Arquivo do mês: março 2011

Não há profundeza imemorial

Nenhuma intimidade é navegável pelos olhos…

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“Tudo o que não invento é falso.”

Manoel de Barros in Memórias Inventadas

CASO DE AMOR

Uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo.

Esta que eu ando nela agora é por abandono. Chega que os espinheiros

a estão abafando pelas margens. Esta estrada melhora muito de eu ir

sozinho nela. Eu ando por aqui desde pequeno. e sinto que ela bota sentido

em mim. Eu acho que ela manja que eu fui para a escola e estou voltando

agora para revê-la. Ela não tem indiferença pelo meu passado. Eu sinto

mesmo que ela me reconhece agora, tantos anos depois. Eu sinto que ela

melhora de eu ir sozinho sobre seu corpo. De minha parte eu achei ela bem

acabadinha. Sobre suas pedras agora raramente um cavalo passeia. E quando

vem um, ela o segura com carinho. Eu sinto mesmo hoje que a estrada é

carente de pessoas e de bichos. Emas passavam sempre por ela

esvoaçantes. Bando de caititus a atravessavam para ir ao rio do outro lado.

Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela:

um coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós.

Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo:

deixe deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai

desaparecendo igual quando carlitos vai desaparecendo

no fim de uma estrada…

Deixe, deixe, meu amor.

SOBRE IMPORTÂNCIAS

Um fotógrafo-artista me disse outra vez: veja que pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar. Falou mais: que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. Assim um passarinho nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que a Cordilheira dos Andes. Que um osso é mais importante para o cachorro do que uma pedra de diamante. E um dente de macaco da era terciária é mais importante para os arqueólogos do que a Torre Eifel. (Veja que só um dente de macaco!) Que uma boneca de trapos que abre e fecha os olhinhos azuis nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que o Empire State Building. Que o cu de uma formiga é mais importante para o poeta do que uma Usina Nuclear. Sem precisar medir o ânus da formiga.  Que o canto das águas e das rãs nas pedras é mais importante para os músicos do que os ruídos dos motores da Fórmula 1. Há um desagero em mim de aceitar essas medidas. Porém não sei se isso é um defeito do olho ou da razão. Se é defeito da alma ou do corpo. Se fizerem algum exame mental em mim por tais julgamentos, vão encontrar que eu gosto mais de conversar sobre restos de comida com as moscas do que com homens doutos.

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Ser “sincera”?

Clarice Lispector – trecho de “A paixão segundo G.H.”

E é só o que posso dizer a meu respeito? Ser “sincera”? Relativamente sou. Não minto para formar verdades falsas. Mas usei demais as verdades como pretexto. A verdade como pretexto para mentir? Eu poderia relatar a mim mesma o que me lisonjeasse, e também fazer o relato da sordidez. Mas tenho que tomar cuidado de não confundir defeitos com verdades. Tenho medo daquilo a que me levaria uma sinceridade: à minha chamada nobreza, que omito, à minha chamada sordidez, que também omito. Quanto mais sincera eu fosse, mais seria levada a me lisonjear tanto com as ocasionais nobrezas como sobretudo com a ocasional sordidez. A sinceridade só não me levaria a me vangloriar da mesquinhez. Essa eu omito, e não só por falta do autoperdão, eu que me perdoei tudo o que foi grave e maior em mim. A mesquinhez eu também a omito porque a confissão me é muitas vezes uma vaidade, mesmo a confissão penosa.

Não é que eu queira estar pura da vaidade, mas preciso ter o campo ausente de mim para poder andar. Se eu andar. Ou não querer ter vaidade é a pior forma de se envaidecer? Não, acho que estou precisando de olhar sem que a cor de meus olhos importe, preciso ficar isenta de mim para ver.

 

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