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Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer…

pessoasacarneiro

Lisboa, 14 de Março de 1916

Meu querido Sá-Carneiro:

Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.

Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.

No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.

Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.

Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.

Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no «Livro do Desassossego». Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.

As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.

Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.

De que cor será sentir?

Milhares de abraços do seu, sempre muito seu

Fernando Pessoa

P. S. — Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si próprio que dele são tão características…

Você acha-me razão, não é verdade?

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“Quero ir buscar quem fui onde ficou”*

“Definitivamente, o coração não é o lugar adequado para o ódio. Qual é o seu lugar? Não sei. Esta é uma das incógnitas do Universo. Até parece que os Deuses gostam da confusão, pois ao não terem criado um lugar específico para lá porem o ódio, provocaram o caos eterno. O ódio procura forçosamente um lugar, introduzindo-se onde não deve, ocupando um lugar que não lhe pertence, expulsando inevitavelmente o amor.” 

Laura Esquivel in A Lei do Amor.

O fumo das castanhas assadas pinta as esquinas da minha rua. Pela varanda, os azuis são imensos, céu escrito em poesia. Os telhados, encarnados, ficam mais belos, no outono. Uma chuva, finíssima, cala os passos dos visitantes. Lisboa poderia ser perfeita, hoje.

No entanto, a perfeição é incapaz de tergiversar a xenofobia e o racismo. Sussurrada nas escadinhas de São Cristóvão. Abafada pelos professores de História. Apaziguada em copos de Ginjinha. O não dito é o inimigo mais perigoso.

Outro dia, uns amigos iam ao meu encontro, no Largo do Carmo. Moravam longe e pegaram o metrô até a famosa estação que abriga a estátua do Fernando Pessoa. Eram seus últimos dias cá. Inconsoláveis de partir e ter de enfrentar um Brasil tão nefasto, tão carente de horizontes.

Eles estavam cheios de saudades de mim. E eu, obviamente, já vivia a dor antecipada da partida. Nosso encontro era urgente. E teria sido inamolgável, se não existisse uma personagem que estragasse essa narrativa. Protagonista da angústia desesperadora que carrego, hoje.

A mulher, de uns quarenta e poucos, ouviu-os a conversar, no cais, à espera do comboio. Cuspiu, subitamente, no pé da minha amiga. E proferiu os dizeres:

– Estou enojada! Volta para o seu país, brasileira vagabunda!

A sucessão de erros já estava anunciada. A violência residente na gratuidade nos é a mais avassaladora.

Foi assim que, nos dias seguintes, meus amigos discutiram com mais de vinte pessoas sobre a manifestação xenófoba. Criaram desafetos. Debulharam-se em lágrimas. Puseram as certezas em suspensão. E, por alguns instantes, agradeceram a todas as entidades cósmicas por estarem indo embora da cidade.

Há dias que minha alma tenta compreender o porquê da covardia se sobrepor ao afeto…

Será que as nossas roupas, coloridas, servem de gatilho? Ou será a indiscutível beleza da minha amiga? Algum homem a teria abandonado, por uma brasileira? Há alegria demais na forma com a qual pronunciamos as palavras?

Questionei-me, dura e lentamente: será que me sinto uma puta, quando assim me veem? Será que ela tem razão e devo voltar à minha terra? A amarga senhora terá alguma ideia da explosão de ódio que causou, com as suas mágoas entregues a outrem?

Fui pesquisar algumas alternativas, que destituam o poder inevitável dos xenófobos. Uma delas é o silenciamento. Ignorar a existência de um ser humano tão desprezível e estúpido como essa infeliz. Fingir que o coração não se estraçalha, ao ouvir tamanhas inverdades. Perguntei, enfim, ao grande estudioso que me explicou essa técnica: funciona? E ele, generoso na tradução mais fidedigna, apenas riu-se da minha pergunta. É óbvio que não.

Gostaria de desvendar, todos os dias, mecanismos de combate à xenofobia e ao racismo. Quando era pequena eu não sabia que as pessoas tinham cores. Aliás, para mim, cada pessoa era de uma cor, de um formato diferente, com olhos intransferíveis. Em que momento da infância me roubaram essa sabedoria? Onde foi que meu sotaque se transformou em símbolo de desamor?

