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Viver é Fictício em Lisboa

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Ontem a Marielle faria 39 anos. O meu lançamento, em São Paulo, foi um dia depois de sua morte. Hoje, estreio meu filho, em Lisboa, junto ao meu irmão de alma, Flavio Tris, e celebro o nascimento de Marielle. Coincidência? Eu nunca acreditei nesta palavra.

Sincronicidade.

Quando voltava para casa, nesta tarde, à espera do autocarro, tive imenso desejo de tomar café. Decidi cruzar a rua. A moça que me atendeu disse, em presságio:

– Vais sentar para beber o café e o autocarro vai chegar!

Não me importei. A descoberta do aniversário de Marielle me alumbrou em uma esperança muito mais doce que os dezanove minutos que me atrasariam, naquele instante. E a vida é feita dessas pequenas clarividências silenciosas.

Ao terminar o café, voltei à paragem do autocarro. Lá estava um senhor cego que precisaria de alguém para o orientar. Perguntei se ele esperava pelo 735, como eu. Ele assentiu. Explicou-me, ainda, que todos têm o prefixo 7 por conta das colinas da cidade. Entramos no autocarro e indaguei qual era a sua paragem. Ele me respondeu que desceria já na próxima. Uma velhota, atenta, depois que ele saiu, veio me esclarecer, à surdina:

– Ele não gosta de ser ajudado por ninguém.

Ri-me, sozinha. Lisboa é mesmo uma cidade mágica. Um cego que odeia ser ajudado! Que maravilhoso! Depois disso, no mesmo ônibus, vi dois idosos que se recusaram sentar no lugar reservado a pessoas de idade. Cada um deu desculpas distintas. Mas, cá, nos meus olhos de escritora, estava nítido: ninguém quer que a idade seja estampada na cara.

Por não estarmos distraídos, como diria Clarice, percebemos as conexões cósmicas que nos cercam.

Nós, os loucos, os psicóticos, os bêbados, os desencontrados, os excluídos, os gays, as travestis, as mulheres, as putas, os corruptíveis, os sensíveis, os destroçados, os carinhosos, os inconformados, os insones, os desempregados, os estrábicos, os desapontados, os sofredores, as crianças, os mendigos, os cegos, os surdos, os introvertidos, os torturados, os aleijados, as minorias, os angustiados, os depressivos, as ralés de todas as origens somos aqueles que estamos ligados à uma sintonia maior. Porque buscamos o sagrado, o tempo todo.

“Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha”, disse Bernardo Soares.

Mas nós, os lúcidos, aprendemos, ao longo dessa árdua luta contra o ego, em busca de nós mesmos, que os papéis, inúmeras vezes, estão invertidos. O casamento é falso. O traficante é bom. O rico é devasso. O padre é pedófilo. Não se deve cobrar pela generosidade.

Tamanhas obviedades parecem-me tão claras, agora. Mas nem sempre aconteceu assim. Foi-me preciso alcançar o último degrau de minha solidão para chegar até aqui. Comigo e com os comigos de mim.

Nessa trajetória, entre Lisboa, Zurique, São Paulo, Aeroporto da Portela e, finalmente Lisboa, descobri que a Poesia foi (e é) a maior prisão da minha vida. E dela jamais me libertarei. Embora não tenha vivido a beleza triunfal nestes tempos de trevas, alcancei a poética da solidão. Pude libertar, enfim, as minhas palavras, e todas as correntes que carreguei, ancestrais.

Obrigada, queridos amigos, por testemunharem, enfim, a minha verdadeira estreia.

Às minhas Babuskas.

Às Deusas.

À Lilith

À Empatia.

Ao Perdão.

Ao Miguel Angelo Perosa, meu terapeuta.

Ao Santo António, Cristo e Santo Estêvão.

Ao Fernando Pessoa.

À Lisboa.

Ao meu pai, aos meus irmãos. À minha família. À minha mamã.

À sincronicidade, maior do que o destino.

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Desencontrar-te

portas do sol

“Não estou indo em direção ao fim. Estou indo em direção às origens”. Manoel de Barros

Gosto de atravessar a rua e desdenhar a Praça do Príncipe Real, no caminho para o trabalho. A beleza deve sempre ser evitada, Lisboa. Os passos me parecem mais largos, longe dos bosques amarelecidos. As calçadas, estreitas, desaceleram os meus pensamentos, intransponíveis. A tua lentidão me exaspera.

Passaram-se três séculos e nove meses. Os dias duram demasiado, nos teus braços. As semanas se prolongam em anos e anos, sem envelhecerem meu rosto. Cruéis são estes tempos de espera.

Devo adiar o inadiável, Lisboa? Só basta um instante a navegar nos teus azuis para dizer que sim. Amanheço com o coração encharcado em quimeras, para que o Sol evapore os acontecimentos, nas seis badaladas do porvir.

Um único telefonema é capaz de calar meu pessimismo. Rodopiamos pela madrugada insone. E digo-te: sim, gosto imenso de ti. Sim, cá ficarei. Mas a manhã é irrecuperável, novamente. E tu me dilaceras as certezas com a mesma calma com que me embriagas em promessas.

No domingo fiquei à procura de tempestades. A chuva, no entanto, era fugidia. Só choveu dentro da minha casa porque teimo em abrir as janelas.

Será que todo amor atinge a plenitude no desencontro?

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Quimeras de farol

“A minha solidão é maior que teu silêncio”, disseste-me, há pouco, com os olhos em dilúvio. Ah, Pedro, se tu soubesses como eu sei! A tua solidão nasceu do meu vazio, amor.

A tua avó sempre me disse que o mar me habitava, dentro da barriga dela. Eu, na felicidade estúpida, infante, nunca vislumbrei o óbvio: o mar é a nossa primeira morada, sempre. Não há humanidade sem o líquido ancestral, pois.

Embora eu já tenha te contado tantas referências sensíveis, tantas dores que me trouxeram à condição de poesia, talvez o mar as inaugure todas. Não há mundo antes das águas, Pedro. Todo silêncio prepara o estouro das ondas.

O mar mora dentro de mim, Pedro. Primeiro, nas minhas lágrimas de sal e comiseração. Em sonhos aquáticos, em dúvidas postiças, em serenatas de ressaca. Mora, filho, o júbilo pelos azuis, a estranheza frágil que me suporta, frente às mares.

Mas tu precisas saber que a mudez é o despertar da imaginação. Não existiriam tantas galáxias, dentro de ti, se não houvesse este surdo chamado para os teus próprios oceanos.

A Mamã também soube brincar de enclausurar a voz. Este exercício de contar as histórias para a alma. O abandono dos alardes é o berço dos mergulhos, meu querido. Tu, que querias ter nascido água para ressuscitar os meus naufrágios! Por que te pensas merecedor de cais, Pedro?

Pula com força nestes teus silêncios. Acolhe a efemeridade das tuas marés. Abandona esta súbita vontade de dizer, antes de tudo. A palavra, quando calada, reverbera nas vísceras. Não há poesia tagarela.

Dilacera-me te mostrar a solidão. Grandes são os desertos e tudo é deserto, diria Pessoa.  Mas são maiores os nossos sonhos, quando inauditos. Quando despertares para a grandeza das estrelas, tua dor se unirá ao Universo. Poderás, enfim, cantar quimeras de farol.

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Sonhatório

 

O carnaval nunca foi teu feriado preferido. Sempre me disseste que teu mundo acontecia doze dias antes dele, ou apenas quando ele se ia embora e o ano finalmente começava no Brasil. Acho que odeias o carnaval porque odeias o meu pai. E ele é fruto de uma noite mascarada em teu verão.

Meu pai nunca foi um homem comum. Éramos como estranhos que se comunicavam por sonhos. Havia qualquer cousa que nos afastava. Eu percebo a estranheza da ausência, a vertigem de ver a si, em olhos de outrem. Mas as nossas demoras derivavam de outros escândalos.

Houve, pois, um dia em que descobrimos nossa afinidade. Morávamos, na altura, aquela casa, em Alfama. Um rés-de-chão duplex. Tu sempre gozavas, mamã, da nossa verticalidade para baixo. No entanto, foi lá que tivemos a inventar o sonhatório. E a colecionar todos os sonhos do mundo.

Era segunda-feira, como qualquer outra poderia ter sido. Mas Papá havia sido demitido do trabalho, em Lisboa. Não imaginava que aquilo precederia nossa viagem ao Brasil e à vossa brutal separação. É engraçado como um dia tão feliz possa antever a tragédia. E que nunca estamos imunes à tristeza, nem abençoados pelo céu de churrasco da minha terra.

Papá chegou, olhos marejados, distantes, como se visse o Tejo para sempre. O azul desferia uma beleza improvável. Os olhos de Papá estavam ainda mais azuis, por causa das lágrimas. Eu, com as minhas mãozinhas pequenas, afastei a dor dele. “A cada milágrimas sai um milagre”, cantei.

Declamar com os olhos é algo que a genética me trouxe. Como é vulnerável estar com os olhos a recitar as vísceras! E papá se encheu de oxigênio para impedir que lêssemos as mesmas poesias melancólicas.

O sonhatório foi o nome que ele deu, para nosso jardim. Ensinou-me que era um sótão às avessas, pois não havia janela para ofuscar o horizonte; assim como deveriam ser os sonhos. Descortinados. Infindos. Vingativos.

Pois. Para o meu ídolo, sonhos são vinganças pacíficas que travamos com a vida. Quando a vida se põe a nos fazer chorar, há-se de sonhar. E sonhar estratosferas, universos, galáxias. Vingar-nos de nossa condição.

Perdi meu sonhatório quando o Carnaval de vocês acabou. E jamais consegui me vingar novamente da vida. Então, aceitei a Poesia como segunda vingança. Só a Poesia é senhora do mudar, a partir deste dia, Mamã.

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Todos os caminhos me levam à Lisboa

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Eu no tempo não choro que me leve

A juventude, o já encanecer

A cabeça que pouco ainda esteve

Sob o Sol solto e a tarde a arrefecer.

 

Nem choro que não me ames, que faleça

O amor que vi em ti, que também haja

Uma tarde do amar, que desfaleça

E a noite fique, (…)

 

Mais que tudo choro já não te amar,

Sim, choro a tragédia de não ser o mesmo na alma,

De te ser infiel sem infidelidade,

De me ter esquecido de ti sem propriamente te aborrecer.

 

Não é o tempo ido em que te amei que choro.

Choro não te amar já por isso ser natural.

Choro ter-te esquecido, choro não me poder lembrar

Com saudade do tempo em que te amei.

 

Isso é que choro, sim, com as verdadeiras lágrimas

Que contém em si os piores mistérios —

A morte essencial das coisas,

O acabar das almas, mais grave que o dos corpos,

O abismo onde a única esperança é poder haver Deus

E um outro sentido desconhecido a tudo que se teve e se foi

Um outro lado, nem côncavo nem convexo à curva da vida.

Fernando Pessoa, ortónimo e amado e perfeito, sempre…

 

Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim pude esquecer-me na visão do seu movimento.

Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumam — quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes de paisagem — uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar.

