Arquivo da tag: Vinícius de Moraes

Viciada em inícios

image

 

Enquanto a noite cai, piedosa, eu me sento e agradeço. Existe mais um universo prestes a ser desvendado, aqui. Os seres, exaustos de futebol ou de cachaça, já hibernam em felicidade ou tristeza: e pouco é importante o resultado do jogo. O que basta é o prazer de ser testemunha.

A janela já não traz o balbuciar inerente à uma cidade literária. E os deuses não abençoam o vinho, vindo de tão longe para apaziguar a sede dos silêncios. Tudo conspira pela folha em branco, pelo raiar soturno, útero sem fonte. No entanto, continuo a acreditar que a madrugada carrega em si a fantástica capacidade de rejuvenescer-me. Que todo vazio comporta as inspirações mais inacreditáveis. E que os espíritos de luz tornam-se aliados nesta encruzilhada.

Não é porque a vida apresenta-se mais calma, nesta hora de zelo, que os princípios sejam fetais, sorumbáticos. Ao revés dos contos de fada, a narrativa divina está mais alerta, nos segundos que antecedem às auroras.  Ouço um poema, recitado por outrem: reclamo! Prefiro a voz de meus próprios olhos, a entonar as sílabas em plenitude.

Coloco-me à disposição das páginas inauguradas: ao relinchar infantil dos prazeres sem dono, à insustentável incompreensão que precede o toque das línguas. E respiro uma galáxia, insone, ao iniciar uma leitura.

Corruptível aos começos, assim me defino. Com profundo horror às conclusões. Estou adicta, desde o meu nascimento, a esperar amanheceres como companhia. Roubo, com pitadas de psicopatia, quaisquer infâncias que me rodeiem, desde que sejam puras, imaculadas, pequenas. Aposso-me, também,  de tuas memórias remotas, até o pertencimento sanguíneo, podendo beber de teus inícios sem pudor.

Enalteço os versos prematuros, dignos de rasuras e incompletudes. Acaricio as rubras faces, embevecidas de quimeras. Perdoo os desperdícios, designados às renovações. Doou-me às manhãs tristes de abril, quando o sol não pode estancar a gélida ternura dos outonos. Porque o agora me invade e me determina a existir, num cálido pacto de nunca vivenciar o eterno retorno.

Ao tilintar de uma rolha, em harmonia com o oxigênio, estou eu. Na ruptura submersa que insiste a tinta, frente à folha. Em suntuosos devaneios de mar, em dia de ressaca. Na saliva em comunhão. No perdão de amar um ser humano o qual jamais ouvirei a voz. Nas surpresas inexoráveis do destino, ainda que cravadas na palma da mão. Lá podes me encontrar.

É por isso que sinto saudades. Presa aos instantes de estreia. Reconheço-me em ti, sábio poeta, cujo nome corrobora a beleza de ferir. Entrego-me, contigo, à mansidão límpida das estrelas ofuscadas. Ao amor que se foi. Ao amor que não tive. Ao amor que inventei.

Economizo gestos e palavras, em tua presença. Ignóbil sonhadora de rabos de cometas. Já não preciso dos teus dizeres ao pé do ouvido. Indecifrável e querido mestre, sou tua. Grávida de esperanças. Viciada em inícios, amado Vinícius.

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Textos meus

Em nanquim

itapua2

A mala pronta, com antecedência milenar, queria ser aberta, precipitando-se ao destino. Meus olhos, encarnados, tentavam expulsar a frustração de uma semana perdida. E a ida ao aeroporto foi tortuosa. Parecia-me que me seria impossível recolher-me novamente à minha alma, depois de acontecimentos tão doloridos, tão ínfimos e miseráveis. O coração não estava à espera de surpreender-se, naquele fim de semana em Itapuã.

E quem foi que viveu um amor em cronograma? Quem escolheu, em verso, data e hora, o instante de contemplação? Qual ser humano desvelou a própria morada, a priori de algum pertencimento?

“A tinta de escrever, por suas forças de alquímica tintura, por sua vida colorante, pode fazer um universo, se apenas encontrar seu sonhador.” – disse, sabiamente Bachelard, em devaneios de matéria. Alguns lugares são feitos para nos dar abrigo. Ficam calmos, suspensos no vazio, até a chegada do intruso que lhes ocupará.

Para mim, o pouso de três meros dias na casa do Vinícius, na Bahia, foi dessa maneira. Como se aquele casulo já tivesse habitado meus poros há milênios do saber. Todo poema é ideia que viaja pelo sangue à frente das sinapses.

Mais tarde, percebi que a casa em Itapuã refletia os mesmos sentimentos amorosos que nutri por Lisboa e pelo Recife. Não era a primeira vez que me apaixonava daquela forma, pelas pessoas, pelos olhares demorados, pelos pensamentos entrelaçados ao nascer do sol.

Talvez seja assim que a vida se apresente em sua forma mais pura. O delírio encharca a realidade, e podemos beber alguns goles de nossa essência. Inteiramente desprovidos de máscaras, vestes ou distinções burocráticas. Na esquina bonita onde as flores outonais da prosa e da poesia se misturam, derramadas em sinfonia.

Apenas no átomo interestelar está a vida. Seja na vigília do acaso, em Kundera, na meditação das pedras, em Caeiro, no balão que Cony não soltou. Ou simplesmente na sapiência de Vinícius, que pediu perdão ao que amou de repente, embora fosse uma velha canção, ressonando em seus ouvidos.

Nas imagens depuradas dos poetas percebi a necessidade de estar atenta, pois não se pode abandonar o segundo à revelia de uma era perdida.  Lá se encontram a casa natal, a cabana mais pueril, a misteriosa clareira em meio à floresta. A caverna mais íntima crava suas inscrições rupestres em nós, antes.