“O dito não vai sem o dizer.” Disse, outrora, Lacan. E, talvez, venha dele a esperança. Escancarar os preconceitos para dar luz às epidermes imaculadas. Vociferar as sombras que carregamos, e darmos a elas, nomes. Reinventar as percepções primeiras, antes de cores, gêneros, rótulos. E, quiçá, como disse Pessoa, um dia: “buscar quem fui onde ficou”. 

*O título é verso deste poema:

“A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

 

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou

A vinda tem a regressão errada.

Já não sei de onde vim nem onde estou.

De o não saber, minha alma está parada.

 

Se ao menos atingir neste lugar

Um alto monte, de onde possa enfim

O que esqueci, olhando-o, relembrar,

 

Na ausência, ao menos, saberei de mim,

E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar

Em mim um pouco de quando era assim.”

Fernando Pessoa

22-9-1933

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).  – 90.

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Eu sou exasperadamente sensível e exasperadamente inteligente.

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É costume dizer-se, desde que alguém começou a dizê-lo, que, para compreender um sistema filosófico, é preciso compreender o temperamento do filósofo. Como todas as coisas com ar de cenas, e que se espalham, isto é asneira; se o não fosse, não se teria espalhado. Confunde-se a filosofia com a formação dela. O meu temperamento pode levar-me a dizer que dois e dois são cinco, mas a afirmação de que dois e dois são cinco é falsa independentemente do meu temperamento, seja ele qual for. Pode ser interessante saber como é que eu vim a afirmar essa falsidade, mas isso nada tem com a própria falsidade, tem que ver somente com a razão do seu aparecimento.

O meu mestre Caeiro era um temperamento sem filosofia, e por isso a filosofia dele – que a tinha, como toda a gente – não é susceptível sequer destas brincadeiras do jornalismo intelectual. Não há dúvida que, sendo um temperamento, isto é, sendo um poeta, o meu mestre Caeiro exprimiu uma filosofia, isto é, um conceito do universo. Esse conceito do universo é, porém, instintivo e não intelectual; não pode ser criticado como conceito, porque não está lá, e não pode ser criticado como temperamento, porque o temperamento não é criticável.

As ideias organicamente ocultas na expressão poética do meu mestre Caeiro tentaram definir-se, com maior ou menor felicidade lógica, em certas teorias do Ricardo Reis, em certas teorias minhas, e no sistema filosófico -esse perfeitamente definido – do António Mora. Tão fecundo é Caeiro que cada um de nós três, devendo todos o pensamento da alma ao nosso mestre comum, produziu uma interpretação da vida inteiramente diferente da de qualquer dos outros dois. Verdadeiramente, não há direito de comparar a minha metafísica, e a do Ricardo Reis, que são meras vaguidades poéticas tentando esclarecer-se (ao contrário de em Caeiro, onde a alma era de certezas poéticas não buscando esclarecer-se), com o sistema de António Mora, que é realmente um sistema, e não uma atitude ou um remexer. Mas, enfim, ao passo que Caeiro afirmava coisas que, estando todas certas umas com as outras (como todos percebíamos) numa lógica que excede – como uma pedra ou uma árvore – a nossa compreensão, não eram contudo coerentes na sua superfície lógica, tanto o Reis, como eu (não falemos no Mora, por nosso superior em qualidade nesta matéria) tentávamos encontrar uma coerência lógica no que pensávamos, ou supunhamos que pensávamos, a respeito do Mundo. E isso, que pensávamos ou supunhamos que pensávamos, a respeito do mundo, isso devíamos a Caeiro, descobridor das nossas almas, colonizadas depois por nós.

Propriamente falando, Reis, Mora e eu somos três interpretações orgânicas de Caeiro. Reis e eu, que somos fundamentalmente embora diversamente poetas, interpretamos ainda com sujidades do sentimento. Mora, puramente intelectual, interpreta com a razão; se tem sentimento, ou temperamento, anda disfarçado.

