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Tejo Bar: Santuário das Incompletudes

MIACOUTO

Nunca poderia deixar de imaginar que Lisboa fosse uma cidade de sítios mágicos. Contudo, o clichê literário, exaustivamente desdenhado, não me era capaz de seduzir, em primeira pessoa. Os cafés, ninho dos antigos fantasmas, as esquinas, mínimas e estonteantes, o monumental cinema abandonado.

Apenas quem guarda o horizonte em águas é capaz de viver saudade. Quantas eternidades são amanhecidas, quando o olhar estica os oceanos? Talvez esta seja a grande obviedade inexorável da cidade. Uma vontade de partir, afogada pela dor de ir embora.

Há, pois, um lugar que transcendeu sua existência para atravessar as distâncias insuportáveis da poesia.

Das ruas estreitas, penduradas pelas luzes envelhecidas, pouco se pode perceber. Os dilúvios taciturnos despistam o sonhador mais distraído. A obscuridade de informações. Quem conhece sabe chegar, quase em transe mediúnico. Quem o tem no imaginário se perde nos relatos incompreensíveis das testemunhas.  Só resta uma certeza: o coração é devorado, ao entrar, como oferenda ao santuário da incompletude.

Tejo Bar, ventre de Alfama, tantas letras ainda insistem em te traduzir! Ah, teus poetas vadios, tuas noites infindas, tua harmonia com a sincronicidade! Fico, inebriada, a inventar todos os amores que te fizeram enredo.

Onde existirá outra porta que nos devolva à condição de instrumentos da arte?

Basta bater.

É perfeitamente admissível que muitos o tenham rejeitado, ao se depararem com a solidão imperdoável. Criadora.

No entanto, aqueles que suportaram a entrega ao invólucro jamais o deixariam, novamente.

Miscigenar-se com outras peles, línguas ancestrais, impensadas melodias. Sentar à mesa de estranhos cúmplices. Declamar os silêncios. E depois, fartos de epifanias, é permitido estilhaçar-se em excessos.

É por isso, Tejo, que és também rio das despedidas. Teu lugar é uma nau, desprovida de bússolas. Teu pertencimento está em aceitar o rumo das marés. O mundo, agora, reverencia: envaideces as estrelas com a tua presença.

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Informações:

O Tejo Bar, agora também itinerante, já esteve em São Paulo e Bolonha. Olinda foi eleita a próxima casa natal, em plena Fliporto. A mística experiência poética será realizada no sábado, dia 16 de novembro de 2013, no Tribuna Bar e Restaurante Sabores Ibéricos, rua de São Bento, 210 | Varadouro, às 23h, com a condução do seu criador, Mané do Café, e outros frequentadores inverossímeis. Todos estão convidados para serem os novos membros da divina seita.

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Vídeos:

João Pires, Marcelo Pretto e Chico Saraiva no Tejo Bar em Lisboa:

Tejo Bar em São Paulo:

Tejo Bar em Bolonha:

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Corrigindo a vida

Há temor maior que a abertura de um livro? A surdez que antecede o espamo. Aquele momento fugidio – e para tantos sem nenhuma importância – em que se dilacera a capa? Existe alguma taquicardia superior ao deflorar açucarado desse rompimento?

Pois bem, eu cresci sentindo essa emoção. Cada página mergulhada me foi mais importante do que beijo de namorada. Por muito tempo, senti-me um estrangeiro de mim mesmo, um foragido do planeta, caminhante de muletas.

Olho hoje para tudo o que se considera mundo e me choco. Agora, agora que tenho pessoas em minha posse, agora que há relações verdadeiramente humanas pulsando dentro das minhas emoções, questiono-me sobre o meu teórico aprisionamento.

As pessoas que passam por mim – ao contrário dos meus esféricos personagens de outrora – são cartões postais de si mesmas. Paisagens magistrais, mentiras fotográficas, sóis em brasa sem luz alguma. Todos com um estarrecedor medo de viver.

Empiricamente, vejo que não há depressão, bipolaridade, ansiedade ou esquizofrenia. A maior patologia de todos é a própria vida. Pavor ao câncer, ódio à pobreza, ojeriza à criminalidade. Medo de matar, medo de morrer, medo da loucura, medo de desvelar a verdade. Medo do adoecer. E é tão devastador esse medo de viver que o medo torna-se invólucro do enfermo. E se morre, literalmente, de tanto se pensar na iminência dos perigos.