A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. Não alinho hoje nas minhas gavetas carros de linha e peões de xadrez — com um bispo ou um cavalo acaso sobressaindo — mas tenho pena de o não fazer… e alinho na minha imaginação, confortavelmente, como quem no Inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas.

Alguns passam dificuldades, outros têm uma vida boémia, pitoresca e humilde. Há outros que são caixeiros-viajantes. (Poder sonhar-me caixeiro-viajante foi sempre uma das minhas grandes ambições — irrealizada infelizmente!) Outros moram em aldeias e vilas lá para as fronteiras de um Portugal dentro de mim; vêm à cidade, onde por acaso os encontro e reconheço, abrindo-lhes os braços, numa atracção… E quando sonho isto, passeando no meu quarto, falando alto, gesticulando… quando sonho isto, e me visiono encontrando-os, todo eu me alegro, me realizo, me pulo, brilham-me os olhos, abro os braços e tenho uma felicidade enorme, real.

Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram! O que eu sinto quando penso no passado, que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida…, isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos, as próprias figuras secundárias que me recordo de ter visto uma só vez, por acaso, na minha pseudovida, ao virar uma esquina da minha visionação, ao passar por um portão numa rua que subi e percorri por esse sonho fora.

A raiva de a saudade não poder reavivar e reerguer nunca é tão lacrimosa contra Deus, que criou impossibilidades, do que quando medito que os meus amigos de sonho, com quem passei tantos detalhes de uma vida suposta, com quem tantas conversas iluminadas, em cafés imaginários, tenho tido, não pertenceram, afinal, a nenhum espaço onde pudessem ser, realmente, independente da minha consciência deles!

Oh, o passado morto que eu trago comigo e nunca esteve senão comigo! As flores do jardim da pequena casa de campo e que nunca existiu senão em mim. As hortas, os pomares, o pinhal da quinta que foi só um meu sonho! As minhas vilegiaturas supostas, os meus passeios por um campo que nunca existiu! As árvores de à beira da estrada, os atalhos, as pedras, os camponeses que passam… tudo isto, que nunca passou de um sonho, está guardado em minha memória a fazer de dor e eu, que passei horas a sonhá-los, passo horas depois a recordar tê-los sonhado e é, na verdade, saudade que eu tenho, um passado que eu choro, uma vida real morta que fito, solene, no seu caixão.

Há também as paisagens e as vidas que não foram inteiramente interiores. Certos quadros1 sem subido relevo artístico, certas oleogravuras que havia em paredes com que convivi muitas horas — passam a realidade dentro de mim. Aqui a sensação era outra, mais pungente e triste. Ardia-me não poder estar ali, quer eles fossem reais ou não. Não ser eu, ao menos, uma figura a mais, desenhada ao pé daquele bosque ao luar que havia numa pequena gravura dum quarto onde dormi já não em pequeno! Não poder eu pensar que estava ali oculto, no bosque à beira do rio, por aquele luar eterno (embora mal desenhado), vendo o homem que passa num barco por baixo do debruçar-se de um salgueiro! Aqui o não poder sonhar inteiramente doía-me. As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do meu desespero eram diferentes. A impossibilidade que me torturava era de outra ordem de angústia. Ah, não ter tudo isto um sentido em Deus, uma realização conforme o espírito de nossos desejos, não sei onde, por um tempo vertical, consubstanciado com a direcção das minhas saudades e dos meus devaneios! Não haver, pelo menos só para mim, um paraíso feito disto! Não poder eu encontrar os amigos que sonhei, passear pelas ruas que criei, acordar, entre o ruído dos galos e das galinhas e o rumorejar matutino da casa, na casa de campo em que eu me supus… e tudo isto mais perfeitamente arranjado por Deus, posto naquela perfeita ordem para existir, na precisa forma para eu o ter que nem os meus próprios sonhos atingem senão na falta de uma dimensão do espaço íntimo que entretém essas pobres realidades…

Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo… É cedo ainda. Mal passa o meio-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o meu próprio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para os inconfortáveis, alamedas vetustas, inencontráveis de antes, para os isolados no sonhar! Ter de viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra gente, real também, na vida! Ter de estar aqui escrevendo isto, por me ser preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não poder sonhá-lo apenas, exprimi-lo sem palavras, sem consciência mesmo, por uma construção de mim próprio em música e esbatimento, de modo que me subissem as lágrimas aos olhos só de me sentir expressar-me, e eu fluísse, como um rio encantado, por lentos declives de mim próprio, cada vez mais para o inconsciente e o Distante, sem sentido nenhum excepto Deus.

Bernardo Soares/Fernando Pessoa

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Capítulo I – Pedro

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Tu olhas para este cinzeiro, giro, branco, cristal vindo do Norte. Azeitas tuas ironias, requintes de crueldade. Escolhes as bitucas impedidas de alcançar o fim: fumas as mais altas primeiro; desespero de quem ainda ama. Humilhas a ti mesma, fogo nos dedos, com as mais pequeninas. Tenho pena de ti.

“A padaria ainda não abriu”, dizes-me, ou, a ti mesma. Tens vergonha que meus olhos possam, finalmente, ter encontrado a humilhação. “Nessa época de crise não se pode desperdiçar um tabaco”. Eu reluto, porque amo-te, em agredir meu pensamento com a verdade. Acredito nas tuas palavras, desde sempre.

Já são cinco da manhã e a noite teima em ficar. Eu detesto quando a madrugada dura mais que a tua dor. Tu emparelhas as garrafas, ainda vivas, para saber de qual roubar, em silêncio. A tua inteligência me faz mais triste, mais forte. Menos miúdo. Queria ter um abraço que soubesse ao cheiro de vinho. Uma doçura boreal nos protege do amanhã. Amo-te, mamã.

Eu gostava que a dor sumisse de ti. Li todos os livros de todos os bruxos para desvendar esse mistério terrível que traz a ti a cólera. Não aprendi poesia para libertação. Chovo, nas líquidas estrelas que lumiam meu teto de menino. Adoro o nome que insististe em me dar. Pedro.

A etimologia foi, a ti, uma cúmplice inesgotável. Consegues enaltecê-la em surdez absoluta. Jamais ouvirias uma palavra, em plenitude, que atravessasse o cordão do teu silêncio. E, assim, doida e doída, amo-te, Mamã.

Sei que o Tejo nunca foi o rio da tua aldeia. Mas que o amas – talvez mais a ele que a mim – e que o rio percebe mais teus olhos do que eu: indigente, nefasto, trovador.

Queria ter nascido água. Ressuscitar os teus naufrágios.

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No abismo de uma alegria sem manhã

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O comboio apitava dentro de mim, às sete. Eram cinquenta horas acordado, sem drogas. A embriaguez me vinha da bagaceira, da ginja, das três garrafas de vinho que havíamos bebido, no sótão, uma última vez.

Do alto da Romaria parece que a vida custa menos ao pensamento. Nos telhados encarnados, crestados pelo amarelecer primeiro, não havia silêncio que duvidaria da nossa comunhão. Eu, perderia o bilhete e a dignidade, feliz de testemunhar aquela aurora ao teu lado, amada.

Mas tu te despedias de mim. Alerta. Parece que o relógio sempre habitou teus olhos, mausoléus de eternidade. “Vais perder a viagem ao Porto, se continuares aqui comigo. ” E eu dizia: “Queres que não me perca, agora? ”

Quase cai, equilibrando-me em dúvidas e descaminhos. O teu perfume escancarava minhas escolhas, errôneas. A vida atracava no Tejo, fumegando em navios cargueiros. Um anjo, inaudito, assobiava estrelas. A tua dor me era vacilante. Ou era minha a vaidade que sussurrava, estúpida, adivinhando a cobardia.

Bêbedo, apanhei a mala, sem cadeados nem senhas, à espera do impedimento. Tu me lembraste do agasalho e da t-shirt que estavam na cozinha. Eu os apanhei, ainda envoltos na tua face, dividida. De um lado me mostravas a covinha, cúmplice. À sombra, do lado direito – aquele que a miopia te castiga mais – desdenhavas os trilhos. Será que nenhum rosto vibra em doçura, quando o caminhar atropela os lábios?

As lágrimas me pouparam, enquanto o comboio arrepiava-me os cabelos, às sete. Eram cinquenta horas acordado. O coração, exagerado, precipitava-se em farpas e lamentos. O vento, implacável, coordenava as esquinas de Santa Apolónia. Vivalma impedir-me-ia de regressar à casa.

Em Alfama, as gaivotas desenhavam nuvens. O lume jazia em nossa casa. Nenhum vizinho sabia nada de ti. As janelas, cerradas, obrigavam-me a esmagar o capacho, com aqueles dizeres esdrúxulos de amantes hibernados.

Tu, já longe, saberias do meu retorno, infame? Ah, só a literatura para suprir essa ausência de séculos que me imprimiste!

A solidão, todavia, invadiu meu terno, ao tocar a campainha. Perscrutou os bolsos, à procura do teu nome. Verificou minhas mãos, cobertas em epifanias, e tinta. Eu achava que o amor, valente, suportaria a cronologia. Mas plenitudes carregam o fardo do abandono. Não há cais que resista ao lenço branco.

O abismo, hoje, impede-me de enxergar as manhãs.

*Foto: Rik de Jager

 

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Lisboa que amanhece

Sérgio Godinho

Cansados vão os corpos para casa
dos ritmos imitados de outra dança
a noite finge ser
ainda uma criança
de olhos na lua
com a sua
cegueira da razão e do desejo

A noite é cega e as sombras de Lisboa
são da cidade branca a escura face
Lisboa é mãe solteira
amou como se fosse
a mais indefesa
princesa
que as trevas algum dia coroaram

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

O Tejo que reflecte o dia à solta
à noite é prisioneiro dos olhares
ao cais dos miradouros
vão chegando dos bares
os navegantes
amantes
das teias que o amor e o fumo tecem

E o Necas que julgou que era cantora
que as dádivas da noite são eternas
mal chega a madrugada
tem que rapar as pernas
para que o dia não traia
Dietrichs que não foram nem Marlenes

Não sei se dura sempre esse teu beijo …

Em sonhos, é sabido, não se morre
aliás essa é a única vantagem
de, após o vão trabalho
o povo ir de viagem
ao sono fundo
fecundo
em glórias e terrores e venturas

E ai de quem acorda estremunhado
espreitando pela fresta a ver se é dia
a esse as ansiedades
ditam sentenças friamente ao ouvido
ruído
que a noite, a seu costume, transfigura

Não sei se dura sempre esse teu beijo …

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janeiro 13, 2016 · 2:00 pm

A culpa da alegria

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Havia quatro anos que não nos víamos. Eu, tu e a inevitável velhice. Achei-te mais jovem desta vez: parecias mais exausta e decadente, em nosso último encontro. Talvez a tua pele tenha sido renovada pela popularidade tardia, ou quem sabe a vaidade tenha finalmente tocado teus poros. Fiquei com ciúmes de ti.

Estávamos, contudo, em perfeita sintonia. Ah, as tardes amareladas em doçura não podiam enganar-me! Sabia-me, uma vez mais, amada por tua presença. O amor, ao menos, é uma maneira de possuir-me a mim.

