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Estrela da tarde

Carlos do Carmo 

Era a tarde mais longa de todas as tardes
Que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas
Tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca,
Tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste
Na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhamos tardamos no beijo
Que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz
Que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto
Tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite,
Para haver outro dia.
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.

Foi a noite mais bela de todas as noites
Que me aconteceram
Dos noturnos silêncios que à noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.

Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram.

Eu não sei, meu amor, se o que digo
É ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
Dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto.
Meu amor, nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto!

 

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Sol Velho Lua Nova

Eu havia acabado de chegar ao Mezinhas de Alfama, bar de um querido, à espera do encontro que poderia render umas boas conexões em Lisboa. Gente do bem, projecto lindo, lua de gato de Alice.

Recebi, inesperada, a mensagem dele, meu amigo, Flavio Tris, sobre o lançamento do seu disco, uma semana depois daquela quinta-feira, minguante. Ganhava o maior presente de aniversário adiantado, naquelas janelas pululantes de facebook. Entre um gole de vinho e um suspiro para a madrugada, a engatinhar.

“Não se preocupe, meu bem!” “Aproveite a sua noite. O disco é pra ser ouvido de fone, com calma.”

Respeitei os dizeres, sábios, humildes, desencontrados das falsas iluminações egóicas. Ao amanhecer, quando voltei para casa, pés descalços e alma imaculada pelo nascer do novo dia, finalmente ouvi Sol Velho Lua Nova.

Lembrei-me de que a arte nos é selvagem. Perto do coração, tudo nos deixa primitivos.

Em meados de dezembro, prematuro disco, assisti ao show que anunciava a mudança: sereno será. Ele convida-nos a degustar tempestades posteriores, alheias às harmonias de suas nove redondas cancões.

És Bob Dylan. E eu nem gosto de inglês. És xamã, em noite de mirações. Cantas as manhãs ancestrais à nossa redenção cósmica. Faz-nos mergulhar nos azuis uterinos que abençoam os sonhos mais pueris.

Chamei os orixás, os dilúvios, os litorais. Oiço o teu canto, além-mar. Que sejam mais quinze mil eras para descrever as nuanças da tua Terra. E oitocentas mil galáxias para cobrir a tua voz, única.

Incendeias os amores que me virão, banda sonora obrigatória. Cá estou, exausta, inebriada por luzes e horizontes.

Hoje, Flavio, eu não quero esquecer de mim. Cantas pelas janelas que desnudam o Tejo, ao pôr-do-sol. Tua música se confunde com o céu de Van Gogh. Meu escrever almeja ser rupestre.

Não sei quantas estrelas se apagaram. Mas encontraste os caminhos que nos trazem à essência. O som primeiro ignora todas as metáforas. Pulsa, pertence, atrás da palavra. Antes de alvorecer os insones futuros, tu os previste.

Alcancei, ao ouvir-te, a mansuetude de dentro, enfim.

O álbum está disponível na íntegra no YouTube:

 

 

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Compreensões inexplicáveis

Cousa mais bela essa música… E eu não sei nada sobre a vida do Leo…

Leo

Milton e Chico

Um pé na soleira e um pé na calçada, um pião
Um passo na estrada e um pulo no mato
Um pedaço de pau
Um pé de sapato e um pé de moleque
Leo

Um pé de moleque e um rabo de saia, um serão

As sombras da praia e o sonho na esteira
Uma alucinação
Uma companheira e um filho no mundo
Léo

Um filho no mundo e um mundo virado, um irmão
Um livro, um recado, uma eterna viagem
A mala de mão
A cara, a coragem e um plano de vôo
Leo

Um plano de vôo e um segredo na boca, um ideal
Um bicho na toca e o perigo por perto
Uma pedra, um punhal
Um olho desperto e um olho vazado
Leo

Um olho vazado e um tempo de guerra, um paiol
Um nome na serra e um nome no muro
A quebrada do sol
Um tiro no escuro e um corpo na lama
Leo

Um nome na lama e um silêncio profundo, um pião
Um filho no mundo e uma atiradeira
Um pedaço de pau
Um pé na soleira e um pé na calçada

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Bebem-se Rios

santoandre

“A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”. Bernardo Soares/Fernando Pessoa – O Livro do Desassossego

Era uma da manhã e eu me encontrava, só, no “aeroporto” de Porto Seguro. Acabara de descobrir que me seria impossível guardar meu container, de roupas, de sonhos, de biquínis. Jamais conheceria a passarela do álcool. Lembrei-me que recusei, com orgulho, conhecer Porto Seguro com as pessoas do Palmares, na viagem do terceiro colegial. Ironicamente, foi esse colégio nazista que me conectou ao anfitrião dessa aventura, talvez adolescente, talvez tardia, Baêa.

Quando cheguei, véspera de Natal, presente que me dei, o corpo se repudiou ao cansaço. Ojerizou-se de reclamar. Há qualquer cousa, em terras dos orixás, que só o inefável é capaz de traduzir. E eu? Rendi-me à minha nova condição. Entreguei-me àquelas horas. Àqueles infindos segundos baianos. Aos minutos que se arrastam, que dizem axé à minha ansiedade.

“(…) Na beira da vida

A gente torna a se encontrar só

Casa iluminada

Portão de ferro, cadeado, coração

E eu reconquistado

Vou passeando, passeando e morrer

Perto de seus olhos

Anel de ouro, aniversário, meu amor

Em minha cidade

A gente aprende a viver só”

 Milton Nascimento & Fernando Brant

Dormi, feliz, no banco, como uma mendiga. Amorteci a longa história das olheiras azuis. Fiquei à espera de duas meninas que nunca tinha visto – engano meu. Fiz a piada: tragam um casaco pra cá! O sereno bate à noite! Tantos caíram! Ah, quantas vezes rebobinamos essa ironia.

Não foi fácil sermos primeiras: Puta que pariu! Quanto se compra de queijo pra vinte pessoas? A gente pode levar peito de peru? Você também ama peito de peru? Banana prende! Granola é essencial! Eu tenho diarreia todo dia na Bahia… Nenhuma de nós bebe leite, mas alguém deve beber. Eu já sei que essa breja de milho vai dar merda. Mas está muuuuito mais barata. Vai dar merda! (Caralho não posso brigar com pessoas desconhecidas, vou levar milho e foda-se. O Tato vai comer meu cu com essa merda de milho mas beleza, eu compenso na piada e no Michael Douglas). Meninas, estamos fazendo as escolhas primeiras. É foda para porra. Não te falei que ninguém demora mais do que meia hora no supermercado? Passei dez anos indo pra Juquehy fazendo isso todo fim de semana, gata. Tô namorando todo mundoooo. Toca na propaganda do Spotify. Eu roubo do meu amigo DJ. Esquecemos o café. Chega, meninas. Chama o Rondonelli. Tô exausta. Arigatô Lau e Naná.