O conceito da vida, formado por Ricardo Reis, vê-se muito claramente nas suas odes, pois, quaisquer que sejam os seus defeitos, o Reis é sempre claro. Esse conceito da vida é absolutamente nenhum, ao contrário do de Caeiro, que também é nenhum, mas às avessas. Para Ricardo Reis, nada se pode saber do universo, excepto que nos foi dado como real um universo material. Sem necessariamente aceitarmos como real esse universo, temos que o aceitar como tal, pois não nos foi dado outro. Temos que viver nesse universo, sem metafísica, sem moral, sem sociologia nem política. Conformemo-nos com esse universo externo, o único que temos, assim como nos conformariamos com o poder absoluto de um rei, sem discutir se é bom ou mau, mas simplesmente porque é o que é. Reduzamos a nossa acção ao mínimo, fechando-nos quanto possível nos instintos que nos foram dados, e usando-os de modo a produzir o menos desconforto para nós e para os outros, pois tem igual direito a não ter desconforto. Moral negativa, mas clara. Comamos, bebamos e amemos (sem nos prender sentimentalmente à comida, à bebida e ao amor, pois isso traria mais tarde elementos de desconforto); a vida é um dia, e a noite é certa; não façamos a ninguém nem bem nem mal, pois não sabemos o que é bem ou mal, e nem sequer sabemos se fazemos um quando supomos fazer o outro, a verdade, se existe, é com os Deuses, ou seja com as forças que formaram ou criaram, ou governam, o mundo – forças que, como na sua acção violam todas as nossas ideias do que é moral e todas as nossas ideias do que é imoral, estão patentemente além ou fora de qualquer conceito do bem ou do mal, nada havendo a esperar delas para nosso bem ou até para mal nosso. Nem crença na verdade, nem crença na mentira; nem optimismo nem pessimismo. Nada: a paisagem, um copo de vinho, um pouco de amor sem amor, e a vaga tristeza de nada compreender e de ter que perder o pouco que nos é dado. Tal é a filosofia de Ricardo Reis. É a de Caeiro endurecida, falsificada pela estilização. Mas é absolutamente a de Caeiro, de outro modo: o aspecto côncavo daquele mesmo arco de que a de Caeiro é o aspecto convexo, o fechar-se sobre si mesmo daquilo que em Caeiro está virado para o Infinito – sim, para o mesmo infinito que nega.

É isto – este conceito tão fundamente negativo das coisas – que dá à poesia de Ricardo Reis aquela dureza, aquela frieza, que ninguém negará que tem, por mais que a admire; e quem a admira – pouca gente – é por essa mesma frieza, aliás, que a admira. Nisto, de resto, Caeiro e Reis são iguais, com a diferença que Caeiro tem frieza sem dureza; que Caeiro, que é a infância filosófica da atitude de Reis, tem a frieza de uma estátua ou de um píncaro nevado, e Reis tem a frieza de um belo túmulo ou de um maravilhoso rochedo sem sol nem onde haver musgos. E é por isto que, sendo a poesia de Reis rigorosamente clássica na forma, é totalmente destituída de vibração – mais ainda que a de Horácio, apesar do maior conteúdo emotivo e intelectual. A tal ponto é intelectual, e portanto fria, a poesia de Reis, que quem não compreender um poema dele (o que facilmente sucede, dada a excessiva compressão) não lhe apreende o ritmo.

Comigo o que se passou foi o mesmo que o que se passou com Ricardo Reis, com a diferença que foi o contrário. O Reis é um intelectual, com o mínimo de sensibilidade de que um intelectual precisa para que a sua inteligência não seja simplesmente matemática, com o mínino do que ente humano precisa para se poder verificar pelo termómetro que não está morto. Eu sou exasperadamente sensível e exasperadamente inteligente. Nisto pareço-me (salvo um bocado mais de sensibilidade, e um bocado menos de inteligência) com o Fernando Pessoa; mas, ao passo que no Fernando a sensibilidade e a inteligência entrepenetram-se, confundem-se, interseccionam-se, em mim existem paralelamente, ou, melhor, sobrepostamente. Não são cônjuges, mas gémeos desavindos. Assim, expontaneamente formei a minha filosofia daquela parte da insinuação de Caeiro de que Ricardo Reis não tirou nada. Refiro-me à parte de Caeiro que está integralmente contida naquele verso, «E os meus pensamentos são todos sensações»; o Ricardo Reis deriva a sua alma daquele outro verso, que Caeiro se esqueceu de escrever, «as minhas sensações são todas pensamentos». Quando me designei como «sensacionista» ou «poeta sensacionista» não quis empregar uma expressão de escola poética (santo Deus! escola!); a palavra tem um sentido filosófico.