Não foram, pois, os copos, tantos, que enfeitiçaram meu espírito, visceralmente. Juro-te que nada tem a ver com os amanheceres em Alfama, cercados de gaivotas em pertencimento. Ainda me lembro quando te disse, ao pé do ouvido, o quão eras incapaz de abrigar vampiros, como eu. Estar contigo é abandonar as fronteiras da própria alma.

Mas, afinal, deitaste-me fora, em noite de Santos, como se eu fosse uma amante qualquer. Apenas mais uma brasileira, igual a todas: sedenta de aventuras e anestesiada para a melancolia.

Fiquei tão triste contigo. Aquela festa, suntuosa, tão sonhada nas minhas sensações, fora aniquilada em ruas estreitas e sardinhas mal assadas. Fiquei mesmo triste contigo, porque parecia que ias esquecer-te do dia dos meus anos. Tive medo que não me dissesses nada.

Saí à tua procura, despassarada. O rosto milimetricamente desenhado. Os lábios encarnados. Andei pelo Príncipe Real, na chuva. Envelheceria privada de ti? Cheguei ao Bairro, já desesperançada de ter contigo. Mas apareceste, em trajes de surpresa, dizendo-me que a casa era minha e que podia estar para sempre em tua morada. Acho que não sabes, mas já tinha decorado teu código postal, há muitos anos.

Os dias e noites, a seguir, preenchiam as saudades. Alimentaste-me de cores, em Belém. Fomos ao Cabo da Roca, realizar o velho sonho de ventar. Passeámos em comboios, autocarros, metros, eléctricos. Revivemos o Cais do Sodré, em comunhão com nossos fantasmas.

Em nossa última noite, no Tejo Bar, pudemos reconhecer nossos amigos. Eu jamais me senti tão querida em toda a minha vida. Cantámos e brindamos esse amor que não se explica, nem em lirismo exacerbado. Sentámos à igreja, para invocar todos os sons de todas as guitarras de toda a gente que passou pelo miradouro de Santo Estevão. O sol escancarava os adeuses.

Acendias o rio naquele azul impossível, farto de eternidades. Meu coração, a nau, arrependia-se de partir. Tuas mãos ainda aqueciam as maçãs de meu rosto, rubras de vinho e poesia.

Tu me beijaste por todas as madrugadas insones, silenciando minhas juras. Tantos versos ficaram enclausurados. Não aceitaste que a correspondência viesse pelo correio. Toda descoberta é uma renúncia ao ninho. E eu te prometo, Lisboa: estaremos juntas, muito em breve, para navegarmos as nuvens que nos enchem de plenitude. Ensinaste-me que não é preciso sentir culpa da alegria.

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Ah, que ânsia humana de ser rio ou cais!

Alfama
V
Há quanto tempo, Portugal, há quanto
Vivemos separados! Ah, mas a alma,
Esta alma incerta, nunca forte ou calma,
Não se distrai de ti, nem bem nem tanto.
Sonho, histérico oculto, um vão recanto…
O rio Furness, que é o que aqui banha,
Só ironicamente me acompanha,
Que estou parado e ele correndo tanto …
Tanto? Sim, tanto relativamente…
Arre, acabemos com as distinções,
As subtilezas, o interstício, o entre,
A metafísica das sensações —
Acabemos com isto e tudo mais …
Ah, que ânsia humana de ser rio ou cais!
Álvaro de Campos

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Livraria do Desassossego

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Aproximando-me do crepúsculo, em plena convalescença com os horizontes de Lisboa, senti-me incómodo. Tantas cores a declarar minha gratidão. A morte do azul de mais um dia. Os ventos gélidos do tímido verão. A iminência da infinda madrugada que testemunharia, por fim, a morte da hipótese.

O Cemitério dos Prazeres, onde moram as últimas paragens, permanecia inaudito. Quão imensa era a trilha, automática, até o número dezasseis, da Coelho da Rocha. Parei em todo café aberto na esperança de que os tragos de bagaceira me pudessem elevar ao estágio mais cósmico dos devaneios.

Por que haveria de deitar-me em sua cama? O meu sonho, há muito, já transbordava as exactas margens do impensável. A Livraria do Desassossego era um fenómeno mundialmente conhecido. O melhor livro de todos os tempos ressonava em corações noruegueses.

Inebriado por estrelas e cachaça, eu perscrutava o quarto mínimo, abrigo das galáxias pessoanas. Aquilo que, a princípio, encontrava-se esgotado por visitantes e estudiosos. Contudo, a poeira de seu baú resplandecia, inédita, às significações etílicas do meu olhar.

Abri a página amarelada e nua do meu caderno de bolso, presente oferecido pela simpática empregada da papelaria Emílio Braga. A virgindade assombrosa de sua capa em tecidos artesanais. O pavor à inexaurível condição de ali estar. Confessar meu sono à tinta negra, em palavras.

Por horas fiquei em pé, na tentativa ridícula de invocar Alberto Caeiro. As pernas tremiam, em exaustão de poesia que não se pode psicografar. Ensaiei, tolo, respirações transcendentais, à espera de um berçário de ideias. Arrefeci em frustrações e impaciências, desenganado de uma vinda triunfal.

Acendi, pois, um cigarro atrás do outro, ainda que fosse impróprio, proibido e egoísta. Pus mais um copo à mão, convencido de que o desmaio tornar-se-ia inevitável.

Como acontece o encontro de duas existências?

Certamente não ocorreria em forma de versos.

Paulatinamente, a poética do quarto minúsculo vai calando meus anseios. Legitima, soberana, a leitura mais óbvia de mim, antes velada pela cobiça à genialidade. Fui percebendo-me pequenino, só, triste. Coitado. E, de repente, farto de sensações que não havia nomeado antes. A cada instante, a cada gole. Em fumaças dispersas por janelas inventadas do amanhã, tu me libertas do meu analfabetismo emocional.

Eu, plágio universal do desassossego.

A poesia surge como música em língua estrangeira, involuntária, batendo meus pés, sem compreensão de sua letra. Amaldiçoa a missão de recolher aquelas vozes, transcrevendo as falas amorosas. A caneta navega sozinha, a apreender os demónios do mestre, assentindo com lealdade às almas heterónimas.

“A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos.”

O teu encontro, Pessoa, me atrasa. Séculos antes do desencantamento do mundo. Qualquer coisa se refaz pertencimento, agora. Mas já não estou cá, no teu quarto de miúdo. Já não te revejo, Lisboa, Tejo e tudo. A tua chegada é mansa e estreita, como as ruas de Alfama. Engraçada. Violas minhas mãos com teus gritos absurdos, com teus uivos travestidos de ar. E eu te aceito sem existires. Porque há tanta cousa que, sem existir, existe demoradamente. E demoradamente és meu.

Uma tranquilidade humilde toma-me em abraços. Eu, tão imaturo, só ofertei a inquietude da tua alma para repousar contigo nos abismos.

E tu?

Tu amanheceste minha euforia, escurecendo-me inspiradas vicissitudes.

Ps: a história real é essa: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-96/esquina/pessoa-uma-paixao

Ps2: a foto é do meu querido amigo Luis Jardim, directamente da Casa do Pessoa.

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Tejo Bar: Santuário das Incompletudes

MIACOUTO

Nunca poderia deixar de imaginar que Lisboa fosse uma cidade de sítios mágicos. Contudo, o clichê literário, exaustivamente desdenhado, não me era capaz de seduzir, em primeira pessoa. Os cafés, ninho dos antigos fantasmas, as esquinas, mínimas e estonteantes, o monumental cinema abandonado.

Apenas quem guarda o horizonte em águas é capaz de viver saudade. Quantas eternidades são amanhecidas, quando o olhar estica os oceanos? Talvez esta seja a grande obviedade inexorável da cidade. Uma vontade de partir, afogada pela dor de ir embora.

Há, pois, um lugar que transcendeu sua existência para atravessar as distâncias insuportáveis da poesia.

Das ruas estreitas, penduradas pelas luzes envelhecidas, pouco se pode perceber. Os dilúvios taciturnos despistam o sonhador mais distraído. A obscuridade de informações. Quem conhece sabe chegar, quase em transe mediúnico. Quem o tem no imaginário se perde nos relatos incompreensíveis das testemunhas.  Só resta uma certeza: o coração é devorado, ao entrar, como oferenda ao santuário da incompletude.

Tejo Bar, ventre de Alfama, tantas letras ainda insistem em te traduzir! Ah, teus poetas vadios, tuas noites infindas, tua harmonia com a sincronicidade! Fico, inebriada, a inventar todos os amores que te fizeram enredo.

Onde existirá outra porta que nos devolva à condição de instrumentos da arte?

Basta bater.

É perfeitamente admissível que muitos o tenham rejeitado, ao se depararem com a solidão imperdoável. Criadora.

No entanto, aqueles que suportaram a entrega ao invólucro jamais o deixariam, novamente.

Miscigenar-se com outras peles, línguas ancestrais, impensadas melodias. Sentar à mesa de estranhos cúmplices. Declamar os silêncios. E depois, fartos de epifanias, é permitido estilhaçar-se em excessos.

É por isso, Tejo, que és também rio das despedidas. Teu lugar é uma nau, desprovida de bússolas. Teu pertencimento está em aceitar o rumo das marés. O mundo, agora, reverencia: envaideces as estrelas com a tua presença.

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Informações:

O Tejo Bar, agora também itinerante, já esteve em São Paulo e Bolonha. Olinda foi eleita a próxima casa natal, em plena Fliporto. A mística experiência poética será realizada no sábado, dia 16 de novembro de 2013, no Tribuna Bar e Restaurante Sabores Ibéricos, rua de São Bento, 210 | Varadouro, às 23h, com a condução do seu criador, Mané do Café, e outros frequentadores inverossímeis. Todos estão convidados para serem os novos membros da divina seita.

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Vídeos:

João Pires, Marcelo Pretto e Chico Saraiva no Tejo Bar em Lisboa:

Tejo Bar em São Paulo:

Tejo Bar em Bolonha:

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E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.

Imagem

Foto de Bob Ferraz, amigo brasileiro que já possui seu heterônimo lisboeta na alma.

Álvaro de Campos – Fernando Pessoa

Saí do comboio,
Disse adeus ao companheiro de viagem,
Tínhamos estado dezoito horas juntos.
A conversa agradável,
A fraternidade da viagem,
Tive pena de sair do comboio, de o deixar.
Amigo casual cujo nome nunca soube.
Meus olhos, senti-os, marejaram-se de lágrimas…
Toda despedida é uma morte…
Sim, toda despedida é uma morte.
Nós, o comboio a que chamamos a vida
Somos todos casuais uns para os outros,
E temos todos pena quando por fim desembarcamos.

Tudo que é humano me comove, porque sou homem.
Tudo me comove, porque tenho,
Não uma semelhança com ideias ou doutrinas,
Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.

A criada que saiu com pena
A chorar de saudade
Da casa onde a não tratavam muito bem…

Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo.
Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração.

E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.

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Perdi meu amor em Lisboa

Antes de tu chegares jamais pude escolher o meu sonhar. E, confesso, desde pequenina tentava driblar esses vastos porões do inconsciente – a fim de domá-los. Arrogante que era, acreditava que as fúrias de minha profundeza também me pertenciam, domesticáveis.

