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Quimeras de farol

“A minha solidão é maior que teu silêncio”, disseste-me, há pouco, com os olhos em dilúvio. Ah, Pedro, se tu soubesses como eu sei! A tua solidão nasceu do meu vazio, amor.

A tua avó sempre me disse que o mar me habitava, dentro da barriga dela. Eu, na felicidade estúpida, infante, nunca vislumbrei o óbvio: o mar é a nossa primeira morada, sempre. Não há humanidade sem o líquido ancestral, pois.

Embora eu já tenha te contado tantas referências sensíveis, tantas dores que me trouxeram à condição de poesia, talvez o mar as inaugure todas. Não há mundo antes das águas, Pedro. Todo silêncio prepara o estouro das ondas.

O mar mora dentro de mim, Pedro. Primeiro, nas minhas lágrimas de sal e comiseração. Em sonhos aquáticos, em dúvidas postiças, em serenatas de ressaca. Mora, filho, o júbilo pelos azuis, a estranheza frágil que me suporta, frente às mares.

Mas tu precisas saber que a mudez é o despertar da imaginação. Não existiriam tantas galáxias, dentro de ti, se não houvesse este surdo chamado para os teus próprios oceanos.

A Mamã também soube brincar de enclausurar a voz. Este exercício de contar as histórias para a alma. O abandono dos alardes é o berço dos mergulhos, meu querido. Tu, que querias ter nascido água para ressuscitar os meus naufrágios! Por que te pensas merecedor de cais, Pedro?

Pula com força nestes teus silêncios. Acolhe a efemeridade das tuas marés. Abandona esta súbita vontade de dizer, antes de tudo. A palavra, quando calada, reverbera nas vísceras. Não há poesia tagarela.

Dilacera-me te mostrar a solidão. Grandes são os desertos e tudo é deserto, diria Pessoa.  Mas são maiores os nossos sonhos, quando inauditos. Quando despertares para a grandeza das estrelas, tua dor se unirá ao Universo. Poderás, enfim, cantar quimeras de farol.

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Sonhatório

 

O carnaval nunca foi teu feriado preferido. Sempre me disseste que teu mundo acontecia doze dias antes dele, ou apenas quando ele se ia embora e o ano finalmente começava no Brasil. Acho que odeias o carnaval porque odeias o meu pai. E ele é fruto de uma noite mascarada em teu verão.

Meu pai nunca foi um homem comum. Éramos como estranhos que se comunicavam por sonhos. Havia qualquer cousa que nos afastava. Eu percebo a estranheza da ausência, a vertigem de ver a si, em olhos de outrem. Mas as nossas demoras derivavam de outros escândalos.

Houve, pois, um dia em que descobrimos nossa afinidade. Morávamos, na altura, aquela casa, em Alfama. Um rés-de-chão duplex. Tu sempre gozavas, mamã, da nossa verticalidade para baixo. No entanto, foi lá que tivemos a inventar o sonhatório. E a colecionar todos os sonhos do mundo.

Era segunda-feira, como qualquer outra poderia ter sido. Mas Papá havia sido demitido do trabalho, em Lisboa. Não imaginava que aquilo precederia nossa viagem ao Brasil e à vossa brutal separação. É engraçado como um dia tão feliz possa antever a tragédia. E que nunca estamos imunes à tristeza, nem abençoados pelo céu de churrasco da minha terra.

Papá chegou, olhos marejados, distantes, como se visse o Tejo para sempre. O azul desferia uma beleza improvável. Os olhos de Papá estavam ainda mais azuis, por causa das lágrimas. Eu, com as minhas mãozinhas pequenas, afastei a dor dele. “A cada milágrimas sai um milagre”, cantei.

Declamar com os olhos é algo que a genética me trouxe. Como é vulnerável estar com os olhos a recitar as vísceras! E papá se encheu de oxigênio para impedir que lêssemos as mesmas poesias melancólicas.

O sonhatório foi o nome que ele deu, para nosso jardim. Ensinou-me que era um sótão às avessas, pois não havia janela para ofuscar o horizonte; assim como deveriam ser os sonhos. Descortinados. Infindos. Vingativos.

Pois. Para o meu ídolo, sonhos são vinganças pacíficas que travamos com a vida. Quando a vida se põe a nos fazer chorar, há-se de sonhar. E sonhar estratosferas, universos, galáxias. Vingar-nos de nossa condição.

Perdi meu sonhatório quando o Carnaval de vocês acabou. E jamais consegui me vingar novamente da vida. Então, aceitei a Poesia como segunda vingança. Só a Poesia é senhora do mudar, a partir deste dia, Mamã.