Como é possível decidir sem doer?

E veio a ceia, a fartura, os alívios. Os afetos. O inaugurar da madrugada. A queimada da largada. Já constituíamos uma família. E, como toda família, também é bem complicado quando a barriga começa a crescer e, você, criança, não entende de onde veio aquele óvulo, fecundo. Por que eu não fiz parte disso?

Ah, mas você é quase minha amiga também, caralho! Namorou o primo do Madeirada! Porra, você pegou meu melhor amigo! Vamos mandar uma foto pra ele. Alô?! Primeira vida, é você? Bar do Rio, MD? Meu amigo, espantando mosquitos… Eles estão fumando crack? Oi? Ela tá brilhando, gato, deixa! Ah, Madiba, acaba com meu apertaidy. Essa casa só tem, no máximo, um Kevin Bacon.

Não quero babá, motorista… mas nossa, essa faxineira é muita RYQUEZA! Beverly Hills! LUXO, Tem até camarote!  E muito drama! E, como assim, vão brotando essas pessoas! Pedro – nome do meu inventado, você NÃO TROUXE O MEU CIGARRO???? Tens alguma ideia do quanto eu me arrisquei por essas pessoas estranhas aqui para fazer vocês todas felizes? Será que meu excesso de generosidade é uma necessidade de carência?

Entrei no quarto da minha mamãe, determinada a drogá-la. Contudo, a única pessoa que eu droguei, mesmo, foi a Rafa, cuja autorização veio da diretoria e fui obrigada a acatar. A obrigação é seríssima, quando se estuda etimologia. Caipirinha ou água? Bruuu… Essa água tá batizada, sua louca! Mas eu já ia beber mesmo assim, então, foda-se, só me deixa trabalhar mais um pouquinho, aqui.

Enquanto isso, Band descobria uma casa muito engraçada, não tinha janelas, mas tinha porra para todos os lados e dava dor nas costas. Ele limpava a barba do boy, com a rebarba das inúmeras vezes que caiu de cara na areia. Dedé fazia caipirinhas maravilhosas que aprendeu comigo – mas esqueceu de dar os créditos… Tudo bem, estaremos quites, em Tel Aviv. E muito amor por ter me salvado do meu papel de DRAMA QUEEN, aos prantos, quando fui novamente abandonada.

E ganhei bolo de despedida do Gaga, a quem ensinei o melhor engate do Chico (e que tem – talvez – a maior afinidade musical com a minha pessoa). E que virou dois cafés da manhã comigo. E o Zé, que entende os horários dos banzas e não julga as peruanas. E vocês me ensinaram a rir de outra maneira. Como diriam os portugueses: Foda-se!

A Carol – quiçá tenha oublié moi – mas que não teria como não estar na minha vida. Fosse pelos Kevins em comum, pela barca de Yemanjá maravilhosa que ela construiu, ou, minimamente, pelo seu indiscutível bom gosto musical. GRATIDÂO, Universo. Carol, querida, você emana luz! E o Mau, só os nossos bullyings secretos e paralíticos acerca da derrota do pensam… para bom entendedor.

E Roxy você é Curinthia mano, to em casa. É a única mina que eu não me preocuparia… Entre mil parênteses e politicamente corretos, eu tenho dificuldades com as meiguices óbvias que podem aparecer. E você é o avesso disso.

Bom, vocês foderam com toda a minha linha de raciocínio poético e a seriedade – o que é ótimo. Eu odeio escrever palavrões. Eu assumo a linha rebuscada e hermética. VAMO, BEBEM-SE RIOS!

Em Santo André aprendi que a beleza pode não doer. Como diz meu sócio – dando os créditos, sempre – é o fim dessa apologia à decadência do artista. Vocês são pessoas que verdadeiramente me conectaram com essa sensação. Racionalmente, era fácil perceber, mas, mentiras sinceras me interessam. Não há experiência que minta.

E, ai, eu vou foder o Vinícius de Moraes, antes de acabar as o’menage de hoje. Ele estava profundamente equivocado. Foram aqueles olhos de Dudu, olhos que a Má me proibiu, veementemente, de onde eu tive essa epifania: jamais houve fim para a felicidade. CHUPA VINÍCIUS! Tristeza tem fim, felicidade não.

O que ele chama de tristeza eu chamo de medo. A gente morre de medo de ser feliz. A gente se caga de medo de experienciar as cousas. E se for gostoso o beijo grego? E se der prazer aquilo que eu fui treinado a dizer não? Naquela noite no forró, tendo rebarbas de noites e noites sem dormir, abensonhada por vocês e por aqueles céus psicodélicos, eu soube: toda a psicologia está pautada no contrário da cura.

E eu lacrey minha amizade com o Leo, numa planilha que é só nossa, né Madiba… Estou fingindo até agora que eu vi a Naná chegando com a Victória de stand-up, na minha cabeça ladra de escritora.

Odeio um pouquinho Brasília, assim como odeio Paris,

Odeio Paris

[Di Martins]

 

Talvez em Paris

a vida corra melhor e

os homens sejam

mais atenciosos,

fortes

ou mesmo rudes,

como você gosta.

No dia que embarcou

não queria nem

me despedir, mas

você disse:

não vai me dar

um abraço?

Como se não estivesse

acontecendo nada

o avião partiu

levando todos

os meus pedaços.

Mas isso foi neutralizado pela Pat, com essa cousa que eu sinto com tão poucas pessoas: os eleitos. Quero! Eu vou ser amiga dessa mina. E não foi muito difícil. E veio a Rafa, maravilhosa, com essa generosidade de alma que me assusta um pouco: espero ser um pouco mais mesquinha do que ela. Aliás, a ela sim eu enfiei o Michael Douglas, goela abaixo.

E o Thi é foda porque me ignorou hoje (#xatiada) mas, brincadeiras à parte, foi além de “porto seguro” e chacinas ótimas, e porres, e tudo, além de ser nosso cozinheiro que dança daquele jeito esfinge. Muito amor.

Geo, como foi um tesão a nossa conversa. Como psicóloga e, como poeta, eu tenho a certeza que um dia eu escreverei sobre isso: a gente só enlouquece no isolamento. Quando se descobre a companhia, a loucura é perdida. Talvez isso seja o amor. Caralho, tive um réveillon no meu cérebro e estou escrevendo direto. FODA-SE. Talvez estejamos condenadas pela maldição do intelecto.

Alê, a nossa bailarina está no ombro da Bel – minha médica – na primeira vez que ouvi Tchaikovsky! Quanto custa o despertar da sensibilidade? Ela sempre esteve aqui, hibernada, esperando? Ela vai sempre doer? A nossa música vai ficar linda. E ainda sobra outra pra Lisboa, tá?

