Arquivo do mês: maio 2016

Ah, na minha alma sempre chove!

chuva

Fernando Pessoa

Chove?… Nenhuma chuva cai…

Então onde é que eu sinto um dia

Em que o ruído da chuva atrai

A minha inútil agonia?

 

Onde é que chove, que eu o ouço?

Onde é que é triste, ó claro céu?

Eu quero sorrir-te, e não posso,

Ó céu azul, chamar-te meu…

 

E o escuro ruído da chuva

É constante em meu pensamento.

Meu ser é a invisível curva

Traçada pelo som do vento…

 

E eis que ante o sol e o azul do dia,

Como se a hora me estorvasse,

Eu sofro… E a luz e a sua alegria

Cai aos meus pés como um disfarce.

 

Ah, na minha alma sempre chove.

Há sempre escuro dentro em mim.

Se escuto, alguém dentro em mim ouve

A chuva, como a voz de um fim …

 

Quando é que eu serei da tua cor,

Do teu plácido e azul encanto,

Ó claro dia exterior,

Ó céu mais útil que o meu pranto?

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Sobre o voar

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Eu sempre organizava a casa para a chegada do Tom. Comprava leite Ninho, lia a programação infantil do fim de semana, punha mais água nas plantas. O ritual de sua vinda me fazia um homem mais sereno. Deixava de lado as noitadas regadas à gin tônica ou uísque sour. Esquecia-me do computador, dos meus funcionários, de tomar o antidepressivo.

Às vezes, confesso, ainda me dá medo de como será nosso encontro. Nem sempre estamos em plena sintonia. Por mais que nos esforcemos, os dois, há a estranheza da ausência, o escândalo da demora, a vertigem de me ver, em outros olhos.

O Tom mora com a mãe, no Recife, desde os dois anos de idade. A cada quinze dias ele vem me visitar em São Paulo. Este fim de semana era especial – feriado prolongado. Tínhamos cinco dias para desbravar dinossauros, visitar planetas pueris, desenhar universos encantados.

Decidi convidar duas amiguinhas do jardim de infância, no sábado. Sinceramente, não sabia se elas ainda lembrariam dele. Quando se tem dois anos e o cérebro ainda em construção, é impossível discernir qual lembrança escolherá a memória como casa.

A Beatriz e sua mãe chegaram pontualmente às três horas. O sorriso da pequena era capaz de me salvar de todos os pesadelos que tive, quando criança. A inesgotável felicidade de quem vive os instantes em doses homeopáticas. Sua alegria em ver meu filho, austero, menino, transbordava os quartos e os contos de fadas. Paixão mesmo.

A outra menina demorou mais de uma hora para se juntar àquela sala de verdades inventadas. Sua mãe, Maíra, uma socialite que não estava acostumada a dirigir o próprio carro, tivera dificuldade em estacionar. Eu moro ao lado do Morumbi e era final do Campeonato Paulista.

Enquanto a Julia, rebenta da burguesa insossa, não chegava, parecia-me óbvio que Beatriz se esbaldava na exclusividade com o Tom. Envergonhadíssima e alerta. Elegia todos os seus brinquedos preferidos. Enredava desvarios de eternidade. Sorria, tímida, à espera da aprovação da mãe que, estarrecida, buscava alguma cumplicidade no meu olhar.

A tarde durou menos que um pôr do sol de outono. Quando me deparei com o relógio de mesa, uma relíquia vintage comprada na semana anterior, já passava das oito. Repletas de brigadeiros e poesia, as meninas se despediram do Tom e de mim. Reparei nos sorrisos escondidos na íris de Beatriz. Sua mãe, acanhada, veio me confessar, baixinho:

– A Bia fala toda hora do Tom. Ele é o primeiro amor da vida dela, mesmo sem vê-lo.

Atordoado, passei a noite pensando naqueles primeiros afetos. Amores que levamos em formas de nuvens. Amores que se dissipam nos azuis e esquecemos para sempre.

