Arquivo do mês: julho 2016

Erros de continuidade

estela

“A noite era cheia daquelas pequenas nuvens muito brancas, que se destacam umas das outras. Vista através de uma ou outra delas, a Lua tinha em seu torno um halo azul, castanho e amarelo, com uns tons supostos de verde-vivo. Entre as árvores o céu era dum azul-negro profundíssimo, longínquo, irrevogável. As estrelas viam-se ora através das nuvens, ora, muito longe, mas entre elas. Uma saudade de coisas idas, de grandes passados da alma, talvez porque em reencarnações antigas, olhos nossos, no corpo físico, houvesse visto, este luar sobre florestas longínquas, quando selvática ainda, a alma infanta talvez pressentia, por uma memória em Deus ao contrário, no futuro das suas reencarnações, esta lua retrospectiva. E assim essas duas luas davam mãos de sombra por sobre a minha cabeça abatida.”

Bernardo Soares / Fernando Pessoa.

Não faz muito tempo que minha melhor amiga veio me confidenciar o sonho fenomenológico que teve, dias após ser mãe. Ela conversava na varanda de uma fazenda com meu pai – aquele ser digno de desdenhar os bestiários de Cortázar – em noite de lua cheia.

Talvez ele seja a pessoa mais capaz de transformar o realismo fantástico em verdade, no piscar de uma galáxia. Até consigo ouvir sua voz, naquela noite em que não sonhei, naquela pele onde nunca vivi.

Meu pai, em seu enredo, alertava-a sobre o famoso erro de continuidade, de um filme irretocável. Sua epifania, ao despertar, habitava os domínios extraordinários do óbvio: a maternidade não poderia abrigar tais descuidos.

Pensei, embasbacada, apaziguando meus silêncios em sortilégios: e se o maior erro de continuidade fosse minha própria existência? Estaria eu blasfemando a memória de todas as mulheres que caminharam até minha íris? Seria o momento de interromper essa escravidão cardíaca das estrelas, agora?

E se formos, todos nós, erros de continuidade, insistentes numa redenção impossível, delirantes com a vergonhosa liberdade? Suplicamos, a vida toda, por magos que sobrevoem as biografias, espalhando os famosos goles de velhice?

Aquela conversa, indecifrável, fez-me indagar acerca da minha ancestralidade. Por que, meu Deus, havia tanta fertilidade nos nossos dilúvios?

Herdamos os planos enclausurados, as cartas de amor seculares, uma linhagem de poetas. Contudo, ainda assobiamos as canções milenares, em madrugadas de festa? O café sempre cheira a saudade? Estaremos luminosas, quando a solidão cair do céu?

Pergunto a essas mulheres que me traçam o espírito: qual o peso que se dá entre o escuro e o entardecer? Quais revoluções intrínsecas devo lutar? No dinheiro que sobrar para a viagem: quais parentes visitar? Quantas são as fragilidades que me encontro autorizada a convidar, quando vir uma alma em frangalhos?

Ah, fardo irremediável da delicadeza!

Só peço, em vertigem anciã, às amadas que navegam pelo meu sangue: preservem-me alguma sanidade. Há mais dor no instante que precede o despertar do machucado. Acho que nenhuma dor dói, desde que não seja incomodada.

E reitero, enfim: nunca se esqueçam da minha devoção às palavras. Pois aprendi que não se morre de amor; morre-se de cachaça. Quando ideias se tornam interiores, esqueço-as como moedas. Um dia reencontro-me com elas, em lugares inusitados. A mim, sobram-me os caminhos, que perco tanto quanto canetas. Só que as canetas me fazem mais falta do que as estradas. As canetas são avós do futuro.

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Soberania

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Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.

Manoel de Barros, saudades tuas

 

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Amor à primeira vista

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Wislawa Szymborska

 

Ambos estão certos

de que uma paixão súbita os uniu.

 

É bela essa certeza,

mas é ainda mais bela a incerteza.

 

Acham que por não terem se encontrado antes

nunca havia se passado nada entre eles.

Mas e as ruas, escadas, corredores

nos quais há muito talvez se tenham cruzado?

 

Queria lhes perguntar,

se não se lembram –

numa porta giratória talvez

algum dia face a face?

um “desculpe” em meio à multidão?

uma voz que diz “é engano” ao telefone?

– mas conheço a resposta.

Não, não se lembram.

 

Muito os espantaria saber

que já faz tempo

o acaso brincava com eles.

