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Quimeras de farol

“A minha solidão é maior que teu silêncio”, disseste-me, há pouco, com os olhos em dilúvio. Ah, Pedro, se tu soubesses como eu sei! A tua solidão nasceu do meu vazio, amor.

A tua avó sempre me disse que o mar me habitava, dentro da barriga dela. Eu, na felicidade estúpida, infante, nunca vislumbrei o óbvio: o mar é a nossa primeira morada, sempre. Não há humanidade sem o líquido ancestral, pois.

Embora eu já tenha te contado tantas referências sensíveis, tantas dores que me trouxeram à condição de poesia, talvez o mar as inaugure todas. Não há mundo antes das águas, Pedro. Todo silêncio prepara o estouro das ondas.

O mar mora dentro de mim, Pedro. Primeiro, nas minhas lágrimas de sal e comiseração. Em sonhos aquáticos, em dúvidas postiças, em serenatas de ressaca. Mora, filho, o júbilo pelos azuis, a estranheza frágil que me suporta, frente às mares.

Mas tu precisas saber que a mudez é o despertar da imaginação. Não existiriam tantas galáxias, dentro de ti, se não houvesse este surdo chamado para os teus próprios oceanos.

A Mamã também soube brincar de enclausurar a voz. Este exercício de contar as histórias para a alma. O abandono dos alardes é o berço dos mergulhos, meu querido. Tu, que querias ter nascido água para ressuscitar os meus naufrágios! Por que te pensas merecedor de cais, Pedro?

Pula com força nestes teus silêncios. Acolhe a efemeridade das tuas marés. Abandona esta súbita vontade de dizer, antes de tudo. A palavra, quando calada, reverbera nas vísceras. Não há poesia tagarela.

Dilacera-me te mostrar a solidão. Grandes são os desertos e tudo é deserto, diria Pessoa.  Mas são maiores os nossos sonhos, quando inauditos. Quando despertares para a grandeza das estrelas, tua dor se unirá ao Universo. Poderás, enfim, cantar quimeras de farol.

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E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.

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Foto de Bob Ferraz, amigo brasileiro que já possui seu heterônimo lisboeta na alma.

Álvaro de Campos – Fernando Pessoa

Saí do comboio,
Disse adeus ao companheiro de viagem,
Tínhamos estado dezoito horas juntos.
A conversa agradável,
A fraternidade da viagem,
Tive pena de sair do comboio, de o deixar.
Amigo casual cujo nome nunca soube.
Meus olhos, senti-os, marejaram-se de lágrimas…
Toda despedida é uma morte…
Sim, toda despedida é uma morte.
Nós, o comboio a que chamamos a vida
Somos todos casuais uns para os outros,
E temos todos pena quando por fim desembarcamos.

Tudo que é humano me comove, porque sou homem.
Tudo me comove, porque tenho,
Não uma semelhança com ideias ou doutrinas,
Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.

A criada que saiu com pena
A chorar de saudade
Da casa onde a não tratavam muito bem…

Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo.
Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração.

E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.

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Além da própria dor

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Na última fresta de luz que encoraja os crepúsculos a repousarem densos existe rigorosamente o horizonte. Num gole úmido de noite insone habita uma centelha de véspera. Na imensidão irreprimível de primeira página há um vazio iminente. E em todos os fenômenos mundanos parece que se pode encontrar um confim. Somente a humanidade consegue perceber-se relutante de fronteiras.

É óbvio que alguma tristeza se faz necessária para emergir as criações. O salpicar de lágrimas hesitantes certamente alimenta as transformações imprevisíveis da jornada. Contudo, há de haver qualquer incômodo ancestral, qualquer choro ontológico, uma espécie de velhice cósmica, caso queiras que as tuas obras superem as inverdades.

Homem feito aquém de tua própria dor! Quanta solidão é lançada de teus olhos, pálidos. Quantas nuances povoariam o teu sonhar, se deixasses uma amargura destrancada.

Mas tu estás só. Tu estás só porque queres ser mesquinho e, assim, não distribuis tuas incógnitas. Tua ira insiste em clausuras, enquanto mares cintilam há séculos as cores de tempestade.

O dilúvio nunca te foi morada, genuinamente.

Não enxergas além de tua própria dor. Dilaceras-te em cobardias nos discursos vitimados. Ao compadecer-te de ti mesmo, cais no esquecimento.

Ah, se ao menos pudesses ouvir a tua voz a recitar ladainhas!

À medida que teu lamento enrijece os músculos exauridos de comiseração, nada teu conduz à ressonância universal. Todo sofrimento confrangido extingue a si mesmo, aquietando precipícios.

Para viver aquilo que tu não viveste. E para não contar o que foi vivido. Ou para não relembrar o que se viveu; é, e ainda dói. É para isso que a arte nos foi sentenciada. Além da própria dor.

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A solidão poética

Miriam Portela 

NÃO DÓI NÃO

GRITA O POETA

OLHOS RASOS

VEIAS ABERTAS

FRUTO MADURO

A MATAR A FOME

DA VIDA.


NÃO DÓI NÃO

GEME O POETA

A LAMBER AS ÚLCERAS

COSTURANDO OS PULSOS

CORTADOS PELOS VENTOS

 

NÃO DÓI NÃO

MURMURA O POETA

OLHOS MÍOPES

A ACARICIAR AS RUGAS

DESENHADAS A CANIVETE.

 

DOEU, NÃO DÓI MAIS

ADMITE O POETA

O CORPO HIRTO

AS MÃOS INÚTEIS.

5/07/12

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O Presságio dos Adeuses

 

O abandono primeiro é a morte do silêncio. Antes do nascimento das cores fartas da aurora, são pássaros a anunciar o desvanecimento da noite. O sol, pois, é um mero coadjuvante na solidão arquetípica – escura – do poeta. Ah, quanta candura envolve os devaneios uterinos, na impossibilidade de adiar a despedida!

Manuel Bandeira auscultou – ouvido cósmico e maldito – os olhos à espera da carne. Ele estava certo: o olhar antecipa-se ao presente, premeditando inegáveis acontecimentos. Por qual razão se possui um órgão em tamanha desigualdade com o resto do corpo?

E assim aconteceu.

A última lucidez invadia a íris manhã de Carlos. Apressado – como deveriam ser os derradeiros – pôs seu sobretudo de lã marrom por cima do pijama quadriculado, calçou os tênis surrados com as solas quase atingindo a carne da terra; e desceu em direção à padaria.