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Sexta-feira

Sextas-feiras são os dias mais bonitos da semana. Tu chamas os amigos para vir a beber uns copos na nossa morada. Eu penso nas interpretações incríveis que lhes posso fazer, para adentrar essas noites contigo. Preparo poesias, ensaio canções, busco fantasias no fundo dos armários, repletos de poeira, e salvação. Não durmo nas quintas anteriores.

Tens um amigo, bêbedo, insuportável, que me vê como um puto paneleiro. Eu só quero deitar a noite na companhia dos realejos. Porque é que te importas com esse tipo de gente, acéfalos em dores de sentir? Talvez exista qualquer inveja que pulse em ti, da qual eu não percebo nada. Tua dor é o teu dom mais belo, mamã.

Quando temos sapateira, tu sempre dizes que é a comida dos deuses. Eu imagino os deuses se lambuzando, perdendo as realezas para lambidas mundanas. Gosto de pensá-los assim: enobrecendo as mãos em saliva. Tu só és feliz ao comer as sapateiras. Porque não gostas de te alimentar, Mamã?

Detestas que os pratos, sujos de histórias e risadas, fiquem à mesa, para contar as decadências. Eu os lavo, feliz, à espera das tertúlias improvisadas. Nessa hora o amigo agressivo vai-se embora. Ele não tolera os dizeres da poesia.

A guitarra está sempre a postos, na nossa sala de estar. Os brasileiros a chamam de violão. Eu amo as palavras inventadas pelos brasileiros. Eu te amo tanto, mamã.

Um Vinícius de Moraes para inaugurar os trabalhos. Fazes sempre essa piada, à luz da Umbanda. Proíbes teus convidados de tocar Garota de Ipanema. A seguir, como é óbvio, tuas cordas vocais ameaçam um português de Portugal – ridículo – porém amado, ao recitar o teu Pessoa: “canções tristes, como as ruas estreitas, quando chove.”

Teus amigos são seres de uma arquitetura imaterial. Sabem à cachaça, aos versos, à eternidade! Estão, às vezes, embriagados demais para sucumbir à tua força de anfitriã. Todavia, mostram suas garras, sempre bem-vindas. Esparramam, cuidadosamente, gentilezas absurdas, obviedades advindas, ignorâncias delicadas. Eu também vos amo, mamã.

O silêncio, quando reina em nossa casa, dilacera meu sorriso, infante. Cálices encarnados, pedaços de queijo pelo chão, palavras escritas em papéis, sujos de vinho. Eu pego, com as mãozinhas envergonhadas, os dizeres que ficaram. Para a próxima sexta-feira.

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Confissões e canções de uma antiga suicida

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“nos demais – eu sei,

qualquer um o sabe –

o coração tem domicílio

no peito.

comigo

a anatomia ficou louca.

sou todo coração –

em todas as partes palpita.”

Vladimir Maiakóvski

Eu havia escolhido. Parece que os olhos ficam mais atentos, depois que o coração invoca as estradas. A miopia desaparece. Os instantes se agigantam, ávidos de finitude.

A dor ficava constantemente anestesiada pelos remédios. Afinal, depois de dois muros, três psiquiatras, uma irmã, uma amiga e um quase-pseudo-namorado, qual sofrimento seria vencido pela medicina?

Os amigos? Uns poucos tentaram. As pessoas têm ojeriza à dor. As pessoas também têm ojeriza à alegria. As pessoas não aceitam os excessos, não importa a natureza. Quaisquer transbordamentos, quaisquer dilúvios, quaisquer tempestades remetem aos humanos que a Natureza nos é maior.

Nenhum poeta mendiga por acolhimento, seus idiotas! Dai-me um papelão molhado, na Praça do Comércio. Uma cama no Jaguaré. Um quarto, abandonado, no feudo. Uma esplanada, de frente para a igreja de Santo Estevão. Ah, como dói quando a alma vai viajar e não se sabe o nome do sítio.