And, Austin: there is no words in the real talk, man, chokito?! Is this real? That is happening?

Marina, eu espero que tu nunca saibas o quão linda és!

Tatito, desde os Goonies, nós sabemos que, nessa, o poetinha tinha razão. Casa aberta. Mas o seu dom é maior. E o seu pau deve ser também. Ficará latejante no fundo de minh’alma aquela mudança de idolatria, em Sem Fantasia. Eu prometo nunca mais discutir com D’us. Afinal, quem mais eu conheço com um bloquinho de anjos ao redor? Vocês sabiam que não existe coletivo de anjos? A gente inventou. É um nome pagão. Um bocado infame. Bebem-se Rios.

A música que ganhei está aqui:

E o making off:

stoandre

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Elis: essa Mulher!

Essa mulher

(Joyce / Ana Terra/ Aine Ribeiro)

De manhã cedo, essa senhora se conforma
Bota a mesa, tira o pó, lava a roupa, seca os olhos
Ai. como essa santa não se esquece de pedir pelas mulheres
Pelos filhos, pelo pão

Depois sorri, meio sem graça
E abraça aquele homem, aquele mundo
Que a faz, assim, feliz
De tardezinha, essa menina se namora

Se enfeita, se decora, sabe tudo, não faz mal
Ai, como essa coisa é tão bonita
Ser cantora, ser artista
Isso tudo é muito bom

E chora tanto de prazer e de agonia
De algum dia, qualquer dia
Entender de ser feliz
De madrugada, essa mulher faz tanto estrago

Tira a roupa, faz a cama, vira a mesa, seca o bar
Ai, como essa louca se esquece
Quanto os homens enlouquece
Nessa boca, nesse chão

Depois, parece que acha graça
E agradece ao destino aquilo tudo
Que a faz tão infeliz
Essa menina, essa mulher, essa senhora

Em que esbarro toda hora
No espelho casual
É feita de sombra e tanta luz
De tanta lama e tanta cruz
Que acha tudo natural.

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O nascimento da eternidade

miniBowie

 

Segundas-feiras sempre são enfadonhas. Ontem não foi diferente. Levantar cedo depois de dormir tarde, recalcular toda a semana, ainda embevecida pelos resquícios de sonhos, suportar o peso do despertador que invade a manhã. Eu tenho sempre o costume de adiantar minhas horas em ilusões, na tentativa estúpida de deixar o acordar menos ordinário.

No entanto, ontem eu não consegui ficar alguns minutos a mais na cama. Estampado no jornal online estava a notícia da sua morte. Acendi um cigarro. Como é que você, mestre, após fazer anos na sexta-feira, poderia ter nos deixado?

A princípio não consegui nem chorar. Fui tomar banho. Confusa. Incrédula. Ao me vestir fui rebobinando algumas memórias nossas. E, depois disso, não consegui sustentar mais as lágrimas, dentro de mim.

Você foi o primeiro homem pelo qual me apaixonei. Eu devia ter uns cinco, seis anos de idade quando vi Labirinto. Todo um universo onírico se abria, frente ao meu repertório infante. Invejei a beleza da Jennifer Connelly e questionei se eu também daria aquele bebê lindo pelo seu reino.

É engraçado, o primeiro homem que amei era andrógino, longe dos estereótipos de um macho alfa. Era sedutor, era envolvente e lírico. Era músico. Quando crianças não vestimos os preconceitos em nossos olhares. Eu desconsiderei a sua falta de masculinidade como me esquecia de que meus amigos eram negros ou japoneses. A gente só enxergava a alma, naquela época.

Quando escrevi meu primeiro “livro”, aos onze, eu contava a história de uma menina que se apaixonava por um extraterrestre. Hoje me veio essa epifania: talvez meu inconsciente já estivesse conectado à sua ascendência cósmica.

Depois de Labirinto, minha irmã nasceu. Ah, como eu desejei que os goblins a levassem embora. Quantas vezes sonhei com a aparição de Jareth, conduzindo-me ao seu universo peculiar. Contudo, aprendi a amar aquele ser. E me prometi que a ensinaria algumas das doces memórias que eu tinha da infância. Que ela passaria pelos processos fantasiosos como eu havia passado.

Aos seis anos de vida dela – e eu com treze – percebi que era hora dela conhecê-lo também. Lembro-me bem como minha tia, psicóloga, tentou impedir minha mãe de apresentar o mundo de Labirinto para minha irmã. Para ela você era uma aberração e o filme completamente inapropriado. Eu, como uma boa manipuladora, consegui assisti-lo uma vez mais, libertando a mente da caçula em uma explosão de galáxias imaginadas.

Ela virou uma fã inveterada. Comprou suas camisetas, seus DVDs, bebeu sua discografia com ímpeto de viciado. Eu permaneci mais sóbria, mais comedida. Todavia, não houve uma viagem em que sua voz não reinasse em alto volume, pelas jornadas que percorri. Não houve uma festa que eu não tenha pedido a sua presença. Não existiu um momento em que meu corpo não dançasse, involuntário, quando seu timbre escancarava meus ouvidos. Você esteve comigo em todos os amores, em todos os desamores, em momentos de poesia e instantes de desespero.

Ontem senti algo muito estranho. Ao invés de ter ciúmes de todos aqueles que, como eu, partilhavam uma história de cumplicidade consigo, fiquei orgulhosa da sua arte grande. Fiquei emocionada como um ser tão diferente dos terráqueos pudesse emanar tanta luz, tanta saudade.

Agora, já que não pudemos nos conhecer pessoalmente, vou colocá-lo nos meus desejos de retornar ao planeta que me é sonhado. Que você venha me abduzir, com suas íris desencontradas, com suas calças apertadas, com a superioridade de outros corpos celestes. Agradeço por ter sido sua contemporânea. E por ter testemunhado o nascimento da eternidade.

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Vontade de falar para dentro de mim

 

Platónico

Edgardo Cardozo

Hay un sol, que enciende mi vida…
Que cura mi herida, que camina suavemente sobre mi…

Y me lleva, como si me abriera
Paso entre la selva, como un rey..

Casi sin saber, desliza su mirada tibia…
Abriendose camino, en mi corazon…

Casi sin saber, desliza su mirada clara.
Transformando al mundo en un segundo…

Hay un sol, que enciende mi vida…
Que cura mi herida, que camina suavemente sobre mi…

Y me lleva, como si me abriera
Paso entre la selva, como un rey..

Casi sin saber, desliza su mirada tibia…
Abriendose camino, en mi corazon…

Casi sin saber, desliza su mirada clara.
Transformando al mundo en un segundo.

