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Vontade de falar para dentro de mim

 

Platónico

Edgardo Cardozo

Hay un sol, que enciende mi vida…
Que cura mi herida, que camina suavemente sobre mi…

Y me lleva, como si me abriera
Paso entre la selva, como un rey..

Casi sin saber, desliza su mirada tibia…
Abriendose camino, en mi corazon…

Casi sin saber, desliza su mirada clara.
Transformando al mundo en un segundo…

Hay un sol, que enciende mi vida…
Que cura mi herida, que camina suavemente sobre mi…

Y me lleva, como si me abriera
Paso entre la selva, como un rey..

Casi sin saber, desliza su mirada tibia…
Abriendose camino, en mi corazon…

Casi sin saber, desliza su mirada clara.
Transformando al mundo en un segundo.

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Nasci pra ti antes de haver o mundo.

fernando-pessoa1

XXI

— Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
……………………………………………………………
Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
……………………………………………………………
Ah! não perguntes nada; antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surda,
Te ouvisse todo com o coração.

Se te vejo não sei quem sou: eu amo.
Se me faltas […]
… Mas tu fazes, amor, por me faltares
Mesmo estando comigo, pois perguntas —
Quando é amar que deves.  Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,
Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fosse
Alguém pra te falar de quem tu amas.
……………………………………………………………
Quando te vi amei-te já muito antes:
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há cousa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que o não fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro.
……………………………………………………………
E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma ‘strada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é toda humana.
……………………………………………………………
Quando eu era pequena, sinto que eu
Amava-te já longe, mas de longe…
……………………………………………………………
Amor, diz qualquer cousa que eu te sinta!
— Compreendo-te tanto que não sinto,
Oh coração exterior ao meu!
Fatalidade, filha do destino
E das leis que há no fundo deste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto
De o sentir…?
……………………………………………………………

Fernando Pessoa

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Em nanquim

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A mala pronta, com antecedência milenar, queria ser aberta, precipitando-se ao destino. Meus olhos, encarnados, tentavam expulsar a frustração de uma semana perdida. E a ida ao aeroporto foi tortuosa. Parecia-me que me seria impossível recolher-me novamente à minha alma, depois de acontecimentos tão doloridos, tão ínfimos e miseráveis. O coração não estava à espera de surpreender-se, naquele fim de semana em Itapuã.

E quem foi que viveu um amor em cronograma? Quem escolheu, em verso, data e hora, o instante de contemplação? Qual ser humano desvelou a própria morada, a priori de algum pertencimento?

“A tinta de escrever, por suas forças de alquímica tintura, por sua vida colorante, pode fazer um universo, se apenas encontrar seu sonhador.” – disse, sabiamente Bachelard, em devaneios de matéria. Alguns lugares são feitos para nos dar abrigo. Ficam calmos, suspensos no vazio, até a chegada do intruso que lhes ocupará.

Para mim, o pouso de três meros dias na casa do Vinícius, na Bahia, foi dessa maneira. Como se aquele casulo já tivesse habitado meus poros há milênios do saber. Todo poema é ideia que viaja pelo sangue à frente das sinapses.

Mais tarde, percebi que a casa em Itapuã refletia os mesmos sentimentos amorosos que nutri por Lisboa e pelo Recife. Não era a primeira vez que me apaixonava daquela forma, pelas pessoas, pelos olhares demorados, pelos pensamentos entrelaçados ao nascer do sol.

Talvez seja assim que a vida se apresente em sua forma mais pura. O delírio encharca a realidade, e podemos beber alguns goles de nossa essência. Inteiramente desprovidos de máscaras, vestes ou distinções burocráticas. Na esquina bonita onde as flores outonais da prosa e da poesia se misturam, derramadas em sinfonia.

Apenas no átomo interestelar está a vida. Seja na vigília do acaso, em Kundera, na meditação das pedras, em Caeiro, no balão que Cony não soltou. Ou simplesmente na sapiência de Vinícius, que pediu perdão ao que amou de repente, embora fosse uma velha canção, ressonando em seus ouvidos.

Nas imagens depuradas dos poetas percebi a necessidade de estar atenta, pois não se pode abandonar o segundo à revelia de uma era perdida.  Lá se encontram a casa natal, a cabana mais pueril, a misteriosa clareira em meio à floresta. A caverna mais íntima crava suas inscrições rupestres em nós, antes.

Certas vezes, quando a sobriedade impera há muito, nascem utopias felizes, para aniquilar a melancólica lucidez. E os lugares que passamos a amar nos levam à infância roubada, esquecida nos mapas indecifráveis de nós mesmos.

Na madrugada triste, insone, cálida, venho a me perder nessas lembranças. De Lisboa, do Recife, da Bahia. Reinventar a minha ausência, imaginada. Sentir saudade de ter sido feliz. E de ter ficado absolutamente perplexa, nas cores que o dia enalteceu, enquanto a ficção escrevia – em nanquim – as minhas águas.

Itapuã

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Sofrer vai ser a minha última obra…

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Paulo Leminski

 

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Deformidade de asas

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Nasci com deformidade de asas

Curtas e desplumadas

Roubam-me o equilíbrio

Mas nunca desisti de voar.

 

A cada tombo reajo

A toda queda

Insisto

Sei que tudo é

Questão de exercício.

 

E se eu corresse, corresse

Corresse

Ainda alcançaria a infância perdida?

 

Miriam Portela, minha mãe, minha inspiração e minha musa literária, março de 2013.