Porém, certa noite, desejei ter-te cá dentro da minha narrativa selvagem. Aceitei ser títere dos baús empoeirados, abrir os lacres poderosos da razão. E sonhei com a possibilidade de estar ao teu lado.

Na altura eu era jovem e louca e infantil. Não havia aprendido a linguagem nítida dos devaneios noturnos. Estrangeira. Sozinha. Liberta das amarras do pertencimento.

O sonho era óbvio. Literal – como são essas terras. Estávamos em uma festa, dispersos nas conversas triviais com conhecidos e outras pessoas que trouxe do meu país para o sonho. Embriagados e obtusos.

Acordei. Invólucro, ainda, de vinhos não entornados. Desorientada de estar na realidade de mais um dia. Fui à tua procura, certa de que deveria desanuviar as incertezas, apagar a lembrança não vivida. Quantas horas passamos a falar! Tu, totalmente imune ao meu sonho, enquanto eu tentava rebobinar as fantasias para ver se faziam jus aos porões.

No entanto, foi a noite seguinte que consumiu a profecia autorrealizadora. Depois de um jantar irrelevante. Ah, como me senti manipuladora nos instantes que precederam o beijo. Porque já o havia beijado antes, mesmo que tu não soubesses disso.

Não aguardava o amanhã que te trazia novamente. Não era mais sonho, não havia roteiro traçado. E tu estavas lá, à minha espera. Com os olhos negros e vazios, convidando-me a preenchê-los com a minha própria vida. Como compreendeste cedo as canções impronunciáveis de meus artistas natais! Ensinaste a mim a literatura anciã dos navegantes e os ventos que compõem as tempestades. Foi assim que aprendi: as calmarias duradouras são perigosas iminências do mudar.

Tu desmembraste minha família destruída, colocaste-me no rígido papel de protagonista. As minhas lágrimas vitimizadas perdiam, a cada momento, seu triunfal poder de convencimento. E eu, tão pobre de retórica, tão fraca em me expressar na tua língua, via-me solo das sementes inesgotáveis.

Com o paganismo infantil, ampliava meus ouvidos para a música que só tu eras capaz de explicar, em gestos magistrais de professor. Distinguia cada um dos Beatles nas canções – pela forma, conteúdo, voz. Contudo, admito que avistava em Ringo o mais estranho dos personagens e, por isto, o amava a revelia dos truísmos.

Mas, também eu era capaz de ensinar. A tua robustez nutria meu cerne, pouco a pouco. Conseguia traduzir em notas os minúsculos poros da tua pele exótica. Discorria sobre as engenhosas construções matemáticas que compõem uma tessitura. Compartilhava meus costumes gélidos, explicando como a minha nação não tinha condições de agregar culturas indígenas. Preparava refeições, no ímpeto de alimentar tuas inspirações literárias.

Pude resgatar a ti dos abismos atrozes onde moram os pesadelos, ao levar-te por um passeio inusitado à beira do Tejo, em madrugada estelar. Tua alma, cintilante, finalmente atingia a incomensurável felicidade. Sempre nos gestos banais, microscópicos, eu estava a exercer a função pedagógica do amor.

Quis casar-me contigo, todos os dias, embora não possuísse emprego fixo nem curso superior. Obedeci, pois, a cada um dos fugazes impulsos que vivia meu coração apaixonado.

Paulatinamente, amado, fui recuperando meu ser esquecido, antes pelos lamentos. Enquanto as tuas raízes convertiam-se em maleabilidade, minha casa ganhava ornamentos. Tu vivias anseios de naufrágios juvenis, corajosos e típicos de quem sabe navegar. Eu queria apenas fincar minha bandeira em solo clandestino.

Nevoeiros tornam-se sutis, frente aos temporais.

Assim, nossa cumplicidade telepática foi tornando-se adúltera. Tu, sedes de além-mar. Eu, quimeras continentais, com horror aos arquipélagos. Nossa solidez, taciturna, foi-se devastando em crescimentos incompatíveis, alheia à intersecção primeira.

Tu foste à África, buscar os sons que engrandecem tua língua. No Brasil, abandonaste as feições tristes do fado. Descobriste a razão de ter os pés sempre a tremer. Era o samba, erupção vulcânica, escondido em tua carne.

Simultânea, interpretei todos os azuis dessa cidade, atrás do teu rastro. Deitei pelas noites gentis, a enlanguescer-me. Retornei, apática, à fonética carecida de poesia de meus iguais.

Dissipamo-nos, faíscas, como a breve carcaça das fogueiras.

Desaprendeste de mim? Conseguiste caminhos em tua memória que apagassem meu nome? Pois esforço-me imenso, até hoje, por fórmulas imediatas de revogar. Invoco lúcidos sonhos que me retirem de Lisboa, berço desse lirismo tolo. Um eclipse irrefutável, talvez.

Escrevo para calar aquilo que reverbera. Esquecer-te desperta, em vigília. Onírica, já sabes, serei incapaz de deitar-te fora. A noite sempre me chega para rarefazer as cicatrizes, para enaltecer os domínios dos quais não sou senhora.

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Às vésperas de mim

“Estamos tão ligados aos lugares que nos parece mais fácil deixar a nós mesmos do que a eles.” Marguerite Yourcenar

Sentada na janela dos meus anos, percorro as penumbras emudecidas dos meus eus transeuntes. Todos os seres que me habitam pensaram em uma história completamente diferente para trilhar. No entanto, a reflexão final carrega a obviedade que tinge o brilhantismo do cinema francês: nada é da forma que imaginei. Talvez seja essa a melhor sensação da vida: saber que os nossos rios correm apesar de nós. O que nos resta é cuidar para as águas permanecerem límpidas. E imprescindível é absorver a celeridade nas correntezas. E meditar em todas as calmarias.

Desde pequena, os lugares que escolhi para as comemorações entranhadas das mudanças quase nunca foram planejados. À reminiscência primeira, deixo o devaneio tomar o mínimo pedaço de chão, abençoado por lençóis brancos e sonhos pueris. O carpete castanho do quarto vivia seus momentos de glória. Quantos reis e dragões estavam à minha espera, nas proibidas madrugadas da infância!

Como se sucumbisse à eternidade das marcas sanguíneas no tecido, já não o revejo como vereda inquieta. Absorvo até mesmo os interlúdios como parte da orquestra que vem me construindo ao longo dessa existência.

Na jornada inesperada dos meus aposentos, permito-me acelerar a adolescência, com suas lágrimas descabidas e os tolos desalentos. Não por negligência ou vergonha. Mas porque gosto das ampulhetas preenchidas: ora no lembrar menino, ora na quimérica velhice em completude.

Quantas vezes pensei: serei eu o incômodo fantasma que abraça os baús empoeirados, numa casa cujos donos morreram há trezentos anos? Passaram-me as chaves, enclausuraram-me dentro dos meus próprios dilúvios? Não. Eu os fui, legitimamente, um a um. Sonho a sonho. Com o pavor míope de quem vê o tempo a furtar os detalhes.

Todavia, somente às margens do Tejo, entendi. Descobrir a concha ontológica em cada vã moradia. Os mares obrigam a alma a experimentar o desassossego. Só quem enxerga o infinito é capaz de nomear saudade. Quem nunca parte não se estilhaça na cósmica aventura do desconhecer.

Acenos à beira do cais me visitam com seus lenços e prantos. Tentam seduzir-me com promessas de estabilidade. Marinheira que sou, embalo-me com vozes de sereia, tendo só a infinitude oceânica nos olhos.

E vou. Atônita, sempre. Febril e trovejante por medo desses escuros abissais. Contudo, foram eles que me prepararam para o resignar das novidades impensadas. Eu vou, inebriada pelas naus que me embarcam sem que seja tomada pela racionalidade assassina.

Afinal, toda terra é digna de colheita. Com canções arquetípicas e coragens guardadas, neutralizo as águas tempestivas. Às vésperas de mim, vejo a sincrônica encruzilhada dos amanhãs. Cheia de saudade das minhas casas primeiras, das sensações recônditas, dos sonhos imaculados. Mas a saudade é o fardo de navegar.

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Esta angústia que trago há séculos em mim transbordou da vasilha…

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que…,
Isto. Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.

 
Estou assim… Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou. Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

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25 de abril – A Revolução dos Cravos

Tanto Mar

Chico Buarque

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor no teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto de jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

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O colecionador de saudades*

colecionador de saudade1

colecionador de saudades2

Eu gostava mesmo de escrever em terceira pessoa. No entanto, tentei e foi um bocado frustrante. Acho que ainda trago a própria vida embutida no coração do pensamento. E isso passará, com o rebentar dos anos.

Chamava-me Manuel Leite de Barros. Tenho vinte e dois anos e decidi dar um fim a mim mesmo. E não, não cometerei suicídio. A morte não tocará meu corpo, embora eu vá matar a mim durante essas páginas. Porque estou farto de ser eu.

Desde miúdo sinto-me um estranho em casa. É tradição em minha família colecionar. Meu pai possui uma coleção de bulas de remédios. Obviamente, trata-se de um inveterado hipocondríaco. Ele cataloga todas as descrições medicamentosas em ordem alfabética, dividindo-as em doenças. E orgulha-se imenso de ter mais de dois mil papéis ordenados em uma pasta castanha.

Minha mãe desde sempre foi apaixonada por corujas. Para ela, mais que símbolo do saber, as corujas são as grandes amantes da noite. “Com certeza a sabedoria acontece na escuridão”, diz-me repetidas vezes. Hoje, sua coleção já transborda doze estantes e ultrapassa quinhentas réplicas de todos os formatos, regiões e cores.

Até mesmo uma prima que mora no Brasil é viciada em coleções. Ela armazena todas as palavras bonitas que lê nos jornais. Por dia são escritas em seu caderno cerca de cento e doze novas aquisições.

Duvidei de meus laços sanguíneos até amar pela única vez. Uma profética festa de Santo Antônio, no dia 12 de junho de 2003. Antes disso, não havia colecionado absolutamente nada.

Eu me encontrava ao pé do Beco do Vigário, em Alfama. A lua estava cheia e a embriaguez já começava a me cobrir de sorrisos tolos. Foi ali que avistei Carminho.

Maria do Carmo Pereira tinha acabado de completar seus dezenove anos. Era irmã de um conhecido meu. Eu havia sido apresentado a ela quando éramos crianças. Passamos dez anos sem nos cruzar – mesmo sendo Lisboa uma cidade minúscula.

O velho clichê do amor instantâneo fez de mim sua vítima. Passamos a madrugada toda a conversar. Acolhidos pelo miradouro secreto, atrás da igreja de Santo Estevão. Só nos permitimos partir quando a manhã nasceu quente e o Tejo inundava-se em raios de ilusória pureza.

Foi assim que comecei a colecionar. A colecionar Carminho. Seus gestos, sua timidez. Cada partícula de sua alma. Apreendi sessenta e três olhares, cento e quarenta e sete sorrisos, vinte e seis jeitos dela prender os cabelos e duzentos e oito beijos. Superando toda e qualquer dicotomia sujeito-objeto, eu era capaz de colar minha visão ao seu rosto. Um ser indissolúvel, apartado em dois corpos.