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O amor de Vladimir Vladimirovitch Mayakovsky

Um dia, quem sabe,

ela, que também gostava de bichos,

apareça

numa alameda do zôo,

sorridente,

tal como agora está

no retrato sobre a mesa.

Ela é tão bela,

que, por certo, hão de ressuscitá-la.

Vosso Trigésimo Século

ultrapassará o exame

de mil nadas,

que dilaceravam o coração.

Então,

de todo amor não terminado

seremos pagos

em inumeráveis noites de estrelas.

Ressuscita-me,

nem que seja só porque te esperava

como um poeta,

repelindo o absurdo quotidiano!

Ressuscita-me,

nem que seja só por isso!

Ressuscita-me!

Quero viver até o fim o que me cabe!

Para que o amor não seja mais escravo

de casamentos,

concupiscência,

salários.

Para que, maldizendo os leitos,

saltando dos coxins,

o amor se vá pelo universo inteiro.

Para que o dia,

que o sofrimento degrada,

não vos seja chorado, mendigado.

E que, ao primeiro apelo:

– Camaradas!

Atenta se volte a terra inteira.

Para viver

livre dos nichos das casas.

Para que doravante

a família seja

o pai,

pelo menos o Universo,

a mãe,

pelo menos a Terra.

(1923)

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Janeleiro

 

Geraldo Maia e Rodrigues Lima

 

Da janela eu vejo a rua

Vejo a noite enluarada

Vejo o céu de carneirinhos

Os pardais em revoada

Vejo os pássaros nos ninhos

Vejo linda madrugada

Da janela eu vejo a rua

Os casais enamorados

As mariposas voando

Os postes iluminados

Vejo os gatos barulhando

Namorando nos telhados

Bendita seja a janela

Bendito seja o luar

Bendito seja o amor

Que ela tem para me dar

Bendita seja a janela

Lugar que gosto de estar

 

Da janela eu vejo ao longe

Quem vem do lado de lá

É ela que vem cantando

Com vontade de chegar

Ela chega me abraçando

Sedenta para me amar

Da janela eu vejo o sol

Que surge por trás da serra

Vem trazendo a energia

Que alimenta a terra

Da janela eu vejo a paz

Que quer sufocar a guerra

Bendita a janela

Bendito seja o luar

Bendito seja o amor

Que ela tem para me dar

Bendita seja a janela

Lugar que gosto de estar

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Luiz Melodia

image (1)

Domingo fui concretizar mais um sonho musical: ouvir de perto o Luiz Melodia. Depois de ser salva por ele, no ano que passei em Lisboa, não sabia o que iria sentir ao dar meus olhos para o ídolo. Inacreditavelmente, nos primeiros minutos já estávamos conectados. Ele sorria pela íris para mim. E eu o entendia, cósmica.

Talvez a Música seja a arte que transborde assim, antes, pré-instantânea, impregnando suas presas com a paralisia de quem engole os instantes com embriaguez.

Depois, em Fadas, ele me olhou de novo. Suspendeu o microfone aos ares. E caminhou, em sensualidade felina. Sorrindo para mim. E pegou-me em seus dedos, comungando nosso encontro. Sem dizermos uma única palavra.

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Fechado por dentro

Graças ao meu amado Juca Silveira, fui apresentada a essa música indizível, do nosso gênio Paulo César Pinheiro

Você bateu na porta do meu peito
Meu coração deixou Você entrar
Depois de usar meu leito
Me deixou o amor desfeito
E foi-se embora sem dizer se vai voltar
E agora não tem jeito
O coração dentro do peito
Se fechou resignado de esperar.

Enfim eu compreendi que amor perfeito
É só nome de flor, outro não há
Porém amor assim não esta direito
Você pôs tudo a seu jeito
Pra depois sem mais nem menos me deixar
Você levou a chave do meu peito
O amor não pode mais me visitar
Do coração não sei o que foi feito
Não dá mais abraço estreito
Acreditando que Você vai regressar.

 

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Mestre da Língua Portuguesa

Meu Caro Barão 

Chico Buarque

Onde quer que esteja
Meu caro Barão
São Brás o proteja
O santo dos ladrão
Tava na faxina
Do seu caminhão
Vi essa maquina
De escrever no chão
Escovei a nega
Lavei com sabão
Deu uma cocega
Nos calo da mão

Pronto
Ponto
Tracinho, tração
Linha
Margem
Meu caro Ba…

Vire a pagina
Continuação
Ai, essa maquina
Tá que tá que é bão
Como eu lhe dizia
Meu caro Barão
A sua ausencia
É uma sensação
O circo lotado
Cidade e sertão
Domingo, sabado
Inverno e verão
Pronto
Ponto
De exclamação
Linha
Margem
Meu caro Barão

Tem gargalhada
Tem sim senhor
Tem muita estrada
Tem muita dor
Venha, Excelência
Nos visitar
Estamos sempre
Noutro lugar

Dizem que virgula
Aspas, travessão
Coisa ridicula
Dizem que o Barão
Que o Barão, meu caro
Tinha a faca, o pão
O queijo e os passaros
Voando e na mão
Pois eu tenho ouvido
Que o pobretão
Tá magro, palido
Sem ocupação
Pronto
Ponto
De interrogação
Linha
Margem
Meu caro Barão

Venha, Excelência
Nos visitar
A casa é sempre
De quem chegar
Se a senhoria
Vem pra ficar
Basta algum dia
Se preparar

Pra rodar com a gente
Pra fazer serão
Pra ficar contente
Comer macarrão
Pra pregar sarrafo
Pra lavar leão
Pra datilografo
Bilheteiro, não
Pra fazer faxina
Nesse caminhão
Cuidar da maquina
E não ser mais Barão
Linha
Margem
Etcétera e tal
Pronto
Ponto
E ponto final

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Sarau Mundano

Apresento-lhes meu filho, feito apenas de poesia: Sarau Mundano!

“É triste explicar um poema. É inútil também. Um poema não se explica. É como um soco. E, se for perfeito, te alimenta para toda a vida. Um soco certamente te acorda e, se for em cheio, faz cair tua máscara, essa frívola, repugnante, empolada máscara que tentamos manter para atrair ou assustar. Se pelo menos um amante da poesia foi atingido e levantou de cara limpa depois de ler minhas esbraseadas evidências líricas, escreva, apenas isso: fui atingido. E aí sim vou beber, porque há de ser festa aquilo que na Terra me pareceu exílio: o ofício de Poeta.”