Bebeu um café demorado, dando goles entorpecidos pela nítida claridade. Nunca havia gostado de presenciar o barulho dos ônibus daquela esquina, tampouco os transeuntes felizes, em plena segunda-feira. Porque, em entardeceres dominicais, estão fecundas todas as promessas. E brutalmente se esvaem, aniquiladas pelos pecados cometidos algumas horas depois. Segundas-feiras são fúnebres para aqueles que sonham.

Comprou o jornal, travestido de rotina. Nenhuma boa notícia permeava o universo. Sequestros, assaltos. Lixo sensacionalista. Mas o pior de tudo era saber que o jornalismo engolia seu epitáfio na assinatura de seus repórteres.

Carlos deu-se ao direito de não almoçar. As obrigações jaziam frente à sua escolha. Pensou no quanto se sentia privilegiado de ter aquele dia restante. Era azulado – porém frio – como são as miragens.

No fim da tarde, apareceu no armazém de vinhos. Lá todos o conheciam e o tratavam com certa estima. Ele desconfiava que fosse apenas o dinheiro depositado, semana após semana. No entanto, quais relações em sua vida não eram emolduradas pelo desconcertante viés das máscaras? Quando houve amor verdadeiro, clichê indigno da poesia?

Saiu de lá com duas garrafas caríssimas. E alguns maços de cigarros – contrabandeados – por terem sabor. Impressionante como até o gosto do tabaco incomoda a política execrável desses tempos.

Abriu a porta de casa. Duas longas voltas na chave, como era de costume. Parecia a primeira vez que aquela mania o acorrentava. Não, Carlos. Nunca mais duas voltas na chave, nunca mais o armazém, nunca mais o café expresso com a xícara manchada de batom da padaria barata, nunca mais saborear a doçura dos céus gelados, vertiginosos de julho.

À fumaça que insiste em sair da sua boca: adeus. Ao gosto frutado do vinho: adeus.

Os dedos estão trôpegos, é o inebriar da madrugada amolecendo os órgãos, exauridos. A saudade começa a arder nos olhos, anuviados. Quando a noite acaba? Como será o ontem, para o louco que se despediu da realidade?

Mário de Sá Carneiro, certa vez, disse a Fernando Pessoa (que acabara de confessar a sua loucura ao melhor amigo) que ele era ainda mais louco, pois não conseguia conservar nem os vícios. Enquanto o poeta maior maldizia seu apreço pelo álcool, como lhe dilacerava a incessante vontade de fumar, Mário de Sá Carneiro se queixava de ser tão louco, mas tão louco, que não tinha nem a organização de um viciado. Para termos vícios, Carlos, é imprescindível planejamento. E isto calcularia a normalidade de um ser humano?

Desculpe-me por invadir a narrativa. Entendo que a alma siga violenta, sonâmbula, quando é desperta subitamente por um cheiro antigo. Inocentes e libertos somos, por aromas de porão. Ah, inaudita memória que nos atinge e nos expulsa da falsidade ideológica, em posições fetais!

Todavia, Carlos, ao vestir-se de branco, sem mangas, você me abandona. Estou envolta em nós cegos. O presságio navega pelos olhos vazios, sedentos de inspiração. Também eu perdi minhas letras borradas de nanquim. Agora só consigo escrever sob as duras linhas da caligrafia, ordenadas, com destino traçado em obviedade. Nenhuma desistência traz a nobreza dos heróis.

As trilhas nunca amparam aquilo que não foi desbravado – a não ser em seus fins. Acessar o desconhecido, Carlos, submete-nos àquilo que não estamos (e jamais seremos) preparados. Para ficar, inúmeras vezes, é preciso partir de nós mesmos. E cabe à familiaridade nos dizer quando é tempo de cheganças.

Os adeuses, Carlos, podem ser tristes, como a menina que vislumbra seu amado desaparecer enevoado pelas ávidas novidades. Podem ser doces, como a insônia que precede o novo emprego. Podem ser frios, como o féretro que protege o ente querido. Entretanto, talvez seja novidade, todo e qualquer presságio que inaugura sua alma também é matéria onírica para mim.

Reside aqui, na emancipação da miopia, na expulsão da menor quimera, no alívio das lágrimas, quando o gordo sonho ocupa a nossa casa por inteiro.

Render-se ao isolamento, à incompreensão, ao delírio não fará sua existência mais pertinente que a minha. Somos igualmente afetados pela mediocridade, pelo esquecimento, pelo medo.

Contudo, ao tê-lo ao meu lado, Carlos, neutralizo meus fantasmas. Posso pacificar meus compassos, órfãos. No pequenino interstício que nos une, sinto-me plenamente contornada. Não me deixe só. Eu suplico: edifica-me com o seu desamparo, para  que eu possa reverdecer, epifânica.

 

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Sem testemunhas

“A mais vil de todas as necessidades – a da confidência, a da confissão. É a necessidade da alma de ser exterior. Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos teus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que os segredos que digas, nunca os tenhas tido. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.”

Fernando Pessoa, in ‘Livro do Desassossego’

É longe do palco que se pode ensaiar os contornos do amanhã. Quando se apaziguam as esperanças de futuro e os sonhos perdem sua obrigação incongruente de solidez. Quando os olhos se fecham e aceito a vulnerabilidade de acordar para dentro. Ausente de observadores encontro-me viva, e só. Sem a mórbida obviedade do sofrer.

Ah, negra hora do dia: agradeço o meu anonimato. Quando a humanidade já foi deitar e o mundo permanece alheio às vicissitudes inúteis dos despertos. Sinto-me cúmplice dos suspiros das árvores, das proibições conjugais: átomos antigos, entorpecentes cósmicos.

Sinto-me, pois, neste instante, ainda em posse de uma história sem veracidade. Distante daqueles que lembram como sou, como fui e, inevitavelmente, como envelhecerei. Caminho pelos labirintos desfocados que me conduzem a essas letras. Guardei minhas palavras por algumas madrugadas. Não aceitaria que elas nascessem prematuras.

Nas profundezas marinhas da noite, as cicatrizes se escondem para dar lugar à bela totalidade arredondada. E os oceanos, mais misteriosos e demiúrgicos do que nunca, enaltecem suas melódicas queixas de escravidão ao luar.

Como gostaria de despir-me, também eu, para o grande silêncio. Sem testemunhas. Pacificada pela sensação de abrigar exclusivamente um pseudônimo confuso, expatriado das mãos rancorosas de seu autor senil. Transportar-me a um mundo de domingos, onde os habitantes emudecem pelo horror ao recomeço; e se aninham, distraídos, na nulidade de suas existências.

Estou tão cansada, hora gatuna, violenta. Medíocre que sou, refugiada nesse asilo temeroso. Como anseio libertar essas histórias acorrentadas nos presságios ilusórios dos grandes desertos. Anônima. Sem ter os olhos pequenos demais para apreciar os destinos. Desanuviada.