 

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Encontrei Leminski

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Em 24 de julho de 2012 empalideci diante de uma cósmica descoberta: havia me encontrado com Paulo Leminski em um verso. Alguns dias antes fui surpreendida por uma epifania, murmurada em meus dedos: “Há de chegar o dia em que eu viva apenas de poesia”.

Anotei aqueles dizeres. E os esqueci. Até que o espanto me despertou, rebobinando minh’alma para o ano de 1983, quando Leminski definiu sua vida e sua obra:

“moinho de versos

movido a vento

em noites de boemia

 

vai vir o dia

quando tudo que eu diga

seja poesia”

Foi assim que nos unimos, na ontológica missão de todos os poetas.

 

Encontrei Leminski

No meu pavor à letargia

Dessa madrugada vazia

Que preenchi com vinho e poesia

 

Encontrei Leminski

No meu sobrenome polonês

Em versos de outrora

E de talvez

 

Encontrei Leminski

Na minha solidão mesquinha

E ele disse que vinha

Para dentro do meu sonhar

 

Encontrei Leminski

Num verso tão frágil e sincero

E ele, espantado

Austero

Não pode aceitar

 

Como nós dois conjugamos

Sem a mesma face

Nem os mesmos planos

Aquele impossível acreditar.

 

 

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Tenho Mais Almas que Uma

Pessoini

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão…

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.
5/9/1933

Fernando Pessoa

 

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu ‘screvo.

Ricardo Reis in Odes

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Licença Poética

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Para Paulo Carvalho

“O poema sai de mim ou eu saio da vida.” – Alberto da Cunha Melo

Acordei perfumada. Os olhos saltaram da cama antes da carne, ainda recoberta em fragmentos inconclusos do sonhar. O mundo não me enviou seus pesares, nesta manhã. O torcicolo permanece dormindo, depois de séculos a torturar-me nessa dor vã e mesquinha. Hoje.

Tenho um samba antigo cantarolando entre os dedos, frenéticos para tocar o infinito. A dor é apenas uma melodia mais bela, e não triste. Uma estranha vontade de ser feliz inunda meus pulmões. Hoje.

Nenhuma conta bancária assustou-me, encostada na porta de casa. E o improvável gris que acometeu o céu, em pleno janeiro, não me é incômodo. Como se estivesse protegida, preparada para enfrentar os dragões. No entanto, no lugar das armaduras, há um corpo nu e silencioso que me contorna. Hoje.

Meu coração está calmo, e extasiado, e único, como alvoreceres azuis de Lisboa, quando a vida podia doer mais do que um fado. O despertador não tocou e amanheci sozinha. Hoje.

Sinto os aromas escarlates do Recife, em pleno carnaval, inebriando as nuances dos meus olhos, ao celebrarem o mar de Boa Viagem. Esqueci-me de tomar o antidepressivo, antipoema. E não há instante de tédio que não possa ser colorido em versos. Hoje.

Não me atrasei para a consulta com o solitário diretor da multinacional, embora o relógio tenha sido negligenciado. E eu pude ver em seu sorriso velho uma centelha de futuro, faiscante, faiscando uma promessa de viver em plenitude. Hoje, as promessas, ilusões da traição dissoluta, são bem vindas.

O crescimento deixou de ser a perda do brincar para assentar suas raízes no mistério. Por que, meu Deus, por que hoje?

Porque hoje é dia de Poesia. Porque hoje os uniformes foram suspensos dos hospícios e não há Gardenal para ninguém. As amarras foram esfaceladas, timidamente, já que as camisas de força não possuem força alguma.

Não há sustos apavorando os passageiros enfileirados, esperando a desesperança dar sossego. Porque não há sustos, no dia de hoje. Não há de haver nenhuma brusca ruptura entre o imaginado e o real – esta cisão cruel que nos ameaça.

Alguns acabarão a madrugada reinventando seus afetos, possuídos por uma vontade alheia aos pensamentos bélicos de realidade. Uns poucos seguirão seus caminhos, sem farpas de angústia. Outros sentirão a necessidade de psicografar suas epifanias malditas, em homenagem ao espírito calado pelas rotinas. Mas, por que só hoje?

Eu vou sentir o tremor primeiro de quem escreve. Sentada na iminência abissal que verticaliza o instante. Eu serei a testemunha clarividente desta noite irreversível. Eu ouvirei os poros dos presentes, e dos ausentes que estão sendo contemplados em segredo cósmico. O arrepio é a alma reconhecendo-se no mundo.

Todavia, nenhuma alegria é revisitável. Todo desassossego traz em si a reminiscência uterina de ter um dia pertencido. E sentirei saudade, o não permanecer mais íntimo de todos os sentimentos. E não a quero. Nunca mais.

Há em mim um enternecimento tão poderoso que não posso mais aceitar as condições efêmeras desse existir. Uma inquietude visceral, não esboçada em papéis violentados por releituras inúteis. Uma memória de outros domingos que não foram, ainda, rasgados pelo calendário.

Lá está a poesia cotidiana.

Nas esquinas difusas, sepulta em distrações corriqueiras. Nos adeuses dos homens engolidos por abstenções econômicas. Em milímetros de pele esquecidos na íris do antigo amor. Órfãos do desconhecido que somos, à espera do impossível retorno.

Por uma vida genuinamente literária, deixo os devaneios cravarem suas bandeiras no meu ser. E peço licença poética para atravessar todas as tempestades.  Pois não há verbo para saudade. E nem dia para a Poesia.