Nada necessitava de catálogo. Ficava tudo cravado em minha memória. Nas horas em que não a via, brincava de contar minha suntuosa coleção. Ao final, sentia-me verdadeiramente um Leite de Barros.

Contudo, nossa relação teve um prematuro fim. No dia 14 de julho de 2004, ao sair apressada da Estação Cais do Sodré para me encontrar, Carminho foi atropelada por um elétrico. Seus ossos frágeis não resistiram às feridas e, algum tempo depois, ela faleceu no hospital.

Eu não me conformei com a perda. E, para não deixá-la morrer em mim, passei a colecionar saudades. Todos os dias, religiosamente, dava corda nos seus beijos, nos seus olhares, nos seus cabelos.

Algumas semanas após o seu enterro, decidi deixar Lisboa e a minha família. “Porque me sabia bem sentir saudades deles todos”. O afastamento seria imprescindível para aumentar minha coleção.

Pedi transferência do meu estágio para Viseu, onde meus pais tinham uma propriedade vazia. Por longos seis meses, pude beber da minha nostalgia. Enxertava a pele em fotográficos ensaios. Alimentava a melancolia com curtas metragens daqueles que eu amava. E todos os sofrimentos eram apaziguados.    

Cometi, todavia, um erro fatal. Posicionei Chronos em cumplicidade. E ele é um assassino silencioso. Porque a saudade – ao contrário do que dizem os fadistas – é inimiga das horas. É brutalmente borrada no tempo.

Na manhã de hoje, fui incapaz de reviver um dos beijos de Carminho. Espremi os olhos e não o achei. Rebobinei-me todo e havia desaparecido. A sofreguidão em resgatá-lo deixou-me ainda mais confuso. Eu me traí, sepultando minha doce reminiscência. Agora, estou à deriva. Só enxergo nebulosas. Destroços. Lábios partidos ao meio.

Hoje fui deitado fora. Como me dói, meu Deus! Como me dói essa saudade que sinto das minhas saudades colecionadas! Antagônico, o esquecimento enjaula-me à lembrança. Ninguém ensinou a mim que as coleções devem ficar cobertas de pó. Encostadas em prateleiras. Presas em vidros de éter.

O amor não é encarcerado nem posto em conserva. Mesmo o maior dos amores pode nublar. Paulatinamente, por inércia, cautela em demasia ou escolha, todo amor é passível de fenecer. E a saudade, pela sutil vingança do tempo, não é colecionável.

Digo adeus a mim neste momento porque vou me mudar. Levo meu espírito para abrigar outra identidade. Crio um semi heterônimo. Sem passado algum. Colecionarei saudades de mim mesmo, enquanto me for permitido. Avisto virgens futuros para o meu efêmero ser. Se, por ironia, apagar também essa saudade, não há problema. Eu já não me serei.

* Ps: tive a honra de ter sido publicada no Suplemento Literário de Minas Gerais, com este conto.

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Cortinas Encarnadas

cortina1

Nunca fiquei espantada com a transformação das pessoas. Parece-me até um movimento óbvio. O amor modifica, a convivência nos torna realmente parecidos. Não é à toa que mulheres cúmplices derramam o sangue da vida na mesma semana.

John Lennon, pós Yoko, virou japonês. A minha vizinha é exatamente igual ao seu basset: gorducha, ruiva, pelo curto. Manoel de Barros carrega o misticismo das abelhas. Minha mãe herdou a obsessão por refeições que outrora foi vício da minha avó.

Eu sinto-me mais verde, desde que o amor nasceu nas minhas palavras. É quase instantâneo o movimento de fidelidade canina que me envolve. Estou mais doce, mais tenra. Meu espírito é celeuma de marinheiro, canto decorado com tatuagem. Óbvia me é esta ideia – as pessoas podem consagrar gélidas montanhas.

Entretanto nunca ouvi falar em fagocitose de lugar. Nem nas leituras poéticas mais atentas, nem na nobreza acadêmica. E julgo ser uma descoberta só minha – e agora do planeta! Nós nos tornamos essencialmente parceiros dos sítios nos quais despendemos nossas horas. Como as paredes podem dizer de nós mesmos!

Essa epifania tola veio através dos devaneios solitários que vivo no trabalho. Como estão escancaradas as grandes descobertas, em pequenas algibeiras do sonhar! Como o espelho demonstra a irmandade silenciosa. Quanta burrice a minha, de jamais ter dado conta desse fenômeno manifesto.

Para desanuviar as incógnitas, trabalho em um lindo cinema. Está situado no coração da Avenida Liberdade, aorta de Lisboa. Chego por volta das dez, quando nem os fantasmas estão de pé. Faço toda a burocracia, como se pelas mãos eu fosse a regente da renascente orquestra. Durante seis dias da semana sou capaz de ressuscitar uma sala digna de realeza.

Passo mais ou menos três horas sem ter ninguém para conversar. Encontro-me desprovida de clientes, de tarefas, de limites. Às vezes invento mesmo: limpar a varanda, contar os cálices intactos, investigar qual máquina faz o melhor café…

O Cinema São Jorge é realmente digno de Cinema. Sala imensa, quase mil lugares. Iluminação com cheiro de saudade. O banheiro abriga um camarim. Tudo, absolutamente tudo me olha grande. Toda uma decadência gloriosa me habita, nesses instantes. Aquilo que foi, aquele glorioso passado! Eu me absorvo – porque o cinema já sou eu. Fico inerte pelas cortinas labirínticas da década de 50. Será que há o poder de transfigurar o enredo? É possível ser eu o maestro das sinfonias imaginadas?

Sei que é muito mais difícil descrever do que sentir. Mais o compartilhar me é objetivo maior, nessa vida. E eu lhes digo: como parecemos com os lugares onde desenrolamos nossas horas!

Isto é aviso e é literatura. Não tenho intenção – apologia grotesca. Eu apenas estou a dissertar sobre obviedades do meu coração. Eu sei que me comporto, por  osmose ou preguiça, exatamente igual ao lugar onde permaneço oito horas do meu dia. Eu sou quem abriga faxineiras que fingem trabalhar, embora não haja muito o que ser limpo. Eu incorporo a tristeza, esse vazio fantasmagórico, essa solidão desmesurada. Eu, habitante do meu lugar, sinto as marcas, as nódoas. Estou manchada pela potencialidade que carrego.

Como nos é perigoso reter os emudecidos líquidos! Se não existir uma consciência plena do que se é incorporado, a confluência vira realidade. Um pensamento estúpido é convidado a acampar em nossas divagações.

Desde que descobri esse gesto da minha alma, tomo muito cuidado. Enfeito o salão com vestidos de gala. Pinto as mesas com luvas de seda. Jogo paletós, chapéus e gravatas pela varanda. Uso com muita dificuldade toda a minha capacidade infantil de imaginar.

Em apenas um instante, todas as luzes estão acesas. Loto o balcão de doces castiçais. Os lustres só precisam de um sentimento vivo para acordarem. Fico imensamente feliz: só os fenomenólogos são capazes de cavalgar impunemente pelos passados, alterando a sua antiga nitidez.

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Relato de uma prisão domiciliar

prisao

A minha escrita se tornou pobre, nesses últimos dias. Fui obrigada a repousar. Por que mereço esse confinamento ininteligível? Onde foram parar meus refinados adjetivos? As ideias suntuosas, deixei-as na gaveta? Tudo foi-se embora. Porque o meu corpo disse chega. A minha alma, andarilha, hoje está trancafiada. Aceita com timidez os limites impostos pelos músculos inchados. Traga, então, tudo de uma só vez. E consente as paupérrimas imagens que se seguem.

São noites tão inúteis! Eu consigo ainda entrever nos andrajos um abrigo à simplicidade. Disso eu não sabia. Não entendia que deve-se fazer limpeza no intelecto. Muita atividade mental atrofia os ligamentos.

Ser intelectual aparenta riqueza e vistosidade. Anéis e colares. Ouro opressor, ópio dos vassalos. Seduz os dedos, apanha-nos o pensamento pueril, põe-lhe raros adornos. Ele, pois, vira príncipe infante. E a majestade se perde nas maquiagens mentirosas, nas perucas brancas.

Hoje, meu couro cabeludo pede descanso. Precisa retirar o mofo lírico que o envolve. Só o coração sujo, mendigo. Apenas minha imundície. Porque os poetas não deflagam imortalidades. Nada há de sublime. Tantas máscaras, tanta sujeira. Como são presunçosos aqueles que evitam a vã existência!

Ah, quantas noites desejei os palácios. Em quantas festas estive, cercada de lordes e duques do pensar! Agora sou impossibilitada de ir aos banquetes nos castelos. Tenho uma necessidade de parar. Sou uma perna semi morta. Porque alguma coisa em mim paralisou. E, assim, vivi essa semana em solidão castigada. Presa aos aposentos e aos fantasmas. Sem carne de gente por perto. Eu e mais ninguém. Parasita.

Quanto ódio! Uma ira cerebral. Farta dos livros e dos seus difíceis raciocínios. Enojada de minhas prolixas divagações. O internamento trouxe somente o ignóbil. E é exatamente esse reles acontecimento que me trouxe de volta. Os sete dias que me puseram em clausura são absoluta reconciliação.

Há, neste instante, uma mente exaurida. Os versos são simples. Está acabada a preponderância enfadonha da erudição. Tornei-me, enfim, aura banhada em cachoeira. Glacial, é claro. Mas molhada em uma frieza rejuvenescedora para o meu olhar.

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Noctívaga

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São quase quatro da manhã e o inverno espantou todas as minhas folhas. Faz frio, chove, venta. É um desamparo tão característico, até vergonhoso. Beira a mesquinhez das imagens. Mas a descrição é verdadeira. Eu, curiosamente, preciso de gelo para aliviar minhas dores. E vivo o mais estranho paradoxo: se a neve cura meus músculos atormentados, porque o frio trata tão mal minha alma? 

Mas há o silêncio das quatro da manhã. Ele fez faxina nas vozes, nos problemas e nos bichos. Sua força é ingente. Poderia fugir com ele, se ele me quisesse para sempre em sua casa. Iria sem identidade, esqueceria meus filhos, abandonaria o marido. Iria nua, mente sem agasalhos, pés descalços. Ah, se esse silêncio me desejasse também!

Estou inerte, esquecida no quintal da minha casa. Uma tristeza encharca o banco no qual estou sentada. Esse pedaço de madeira me suporta. Aninha-me nos braços. Incapaz estou de ver as estrelas. A lua está escondida por um céu cor de terra. Meus amigos vivem seus cotidianos, emaranhados de tarefas e compromissos. Só a noite tem me feito companhia.

A necessidade de escrever é maior nessa hora. Desde rebenta assim fui: trocando os horários da normalidade. Parece a mim que o dia não espanta somente os vampiros. A poesia fica escondida sob o sol.