Quero pecar sem assinatura.

Viver sem testemunhas seria, hoje, meu desejo mais arcaico. Jorrar minhas memórias por páginas desconhecidas e inacabadas. Iridescente, breve, hermética. Frases sem sentido para que ninguém mais não me morasse.

 Como se torna persecutório o ato de desenhar-se em dizeres, em traduzir-se conteúdo. Medo de ser retaliada por aquilo que foi vivido, embaraço frente aos relatos vergonhosos das melancolias juvenis. O pavor de estar em primeira pessoa. Saudade – essa qualidade da ausência – como faz sentido estar mais próxima da estranheza que suportar a inocente familiaridade. Apenas o estrangeiro de si, de pátria ou de línguas, aguenta, sem anódinos, o peso inesclarecível das funduras.

Destarte, reintegro a secura intrínseca da esterilidade. Se não posso suportar meus segredos, se os enclausuro na travessia entre o esquecimento e a confissão, perco a maestria uterina. A clarividência sempre toca o julgamento preciso de quem lê.

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A ontológica ferida

Quando eu me hospedei dentro do meu próprio corpo, desencontrada forasteira do planeta, ainda não o sabia. Ah, quantas tardes passei a afagar o ventre do pensamento, bólide intruso! Inventei, imbuída, noites intermináveis que se ocupassem da sua hipotética existência. Madrugadas me navegaram, imunes ao sono, na ânsia do seu encontro. Eu engolia o lancinante espanto de saber-me orquestrada por cicatrizes ontológicas. E sem ao menos tê-lo tocado.

Como vaguei, Quíron, em busca de unguentos para a minha ferida. Seria apenas uma flor que amarelecia a página esquecida? Não. Nenhum estrangeiro está imune aos vestígios.

Sua vinda trouxe-me o enterro das obviedades monótonas. Permitiu que o sonho recém-nascido impulsionasse aquele choro desesperado de quem aterrisa no mundo. E, assim, pude finalmente reverenciar-me à vulnerabilidade, invólucro da sabedoria.

A pele estará sempre rasgada pelo perceptível. Entre as vísceras, pousa uma flecha em concretude. O coração é, dia após dia, envenenado pelo terreno oxigênio. Contudo, não há devaneio que seja esmagado por tirânicas verdades.

Nos séculos que precederam sua chegada, a fragilidade não alimentou a minha carne. Senti-me dúbia, incoerente, solitária. Como se eu, enclausurada nesse corpo, abrigasse o síncrono. Cavalo e mulher.

Aos deuses, aplausos. Fui abençoada com o fardo incurável das palavras. As mãos seladas ao sangue que jorra em melodia. Nenhuma tristeza me apunhala senão em versos. Irônica, a cura se materializa na desistência da imortalidade. A ambiguidade elíptica me sorri. Sóbria. Louca. Inconclusa.

Leva-me consigo, asteroide errante? Captura o meu cansaço em seus domínios, no ínfimo espaço que há entre Saturno e Urano. Não tenho medo, no escuro de mim. Apavora-me mais a mansuetude dos olhos, rígidos, cárceres da realidade. Estou farta de sepultar quimeras.

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No quarto do meu coração, menino…

Contigo aprendi a temer as claridades leitosas, títeres travestidos da escuridão. Abandonei os primeiros pensamentos, esboços de mim. Não mais atuo em monólogos para plateias vazias. Fardos só existem para nos lembrar que a alma carrega sempre a possibilidade de tocar a erudição simples… Em nossa relação – criador e criatura – tu estás ali, à minha frente, desdenhando tudo aquilo que me foi rebuscado.

Meu Amigo, Meu Herói

Gilberto Gil

Oh meu amigo, meu herói
Oh como dói saber que a ti também corrói
A dor da solidão
Oh meu amado, minha luz
Descansa tua mão cansada sobre a minha
Sobre a minha mão
A força do universo não te deixará
O lume das estrelas te alumiará
Na casa do meu coração pequeno
No quarto do meu coração menino
No canto do meu coração espero
Agasalhar-te a ilusão
Oh meu amigo, meu herói
Oh como dói
Oh como dói

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Deus faz doçuras muito tristes*…

Das Doçuras de Deus

Clarice Lispector

Vocês já se esqueceram de minha empregada Aninha, a mineira calada, a que queria ler um livro meu mesmo que fosse complicado porque não gostava de “água com açúcar”. E provavelmente já esqueceram que, sem saber por que, eu a chamava de Aparecida, e que ela explicou: “É porque eu apareci.” O que eu não disse talvez foi que, para ela existir como pessoa, dependia muito de se gostar dela.

Vocês a esqueceram. Eu nunca a esquecerei. Nem sua voz abafada, nem os dentes que lhe faltavam na frente e que por instância nossa botou, à toa: não se viam porque ela falava para dentro e seu sorriso também era mais para dentro. Esqueci de dizer que Aninha era muito feia.

Um dia de manhã aconteceu que demorou demais na rua para fazer compras. Afinal apareceu e tinha um sorriso tão brando como se só tivesse gengivas. O dinheiro que levara para compras estava amassado na mão direita, e do punho da esquerda dependurava-se o saco de compras.

Havia uma coisa nova nela. O quê, não se adivinhava. Talvez uma doçura maior. E estava um pouco mais “aparecida”, como se tivesse dado um passo para a frente. Essa alguma coisa nova fez com que perguntássemos em desconfiança: e as compras? Respondeu: eu não tinha dinheiro. Surpreendidas, mostramos-lhe o dinheiro na mão. Ela olhou e disse simples: ah. Alguma outra coisa nela fez com que olhássemos para dentro do saco de compras. Estava cheio de tampinhas de garrafa de leite e de outras garrafas, fora pedaços de papel sujo.

Então ela disse: vou me deitar porque estou com muita dor aqui – e apontou como uma criança o alto da cabeça. Não se queixou, só disse. Ali ficou na cama, horas. Não falava. Ela que me dissera não gostar de livro “pueril”, estava com uma expressão pueril e límpida. Se falássemos com ela, respondia que não conseguia se levantar.

Quando dei fé, Jandira, a cozinheira vidente, tinha chamado a ambulância do Rocha Maia “porque ela está doida”. Fui ver. Estava calada, doida. E doçura maior nunca vi.

Expliquei à cozinheira que a ambulância a chamar era a do Pronto Socorro Psiquiátrico do Instituto Pinel. Um pouco tonta, um pouco automaticamente, telefonei para lá. Também eu sentia uma doçura em mim, que não sei explicar. Sei, sim. Era de tanto amor por Aninha.

