Arquivo do mês: janeiro 2009

Noctívaga

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São quase quatro da manhã e o inverno espantou todas as minhas folhas. Faz frio, chove, venta. É um desamparo tão característico, até vergonhoso. Beira a mesquinhez das imagens. Mas a descrição é verdadeira. Eu, curiosamente, preciso de gelo para aliviar minhas dores. E vivo o mais estranho paradoxo: se a neve cura meus músculos atormentados, porque o frio trata tão mal minha alma? 

Mas há o silêncio das quatro da manhã. Ele fez faxina nas vozes, nos problemas e nos bichos. Sua força é ingente. Poderia fugir com ele, se ele me quisesse para sempre em sua casa. Iria sem identidade, esqueceria meus filhos, abandonaria o marido. Iria nua, mente sem agasalhos, pés descalços. Ah, se esse silêncio me desejasse também!

Estou inerte, esquecida no quintal da minha casa. Uma tristeza encharca o banco no qual estou sentada. Esse pedaço de madeira me suporta. Aninha-me nos braços. Incapaz estou de ver as estrelas. A lua está escondida por um céu cor de terra. Meus amigos vivem seus cotidianos, emaranhados de tarefas e compromissos. Só a noite tem me feito companhia.

A necessidade de escrever é maior nessa hora. Desde rebenta assim fui: trocando os horários da normalidade. Parece a mim que o dia não espanta somente os vampiros. A poesia fica escondida sob o sol.

Os minutos das manhãs me são longos, uniformes, óbvios. Caminho por eles de muletas. Temo encostar os dedos em suas gélidas faces. A luminosidade encobre uma rigidez característica dos períodos ensolarados. Porque o calor não lhes pertence, é empréstimo beneficente do astro rei.  

Os caminhantes estão enforcados nas gravatas. As senhoras com cheiro de almoço apressam o passo. Parece que a música foi calada pelos escritórios e carros. E há uma algazarra desarmoniosa, inquietante, estúpida. O tempo nascido em claridade tem gosto de função fática. Traz em si a banalidade das conversas no elevador. Queima minha língua e as minhas palavras: eu só discorro quando o crepúsculo invade as corujas. A minha escrita dá-se no intervalo dos pássaros. Inversa aos estereótipos e chavões, são galos que anunciam o meu repouso.  

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Em doses homeopáticas

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Eu acredito em placebos. E jamais me importaria se estivesse passando por tola, nessas linhas. É uma afirmação que deveras difere do cor de rosa “eu acredito em fadas” e teria de atravessar um deserto para alcançar o niilista (e hilário) “eu acredito em duendes”. Porque as primeiras, as damas da leveza, são bichos da contradição. Movimentos de balé condensados num corpo humano e divino – duas entidades impossíveis de serem conjugadas, gregos que me perdoem. Há ainda nelas um bosque de lírios e uma aura verde, miscigenada à crueldade das sereias. As fadas não existem para acreditarmos nelas, convenhamos: elas nascem no solo da literatura criadora, em sonhos de floresta. Acreditar numa fada é dar forma ao silêncio: morte fulminante.

Os duendes já têm as almas mais desenhadas em carne. Não comportam maniqueísmos nem fábulas grandiosas. Seres da terra, da lama. Um cheiro excessivamente castanho nutre suas enraizadas referências. Traiçoeiros, espertos e divertidos. Claro que também não existem. Parece a mim que um duende está envolto em suas próprias travessuras, por inteiro. Não se questiona nem entristece. Esqueleto sem melancolia não há. Até mesmo os milhos choram de dentro para fora. E seus espíritos do avesso são pipocas.

Os placebos, meu Deus, são as sementes da inverdade humana. Torturadores dos áugures, eles mudam o destino das jangadas, tornam o périplo uma viagem sem roteiro. Cápsulas de farinha entoam voos labirínticos por planetas inexistentes. Um devaneio comprimido supera tantas pungências – até então – insuspeitas. É um rodopiar, é uma vertigem comprovada pela medicina. Embora jamais precisasse de evidências científicas. Basta uma imaginação fumegante, meus pensamentos são simples. Aceitam quaisquer alimentos invisíveis. Em mim, as estátuas da realidade são desarvoradas. As alamedas inventadas têm mais folhas. Por qual razão haveria de violá-las?

Eu acredito no poder fictício dos placebos. O mistério esparsa aos ventos os resquícios prometidos. Sou agente do meu universo imaginado. Um exército com os mesmos poderes bélicos dos antibióticos. Sem a mínima saudade daquilo que nunca viverei. Eu engendro a memória que me percorre, latejante. Contudo, algo não pode estar suspenso, inadvertido. O coração, ao aceitar o placebo, tem que acepilhar a calmaria. A liberdade onírica chega dócil. De hora em hora. Salpicada, em minúsculas doses homeopáticas.   

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Sem nome e vira lata

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Um belíssimo cão vira lata me seguiu nas últimas semanas. É imponente e habilidoso. Um pêlo que brilha, ofusca os olhos curiosos dos transeuntes lisboetas. Latido de guarda, vigia receoso.

Esse leal amigo – verdadeiro pajem – não me deixou sair muito de casa. Ficou deitado ao meu lado, essa fidelidade somente canina. Levantou vagarosamente a cabeça quando não ouvia a velha máquina de escrever. Dormiu aquecendo meus pés. Prefere o som da música clássica que, às vezes, inundou nosso ambiente de trabalho.

