Arquivo do mês: março 2010

My Favorite Things

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Onde vivem os dons

“Se um dia me arriscar num outro lugar, hei-de levar comigo a estrada que não me deixa sair de mim.” Mia Couto – Terra Sonâmbula.

Há semanas procuro uma resposta. Na verdade, sei que as respostas são ínfimas, fragmentadas na cosmologia dos pensamentos. Não há nada nelas que assossegue o ser. Assim mesmo, sonho com o seu vulto lampejando a alma em epifanias.

Onde moram os dons? – questionava-me. Quando eles são despertos? Cada pessoa abriga dentro de si uma indelével cicatriz da arte? Somos todos convidados, bem-vindos para acordar em sua cama? Há sinais suficientemente claros para que a vigília nos possua? É possível viver em letargia? Existirá dor maior do que o hibernar de uma vida inteira?

Nenhuma resolução foi a mim concedida, desde que todas essas interrogativas passaram a povoar minha escrita. Então decidi ir atrás daquilo que me era palpável: os vígeis.

Não foi necessário pensar muito. Em poucos segundos já existia uma pessoa reverberando em mim: meu amigo músico Flavio Tris. Ele concordou em me receber para uma entrevista, sem questionar a minha motivação.

E lá estava ele. Pronto para as minhas loucas perguntas naquela quarta-feira insuportavelmente ensolarada. Quis ser cronológica, para investigar sua meninice primeiro. Verificar, meticulosa, todos os espaços que me trariam algum conforto. Sábio, meu entrevistado soube lidar com as minhas aflições. E respondeu a cada pergunta como se revisitasse sua estrada musical.

O hospedeiro, então infante, ainda nada sabia sobre seu destino. Contudo, tinha as mãos pousadas no piano. Por mais que as referências parentais gritassem a sua jornada, ele parecia alheio a qualquer tipo de determinismo. Talvez fosse a certeza do reencontro. Mia Couto já advertia: “Em criança não nos despedimos dos lugares. Pensamos que voltamos sempre. Acreditamos que nunca é a última vez.”

As aulas de piano não vociferaram seu chamado. Pelo contrário. Era quando acabavam que o menino mais tinha vontade de tocar. A desobediência eu já conhecia: todo dom é insubordinado.

Depois, veio o violão. Sem nunca uma aula ter feito parte dessa parceria. Na adolescência, as cordas, associadas às aulas de gramática, trouxeram o sabor primeiro dos grandes músicos brasileiros.

Contudo, a arte lhe seria um fardo insultuoso: todos os seus irmãos já navegavam por esses oceanos marginais. Assim, ele optou pelo Direito. “Fui ser ‘normal’ e aliviar minha família”, disse a mim. “Acreditava que a carreira seria uma ferramenta de transformação social, além de o futuro ser rentável e sólido”.

A música, pois, não deixaria Flavio em paz. Mais tarde, no recolhimento solitário, ilhado pela melancolia amorosa do intercâmbio linguístico em Montpellier, ela o abraçaria e o tornaria arredondado. Terapêutica.

Foi num desses diálogos silenciosos que ele tomou gosto pelas incertezas. “Passei a elogiar os mistérios da vida em minhas canções”. Esse reinado de possibilidades, a abertura de janelas, infinidade de caminhos. A imersão no vazio fértil o estimulava. E o olhar surpreso ia invadindo as paisagens francesas e a obra do artista.

A metamorfose da voz também se ofereceu em ontologias. É o caso de “Brisa Boa, Vento Leve”. O amor já não povoava suas composições: “O compor foi se modificando, alcançando minhas percepções vitais. Tocar a natureza. Buscar um lirismo para enovelar  situações corriqueiras.”

A arte é uma casa que resiste às tempestades da vida mundana. E não é coragem, frente ao destino. Flavio permitiu a si regressar, àquilo que já na infância fora dito. Abandonou o terno e renasceu, rebatizando-se. Veio o Tris: “Há uma ambiguidade na minha escolha. Tris é parte do sobrenome de minha mãe. Tris remete a triz. Tris me leva à triade: somos três músicos. O Maurício Maas, no acordeon e percuteria; e o Tchelo Nunes, no violino e baixo elétrico.”