Não creio em nada senão na existência das minhas sensações; não tenho outra certeza, nem a do tal universo exterior que essas sensações me apresentam. Eu não vejo o universo exterior, eu não oiço o universo exterior, eu não palpo o universo exterior. Vejo as minhas impressões visuais; oiço as minhas impressões auditivas; palpo as minhas impressões tácteis. Não é com os olhos que vejo, mas com a alma; não é com os ouvidos que oiço, mas com a alma; não é com a pele que palpo, é com [a alma.] E, se me perguntarem o que é a alma, respondo que sou eu. De aqui a minha divergência fundamental do fundamental intelectual de Caeiro e de Reis, mas não do fundamental instintivo e sensitivo em Caeiro. Para mim o universo é apenas um conceito meu, uma síntese dinâmica e projectada de todas as minhas sensações. Verifico, ou cuido verificar, que coincidem com as minhas grande número das sensações de outras almas, e a essa coincidência chamo o universo exterior, ou a realidade. Isso nada prova da realidade absoluta do universo porque existe a hipnose colectiva. Já vi um grande hipnotizador obrigar um grande número de pessoas ver, positivamente ver, a mesma hora falsa em relógios que o não estavam. Concluo de aqui a existência de um Hipnotizador supremo, a quem chamo Deus, porque consegue impor a sua sugestão à generalidade das almas, as quais, contudo, não sei se ele criou ou não criou, porque não sei o que é criar, mas que é possível que criasse, cada uma para si mesma, como o hipnotizador me pode sugerir que sou outra pessoa ou que sinto uma dor que eu não posso dizer que não sinto, pois que a sinto. Para mim ser «real» consiste em ser susceptível de ser experienciado por todas as almas; e isto obriga-me a acreditar num Hipnotizador Infinito, pois criou uma sugestão chamada universo capaz de ser experienciado por todas as almas, não só reais, mas até possíveis. À parte isto, sou engenheiro – isto é, não tenho moral, política ou religião independente da realidade real mensurável das coisas mensuráveis, e da realidade virtual das coisas imensuráveis. Também sou poeta, e tenho uma estética que existe por si mesma, sem ter que ver com a filosofia que tenho ou com a moral, a política ou a religião que sou ocasionalmente forçado a ter.

António Mora, sim. Esse realmente, recebendo de Caeiro a mensagem na sua totalidade, se esforçou por traduzi-la em filosofia, esclarecendo, recompondo, reajustando, alterando aqui e ali. Não sei se a filosofia de António Mora será o que seria a de Caeiro, se o meu mestre a tivesse. Mas aceito que seria a filosofia de Caeiro, se ele a tivesse e não fosse poeta, para a não poder ter. Assim como da semente se evolve a planta, e a planta não é a semente magnificada, mas uma coisa inteiramente diferente em aspecto, assim do gérmen contido na totalidade da poesia de Caeiro saiu naturalmente o corpo diferente e complexo que constitui a filosofia de Mora. Vou deixar a exposição da filosofia de Mora para o trecho seguinte a este. Estou cansado de querer entender.

27-2-1931

Pessoa por Conhecer – Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990.

– 372.

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Quando eu acho que ele já me salvou de todas as maneiras…

REGRET

 

I would that I were again a child

And a child you sweet and pure,

That we might be free and wild

In our consciousness obscure;

That we might play fantastic games

Under trees silent and shady,

That we might have fairy-book names,

I be a lord, you a lady.

 

And all were a strong ignorance

And a healthy want of thought,

And many a [prank?], many a dance

Our unresting feet had wrought;

And I would act well a clown’s part

To your childish laughter winning,

And I would call you my sweetheart

And the name would have no meaning.

 

Or sitting close we each other would move

With tales that now gone are sad;

We would have no sex, would feel no love,

Good without fighting the bad.

And a flower would be our life’s delight

And a nutshell boat our treasure:

We would lock it in a cupboard at night

As in memory a pleasure.

 

We would spend hours and days like a wealth

Of goodness too great to cloy,

We would deep enjoy innocence and health

Knowing not we did enjoy…

Ah, what bitterest is is that-alone

Now one feeling in me I trace –

That knowledge of what from us hath gone

And of what it left in its place.