Não tive a coragem de dar a ele um nome. Simplesmente eu o agradeço. Afastada e solitária. Grata pelas léguas as quais me entregou. A exiguidade humana faz-me enorme bem. É um sentir tão novo, tão frágil. Uma faceta minha até então encoberta pela tagarelice ontológica. De mudez é absorvido meu pensar. Nem ao menos ouço os frêmitos faiscantes, meus pulsos. São afastadas de mim tantas tolices, tanta banalidade. E, sem nenhuma tristeza, eu vos digo: tenho apreciado muito o isolar.

No início, ter apenas um animal como companhia é duro. Abandonar a humanidade e levitar pelos espaços da solidão. Sem gente por perto, primeiro sente-se a imagem depressiva de um papel de carta que perdeu seu envelope gêmeo, com flores em relevo e gosto de morango. Estar só é não saber onde se coloca o endereço.

Minha ama de leite adorável, o cão, exorcizou esse pensamento com muitas lambidas inspiradas. Os textos fluiam até de pálpebras cerradas. Só que há em mim uma autoflagelação. Ai me perdi, em algumas madrugadas. Senti que meu ser habitava um clássico vestido de noiva. O coração cheio de inveja dos demais trajes, que tão bem conhecem a cidade. Esqueci-me de minha soberana existência. O cachorro ladrou tanto, quando me viu novamente suplicando por afetos. Seu olhar, quase mortal, decepcionado. Ele dizia, mudo: “Eu não basto?”

Percebendo que era hora de intervir, ele se aconchegou no chão, de barriga pra cima. “Pousa a sua cabeça por uns instantes aqui. Sou seu travesseiro”. Vou lhe contar uma história – disse o sábio: “Eu tinha conhecido o planeta há trinta dias. Fui o primeiro dos irmãos a ser eleito. De nada adiantou-me a predileção, na noite inaugural com meus donos. Só conseguia sentir o grosso sabor – leite da minha mãe… Como pude ser tão estúpido, flamejando em ingratidão! Lamentava ser filho único, pela falta de companheiros que agasalhassem noites de janeiro. Era eu quebrantável unha em noite de festa. A declaração de amor guardada no fim do caderno. Um fantasma grudado aos pertences da casa, acorrentado aos candelabros e tesouros.”

Não o deixei finalizar sua história porque havia entendido a minha própria. Depois de presenciar suas ermitãs fotografias, um bólide aterrisou, intuitivo, em minhas palavras. Explodiu as rasas, melancólicas abnegações. Incandeciam brasas tonitruantes. Nobres labaredas a destruir intransitivos tormentos. Ah, a glória de ter a si como última morada!

A urgência quieta de mim mesma. Arfando efervecências do interno mundo, do qual devo agir como síndica. Eu que antes acreditei-me infecunda. O outro, até esse instante,  figurando como a ponte do intransponível mistério. E estava tudo cá dentro. Enlevos fulminantes das galáxias. A mais óbvia e oracular argúcia!

Foi então que ele pegou a tigela com a boca, preparando-se para partir. Enovelada por perplexa confusão e temor, tentei impedir. E de mansinho que me disse: “Como as crianças, engulo a pureza dos joelhos esfolados. Saudade sempre dá. As distantes, sonhadas vozes das multidões. Regar flores em reciprocidade. Todavia, é preciso repousar no leito largo. Adormecer eremita. Elefante que foge para a morte. Formiga que deixa a pesada folha. Eu quero, por vezes, cortar as madeixas da convivência, dormir em crisântemos.”

Curiosamente, a missão desse pequeno mestre era dar-me abrigo para que eu mesma acalentasse o lar. Depositou as sementes e esperou que minha ferocidade permitisse ao solo o nascer.

Antes de fechar cuidadosamente a porta, falou bem baixo: “Eu agora preciso seguir meu permanente destino. Há tantos a ensinar!”

Ali fiquei, parada. Quaisquer objeções seriam inúteis. Calei as possíveis amenidades. O jeito foi abrir uma garrafa. E beber os irrevogáveis goles dos meus oceanos.

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Holocaustos escolares

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Hoje deixo entre parênteses, suspensa no balanço das crenças, a protagonização humana. Meu sangue corre pela filosofia da escolha, sim. Abro meu texto pedindo perdão. Porque estou prestes a trair. Agradeço a religião eleita com paixão, antes de dar o beijo na testa. Amada filosofia, entreguei-me, esta noite, às limitações da sua sapiência. Eu sei de cor tantas lições que consigo ouvi: a capacidade inerente a cada ser humano de traçar seu próprio caminho; a nossa encarnação de decisões; nada em nós é prejudicado, a não ser por nós mesmos, etc.  

No entanto, a coexistência com os demais seres pode influir em nossas jornadas. Confesso, enviuvada: há em nós uma necessidade do outro. Não somos tão principais como almejamos, nós, atores dos palcos azuis. Existe tanto por detrás das cortinas. Pais, amigos, amantes, mestres. E os últimos são meus eleitos. Não quero discorrer sobre os sábios, é óbvia sua influência. Tenho o ímpeto de falar sobre os maus professores, os traumáticos em nossas vidas. Eu te imploro com voz tímida: Fenomenologia, você aceita dizeres vitimizados? É porque desvendei certos movimentos aos quais somos títeres. Infelizmente nem toda a nossa educação é depurada.