Os minutos das manhãs me são longos, uniformes, óbvios. Caminho por eles de muletas. Temo encostar os dedos em suas gélidas faces. A luminosidade encobre uma rigidez característica dos períodos ensolarados. Porque o calor não lhes pertence, é empréstimo beneficente do astro rei.  

Os caminhantes estão enforcados nas gravatas. As senhoras com cheiro de almoço apressam o passo. Parece que a música foi calada pelos escritórios e carros. E há uma algazarra desarmoniosa, inquietante, estúpida. O tempo nascido em claridade tem gosto de função fática. Traz em si a banalidade das conversas no elevador. Queima minha língua e as minhas palavras: eu só discorro quando o crepúsculo invade as corujas. A minha escrita dá-se no intervalo dos pássaros. Inversa aos estereótipos e chavões, são galos que anunciam o meu repouso.  

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Holocaustos escolares

palmatoria

Hoje deixo entre parênteses, suspensa no balanço das crenças, a protagonização humana. Meu sangue corre pela filosofia da escolha, sim. Abro meu texto pedindo perdão. Porque estou prestes a trair. Agradeço a religião eleita com paixão, antes de dar o beijo na testa. Amada filosofia, entreguei-me, esta noite, às limitações da sua sapiência. Eu sei de cor tantas lições que consigo ouvi: a capacidade inerente a cada ser humano de traçar seu próprio caminho; a nossa encarnação de decisões; nada em nós é prejudicado, a não ser por nós mesmos, etc.  

No entanto, a coexistência com os demais seres pode influir em nossas jornadas. Confesso, enviuvada: há em nós uma necessidade do outro. Não somos tão principais como almejamos, nós, atores dos palcos azuis. Existe tanto por detrás das cortinas. Pais, amigos, amantes, mestres. E os últimos são meus eleitos. Não quero discorrer sobre os sábios, é óbvia sua influência. Tenho o ímpeto de falar sobre os maus professores, os traumáticos em nossas vidas. Eu te imploro com voz tímida: Fenomenologia, você aceita dizeres vitimizados? É porque desvendei certos movimentos aos quais somos títeres. Infelizmente nem toda a nossa educação é depurada.

A falta de didática pode sim corroer nossos traços de genialidade, se não tivermos a alma blindada. Uma autoestima em clausura, interna e segura de suas próprias vocações. Pois se existir alguma espécie de dúvida, as habilidades podem estender o lenço branco e fugir das nossas carnes.  

Sei disso porque outra noite debulhei-me em lágrimas. Semanas atrás, vítima – não concebo outra palavra, peço-lhe irregováveis desculpas – vítima da estupidez mais mesquinha, da imundície mais institucionalizada, da soberania dos títulos.  

Eu, menina entusiasmada, tagarela, nervosa. Tanta imaginação! Quantos escassos vasos permissivos do transbordar. Quando aluna, tudo em mim é belo. Imersão em atenções intuitivas. Ideias pululantes, embriagadas de originalidade. Ah, as célebres respostas que deixei de dar, por arredia insegurança.

Lições de casa sempre me foram desafiadoras. Nunca ficar no lugar comum, nunca apresentar o que o mundo todo já fez. Inovar. Estou certa de que há em todos nós um visionário. Um matador de clichês. Um ser séculos a frente do seu tempo. E todos os meus estudos são banhados por essa doutrina.

Assim, vejo o pensamento saltitante. Ele esperneia, entorna mil bússolas. Não me é indicado caminho algum, apenas a febril convicção. Fecundar livre, magistral. Correr os terrenos, desbravando-os. Cobrir-lhes em virgindade. O labirinto acadêmico, cruel e monstruoso. Esconde demasiados atalhos nus.

E havia um trabalho muito enfadonho para o mestrado. Pousei meus dedos sobre as teclas. Busquei sustentação criativa, não queria algo semelhante com nada. Procurei nos céus um auxílio. De repente, aparece a mim uma bailarina. Inaugurou-me o entardecer das frases. Instaurou passos em sobriedade. Penteou os autores que haviam sido objetos de estudo, antes enrolados por inúmeras novidades apreendidas. Conduziu-me pelo texto-dever-de-casa. Quanta excitação eu vivi, ao desvendar novas faces daquilo que parecia maçante e hostil. Fiz dele uma engenhosa brincadeira. Porque  toda inteligência é digna dos infantes. Só a criança doma os leões da escola. Há uma grandiosa facilidade em amansá-los. Pequena idade dos dentes de lente. Aquela que torna quaisquer limitações – cruéis devaneios da aprendizagem – sucumbidas dissidências.

Os regentes da orquestra, os docentes, devem ter muita sensibilidade. Retirar o melhor. Nunca negar a produção artística do discípulo. Guardar as empoeiradas palmatórias. Claro que se deve ter a memória ancestral. Contudo, os pensadores antes de nós também tinham sonhos de futuro. E por isso permanecem na bibliografia obrigatória.

Assim vislumbro como deve ser a claridade da sabedoria. Olhar terapêutico, nunca ditatorial. Jamais mapa com tesouro acertado. Peça teatral, interativa da alma, é assim o meu tutor. Aquele que inevitavelmente molda. Todavia, nele o medo também reina – o não saber! Inesperada solidão lhe acontece. Dá as trêmulas mãos ao ser supostamente desprovido da luz. Entra no seu jogo criativo. Aprende até mais, pois novos focos são iluminados. A pureza primeira é aula magna.

Educação sempre me foi isto. E não aceito a vergonhosa designação do discente, criatura supostamente vinda das trevas. Assisti aos professores com as cabeças – sim, porque tenho mais de uma – em meticulosos ângulos. Retas. Estupefatas, ansiosas, lívidas por ensinamentos. Odes que guardei em caixinhas de música. Os mestres sempre me foram caros. E nunca me decepcionei ao encontrar suas humanidades.

Entretanto, meu adorável professor humilhou meus dons. Nada percebeu. A futurista visão das minhas palavras. Disse a mim que, apesar de esperto, meu texto não continha o ululante. Eu praticamente o havia provocado. Insinuei superioridade.

Sei que meu pranto não mereceu o crítico literário. Mesmo assim, afoguei-me. Entupi as narinas por incessantes e injuriadas lágrimas. Disse meu pai: “É só mais um guia universitário, desses que temos de suportar”.

Não é. Protesto! Um professor deve agir como jardineiro onírico. Impossibilitado de maniatar os exóticos verdes. Uma galáxia toda pode empecer, caso seja brutalmente assassinada pelas raízes. Esbagoar frutos extintos em prol da tradição? Está jubilado de minh’alma. Aceito somente pensar que seus ossos estão enferrujados, gastos. Sua vida deve ser insatisfeita, já que está acorrentada a valores morais ultrapassados.

Chorei, débil doutor, não pela minha medíocre nota. Não por mim. Não por mim. Sou tomada em altruísmo. Quantos jovens artistas o senhor esmoreceu? Quantos holocaustos aguentarão seu colo?

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O Silêncio e o Segredo

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O silêncio é sobretudo segredo. Seu corpo é feito daquilo que não se pode descrever, dissertar, discorrer. O silêncio nos é inacessível, na diária comunicação com o outro.

No entanto, quando se trata de comunicação literária, talvez exerça o papel principal – a entidade que verdadeiramente expressa. Pois a mudez é a espinha dorsal: tanto no trabalho do escritor, como na perplexidade de quem o lê.

Para captar as belas imagens presentes no Cosmos, é preciso calar-se. Ao organizar com rigor as ideias e ritmos presentes na configuração da imagem poética, é necessariamente em quietude que os dedos do criador podem sonhar:

“Há também poetas silenciosos, silenciários, poetas que primeiro fazem calar um universo excessivamente ruidoso e todos os fragmentos da tonitruância. Ouvem, também eles, o que escrevem no momento mesmo em que escrevem, no moroso compasso de uma língua escrita. Não transcrevem a poesia, escrevem-na. Que outros ‘executem’ aquilo que criaram na mesma página branca! Que outros ‘recitem’ no megafone dicções de aparato! Quanto a eles, saboreiam a harmonia da página literária na qual o pensamento fala, a palavra pensa”.  (Gaston Bachelard, 2001)

O autor invoca a fundamental importância das forças que não pronunciam, mas que movem os afectos de maneira igualmente humana. Sendo assim, aquilo que não fala jamais pode ser apreendido como falta, desvio, erro nos encontros entre o emissor e o receptor. Na Literatura, as vozes silenciadas são veias condutoras de sentidos.

Quem possui a árdua tarefa da leitura também conhece profundamente o vazio dos ruídos. Há a surpresa de um entendimento. Um autor que alcança a alma consegue em seu leitor o indizível. É um belo paradoxo: através de palavras, aceder ao inefável. Quantos de nós já não nos encontramos emudecidos, após o mergulho em páginas que desanuviam nossos âmagos secretos?

Muitos escritores foram hábeis a olhar o silêncio e transportá-lo para a linguagem literária. Alguns nos entrelaçam sublimes, quase chegando ao inaudível, quase entregando à escrita o vazio fértil sentido por um leitor atento:

 “Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te alcançar.

É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é vida. Ou neve, que é muda, mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve”.  (Clarice Lispector, 1998)

 

Apesar da capacidade inexorável de Clarice Lispector – ela nos põe em quietude e mansidão – até mesmo a ela é impossível chegar a uma clara fundamentação  da impronunciável sensação que toma conta dos leitores. O silêncio de quem lê não está na comunicação do livro. É qualquer coisa que remete ao cósmico, ao vácuo, às profundezas marítimas. 

A meditação literária apodera-se de nós como imensas asas brancas. Eleva o espírito, antes tagarela. Nenhuma obra está acabada, ela se renova a cada vez que é lida: “As palavras pertencem metade a quem fala, metade a quem ouve” (Montaigne, 1592).

E é nesse espaço misterioso que se abre, magistral sobre os olhos, dilacerante sobre as cordas vocais, onde se pode buscar alguma resposta. O que existe na escrita que torna também protagonista seu expectador? Quais são os movimentos inertes que proporcionam uma silenciosa abertura no coração de quem reconhece, uma a uma, as palavras tingidas no papel? Fernando Pessoa (1888-1935) oferece uma face da inaxiomática solução:

“Nenhum de meus escritos foi concluído; sempre se interpuseram novos pensamentos, associações de ideias extraordinárias, impossíveis de excluir, como o infinito como limite. Não consigo evitar a aversão que tem o meu pensamento ao acto de acabar.” (Fernando Pessoa, 1986)

Impossibilitada de ter um fim, a literatura é muda: tanto para quem a desvenda – nunca através da passividade televisiva – quanto para quem a desenrola. A comunicação é tão densa que não pode utilizar os sons, tal como a música. Porque toda imaginação em letras é envolvida pelo mistério primeiro, pela ausência de barulhos, pela explosão ancestral do universo que carregamos em nosso imaginário. Exactamente como acontece com o sigiloso crescimento dos vegetais.