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O ultimato onírico

“A noite não é um espaço. É uma ameaça de eternidade.” Bachelard in O Direito de Sonhar

Estou inerte em minha casa, à espera da morte onírica. A chuva, voraz, apaziguou minha abstemia – esta sede de orvalhos – obrigatória em noites primaveris. Falta pouco para transformar-me mais uma vez, deixar a concha aérea e ignorar seu alento precioso. Mais um sonho irá se concretizar.

Para o desavisado sonhador, toda concretude se dilacera em sorrisos. Todo crescimento aponta para a vulgaridade úmida. Toda crosta tem destino de partida. E inutilidade.

Contudo, já dizia Bachelard que a poesia “se simplesmente segue o tempo da vida, é menos do que a vida; somente pode ser mais do que a vida se imobilizar a vida, vivendo em seu lugar a dialética das alegrias e dos pesares”. E é nesta esquina que o pensamento ressona, quieto, prestes a dar o salto mortal.

Encontro a mim mesma no impasse abissal das iminências, onde os verbos só se conjugam no intransitivo. Entre o medo de pular e o prazer de doar ao meu cérebro mais uma dose de lembranças ininteligíveis.

Os céus, neste momento, tornam-se imensos, tal como a íris de olhos embevecidos por tolices. Quando não há espaço para pupilas. E, então, percebo a solidão desértica habitando-me os poros, grão a grão – areia ancestral. Invólucro do meu ser fragmentado pela derradeira alvorada.

Eu degusto o vazio uterino que caracteriza toda realização com pavor, mesmo que não concebesse a morada desocupada.

E, neste cenário, tu tocas a campainha, apesar de não existir avisos prévios da tua vinda. Nenhum coração esteve preparado para o refulgir de teus passos, para o arroubo indelével da tua chegada.

Vieste para escrever estas páginas amarelecidas da minha história, transfigurando os tilintares infantes que eu havia dado às letras imprecisas, aos acasos. Sendo assim, imploro-te: inaugura minhas janelas com tuas risadas inconfundíveis, preenche minhas frestas com a tua música, extingue as lágrimas incompreendidas. Rasga a minha ira e aniquila estas tristezas que, há tanto, fazem-me companhia.

Amor, almejo que venhas com as malas repletas de rasuras para que eu possa modificar os teus esboços. Esquece os teus mesquinhos anseios de plenitude e encarece aqueles milésimos de segundo, verticalizando nossas comunhões.

Os armários, as gavetas, os cantos e promessas ficaram dias ao sol, espantando reminiscências de outrora. Estou pronta para assassinar meus devaneios, em prol da tua presença. Em legítima defesa.

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O Fausto em Pessoa

 

 

 

Primeiro Tema: O Mistério do Mundo

XXII

Ah, não poder tirar de mim os olhos,
Os olhos da minha alma […]
(Disso a que alma eu chamo)
Só sei de duas coisas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.
 
Oh vulgar, oh feliz!  Quem sonha mais,
Eu ou tu?  Tu que vives inconsciente,
Ignorando este horror que é existir,
Ser, perante o [profundo] pensamento
Que o não resolve em compreensão, tu
Ou eu, que analisando e discorrendo
E penetrando […] nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido.
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta
Fosse apenas sonhando mais profundo
……………………………………………………………..
Fernando Pessoa e Rembrandt

 

 

 

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A solidão poética

Miriam Portela 

NÃO DÓI NÃO

GRITA O POETA

OLHOS RASOS

VEIAS ABERTAS

FRUTO MADURO

A MATAR A FOME

DA VIDA.


NÃO DÓI NÃO

GEME O POETA

A LAMBER AS ÚLCERAS

COSTURANDO OS PULSOS

CORTADOS PELOS VENTOS

 

NÃO DÓI NÃO

MURMURA O POETA

OLHOS MÍOPES

A ACARICIAR AS RUGAS

DESENHADAS A CANIVETE.

 

DOEU, NÃO DÓI MAIS

ADMITE O POETA

O CORPO HIRTO

AS MÃOS INÚTEIS.

5/07/12

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O tempo não derramado

E agradeço a esse alguém por não ter rasgado a minha carta: cada um de nós morre um pouco quando alguém, na distância e no tempo, rasga alguma carta nossa, e não tem esse gesto de deixá-la em algum canto, essa carta que perdeu todo o sentido, mas que foi um instante de ternura, de tristeza, de desejo, de amizade, de vida — essa carta que não diz mais nada e apenas tem força ainda para dar uma pequena e absurda pena de rasgá-la.”  Rubem Braga  

A materialidade de mim que reside na casa dos meus pais se transformou em uma caixa de papelão repleta de  lembranças encruzilhadas em nostálgicas reminiscências. Dói-me abaixar-me diante desses passados longínquos e obscuros, tão distantes de quem sou agora.

O instante da faxina, além de salientar os ácaros permanentes do passado, traz a insustentável dor de me livrar desses breves fragmentos enrijecidos pelo tempo, aflorados em inoportunidades.

Releio as amarelecidas declarações de amigos que não vejo mais. Deleito-me com a doçura dos primeiros namorados. Inebrio-me com as mínimas promessas de futuro que abrigam os corações de exímias sonhadoras.

De repente, sinto a profunda saudade de ser amada pelas horas que custei àquelas cartas coloridas, dolorosas, desenhadas em nanquim, fatigadas de felicidade ou desesperadas pelo abandono de um inverno inglês.

Rio-me dos erros que invadem a caligrafia difícil, obstáculo da infância. Falho em rebobinar alguns sentimentos nublados, ilegíveis a olho nu. Depois, entrego-me à estranha liberdade de engolir as verdades axiomáticas, desacompanhadas intérpretes da jornada.