A falta de didática pode sim corroer nossos traços de genialidade, se não tivermos a alma blindada. Uma autoestima em clausura, interna e segura de suas próprias vocações. Pois se existir alguma espécie de dúvida, as habilidades podem estender o lenço branco e fugir das nossas carnes.  

Sei disso porque outra noite debulhei-me em lágrimas. Semanas atrás, vítima – não concebo outra palavra, peço-lhe irregováveis desculpas – vítima da estupidez mais mesquinha, da imundície mais institucionalizada, da soberania dos títulos.  

Eu, menina entusiasmada, tagarela, nervosa. Tanta imaginação! Quantos escassos vasos permissivos do transbordar. Quando aluna, tudo em mim é belo. Imersão em atenções intuitivas. Ideias pululantes, embriagadas de originalidade. Ah, as célebres respostas que deixei de dar, por arredia insegurança.

Lições de casa sempre me foram desafiadoras. Nunca ficar no lugar comum, nunca apresentar o que o mundo todo já fez. Inovar. Estou certa de que há em todos nós um visionário. Um matador de clichês. Um ser séculos a frente do seu tempo. E todos os meus estudos são banhados por essa doutrina.

Assim, vejo o pensamento saltitante. Ele esperneia, entorna mil bússolas. Não me é indicado caminho algum, apenas a febril convicção. Fecundar livre, magistral. Correr os terrenos, desbravando-os. Cobrir-lhes em virgindade. O labirinto acadêmico, cruel e monstruoso. Esconde demasiados atalhos nus.

E havia um trabalho muito enfadonho para o mestrado. Pousei meus dedos sobre as teclas. Busquei sustentação criativa, não queria algo semelhante com nada. Procurei nos céus um auxílio. De repente, aparece a mim uma bailarina. Inaugurou-me o entardecer das frases. Instaurou passos em sobriedade. Penteou os autores que haviam sido objetos de estudo, antes enrolados por inúmeras novidades apreendidas. Conduziu-me pelo texto-dever-de-casa. Quanta excitação eu vivi, ao desvendar novas faces daquilo que parecia maçante e hostil. Fiz dele uma engenhosa brincadeira. Porque  toda inteligência é digna dos infantes. Só a criança doma os leões da escola. Há uma grandiosa facilidade em amansá-los. Pequena idade dos dentes de lente. Aquela que torna quaisquer limitações – cruéis devaneios da aprendizagem – sucumbidas dissidências.

Os regentes da orquestra, os docentes, devem ter muita sensibilidade. Retirar o melhor. Nunca negar a produção artística do discípulo. Guardar as empoeiradas palmatórias. Claro que se deve ter a memória ancestral. Contudo, os pensadores antes de nós também tinham sonhos de futuro. E por isso permanecem na bibliografia obrigatória.

Assim vislumbro como deve ser a claridade da sabedoria. Olhar terapêutico, nunca ditatorial. Jamais mapa com tesouro acertado. Peça teatral, interativa da alma, é assim o meu tutor. Aquele que inevitavelmente molda. Todavia, nele o medo também reina – o não saber! Inesperada solidão lhe acontece. Dá as trêmulas mãos ao ser supostamente desprovido da luz. Entra no seu jogo criativo. Aprende até mais, pois novos focos são iluminados. A pureza primeira é aula magna.

Educação sempre me foi isto. E não aceito a vergonhosa designação do discente, criatura supostamente vinda das trevas. Assisti aos professores com as cabeças – sim, porque tenho mais de uma – em meticulosos ângulos. Retas. Estupefatas, ansiosas, lívidas por ensinamentos. Odes que guardei em caixinhas de música. Os mestres sempre me foram caros. E nunca me decepcionei ao encontrar suas humanidades.

Entretanto, meu adorável professor humilhou meus dons. Nada percebeu. A futurista visão das minhas palavras. Disse a mim que, apesar de esperto, meu texto não continha o ululante. Eu praticamente o havia provocado. Insinuei superioridade.

Sei que meu pranto não mereceu o crítico literário. Mesmo assim, afoguei-me. Entupi as narinas por incessantes e injuriadas lágrimas. Disse meu pai: “É só mais um guia universitário, desses que temos de suportar”.

Não é. Protesto! Um professor deve agir como jardineiro onírico. Impossibilitado de maniatar os exóticos verdes. Uma galáxia toda pode empecer, caso seja brutalmente assassinada pelas raízes. Esbagoar frutos extintos em prol da tradição? Está jubilado de minh’alma. Aceito somente pensar que seus ossos estão enferrujados, gastos. Sua vida deve ser insatisfeita, já que está acorrentada a valores morais ultrapassados.

Chorei, débil doutor, não pela minha medíocre nota. Não por mim. Não por mim. Sou tomada em altruísmo. Quantos jovens artistas o senhor esmoreceu? Quantos holocaustos aguentarão seu colo?