E eu não perdi a oportunidade de provocá-lo: “Dá muito medo? Largar o pontilhar certeiro do seu sucesso na advocacia para a inesperada condição da música?” Ele nem titubeou: “Meu medo de não tentar seguir o chamado é muito maior. Tenho certeza de que iria me frustrar, caso permanecesse vivendo nos moldes sociais que me impus.”

Deambulei, inerte por aqueles dizeres familiares. Era o peremptório se apossando de mim. Porque a arte, se não tem espaço para a florescência, inflama a pele. O dom, como a loucura, fica à espera de um cisco que o acorde.

Mergulhei em silêncios no meio da entrevista. Não havia mais nenhum assunto a ser explanado. Nada mais importava. A confluência: era a vida dele sendo recordada; era a minha vida sendo preenchida em improvisos. Nessas horas, o coração se agiganta.

Ali, aconchegada pela melodia, todos os devaneios de orfandade iam para o exílio. Extintos. Quando a arte nos atinge, não adianta mais tentar arrancar os brancos fios, enluarados. Há de se aceitar a ancestralidade libertária, como as árvores que assumem ser berço dos passarinhos.

Ps: quem já ouviu o Flavio, compreende a invasão prenunciada do vício: como a dor que dá a leitura das últimas linhas de um livro sublime, a gente torce para que a madrugada se enlace ao infinito. E que imponha aos nossos ouvidos ateus a condição de estarem atentos: por favor, não percam as notas na imemória!

Para encontrá-lo: hoje, 25/03/10, a partir das 21h no Caldeira Acústica – Casa das Caldeiras. 

Myspace: 

https://myspace.com/flaviotris

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Grandes são os desertos…

Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

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Fahrenheit 451*, Oralidade e Memória


O caixão passa despercebido pela multidão, inerte pelas imagens paralisantes de uma televisão. Uma criança – pois a infância é menos distraída – pergunta aos pais: quem é o morto? O pai responde, sem tirar os olhos entorpecidos: “É a literatura, meu filho. Ela não tem mais lugar nesse mundo”.

Já nos anunciava Ray Douglas Bradbury, escritor da história que deu origem à obra prima de François Truffaut “Fahrenheit 451” (1966) que a televisão nos deixaria órfãos do prazer literário. Embriagados pelo imediatismo dos videoclipes, em poucos anos não só deixaríamos de ler, como passaríamos a repreender aqueles que quisessem passar horas solitárias em companhia de um livro.

As palavras podem soar extremistas, ou mesmo absurdas. No entanto, é inegável a metáfora. Até mesmo nossas refeições são apimentadas pelo televisor. Dificilmente uma pessoa passa um dia sem ligar o aparelho. Postas de lado, as pequeninas folhas tornam-se cada vez mais amareladas, esquecidas na cabeceira. O livro se tornou uma espécie de adorno, mais um item indispensável na decoração de uma morada.

O início do filme já anuncia uma de suas simbologias. Os créditos são lidos por uma voz em off. Não há nenhuma letra, nada que possa ser lido pelo espectador. A primeira cena do filme já demonstra o suspense que irá permear toda a trajetória da película. Um rapaz recebe um telefonema que o alerta do perigo de permanecer em sua casa. Em poucos segundos ele abandona o recinto. Na sequência, uma equipe de bombeiros chega ao local e começa a busca por livros. A primeira referência é uma edição condensada de Dom Quixote. Toda a literatura impressa presente na casa é defenestrada. No meio de uma multidão de curiosos transeuntes, os livros são incendiados pelos bombeiros.

Em nenhum momento do filme fica explícito qual é o país ou a época. Entretanto, trata-se claramente de um regime totalitário no qual as pessoas são proibidas de ler. O único meio de comunicação permitido para os cidadãos é a televisão – fonte de informações nitidamente manipuladas.

O protagonista, Montag (Oskar Werner), é um jovem bombeiro dedicado ao trabalho. No princípio do filme ele não se questiona sobre a natureza de seu ofício, nem entra em conflitos existenciais. Todavia, ao conhecer uma vizinha, a professora Clarisse (Julie Christie), sua vida é posta em xeque. Ela o questiona se ele nunca lê nada daquilo que queima. A primeira epifania do filme é então anunciada – por que se deve incendiar os livros se nem ao menos se sabe o que neles está contido?