“(…) a linguagem está sempre um pouco à frente do nosso pensamento, é sempre um pouco mais borbulhante que o nosso amor. É a mais bela função da imprudência humana, a jactância dinamogênica da vontade, aquilo que exagera o poder (…) Em quaisquer circunstâncias, a vida toma muito para ter o bastante. É preciso que a imaginação tome muito para que o pensamento tenha o bastante. É preciso que a vontade imagine muito para realizar o bastante.” (Gaston Bachelard, 2001)

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Patas de Aranha

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É. Seria improvável a mim iniciar qualquer devaneio com uma afirmação tão brutal como essa. Contudo, o “é” materializa-se como a única estrutura plausível. Porque se há permanência nesta vida, ela reside na música. Só a música é. A instantaneidade, a imediatez, o sossego. A melodia sussura ao ouvido e a pele se enche toda pelo ar que se inspira.  

As coisas, quando são, geralmente perdem o sentido. O destino tem a cristalização como morada. Para endereçar alguma carta a ele, basta buscar um lugar permeado por imensos blocos de gelo. A sincronicidade é bicicleta. Sua imagem só existe em movimento. E a música é inquilina do espaço inimaginável que há entre os dois. Esquina do devir e do agora.

Hão de me perguntar: onde então habita a plenitude? Guardada no paradoxo do instante. Na linha invisível que difere o erro fatal da perfeição. Será que todo erro sonhou contos de fada? Nada sabemos sobre a sua concepção. Muitas vezes julgamos que não houvesse amor. Estupidamente a aberração que se produziu supera o investimento celestial do orgasmo. O erro só existe quando há testemunhas.

No entanto, quando pensamos em música, o inexato, o incorreto, a falha, tudo o que se refere ao imperfeito pode atingir estado de graça, na harmonia do todo. A fragmentação em si carrega a razão de ser. A totalidade é delírio aos olhos do espectador mais atento. O bom ouvinte sabe vislumbrar as nuvens de matéria interestelar que há em cada nota.

Ontem fui apresentada às mãos poderosas de Vicente Amigo. Maestria é pouco para definir os sons e as conjecturas que são preciosamente encarnados em sua música. A palavra se encolhe toda, as composições inundam a sala. Por isso digo que, das artes, só a música transcende. Só a música pode ser e estar. E o tempo se cala. Chronos sente a iminência. Não há mais meios de tergiversar. Ausculta em quietude. E finalmente reverencia o homem que rompeu a fronteira entre o hoje e o sempre.   

Eu estou pasma e silenciosa também. Fugidias letras vão rapidamente sendo filmadas por meus olhares. Atônitos olhos. Vejo duas aranhas frente ao meu corpo perplexo. São os dedos de Vicente. Tecem com exatidão os sentimentos mais difíceis. Atingem em seda aquilo que o escritor é incapaz de traduzir. E de repente o sofá, o piano, as janelas, Lisboa… o mundo todo está coberto pelo tear. As aranhas sucubem à própria criação. A alma do artista agarra-se ao instrumento. Apaixonada, digo adeus à dicotomia sujeito-objeto. O violão e o violeiro são apenas um, mais uma vez desrespeitando as regras da natureza.

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É preciso estar nu

buber1Na literatura infantil, encontramos histórias que contam o isolamento do ser humano como um factor de impossibilidade da vivência de sua própria humanidade. O ‘menino-lobo’ não é um menino, mas um lobo em corpo de menino. Sendo assim, podemos facilmente chegar à conclusão de que se experimenta a humanidade quando entramos em contacto com outros seres humanos. O ‘eu’ só existe na relação, nunca retirado da presença. Nós nos consideramos pessoas ao incorporarmos verdadeiramente a noção do diálogo.

Essas palavras são validadas pela obra e pensamento do filósofo austríaco Martin Buber (1878-1965). Parece-nos simples e óbvio, a princípio. É claro que só vivemos na relação com os outros! No entanto, muitas vezes, experimentamos outro conceito de Buber: a relação ‘eu-isso’.

Por ‘eu-isso’, Buber caracteriza: “O EU da palavra-princípio EU-ISSO, o EU, portanto, com o qual nenhum Tu está face-a-face presente em pessoa, mas que é cercado por uma multiplicidade de “conteúdos” tem só passado, e de forma alguma presente. Em outras palavras, na medida em que o homem se satisfaz com as coisas que experiencia e utiliza, ele vive no passado e seu instante é privado de presença. Ele só tem diante de si objectos, e estes são fatos do passado”. (BUBER, 2001, p.14).

O autor nos mostra como acedemos ao mundo com base na experiência e utilização. Dessa forma, deixamos que os outros se constituam como meros objectos, capazes de serem utilizados por nós. A utilidade nas relações impede que exista o encontro. Quando eu penso naquilo que posso usufruir ao me relacionar, acabo por não enxergar com clareza o que está do outro lado. Não se vive, na relação eu-isso, a alteridade. O objecto, pois, contrapõe-se à presença. É descrito, lembrado, representado, reproduzido, nomeado, classificado, isolado, analisado, decomposto. O autor ainda vai além:

“Eis uma verdade fundamental do mundo humano: somente o ISSO pode ser ordenado. As coisas não são classificáveis senão na medida em que, deixando de ser nosso TU, se transformam em nosso ISSO. O TU não conhece nenhum sistema de coordenadas.” (BUBER, 2001, p.34).

Quando pensamos nas actuais propostas de multiculturalismo e Globalização, imediatamente devemos repensar Buber. Embora tenhamos dado passos largos em busca da compreensão das demais culturas que habitam o planeta Terra, através dos media electrónicos, por exemplo, em inúmeras ocasiões estamos a usar a palavra princípio ‘eu-isso’.

O suíço Jacques Hainard, antigo director do Museu de Etnografia de Neuchâtel, esteve em Lisboa para um colóquio sobre património imaterial. Corrobora, mesmo que sem nenhuma ligação directa com Buber, a utilização mascarada da diversidade cultural em tempos globalizados. Polémico e muito contundente em suas afirmações, o especialista em etnologia falou ao jornal Público (04/12/2008) sobre a problemática dos museus:

“Continuamos a ser nós quem decide o que é bonito e o que é que tem valor”. Para ele, o Ocidente também decide, através da farsa, que não quer lembrar-se do colonialismo: “Não se fala nisso, esquece-se, e a ideia passa a ser a de fazermos multiculturalismo, o diálogo entre as culturas. (…) Parece-me muito político e muito superficial. Não é fazendo música de outros países e comendo cozinhas específicas que nos compreendemos melhor. Talvez passemos por um bom momento, mas ficamo-nos por aí. Não acredito que esse tipo de manifestações seja muito profundo. Servem para termos uma boa consciência, mais nada. Para mim, a qualidade de uma boa etnologia é construir uma distância crítica e dizer precisamente que é muito difícil compreender o outro”.

O que vemos em várias exposições, actualmente, é um empilhar de objectos inanimados. Não há uma narrativa por detrás das paredes. Embora a iluminação seja perfeita, o objecto não entra em nosso imaginário. Não sentimos aquela civilização com nossas almas. Para Hainard, os museus são contadores de história: “O museu é um dicionário das culturas humanas. Os objectos são palavras e com eles é preciso construir um texto. Pôr objectos uns do lado dos outros não me interessa. Como aquelas exposições em que mostram uma estátua com uma placa que diz ‘Homem em pé com uma lança na mão direita’. O que é que isto me diz?”.

E não é apenas nas exposições desenhadas ao bel-prazer dos etnólogos que a palavra princípio ‘eu-isso’ se instaura em nosso quotidiano. Temos um vasto conhecimento utilitário. Podemos pesquisar todas as informações referentes a quaisquer culturas que povoam o planeta. No turismo, somos viajantes privilegiados. Podemos nos organizar e traçar os roteiros completos. Não obstante, as viagens que acabamos por fazer dizem respeito à confirmação. As fotos que vemos em nossas árduas buscas pela Internet se materializam diante dos olhos. Os monumentos ganham as cores. Os parques, as esquinas, os cafés onde se reuniam famosos poetas e intelectuais dos séculos passados estão ao alcance. Mas não nos permitimos caminhar pelas ruas, à procura do inesperado. Não mergulhamos nos esconderijos que se apresentam para nós, quando nos perdemos numa cidade.

A Globalização é uma possibilidade real de compreensão do outro. Contudo, a sociedade actual é líquida e ávida por novidades. Cada vez somos mais voláteis e imediatistas. Superficiais. Nossa ânsia de conhecer o maior número de pessoas, países, museus, comidas típicas, músicas regionais, literaturas locais é imensa. A profundidade é alheia à rapidez. É estrangeira ao tempo que dispomos para submergir em profundezas das infinitas culturas.

Devemos voltar a Buber para perceber o que poderia ser chamado de comunicação intercultural. O cerne da palavra princípio ‘eu-tu’. O ensinamento de Buber a nós dá-se na impossibilidade de classificarmos o outro. Os preconceitos devem ser postos entre parênteses:

“Entre eu e tu não se interpõe nenhum jogo de conceitos (Keine Begrifflichkeit), nenhum pré-saber, nenhuma representação; a própria memória se transforma no momento em que passa dos detalhes à totalidade (passa na unidade da presença). Entre o Eu e o Tu não há fim algum, nenhuma avidez ou antecipação (Keine Vorwegnahme). Todo meio é obstáculo. Somente na medida em que todos os meios são abolidos, acontece o encontro”. (BUBER, 2001, p. 13).  

Talvez seja demasiado utópico. O encontro suspenso no ar, desprovido das nossas ideias pré-concebidas. Encontrar-se sem pressupostos ou idealizações. Caminharemos milhares de desertos até essa sensibilidade ser alcançada. A Globalização pode até nos levar até este tipo de relacionamento. Há infinitos percalços nesse processo, não há dúvidas. O outro, por vezes, ameaça nossas convicções, valores, crenças. O estrangeiro é aquele que nos põe em xeque. Mostra-nos que os axiomas estão mortos. Escancara nossas feridas. Guerreamos quando discordam de nós.

A verdade, perto do outro, fica ténue. Todavia, se desejarmos tocar alguma forma de sabedoria, deixemos que outras culturas, outras línguas, outras histórias se apropriem de nós. Não como objectos de apreciação. Nunca como ISSO. O espírito precisa estar nu. E toda nudez remete à nossa fragilidade ontológica.

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Anuência

Esqueço-me, por vezes, a inesgotável e inaudível beleza das tuas madrugadas. Silenciosas. Sinto-me envergonhada, Lisboa, por querer tanto de ti e de tão pouco me doar. Insone, entorpecida, descabida… Não és tu, sou eu. Eu, este ser tão carente e tão solitário. Eu, repleta de perguntas que sempre voltam às mesmas interrogativas inexistentes. Eu, analfabeta do âmago de minha alma.

Peço-te perdão por todo o meu desdém. És linda! Tens o enorme coração cravado na Praça do Comércio, que deixa a noite com esplendidez. E como o coração é grande, ele me inunda ao pé da Avenida Liberdade, principalmente com a vista inconfundível de meu novo trabalho, à margem da esplanada, no Cinema São Jorge. Há um rio, digno de aorta. Um imenso oceano capaz de levar os pensamentos além-mar. Deixa imensas saudades nos olhos, quando procuro verdadeiros amigos. Periféricas estrelas apontam o triste Cristo Rei, fruto do descuido e da confiança perdida. Um dia foste permeada pela crença. Hoje há em ti a incômoda incerteza. Um não-poder-partilhar-segredos. Choro, junto contigo, quando há chuva. Sinto o teu vento a cortar-me sem piedade os lábios e o espírito intransigente.