 

96 days

 

I’ve got no reason to feel so blue

Woke up this morning with coffee and sugar

It’s 96 days since I’ve thought of you

I’ve just got this coffe and I feel a little rough

I’ve been smoking too much these days

 

I have been eating well

You would be pleased to know

Windows are clean

do there’s no much to see

 

So I go down to the street

where the cars are like riverboats

Inching along

Cause I light up again

I’ll light up another one

this one is for you and your memory

I guest that you’ve quit it

but left me to have it

I’ve been smoke too much theses days

 

I’ve got no reason to feel so blue

Woke up this morning with coffee and sugar

It’s 96 days since I’ve thought of you

I’ve just got this coffee and I feel a little rough

I’ve been smoking too much these days

 

I have been eating well

You would be pleased to know

Windows are clean

do there’s no much to see

 

So I go down to the street

where the cars are like riverboats

Inching along

Cause I light up again

I’ll light up another one

this one is for you and your memory

I guest that you’ve quit it

but left me to have it

I’ve been smoke too much these days

                                                [Hugh Coltman]

E eu, Pedro, nunca tive medo de ser despejada da minh’alma. Confesso, o meu verdadeiro pavor é não respeitar mais esse planeta. Desprovido de poesia, escasso em generosidade. Lá, de onde viemos, a fartura é condição.

Só que me deparo com Vinícius e a sua casa aberta. São cinco da manhã em Santo André. O céu exige de mim a tradução maior de todas as psicodelias. Sou capaz de atravessar esses azuis, Pedro? Ninguém está pronto para decifrar as alegrias.

No entanto, os roteiristas da vida são uns caras surpreendentes. Eles mudam a cabeça dos personagens, indiscriminadamente, como se as mudanças não tivessem passado por gestações infindas. A gente só arrepia no instante que precede os absurdos.

Leve, como leve pluma

Muito leve, leve pousa.

Muito leve, leve pousa.

 

Na simples e suave coisa

Suave coisa nenhuma

Suave coisa nenhuma.

 

Sombra, silêncio ou espuma.

Nuvem azul

Que arrefece.

 

Simples e suave coisa

Suave coisa nenhuma.

Que em mim amadurece

                                    Ney Matogrosso

Por que será que há tanto glamour em sofrer? Por quais razões eu me identifico tanto com aquele poeta tuberculoso, pobre, derrotado? Onde mora essa bizarra união entre a arte e o fracasso?

Ou será ao contrário? Estamos ainda engatinhando na cosmicidade, ludibriando as ciências, envergonhando as estrelas?

Será que a beleza tem sempre que doer, ou somos nós, seres estéreis, incapazes, inconformados com os estrondos, insustentáveis, free jazz, da vida?

Por que eu ainda tenho medo do escuro, já que eu quero morrer?

Por que eu ainda olho para trás, à procura de um estranho, se eu quero morrer?

“(…). És importante para ti, porque é a ti que te sentes.

És tudo para ti, porque para ti és o universo,

E o próprio universo e os outros

Satélites da tua subjectividade objectiva.

És importante para ti porque só tu és importante para ti.

E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?”

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

Ninguém nunca te vai sentir, Pedro. E pior aqueles que acham que te sentem. São muito menos generosos. Estes me doeram muito mais. Porque a tua dor vai ser sempre mais pequena, mais medíocre, menos válida.

 

“(…) All romantics meet the same fate

Someday, cynical and drunk and boring someone

In some dark cafe

You laugh, he said you think you’re immune,

Go look at eyes

They’re full of moon

You like roses and kisses and pretty men to tell you

All those pretty lies, pretty lies

When you gonna realize they’re only pretty lies

Only pretty lies, pretty lies(…)”

                                    Joni Mitchell

Em um mundo onde a derrota do pensamento impera, ser suicida é quase realeza. E, como fenomenóloga, eu luto, veementemente, pelo direito ao protagonismo. Todavia, o meu caso era de Poesia, misturado com muitas escolhas erradas: além de pessoas extremamente egoístas ao meu lado.

Contudo, eu não poderia ser igual aos suicidas óbvios. Então fui aproveitar, com classe. E, assim, quase matei meus pais. Prometi que, antes de morrer, ia te escrever, Pedro. Já que fracassei em tudo, absolutamente tudo nessa merda de planeta, eu ia inventar, eu ia me vingar, eu ia te fazer.

Meu pacto, por fim, comigo e com os comigos de mim era o seguinte: acabar a ti e me divertir. O resto que se foda. E jamais deixar de ser generosa, por mais que me desse vontade. Afinal, é a minha natureza.

Como meu derradeiro presente: fugir do natal. Odeio natal. A hipocrisia maior. Consumismo bizarro, shopping, amigo secreto. Reúne algumas das cousas que eu mais desprezo ao mesmo tempo. “Meu último natal vai ser na Bahia, não me importa com quem”.

No fundo, no fundo, bem lá no fundo, eu não queria me matar. Eu queria encontrar a minha casa. Mas as transformações são demoras que me desesperam. Eu não queria partir de mim. Assim como eu não quis partir de Lisboa. Assim como eu não quis partir dos amores que se estraçalharam, na minha memória. Eu tenho medo de não me ser boa anfitriã.