A partir desse momento, Montag aproveita suas buscas para guardar os livros em sua casa. Com uma dificuldade terrível, consegue ler as primeiras linhas de David Cooperfield (Charles Dickens). É engraçado identificar o movimento infantil da personagem. A falta de intimidade com a leitura faz dele um analfabeto funcional: é preciso ler em voz alta e pausadamente.

Em contraposição à evolução interna de Montag está sua mulher, também vivida pela atriz Julie Christie. A personagem Linda é praticamente um zumbi. Passa os dias em frente à televisão, absorvendo sem consciência crítica tudo aquilo que lhe é mostrado. Toma diversos comprimidos que a anestesiam dos sentimentos mais sofridos.

Um dos momentos fundamentais para compreender a mente de uma sociedade pautada em televisores é o diálogo entre Montag e Linda. Logo depois da transformação instantânea da personagem principal pela leitura, ambos discutem sobre a importância do livro. Ela demonstra uma profunda ojeriza. Diz ao marido que os livros deixam as pessoas tristes. A essa altura, Montag já se deu conta de que a tristeza é parte integrante e essencial do ser humano.

Montag vê-se, pois, títere do sistema. Incendiar a memória humana já não é mais concebível para ele. O ápice de sua epifania ocorre quando ele testemunha uma velha senhora a preferir ser queimada junto com seus livros do que existir em um mundo desprovido da imaginação literária.

A obra de Truffaut é toda envolta em maneirismo. A inversão dos valores humanos – salvaguardar a cultura e a história através das bibliotecas – é uma forma de lidar com a ambivalência constituinte do humano. O uso dos paradoxos por Truffaut não é apenas intuitivo ou acidental. Colocar as coisas de cabeça para baixo – bombeiros que provocam fogo, pessoas voluntariamente impossibilitadas de ler, livros vistos como armadilhas para a humanidade, etc. – tudo faz parte de um tear chamado Nouvelle Vague, movimento artístico da década de 60. Os realizadores que participaram dessa vanguarda, como Godard em Acossado, tinham como principal objetivo expor a palavra louca.

Talvez o grande triunfo do filme ainda fique para o final. Após o abandono de sua função, Montag descobre através de Clarisse que há uma sociedade alternativa, marginal ao regime totalitário. É a sociedade dos homens-livros. Todas as pessoas que não suportaram a ditadura televisiva formam uma espécie de aldeia onde cada um tem a obrigação de se tornar um livro, decorando-o.

É necessário ressaltar que a origem etimológica da palavra decorar tem o sentido de colocar no coração. Ou seja, em seu signo primeiro, decorar nada tem a ver com o movimento mecânico de ensino.

Sendo assim, os homens-livros têm a missão de memorizar o livro preferido e depois disso queimá-lo, para não serem condenados pelo regime. A beleza da mensagem é simples: nenhuma ditadura pode atingir o coração e a imaginação do ser humano.

Fahrenheit 451 e a Idade Média: aproximações

A primeira consideração diz respeito ao livro. No filme os livros são considerados diabólicos, elementos que retiram o homem do contato com seus semelhantes. É uma oposição à dimensão sagrada que o livro assumiu durante os tempos medievais. Há uma inversão de tudo: bombeiros que incendiam, televisões que educam, livros amaldiçoados. De acordo com Chevalier & Gheerbrant (2002), “o livro fechado significa a matéria virgem, conservando o seu segredo, mas se aberto a matéria está fecunda e o conteúdo é tomado por quem o investiga”.

As casas do filme também requerem uma breve análise: são todas à prova de fogo. Isso pode carregar o sentido de que toda forma é preservada, frente ao conteúdo. Os primeiros livros da Idade Média tinham características semelhantes: como eram objetos muito caros para serem confeccionados, suas capas eram enfeitadas por diamantes. As pessoas gostavam de mostrar os livros como símbolo de status.

A supremacia do fútil, da superficialidade é apontada por diversas ocasiões no filme. Uma muito nítida é a personagem Linda, esposa de Montag. Ela supre suas angústias com pílulas que a retiram da tristeza. Para ela a verdade não tem nenhuma importância, “porque dói”. Outro exemplo é o toque. Em várias cenas é possível ver as personagens a tocar em suas peles, como se o corpo fosse a única fonte de prazer.

