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O mito de Faetonte à luz da contemporaneidade: uma breve análise dos jovens líderes

“O mito nos oferece, sempre aludida, a plenitude e o sentido, de modo que toda atividade humana, até os menores gestos, aparecem carregados de significação e ligados a algo enormemente importante que se apresenta atrás de cada realidade.” Paul Ricœur

O mito é uma linguagem que organiza a vida, embora muitas vezes não saibamos o significado de suas origens. Identificamo-nos com eles de forma quase intuitiva, desprovida de racionalizações. Por isso, o mito é uma imagem esclarecedora, irrenunciável do autodesenvolvimento.

Neste artigo, pretende-se vincular o mito de Faetonte à era da liderança prematura, clarificando o poder das imagens mitológicas ao entendimento dos cenários atuais.

Faetonte era filho do deus Hélio com a ninfa Climene. Ao nascer, o Deus Sol prometeu à mãe da criança que jamais negaria a realização de um desejo ao filho. Na adolescência, depois de exaustivos questionamentos do jovem, foi revelada essa parte importantíssima de sua narrativa. Quando descobre a identificação paterna, Faetonte resolve ir conhecê-lo, para provar a sua ascendência divina.

Ao chegar no suntuoso palácio, onde jamais existia a escuridão, Faetonte se pôs a imaginar como seria dirigir a carruagem de seu pai, composta por imponentes corcéis, que levava a luz, os dias e as noites a todas as regiões do planeta. A fascinação de estar à frente daquele veículo o consome por inteiro. Ele, então, pede ao pai que o permita pilotar, apenas por uma vez.

Hélio não pode negar o desejo do filho, pela promessa feita à sua mãe. Todavia, ele alerta o jovem dos perigos da vertiginosa trajetória, explicitando suas próprias dificuldades e medos. Hélio, preocupado, diz que ele não terá maturidade para dirigi-lo. O jovem insiste. Nenhum conselho o impediria de navegar pelo céu magnífico que se abria no horizonte.

A tragédia estava anunciada. Ao subir na carruagem, os cavalos já pressentiam a diferença de peso do seu condutor. Poucos foram os momentos de glória, para Faetonte. Alguns instantes de completo êxtase, ínfimos, perto do desastre. Ele perdia, a cada segundo, o controle sobre os poderosos corcéis, desequilibrando-se nas alturas. Cada lugar pelo qual passava sofria as consequências de seu voo irresponsável.

Após quase destruir toda a uniformidade da Terra, Zeus é impelido a matá-lo, com um de seus desconcertantes raios. Seu corpo foi, como um meteoro, até o fundo do rio Erídano. Lá, diz o mito, suas irmãs erigiram um túmulo, em homenagem à sua ousadia juvenil.

Quais ensinamentos este mito pode nos trazer, no contexto do século XXI? Como podemos nos apropriar dessa história, na busca pelo autoconhecimento? Onde vemos Faetontes e Hélios, transformados em pessoas de carne e osso?

Uma consideração fundamental acerca desse mito diz respeito à figura paterna que percebemos atualmente. O pai – culpado pelo excesso de trabalho e pelo contato reduzido com seus filhos – escolhe não impor limites como parte da educação. O medo ao desamor de seus descendentes o torna escravo de caprichos desajuizados. Deixá-los passar por experiências para as quais não estão preparados.

A impossibilidade do não é terrível na construção psicológica de uma criança. O sentimento de onipotência será cruelmente aniquilado no futuro, caso não seja estipulado desde a tenra infância. Conhecer a insuficiência e deparar-se com os próprios defeitos é imprescindível para degustar alguma sabedoria, ao longo da vida.

Não houve, para os jovens líderes, uma educação que reivindicasse o limite como aprendizagem. Os pais, apavorados com o fantasma do desamor, delegaram às escolas a transmissão de valores e a construção da cidadania. Mas, ao livrarem-se da culpa, esqueceram-se de que o papel do ensino formal não supriria a orientação parental, no que concerne à vivência da restrição.

O medo de não ser amado pelos filhos, traz-nos, agora, um nítido retrato da geração que chega à liderança nas organizações. Estes jovens não se defrontaram com as sábias frustrações limitadoras. Na ausência do limite o jovem se sente capaz de conduzir o carro do Sol, produzindo catástrofes inimagináveis.

As empresas, portanto, tornaram-se o lugar onde os jovens recebem, pela primeira vez, a percepção de impossibilidades. São obrigados a se deparar, subitamente, com a própria falibilidade. Isto tem sido um dos maiores desafios para as organizações. Como é possível ensinar tardiamente a necessidade de impotência? Como a carreira desses jovens será traçada, em suas expectativas insustentáveis de grandeza?