Ah, esses dizeres juvenis merecem ser sepultados. Desfaço-me de milhares de folhas. Rasgo-as sem pudor porque, aqui, morando nesta pele, todos os momentos que me escreveram foram em mim publicados.

Resgato uma mala empoeirada para abrigar as cartas que, por algum motivo, ainda não me aconteceram. Letras da avó precocemente morta, sonhos irrealizáveis, nostalgias de amor…

Vou guardar-me mais um pouquinho, engrandecendo-me em sonhos que a vida ainda há de contar.

Levo, paciente, alguns quilos de coragem que me tragam a velhice em imensidão luminosa. Estilhaços meus que se extingam, pouco a pouco, na lucidez de suas concretudes. Com as vozes trêmulas de poesia, descansadas da sobriedade cronológica. Rasguem-se em solilóquios, em ruínas, em escuros. Mas fiquem um pouco mais, enquanto tenho esses verbos em dúvidas.

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O Grande Circo Místico



“O médico de câmara da imperatriz Teresa – Frederico Knieps –

resolveu que seu filho também fosse médico,

mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,

com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps

de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,

de que nasceram Marie e Oto.

E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora

que tinha no ventre um santo tatuado.

A filha de Lily Braun – a tatuada no ventre

quis entrar para um convento,

mas Oto Frederico Knieps não atendeu,

e Margarete continuou a dinastia do circo

de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Então, Margarete tatuou o corpo

sofrendo muito por amor de Deus,

pois gravou em sua pele rósea

a Via-Sacra do Senhor dos Passos.

E nenhum tigre a ofendeu jamais;

e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,

quando ela entrava nua pela jaula adentro,

chorava como um recém-nascido.

Seu esposo – o trapezista Ludwig – nunca mais a pôde amar,

pois as gravuras sagradas afastavam

a pele dela o desejo dele.

Então, o boxeur Rudolf que era ateu

e era homem fera derrubou Margarete e a violou.

Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.

Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps.

Mas o maior milagre são as suas virgindades

em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;

são as suas levitações que a platéia pensa ser truque;

é a sua pureza em que ninguém acredita;

são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo;

mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.

Marie e Helene se apresentam nuas,

dançam no arame e deslocam de tal forma os membros

que parece que os membros não são delas.

A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.

Marie e Helene se repartem todas,

se distribuem pelos homens cínicos,

mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.

E quando atiram os membros para a visão dos homens,

atiram a alma para a visão de Deus.

Com a verdadeira história do grande circo Knieps

muito pouco se tem ocupado a imprensa.”

Jorge de Lima


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O tempo é meu disfarce…

Sentimento do tempo 

Paulo Mendes Campos

Os sapatos envelheceram depois de usados
mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar; me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
E um coração ardente em coisa fria.
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce.

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O Presságio dos Adeuses

 

O abandono primeiro é a morte do silêncio. Antes do nascimento das cores fartas da aurora, são pássaros a anunciar o desvanecimento da noite. O sol, pois, é um mero coadjuvante na solidão arquetípica – escura – do poeta. Ah, quanta candura envolve os devaneios uterinos, na impossibilidade de adiar a despedida!

Manuel Bandeira auscultou – ouvido cósmico e maldito – os olhos à espera da carne. Ele estava certo: o olhar antecipa-se ao presente, premeditando inegáveis acontecimentos. Por qual razão se possui um órgão em tamanha desigualdade com o resto do corpo?

E assim aconteceu.

A última lucidez invadia a íris manhã de Carlos. Apressado – como deveriam ser os derradeiros – pôs seu sobretudo de lã marrom por cima do pijama quadriculado, calçou os tênis surrados com as solas quase atingindo a carne da terra; e desceu em direção à padaria.

Bebeu um café demorado, dando goles entorpecidos pela nítida claridade. Nunca havia gostado de presenciar o barulho dos ônibus daquela esquina, tampouco os transeuntes felizes, em plena segunda-feira. Porque, em entardeceres dominicais, estão fecundas todas as promessas. E brutalmente se esvaem, aniquiladas pelos pecados cometidos algumas horas depois. Segundas-feiras são fúnebres para aqueles que sonham.

Comprou o jornal, travestido de rotina. Nenhuma boa notícia permeava o universo. Sequestros, assaltos. Lixo sensacionalista. Mas o pior de tudo era saber que o jornalismo engolia seu epitáfio na assinatura de seus repórteres.

Carlos deu-se ao direito de não almoçar. As obrigações jaziam frente à sua escolha. Pensou no quanto se sentia privilegiado de ter aquele dia restante. Era azulado – porém frio – como são as miragens.

No fim da tarde, apareceu no armazém de vinhos. Lá todos o conheciam e o tratavam com certa estima. Ele desconfiava que fosse apenas o dinheiro depositado, semana após semana. No entanto, quais relações em sua vida não eram emolduradas pelo desconcertante viés das máscaras? Quando houve amor verdadeiro, clichê indigno da poesia?

Saiu de lá com duas garrafas caríssimas. E alguns maços de cigarros – contrabandeados – por terem sabor. Impressionante como até o gosto do tabaco incomoda a política execrável desses tempos.

Abriu a porta de casa. Duas longas voltas na chave, como era de costume. Parecia a primeira vez que aquela mania o acorrentava. Não, Carlos. Nunca mais duas voltas na chave, nunca mais o armazém, nunca mais o café expresso com a xícara manchada de batom da padaria barata, nunca mais saborear a doçura dos céus gelados, vertiginosos de julho.

À fumaça que insiste em sair da sua boca: adeus. Ao gosto frutado do vinho: adeus.