 

Ainda não de todo preparado

para se transformar no seu destino

juntava-os e os separava

barrava-lhes o caminho

e abafando o riso

sumia de cena.

 

Houve marcas, sinais,

que importa se ilegíveis.

Quem sabe três anos atrás

ou terça-feira passada

uma certa folhinha voou

de um ombro ao outro?

Algo foi perdido e recolhido.

Quem sabe se não foi uma bola

nos arbustos da infância?

 

Houve maçanetas e campainhas

onde a seu tempo

um toque se sobrepunha ao outro.

As malas lado a lado no bagageiro.

Quem sabe numa noite o mesmo sonho

que logo ao despertar se esvaneceu.

 

Porque afinal cada começo

é só continuação

e o livro dos eventos

está sempre aberto no meio.

 

 

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Mulheres que transformam São Paulo no MIS

 

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A poesia ofende a realidade. A poesia sangra, inútil! A poesia, bulímica, suja as memórias insustentáveis da candura. A poesia, pornográfica, inexorável ultraje ao mundo.

A poesia violada por sua beleza, maldita. A poesia ferida nos desejos mais obscuros. A poesia sufocada em suas próprias lágrimas, sentimentais. A poesia com pavor à nulidade.

A poesia aborta juras de amor, a poesia silencia o agressor, a poesia dilacera a carne para ocultar seus contornos. A poesia se retrai, a poesia se dissolve, a poesia suicida.

A poesia é, contudo, alheia ao desajuste. Ela triunfa. Sempre. Desencontrada. Ah, ínfimo rascunho de cosmos onde vivemos: a Poesia é Mulher.

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Poemas que pareçam escritos por outra pessoa

Frisco

 

É bom lembrar lembranças dos outros
como quem se oferece para carregar as compras de supermercado
de outra pessoa
é bom usar palavras que nunca usamos, palavras
que só conhecemos dos livros de botânica dos anúncios
de cruzeiros dos contratos de locação
é bom portanto usar palavras emprestadas
nem que seja para lembrar
que só temos palavras de segunda mão
é bom ficar de vez em quando para dormir
na casa de um amigo
usar uma velha camiseta dele habitar
alguns de seus hábitos
usar à noite se possível
um de seus sonhos recorrentes
é bom encontrar uma vez ou outra pessoas
que conhecemos na infância
é bom nos esforçarmos por um tempo
para parecer com a lembrança delas
é bom topar de repente com um tanto de areia
no bolso de uma calça jeans
que há tempos não usamos
seguir as instruções do horóscopo de um signo
que rege um dia em que não nascemos
vestir-nos de acordo com a previsão do tempo
de uma cidade que nunca pensamos visitar
é bom ao menos uma vez na vida fazer uma viagem
em companhia de um parente morto
é bom escrever de vez em quando poemas
com viagens por dentro
com cidades e memórias de paisagens por dentro
que pareçam escritos
por outra pessoa

Ana Martins Marques

 

 

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Defenestrar-se

Bahea

Tive uma paciente que chegou até mim porque havia jogado sua casa inteira pela janela. O ocorrido veio ancorado pelo esquecimento. Essa semana invejei sua coragem, com a sutil diferença de que desejaria me recordar dessa libertação.

Ah, sentir o cheiro das lâmpadas escalpelando meus dedos, antes do voo! O incômodo do carpete, embaixo das unhas. Daria toda a minha poesia para testemunhar o sangue dos azulejos, violentamente expatriados das paredes.

Contudo, minha covardia me impossibilitou de conduzir a existência a esse limite. Não tenho a intrepidez da minha paciente. Então, pulei o muro de outra história. E defenestrei a mim mesma da vida dessa pessoa.

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Quero a fome

adelia

“A mim que desde a infância venho vindo,

como se o meu destino,

fosse o exato destino de uma estrela,

apelam incríveis coisas:

pintar as unhas, descobrir a nuca,

piscar os olhos, beber.

Tomo o nome de Deus num vão.

Descobri que a seu tempo

vão me chorar e esquecer.

Vinte anos mais vinte é o que tenho,

mulher ocidental que se fosse homem,

amaria chamar-se Fliud Jonathan.

Neste exato momento do dia vinte de julho,

de mil novecentos e setenta e seis,

o céu é bruma, está frio, estou feia,

acabo de receber um beijo pelo correio.

Quarenta anos: não quero faca nem queijo.

Quero a fome.”

Adélia Prado

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