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Aletheia

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Eu ainda era um coração permeado pela infantilidade. Um jovem coração que não havia sangrado. Absorto em ilusões e incontáveis errâncias. Limítrofe de mim e da magnitude mundana. Um protótipo alojado junto ao peito e mais nada. Nem ao menos pressentia o terrível fim da autêntica ignorância. Involuntário desligamento da infância, pobre coração. Até que a poesia menstruou. Estava entornada por todas as esquinas do pensamento. Impetuosidade e fúria. A fluidez atingia as têmporas, embasbacadas. E eu, o coração, senti-me velho. Estupefato da liquidez. Ah! Como doeu a sofreguidão daqueles versos!

E foi com gulodice que devorei um livro inteiro. E outro. E mais um. A biblioteca mudara-se para o quarto. Baudelaire, Rimbaud, Pessoa, Manoel de Barros, Cecília Meirelles, Vinícius, Florbela Espanca, Camões! Quantas personalidades entraram e evanesciam em mim. Eram tantas paixões ao mesmo tempo. O palpitante coração não podia declamar juras de fidelidade. Em meu lirismo não havia monogamia. Li, decorei, recitei. Chorei com eles as amarguras. Vivi os malogros dos malditos como se a minha própria carne estivesse afundada em insucessos. Depois me ri, fortalecida em rimas. Doravante. Havia tanto ainda para ser lido.

As circunstâncias ajudaram, não há dúvidas. Desamores, culpas, contragostos, cóleras. A alma perdera a guerra contra os sentimentos. E os poetas terapeutas auxiliaram-me na reconstrução da  morada. Retiraram a cegueira estúpida do mundo: “Vamos adiante, menina! Às vezes, quanto mais duro o caminhar, mais belas são as palavras. Os poços, enigmáticos abismos do ser, só nos fortalecem.”

Eu me senti tão pequenina perto dos dizeres daqueles mestres, meu Deus. Impossibilitada de voltar à minha pátria. Por osmose, cumplicidade ou arrogância: eu simplesmente já era como eles.

Quantas vezes fui salva! Quantas noites a loucura bateu à minha porta. E vinha a leitura, exorcizando entidades inferiores. Eu os evoquei tanto. Invocados foram, para dar quentura à minha cama.

Aconteceram também os desertos. Não houve aridez ou secura que não pudesse ser atravessada, quando um abraço entrelaçava um maestro das letras. Pude doar uma poesia para cada entrave da jornada. Sobrevivi, por tê-los em mãos, às bofetadas, oceanos do lamento. Venci a esterilidade com estrofes.  

Fui para muito longe, fugitiva das intrincadas fomes inumanas. Corri dos padres que ensinam filosofia. Ignorei os assassinos da literatura. E voltar pude, a ser pueril. Fui batizada, afinal, por oníricas canções. Desmedida, estudei as forças dos meus artífices. Hoje conheço cada nota escrita de cor. Espanto em saraus as cinzas, os  fantasmas da utilidade. Afugento quaisquer necessidades. Transmutada estou em anulidade pura. Nem tudo se converte. Nem tudo pode ser calculado!

Vim provar o quanto a poesia pode modificar uma pessoa. A gente pode se sentir menos esquisito. Falta-nos coragem. Um poema pode nos lembrar: não há apenas o sagrado! Somos multívagos, somos doidos, somos trôpegos!  

Para aceitar é preciso ter os ombros extravagantes. Nus. O sentir não nos é comedido! Somos cintilantes, pulsantes fragmentos. Há em nós a fugidia herança dos animais.  

Outrora neguei o meu destino. Hoje escrevo também. Muitas vezes por achar meu universo triste e inevitavelmente imerso em superficialidades mesquinhas. A imagem poética me salva do planeta. E o planeta? Ele retorna a mim em delicadezas e nuances. Tênue e colorido. Eu o construo com as minhas memórias. Ninguém vive daquilo que é. Viver é fictício. O olhar, não se iludam, é intencional. A história não passa de egoístas interpretações. Sendo assim, meu firmamento etéreo sublima a imensidão imponente da suposta realidade.

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Órfã da Epifania

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Estive no orfanato durante muitos anos. Sentia o frio que esvazia os movimentos dos pés. Rodeada de carência e coberta pela solitude dos companheiros de cela. Eu me via aprisionada, com as mãos atadas e com o peito cheio de palavras. Elas não saiam de forma alguma, nem com muito esforço. Mutilados estavam meus dedos, impossibilitados de carregar minha identidade. Eu era uma enfezada literária.

Uma noite, contudo, toda minha alma luneceu. Era mágica travestida de telepatia. Ou o contrário, não importa. As portas do orfanato se abriram para o meu organismo intoxicado. Vibrava ao reparar na quina de uma porta. Pegava emprestada asas de gaivota para elucidar quimeras. A música que eu queria ouvir finalmente ocupava a rádio, antes em preto e branco. O amor coloria o horizonte. Espíritos declamavam, ao pé do meu ouvido.

Entreguei-me às inesgotáveis tertúlias dentro do meu ser. Poesias inteiras aguardavam meus papéis. Urgentes, desesperadas, esquizofrênicas! Uma força atroz e desumana obrigava-me a flutuar pelos planetas mais longínquos. Por horas via-me suspensa. Nuvens me banhavam, em tempestades violentas. Fugazes. A inspiração me possuiu por noites, madrugadas e nasceres de sol. Habitava a mim sem que eu pudesse dizer nada. Eu simplesmente doava a ela meu corpo. Ardia em delírios, obsediada por infinitos eus que até então não havia sido apresentada. Gozava do meu trono de rainha sem sequer imaginar que era apenas mais uma súdita dessa malvada criatura.