Dir-nos-ia o mestre Guimarães Rosa que o viver é muito perigoso. Quantas vezes fui acusado de covarde, pela escolha da literatura! Eu? Eu que naveguei por abismos impossíveis, por angústias algemadas. Eu que não recolhi os pulsos, para não esconder os quelóides do suicídio fracassado. Eu que dormi ao relento, acompanhado de seres inumanos. Fui, inerte, o grande protagonista dos anoiteceres da alma! Eu e os meus autores. Testemunha da única verdade. Porque escrever é ter a nudez tatuada.

Em minha casa não entra ninguém que não tenha sido convidado. Na minha cama só há espaço para volúpias. As mulheres dos meus devaneios têm lábios mais maduros e seios desprovidos de consertos mesquinhos. E as páginas me engravidam de vocabulários e sonhos e sentidos redondos. E, às vezes, eu declamo minha cumplicidade para impregnar minha sala em amarelecidas fumaças. Inebrio-me com o gosto mofado dos anos. E durmo tranquilo porque o amanhã me reserva o inefável.

Sim. Eu só posso ser o farol que se arrisca frente às tempestades porque me nutri em coragens escritas. E saio pelos papéis pulverizando insanidades e encorajando mentecaptos. No entanto, há mais veracidade em mim. Eu, Scott Johnsonn, temerário analfabeto da vida.

Afinal, quem é  letrado em viver? Vocês, com suas fobias, suas alergias ao oxigênio? Vocês, mais sujos que os mendigos? Mais vis que as meretrizes? Vocês, atordoados por ressacas morais! Por inúteis amnésias alcoólicas? Com o receio tedioso de soltar o ignóbil que os corrói por dentro?

Vocês, agorafóbicos que são! Ressecados pelo horror à chuva. Invencioneiros sem bússola. Infames pelas próprias castidades. Como se os deuses estivessem preocupados com seus pecados mínimos. Acham mesmo que os deuses explanam a pureza?

Eu cresci com os mitômanos abençoados. Homens e mulheres que corrigiram a vida através de suas inventivas narrações. Delirantes, fracos, derrotados. Imperfeitos. Mas que puderam transmitir esse impalpável fiapo. Que cicatrizaram sua inconsciência ao tecer oraculares linhas em sinceridade. Porque o outro, espelho do avesso, anestesia todas as essências. E é a literatura – de quem lê e de quem aceita ser hospedeiro – é ela a mãe das nossas terras.

Parem! Chega dessa repulsa a mim! Eu, como todos aqueles que des-cobrem os signos dessa humanidade, sou incapaz de dissimular. Transparente como são todas as infâncias. Descrevo minhas mazelas. Rasuro-me. Reviso-me. E sei. Jamais abrigarei o ponto final.   

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Míope é a vida!

Um lindo poema da Adélia Prado, interpretado pelo Mané do Café. E, incidental ou não, uma homenagem à minha mãe!

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Escrito no ar – roubado do projeto Scott Johnsonn

