Arquivo do mês: janeiro 2011

Pequenas ternuras*

Paulo Mendes Campos

Quem coleciona selos para o sobrinho; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se se detém no caminho para contemplar a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas ou de já não aguentar subir uma escada como antigamente; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso amoroso; quem procura numa cidade os traços da cidade que passou, quando o que é velho era frescor e novidade; quem se deixa tocar pelo símbolo da porte fechada; quem costura roupas para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar, já quebrando a cerimônia com um início de sentimento: “Meu pai só gostava de sentar-se nessa cadeira”; quem manda livros para os presidiários; quem ajuda a fundar um asilo de órfãos; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem compra na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias de um amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe derem de presente, a caneta e o isqueiro que não mais funcionam; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque para brincar com amigo ou amiga distante; quem coleciona pedras, garrafas e folhas ressequidas; quem passa mais de quinze minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em ligeiro e misterioso transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se envergonha da beleza do pôr-do-sol ou da perfeição de uma concha; quem se desata em riso à visão de uma cascata; quem não se fecha à flor que se abriu de manhã; quem se impressiona com as águas nascentes, com os transatlânticos que passam, com os olhos dos animais ferozes; quem se perturba com o crepúsculo; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente a pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga perceber o “pensamento” do boi e do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e, mesmo aparentemente livres como os outros, andarão por toda parte acorrentados, atados aos pequenos amores da grande armadilha terrestre.

* Essa pequena ternura é a Bella, filha dos meus amados primos, o Dani e a Nicole. Quantas vezes eu não fui salva pela sua voz…

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Do disco voador!!!

http://http://www.youtube.com/watch?v=II1HjAeo7k4

Tenho que escolher o que detesto — ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensibilidade repugna; ou a acção, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.

Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar, ou agir, misturo uma coisa com outra.

Livro do Desassossego. Vol.II. Fernando Pessoa.

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Hoje é domingo missa e praia céu de anil
Tem sangue no jornal, bandeiras na avenida Zil
Lá por detrás da triste linda Zona Sul
Vai tudo muito bem, formigas que trafegam sem porquê

E das janelas desses quartos de pensão
Eu como vetor, tranquilo tento uma transmutação
Ô, ô, ô seu moço do disco voador
Me leve com você, pra onde você for

Ô, ô, ô seu moço mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que tem tanta estrela por aí.

Andei rezando para tótens e Jesus
Jamais olhei pro céu, meu disco voador além
Já fui macaco em domingos glaciais,
Atlantas colossais, que eu não soube como utilizar

E nas mensagens que nos chegam sem parar
Ninguém, ninguém pode notar

Estão muito ocupados pra pensar.
Ô, ô, ô seu moço do disco voador
Me leve com você, pra onde você for

Ô, ô, ô seu moço mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que vem tanta estrela por aí.

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De quem eu vim


Ladainha

Miriam Portela in “O Continente Possuído”

Senhor, tende piedade

dos que têm no lugar do coração

uma pedra branca e fria.

Tende piedade dos sós

dos cegos e apolíticos

porque não crêem.

Tende piedade dos responsáveis

porque dormem fartos e não percebem.

Tende piedade dos loucos lúcidos

que são enjaulados e dos apenas lúcidos

incapazes de medir a extensão

de suas loucuras.

Tende piedade

dos que sentem frio

e cortam a carne

e sentem medo:

eles estão desarmados.

Tende piedade dos fortes e poderosos

porque não sabem sentir

e se cansam logo.

Dos que pensam em voz alta

e provocam pânico

e são condenados a um silêncio

anormal.

Tende piedade, Senhor

dos que têm pressa –

a esperança para eles é fugaz.

Piedade para os que se sentam

e permanecem estáticos –

o seu caminho é mais longo

do que imaginam.

Tende piedade dos violentos

porque neles a fragilidade é maior

e essa é a sua vergonha.

Tende piedade dos que mentem

e acreditam que estejam realizando

construções na mentira cotidiana.

Tende piedade de todos nós

Senhor

porque não somos pródigos

e necessitamos da tua

misericórdia.