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“Pelos caminhos que ando

um dia vai ser

só não sei quando”

                        Leminski

Não sei te dizer onde foi, Pedro. Se ocorreu no banho de rio, quando a ostra quase decepou o meu dedo do pé, à luz da lua. A caminho do forró, a reclamar das distâncias, aparentemente instransponíveis. Nas risadas intermináveis, com aqueles desconhecidos tão amáveis! Nas madrugadas que fiz amigos pela vila. Nos intermináveis amanheceres que vivi.

Qualquer cousa se passou nessa passagem de ano. Lá estava eu a reverenciar o nascer do sol, no dia primeiro. A deitar fora minhas trevas. A vestir levezas que nem me cabem. A aprender que a beleza pode não mais doer.

E eu já não sei mais, Pedro. Tu não eras para ter uma mãe que passasse por isto. Eu vou ter que reaprender a ser mãe para te escrever também. A felicidade não estava calculada no nosso romance, meu querido.

Canção bõnus:

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Capítulo VI – O cavalo

asas

Pedro, meu amor: eu sempre quis que você não tivesse essa desconexão que eu tenho com a Natureza. Não sei se o excesso de conexão mental, que me acomete, como ao seu avô, afasta-me assim dos verdes, dos cantos, dos seres. Eu temi as florestas, como se as florestas pudessem desnudar todos os meus pecados. Eu evito os gafanhotos para que eles não cantem as minhas gafes. Eu odeio os sapos, porque os engoli.

Pois bem, sabendo disso, quando era bem menina, decidi ser amazona. Os animais corpulentos não eram capazes de denunciar minhas noites insones. Ao contrário disso, os grandes me salvariam das mesquinharias.

Ao começar a treinar em um cavalo, eu já sabia que seria uma péssima amazona. Eu sempre sei quando serei ruim em alguma coisa. Pode parecer arrogância, ou medo, ou “cobardia”, meu filho. Eu chamo de intuição.

O problema é que eu amava muito os cavalos. Eles só perdiam, na minha opinião, para os golfinhos. A gente, mora muito longe d0 mar, ainda. Se eu pudesse estar em cima de um golfinho, minha vida seria um sonho…

Sua mãe, contudo, mesmo sabendo que era péssima, decidiu que iria bancar o cavalo. Eu, confessando para você, ficava estarrecida de medo, todas as terças e quintas, quando o motorista me deixava na Hípica. A aptidão era nula – pior que o ballet!

Sou, todavia, teimosa e orgulhosa. Eu aprendi, Pedro. Aprendi a trotar. A pular. Vivenciei, sem selas, o poder de cavalgar. Aquela inexplicável sensação de ser única: você e o cavalo! Ganhei um de aniversário.

No dia que eu ia andar com o meu cavalo – maravilhoso, com o melhor pedigree do universo, meu sonho de princesa realizado… a gente caiu, Pedro. Eu quase fiquei paralítica. Meu terapeuta acha que foi a forma da princesa dentro de mim morrer. Seu avô nunca mais pode ver um cavalo na frente. Sua avó, louca, levou –me pro hospital. Ela acredita nas incríveis entidades, responsáveis pela cura milagrosa.

Eu não sei, Pê. Quando eu cai, senti que caiu um monte de coisa comigo. Perdi aquele status de princesa. Eu só pensava em viver em pouco mais, em te trazer ao mundo. Depois, conseguiram tirar o meu cavalo de cima de mim. Eu levantei, com a falta de ar que se tem quando se cai de costas do brinquedão no parquinho. Saí andando até minha cama. E deitei.

Aí, foi muito mais literário: eu não conseguia mais andar. Eu não me mexia mais. Na altura estava lendo “Longo caminho de volta”, um livro em que o protagonista fica paralisado por um atropelamento. Mas eu não estava com medo. Eu tinha aceitado. É muito absurdo mesmo, Pedro. Mamã tinha onze anos, caído do cavalo, suspeita de estar paralítica e estava bem. Eu nunca vou conseguir entender o que aconteceu.

Encurtando bastante a história: os médicos acharam que a mamãe era um menino (porque meu cabelo estava preso – eu fiquei puta!); quando fui fazer a radiografia tinha alguém ali comigo (esquentava as minhas costas). Eu quebrei a única vertebra que não paralisa – nem para cima nem para baixo.