Enquanto isso vinha a ambulância do Rocha Maia. Foi examiná-la, já sentada na cama. O médico disse que clinicamente não tinha nada. E começou a fazer perguntas: para que tinha juntado as tampinhas e o papel? Respondeu suave: para enfeitar meu quarto. Fez outras perguntas. Aninha com paciência, feia, doida e mansa, dava as respostas certas, como aprendidas. Expliquei ao médico que já havia chamado outra ambulância, a apropriada. Ele disse: é mesmo caso  para um colega psiquiatra.

Esperamos a outra ambulância. Enquanto esperávamos, estávamos pasmas, mudas, pensativas. Veio a ambulância. O médico não custou a dar o diagnóstico. Só que internada ela não podia ficar, apenas pronto-socorro. Mas ela não teria onde ficar. Então telefonei para um médico amigo meu que falou com o colega do Pinel, e ficou estabelecido que ela ficaria internada até meu amigo examiná-la. “A senhora é escritora?” – perguntou-me de súbito aquele que vim a saber ser o acadêmico Artur. Gaguejei: “Eu…”. E ele: “É porque seu rosto me é familiar e seu amigo disse pelo telefone seu primeiro nome”. E naquela situação em que eu mal me lembrava de meu nome, ele acrescentou simpático, efusivo, mais emocionado comigo do que com Aninha: “Pois tenho muito prazer em conhecê-la pessoalmente”. E eu, boba e mecanicamente: “Também tenho”.

E lá se foi Aninha, suave, mansa, mineira, com seus novos dentes branquíssimos, brandamente desperta. Só um ponto nela dormia: aquele que, acordado, dá a dor. Vou encurtar: meu amigo examinou-a e o caso era muito grave, internaram-na.

Nessa noite passei sentada na sala até de madrugada, fumando. A casa estava toda impregnada de uma doçura doida como só a desaparecida podia deixar.

Aninha, meu bem, tenho saudade de você, de seu modo gauche de andar. Vou escrever para sua mãe em Minas para ela vir buscar você. O que lhe acontecerá, não sei. Sei que você continuará doce e doida para o resto da vida, com intervalos de lucidez. Tampinhas de garrafa de leite é capaz mesmo de enfeitar um quarto. E papéis amarrotados , dá-se um jeito, por que não? Ela não gostava de “água com açúcar”, e nem o era. O mundo não é. Fiquei sabendo de novo na noite em que asperamente fumei. Ah! com que aspereza fumei. A cólera às vezes me tomava, ou então o espanto, ou a resignação. Deus faz doçuras muito tristes. Será que deve ser bom ser doce assim? Aninha tinha uma saia vermelha estampada que alguém lhe dera, muito mais comprida do que seu tamanho. Nos dias de folga usava a saia com uma blusa marrom. Era mais uma doçura sua, a falta de gosto.

– Você precisa arranjar um namorado, Aninha.

– Já tive um.

Mas como? Quem a quereria, meu Deus? A resposta é: por Deus.

*Imagem retirada do lindo blog: http://portroche.blogspot.com/


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Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim…

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste!  Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio!  …

Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

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Semeando Constelações

Já se encontrava farta de tudo aquilo que vivera: as conversas enfadonhas com as amigas, a rotina tediosa do trabalho, os forjados jantares familiares. Sua existência se enrolara em não mais sentir. Porque as dores são pássaros ininterruptos do cantar.

Abrigara a estranheza solitária de traduzir o mundo em versos. E nada lhe era mais assustador que aquela sina. A poesia não vem para salvar a humanidade de anseios suicidas, mas para relembrar as mortes diárias da carne, frente ao espírito.

Perguntava a si mesma se havia outra saída que não envolvesse pulsos exangues ou entrada no sanatório. Entressonhava, louca, as possíveis resoluções para a sua grotesca enfermidade. Quem se olha em poesia não possui lugar no planeta autoajuda. Tampouco é permitido sair ilesa das convencionalidades sociais.

Havia, sobretudo, um otimismo tolo que a seguia nos despertares. E ela ia, por masoquismo, tomando duras punhaladas de mesmice, durante manhãs inconfessáveis. Engolia doses e mais doses entrecortadas de ignorância. Pensava-se mártir, naquela altura, consentindo estigmas em prol de algo que lhe era maior, mais forte. Divindades do existir, pensava. O ônus que se paga pelos jardins do sentimento.

Os meses seguintes foram levando a sua lucidez. Os lábios clamavam só por cálices encarnados de vinho. O convívio com seres de carne e osso fora deteriorado por inteiro. Ela desvanecia, dia após dia, da sua condição irrisória. Ao mesmo tempo, suas palavras também iam perdendo potências. Esvaziavam-se em rascunhos mesquinhos. Todo segundo transfigurava-se em logomaquias.

A mulher, contudo, tinha uma sabedoria infantil de respostas. Aceitava o implacável prenúncio dos parágrafos. As imagens insurgiam como o perfume de damas-da-noite. A concretização, todavia, esperneava. Ensandecida por cheiros de pele. Insubordinada às inúteis tentativas do isolamento.

Apenas em confluência com outro ser humano é permitido sonhar. A inadequação – natural – não pode tocar o absoluto. Nenhuma ilha alimenta-se de oceanos. Somos, ainda, reféns de cumplicidades.

Como lhe irritava saber de sua condição! Obrigada a engajar-se, outra vez, em um universo que a havia deitado fora. E agora – para que seus dizeres atingissem o imperecível – abdicaria de sua excentricidade gloriosa. Tornara-se caçadora de convergências humanas.

A tarefa, dificílima, rendeu-lhe quilos de maquiagem e roupas importadas. Contudo, por mais esforços que empreendesse, mais fracassos colecionava. A busca, indispensável para a sua literatura, transformou-se em fardo intransponível.

Os assombros poéticos, concomitantemente, afligiam-na nos sonhos e nas horas de vigília. Os dedos, exaustos, renuíam aos seus apelos. As inspirações rebelavam-se, pungentes.  E a aversão aos seres mundanos se agravava. O esforço convertia-se em repúdio. Atrofia.

Empertigada, decidiu que a morte desenhava a melhor de todas as ideias. Não a vislumbrava em covardia, mas em intrepidez absoluta de quem havia tentado.  Às vesperas de dar cabo ao sofrimento indizível que tece todas as escuridões, aceitou a companhia de um velho conhecido. Convidou-o para passar a madrugada com ela. Ele a endereçou um esquisito olhar que dialogava – indecente – às suas doçuras moribundas.