Assim como as bruxas foram condenadas por estarem a difamar a palavra de Deus, a enxergar outras realidades inconcebíveis para a Igreja Católica, os livros em Fahrenheit 451 são oráculos da dúvida, do sofrimento, da transcendência. Diz o capitão a Montag: “A única maneira de sermos felizes é que sejamos todos iguais”. O diferente, aquele que tem consciência crítica torna-se demasiado perigoso para os regimes totalitários.

O filme apresenta duas imagens muito belas que dizem respeito à memória. A primeira delas é um dos últimos diálogos que Montag tem com sua mulher. Ele a questiona onde foi que os dois se conheceram. Ela não consegue mais se recordar. A incapacidade de lembrar-se impede a evolução do ser humano.

A segunda imagem é ainda mais nítida. No fim do filme, quando Montag descobre que existe uma sociedade alternativa, na qual as pessoas são os livros, é quase impossível não ter o questionamento: isso é totalmente inverossímel! Nenhuma pessoa é capaz de decorar um livro inteiro!

Só um pesquisador atento pode desconstruir essas exclamações. Apenas alguém que estudou a fundo a Idade Média conhece a capacidade do ser humano de memorização. Decorar – de coração – é algo que há em nossas capacidades intelectuais, embora tenha se perdido ao longo do tempo. Segundo Bradbury (2003):

— […] Todos nós possuímos memória fotográfica, mas passamos a vida aprendendo a bloquear as coisas que estão realmente lá dentro. Simmons trabalhou nisso durante vinte anos e agora dispomos de um método pelo qual podemos evocar tudo o que já tenhamos lido. Montag, algum dia você gostaria de ler a República de Platão?

— Claro!

— Eu sou a República de Platão. Gostaria de ler Marco Aurélio? O senhor Simmons é Marco Aurélio. […] Quero que conheça Jonathan Swift, autor daquele pernicioso livro político, As viagens de Gulliver! E esse sujeito aqui é Charles Darwin, e este aqui é Schopenhauer, este outro é Einstein, e este aqui ao meu lado é o senhor Albert Schweitzer, um filófoso realmente muito gentil. Estamos todos aqui, Montag. Aristófanes, Mahatma Gandhi, Gautama Buda, Confúncio, Thomas Love Peacock, Thomas Jefferson e o senhor Lincoln, se você quiser. Somos também Mateus, Marcos, Lucas e João. […] Somos todos fragmentos e obras de história, literatura e direito internacional. Byron, Tom Paine, Maquiavel ou Cristo, tudo está aqui. (2003, p. 186-187)

O menino que está a guardar o livro de seu tio, em uma das últimas cenas, é uma metáfora para a aparente dicotomia memória/esquecimento. Ele só consegue memorizar as últimas frases porque coincidem com a neve e a morte do seu mentor. O esquecimento é o desejo do menino em eternizar o seu tio, tal como na Idade Média o esquecimento dos poetas não está assim tão distante da memória. Segundo Ferreira (1991), esquecer também faz parte do legado do trovador medieval pois é algo:

que desliza, sob os mais diversos pretextos, nas sequências narrativas, situações em que se mascaram, eufemizam ou simplesmente se omitem fatos e passagens. Deve-se lembrar a questão da seletividade e de como o indivíduo, a comunidade ou o próprio atrito entre eles expulsa os elementos indesejáveis, aquilo que faz explodir a tensão. A dupla esquecimento/memória, portanto, é apenas uma aparente oposição. Numa grande medida, estas oposições são instrumentos conjuntos e indispensáveis em projetos narrativos que dão conta de eixos do conflito.

A oralidade, tanto no filme como na Idade Média, é parte constitutiva da comunidade. É só no grupo de exilados que Montag encontra seu lugar, liberto da ditadura igualitária que paralisa. Jamais seria possível encontrar seu caminho sem estar no mundo com outras pessoas que o compreendessem.

As pessoas que eram responsáveis pelas tertúlias medievais também representavam o arquétipo da comunidade na qual viviam. Segundo Zumthor, “A voz poética assume a função coesiva e estabilizante sem a qual o grupo social não poderia sobreviver” (ZUMTHOR, 1993: 139).