Uma manhã acordei sentindo a cama em excesso. Virei-me para o lado e não a vi. A Epifania foi-se embora. Nenhum bilhete, nenhum endereço, nada. O enfeitiçante monismo abandonou minhas flores. Murchei em lágrimas e suspiros de incompletude. Desfaleci em saudades.

Bebi o gosto amargo das aguardentes da espera. Semanas que dormi ao relento, ensandecida pelas ruas. Descalça, camisola amassada, cabelos sujos. Um emaranhado de mim que não era eu. Encardida de dor e de lembranças.

Acredito que nessas horas-encruzilhadas, todos nós voltamos às raízes. Vamos buscar alento no primitivo. Porque existe qualquer coisa de índio. Qualquer coisa que precisa tomar banho nos riachos do descanso. E depois deitar na terra, energizar-se de árvores e de cânticos. Invocar trovões alados. Deixar livres os seios. Ser ninada nos braços das poderosas seitas.

O pajé da minha aldeia ensinou-me que sou como uma águia. Em determinado momento da minha existência, arranquei sem piedade nem autocompaixão todas as minhas penas. Desgrudei o meu próprio bico, à procura da morte. E a vida me ressuscita, em milagrosa orquestra. Sou, pois, toda acuidade. O devaneio do fim é o momento anterior ao ápice.      

Depois da minha internação, disse adeus à minha tribo. Marquei encontro com a malévola protagonista do meu surto. Fui reivindicar meus direitos. Forcei meus versos como faço agora, num ato de rigor e de coragem. Muitas vezes menos belos. Menos redondos. Porém, são minha propriedade. Eu enlaço rédeas nos pensamentos. A ideia que inspira é uma viagem de trem: paisagens indescritíveis, rapidez, serviço de bordo. Minha travessia é a cavalo marinho. Trajetória desconfortável, sozinha, desprovida de destinos premeditados. O Mar é traiçoeiro e senhor, perto da minha finitude. A galope, todavia, sempre mais perto do meu templo. Eu sou a amazona da minha literatura. Afinal, não vim pronta. Preciso de constantes revisões também.

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O alpendre da minha casa

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A luminescência se faz tão transparente que até parece comigo. A minha casa é sempre uma janela de quem sou. Muitas vezes criticada. Deveria tê-la construído de tijolos ou chumbo, como muitos alegam que são os materiais de suas carnes: – Para nada de mal penetrar! – retrucam grandes pavões protegidos. E suas cascas são de nozes, coitados. Melhor que a casa seja toda de vidro, pronta para a iminente demolição. Não há escudos perante às enxurradas.

Onde eu moro habita também um velho. Possui aquela barba enorme de sabedoria e cabelos crespos que se confundem com ela. É todo cinzento, esse meu mentor. Paga seu aluguel com intensas vibrações de doçura, endereçadas a todos os que comigo vivem. Massageia-me as mãos, quando sinto o terrível cansaço de viver. Alivia as dores da minha alma com compressas quentes e embalsamadas pelo amortecimento. Porque a vida muitas vezes é um chão duro e espinhoso. Precisa de bons calçados para o caminho.

Embora sempre tivesse imaginado arduamente as escadas, minha morada é térrea. Não me faltam degraus de elevação, dentro da minha mente. Como pude demorar tanto tempo para perceber que nada de fora é capaz de injetar sentimentos?

Tenho uma edícula, entretanto. É meu escritório. Com imensas esquadrias, contornos em madeira. Deixo-as sempre abertas, embora existam cortinas que silenciam a chegada do dia. Ter a escrita como ganha pão não traz a calmaria do horário comercial. Não obstante, escolho meu dia e a maneira de preencher minhas horas. Privilegiada de ver meus pequenos a crescer.  

Mel tem oito anos e uma voracidade tão grande em conhecer o mundo que me assusta. Além do intercâmbio, terei de me despedir dela inúmeras vezes, pressuponho. É assim como o nome que lhe demos. A vaguidade puxou ao pai. Por horas conversa com fantasmas. Põe-lhes no divã, infinito e efêmero da infância. Convence-os a dizer adeus. A sua pureza sábia me lembra a quietude dos cães. Ela é esguia e exibida. Tem os cabelos em caracóis, dourados. Olhos verdinhos. Um sorriso que nunca sai de sua face, rosada pelo sol da santa praia que a escurece a cada fim de semana. Apesar de ser dona dos movimentos mais sutis, não carrega a meiguice das meninas vazias. Sua personalidade forte faz minha voz tremer, em nossos devaneios poéticos sobre o futuro da humanidade.

