Arquivo do mês: agosto 2009

Paciente fui eu

Video call snapshot 11

Socorro tem cinquenta e poucos anos. É preta. Pobre. Chega quase a ostentar o sofrimento através de suas rugas. Nascida em um manicômio judiciário, pouco sabe de sua mãe. Pouco mais que nada. Foi adotada aos seis meses de vida por um casal que trabalhava no depósito de loucos.

Lembra-se muito pouco de sua infância. Seu pai morreu quando ela era bem menina. Sua mãe na pré-adolescência. De sua família sobraram os irmãos. Eles a acolheram por não terem outra alternativa. Um de seus cunhados a tratava carinhosamente por ‘negão’. Criaram-na como se criam os velhos – assim sem paciência, contando os minutos para que a vida se encarregue da última possibilidade de todos os mortais.

Aos vinte e seis, Socorro tentou contra sua existência. Errou na dose. Fracassou. Por volta dos quarenta viu a si mesma como portadora de hepatite C. Qual não seria a ironia se ela nunca pudesse saber onde a teria pegado? Será que a doença veio como alimento, através de seu cordão umbilical? De que importa a memória? Ela já estava acostumada com o esquecimento.

Aos cinquenta sua alma pediu as contas. Socorro destruiu impiedosamente sua morada. Arrancou o carpete e as cortinas. Rasgou suas roupas e as defenestrou. Destruiu seus colares de miçanga com ódio. Cortou os fios de telefone. Qual contato poderia ela ter com esse mundo exterior?

Ah, tanta bipolaridade pôde ser vista em sua possessão!!!

Socorro contou sua história para muitos. Era impossível não se comover com tamanha tragédia. No entanto, a tragédia jamais a ajudou ou lhe deu abrigo. Talvez não fosse esse o caminho a ser percorrido.

Socorro tem cinquenta e poucos anos. Está sempre maquiada. Cortou os cabelos sarará. Outro dia estava investigando qual problema Deus teria com tatuagens. Não o encontrou e decidiu gravar em sua pele a marca do seu segundo nascimento.

Afugentou, a duras penas, os fantasmas que rodeavam sua casa. Socorro, aliás, mudou-se. Não de endereço propriamente dito, mas de olhar. Agora ela se encontra numa bela mansão, grávida de sonhos. Cinquenta e poucos.

Há um mês sentiu saudade pela primeira vez. Foi lindo, segundo ela. Uma escova de cabelo, uma laje na Lapa, bela vista da cidade. Os olhos encontraram a salgada lembrança. Não pela primeira, mas um dos poucos instantes marejados. Sorriu.

Hoje Socorro descobriu que foi o orgulho que lhe possibilitou a sobrevivência. Que milagre essa vida, diz ela. Percebeu que as lágrimas guardadas, a nunca-saudade, os cacos apenas pelo lado de dentro a tornaram capaz de continuar. Ficou maravilhada! O passado deixou de ser imutável. As dívidas consigo mesma vão, pouco a pouco, sendo quitadas. Quantas lembranças ainda não preparam seus lábios?

Lei tem cerca de mil anos. Branco, olhos verdes. Família gigante. Feliz. Sua vida nada teve, tem ou terá a ver com a de Socorro. Provavelmente ele nunca encontrará no sorriso dela, familiaridade. Uma pena.

Estranhamente, a luminosidade de sua boca foi reconhecida hoje. A mesma luz de mil anos foi acesa novamente. Outro corpo. Outra história. Essa vontade de ser feliz, essa simplicidade apenas destinada aos sábios. É inebriante.

Hoje, ao ouvir Socorro contar meninices dos cinquenta, lembrei. A sala foi invadida por milhares de átomos com gosto de mexerica. Fiquei inerte.

E a poesia, como acontece sempre, obrigou meus dedos a agradecê-los. Era uma questão de vida e morte manifestar minha gratidão. Obrigada por fazerem parte da minha vida. Eu, com meus vinte anos. Provavelmente na primeira existência – as linhas são fracas na minha palma da mão.

E eu, hoje, envelheci. Toquei meus dedos na doçura dos mil e dos cinquenta. Estou suspensa na divindade dos sorrisos. Perplexa, decidi. Quero muito ser feliz.

PS: Socorro é um nome fictício. Lei não.

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