Uma última consideração que aproxima os leitores da Idade Média ao protagonista do filme é o ruminar. Montag precisa ler em voz alta, devagar. Passa os dedos por cima das palavras, como uma criança que inicia a alfabetização. Porque na realidade é uma metáfora: ele está a irromper todo um mundo imaginário, como se fosse a primeira vez – e é.

Não é possível nem necessário imaginar se Bradbury ou Truffaut pensaram em resgatar os antigos ensinamentos da oralidade ou da memória. Todavia, o filme ultrapassa as óbvias análises. Não é apenas um alerta aos perigos totalitários. Não é um hino de amor à literatura, somente. É um filme que toca em nossas potencialidades adormecidas. Desperta das trevas conceitos e símbolos que caminham com a humanidade há milhares de anos. Arde os olhos como o fogo.

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*O título Fahrenheit 451 é uma referência à temperatura que os livros são queimados. Convertido para Celsius equivale a 233 graus.

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Looking for flying saucers in the sky…

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O Blog e o Espetáculo

O cadeado é um signo do segredo. Ele tranca, silenciosamente, o recôndito entre as páginas do diário. As confissões mais cruas, a nudez dos sentimentos, a brutalidade dos defeitos. Tudo estava protegido pelas chaves interiores do coração escritor. Durante séculos e séculos foi assim que o protagonista-autor lidou com suas inefáveis verdades.

O íntimo, hoje em dia, abriu as portas ao mundo. O particular atinge quem estiver interessado na leitura. Com o surgimento dos blogs, no final da década de 90, a privacidade perdeu seus contornos. As paredes sucumbiram ao exibicionismo. Os núcleos sigilosos possuem as portas abertas. As algemas da clausura estão enferrujadas. E o palco está inteiramente iluminado. Basta saber se haverá expectadores na plateia. Afinal, todos parecem estar mais preocupados com as suas próprias atuações.

Em pouquíssimos anos de existência – o que dificulta muito uma bibliografia minuciosa do assunto – a blogosfera cresceu em imensa escala. Acredita-se hoje que há cerca de 112 milhões de blogs em todo o mundo.

O que tantas pessoas podem ter a dizer? Será que existe uma distância tão grande assim entre nós? Precisamos manter vivos os pensamentos em procuras do google? “Já que não consigo verbalizar, eu te mando a página do meu blog!” A página do blog fala mais das pessoas do que elas próprias são capazes de expressar. Sendo assim, o blog é sempre uma resposta. Mas, afinal, quem é a pessoa que se contrói no blog? Por quais razões o secreto está brutalmente escancarado em rede mundial?

Debord, em 1967, criou o conceito de Sociedade do Espetáculo. Quase trinta anos antes do surgimento dos diários virtuais, ele vislumbrou desdobramentos inacreditáveis que o mundo iria manifestar.

Recorrer a ele para analisar as marcas existentes nas páginas pessoais é quase instantâneo. Afinal de contas, a construção de um blog com o objetivo de desnudar a intimidade é um sintoma do narcisismo desvairado que enlouqueceu a todos nós:

Não se pode contrapor abstratamente o espetáculo à atividade social efetiva; este desdobramento está ele próprio desdobrado. O espetáculo que inverte o real é produzido de forma que a realidade vivida acaba materialmente invadida pela contemplação do espetáculo, refazendo em si mesma a ordem espetacular pela adesão positiva. A realidade objetiva está presente nos dois lados. O alvo é passar para o lado oposto: a realidade surge no espetáculo, e o espetáculo no real. Esta alienação recíproca é a essência e o sustento da sociedade existente.

Ao transpô-lo à virtualidade, percebe-se facilmente o que está implícito. Alimentando, dia após dia nossos blogs, podemos inventar nossas próprias vidas, transformando-as em peças muito mais interessantes. Nós, autores, não estamos realmente despidos perante nossos leitores, muito pelo contrário: fingimos a nueza que nos dê contornos mais harmoniosos. Corpos de mentira, espectros daquilo que acreditamos ser mais sedutor para quem nos lê.

As relações humanas tornaram-se um jogo de personas, de aparências mais belas. Os nossos defeitos puderam ser – a partir de fotos felizes e relatos fantasiosos – apagados. O teclado assume o papel de narrador da história que se gostaria de contar. A realidade é feia, cheia de cicatrizes e errâncias.