Hilda Hilst em Cascos & Carícias & Outras Crônicas

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Para engrandecer uma noite enluarada de tristezas

Eblouie Par La Nuit

Eblouie par la nuit à coup de lumière mortelle
A frôler les bagnoles les yeux comme des têtes d’épingle.
Je t’ai attendu 100 ans dans les rues en noir et blanc
Tu es venu en sifflant.
Eblouie par la nuit à coup de lumière mortelle
A shooter les canettes aussi paumé qu’un navire
Si j’en ai perdu la tête je t’ai aimé et même pire
Tu es venu en sifflant.
Eblouie par la nuit à coup de lumière mortelle
A-il aimé la vie ou la regarder juste passer?
De nos nuits de fumette il ne reste presque rien
Que tes cendres au matin
A ce métro rempli des vertiges de la vie
A la prochaine station, petit européen.
Mets ta main, dessend-la au dessous de mon coeur.
Eblouie par la nuit à coup de lumière mortelle
Un dernier tour de piste avec la main au bout
Je t’ai attendu 100 ans dans les rues en noir et blanc
Tu es venu en sifflant.

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O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia…

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

   Alberto Caeiro, Fernando Pessoa e Tom Jobim.

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Do disco voador!!!

http://http://www.youtube.com/watch?v=II1HjAeo7k4

Tenho que escolher o que detesto — ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensibilidade repugna; ou a acção, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.

Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar, ou agir, misturo uma coisa com outra.

Livro do Desassossego. Vol.II. Fernando Pessoa.

]

Hoje é domingo missa e praia céu de anil
Tem sangue no jornal, bandeiras na avenida Zil
Lá por detrás da triste linda Zona Sul
Vai tudo muito bem, formigas que trafegam sem porquê

E das janelas desses quartos de pensão
Eu como vetor, tranquilo tento uma transmutação
Ô, ô, ô seu moço do disco voador
Me leve com você, pra onde você for

Ô, ô, ô seu moço mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que tem tanta estrela por aí.

Andei rezando para tótens e Jesus
Jamais olhei pro céu, meu disco voador além
Já fui macaco em domingos glaciais,
Atlantas colossais, que eu não soube como utilizar

E nas mensagens que nos chegam sem parar
Ninguém, ninguém pode notar

Estão muito ocupados pra pensar.
Ô, ô, ô seu moço do disco voador
Me leve com você, pra onde você for

Ô, ô, ô seu moço mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que vem tanta estrela por aí.

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Às vezes a música emudece minha alma…

Sobre a Escrita…

Clarice Lispector


Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.

Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo – é por esconderem outras palavras.

Qual é mesmo  a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.

Simplesmente não há palavras.

O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo.  Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também.  Sim, mas é a sorte às vezes.

Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse  ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.

Simplesmente as palavras do homem.

*O Gedar foi um dos músicos mais geniais que pude ouvir ao vivo…

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Amei mais do que pude, eu fiquei cego de paixão…

Meninos, eu vi

Chico Buarque

Um grande amor

Para viver um grande amor

Eu vi o grande amor no claro olhar da minha amada, eu vi
Que todo o grande amor ainda é pouco, ainda é nada, eu vi
Amores que jamais verei
Meninos, eu vivi
Vivendo a poesia de verdade

Também vi a cidade incendiada, eu tive medo
Eu vi a escuridão
Eu vi o que não quis
Amei mais do que pude, eu fiquei cego de paixão
E acho que enfim eu vi um homem ser feliz

Juro que um dia eu vi um homem ser feliz

Eu vi o grande amor escancarado em cada cara, eu vi
O amor evaporando pelos céus da Guanabara
Amores de imortal verão
Meninas, como eu vi
Vivendo poesia de verdade

Eu vi uma cidade enfeitiçada, e tive medo
Eu vi um coração
Molhando o meu país
Amei mais do que pude, eu fiquei cego de paixão
E acho que enfim eu vi o homem ser feliz

Juro que um dia eu vi o homem ser feliz

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Os deuses são deuses porque não se pensam…

    Segue o teu destino,
    Rega as tuas plantas,
    Ama as tuas rosas.
    O resto é a sombra
    De árvores alheias.

    A realidade
    Sempre é mais ou menos
    Do que nós queremos.
    Só nós somos sempre
    Iguais a nós-próprios.

    Suave é viver só.
    Grande e nobre é sempre
    Viver simplesmente.
    Deixa a dor nas aras
    Como ex-voto aos deuses.

    Vê de longe a vida.
    Nunca a interrogues.
    Ela nada pode
    Dizer-te. A resposta
    Está além dos deuses.

    Mas serenamente
    Imita o Olimpo
    No teu coração.
    Os deuses são deuses
    Porque não se pensam.

    Fernando Pessoa /Ricardo Reis, 1-7-1916

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Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim…

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste!  Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio!  …

Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

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Homenagem ao meu pai, o geminiano mais genial que eu conheço…


Estate sei calda come i baci che ho perduto

sei piena di un amore che è passato

che il cuore mio vorrebbe cancellare

Estate il sole che ogni giorno ci scaldava

che splendidi tramonti dipingeva

adesso brucia solo con furore

Tornerà un altro inverno

cadranno mille petali di rose

la neve coprirà tutte le cose

e forse un po’ di pace tornerà

Estate che hai dato il tuo profumo ad ogni fiore

l’estate che ha creato il nostro amore

per farmi poi morire di dolore

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Memórias de um verão em Lisboa…

La lune de Gorée

Gilberto Gil
Capinan

La lune qui se lève
Sur l’île de Gorée
C’est la même lune qui
Sur tout le monde se lève

Mais la lune de Gorée
A une couleur profonde
Qui n’existe pas du tout
Dans d’autres parts du monde
C’est la lune des esclaves
La lune de la douleur

Mais la peau qui se trouve
Sur les corps de Gorée
C’est la même peau qui couvre
Tous les hommes du monde

Mais la peau des esclaves
A une douleur profonde
Qui n’existe pas du tout
Chez d’autres hommes du monde
C’est la peau des esclaves
Un drapeau de Liberté

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Nous nous aimions le temps d’une chanson

La Javanaise

Serge Gainsbourg

J’avoue j’en ai bavé pas vous
Mon amour
Avant d’avoir eu vent de vous
Mon amour

Ne vous déplaise
En dansant la Javanaise
Nous nous aimions
Le temps d’une chanson

A votre avis qu’avons nous vu
De l’amour
De vous a moi vous m’avez eu
Mon amour

Ne vous déplaise
En dansant la Javanaise
Nous nous aimions
Le temps d’une chanson

Hélas avril en vain me voue
A l’amour
J’avais envie de voir en vous
Cet amour

Ne vous déplaise
En dansant la Javanaise
Nous nous aimions
Le temps d’une chanson

La vie ne vaut d’être vécue
Sans amour
Mais c’est vous qu il’avez voulu
Mon amour

Ne vous déplaise
En dansant la Javanaise
Nous nous aimions
Le temps d’une chanson.