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Naquela noite fria e chuvosa em Alfama, o Tejo bar, como de costume, estava repleto de pessoas com diferentes feições e sotaques. Uma certa aura de mistério misturada com uma aparente disposição para o encontro fazia com que pequenos grupos de italianos, espanhóis, alemães, brasileiros, portugueses, cabo-verdianos e franceses (pelo menos foram estas pronúncias que pude reconhecer), partilhassem olhares, gestos, declamações, algumas palavras na língua alheia, acordes no violão e algumas canções. Este clima foi modificado bruscamente com a entrada daquele homem que se apresentou como Scott Johnsonn. Mesmo se portando de uma maneira visivelmente sob excessiva influência do álcool, somado ao péssimo português falado, Scott Johnsonn prendeu a atenção de todos com suas narrativas tão exóticas e cambaleantes quanto sua figura. O que sugeriam ser narrativas autobiográficas.
Contudo, aquele tom vacilante do Scott Johnsonn, de súbito, se transformou em um eloqüente e insurgente discurso. Igualmente súbita foi sua queda após pronunciar aquelas palavras à porta do Tejo bar. Por sorte, distraidamente havia deixado minha câmera ligada desde a bela declamação de Clarice Lispector feita por Mariana antes da chegada do Scott Johnsonn, permitindo a captura em áudio. Não sabíamos naquela altura que aquele homem que teve uma vida praticamente livresca iria deixar a sua última obra escrita no ar:
“Somos todos judeus alemães!” Não se engane foi apenas o Campo de Concentração que se modernizou. Antes e, não obstante arduamente, vivêssemos em uma época de servidão voluntária como bem diagnosticou La Boétie. A servidão ganha agora ares de um sinistro genocídio auto-imposto. Este escrito fará mais sentido se lido num domingo de noite. Caso isso não coincida, imagine-se envolto pela presença de uma segunda-feira rotineira e talvez já seja suficiente. Bem- vindo à Era dos micro-genocídios, aqui o seu corpo cruelmente morto não será necessariamente jogado em uma vala comum, afinal, na melhor das hipóteses, nós mortos-vivos-padrão nos encaminharemos, mais cedo do que gostaríamos, a alguma forma de transporte público lotado para depois termos a honra de sermos explorados. Um verdadeiro privilégio para um contingente cada vez menor. Isto não é tão somente a expressão indignada de um vagabundo insatisfeito com a sua própria vida como já me questionaram, é mais um ruído de alguém que pensa que a nossa pretensa harmonia, mais do que enlouquece, mata. O cigarro me advertiu: o Estado mata! Aliás, para lembrar uma “equação” foucaultiana de um de seus cursos aritmética da existência aplicada à guerra, o Soberano que fazia morrer e deixava viver, entretanto, o Estado contemporâneo faz viver e deixa morrer. Então não me acusem de cinismo, olhe para nossa organização e verá bem mais… Ou então, antes de ir trabalhar repare bem ao escovar os dentes na sua cara de zumbi. Mas tente se alegrar, os tempos são outros, você morreu, mas deixaram-te viver!
Mas antes de sair repare bem na sua casa, em como a solidão transformou a nossa relação com os eletrodomésticos, esses arautos da vida “moderna”. Abrimos a geladeira para meditar, ligamos a televisão para cuidar de nossos filhos, observamos pelo computador o que se passa lá fora… Se estes espantosos atos lhe dizem alguma coisa, então por que não rebatizar esses nossos companheiros?! Geladeira-oráculo, Televisão-babá, Computador-janela. É favor não me classificar como romântico antes de terminarem de ler. Ao mesmo tempo diria que isso é um julgamento quase inevitável para quem está praticamente etiquetando os seus costumes com um tom de desaprovação, algo que pode realmente ser lido como um saudosismo de uma comunidade perdida. Contudo, prefiro me inspirar no Bruno Latour que propôs de uma maneira desconcertante: e se jamais fomos modernos? Então, respondo perguntando: isto faz de nós pós-modernos-medievais?! Logo, comunidade nunca existiu, saudade tampouco! Então foi assim e Hakim Bey em parte me daria razão: mentiram sobre bem e mal, sobre o nosso amor carnal, incutiram massivas doses de medo, umas porções generosas de culpa e boas pitadas ressentimento… Pronto! Está dada a receita do pão-nosso-de-cada-dia. Só não se esqueçam de rezar antes da refeição e incluir nos agradecimentos o mestre-cuca Nietzsche, afinal ele que traduziu para o alemão o nosso cardápio favorito.
(Alex Reinecke de Alverga)

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Lendo Clarice… porque eu preciso dela

PRECISA-SE

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilarecerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

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A mais bela

Clarice fez muitas cócegas dentro de mim. Invadiu muitas das minhas sonhadas poesias. Eu retribuo. Eu a invoco todas as semanas, em Alfama. Engraçado ter encontrado em Lisboa o meu lugar preferido de todos os que já elegi – o Tejo Bar. Atrás da minúscula porta escondem-se palmas silenciosas e espíritos de música. Eu me cubro de coragem. Deixo a amada sair pelos poros. Vejo evaporar o vinho dentro da minha voz. Finalizo transtornada. Fecho a porta para fumar um cigarro. E sou inundada por um frio indizível. Depois do parto, o corpo estremece. A minha Clarice fala o mais belo português.

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