O autor, nitidamente, nada compreendia dos seus dizeres esquizofrênicos. Não traduzia suas falas com borboletas, nem relutava diante das suas asperezas. Entretanto, ele bebia, voraz, tudo aquilo que ela havia refletido. Ele apenas a confortava com palavras. Mesmo escritas, era uma voz humana que inundava os sorrisos da moça. Às vezes os livros são mais velozes do que estrelas cadentes.  E a noite pode repousar seu sono no monólogo dela.

Vergonhosa de sentir tais obviedades, ela conseguiu suspirar em calmaria. Grávida de périplos e roteiros que fantasiou para os novos personagens. O que se seguiu, foi a descoberta mais latente de sua vida: ao incutir a repartição, sabe-se plenitude. Esse amor que mantemos pelos seres inexistentes. Com todos os seus truísmos literários, assentia mais uma vitória. Um verdadeiro semeador de constelações.

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Curso de idiomas em Júpiter

Ando à procura de um curso de idiomas em Júpiter. Minha linguagem, cá, parece-me obsoleta. Geralmente aprende-se línguas porque não as conhece. O meu caso é distinto. Sou uma aluna saturada da comunicação terráquea.

Não tenho pretensões ou anseios de parecer uma soberba e amargurada criatura. São apenas confissões de uma exígua ádvena caminhando pelo solo ininteligível das palavras. Sinto-me profundamente inadequada para tudo o que se diz comum entre as pessoas. Uma solidão indescritível de não pertencimento.

Tenho sonhado com essas tempestades vermelhas. Os ventos me recolhem para uma chuva ininterrupta de anéis. Enrodilhada, nada mais me é estranho ou desconexo. A comunhão com o astro sombrio, soberano, não é aleatória: necessito de uma aliança interplanetária.

Ando à procura de um curso de idiomas em Júpiter. A Terra deveria ser trezentas vezes maior e mais doce para abrigar o meu espírito inquieto. Para tornar menos difícil essa sensação excludente que me dilacera e me envenena. Não consigo mais tolerar a violência com que se ri do sofrimento. A ilusória satisfação desértica que institui os fracassos com repúdio. O sardonismo tem me tornado violenta também, dá a mim o gosto por sangue entre os lábios e os dentes. O céu da minha boca só quer sonhar com quimeras silenciosas.

Busco, incansavelmente, por essas luas infinitas. Invento uma noite eterna que supra todos os seres prolixos e ruidosos. A claridade tem sido cúmplice dos dislates imundos que povoam a humanidade.

E, aonde vou ter lições, deve haver uma aquiescência que transforme meu âmago alienígena. Um lugar cheio de tatuagens lunares não é capaz de comportar os desejos mesquinhos de sucesso. Porque as luas são muito misteriosas para se ocuparem com as compreensíveis respostas. Nenhuma solução é passível de se confluir com a nudez.

Quem pensa em covardia ou descaso, engana-se. Há um inescapável cansaço que atravessa meus dizeres e desassossega minha permanência. Tenho distraído esse estrangeiro coração que só me implora que eu retorne. É imprescritível vivenciar o calor das semelhanças. Antes do sol. Antes que a colonização paralise os arroubos de galáxia.  A esperança sempre avista discos voadores.

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Grandes são os desertos…

Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

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Looking for flying saucers in the sky…

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A calhar…

Esse poema é o meu predileto de Pessoa. Conheço há anos e o recito como se estivesse declamando a minha própria alma. Tenho imensos ciúmes dele. Por muito tempo, quis aprisioná-lo a mim. Um segredo entre mim e o mestre. Pouquíssimos seres humanos o descobriram. Mesmo os portugueses mais apaixonados se surpreenderam quando o apresentei. Hoje, eu o deixo ir embora porque o amo. Na íntegra. Milimetricamente recuperado. Com todas as cousas em seus devidos lugares. 


Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma,
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto…
Sim o resto parece-se apenas com a vida.

Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
E não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.

Fumo, sonho, recostado na poltrona.
Dói-me viver como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das cousas
Onde sofrer seja uma cousa mais suave,
Onde viver custe menos ao pensamento,
E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.

Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,
Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos?) – Novas poesias inéditas

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Corrigindo a vida

Há temor maior que a abertura de um livro? A surdez que antecede o espamo. Aquele momento fugidio – e para tantos sem nenhuma importância – em que se dilacera a capa? Existe alguma taquicardia superior ao deflorar açucarado desse rompimento?

Pois bem, eu cresci sentindo essa emoção. Cada página mergulhada me foi mais importante do que beijo de namorada. Por muito tempo, senti-me um estrangeiro de mim mesmo, um foragido do planeta, caminhante de muletas.

Olho hoje para tudo o que se considera mundo e me choco. Agora, agora que tenho pessoas em minha posse, agora que há relações verdadeiramente humanas pulsando dentro das minhas emoções, questiono-me sobre o meu teórico aprisionamento.

As pessoas que passam por mim – ao contrário dos meus esféricos personagens de outrora – são cartões postais de si mesmas. Paisagens magistrais, mentiras fotográficas, sóis em brasa sem luz alguma. Todos com um estarrecedor medo de viver.

Empiricamente, vejo que não há depressão, bipolaridade, ansiedade ou esquizofrenia. A maior patologia de todos é a própria vida. Pavor ao câncer, ódio à pobreza, ojeriza à criminalidade. Medo de matar, medo de morrer, medo da loucura, medo de desvelar a verdade. Medo do adoecer. E é tão devastador esse medo de viver que o medo torna-se invólucro do enfermo. E se morre, literalmente, de tanto se pensar na iminência dos perigos.

Dir-nos-ia o mestre Guimarães Rosa que o viver é muito perigoso. Quantas vezes fui acusado de covarde, pela escolha da literatura! Eu? Eu que naveguei por abismos impossíveis, por angústias algemadas. Eu que não recolhi os pulsos, para não esconder os quelóides do suicídio fracassado. Eu que dormi ao relento, acompanhado de seres inumanos. Fui, inerte, o grande protagonista dos anoiteceres da alma! Eu e os meus autores. Testemunha da única verdade. Porque escrever é ter a nudez tatuada.

Em minha casa não entra ninguém que não tenha sido convidado. Na minha cama só há espaço para volúpias. As mulheres dos meus devaneios têm lábios mais maduros e seios desprovidos de consertos mesquinhos. E as páginas me engravidam de vocabulários e sonhos e sentidos redondos. E, às vezes, eu declamo minha cumplicidade para impregnar minha sala em amarelecidas fumaças. Inebrio-me com o gosto mofado dos anos. E durmo tranquilo porque o amanhã me reserva o inefável.

Sim. Eu só posso ser o farol que se arrisca frente às tempestades porque me nutri em coragens escritas. E saio pelos papéis pulverizando insanidades e encorajando mentecaptos. No entanto, há mais veracidade em mim. Eu, Scott Johnsonn, temerário analfabeto da vida.