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Não se sonha uma vida fora…

E porque estou, a cada dia, ajeitando o meu caminho para encostar no teu…

Watching the wheels – John Lennon

People say I’m crazy doing what I’m doing
Well they give me all kinds of warnings to save me from ruin
When I say that I’m o.k. well they look at me kind of strange
Surely you’re not happy now you no longer play the game

People say I’m lazy dreaming my life away
Well they give me all kinds of advice designed to enlighten me
When I tell them that I’m doing fine watching shadows on the wall
Don’t you miss the big time boy you’re no longer on the ball

I’m just sitting here watching the wheels go round and round
I really love to watch them roll
No longer riding on the merry-go-round
I just had to let it go

Ah, people asking questions lost in confusion
Well I tell them there’s no problem, only solutions
Well they shake their heads and they look at me as if I’ve lost my mind
I tell them there’s no hurry
I’m just sitting here doing time

I’m just sitting here watching the wheels go round and round
I really love to watch them roll
No longer riding on the merry-go-round
I just had to let it go
I just had to let it go
I just had to let it go

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Os passos no porão, lembra da assombração e das almas com perfume de jasmim…

Maninha – Chico Buarque (gênio!)

Se lembra da fogueira
Se lembra dos balões
Se lembra dos luares dos sertões
A roupa no varal, feriado nacional
E as estrelas salpicadas nas canções
Se lembra quando toda modinha falava de amor
pois nunca mais cantei, oh maninha
Depois que ele chegou
Se lembra da jaqueira
A fruta no capim
Do sonho que você contou pra mim

Os passos no porão, lembra da assombração
E das almas com perfume de jasmim
Se lembra do jardim, oh maninha
Coberto de flor
Pois hoje só dá erva daninha
No chão que ele pisou

Se lembra do futuro
Que a gente combinou
Eu era tão criança e ainda sou
Querendo acreditar que o dia vai raiar
Só porque uma cantiga anunciou
Mas não me deixe assim, tão sozinha
A me torturar

Que um dia ele vai embora, maninha
Prá nunca mais voltar…

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Sobre Genialidade e Loucura

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My Favorite Things

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Onde vivem os dons

“Se um dia me arriscar num outro lugar, hei-de levar comigo a estrada que não me deixa sair de mim.” Mia Couto – Terra Sonâmbula.

Há semanas procuro uma resposta. Na verdade, sei que as respostas são ínfimas, fragmentadas na cosmologia dos pensamentos. Não há nada nelas que assossegue o ser. Assim mesmo, sonho com o seu vulto lampejando a alma em epifanias.

Onde moram os dons? – questionava-me. Quando eles são despertos? Cada pessoa abriga dentro de si uma indelével cicatriz da arte? Somos todos convidados, bem-vindos para acordar em sua cama? Há sinais suficientemente claros para que a vigília nos possua? É possível viver em letargia? Existirá dor maior do que o hibernar de uma vida inteira?

Nenhuma resolução foi a mim concedida, desde que todas essas interrogativas passaram a povoar minha escrita. Então decidi ir atrás daquilo que me era palpável: os vígeis.

Não foi necessário pensar muito. Em poucos segundos já existia uma pessoa reverberando em mim: meu amigo músico Flavio Tris. Ele concordou em me receber para uma entrevista, sem questionar a minha motivação.

E lá estava ele. Pronto para as minhas loucas perguntas naquela quarta-feira insuportavelmente ensolarada. Quis ser cronológica, para investigar sua meninice primeiro. Verificar, meticulosa, todos os espaços que me trariam algum conforto. Sábio, meu entrevistado soube lidar com as minhas aflições. E respondeu a cada pergunta como se revisitasse sua estrada musical.

O hospedeiro, então infante, ainda nada sabia sobre seu destino. Contudo, tinha as mãos pousadas no piano. Por mais que as referências parentais gritassem a sua jornada, ele parecia alheio a qualquer tipo de determinismo. Talvez fosse a certeza do reencontro. Mia Couto já advertia: “Em criança não nos despedimos dos lugares. Pensamos que voltamos sempre. Acreditamos que nunca é a última vez.”

As aulas de piano não vociferaram seu chamado. Pelo contrário. Era quando acabavam que o menino mais tinha vontade de tocar. A desobediência eu já conhecia: todo dom é insubordinado.

Depois, veio o violão. Sem nunca uma aula ter feito parte dessa parceria. Na adolescência, as cordas, associadas às aulas de gramática, trouxeram o sabor primeiro dos grandes músicos brasileiros.

Contudo, a arte lhe seria um fardo insultuoso: todos os seus irmãos já navegavam por esses oceanos marginais. Assim, ele optou pelo Direito. “Fui ser ‘normal’ e aliviar minha família”, disse a mim. “Acreditava que a carreira seria uma ferramenta de transformação social, além de o futuro ser rentável e sólido”.

A música, pois, não deixaria Flavio em paz. Mais tarde, no recolhimento solitário, ilhado pela melancolia amorosa do intercâmbio linguístico em Montpellier, ela o abraçaria e o tornaria arredondado. Terapêutica.

Foi num desses diálogos silenciosos que ele tomou gosto pelas incertezas. “Passei a elogiar os mistérios da vida em minhas canções”. Esse reinado de possibilidades, a abertura de janelas, infinidade de caminhos. A imersão no vazio fértil o estimulava. E o olhar surpreso ia invadindo as paisagens francesas e a obra do artista.

A metamorfose da voz também se ofereceu em ontologias. É o caso de “Brisa Boa, Vento Leve”. O amor já não povoava suas composições: “O compor foi se modificando, alcançando minhas percepções vitais. Tocar a natureza. Buscar um lirismo para enovelar  situações corriqueiras.”

A arte é uma casa que resiste às tempestades da vida mundana. E não é coragem, frente ao destino. Flavio permitiu a si regressar, àquilo que já na infância fora dito. Abandonou o terno e renasceu, rebatizando-se. Veio o Tris: “Há uma ambiguidade na minha escolha. Tris é parte do sobrenome de minha mãe. Tris remete a triz. Tris me leva à triade: somos três músicos. O Maurício Maas, no acordeon e percuteria; e o Tchelo Nunes, no violino e baixo elétrico.”

E eu não perdi a oportunidade de provocá-lo: “Dá muito medo? Largar o pontilhar certeiro do seu sucesso na advocacia para a inesperada condição da música?” Ele nem titubeou: “Meu medo de não tentar seguir o chamado é muito maior. Tenho certeza de que iria me frustrar, caso permanecesse vivendo nos moldes sociais que me impus.”

Deambulei, inerte por aqueles dizeres familiares. Era o peremptório se apossando de mim. Porque a arte, se não tem espaço para a florescência, inflama a pele. O dom, como a loucura, fica à espera de um cisco que o acorde.