Os dedos estão trôpegos, é o inebriar da madrugada amolecendo os órgãos, exauridos. A saudade começa a arder nos olhos, anuviados. Quando a noite acaba? Como será o ontem, para o louco que se despediu da realidade?

Mário de Sá Carneiro, certa vez, disse a Fernando Pessoa (que acabara de confessar a sua loucura ao melhor amigo) que ele era ainda mais louco, pois não conseguia conservar nem os vícios. Enquanto o poeta maior maldizia seu apreço pelo álcool, como lhe dilacerava a incessante vontade de fumar, Mário de Sá Carneiro se queixava de ser tão louco, mas tão louco, que não tinha nem a organização de um viciado. Para termos vícios, Carlos, é imprescindível planejamento. E isto calcularia a normalidade de um ser humano?

Desculpe-me por invadir a narrativa. Entendo que a alma siga violenta, sonâmbula, quando é desperta subitamente por um cheiro antigo. Inocentes e libertos somos, por aromas de porão. Ah, inaudita memória que nos atinge e nos expulsa da falsidade ideológica, em posições fetais!

Todavia, Carlos, ao vestir-se de branco, sem mangas, você me abandona. Estou envolta em nós cegos. O presságio navega pelos olhos vazios, sedentos de inspiração. Também eu perdi minhas letras borradas de nanquim. Agora só consigo escrever sob as duras linhas da caligrafia, ordenadas, com destino traçado em obviedade. Nenhuma desistência traz a nobreza dos heróis.

As trilhas nunca amparam aquilo que não foi desbravado – a não ser em seus fins. Acessar o desconhecido, Carlos, submete-nos àquilo que não estamos (e jamais seremos) preparados. Para ficar, inúmeras vezes, é preciso partir de nós mesmos. E cabe à familiaridade nos dizer quando é tempo de cheganças.

Os adeuses, Carlos, podem ser tristes, como a menina que vislumbra seu amado desaparecer enevoado pelas ávidas novidades. Podem ser doces, como a insônia que precede o novo emprego. Podem ser frios, como o féretro que protege o ente querido. Entretanto, talvez seja novidade, todo e qualquer presságio que inaugura sua alma também é matéria onírica para mim.

Reside aqui, na emancipação da miopia, na expulsão da menor quimera, no alívio das lágrimas, quando o gordo sonho ocupa a nossa casa por inteiro.

Render-se ao isolamento, à incompreensão, ao delírio não fará sua existência mais pertinente que a minha. Somos igualmente afetados pela mediocridade, pelo esquecimento, pelo medo.

Contudo, ao tê-lo ao meu lado, Carlos, neutralizo meus fantasmas. Posso pacificar meus compassos, órfãos. No pequenino interstício que nos une, sinto-me plenamente contornada. Não me deixe só. Eu suplico: edifica-me com o seu desamparo, para  que eu possa reverdecer, epifânica.

 

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Fragmentos sem passado*

Navio que partes para longe,
 Por que é que, ao contrário dos outros,
 Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?
 Porque quando te não vejo, deixaste de existir.
 E se se tem saudades do que não existe,
 Sinto-a em relação a cousa nenhuma;
 Não é do navio, é de nós, que sentimos saudade.” Fernando Pessoa

Sou artista. Mais pelo fardo do que por glamour. Tenho dezessete prioridades ao mesmo tempo. Não tenho mergulhado muito, mas conheço o fundo do mar com as minhas inextricáveis entranhas. Já deixei um amor ir embora.

Suporto o trabalho, embora seja enfadonho aguentar o medíocre. Aprendi que o dinheiro adora a felicidade. Sou geminiana, meus cabelos estão brancos há anos. Sinto saudade dos sítios que não me tornam protagonista.

“Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender, um coração exageradamente espontâneo” – isso é o Pessoa, que me cabe, por hoje. Se eu fosse uma canção do Chico – Anos Dourados. Dos Beatles, A Day in the Life. O senso comum me dilacera, assim como a Garota de Ipanema.

Tenho profundo amor ao óbvio, invisível. Namoro há seis anos e tenho tanto medo de amarelar minhas relações.

Sou filha da literatura e isso foi doce. E isso doeu.

Fico apavorada com a ideia de morrer sem ter escrito nada que salve um espírito da loucura, pois fui salva e, assim, torno-me dividendo.

Eu amei mais do que pude e isso é o meu Chico, lado B, que preservo e de quem tenho ciúmes.

Perdi parte de mim em Lisboa. Odiei e amei a cidade de meu mestre. Recitei poesias por lá e fui profundamente feliz de ter o meu sotaque e não entender nada acerca das linearidades.

Passei seis meses sem escrever, quando fui eu, na mais verdadeira das hipóteses. E sou infeliz sem escrever, mesquinha de ideias, assustada pelos supostos plágios de mim mesma.

Menti. Menti, mas acima de tudo, inventei. E fui ainda mais plena, quando não estava lá.

Acho o corpo um ser estranho, estrangeiro e plácido, equidistante.

Amarei a companhia da noite, como se os úteros estivessem abertos às minhas visitas.

Tenho mínima tolerância à burrice.

Sinto falta de uma amiga que nunca mais estará ao meu alcance, embora a morte não a tenha prestigiado com a juventude.

Meu pai é a maior confissão de mim mesma.

Minha mãe é minha fúria. E eu a amo, sensível e frágil, e forte. Tenho medo que o mundo, infame, a dilarece em volúpias. E tenho medo que ela parta sem me contar onde reside esse sótão de epifanias.

Sinto saudades antes de Paris, quando o amor era nítido e puro, e o planeta não atrapalhava a telepatia.

