cinzas que se pensavam azuis. Em cada verso, a cada vogal, a cada reticência inconformada do seu texto, eu me percebia romântica. Eu deitava fora minhas amarras infelizes. A quem posso ofertar, agora, esse silêncio que transborda, sem angustiar meu interlocutor?

Já sou capaz de ensinar plenitudes…

Quando acabei, tive sede de chuva. Será que o tempo muda de nome com o amor? Esta pergunta, que ainda me inspira, só se agiganta, ao terminar a obra. Gostar é dividir um domingo, você me explicou. Foi uma honra dividir um domingo contigo.

Link para o crowdfunding do livrohttps://www.catarse.me/brunofontes

 

 

 

 

 

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Que invisível se vê…

“Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.”

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

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