Meu menino está na casa dos três. Logo se vê a diligência que o envolve. Taciturno e perspicaz é o meu bebê. Leva jeito com os animais. Santo descalço sobre a dureza da terra. Sua bondade faz-me lembrar tudo aquilo que quis e nunca consegui realizar. Seus ouvidos foram embebidos em tanto carinho que ele é capaz de rasgar a vestimenta para dividir o calor. É um mago mínimo, o meu menino. E seu cheiro de masculinidade é tão forte que, por vezes, fico embaraçada com as visitas. Ele conquista todas as mulheres que passam por seu rastro. O mais engraçado é que as senhoras disso não se apercebem. Acreditam em suas paixões por ele. Homem feito, entrelaça uma a uma o coração, utilizando feitiços pensados minuciosamente. Elas creem na instantânea paixão. Sábio príncipe. E eu o observo, atenta como uma mãe deve ser. Por alguns segundos com raiva da mesma fórmula a funcionar. Na maioria das vezes eu o aplaudo, calada.

Vive em minha casa também um homem. Exala um perfume de cabelos molhados. Um jeito de falar um pouco rouco. Não tem a menor autoridade com as crianças. É impedido de ralhar toda vez que ensaia. Enche nosso lar de melodias e canções. Brinca no piano, quando a casa está em festa. Conta-nos mitologias ao jantar. Ensina álgebra com solos de violão. Embriaga, noite após noite, meu útero de estranhos rouxinóis. É astrônomo quando tem em mãos um caleidoscópio. Astronauta ele se torna ao divagar sobre os projetos futuros. Ideologias e utopias clareiam seus papéis. No último Natal, trouxe de presente uma aurora boreal para o jardim. A brevidade permeia nossas escassas discussões. O crepúsculo, ao seu lado, é menos dolorido.

Na sala da bagunça, sótão meu, guardo uma coleção em meu baú. Pesos de papel, cachimbos, isqueiros. E, acima de tudo, palavras bonitas que me fazem bem. Sem nenhuma reminiscência de significados etimológicos. Apenas as palavras, em papel cartão. É até uma das nossas brincadeiras, vislumbrar cada sentido que pede uma nova abertura.

Entre as esféricas portas, vedada para desejos mais íntimos do sonhar, há o alpendre. Vertiginoso. Dotado da mais ampla simplicidade. Um unicórnio não se cansa de me visitar. Pássaros, coelhos, porquinhos da índia. Gatos surpreendem-me, com movimentos de neologismo. Os bichos circundam-me na minha pequena varanda. Eu os celebro em conjectura. Convexa, abobadada. Plácida de mim e da minha família. Inextricável. O labirinto frívolo dos pesadelos não cabe nesse anfiteatro aurífero. Estamos cobertos por lona de circo. 

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O Silêncio e o Segredo

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O silêncio é sobretudo segredo. Seu corpo é feito daquilo que não se pode descrever, dissertar, discorrer. O silêncio nos é inacessível, na diária comunicação com o outro.

No entanto, quando se trata de comunicação literária, talvez exerça o papel principal – a entidade que verdadeiramente expressa. Pois a mudez é a espinha dorsal: tanto no trabalho do escritor, como na perplexidade de quem o lê.

Para captar as belas imagens presentes no Cosmos, é preciso calar-se. Ao organizar com rigor as ideias e ritmos presentes na configuração da imagem poética, é necessariamente em quietude que os dedos do criador podem sonhar:

“Há também poetas silenciosos, silenciários, poetas que primeiro fazem calar um universo excessivamente ruidoso e todos os fragmentos da tonitruância. Ouvem, também eles, o que escrevem no momento mesmo em que escrevem, no moroso compasso de uma língua escrita. Não transcrevem a poesia, escrevem-na. Que outros ‘executem’ aquilo que criaram na mesma página branca! Que outros ‘recitem’ no megafone dicções de aparato! Quanto a eles, saboreiam a harmonia da página literária na qual o pensamento fala, a palavra pensa”.  (Gaston Bachelard, 2001)

O autor invoca a fundamental importância das forças que não pronunciam, mas que movem os afectos de maneira igualmente humana. Sendo assim, aquilo que não fala jamais pode ser apreendido como falta, desvio, erro nos encontros entre o emissor e o receptor. Na Literatura, as vozes silenciadas são veias condutoras de sentidos.

Quem possui a árdua tarefa da leitura também conhece profundamente o vazio dos ruídos. Há a surpresa de um entendimento. Um autor que alcança a alma consegue em seu leitor o indizível. É um belo paradoxo: através de palavras, aceder ao inefável. Quantos de nós já não nos encontramos emudecidos, após o mergulho em páginas que desanuviam nossos âmagos secretos?

Muitos escritores foram hábeis a olhar o silêncio e transportá-lo para a linguagem literária. Alguns nos entrelaçam sublimes, quase chegando ao inaudível, quase entregando à escrita o vazio fértil sentido por um leitor atento:

 “Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te alcançar.

É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é vida. Ou neve, que é muda, mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve”.  (Clarice Lispector, 1998)

 

Apesar da capacidade inexorável de Clarice Lispector – ela nos põe em quietude e mansidão – até mesmo a ela é impossível chegar a uma clara fundamentação  da impronunciável sensação que toma conta dos leitores. O silêncio de quem lê não está na comunicação do livro. É qualquer coisa que remete ao cósmico, ao vácuo, às profundezas marítimas. 

A meditação literária apodera-se de nós como imensas asas brancas. Eleva o espírito, antes tagarela. Nenhuma obra está acabada, ela se renova a cada vez que é lida: “As palavras pertencem metade a quem fala, metade a quem ouve” (Montaigne, 1592).