Mergulhei em silêncios no meio da entrevista. Não havia mais nenhum assunto a ser explanado. Nada mais importava. A confluência: era a vida dele sendo recordada; era a minha vida sendo preenchida em improvisos. Nessas horas, o coração se agiganta.

Ali, aconchegada pela melodia, todos os devaneios de orfandade iam para o exílio. Extintos. Quando a arte nos atinge, não adianta mais tentar arrancar os brancos fios, enluarados. Há de se aceitar a ancestralidade libertária, como as árvores que assumem ser berço dos passarinhos.

Ps: quem já ouviu o Flavio, compreende a invasão prenunciada do vício: como a dor que dá a leitura das últimas linhas de um livro sublime, a gente torce para que a madrugada se enlace ao infinito. E que imponha aos nossos ouvidos ateus a condição de estarem atentos: por favor, não percam as notas na imemória!

Para encontrá-lo: hoje, 25/03/10, a partir das 21h no Caldeira Acústica – Casa das Caldeiras. 

Myspace: 

https://myspace.com/flaviotris

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Looking for flying saucers in the sky…

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A única vitimização aceitável…

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Sorrir

Lembro-me de estar só em Girona. Era um dia lindo e meu amor havia partido. Andei por aquela minúscula cidade, cercada por muros seculares. No meio do caminho, estava a exposição do Chaplin, pequenina como Girona. Foi o grande sorriso que inundou aquele dia.

Sábio, como devem ser todos os palhaços…

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Avessos

Há exatas três semanas ganhei um presente musical. Convidada por uma querida amiga do mestrado, fui prestigiar o talento e a leveza de Ceumar. Infelizmente não foi ontem. Não encontro-me imediatamente posterior àquela noite deliciosa. O olhar tilintou há mais tempo, aveludada ternura. Mas a nitidez da lembrança é hoje. Guardo debaixo de frágeis cadeados de brinquedo. E reservo o deleite com lentes do agora. Porque o momento é vívido hoje.

Sentamo-nos tímidas, minha amiga e eu, na multidão de fantasmas silenciosos. Confesso, apesar da inelutável melancolia do vazio, embriaguei-me com goles de orgulho, por fazer parte daquela pequenina plateia.

Foram algumas horas, apenas. Um enxerto na alma, diria. Mais os olhos meio verde-amarelo, a aura azul. Um transbordamento de estrelas formigantes. O corpo todo cheio de gratidão.

A voz dela enlevada pelo timbre dos risos. Íntima, seu enredo cobria-nos de pijamas perfumados em tangerina. “Conta suas histórias!” – dizia o público, abobadado em doçura. “Canta a nós sobre os rabos de cometa”.  Éramos sábios hedonistas a saboreá-la.

E veio a canção inesperada: “Por isso deixo aqui meu endereço, se você me procurar eu apareço. Se você me encontrar, te reconheço”. A letra, da poeta Alice Ruiz, é fruto de um mapa astral. Ela reconheceu a cantora em seu avesso cósmico. Ceumar explica, pois, em pureza de vagalume: muitos já se apropriaram da música, acreditando tratar-se de amor. E depois, sem intervalo, acha graça.

Desvanesci naqueles segundos. Porque minha obviedade já tinha tomado aquelas notas também. Era a banda sonora mais perfeita para definir a cumplicidade que carrego aqui dentro. Envergonhei-me, enfim, pelo sutil desdém que foi soprado. No entanto, como a perseverança é senhora em mim, não pude deixar para trás os devaneios.

O amor não dá certo em seu complementar. Em quase todos os casos, torna-se patológico. É uma grande heresia acreditar que os opostos vivem felizes para sempre. As extremidades são grandes estátuas, quando a Sincronicidade brinca com seus caminhos. O avesso, pelo contrário, é feito da mesma estampa.

Amar alguém é avesso de mim. Um dos dois precisa carregar uma felicidade insuportável dentro de si, que transborda e nos afoga com ela. Eu, todavia, sou das lágrimas. Tenho apreço por águas mais salgadas. Sou náufraga de um périplo menos colorido. Prefiro quando não dá pé.

O meu amor não poderia estar nos rios ou cachoeiras. Preciso dele perto, a tecer enormes castelos de areia. Sempre na praia, agasalhado por sonhos primaveris. Um amor que invente personagens com plumas e que odeie a morbidez fria. Eu sou toda voragem. Acredito piamente na lucidez das sombras.

Prefiro as madrugadas. Meu avesso necessita ser súdito do Dia. Só que, entre o céu e o mar, somos cúmplices. Desertamos as grandes fortunas. Abdicamos os feudos. Imensos desfiladeiros abrem-se para mim, a cada noite em que ele me deixa seu endereço.

Queremos muito espaço para divagar sobre cavalos alados. Por isso convidamos alguns peixes. Eles embarcam nossas sintonias pelos mares. Uma elite de entidades foi convocada para levar nossos recados. É engraçado isso – só o avesso tem telepatia.

Poderia passar horas infindas justificando meu ponto de vista. Mas aprendi com meu amor a guardar. Não sublimar ou neglicenciar. É simplesmente arcano.

Silencio nossos segredos. Contudo, maravilhada com a ideia de avesso. Esse amor, outro lado, trouxe a urgência dos versos de volta para mim. Como é linda a simplicidade do tecido! Porque eu era sonâmbula antes dele. Reverberava sonos que não recolhiam.

A voz de Ceumar estava, por fim, errada. As minhas fantasias estavam com as costuras expostas. (em algum momento de 2008)

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Vicente Amigo

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Patas de Aranha

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É. Seria improvável a mim iniciar qualquer devaneio com uma afirmação tão brutal como essa. Contudo, o “é” materializa-se como a única estrutura plausível. Porque se há permanência nesta vida, ela reside na música. Só a música é. A instantaneidade, a imediatez, o sossego. A melodia sussura ao ouvido e a pele se enche toda pelo ar que se inspira.  

As coisas, quando são, geralmente perdem o sentido. O destino tem a cristalização como morada. Para endereçar alguma carta a ele, basta buscar um lugar permeado por imensos blocos de gelo. A sincronicidade é bicicleta. Sua imagem só existe em movimento. E a música é inquilina do espaço inimaginável que há entre os dois. Esquina do devir e do agora.

Hão de me perguntar: onde então habita a plenitude? Guardada no paradoxo do instante. Na linha invisível que difere o erro fatal da perfeição. Será que todo erro sonhou contos de fada? Nada sabemos sobre a sua concepção. Muitas vezes julgamos que não houvesse amor. Estupidamente a aberração que se produziu supera o investimento celestial do orgasmo. O erro só existe quando há testemunhas.