Certas vezes, quando a sobriedade impera há muito, nascem utopias felizes, para aniquilar a melancólica lucidez. E os lugares que passamos a amar nos levam à infância roubada, esquecida nos mapas indecifráveis de nós mesmos.

Na madrugada triste, insone, cálida, venho a me perder nessas lembranças. De Lisboa, do Recife, da Bahia. Reinventar a minha ausência, imaginada. Sentir saudade de ter sido feliz. E de ter ficado absolutamente perplexa, nas cores que o dia enalteceu, enquanto a ficção escrevia – em nanquim – as minhas águas.

Itapuã

1 comentário

Arquivado em Poesia, Textos meus

Quando Vinícius invadiu minha memória…

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…

Vinícius de Moraes

 

1 comentário

Arquivado em Outros poetas

Monólogo de Orfeu

                                                                                                                                                                   

Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
É mais por que te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada…
E sabes de uma coisa? Cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, – que é que eu sei! Essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confundir o espírito
De um homem – nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! E me dizes essas coisas
Que me dão essa força, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! Sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice…
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura! Quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres – que ele, Orfeu
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo! 

Vinícius de Moraes – Orfeu da Conceição

2 Comentários

Arquivado em Outros poetas

Porque eu o aceito, Vinícius

 

O amor por entre o verde

                                                                                                                          

Não é sem freqüência que, à tarde, chegando à janela, eu vejo um casalzinho de brotos que vem namorar sobre a pequenina ponte de balaustrada branca que há no parque. Ela é uma menina de uns 13 anos, o corpo elástico metido nuns blue jeans e num suéter folgadão, os cabelos puxados para trás num rabinho-de-cavalo que está sempre a balançar para todos os lados; ele, um garoto de, no máximo, 16, esguio, com pastas de cabelo a lhe tombar sobre a testa e um ar de quem descobriu a fórmula da vida. Uma coisa eu lhes asseguro: eles são lindos, e ficam montados, um em frente ao outro, no corrimão da colunata, os joelhos a se tocarem, os rostos a se buscarem a todo momento para pequenos segredos, pequenos carinhos, pequenos beijos. São, na sua extrema juventude, a coisa mais antiga que há no parque, incluindo velhas árvores que por ali espapaçam sua verde sombra; e as momices e brincadeiras que se fazem dariam para escrever todo um tratado sobre a arqueologia do amor, pois têm uma tal ancestralidade que nunca se há de saber a quantos milênios remontam.

 

Eu os observo por um minuto apenas para não perturbar-lhes os jogos de mão e misteriosos brinquedos mímicos com que se entretêm, pois suspeito de que sabem de tudo o que se passa à sua volta. Às vezes, para descansar da posição, encaixam-se os pescoços e repousam os rostos um sobre o ombro do outro, como dois cavalinhos carinhosos, e eu vejo então os olhos da menina percorrerem vagarosamente as coisas em torno, numa aceitação dos homens, das coisas e da natureza, enquanto os do rapaz mantêm-se fixos, como a perscrutar desígnios. Depois voltam à posição inicial e se olham nos olhos, e ela afasta com a mão os cabelos de sobre a fronte do namorado, para vê-lo melhor e sente-se que eles se amam e dão suspiros de cortar o coração. De repente o menino parte para uma brutalidade qualquer, torce-lhe o pulso até ela dizer-lhe o que ele quer ouvir, e ela agarra-o pelos cabelos, e termina tudo, quando não há passantes, num longo e meticuloso beijo.

 

Que será, pergunto-me eu em vão, dessas duas crianças que tão cedo começam a praticar os ritos do amor? Prosseguirão se amando, ou de súbito, na sua jovem incontinência, procurarão o contato de outras bocas, de outras mãos, de outros ombros? Quem sabe se amanhã quando eu chegar à janela, não verei um rapazinho moreno em lugar do louro ou uma menina com a cabeleira solta em lugar dessa com os cabelos presos?

 

E se prosseguirem se amando, pergunto-me novamente em vão, será que um dia se casarão e serão felizes? Quando, satisfeita a sua jovem sexualidade, se olharem nos olhos, será que correrão um para o outro e se darão um grande abraço de ternura? Ou será que se desviarão o olhar, para pensar cada um consigo mesmo que ele não era exatamente aquilo que ela pensava e ela era menos bonita ou inteligente do que ele a tinha imaginado?

 

É um tal milagre encontrar, nesse infinito labirinto de desenganos amorosos, o ser verdadeiramente amado… Esqueço o casalzinho no parque para perder-me por um momento na observação triste, mas fria, desse estranho baile de desencontros, em que freqüentemente aquela que devia ser daquele acaba por bailar com outro porque o esperado nunca chega; e este, no entanto, passou por ela sem que ela o soubesse, suas mãos sem querer se tocaram, eles olharam-se nos olhos por um instante e não se reconheceram.

 

E é então que esqueço de tudo e vou olhar nos olhos de minha bem-amada como se nunca a tivesse visto antes. É ela, Deus do céu, é ela! Como a encontrei, não sei. Como chegou até aqui, não vi. Mas é ela, eu sei que é ela porque há um rastro de luz quando ela passa; e quando ela me abre os braços eu me crucifico neles banhado em lágrimas de ternura; e sei que mataria friamente quem quer que lhe causasse dano; e gostaria que morrêssemos juntos e fôssemos enterrados de mãos dadas, e nossos olhos indecomponíveis ficassem para sempre abertos mirando muito além das estrelas. 

Deixe um comentário

Arquivado em Outros poetas