A igreja profana

A noite estava gelada. O vento atravessava os cem quilômetros por hora. Quase nenhum ser humano saia às ruas. Eu, que não carrego a normalidade nas veias, jamais me importei com a magnitude do frio. As chuvas, invernais, causavam-me muito mais desespero. Em partes porque, naquela época, meus pés escorregavam nas calçadas. Não cair era um trunfo diário.

Que saudades daquele novembro, 2008!

Matilde estava se despedindo de Lisboa. Depois de dois meses, concluía o intercâmbio. Ela, formada em Letras, tradutora, conheceu Clarice Lispector pela minha voz. Tive uma tremenda sorte de a ter cruzado em minha breve estadia na cidade. Eu havia alugado o quarto, em uma vila operária, na travessa das Recolhidas, ao pé do Campos Mártires da Pátria.

Quando adotei a casa, não fazia ideia das personagens que chegariam depois de mim. Primeiro veio o Wagner, um paulistano de quarenta anos, solteiro, bizarro. Nunca tinha morado sozinho, como eu. Era fissurado em aeroplanos. Acordava às seis da manhã para colocar seus brinquedos a voar. Não fazia a menor ideia de como se cozinhava. Eu, que me considero uma péssima cozinheira, compadecia-me da sua inabilidade. Com receio, também, das suas esquisitices. Trancava-me, às vezes, no quarto, à espera que ele saísse. Ele insistia em contemplar a solidão.

Matilde, porém, chegou em um dia azul, travestido de primavera. O mais pequeno dos três dormitórios estava à sua disposição. Ela não falava muito português. Cabelos negros e invejáveis, um sorriso misterioso. Ar de realeza. Vinha da Galiza, onde as línguas se misturam e se esquecem de pertencer a territórios. Tornamo-nos amigas e confidentes, desde o primeiro cumprimento.

Uma dor inenarrável me engolia, com a partida dela. Para além da ausência, há qualquer cousa que nos toma, quando perdemos a companhia, nessa trajetória inexplicável que permeia o estrangeiro. Pensei, então, em fazer uma surpresa e levá-la ao sítio que me foi recomendado, por inúmeros residentes.

Alfama.

Passamos três horas à procura. Xinguei todos os deuses e reclamei por sete vidas, naquela espera. Eu, que odeio esperar, que odeio me perder. Quando finalmente desistimos, chegamos. Obviedades de quem precisa curar as cármicas demoras.

A porta era ínfima. O entorno, silencioso. Será que haveria o tesouro prometido, atrás daquilo? Batemos. Um homem muito estrábico, muito mais estrábico que a conjunção de todos os existencialistas, atendeu. E nos deixou entrar.

Um universo mínimo abriu-se, à nossa volta. Mesas quadradas e jogadores de xadrez. Senhores com guitarras portuguesas e vozes de fado. A dona, atrás do bar, antipática, bravíssima, parecia uma entidade de outro planeta, mais delicado.

Alguns bêbados se juntaram às cantorias e o mínimo se transformou em cósmico. O barulho, no entanto, desfavorecia o habitat. Teriam que fechar, pelo medo às denúncias de vizinhos. Eu só agradecia por ter acessado o lugar mais belo que existia no mundo.

Às três da manhã, embalados pelo vinho e pela música, fomos convidados a nos retirar.

A Lua acalmou os ventos.

Os antigos frequentadores nos convocaram, então, a saborear o fim da noite, na igreja:

– Na igreja? – disse, com profundo pavor pelos instantes futuros.

– Não é uma igreja usual, podes confiar em mim. Moro ali ao pé – retrucou Jorge, o fadista vadio, surpreso com a minha indignação.

Passamos pelo Beco da Maria da Guerra, antes de subir as escadas. Uma esplanada imensa, branca, repleta de árvores e ancestralidades. O belo miradouro, encharcado pelo Tejo e pelos telhados encarnados.

A cruz, à esquerda, daquelas em que Cristo não reside.

Aos poucos, músicos foram chegando. Será que ouviram os chamados, indubitáveis?

Como é possível, meu D’us, uma igreja condensar essa malta dissidente?

 

Não houve santos, nem castidade. Apenas alma e poesia.

Saímos de lá às sete da manhã.

Exaustos.

Matilde apanhou o comboio. Eu fui trabalhar. Estarrecida de não ter comigo alguém que testemunhasse, uma vez mais, a surrealidade.

Quando retornei ao bar, na semana seguinte, sozinha, percebi que a igreja fazia parte do espetáculo.

Violões, guitarras, flautas, percussões, trompetes.

Ébrios, todos os amores e todas as sandices eram abençoados por Santo Estêvão.

Sem imagens, sem sacrifícios.

Pensei em escrever à Matilde, imersa em uma nostalgia inconsolável.

O amanhecer mais belo de toda a minha existência foi ali, no instante em que vi o profano acarinhar as estrelas.

Na parede, insuportavelmente virgem, os dizeres, pichados:

 

“É tão difícil

guardar um rio

quando ele corre

dentro de nós”.   

Jorge Souza Braga

Deixe um comentário

Arquivado em Textos meus

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s