Gosto de sentir medo dos animais e da sua incondicionalidade.

Pareço dispersa, arbórea, louca. Mas cada um de meus amigos sabe exatamente o meu apreço.

Viver sem paixão é tortura.

Meu irmão é um dos grandes motivos de existir, apesar de estar só, ensimesmado, negligenciado dos meus dizeres fraternos. No cerne de mim, ele está. Em tudo.

Meu cérebro transborda, cintilante, como uma casa com todas as luzes acesas, Clarice. Hoje você esteve comigo e a vida basta nestes momentos incinerados, luminosos.

Guardo só uma pessoa em um segredo, da qual me sinto lisonjeada. E, se pudesse escolher uma só pessoa, serei ele.

Tenho vontade de morrer nos dias excessivamente claros, ou quentes. Os dias não me são íntimos.

Aprendo música, nada entendo. E a idolatro, por todos os labirintos.

Fiz versos bonitos, aos quinze, quando nada me absorvia.

Não escrevo mais versos. Letra, nunca fui capaz.

A Fenomenologia me deu sentido.

Minha irmã alimenta as esquinas.

O português é a pátria que venero.

Acredito que os olhos, fartos de realidade, esticam os sonhos como pastilhas elásticas, ainda açucaradas.

Mato a mim, todos os dias.

Não sofro com isso.

É um prazer reinventar-me, ensinar-me novas canções, e amanhecer em melodias.

*A foto é do Alexandre Veiga

 

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Os livros são pássaros do sonhar

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O país dos sonhos

Eduardo Galeano
Era um imenso acampamento ao ar livre. Das cartolas dos magos brotavam alfaces cantoras e pimentões luminosos, e por todas as partes havia gente oferecendo sonhos para trocar. Havia os que queriam trocar um sonho de viagem por um sonho de amores, e havia quem oferecesse um sonho para rir a troco de um sonho para chorar um pranto gostoso.
Um senhor andava ao léu buscando os pedacinhos de seu sonho, despedaçado por culpa de alguém que o tinha atropelado: o senhor ia recolhendo os pedacinhos e os colava e com eles fazia um estandarte cheio de cores.
O aguadeiro de sonhos levava água aos que sentiam sede enquanto dormiam. Levava a água nas costas, em uma jarra, e a oferecia em taças altas.
Sobre uma torre havia uma mulher, de túnica branca, penteando a cabeleira, que chegava aos seus pés. O pente soltava sonhos, com todos seus personagens: os sonhos saíam dos cabelos e iam embora pelo ar.

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Vista Cansada

Otto Lara Resende

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou. Fugiu enquanto pôde do desespero que o roía – e daquele tiro brutal.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

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Perdi meu amor em Lisboa

Antes de tu chegares jamais pude escolher o meu sonhar. E, confesso, desde pequenina tentava driblar esses vastos porões do inconsciente – a fim de domá-los. Arrogante que era, acreditava que as fúrias de minha profundeza também me pertenciam, domesticáveis.

Porém, certa noite, desejei ter-te cá dentro da minha narrativa selvagem. Aceitei ser títere dos baús empoeirados, abrir os lacres poderosos da razão. E sonhei com a possibilidade de estar ao teu lado.

Na altura eu era jovem e louca e infantil. Não havia aprendido a linguagem nítida dos devaneios noturnos. Estrangeira. Sozinha. Liberta das amarras do pertencimento.

O sonho era óbvio. Literal – como são essas terras. Estávamos em uma festa, dispersos nas conversas triviais com conhecidos e outras pessoas que trouxe do meu país para o sonho. Embriagados e obtusos.

Acordei. Invólucro, ainda, de vinhos não entornados. Desorientada de estar na realidade de mais um dia. Fui à tua procura, certa de que deveria desanuviar as incertezas, apagar a lembrança não vivida. Quantas horas passamos a falar! Tu, totalmente imune ao meu sonho, enquanto eu tentava rebobinar as fantasias para ver se faziam jus aos porões.

No entanto, foi a noite seguinte que consumiu a profecia autorrealizadora. Depois de um jantar irrelevante. Ah, como me senti manipuladora nos instantes que precederam o beijo. Porque já o havia beijado antes, mesmo que tu não soubesses disso.

Não aguardava o amanhã que te trazia novamente. Não era mais sonho, não havia roteiro traçado. E tu estavas lá, à minha espera. Com os olhos negros e vazios, convidando-me a preenchê-los com a minha própria vida. Como compreendeste cedo as canções impronunciáveis de meus artistas natais! Ensinaste a mim a literatura anciã dos navegantes e os ventos que compõem as tempestades. Foi assim que aprendi: as calmarias duradouras são perigosas iminências do mudar.

Tu desmembraste minha família destruída, colocaste-me no rígido papel de protagonista. As minhas lágrimas vitimizadas perdiam, a cada momento, seu triunfal poder de convencimento. E eu, tão pobre de retórica, tão fraca em me expressar na tua língua, via-me solo das sementes inesgotáveis.

Com o paganismo infantil, ampliava meus ouvidos para a música que só tu eras capaz de explicar, em gestos magistrais de professor. Distinguia cada um dos Beatles nas canções – pela forma, conteúdo, voz. Contudo, admito que avistava em Ringo o mais estranho dos personagens e, por isto, o amava a revelia dos truísmos.

Mas, também eu era capaz de ensinar. A tua robustez nutria meu cerne, pouco a pouco. Conseguia traduzir em notas os minúsculos poros da tua pele exótica. Discorria sobre as engenhosas construções matemáticas que compõem uma tessitura. Compartilhava meus costumes gélidos, explicando como a minha nação não tinha condições de agregar culturas indígenas. Preparava refeições, no ímpeto de alimentar tuas inspirações literárias.