No dia seguinte, levei o Tom para Guaecá. Achei que nossas horas seriam melhores, longe do caos da Pauliceia. Lá, distraído pelo cheiro de algas e mergulhado nos escritos de Henry Miller, recebi um vídeo da mãe da Bia. Elas haviam estado no Borboletário de São Paulo, naquele momento. Uma borboleta, silenciosa, atreveu-se a pisar no nariz da menina. A mãe, orgulhosa, registrava a doçura com o celular, quando a filha lhe disse:

– Borboleta, quero que você vá até o Tom, que mora no Recife!

Uma delicadeza enorme e corroída me suspendeu em quimeras. Como é possível uma criança sentir esse absurdo gratuito que é o amor, nessa idade?

Mostrei o vídeo, imediatamente, ao meu filho, exausto de oceanos. Ele, menino, mostrou-se profundamente desinteressado:

– Papai, eu detesto borboletas!

Senti-me um imbecil. Por ser homem; por entendê-lo; por testemunhar tamanha atrocidade, vinda dele. Meu pequeno paraíso repetia as mesmices que eu tanto abominava. Onde havia escondido sua sensibilidade?

Passei o domingo inteiro e boa parte da manhã de segunda a explicar ao Tom sua impassibilidade com a amada. Argumentei que nada era relacionado às borboletas. Só existia o desejo de endereçar saudades, algures.

Não tive a certeza de que ele me entendeu, até o fim do dia. Entramos no mar, ainda morno de sol. Uns quatro peixinhos, gêmeos, invadiram a paisagem. Eram amarelos com detalhes rosados. O Tom, inebriado pela possibilidade de agradecer, tentou encarcerá-los com os dedos, miúdos. Falou, com a liberdade dos deuses:

– Vou guardar esses peixinhos para a Bia, papai. Quem sabe ela também goste de voar para dentro!

Embasbacado, eu não consegui pensar em outra coisa: tornei-me pai para regressar ao Nunca.

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Letra & Música

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Em tempos de outrora, quando os sonhos ainda sorriam, havia, no mais longínquo de todos os oceanos, uma bela sereia. O resplandecer de seus cabelos era de ofuscar as narrativas. Sua pele desafiava as cores do sol. Mas sua voz não existia. Lili era a única sereia muda de toda a sua espécie.

No início, era tratada como um acontecimento. Utilizavam-na para justificar as barbáries humanas. Colocavam seu silêncio como maldição das alianças feitas entre a terra e o mar. Isolada de todo afeto presente nas famílias marítimas, sem nenhuma educação formal, ela aprendeu sozinha: a ouvir as marés; a desenhar os breus; a enfeitar as ondas com as palavras que jamais iria proferir. Virou poeta.

Longe dali, em território sólido e arenoso, vivia João. Tinha ascendência pirata desde que seu bisavô fora deserdado por sua abastada e nobre família. Séculos e séculos de grandeza se transformaram em águas azuis e marginais. Joias, amuletos, superstições. Maldição de sereias. Bom, nada disso tinha a ver com o João. Ele simplesmente gostava de tocar sua viola e inventar músicas em sintonia com os movimentos da lua. A noite lhe fazia companhia, ao guardar o seu segredo: odiava roubar ou machucar outras pessoas.

Seu pai, contudo, poderia perder a fama de velho lobo do mar. “Um filho meu não pode ter a alma do avesso, para fora da pele”! – Vociferava. Era imperativo a presença de seu espelho na próxima embarcação. Havia um carregamento imenso, trazido da África, que lhe renderia as maiores riquezas.

Lili habitava as paisagens como um narrador onisciente. Sua clausura invadia as profundezas, ignorando as tempestades. O vazio aumentava os sabores. Seu espírito, no entanto, doía. Se tivesse uma voz, será que me sentiria mais amada? Haveria um amor em mudez absoluta?