Afinal, quem é  letrado em viver? Vocês, com suas fobias, suas alergias ao oxigênio? Vocês, mais sujos que os mendigos? Mais vis que as meretrizes? Vocês, atordoados por ressacas morais! Por inúteis amnésias alcoólicas? Com o receio tedioso de soltar o ignóbil que os corrói por dentro?

Vocês, agorafóbicos que são! Ressecados pelo horror à chuva. Invencioneiros sem bússola. Infames pelas próprias castidades. Como se os deuses estivessem preocupados com seus pecados mínimos. Acham mesmo que os deuses explanam a pureza?

Eu cresci com os mitômanos abençoados. Homens e mulheres que corrigiram a vida através de suas inventivas narrações. Delirantes, fracos, derrotados. Imperfeitos. Mas que puderam transmitir esse impalpável fiapo. Que cicatrizaram sua inconsciência ao tecer oraculares linhas em sinceridade. Porque o outro, espelho do avesso, anestesia todas as essências. E é a literatura – de quem lê e de quem aceita ser hospedeiro – é ela a mãe das nossas terras.

Parem! Chega dessa repulsa a mim! Eu, como todos aqueles que des-cobrem os signos dessa humanidade, sou incapaz de dissimular. Transparente como são todas as infâncias. Descrevo minhas mazelas. Rasuro-me. Reviso-me. E sei. Jamais abrigarei o ponto final.   

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O menino

Encontrei outro dia um menino que me fitou com cumplicidade secular. Tem a pele branca. Cabelos ralos, castanhos. A vulgaridade do azul não toca seu olhar. Porque muito pouco interfere a beleza improvável da sua íris.

 

O azul dos olhos do menino é rigorosamente secreto. Está todo envolto em silêncios. O azul dos olhos do menino são portas abertas para uma solidão em clausura. São aquários inabitados que ainda sonham com peixes. Brutalmente dócil.

 

O menino me contou da melancolia que o dilacera por não ter companhia nas manhãs frias da sua terra. A neve o faz desencontrado de quimeras.

 

Abandonado pelos pais – trabalhadores desavisados dos fantasmas da infância – o menino sonha com companhias imaginadas. E, ao se saber criador do seu universo, sofre. Um mero afago o faria doar aos órfãos toda sua capacidade de inventar.

 

Até o ouvinte menos atencioso seria petrificado pela amargura de seus dizeres: a gente tem vontade de entregar toda a alegria ao seu futuro passado.

 

O que o menino não sabe agora é que as feridas são depurações da nossa alma. Atrás das queimaduras há epidermes rosadas. Seu duro aprendizado fará dele um melhor pai. Ele terá a família sempre à mesa.

 

No cerne das suas lágrimas há uma liberdade, uma anárquica chance de construir o seu destino. Para além dos traumas irreversíveis existem horizontes de mar.

 

Eu, como não pude dizer nada disso ao menino, escrevo para elaborar a minha angústia de ter sido feliz. Com muito medo de que essa felicidade desesperadora me impeça de poder escolher meus trilhos também. Porque só a tristeza é senhora do mudar.

 

Senti, finalmente, a inveja pesada: não dos seus olhos azuis, mas da minha comiseração. Porque a cicatriz é a única pele que conta uma história. E são as histórias quem nos impedem de cair no esquecimento.

 

Enquanto isso, o menino espera a noite acabar para certificar-se de que não havia bicho papão. E, sem se dar conta, o menino estará condenado a amar a noite mais do que todas as mulheres de sua vida.

 

Eu queria dar-lhe, menino, saudades de balanço. Roubar lindas palavras como se roubam flores. Só que as flores são deveras sentimentais para acalentar seu espírito. Eu queria furtar sonhos de cantigas de ninar. Mas nós dois conjugamos a língua das fábulas.

 

Compreendo, por fim, o sentido último do nosso estranho reconhecimento. Você é uma narrativa que não pode morrer como as suas esperanças, ao final de cada tarde. E isso eu posso fazer. Escrever-te. 

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O texto que se esqueceu de si mesmo

Ando à espera das minhas solidões. Não é a depressão, espectro da contemporaneidade! Desejos suicidas jamais me procuram quando penso em meu isolamento cósmico. No mundo de hoje, contudo, às vezes é muito perigoso fazer uma afirmação dessas. Estar só é degenerar-se? Por que a solitude ganha sempre fúnebres reflexões?

Minhas ideias ousam desembarcar, mas não encontro portos que as abriguem. Tudo me é borbulhante, avulso, vago. E só há um vilão para todo o meu sobejar. Sofri uma espoliação: retiraram-me os jardins do sonhar, casa da minha solidão.

A morada da qual vos falo nada possui de quietude. Ela já esteve presente no meio de uma conversa trivial, quando – apesar de prestar imensa atenção – minha mente engordava de pensamentos. Também a recuperei em irritantes céus de churrasco. O dia inebriava-se azul e a minha ínfima condição obrigava-me ao trabalho braçal. Na sóbria caminhada para o lavor, pude ocupar meu firmamento de poesia e granjear pequenos versos, bêbados, inacabados.

No entanto, naquela época, era de minha posse recuperar as imagens, resgatar as profundezas dos devaneios sem perder uma vírgula sequer. Salvaguardar as reminiscências em sua plenitude.

Hoje sinto que tenho abortado palavras, sentimentos, parágrafos inteiros… Faz-me tanta falta, cômodo do meu delírio! E se não há um lugar específico, aonde eu guio minhas perturbações literárias? Em qual sussurro, em qual vestido, em qual cidade posso reaver meu instante solitário? Estou farta dos textos que se esqueceram de si mesmos!

Talvez precise voltar a me apoderar dos diálogos insanos, com pena e tinta nas mãos. Esponja que sou, dos olhos alheios. Revisitar músicas dos anônimos, aqueles que pintam sopros em nanquim e nutrem meus seios, desanuviando o cerne do espírito.

Enquanto o habitat me é desfavorável, emendo as camisolas velhas, consciente da inevitabilidade das cicatrizes e da iminente morte do tecido. A tenacidade das inspirações não reside nos seres, nas paisagens, nos planetas. É apenas o olhar conciliatório, a tradução para os planos não cartesianos.

Assim, órfã de sítios onde o fictício torna-se possível, busco os degraus insólitos, improváveis. Desato os nós etimológicos. E festejo a descoberta das letras expatriadas. Inéditas.

Corto as unhas compridas, encarnadas de feminilidade. Porque elas fingem-se imortais, suspendem o coração do perecível. Eu quero a pele despida da queratina, somente imersa nas quimeras.