Pude resgatar a ti dos abismos atrozes onde moram os pesadelos, ao levar-te por um passeio inusitado à beira do Tejo, em madrugada estelar. Tua alma, cintilante, finalmente atingia a incomensurável felicidade. Sempre nos gestos banais, microscópicos, eu estava a exercer a função pedagógica do amor.

Quis casar-me contigo, todos os dias, embora não possuísse emprego fixo nem curso superior. Obedeci, pois, a cada um dos fugazes impulsos que vivia meu coração apaixonado.

Paulatinamente, amado, fui recuperando meu ser esquecido, antes pelos lamentos. Enquanto as tuas raízes convertiam-se em maleabilidade, minha casa ganhava ornamentos. Tu vivias anseios de naufrágios juvenis, corajosos e típicos de quem sabe navegar. Eu queria apenas fincar minha bandeira em solo clandestino.

Nevoeiros tornam-se sutis, frente aos temporais.

Assim, nossa cumplicidade telepática foi tornando-se adúltera. Tu, sedes de além-mar. Eu, quimeras continentais, com horror aos arquipélagos. Nossa solidez, taciturna, foi-se devastando em crescimentos incompatíveis, alheia à intersecção primeira.

Tu foste à África, buscar os sons que engrandecem tua língua. No Brasil, abandonaste as feições tristes do fado. Descobriste a razão de ter os pés sempre a tremer. Era o samba, erupção vulcânica, escondido em tua carne.

Simultânea, interpretei todos os azuis dessa cidade, atrás do teu rastro. Deitei pelas noites gentis, a enlanguescer-me. Retornei, apática, à fonética carecida de poesia de meus iguais.

Dissipamo-nos, faíscas, como a breve carcaça das fogueiras.

Desaprendeste de mim? Conseguiste caminhos em tua memória que apagassem meu nome? Pois esforço-me imenso, até hoje, por fórmulas imediatas de revogar. Invoco lúcidos sonhos que me retirem de Lisboa, berço desse lirismo tolo. Um eclipse irrefutável, talvez.

Escrevo para calar aquilo que reverbera. Esquecer-te desperta, em vigília. Onírica, já sabes, serei incapaz de deitar-te fora. A noite sempre me chega para rarefazer as cicatrizes, para enaltecer os domínios dos quais não sou senhora.

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Sem testemunhas

“A mais vil de todas as necessidades – a da confidência, a da confissão. É a necessidade da alma de ser exterior. Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos teus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que os segredos que digas, nunca os tenhas tido. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.”

Fernando Pessoa, in ‘Livro do Desassossego’

É longe do palco que se pode ensaiar os contornos do amanhã. Quando se apaziguam as esperanças de futuro e os sonhos perdem sua obrigação incongruente de solidez. Quando os olhos se fecham e aceito a vulnerabilidade de acordar para dentro. Ausente de observadores encontro-me viva, e só. Sem a mórbida obviedade do sofrer.

Ah, negra hora do dia: agradeço o meu anonimato. Quando a humanidade já foi deitar e o mundo permanece alheio às vicissitudes inúteis dos despertos. Sinto-me cúmplice dos suspiros das árvores, das proibições conjugais: átomos antigos, entorpecentes cósmicos.

Sinto-me, pois, neste instante, ainda em posse de uma história sem veracidade. Distante daqueles que lembram como sou, como fui e, inevitavelmente, como envelhecerei. Caminho pelos labirintos desfocados que me conduzem a essas letras. Guardei minhas palavras por algumas madrugadas. Não aceitaria que elas nascessem prematuras.

Nas profundezas marinhas da noite, as cicatrizes se escondem para dar lugar à bela totalidade arredondada. E os oceanos, mais misteriosos e demiúrgicos do que nunca, enaltecem suas melódicas queixas de escravidão ao luar.

Como gostaria de despir-me, também eu, para o grande silêncio. Sem testemunhas. Pacificada pela sensação de abrigar exclusivamente um pseudônimo confuso, expatriado das mãos rancorosas de seu autor senil. Transportar-me a um mundo de domingos, onde os habitantes emudecem pelo horror ao recomeço; e se aninham, distraídos, na nulidade de suas existências.

Estou tão cansada, hora gatuna, violenta. Medíocre que sou, refugiada nesse asilo temeroso. Como anseio libertar essas histórias acorrentadas nos presságios ilusórios dos grandes desertos. Anônima. Sem ter os olhos pequenos demais para apreciar os destinos. Desanuviada.

Quero pecar sem assinatura.

Viver sem testemunhas seria, hoje, meu desejo mais arcaico. Jorrar minhas memórias por páginas desconhecidas e inacabadas. Iridescente, breve, hermética. Frases sem sentido para que ninguém mais não me morasse.

 Como se torna persecutório o ato de desenhar-se em dizeres, em traduzir-se conteúdo. Medo de ser retaliada por aquilo que foi vivido, embaraço frente aos relatos vergonhosos das melancolias juvenis. O pavor de estar em primeira pessoa. Saudade – essa qualidade da ausência – como faz sentido estar mais próxima da estranheza que suportar a inocente familiaridade. Apenas o estrangeiro de si, de pátria ou de línguas, aguenta, sem anódinos, o peso inesclarecível das funduras.

Destarte, reintegro a secura intrínseca da esterilidade. Se não posso suportar meus segredos, se os enclausuro na travessia entre o esquecimento e a confissão, perco a maestria uterina. A clarividência sempre toca o julgamento preciso de quem lê.