Alexander Search/ Fernando Pessoa

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Em prosa é mais difícil de se outrar

 

“Nestes desdobramentos de personalidade ou, antes, invenções de personalidades diferentes, há dois graus ou tipos, que estarão revelados ao leitor, se os seguiu, por características distintas. No primeiro grau, a personalidade distingue-se por ideias e sentimentos próprios, distintos dos meus, assim como, em mais baixo nível desse grau, se distingue por ideias, postas em raciocínio ou argumento, que não são minhas, ou, se o são, o não conheço. O Banqueiro Anarquista é um exemplo deste grau inferior; o Livro do Desassossego e a personagem Bernardo Soares são o grau superior.

Há-de o leitor reparar que, embora eu publique (publica-se) o Livro do Desassossego como sendo de um tal Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, o não inclui todavia nestas Ficções do Interlúdio. É que Bernardo Soares, distinguindo-se de mim por suas ideias, seus sentimentos, seus modos de ver e de compreender, não se distingue de mim pelo estilo de expor. Dou a personalidade diferente através do estilo que me é natural, não havendo mais que a distinção inevitável do tom especial que a própria especialidade das emoções necessariamente projecta.

Nos autores das Ficções do Interlúdio» não são só as ideias e os sentimentos que se distinguem dos meus: a mesma técnica da composição, o mesmo estilo, é diferente do meu. Aí cada personagem é criada integralmente diferente, e não apenas diferentemente pensada. Por isso nas Ficções do Interlúdio predomina o verso. Em prosa é mais difícil de se outrar.”

Prefácio às Ficções do Interlúdio

“Referem os astrólogos os efeitos em todas as coisas à operação de quatro elementos — o fogo, a água, o ar e a terra. Com este sentido poderemos compreender a operação das influências. Uns agem sobre os homens como a terra, soterrando-os e abolindo-os, e esses são os mandantes do mundo. Uns agem sobre os homens como o ar, envolvendo-os e escondendo-os uns dos outros, e esses são os mandantes do além-mundo. Uns agem sobre os homens como a água, que os ensopa e converte em sua mesma substância, e esses são os ideólogos e os filósofos, que dispersam pelos outros as energias da própria alma. Uns agem

sobre os homens como o fogo, que queima neles todo o acidental, e os deixa nus e reais, próprios e verídicos, e esses são os libertadores. Caeiro é dessa raça. Caeiro teve essa força. Que importa que Caeiro seja de mim, se assim é Caeiro?

Assim, operando sobre Reis, que ainda não havia escrito alguma coisa, fez nascer nele uma forma própria e uma pessoa estética. Assim operando sobre mim mesmo, me livrou de sombras e farrapos, me deu mais inspiração à inspiração e mais alma à alma. Depois disto, assim prodigiosamente conseguido, quem perguntará se Caeiro existiu?”

Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1966.

 

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Que invisível se vê…

“Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.”

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

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Todos os caminhos me levam à Lisboa

pessoeu

Eu no tempo não choro que me leve

A juventude, o já encanecer

A cabeça que pouco ainda esteve

Sob o Sol solto e a tarde a arrefecer.

 

Nem choro que não me ames, que faleça

O amor que vi em ti, que também haja

Uma tarde do amar, que desfaleça

E a noite fique, (…)

 

Mais que tudo choro já não te amar,

Sim, choro a tragédia de não ser o mesmo na alma,

De te ser infiel sem infidelidade,

De me ter esquecido de ti sem propriamente te aborrecer.

 

Não é o tempo ido em que te amei que choro.

Choro não te amar já por isso ser natural.

Choro ter-te esquecido, choro não me poder lembrar

Com saudade do tempo em que te amei.

 

Isso é que choro, sim, com as verdadeiras lágrimas

Que contém em si os piores mistérios —

A morte essencial das coisas,

O acabar das almas, mais grave que o dos corpos,

O abismo onde a única esperança é poder haver Deus

E um outro sentido desconhecido a tudo que se teve e se foi

Um outro lado, nem côncavo nem convexo à curva da vida.

Fernando Pessoa, ortónimo e amado e perfeito, sempre…

 

Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim pude esquecer-me na visão do seu movimento.

Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumam — quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes de paisagem — uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar.

A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. Não alinho hoje nas minhas gavetas carros de linha e peões de xadrez — com um bispo ou um cavalo acaso sobressaindo — mas tenho pena de o não fazer… e alinho na minha imaginação, confortavelmente, como quem no Inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas.