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Remanso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sempre me senti dona de uma esperteza inegável. Desde pequenina, estava eu, de pijamas ou de tranças, metida nas conversas adultas dos amigos de meus pais. Todavia, hoje eu me olho e me sinto frágil. Precária. Capaz de entrever meus ossos esmigalhados, em um tilintar de segundos. Não sei de onde tirei a estúpida idéia de ser espevitada…

Hoje ouvi ondas e esbocei um imenso sorriso. Era apenas a máquina de lavar, companheira heróica da minha jornada. Pois é, estou viciada em limpar minhas roupas. E sei que isso tem total relação com a regeneração da pele. Lavar dá toda uma nova possibilidade para a roupa existir, sem vestígios de passado incrustados na superfície. E eu sou eternamente o vestido, a meia e a camisa.

Tudo me tem sido difícil e tudo me tem sido sozinho. Absolutamente por escolha irremissível de meu coração. Ou por altivez da minha alma. Temos conversado muito a respeito de minhas atitudes. Em conclusões não falamos, até o presente instante. Eu agradeço ao poder divino do ainda não, desta vez. Porque estar em contato com respostas faria com que me sentisse detestável. Seria capaz de enfartar o fenomenólogo coração que carrego atrás do seio.

A solitude, como me disse um dia um grande amigo de infância, é composta de solidão com plenitude. Miserável sou, ao não conseguir de forma alguma alcançar essa tranqüilidade. Tenho vivido dias e noites “de cão”! Aliás, o entendimento dessa expressão me é impossível de ser tocado. Meus dedos se recolhem, quando pensam nela. Os cães, ao não pensarem em si mesmos, vivem a reluzente euforia da ignorância. Só os humanos têm ciclos infelizes e, ao mesmo tempo, possuem a ousadia de não se esquecerem deles.

Sinto, cá, a perecibilidade das relações. Não, não aceito a insolente resposta de que meu tempo aqui é pouco e que em breve revisitarei a busca tão sonhada da amizade. É outra cousa que transborda de mim. Composta de falta mesmo, de não concernir, de insônia. Por vezes a insônia é bela: o dia anterior ao acantonamento, a conversa que inunda as conexões nervosas, o porvir e seu maravilhoso universo de acontecimentos sonhados.

A minha anipnia é outra: “não porque morresse ou me matasse. Mas porque me seria impossível viver amanhã e mais nada”, diria o mestre Fernando Pessoa, em minha preferida poesia.

Não durmo. À espera de compreender o sentido mais íntimo de minha estadia. Não durmo pois eu sei que o amanhã não me fará uma ínclita cozinheira. Não durmo pois meus amigos estão adormecidos dentro do meu abstrato desígnio. Sempre tive, mesmo nas áureas madrugadas estelares, muito medo do repouso. Porque a vida passa numa velocidade muito maior do que minha ânsia de vivê-la. Então eu bebo vinho e respiro enfim ares cor de rosa. Aguardo Deus, para que ele abençoe meu sono. Permita que eu prossiga este tão áspero e açucarado crepúsculo. Conceda-me a escrita, só mais uma vez.

 

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Ausência

 

Às vezes demora-se anos para entender o mais óbvio que há em nós. Só hoje verdadeiramente apreendi minha paixão pela Fenomenologia Existencial. Só hoje, com cicatrizes na vista, deixo meu estrabismo intelectual de lado, para ouvir o que em mim foi chamado. Só hoje meu peito é todo aberto à amplitude dos sentidos.

Wilson Batista sabiamente escreveu um dia: “Eu sou assim, quem quiser gostar de mim, eu sou assim. Meu mundo é hoje, não existe amanhã pra mim”. Não sei se ele teve alguma troca com a terrível corrente filosófica, ou se as coisas-mesmas estão ai para todos, basta querer desanuviá-las. Só importa que ele tem razão. Eu grito ao mundo! É hoje.

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso”, retruca Clarice. Tenho essa absoluta convicção, pois é a minha insana ansiedade que fez ecoar em mim. As doces frases só circulam quentes em meu sangue porque dizem acerca do presente. O instante é o único capaz de congelar a lembrança. Ah, as Horas! Que criaturas equivocadas são as horas! Os minutos, apesar de se saberem menores, de terem obrigação com a humildade, também se conhecem muito pouco. Os dias, reis de feudos folclóricos! Freqüentemente são ridicularizados nos meus diálogos. Merleau-Ponty zomba da banalidade do tempo. Bachelard condena os meses ao calabouço. Só o aqui (agora) é Olimpo para nós.

Corro gravemente o risco de ser olhada como alguém extenuante. Todavia, meu atual instante dá de ombros para os olhares. Minha essência ironiza a tranqüilidade. Meus vícios estão em festa dentro de mim. São obviedades de viver intensamente o já.

E, quiçá, todos os amantes fenomenólogos sejam espíritos de uma incansável impaciência. Ou mesmo pode ser que eu não suporte o futuro e o passado. No entanto, não vivo cores pastéis. Sinto odiosa ojeriza daqueles que aceitam-se títeres do relógio. Careço de re-significar o que se foi e de lançar vibrações poderosas para o que ainda não é.      

Ando amarga mesmo. Esse dia, quase no fim, ardeu tanto, mas tanto… Revoltas palavras brotam sem deixar meus pensamentos floridos serem protagonistas. Há noites nas quais é preciso rebentar a ira e colocá-la no colo. Dar nome ao negro gosto. Saboreá-la, mesmo com incomensurável repúdio.

Sinto-me enferma por não poder contemplar as vicissitudes. Amarrada estou à mortalha da espera. Enfraquecida pelas horas, minutos, segundos e meses.  Desvairada pela nostalgia. Enojada por não poder viver a plenitude. Tenho a alma anorética, impossibilitada de caminhar. O instante, que tanto me nutriu, esfuziou-me com a sua ausência.

As trêmulas mãos, exauridas dos silêncios, clamam pela aparição do templo. Onde foi parar a minha pertinácia? Deixei-a cair? Estilhaçou-se? Como posso reavê-la?

Perguntas retóricas e estúpidas. Sei da data e da hora em que meu amado instante partiu. Conheço seu paradeiro. Ouço sua voz, distante e leve. Vagarosa, como seus passos e sorrisos. Já estive em alguns dos lugares pelos quais viajou. Meu instante, para desespero meu, está nos delírios dos pensadores. Acomoda-se na cabeceira, próximo à minha fronte. Posso buscá-lo, nas letras rebuscadas. Eu o identifico, na narrativa dos profetas. O raciocínio facilmente entrelaça-se com ele. Porém, o verdadeiro instante – aquele vivido – não está ao meu alcance. Preciso de outro ser humano em complexa sincronicidade comigo. Porque instante não é só presente, é presença.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Teresa em mim

 

 

Nunca tive a ignorante pretensão de pautar minha subjetividade em alegrias vãs. Amo a felicidade. Enxergo-a como uma doce e jovem estrela cadente. Causa saborosos e delicados enlevos nas idéias da gente. Paralisa os instantes, dá a cor e as tonalidades mais preciosas para os olhares. É um amanhecer que inunda a nossa alma.

