Arquivo do mês: novembro 2008

Fecundar

lisboa-081108-251Todo coração é árvore. Nasce semente. A alma grita tão alto que as raízes – não suportando a angústia primeira – fogem para a úmida e gélida base. Arrependem-se. O calor lhes é familiar.

Como toda célula humana que se preze, as garras, adocicadas por pepitas esféricas, sucumbem à tentação da mordida. E por fagocitose sentem-se doces, como se o néctar que as nutrisse fizesse parte delas. A resposta feliz é crescer.  

Não espere uma descrição habitual, como o surgimento do tronco e toda a sua capacidade de suporte. Penso no redondo, aquele que delimita as duas metades da postura da árvore. Seria o calcanhar de Aquiles, tão exposto e tão óbvio? É janela. Portal para os pés. Eles podem sentir o deleite do universo, mesmo condenados à imersão, a Hades.

A adolescência aparece claramente nos galhos. Alguns vistosos, luxuriantes. Outros comiseráveis, frágeis. Artérias inúteis – pensa o jovem coração. Antagônicas à solidez, enfrentam com os olhos fechados de medo a rígida chegada do inverno. Permitem a si mesmas a envergadura. E não esmorecem.

Próximo do céu, o rebento sonha. Há nele todo aquele ardor, a busca pela reentrância. Em si? Jamais. Aprendeu muito antes que existirá, inevitável, aquele pavoroso alarido. Oblíquo, sente incandescente o invólucro espacial. Quanta matéria e quanta vida! Possíveis húmus, infinitos elementos postos a ele para o devaneio.

O grão, homem feito, adormece em aveludadas fantasias. A luminescência delas é tanta que a carne faísca novas estruturas, impedindo a queda. Repousantes do sono são as folhas. Quando sentem-se exangues de recolher tantos projetos e alucinações, pedem auxílio às flores: Cubram-no de pólen! Abençoem a fecundação. Ajudem-nos a hidratar essas chamas! Não as deixem apagar. As flores são guardiãs da inspiração.

Meu coração sofre de taquicardia. Começou pelos frutos. Ávido pela realização. Encharcou-se de libertinas, frívolas sensações boas. Muito depois viu-se germinar em entranhas. Observou, com dor e impotência, os frutos a aprodrecer. A sábia Terra o ensinou. Ele os pode retomar, desde que aceite o processo. A Natureza não se fez de digressões.  

Óvulo tardio, decidiu finalmente irromper. Justo no outono. Sempre confuso, atrasado. Mentira minha. Quis, a existência toda, burlar normas. Lutou contra todas as caretices mundanas. Fingiu inovações.

As amareladas folhas, fartas de utopias, dissiparam à lonjura os enormes quebrantos cobiçados pelo espírito. O coração ficou nu. Abdicou das redes do sonhar. Sem querer beijou uma abelha. O mais prevísivel sortilégio aconteceu.  Apaixonou-se. Hoje desenha cânticos em mansidão. Engatinha. Ri de si. E é mais belo.  

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