No entanto, quando pensamos em música, o inexato, o incorreto, a falha, tudo o que se refere ao imperfeito pode atingir estado de graça, na harmonia do todo. A fragmentação em si carrega a razão de ser. A totalidade é delírio aos olhos do espectador mais atento. O bom ouvinte sabe vislumbrar as nuvens de matéria interestelar que há em cada nota.

Ontem fui apresentada às mãos poderosas de Vicente Amigo. Maestria é pouco para definir os sons e as conjecturas que são preciosamente encarnados em sua música. A palavra se encolhe toda, as composições inundam a sala. Por isso digo que, das artes, só a música transcende. Só a música pode ser e estar. E o tempo se cala. Chronos sente a iminência. Não há mais meios de tergiversar. Ausculta em quietude. E finalmente reverencia o homem que rompeu a fronteira entre o hoje e o sempre.   

Eu estou pasma e silenciosa também. Fugidias letras vão rapidamente sendo filmadas por meus olhares. Atônitos olhos. Vejo duas aranhas frente ao meu corpo perplexo. São os dedos de Vicente. Tecem com exatidão os sentimentos mais difíceis. Atingem em seda aquilo que o escritor é incapaz de traduzir. E de repente o sofá, o piano, as janelas, Lisboa… o mundo todo está coberto pelo tear. As aranhas sucubem à própria criação. A alma do artista agarra-se ao instrumento. Apaixonada, digo adeus à dicotomia sujeito-objeto. O violão e o violeiro são apenas um, mais uma vez desrespeitando as regras da natureza.

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Ostracismo

 

 

 

Não! Não é! Juro que não! Não quero exaltar a estranha e intrínseca submissão à imortalidade, presente em cada penugem de nossas carnes humanas. Não é o calor dos aplausos, recheados pelo narcisismo revelado. É outra coisa o que incomoda os meus dedos, desde sábado à noite. São outros sopros que me tomam as veias e me condicionam a exprimi-los. São fragmentos de outra jornada que me colocam insone. São delírios febris que estarrecem meus ouvidos exaustos. Não é simples capricho… Eu ainda não sei do que se trata. Esse texto não me deu tal liberdade… Ainda não.

 

E deixar-me-ei guiar por essa imaculada incompreensão que me tocou as lágrimas naquele sábado. É preciso ser dito. Eu o farei. Ainda tenho tanto medo dos lugares que meu pensamento murmura. Espero nunca me adaptar. O conforto é inimigo mortal das palavras. 

 

Só precisei de um breve instante para emendar os velhos óculos de minha irmã. Eu sempre detestei os óculos e as lacunas de Monet que ele deixa passar. Mas minha meditação, aspirante à psicografia, necessita de óculos. Porque suporto menos ainda a burocracia das lentes de contato, que ferem os olhos quando você se põe a chorar. É absolutamente inaceitável para mim a ingratidão dessas gelatinosas. Ainda não sei se esse fio de luz que se desvela vai emocionar. Todavia, é imprescindível aconchegar os grandes abismos fortuitos.

 

Sem maiores delongas, estou imensamente indisposta com o fastidioso tema que me ronda. Em breve estarei totalmente absorta. Ainda não.

 

E é esse ainda-não que me apavora há dois dias. Esse ainda-não que se apodera das rezas de mães mais crédulas, eternamente à espera dos milagres tolos. O ainda-não que está incrustado na fumaça dos cigarros. O ainda-não sentado à mesa de bar, a ouvir o fantasma vacilante do sambista. Esse atordoante sentimento que criou – sem pedir licença – musgos dentro de mim.

 

Tenho um amigo-irmão que é assim. Faz parte dos lindos penhascos das infinitas possibilidades. Não as agarra pelos braços, no entanto. É genial. Ele compõe músicas secretas, daquelas que dão mãos aos nossos sentidos e fazem festa na intimidade das orelhas. Sua melodia é algo tão sublime que precisaria retaliar uma parte de seu cérebro para descrevê-la verdadeiramente.

 

E a chuva se sobrepunha soberana sobre nós, nesse sábado que passou. Apesar de todas as conversas que tenho com Deus, para deixar o fim de semana em paz, não tenho obtido muito sucesso. Dessa vez Ele tinha razão.

 

Quase como uma criança que ganha uma surpresa em plena quarta-feira, eu vi esse meu amigo ir buscar o violão, nos fundos da sua casa. Foi uma sensação que inebriou os músculos congelados.

 

As canções, uma por uma, iam navegando lucidamente por entre os pingos magistrais. Desviavam os mais avantajados, como se pudessem cessar o fogo da ira de Deus. Abriam-se para o céu e abriam-me também. E eu chovia junto. Estava encharcada.

 

Nem o entorpecimento provocado pelo vinho e pela deprimente condição daquele sábado seriam capazes de diminuir sua voz. Ele cerrava as pálpebras. Assim podia concentrar-se inteiramente, compactar toda a sua força nas cordas da voz e do violão. A chuva, enfim, cansou de competir. Estava esgotada.

 

O que eu não consigo entender e que me inunda de pungência é saber que esse meu amigo ainda não é famoso. Suas músicas são navalhas até para os ouvintes mais indiferentes. Porque ele dilacera as nossas defesas mais fortalecidas e põe nossa alma a chover. Não aceito seu ostracismo! Por que ele ainda-não é? Por que não o descobrem, meu Deus?

 

Desde então trago comigo a entediante companhia do ainda-não. Pensei em quantas pessoas eu conheço que ainda-não são, ainda-não foram. Refleti acerca dos amores ainda-não vividos. Embeveci-me em exílios. A injustiça reina próxima dos apaixonados músicos com quem semeio versos. Paira uma tristeza em meus punhos. Essa doida vontade de clamar, implorar pelo reconhecimento merecido.

 

Um vazio engoliu subitamente minha capacidade de apreensão. Fiquei inerte. Paralisada diante da minha cínica impotência. Às vezes sentir-se estátua também ajuda a transcender. Decidi. Tudo o que estiver ao alcance dos meus esforços para divulgar essas pessoas-ainda-não, eu me sujeito.

 

Não deixarei para os escafandristas a terrível descoberta. Prometo, através das minhas pequenas e raras divagações, lançar esplendorosos holofotes.

 

Saiam de seus impiedosos esconderijos, corajosos artistas! Venham ao meu encontro! Abandonem as conchas, falsas moradas de pedra! O lar de vocês é o Universo! Não permitam que a sedução das gavetas os oprima! Venham, acompanhem-me! Não me deixem só nessa insólita tarefa.  Tenho sede! Onde estão vocês? Onde Deus os expatriou? Seres enfeitiçados pelo doce fardo da Arte, uni-vos!

 

 

(…)

 

 

(Bom, enquanto espero, observo em repouso esse texto. Durma. Envelheça mais um dia. Você também ainda-não está pronto.)

 

 

 

 

 

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