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Despedida

RUBEM BRAGA

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

Foto de Marcela Lalim: Lisboa ao amanhecer

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Passeios

Vesti meus olhos de poeta e vi:
teu vulto esguio atravessando os espaços
tão breve!
Na ânsia de te deter
vesti apressada
minhas invisíveis luvas de poeta
e agarrei o gosto do pólen recém tirado
das flores
e senti o úmido das manhãs orvalhadas
esquecido nos ares.
Que fruto doce-azedo seria aquele
que me queimava a palma das mãos?
Seria feita da memória do cedro ou do carvalho
a sombra por mim adivinhada?
Com a inquietude que habita
minha alma de poeta
parti atrás do rastro dourado
deixado em teu passeio.
E vislumbrei lagos, onde mergulhei.
E desenhei aldeias e vilas que percorri
em busca da tua alma terna e luminosa.
Havia uma promessa de amanhã
no mundo tocado por teu brilho.
Alguma coisa em ti
refletia
reluzia
iluminava.
Com a delicadeza que molda meus dedos de poeta
despi-me da poesia
e ainda pude ver:
Teu vulto esguio
cruzando os espaços
tão leve!

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Quase

Mário de Sá-Carneiro

Um pouco mais de sol – eu era brasa,

Um pouco mais de azul – eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa…

Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz?  Em vão… Tudo esvaído

Num grande mar enganador de espuma;

E o grande sonho despertado em bruma,

O grande sonho – ó dor! – quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim – quase a expansão…

Mas na minh’alma tudo se derrama…

Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo … e tudo errou…

– Ai a dor de ser – quase, dor sem fim…

Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se enlaçou mas não voou…

Momentos de alma que, desbaratei…

Templos aonde nunca pus um altar…

Rios que perdi sem os levar ao mar…

Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…

Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;

E mãos de herói, sem fé, acobardadas,

Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,

Tudo encetei e nada possuí…

Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi…

Um pouco mais de sol – e fora brasa,

Um pouco mais de azul – e fora além.

Para atingir faltou-me um golpe de asa…

Se ao menos eu permanecesse aquém…

 

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Por que há poesia em mim…

Notícias da Ilha

Findo o espanto
Passado o entorpecimento
Trazido pelos calmantes
Doces analgésicos da alma
Resta-me a perplexidade.

Quando deixarei de me surpreender
Com as lutas travadas
Entre a vida e a morte?
Mas a vida, meu irmão,
Vence sempre
Mesmo quando a morte
Rouba-nos o corpo.

Descansa
Ainda é cedo para despertar.
Enquanto dormes
Teu sono invadido pela eternidade
Eu te velo
Como velei nosso pai.
Entoarei cantigas de ninar
Para afugentar os pesadelos e as sombras.

Tua presença ainda está dispersa pela ilha.
Solta pelas esquinas, ruas, bares.
Vejo-te, às vezes,
Acompanhando teu cachorro
nos passeios de fim de tarde.
Ouvi tua voz rouca
No vento sul impiedoso
Que varreu a cidade
No dia da tua morte
E te reconheço nas bandeiras rubro negras
Que vestiram o Maracanã
Após o teu enterro.

Sei que estás presente
Em tudo
O que chamamos vida.
Nas tuas netas que nascerão
Nas histórias que contam a teu respeito
E nos segredos que guardamos.
A vida não se gasta, meu querido irmão.
O que se perdem são as ilusões, os apegos
Para podermos partir mais leves.

Ah, quando seremos educados pra viver
Em vez de perdermos tanto tempo
Com conhecimentos inúteis.
Faço de conta que estamos viajando
Por países diversos e que, em breve,
Trocaremos cartões postais.

Quando despertares, não te assustes
A vida continua sempre.
Se sentires medo, reza
Como aprendeste a fazer
Nos últimos tempos
E verás que luzes coloridas romperão
Os espaços a te abraçar.
Se te sentires só, visita-me
Nunca temi os espíritos,
E serás sempre bem vindo.

Miriam Portela

 

Vivi séculos de fome e cilícios

 

Vivi séculos de fome e cilícios.

Vivi vidas de fausto e opulência.

Vivi a fartura, o êxtase, o sagrado.

Através de ti, todas as primaveras se

anteciparam, todas as colheitas,

os frutos acres e maduros; as neblinas,

os serenos, as madrugadas se ofertaram.

Em ti, vivi o momento cósmico da expansão

dos corpos sólidos.

Ensinaste-me o fogo e ele me consumiu…

Ensinaste-me a saliva e ela me saciou…

Ensinaste-me os suores e eles invadiram os

poros de prazer.

Tu me mostraste

como se mata a sede na concha das mãos e

teceste em minha pele, desvios de rotas.

Tu arrancaste de meu rosto as máscaras

ardidas de dor e me devolveste um rosto sem

rictus.

Tu me revelaste a simplicidade das formas e eu

redescobri a inutilidade de todos os meus

adereços.

Miriam Portela – Nos Mares de Vênus

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