Alguns passam dificuldades, outros têm uma vida boémia, pitoresca e humilde. Há outros que são caixeiros-viajantes. (Poder sonhar-me caixeiro-viajante foi sempre uma das minhas grandes ambições — irrealizada infelizmente!) Outros moram em aldeias e vilas lá para as fronteiras de um Portugal dentro de mim; vêm à cidade, onde por acaso os encontro e reconheço, abrindo-lhes os braços, numa atracção… E quando sonho isto, passeando no meu quarto, falando alto, gesticulando… quando sonho isto, e me visiono encontrando-os, todo eu me alegro, me realizo, me pulo, brilham-me os olhos, abro os braços e tenho uma felicidade enorme, real.

Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram! O que eu sinto quando penso no passado, que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida…, isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos, as próprias figuras secundárias que me recordo de ter visto uma só vez, por acaso, na minha pseudovida, ao virar uma esquina da minha visionação, ao passar por um portão numa rua que subi e percorri por esse sonho fora.

A raiva de a saudade não poder reavivar e reerguer nunca é tão lacrimosa contra Deus, que criou impossibilidades, do que quando medito que os meus amigos de sonho, com quem passei tantos detalhes de uma vida suposta, com quem tantas conversas iluminadas, em cafés imaginários, tenho tido, não pertenceram, afinal, a nenhum espaço onde pudessem ser, realmente, independente da minha consciência deles!

Oh, o passado morto que eu trago comigo e nunca esteve senão comigo! As flores do jardim da pequena casa de campo e que nunca existiu senão em mim. As hortas, os pomares, o pinhal da quinta que foi só um meu sonho! As minhas vilegiaturas supostas, os meus passeios por um campo que nunca existiu! As árvores de à beira da estrada, os atalhos, as pedras, os camponeses que passam… tudo isto, que nunca passou de um sonho, está guardado em minha memória a fazer de dor e eu, que passei horas a sonhá-los, passo horas depois a recordar tê-los sonhado e é, na verdade, saudade que eu tenho, um passado que eu choro, uma vida real morta que fito, solene, no seu caixão.

Há também as paisagens e as vidas que não foram inteiramente interiores. Certos quadros1 sem subido relevo artístico, certas oleogravuras que havia em paredes com que convivi muitas horas — passam a realidade dentro de mim. Aqui a sensação era outra, mais pungente e triste. Ardia-me não poder estar ali, quer eles fossem reais ou não. Não ser eu, ao menos, uma figura a mais, desenhada ao pé daquele bosque ao luar que havia numa pequena gravura dum quarto onde dormi já não em pequeno! Não poder eu pensar que estava ali oculto, no bosque à beira do rio, por aquele luar eterno (embora mal desenhado), vendo o homem que passa num barco por baixo do debruçar-se de um salgueiro! Aqui o não poder sonhar inteiramente doía-me. As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do meu desespero eram diferentes. A impossibilidade que me torturava era de outra ordem de angústia. Ah, não ter tudo isto um sentido em Deus, uma realização conforme o espírito de nossos desejos, não sei onde, por um tempo vertical, consubstanciado com a direcção das minhas saudades e dos meus devaneios! Não haver, pelo menos só para mim, um paraíso feito disto! Não poder eu encontrar os amigos que sonhei, passear pelas ruas que criei, acordar, entre o ruído dos galos e das galinhas e o rumorejar matutino da casa, na casa de campo em que eu me supus… e tudo isto mais perfeitamente arranjado por Deus, posto naquela perfeita ordem para existir, na precisa forma para eu o ter que nem os meus próprios sonhos atingem senão na falta de uma dimensão do espaço íntimo que entretém essas pobres realidades…

Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo… É cedo ainda. Mal passa o meio-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o meu próprio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para os inconfortáveis, alamedas vetustas, inencontráveis de antes, para os isolados no sonhar! Ter de viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra gente, real também, na vida! Ter de estar aqui escrevendo isto, por me ser preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não poder sonhá-lo apenas, exprimi-lo sem palavras, sem consciência mesmo, por uma construção de mim próprio em música e esbatimento, de modo que me subissem as lágrimas aos olhos só de me sentir expressar-me, e eu fluísse, como um rio encantado, por lentos declives de mim próprio, cada vez mais para o inconsciente e o Distante, sem sentido nenhum excepto Deus.

Bernardo Soares/Fernando Pessoa

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