E é nesse espaço misterioso que se abre, magistral sobre os olhos, dilacerante sobre as cordas vocais, onde se pode buscar alguma resposta. O que existe na escrita que torna também protagonista seu expectador? Quais são os movimentos inertes que proporcionam uma silenciosa abertura no coração de quem reconhece, uma a uma, as palavras tingidas no papel? Fernando Pessoa (1888-1935) oferece uma face da inaxiomática solução:

“Nenhum de meus escritos foi concluído; sempre se interpuseram novos pensamentos, associações de ideias extraordinárias, impossíveis de excluir, como o infinito como limite. Não consigo evitar a aversão que tem o meu pensamento ao acto de acabar.” (Fernando Pessoa, 1986)

Impossibilitada de ter um fim, a literatura é muda: tanto para quem a desvenda – nunca através da passividade televisiva – quanto para quem a desenrola. A comunicação é tão densa que não pode utilizar os sons, tal como a música. Porque toda imaginação em letras é envolvida pelo mistério primeiro, pela ausência de barulhos, pela explosão ancestral do universo que carregamos em nosso imaginário. Exactamente como acontece com o sigiloso crescimento dos vegetais.

“(…) a linguagem está sempre um pouco à frente do nosso pensamento, é sempre um pouco mais borbulhante que o nosso amor. É a mais bela função da imprudência humana, a jactância dinamogênica da vontade, aquilo que exagera o poder (…) Em quaisquer circunstâncias, a vida toma muito para ter o bastante. É preciso que a imaginação tome muito para que o pensamento tenha o bastante. É preciso que a vontade imagine muito para realizar o bastante.” (Gaston Bachelard, 2001)

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Quando as velas apagam

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Eu carrego em meu ventre um sonho. É tão belo e tão grande que ultimamente tenho dificuldade em caminhar. Minha alma está toda imbuída por ele. Por vezes, sinto que não devo falar sobre isso às pessoas. Guardei-o até esse instante como um desejo de aniversário. Ninguém pode saber, senão não se realiza.

As velas do meu bolo já estão apagadas. Não dá mais para sentir o delicioso exalar da parafina. Decido, pois, ser a hora de confessar. Não sinto que energias diabólicas sejam capazes de infiltrar-se, nessa minha curta encarnação.

O inescrutável sonho meu é um devaneio de livro. Quero transformar minha virtual existência em um bloco de capa dura, contornos leves, páginas com orelhas.

Essa escrita que serei, não contém um romance com personagens redondos. Não sou Machado nem Guimarães. É qualquer coisa que navega mais solta, mais inconsciente e, quiçá, dantesca. Posso não chegar às cem páginas. Volume significa profundidade?

Fiz um ninho para esse meu livro. São inúmeras cordas de violão. Contudo, há uma maciez-algodão-doce na concepção do berço que possibilitou as cordas a deitarem tenras. Tive o auxílio de um músico maestro, na construção da morada. Ele as deflorou por mil anos, até que elas atingissem a maturidade dos humildes. Como soam bonitas, as notas do meu leito inventado!

Eu pouso sobre o refúgio arquitetado para as minhas letras. Acaricio as palavras com o calor de Juquehy, numa tarde inesperada de maio.

Pouco a pouco, vou me transfigurando. Sinto o sabor das árvores nos pés. Um papel opaco, grosso. E tão cheio de vida! A tinta está me tatuando inteira. Acordo a cada manhã com mais e mais versos nas mãos. Não é difícil reparar a encarnada cor em minha aparência. Meu mundo todo tingido em vermelho escuro. Néctar de uva, face rosada dos enólogos.

Que Deus ilumine minhas divagações! Meu Deus, ponha em meu caminho o espírito altivo do poeta das lesmas. Permita a mim ser batizada nos mares da claridade. Na transparência insuportável de Clarice.

Se um dia puder ensaiar sorrisos nos lábios de alguém, ai, terei alcançado a integridade. Se eu for capaz de recordar uma só pessoa! A minha poesia também é de pouca modéstia. Anseia lágrimas. Vislumbra só um leitor em comunhão com as minhas cóleras. As minhas confissões deixando de ser minhas, agarrando as unhas cósmicas da Humanidade.

Nesse dia, quando estiver enfim nascida, experimentarei a embriaguez primeira. Serei a única ébria pronta para a morte. E repousarei meu epitáfio no interior da livraria.

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No planeta em que nasci

No planeta em que nasci os seres têm cores radicalmente distintas. Mesmo assim vivem em perfeita harmonia.

No planeta em que nasci os bebês vem embrulhados em mantos de versos e são alimentados em seios de vinho.

No planeta em que nasci sempre há música. Às vezes são improvisações perfeitas de jazz, às vezes são lindas letras de MPB, às vezes são canções maravilhosas de gênios do rock’n’roll.

O tempo passa devagar, no planeta em que nasci… Os segundos transformam-se em horas (sempre plenas) e os bons momentos são muito mais duradouros que as tristezas.

Os seres despem suas almas, mostram seu avesso, dividem suas dores e são convidados a sonhar.

O planeta em que nasci possui lindas praias para realizar os sonhos de calor, e florestas monumentais para se viver o frio.

Fazia muito tempo que eu não me lembrava desse planeta. Pequena fui mandada para cá. Esqueci-me de quase todas as maravilhosas lembranças que foram gravadas em minha memória.