Há dias em que acordo – ressoando as palavras de um amigo quase português – com tanto medo! A cama tem tentáculos. Firmes, rijos. Possuo uma estranha sensação. Gostaria de deixar minha raiz, colocar de lado minha nação – nação que com robustez idolatro. Cresci, ó cidade, rodeada por negros, pobres e anões. Nunca os diferenciei pela pele, pedigree ou altura. Não me peças para o fazer. Incapaz me torno, perante ao preconceito que rompe. A minha boca é pouco para descrever minhas dilaceradas pétalas. Cá sou cristal.

Contudo, pela incrível leveza dos diálogos aparentemente infrutíferos, percebo a soberania de escrever e de fazer terapia com as minhas letras. Agradeço a herança primordial – e tua. Ai, as lindas palavras de tua língua. À procura não estou de teus cidadãos plangentes. Minha jornada é canhestra. Existe um eterno ribombo dentro dos meus sentimentos. Dona de bálsamos, ungências e feridas. Mas dona, apenas eu e mais ninguém.

Não me deites fora. Digo isso para ouvir o conselho vindo de minha inteligência racional. Pude me deitar fora em muitas ocasiões. Na lixeira propriamente dita, em diarréias incolores, nos braços frígidos de um homem sem paixão, nos copos do Bairro Alto.  Recôndita. Minha face está enfim liberta. Contorno. Sorrisos impronunciáveis. A descoberta da vinda! Asperamente estou a retirar o curativo. O sangue não está mais grudado no branco e gigantesco pano. O sangue se calou. Não há renúncia da morada minha. Pinto em nanquim as esquadrias da percepção sublimada. Adoro-te. Os paroxismos estancados, por fim. O latejar que revive apenas ouvidos atentos. As orelhas fartas das mesmas ladainhas. Ladainhas imaginadas pela minha pobreza de sentidos.

Amanhã, quando o corpo estiver descansado, irei fazer uma visita enamorada em tua presença. Exaltarei as cores do sol que só pertencem a ti. Como as janelas dispostas do sótão, aceitarei os raios azuis e amarelos. Posso sonhar ao teu lado. Recolher-me no frio de teus porões também, porque a vida é feita de uma suculenta umidade. O negrume da lama e o calor do nosso pacto. Enoveladas pela sagrada, esfuziante conversação íntima. Eu e tu, Lisboa, anuentes. Tu em mim. Alagas em saliva, fragmento após fragmento, as horríveis nódoas de minhas roucas cordas vocais. És a mim um convite. Cerne meu. Órbita da missão. Nós duas, ambas inconclusas.

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Remanso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sempre me senti dona de uma esperteza inegável. Desde pequenina, estava eu, de pijamas ou de tranças, metida nas conversas adultas dos amigos de meus pais. Todavia, hoje eu me olho e me sinto frágil. Precária. Capaz de entrever meus ossos esmigalhados, em um tilintar de segundos. Não sei de onde tirei a estúpida idéia de ser espevitada…

Hoje ouvi ondas e esbocei um imenso sorriso. Era apenas a máquina de lavar, companheira heróica da minha jornada. Pois é, estou viciada em limpar minhas roupas. E sei que isso tem total relação com a regeneração da pele. Lavar dá toda uma nova possibilidade para a roupa existir, sem vestígios de passado incrustados na superfície. E eu sou eternamente o vestido, a meia e a camisa.

Tudo me tem sido difícil e tudo me tem sido sozinho. Absolutamente por escolha irremissível de meu coração. Ou por altivez da minha alma. Temos conversado muito a respeito de minhas atitudes. Em conclusões não falamos, até o presente instante. Eu agradeço ao poder divino do ainda não, desta vez. Porque estar em contato com respostas faria com que me sentisse detestável. Seria capaz de enfartar o fenomenólogo coração que carrego atrás do seio.

A solitude, como me disse um dia um grande amigo de infância, é composta de solidão com plenitude. Miserável sou, ao não conseguir de forma alguma alcançar essa tranqüilidade. Tenho vivido dias e noites “de cão”! Aliás, o entendimento dessa expressão me é impossível de ser tocado. Meus dedos se recolhem, quando pensam nela. Os cães, ao não pensarem em si mesmos, vivem a reluzente euforia da ignorância. Só os humanos têm ciclos infelizes e, ao mesmo tempo, possuem a ousadia de não se esquecerem deles.

Sinto, cá, a perecibilidade das relações. Não, não aceito a insolente resposta de que meu tempo aqui é pouco e que em breve revisitarei a busca tão sonhada da amizade. É outra cousa que transborda de mim. Composta de falta mesmo, de não concernir, de insônia. Por vezes a insônia é bela: o dia anterior ao acantonamento, a conversa que inunda as conexões nervosas, o porvir e seu maravilhoso universo de acontecimentos sonhados.

A minha anipnia é outra: “não porque morresse ou me matasse. Mas porque me seria impossível viver amanhã e mais nada”, diria o mestre Fernando Pessoa, em minha preferida poesia.

Não durmo. À espera de compreender o sentido mais íntimo de minha estadia. Não durmo pois eu sei que o amanhã não me fará uma ínclita cozinheira. Não durmo pois meus amigos estão adormecidos dentro do meu abstrato desígnio. Sempre tive, mesmo nas áureas madrugadas estelares, muito medo do repouso. Porque a vida passa numa velocidade muito maior do que minha ânsia de vivê-la. Então eu bebo vinho e respiro enfim ares cor de rosa. Aguardo Deus, para que ele abençoe meu sono. Permita que eu prossiga este tão áspero e açucarado crepúsculo. Conceda-me a escrita, só mais uma vez.

 

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Da Transcendência do Real

 

 

“Todo conhecimento da intimidade das coisas é imediatamente um poema” – Gaston Bachelard

O caixão passa despercebido pela multidão, inerte pelas imagens paralisantes de uma televisão. Uma criança – pois a infância é menos distraída – pergunta aos pais: quem é o morto? O pai responde, sem tirar os olhos entorpecidos: “É a literatura, meu filho. Ela não tem mais lugar nesse mundo”.

Já nos anunciava Ray Douglas Bradbury, escritor da história que deu origem ao belíssimo filme de François Truffait “Fahrenheit 451” (1966) que a televisão nos deixaria órfãos do prazer literário. Embriagados pelo imediatismo dos clipes, em poucos anos não só deixaríamos de ler, como passaríamos a repreender aqueles que quisessem passar horas solitárias em companhia de um livro.

As palavras podem soar extremistas, ou mesmo absurdas. No entanto, é inegável a metáfora. Até mesmo nossas refeições são apimentadas pelo televisor. Dificilmente uma pessoa passa um dia sem ligar o aparelho. Postas de lado, as pequeninas folhas tornam-se cada vez mais amareladas, esquecidas na cabeceira. O livro se tornou uma espécie de adorno, mais um item indispensável na decoração de uma morada.

E eis que surge um novo Titã, no duelo pela comunicação: a Internet. Os media electrónicos, presentes há muito pouco em nossa sociedade, vieram incomodar o sono tranqüilo do Gigante Televisivo. A rapidez das informações prestadas, a velocidade da divulgação, a criação de comunidades virtuais têm povoado o imaginário colectivo e dado novos rumos ao modo de transmitirmos mensagens.

Como não devemos discutir o que é inevitavelmente obsoleto – os perigos e fantasmas que rondam as redes virtuais – há de se pôr em questão as novas formas que a Cultura pode vivenciar, a partir da chegada dos meios não reais, não concretos de nos comunicarmos.

Hermano Vianna, antropólogo brasileiro especialista em Cultura, criou em fevereiro deste ano um site com o objetivo de descentralizar o conhecimento e divulgar as manifestações culturais dos estados do país. O site (www.overmundo.com.br) tem seu nome inspirado em um poema de Murilo Mendes:

“(…) Ninguém ampara o cavaleiro do mundo delirante,

Que anda, voa, está em toda a parte

E não consegue pousar em ponto algum.

Observai sua armadura de penas

E ouvi seu grito eletrônico. (…)”

Nas palavras do próprio idealizador, dada em entrevista à Folha de São Paulo, um conceito fundamental para a actualidade surge – a generosidade intelectual:

“O que há de mais legal na internet foi produzido de forma coletiva com o objetivo de disponibilizar informação. Eu me sinto sempre em dívida, pois como eu já usei o trabalho de outras pessoas, que botaram informações e músicas de graça [na rede]! O Overmundo é uma forma de pagar um pouco dessa dívida. É cafona dizer, mas as pessoas estão dispostas a dedicar parte do seu tempo ao bem comum. É generosidade intelectual mesmo.”

Este fundamento torna-se a essência das intervenções universais electrónicas. Temos a obrigação de nos apoderar dessa disponibilidade. Navegar os sites de música para destruir as imposições das gravadoras. Gritar ao mundo quais são os artistas a quem queremos doar nosso reconhecimento. Viajar pelos blogs e compartilhar as solidões com nossos semelhantes. Viver intimidades a milhares de quilómetros. E assim, vislumbrar a possibilidade da Ressurreição Literária. A literatura não só é mais uma de nossas artes. É matéria pulsante da construção dos nossos pensamentos. Nas palavras do sociólogo polaco Zygmunt Bauman:

“Aprendi a considerar a sociologia uma daquelas numerosas narrativas, de muitos estilos e gêneros, que recontam — após terem primeiramente processado e reinterpretado — a experiência humana de estar no mundo. A tarefa conjunta de tais narrativas era oferecer um insight mais profundo do modo como essa experiência foi construída e pensada, e dessa maneira ajudar os seres humanos na sua luta pelo controle de seus destinos individuais e coletivos. Nessa tarefa, a narrativa sociológica não era “por direito” superior a outras narrativas, pois tinha de demonstrar e provar seu valor e utilidade pela qualidade de seu produto. Eu, por exemplo, me lembro de ganhar de Tolstoi, Balzac, Dickens, Dostoievski, Kafka ou Thomas More muito mais insight sobre a substância das experiências humanas do que de centenas de relatórios de pesquisa sociológica. Acima de tudo, aprendi a não perguntar de onde uma determinada idéia vem, mas somente como ela ajuda a iluminar as respostas humanas à sua condição — assunto tanto da sociologia como das belles-lettres.”

O futuro, pois, pode brilhar novamente em nossas ideias. A revolução não palpável, a invasão do virtual no quotidiano pode ganhar formas mais bonitas e menos assombrosas. Temos a potência para utilizá-la em nosso benefício. O renascimento artístico deixa de ser latente. A cultura pode reinar, mais uma vez.  E especificamente a Literatura é uma necessidade nossa. Porque a realidade não existe, certamente. Nós a criamos todos os dias, ao lermos o universo com os olhares. Os escritores bem sabem disso. A eles é permitido transcender o irreal acesso ao conhecimento absoluto. A frase de Bachelard, posta no início deste texto, é enfim revelada. 

 

 

 

 

 

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