Debord invade as linhas, conduzindo-nos a aberturas do pensar ainda mais penosas que a existência da representação. Ele expõe que é o espetáculo o grande construtor da realidade, e que a sociedade se pauta naquilo que aparenta para conduzir suas doutrinas e verdades.

Estamos a negar a existência de nós mesmos por qual motivo? Por que nos é tão assustadora a incapacidade de sermos perfeitos? Por que o palco e a plateia clamam por tamanha energia? A incompletude é inerente ao humano. Talvez a fragilidade não deva ser negligenciada. A sombra é essência. Ora, o horrível negrume dos defeitos! Ele merece ser esquecido?

Da mesma maneira, essas falsas verdades estão em constantes modificações. A cada novo amanhecer, as descobertas são supérfluas e desprezíveis. Basta um piscar de olhos para que um comportamento saia de moda e outro tome seu lugar. A mídia eletrônica reformula as notícias de acordo com a apreciação do público. Nas palavras de Calvino:

Vivemos debaixo de uma chuva ininterrupta de imagens; os mais poderosos meios não fazem senão transformar o mundo em imagens e multiplicá-los através de uma fantasmagoria de jogos de espelhos: imagens que em grande parte estão privadas da necessidade interna que deveria caracterizar toda a imagem, como forma e significado, como força de impor à atenção, como riqueza de significados possíveis. Grande parte desta nuvem de imagens dissolve-se imediatamente, tal como os sonhos que não deixam marcas na memória; mas não se dissolve uma sensação de estranheza e mal-estar.

Porque essa sensação de estranheza fica sempre em nós? O estrangeiro nos pertence? Por que tudo se dissolve com a mesma facilidade que cria a matéria? E o homem líquido é também paradoxal: deseja uma solidez de resposta. A humanidade que somos clama por raízes e segurança. Mesmo que o amanhã as apague. É só deletar o blog e o passado morreu. Facilmente se encontra uma imagem mais bonita que ilustre a irrealidade teatral. Afinal de contas, o que é a memória na sociedade espetacular?

Uma das contradições mais engraçadas que se pode encontrar, na análise de um blog pessoal, diz respeito à linguagem. Em sua maioria esmagadora, os artigos são de uma pobreza semântica inacreditável. Além das abreviações típicas do mundo virtual (vc; aki; kd; etc.), vemos uma infinidade de erros gramaticais e problemas ortográficos. Por que será que os atores principais dos blogs não têm esse tipo de preocupação? A língua está obsoleta? Uma imagem vale mesmo mais do que mil palavras? “Diga isso sem usar palavras”, diria Millôr Fernandes.

Ora, é claro que sim! Muito mais importante é estar vestido adequadamente, ter as unhas devidamente cortadas, os cabelos iluminados por cremes caros. A maneira de falar ou escrever é irrelevante, se o corpo está em forma. Em blogs pessoais, mais vale que o autor seja fotogênico, que tenha bons vídeos, que saiba entreter seus leitores. Ele está, então, anos luz à frente de um autor preocupado com as miudezas da escrita.

Somos, assim, vítimas e protagonistas do espetáculo. Escolhemos livros pela beleza das capas. Acreditamos nos programas televisivos como se realmente os jornalistas fossem seres desprovidos de opiniões e tendências. A nossa avidez por novidades é incalculável. E o blog não é diferente disso tudo: é apenas mais uma triste fotografia do planeta, na era pós-moderna.

Será que os pretensos escritores dos blogs pessoais estão fartos de não pertencer ao nefário espetáculo que é o mundo? E esse sentimento de infelicidade, de ter apenas uma vida normal pode enfim ser aniquilado, com postagens megalômanas?

Contudo, seria imensamente triste se existisse uma homogeneidade nesse universo, se toda e qualquer página possuísse as mesmas intenções. Nem só de figurantes fantasiosos vive a blogosfera. Nem todos os autores gostam de se expor deliberadamente. Não é porque o espetáculo tomou conta do mundo que não se pode tirar proveito disso.

A comunicação virtual dá espaço para pessoas que sonham em publicar seus livros. Infelizmente, as editoras estão mais interessadas nas vendas do que na qualidade dos textos. É muito provável que sejamos privados de grandes escritores, todos os dias, pela falta de competência do mercado editorial.