Anos depois, o terapeuta me disse que essa queda, Pedro, salvou-me de ser a princesa da minha família. Não sei te dizer, meu amor: aqui está, no meio das minhas costas, cicatrizada, no meu medo eterno de cavalos, na lembrança de todos os jogos que vi da copa de 1994, enquanto estava no hospital. Na estranha certeza de que a Poesia era maior do que o andar.

 

 

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Capítulo IV – A Livraria

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Sábados sempre me foram caros à felicidade. Seu avô me acordava antes das oito. Às vezes, já estava pronta. Dentes escovados, tiara com fivela, vestido encarnado. Houve uma vez que vi um espírito, saindo do quarto de seus avós, num destes dias luminosos. Eu, que nunca temi os mortos, corri atrás até o banheiro, onde o espectro se dissipou em centelhas prateadas de luz. Éramos, pois, abençoados por aquelas manhãs.

Morávamos em um apartamento pequenino, só nós três. Dois quartos, sala, cozinha. E a minúscula varanda, que acolhia todas as estrelas. Havia, também, um playground, repleto de crianças da minha idade. Contudo, como você, meu filho, eu amava estar com os adultos. Íamos, a pé, aos sábados, na livraria mais famosa da Vila Mariana, rever os dinossauros do jornalismo.

Essas memórias ainda estilhaçam dentro do meu corpo, efemeridades trovejantes. Aquele tremor antes de chegar às prateleiras. Os rostos, cúmplices, dos vendedores, encantados com a minha paixão. A adoração dos velhos repórteres, pela menina prodigiosa que já amava os livros. Minha soberba em saber-me sedutora!

Acreditei, a partir dali, que os escritores são seres atentos às personagens que passam pelas ruas como qualquer pessoa. Encontram, em vitrines, formas de personificar os manequins. Utilizam suas tormentas, exorcismo literário. Vingam-se dos abandonos em antagonistas. Traem seus cônjuges nas linhas pornográficas que jamais habitaram seus lençóis.

Eu só tinha, na época, direito a comprar um livro por semana. Isso me era uma tortura, Pedro! Ah, como me desesperava com essas escolhas, tão cruéis! Acho que todas as minhas escolhas, depois, foram menos dolorosas.

Só há, como você bem sabe, uma dor maior que a de decidir, entre as esquinas da existência. Aquela mansidão de parto, filho expulso dos escuros. Os pontos finais de uma novela, recém editada. O desapego da página que vai para a gráfica. A livraria é a dialética do cais, na alma do escritor.

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Capítulo II – Ballet

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O cabelo bem puxado, com o coque na altura das orelhas. Uma faixa rosa que impedia os fios rebeldes de atrapalharem os olhos, inebriados pela delicadeza cintilante da sala de espelhos. Sapatilhas confortáveis, um collant, meia calça. Uma saia borboleta me fazia ir rodopiando pelas ruas, na ponta dos pés.

Foi a primeira vez que ouvi Tchaikovsky. A doçura invadiu os poros, antes de chegar à pele, arrepiada. Um dilúvio se instaurou nas vísceras, pequeninas, ignorantes, desprotegidas.

Voltei para casa, aos prantos. Sua avó, aflita, veio com um copo de água com açúcar:

– O que houve, querida?

– A professora pôs uma música muito linda, mamãe.

– E por que isso te fez ficar assim?

– Porque eu não sabia que a beleza doía tanto…

Acho que esta foi a primeira vez, Pedro, que eu soube dessa nossa condição. Não havia aprendido as palavras, escritas. Nada imaginava do amor, romântico. A música foi o despertar da incompletude, em minha alma.

É bom, contudo, quando as dolorosas fragilidades têm gosto de brigadeiro, ou de gemada. Eu fui feliz ao aprender os sentimentos, a escrevê-los, ao compreendê-los, ao desdenhá-los.

Eu te mostrei, mais tarde, aquele poeminha da Cecília Meireles, sobre a bailarina:

A bailarina

“Esta menina

 tão pequenina

 quer ser bailarina.

 Não conhece nem dó nem ré

 mas sabe ficar na ponta do pé.

 Não conhece nem mi nem fá

 Mas inclina o corpo para cá e para lá.

 Não conhece nem lá nem si,

 mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar

 e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu

e diz que caiu do céu.

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.”

Você me perguntou, na altura, por qual razão eu não queria dormir como as outras crianças. Por que a madrugada sempre me foi uma companheira, apesar das galáxias que habitavam o céu do meu quarto. Por que eu alimentava a luz azul na sua cabeceira, se era hora de sonhar. Eu respondi que, às vezes, os maiores dos nossos sonhos são concebidos em vigília, à revelia dos anjos que protegem o ninar.

 

 

 

 

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