Contudo, eu já sabia, desde pequena, que carregava certo gosto pelas tristezas cotidianas. É um segredo meu que desvelo aos poucos, à medida que as pessoas me conhecem. Com certeza meus grandes amigos, ao lerem esse texto, esboçarão sorrisos logo no início: eles sabem disso melhor do que eu.

Compreendo a tristeza como inerente ao ser humano e particularmente a mim. O sofrimento sempre me foi muito esclarecedor e essencial. Entendo-o como um banquete para o aprofundamento do eu.

Suponho que o padecimento primeiro da minha vida foi amor… Os personagens e fatos envoltos são absolutamente irrelevantes. As mudanças inauguradas dentro de mim, não.

Uma senhora de cabelos ralos e brancos. Usa um manto que a cobre por completo. Tem aqueles olhos envelhecidos muito antes do resto do corpo. Chama-se Teresa: é assim que a minha tristeza pode ser descrita.

Uma mulher de casca frágil. Quando posso mergulhar dentro dela, sei que carrega a vitalidade das paixões adolescentes. Forte como uma montanha de neve.

Teresa joga búzios e interpreta tarô com a minha carne. É professora de história. Materializa verdades irrefutáveis e vislumbra, emudecida, os caminhos mais míopes. Põe-me os óculos e retira-me de cena. Teresa é a minha grande salvadora.

É claro que tudo isso deve parecer uma alucinação lisérgica para quem lê. Não se assuste ainda. Deixe-me enunciar porque respeito e ouço a voz dela dentro dos meus ossos.

Outro dia retirei da sala um livro de Lya Luft. Chama-se “O Lado Fatal”. Era domingo, dia que Teresa mais trabalha. O vazio cortava-me os pensamentos. Comecei a ler.

Em poucos minutos eu tinha o pulmão comprimido pela asfixia das lágrimas. Lá estava minha vidente, mais uma vez, a me fazer companhia. Mastiguei cada palavra, saboreando o incalculável esmorecimento que havia. Em apenas uma hora já voltava à biblioteca, para guardar a dor de Lya. Sentia-me inexplicavelmente mais velha.

O livro é um desabafo. Ela escreveu depois que Hélio Pellegrino, seu amado, morreu. São poemas assustadoramente amargurados. Aquelas páginas são deserto. Deus não estava lá. Só havia Lya e sua indizível prostração. Eu e Teresa.

Foi então que aconteceu em mim esse texto. Eu precisava advogar em favor da melancolia. Fora da obviedade que se instalou no mundo auto-ajuda de hoje, era-me caso de vida ou morte apresentar minha defesa. Senti-me uma leoa, pronta para doar minha vida aos filhotes. As pessoas necessitavam conhecer essa senhora tão sábia.

Não entendo porque se pode fugir ou ignorar a Tristeza. É totalmente incabível para mim não admirá-la e agradecê-la. É a responsável por metade das grandes lições da vida. Nosso outro grande mestre é o Amor. 

Selecionei algumas aulas que tive com a idosa criatura para reiterar meu sentimento por ela. A primeira delas é uma lição aquática. Quando não sabemos a profundidade da piscina – e estamos submergindo – nosso ímpeto natural é tentar voltar à superfície. Todavia, se não formos até o fim, fica muito mais difícil retornar com agilidade. O fundo dá ao mergulhador o coração da água. A dor é feita de natação.

Outro curso que assisto, ministrado por Teresa, ainda não acabou. Mesmo assim posso compartilhar algumas raras colocações que internalizei. É o desapego primordial. A matéria se tornou suntuosa quando ela acompanhou um querido professor meu. Era uma aula sobre o Adeus. Dificílima. Lembro-me como se o tempo fosse incapaz de amarelar minha memória: “Você pode ir embora agora, porque eu te amo”.   

Relutei em aceitar aquelas palavras por muito tempo. Imensurável é a dor da partida. Como a separação poderia ser característica do amor? Que espécie de monstros eram aqueles dois? Como chegaram ao ponto de exprimir esse absurdo?

Depois de alguns minutos suspensa, voltei a mim. Comecei a chorar muito. (Eu gosto de chorar porque meus olhos atingem o verde. Ficam cegos de claridade. É bonito.)

Lembrei das vezes que estou para acabar um livro e passo a fingir que ele não mais existe. Nunca estou preparada para dar adeus aos personagens. Eles, que passaram dias e noites a dormir em meu leito. Já os sinto como parte da minha residência. Como é que posso deixá-los ir?

A curiosidade, como se sobrepõe ao carinho, faz-me então devorar, sem a menor piedade, as últimas e doloridas páginas. Teresa põe-me em seu colo, afaga meus cabelos e me dá goles de velhice. E mesmo sem a presença manifesta, o espectro de Miguilim é lareira dentro de mim.

O último ensinamento que vou tornar palavra também foi aula em conjunto. Dessa vez com Gianetti. Minha afável e querida anciã pôs-se a discutir com ele a verdadeira fórmula da felicidade. Aprendi que não podemos ter fé nas sedutoras pílulas. Temos que tranqüilizar o espírito, ávido de novidades, e aceitar a construção, tijolo por tijolo. Felicidade é uma morada eternamente inacabada, incessantemente em reformas e aperfeiçoamentos. Não é adição. É cara.

E agora vem o questionamento: quando posso então saber se um módulo chegou ao fim? É muito simples! Vejo um novo cabelo branco, um rabo de cometa, ensaio novos devaneios. A sensação de missão cumprida usurpa a minha realidade…

E caminho com Teresa pelos bosques, pelas refeições exageradas, pelas músicas celestes. Ela está comigo nos crepúsculos e nasceres de sol. Vamos abraçadas pelas tardes chuvosas e frias, pela saudade das épocas áureas, por poetas e pintores fenecidos. Porque não fujo dela nem a escondo, aceito-a. A inexperiente menina vai mostrando, pé ante pé, os caminhos tortuosos. A encanecida erudita propaga instransponíveis passagens secretas. Ébria de poesia, abre-me as janelas. Avisto as formas de outra velha conhecida minha. Na casa de Teresa, às vezes, encontro-me com a inspiração.

 

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