Claramente não é possível afirmar que os donos de blogs literários sejam mais evoluídos que os outros, nem que superem a sociedade espetacular. Todo autor precisa do público para existir. No entanto, o público não pode ser regente do autor: quem escreve deve ser maestro de si mesmo, dir-nos-á Nietzsche:

O pensador não necessita da aprovação e dos aplausos, desde que esteja seguro de seus próprios aplausos: desses não pode prescindir. Existirão pessoas que dispensam esta ou aquela espécie de aprovação? Duvido; e mesmo dos mais sábios dizia Tácito, que não era nenhum difamador de homens sábios: “ainda para os sábios o desejo de glória é o último que desistem” – o que nele significa: nunca.

A imensa diferença entre um blog com vontade de ser livro e um blog pessoal é o conteúdo. Um deles assiste ao espetáculo e sucumbe às montras. Conta-nos histórias privadas sem critérios pré-definidos. Expõe suas entranhas na rede. Espera pelo aplauso. Utiliza-se de um linguajar pobre. Desabafa, exibe e destranca os velhos cadeados do diário.

Os blogs literários não estão imunes ao palco. Pelo contrário, eles aproveitam-se dessa enorme vitrine que é a rede para divulgar seus trabalhos, quase como um curriculum vitae.

Temos, por fim, duas verdades inexoráveis. O formato de blog vai se multiplicar cada vez mais, até mesmo como recurso jornalístico. E o palco irá permanecer aceso, gigante, louco por plateias. Cabe a cada um de nós utilizá-lo como janela para apreciações mais profundas, mais pautadas em conteúdo.

Se há nos homens a consciência do Espetáculo, fica muito mais fácil avaliar quando somos engolidos pelo jogo narcísico. E não se pode agir com pessimismo, neste caso. Devemos iluminar o lado bom. Quantos músicos, quantos escritores, quantos pintores nossos olhos poderão conhecer, com a democracia virtual? A ideia de que a nossa sociedade é a primeira capaz de superar a ditadura dos meios artísticos é maravilhosa. Eu também sonhei em ser um livro. Utilizei esse pequeno espaço para alcançar o tão esperado papel. E repousarei meu epitáfio no interior da livraria.

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Redução Fenomenológica: O Velho e a Lupa*

“Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura…”.

Alberto Caeiro, o mestre de Pessoa

Os anos foram ficando cada vez mais silenciosos para o velho funcionário da livraria. As roupas encolhiam o corpo alquebrado. As horas, empoeiravam-se pelas frestas da janela. No entanto, pela lupa, ele levava a letra à imensidão. E descobria-se numa terceira infância. Já inundado de madrugadas e vazios, inebriava-se em chuvas e acariciava as estrelas. Não pelos tolos desejos atendidos, mas pela lembrança dos sonhos estarem ali, junto ao espaço sideral.

Agora sabia: os grandes holofotes só cabem nas nádegas dos vagalumes. Enquanto suas medidas iam diminuindo em velocidade colossal, a imagem mínima trazia consigo a concentração do devaneio. A página, condensada, era um rosto de intimidade. Porque o poeta não rebusca os desvarios para ser belo. Da simplicidade – invisível a olho nu – brotam universos de destinos. Os astros têm seus núcleos como referência. E em cada átomo existe um mundo, esperando para ser sonhado.

O velho, miniatura de si, e o livro. O velho, menino, diante do diminuto. E a lente, larga, incomensurável. Homem e infinito se tocam na menor das palavras,  instante de comunhão que atinge a tranquilidade pueril. Ilimitados por um tempo que já não há.

O Cosmos, pois, presentifica-se na fotografia. Um olhar esgazeado antecipa, pré-vê, pré-sente tudo aquilo que o mundo canta. O velho é a voz majestosa da poesia em plenitude. Ele precisa chegar tão perto das coisas que deseja fundir-se com elas por alguns segundos. O distanciamento impossibilitaria quaisquer versos autênticos. É na pequenez superlativa – como a infância – que a matéria poética é encontrada. E a vida, enfim, toca a redondeza. Cíclica, como são todas as quimeras.

*Essa foto fantástica foi tirada pelo meu amado amigo Raphael Murena, durante sua viagem à Europa. Fevereiro/2010

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