Enquanto isso, João se embriagava de conhaque para suportar o peso daquela viagem. Seria capaz de assassinar velhos e crianças? Aguentaria os apelos das mulheres a reverberar seu pensamento? Ou conseguiria enganá-las até o fim? O périplo parecia perigoso. Pensou em morrer em alto mar. Heroico.

O coração de João, entretanto, passou a bater em descompasso quando ele avistou a ilha, meses após meses só tendo o horizonte como testemunha. Aquele verde, ínfimo, repleto de árvores e pássaros selvagens, possuía o contorno perfeito de uma clave de dó.

A sociedade aquática, ao perceber as estranhas movimentações nas ondas, começou a se preocupar com o gigante de madeira que não afundava. A bandeira negra, com o símbolo de uma caveira no mastro real, só poderia ser o presságio de uma batalha contra os destemidos viajantes. Era hora de se preparar para combatê-los.

Lili parecia alheia a todo o pânico que o navio pirata causava em seu povo. Passava os dias estudando a dança das nuvens. Catalogava os mínimos cantos das aves. Inventava nomes para as ondas. Escrevia versos nas areias brancas.

O pai de Lili, um deus marinho de porte exorbitante e feições assustadoras, preparava sua fúria para recepcionar os hóspedes indesejados. Organizou todos os seres para aniquilar a caravela. Sua ira, todavia, entristecia as árvores, afligia os peixes, desesperava as estrelas. A natureza não ansiava por mais uma guerra.

João desconfiou da calmaria. O reflexo do luar carregava uma reclusão tão infeliz, naquela madrugada. Seus dedos deslizavam com pesar pelas cordas do violão. O azul que cobria o céu tinha gosto de lágrimas. Ele sabia que algo terrível estava prestes a acontecer.

Lili, cúmplice da melancolia relatada pelos ventos, foi até seu pai, para confrontá-lo. “O seu ódio só diminui a alma desse lugar”, escreveu em algas. “A nossa essência é comunhão com tudo aquilo que não nos pertence. Você destruirá a todos nós, caso não se liberte desse sentimento inferior”.

Culpado pela condição da filha, o pai ignorou o sábio conselho. Ele se ressentia de ter sido cordial com outros marinheiros, em memórias esquecidas. Acreditava que a mudez de Lili era o castigo por lhes ter ajudado a atravessar aquelas águas. Chegava o momento de se vingar. Todos os silêncios seriam extirpados, finalmente.

João, em sincronicidade cósmica, interrompeu o jantar dos piratas. “Essa tranquilidade é mau agouro”, disse, com a voz trêmula. A tripulação, já entorpecida pela soberba, riu-se dele. “Como você pode ser sangue do meu sangue”? – Questionou o pai, estarrecido com a sensibilidade do filho. “Se não gastasse seus dias a transbordar o romantismo em canções, já saberia a verdade que reside no útero do mundo!”

Lili, em prantos, nadou em direção à nau, na expectativa de alertar a iminência da catástrofe. João, desconsertado, pôs-se à beira da proa. Ele ensaiava o derradeiro som, à espera da coragem de atirar a si mesmo nos gélidos braços da morte. Ela o ouviu. Ele a enxergou. Aquele instante que precede a epifania.

João mergulhou, enfim. Lili, já imersa, resgatou seu corpo, exausto de desencontros. Carregou-o por léguas e léguas, na velocidade das paixões. A alvorada já ensaiava seus dizeres antes dele despertar do sono de eternidades.

Quando o amor se reconhece, sempre haverá letra e música, dizem as lendas.

 

 

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Em lugar algum, o amor

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Eu andava, atordoada, desde o momento em que foi me proposto: pense nos dois lugares que você mais ama em São Paulo. A pergunta ainda me parecia indissolúvel, dias depois de ter sido enfrentada. Não amo lugar algum em São Paulo.

Contudo, havia o desafio de conectar dois pontos da cidade, amados por outrem. Decidi começar pelo Theatro Municipal para finalizar meu trajeto na Praça do Pôr-do-Sol, ao lado de casa.