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O perdão do amor demais

anima

Talvez seja pouco conhecida a história de Lilith, a primeira mulher da criação. Nascida da mesma matéria– e em igual potência – a Adão, a personagem banida da Bíblia possui uma análise mitológica dificílima. Para encurtar a história, ao perceber que não poderia dominar o amante, a filha de Deus se vê em um dilema: a igualdade ou a submissão.

Sua alma, no entanto, escolhe não sucumbir à dominação masculina. E ela voa para longe do Éden, inadvertidamente. Três anjos saem à sua caça. Insubordinada, Lilith é alvo da mais cruel das maldições: seria transformada em demônio e cem de seus filhos seriam mortos a cada dia. Ela, por sua vez, retribuiria a dor: atacaria mulheres e crianças recém nascidas e roubaria o sêmen dos homens durante o sono, na tentativa desesperada de repor os descendentes assassinados.

Em termos arquetípicos, é possível comparar o mito de Lilith à anima junguiana. Adão teme o mistério e a obscuridade de sua parte feminina, a qual nega por considerá-la uma ameaça às suas forças. Sua atitude é uma recusa à interioridade, à plenitude e ao processo de individuação.

Astronomicamente, Lilith representa a Lua Negra, quando o satélite se encontra no ponto mais distante da Terra. Exilada do planeta. Em astrologia ela exprime o sacrifício ao todo, à integração cósmica. Sua influência interfere diretamente na fertilidade, na abertura ao novo, na inevitável verdade ontológica. Do útero – a escuridão suprema – nasce a vida.

A liberdade da mulher torna-se, pois, um fardo: não se pode amar demais. Não invadir o que não foi nomeado. É preferível cristalizar a ignorância do que iluminar conteúdos submersos. Proibido como o fruto da serpente (que também, em algumas leituras, é uma animalização de Lilith). A sabedoria dual luz e sombra deve ser evitada, pois não se mensura os limites do conhecimento, em profundezas.

A etimologia, contudo, desvenda os mais belos dizeres sobre o símbolo de Lilith. De origem suméria, “Lil” significa ar. Respirar, concomitantemente, em latim, remete à devolução ao espírito (re – “de novo” e spirare – espírito).

Lilith, expatriada deusa, é um presságio de nosso destino: ao nos defrontarmos com os escuros, feridas impronunciáveis de nós mesmos, preferimos a rejeição. Tememos a dispneia. Revirar os naufrágios, emergir o caos, abraçar a coletividade. Abdicar do ego em prol da igualdade nos é insuportável. Contudo, será possível atingir a clarividência, nas superfícies de nossas almas?

Este texto é uma homenagem ao meu amigo amado Bruno Padilha.

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A ontológica ferida

Quando eu me hospedei dentro do meu próprio corpo, desencontrada forasteira do planeta, ainda não o sabia. Ah, quantas tardes passei a afagar o ventre do pensamento, bólide intruso! Inventei, imbuída, noites intermináveis que se ocupassem da sua hipotética existência. Madrugadas me navegaram, imunes ao sono, na ânsia do seu encontro. Eu engolia o lancinante espanto de saber-me orquestrada por cicatrizes ontológicas. E sem ao menos tê-lo tocado.

Como vaguei, Quíron, em busca de unguentos para a minha ferida. Seria apenas uma flor que amarelecia a página esquecida? Não. Nenhum estrangeiro está imune aos vestígios.

Sua vinda trouxe-me o enterro das obviedades monótonas. Permitiu que o sonho recém-nascido impulsionasse aquele choro desesperado de quem aterrisa no mundo. E, assim, pude finalmente reverenciar-me à vulnerabilidade, invólucro da sabedoria.

A pele estará sempre rasgada pelo perceptível. Entre as vísceras, pousa uma flecha em concretude. O coração é, dia após dia, envenenado pelo terreno oxigênio. Contudo, não há devaneio que seja esmagado por tirânicas verdades.

Nos séculos que precederam sua chegada, a fragilidade não alimentou a minha carne. Senti-me dúbia, incoerente, solitária. Como se eu, enclausurada nesse corpo, abrigasse o síncrono. Cavalo e mulher.

Aos deuses, aplausos. Fui abençoada com o fardo incurável das palavras. As mãos seladas ao sangue que jorra em melodia. Nenhuma tristeza me apunhala senão em versos. Irônica, a cura se materializa na desistência da imortalidade. A ambiguidade elíptica me sorri. Sóbria. Louca. Inconclusa.

Leva-me consigo, asteroide errante? Captura o meu cansaço em seus domínios, no ínfimo espaço que há entre Saturno e Urano. Não tenho medo, no escuro de mim. Apavora-me mais a mansuetude dos olhos, rígidos, cárceres da realidade. Estou farta de sepultar quimeras.

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