E quando as tinha, me sentia estranha, me sentia muito longe do que chamam realidade.

Tentaram me adequar ao modo desse novo planeta, ao modo como as pessoas aqui vivem. Com muita dor, arrancava minhas doces recordações do solo de meu espírito.

Um dia, porém, encontrei uma pessoa que me pareceu familiar. Era uma pessoa que tinha cor, como eu. Todas as minhas lembranças inundaram meu corpo, agora totalmente vermelho. E as músicas, os mantos de versos, o gosto tão familiar do vinho retornavam a mim. Era alguém do meu planeta…

Caminhando ao seu lado fui me descobrindo verdadeiramente. Quantas risadas iluminaram meus dias! E eu que acreditava que pudesse ser magia, sincronicidade ou coincidência. Há quantos anos o procurava? Quantas lágrimas não derramei lamentando sua perda? Quantas vezes ele me foi dado como morto?

Não importava mais. Eu o tinha reconhecido.

É, amor, você tem razão, os deuses devem nos odiar…

 

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Rodinhas de bicicleta

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Negros e longos cílios molhados. Protegiam com a força e inquietude das águias os olhos marejados da pequena menina. Os cabelos presos, o biquíni, a manhã que ardia no Recife. Mas não havia nela o alvoroço do mar, a ânsia da água. Espreitava, triste, uma última vez. As gorduchas mãos cerradas, num mudo afago sobre o tecido borrachudo. Era a maneira infantil de perpetuar a existência em sua pele. Sentia o amputar das pernas.

Na esquina, os adultos. Esperavam o adeus. Até dava para sentir o deboche deles – aquele esquecer típico das pessoas mais velhas. Riam-se internamente. E toda criança percebe que a julgam menos habilitada, inexperiente.  O tio da pequenina, eleito por ela, aguardava impaciente. Nada entendia daquela partida:

 – Pronto! Agora você pode tomá-la de mim.

A saudade nunca chegou a habitar a miúda, depois daquele instante. Foi uma fração de segundos. Recordou-se do mar. O céu azulava seus pensamentos pueris, cobria-os com castelos de areia. A lembrança da chupeta caramelizava em seu espiríto. Mas não doía. Todo um doce tilintar encharcava o Universo. Sua primeira independência era enfim consumada.

Tempos depois, uma febre – as crianças são mais abertas – apoderou-se dela. Submergiu em pensamentos de morte, aquela menina. Entre delírios e impotência. Implorava que delebassem a enfermidade de suas juntas.

Como era lindo ter a mãe a preparar o leite bem quente, a canela em superfície, uma colher mergulhada em mel – esse ser feito da robustez açucarada. O segredo da receita só existia no epílogo. Uma, e só uma, colher de conhaque. Sua dependência era agora sinônimo de cura.

Um dia, porém, a temperatura  se elevou. O corpo todo a tremer. Encontrava-se sozinha. Não havia quem seria capaz de matar o silencioso exaspero. Podia, entretanto, resguardar sua alma. Nada havia de ser, aquele ardor nas pálpebras. Nada havia de ser, aquela calidez no hálito. Nada havia de ser…

Só lhe era preciso estar em posse daquela unção. Sabia tão bem aquela receita. Pôs, estufada em coragem, a panela no fogo. Ai meu Deus, como foi bom deleitar-se em si mesma! E pensou como um dia poderia ser ela a protagonista, a curandeira milagrosa. Sonhou com os filhos que dela tomariam a mágica poção. Sentiu livre, uma segunda vez. Insubordinada.

Só que a trajetória é óbvia. Vieram as mamas, doloridas e pequenas. A encardida obrigação do crescer. Ossos maiores que músculos, os amores envoltos em Platão. Fulguravam em seus lábios negações, desprezos e culpas.

A menina não mais podia ser voltívola de suas travessuras. Sua vida, como são as vidas humanas, transformou-se num esfuziante roteiro de cinema. Empanturrada sentia-se diante de personagens velozes, felizes, vergonhosos, inacabados.  Assustada pelas sombras, desejava eximir-se.

Estava farta das dores e dos remédios. Da pequenez que se apodera da íris, quando chora por horas seguidas. A memória, no entanto, fez surgir em seus poros, a terceira e grande emancipação. Ora mulher, ora criança, tudo absolutamente em confluência. Ah, suas tardes no parque! Sonhos dos seis ou sete anos. A imagem, obscenamente poética. Ela, à deriva. A longínqua dança das rodas. Os pedais em comunhão com o corpo. O medo. Haviam decidido que era hora de tirar as rodinhas da bicicleta. Acreditou na firmeza dos dedos beneméritos. Contudo, às costas, viu-se a pedalar com suas próprias pernas. E no chão esborrachou-se.

Desabou, mas, alheia ao fracasso, subiu novamente. E novamente acreditou que teria o suporte paterno. Em poucos segundos, ao olhar para trás, viu que era ela mesma a equilibrista.

Compreendeu, por fim, o valor da escora e da independência. As rodinhas propriamente ditas nunca mais estariam lá. Todavia, a nitidez vívida de sua promulgação. Porque passamos a vida a tirar essas rodinhas, a cair e experienciar uma autonomia triunfal.  

 

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