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Vontade de falar para dentro de mim

 

Platónico

Edgardo Cardozo

Hay un sol, que enciende mi vida…
Que cura mi herida, que camina suavemente sobre mi…

Y me lleva, como si me abriera
Paso entre la selva, como un rey..

Casi sin saber, desliza su mirada tibia…
Abriendose camino, en mi corazon…

Casi sin saber, desliza su mirada clara.
Transformando al mundo en un segundo…

Hay un sol, que enciende mi vida…
Que cura mi herida, que camina suavemente sobre mi…

Y me lleva, como si me abriera
Paso entre la selva, como un rey..

Casi sin saber, desliza su mirada tibia…
Abriendose camino, en mi corazon…

Casi sin saber, desliza su mirada clara.
Transformando al mundo en un segundo.

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Nasci pra ti antes de haver o mundo.

fernando-pessoa1

XXI

— Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
……………………………………………………………
Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
……………………………………………………………
Ah! não perguntes nada; antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surda,
Te ouvisse todo com o coração.

Se te vejo não sei quem sou: eu amo.
Se me faltas […]
… Mas tu fazes, amor, por me faltares
Mesmo estando comigo, pois perguntas —
Quando é amar que deves.  Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,
Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fosse
Alguém pra te falar de quem tu amas.
……………………………………………………………
Quando te vi amei-te já muito antes:
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há cousa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que o não fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro.
……………………………………………………………
E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma ‘strada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é toda humana.
……………………………………………………………
Quando eu era pequena, sinto que eu
Amava-te já longe, mas de longe…
……………………………………………………………
Amor, diz qualquer cousa que eu te sinta!
— Compreendo-te tanto que não sinto,
Oh coração exterior ao meu!
Fatalidade, filha do destino
E das leis que há no fundo deste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto
De o sentir…?
……………………………………………………………

Fernando Pessoa

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Em nanquim

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A mala pronta, com antecedência milenar, queria ser aberta, precipitando-se ao destino. Meus olhos, encarnados, tentavam expulsar a frustração de uma semana perdida. E a ida ao aeroporto foi tortuosa. Parecia-me que me seria impossível recolher-me novamente à minha alma, depois de acontecimentos tão doloridos, tão ínfimos e miseráveis. O coração não estava à espera de surpreender-se, naquele fim de semana em Itapuã.

E quem foi que viveu um amor em cronograma? Quem escolheu, em verso, data e hora, o instante de contemplação? Qual ser humano desvelou a própria morada, a priori de algum pertencimento?

“A tinta de escrever, por suas forças de alquímica tintura, por sua vida colorante, pode fazer um universo, se apenas encontrar seu sonhador.” – disse, sabiamente Bachelard, em devaneios de matéria. Alguns lugares são feitos para nos dar abrigo. Ficam calmos, suspensos no vazio, até a chegada do intruso que lhes ocupará.

Para mim, o pouso de três meros dias na casa do Vinícius, na Bahia, foi dessa maneira. Como se aquele casulo já tivesse habitado meus poros há milênios do saber. Todo poema é ideia que viaja pelo sangue à frente das sinapses.

Mais tarde, percebi que a casa em Itapuã refletia os mesmos sentimentos amorosos que nutri por Lisboa e pelo Recife. Não era a primeira vez que me apaixonava daquela forma, pelas pessoas, pelos olhares demorados, pelos pensamentos entrelaçados ao nascer do sol.

Talvez seja assim que a vida se apresente em sua forma mais pura. O delírio encharca a realidade, e podemos beber alguns goles de nossa essência. Inteiramente desprovidos de máscaras, vestes ou distinções burocráticas. Na esquina bonita onde as flores outonais da prosa e da poesia se misturam, derramadas em sinfonia.

Apenas no átomo interestelar está a vida. Seja na vigília do acaso, em Kundera, na meditação das pedras, em Caeiro, no balão que Cony não soltou. Ou simplesmente na sapiência de Vinícius, que pediu perdão ao que amou de repente, embora fosse uma velha canção, ressonando em seus ouvidos.

Nas imagens depuradas dos poetas percebi a necessidade de estar atenta, pois não se pode abandonar o segundo à revelia de uma era perdida.  Lá se encontram a casa natal, a cabana mais pueril, a misteriosa clareira em meio à floresta. A caverna mais íntima crava suas inscrições rupestres em nós, antes.

Certas vezes, quando a sobriedade impera há muito, nascem utopias felizes, para aniquilar a melancólica lucidez. E os lugares que passamos a amar nos levam à infância roubada, esquecida nos mapas indecifráveis de nós mesmos.

Na madrugada triste, insone, cálida, venho a me perder nessas lembranças. De Lisboa, do Recife, da Bahia. Reinventar a minha ausência, imaginada. Sentir saudade de ter sido feliz. E de ter ficado absolutamente perplexa, nas cores que o dia enalteceu, enquanto a ficção escrevia – em nanquim – as minhas águas.

Itapuã

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Sofrer vai ser a minha última obra…

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Paulo Leminski

 

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Deformidade de asas

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Nasci com deformidade de asas

Curtas e desplumadas

Roubam-me o equilíbrio

Mas nunca desisti de voar.

 

A cada tombo reajo

A toda queda

Insisto

Sei que tudo é

Questão de exercício.

 

E se eu corresse, corresse

Corresse

Ainda alcançaria a infância perdida?

 

Miriam Portela, minha mãe, minha inspiração e minha musa literária, março de 2013.

 

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Encontrei Leminski

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Em 24 de julho de 2012 empalideci diante de uma cósmica descoberta: havia me encontrado com Paulo Leminski em um verso. Alguns dias antes fui surpreendida por uma epifania, murmurada em meus dedos: “Há de chegar o dia em que eu viva apenas de poesia”.

Anotei aqueles dizeres. E os esqueci. Até que o espanto me despertou, rebobinando minh’alma para o ano de 1983, quando Leminski definiu sua vida e sua obra:

“moinho de versos

movido a vento

em noites de boemia

 

vai vir o dia

quando tudo que eu diga

seja poesia”

Foi assim que nos unimos, na ontológica missão de todos os poetas.

 

Encontrei Leminski

No meu pavor à letargia

Dessa madrugada vazia

Que preenchi com vinho e poesia

 

Encontrei Leminski

No meu sobrenome polonês

Em versos de outrora

E de talvez

 

Encontrei Leminski

Na minha solidão mesquinha

E ele disse que vinha

Para dentro do meu sonhar

 

Encontrei Leminski

Num verso tão frágil e sincero

E ele, espantado

Austero

Não pode aceitar

 

Como nós dois conjugamos

Sem a mesma face

Nem os mesmos planos

Aquele impossível acreditar.

 

 

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Tenho Mais Almas que Uma

Pessoini

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão…

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.
5/9/1933

Fernando Pessoa

 

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu ‘screvo.

Ricardo Reis in Odes

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