É curioso que havia estado no Municipal, na sexta anterior, para assistir La Bohème, de Puccini. Em menos de uma semana eu reencontrava o lugar inevitável da infância, onde disse à minha mãe: ‘isso aqui é mais bonito que o Natal’. Sendo obviamente lindo, eu não amo o Municipal. Não amo lugar algum em São Paulo.

O sol e a tarde nublam a beleza do teatro. À noite, os smokings e os xales escravizam o olhar. Perdemos, assim, os craqueiros e os mendigos. Esquecemos o cheiro incompreensível de existir.

Saí, rapidamente, com medo e desesperança. A mim, agora, o palco verdadeiramente se assemelha ao Natal. Peguei o República, rumo à Faria Lima.

O metrô, limpíssimo, incomoda-me a escrita. A imundície já estava entranhada nos dedos. Saí, fone nos ouvidos, ignorando a presença dos salvadores de culpas, que vendem, por trinta reais, o futuro de uma criança africana. Não, nem a África, nem os médicos sem fronteiras, fazem-me amar lugar algum em São Paulo.

Apanho o 875C com Cortázar na mão. A “Autoestrada do Sul” é um conto de fadas perto do caos que pincela a avenida em vermelho, buzina e monóxido de carbono.

Lotado, o ônibus não me permitia captar os personagens, históricos. Segura a bolsa, a bunda, a dignidade. Quando, finalmente, consegui sentar-me, uma voz interrompeu minha linearidade. A velhinha distinta reclamava das passeatas que aconteciam por ali. E eu, quase deprimida, só tinha vontade de lhe dizer: não amo lugar algum em São Paulo.

Por que não amo lugar algum em São Paulo? Penso na Paulista do Gudin: “se a avenida exilou seus casarões, quem reconstruiria nossas ilusões? ” Quase faz frio por aqui. A Praça do Pôr-do-Sol, ainda bem, está repleta de nuvens. Jamais suportaria que minha investigação fosse interditada pelos abraçadores de árvores.

Cerveja na mão e baseado no maço, vejo a discrepância entre os lugares amados por meus colegas de literatura. No alto de Pinheiros um casal se amassa entre os troncos. Ah, nostalgia do amor obrigatoriamente público! Uma menina sozinha bebe Gatorade. É careta, certeza. Vai-se embora. Outra ocupa seu lugar. Pede uma seda. Essa é espertinha, né? Não amo, mesmo, lugar algum em São Paulo.

A Praça do Pôr-do-Sol é ridícula. Há resquícios de fogueira. Um homem faz, em pseudo-silêncio, aulas de Tai-Chi. O violeiro, estereótipo do hippie, toca Coldplay ao invés de Raul. Não há como amar lugar algum em São Paulo.

Fico com medo. Sou mulher, estou de vestido, meia calça, anoiteceu. Só desejo acabar essa crônica em casa. A salvo. Espero, uma vez mais, pelo transporte público. Todavia, quando o destino chega, o cigarro ainda está aceso. Vou dar mais cinco minutos, sentada aqui, exercendo meu jornalismo literário.

E eis que surge um novo 875C. Entro, ainda chateada por não ter cumprido a tarefa de amar São Paulo. Olho para a cadeira vazia. Cadê o cobrador? Serei paciente? Causarei? Desconto nele meu desamor? Onde esse filho da puta se enfiou?

Olho, novamente, para a frente do ônibus. Um cara, alto, gato, brinca com duas menininhas que estão no vão. A mãe, quase anã, tira o elástico do cabelo. Escolhe o sorriso mais bonito como se escolhesse uma roupa, em noite de premiação. Só me restam duas estações. Ele mostra, orgulhoso, o crachá de cobrador. As crianças dão risada. A mãe faz topete com as mechas alisadas.

O amor que eu tanto procurava não estava preso a lugar algum. “O homem e a hora são um só”, já dizia o sábio Pessoa, em pele de Bernardo Soares.

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