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Planos falham…

“Aprendi, ainda, sobre a tolice de todos os nossos planos. A psicanálise interpretou o mito de Édipo como uma tragédia cujo tema é psicológico: o ódio entre pais e filhos e o incesto. Mas a essência do mito não é psicológica. É metafísica. O mito é um relato dos atos que os homens fazem conscientemente a fim de evitar a tragédia, sem saber que são esses mesmos atos que os levam para ela. A tragédia aconteceu porque os homens tentaram evitá-la.

Tolos! Pensamos que nossos planos são capazes de garantir o futuro. Ignoramos que há forças mais profundas. Não estou dizendo teoria. Eu vivi isso. Só estou onde estou porque tudo o que planejei deu errado. Se meus planos tivessem dado certo eu não estaria escrevendo esta crônica, não teria me tornado um escritor… Amaldiçoei o fracasso dos meus planos. Não sabia que era precisamente esse fracasso que me levaria ao lugar que desejava. As correntes do rio profundo foram mais generosas que o meu remar contra elas. Não cheguei aonde planejei ir. Cheguei, sem querer, aonde meu coração queria chegar, sem que eu o soubesse.

Muito tarde aprendi os limites da palavra. Alguns pensam que os seus argumentos, por sua clareza e lógica, são capazes de convencer. Levou tempo para que eu compreendesse que o que convence não é a “letra” do que falamos; é a “música” que se ouve nos interstícios de nossa fala. A razão só entende a letra. Mas a alma só ouve a música. O segredo da comunicação é a poesia. Porque poesia é precisamente isso: o uso das palavras para produzir música. Pianista usa piano, violeiro usa viola, flautista usa flauta – o poeta usa a palavra.”

Rubem Alves in As Cores do Crepúsculo

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Amada noite

 Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

 Vem, Noite antiquíssima e idêntica, 
   Noite Rainha nascida destronada, 
   Noite igual por dentro ao silêncio, Noite 
   Com as estrelas lentejoulas rápidas 
   No teu vestido franjado de Infinito.

   Vem, vagamente,
   Vem, levemente,
   Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
   Ao teu lado, vem
   E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
   Funde num campo teu todos os campos que vejo,
   Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
   Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
   Todas as estradas que a sobem,
   Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
   Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
   E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
   Na distância imprecisa e vagamente perturbadora, 
   Na distância subitamente impossível de percorrer.

   Nossa Senhora
   Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
   Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela, 
   Dos propósitos que nos acariciam
   Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
   Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto, 
   E que doem por sabermos que nunca os realizaremos… 
   Vem, e embala-nos,
   Vem e afaga-nos.
   Beija-nos silenciosamente na fronte,
   Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam 
   Senão por uma diferença na alma.
   E um vago soluço partindo melodiosamente
   Do antiquíssimo de nós
   Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
   Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
   Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

   Vem soleníssima,
   Soleníssima e cheia
   De uma oculta vontade de soluçar,
   Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
   E todos os gestos não saem do nosso corpo
   E só alcançamos onde o nosso braço chega,
   E só vemos até onde chega o nosso olhar.

   Vem, dolorosa,
   Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
   Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,
   Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes,
   Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
   Vem, lá do fundo
   Do horizonte lívido,
   Vem e arranca-me
   Do solo de angústia e de inutilidade
   Onde vicejo.
   Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
   Folha a folha lê em mim não sei que sina
   E desfolha-me para teu agrado,
   Para teu agrado silencioso e fresco.
   Uma folha de mim lança para o Norte,
   Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
   Outra folha de mim lança para o Sul,
   Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
   Outra folha minha atira ao Ocidente,
   Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
   Que eu sem conhecer adoro;
   E a outra, as outras, o resto de mim
   Atira ao Oriente,
   Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
   Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
   Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
   Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
   Ao Oriente que tudo o que nós não temos,
   Que tudo o que nós não somos,
   Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
   Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo…

   Vem sobre os mares,
   Sobre os mares maiores,
   Sobre os mares sem horizontes precisos,
   Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
   E acalma-o misteriosamente,
   ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

   Vem, cuidadosa,
   Vem, maternal,
   Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
   À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
   E que viste nascer Jeová e Júpiter,
   E sorriste porque tudo te é falso é inútil.

   Vem, Noite silenciosa e extática,
   Vem envolver na noite manto branco
   O meu coração…
   Serenamente como uma brisa na tarde leve,
   Tranqüilamente com um gesto materno afagando.
   Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
   E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
   Todos os sons soam de outra maneira
   Quando tu vens.
   Quando tu entras baixam todas as vozes,
   Ninguém te vê entrar.
   Ninguém sabe quando entraste,
   Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
   Que tudo perde as arestas e as cores,
   E que no alto céu ainda claramente azul
   Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem.

   A lua começa a ser real.

                                                       II

   Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades 
   E a mão de mistério que abafa o bulício,
   E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
   Para uma sensação exata e precisa e ativa da Vida!
   Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
   E que misterioso o fundo unânime das ruas,
   Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre, 
   Ó do “Sentimento de um Ocidental”!

   Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas,
   Que nem são países, nem momentos, nem vidas,
   Que desejo talvez de outros modos de estados de alma
   Umedece interiormente o instante lento e longínquo!

   Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,
   Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas
   Como um mendigo de sensações impossíveis
   Que não sabe quem lhas possa dar …

   Quando eu morrer,
   Quando me for, ignobilmente, como toda a gente, 
   Por aquele caminho cuja idéia se não pode encarar de frente, 
   Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos 
   Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece, 
   Seja por esta hora condigna dos tédios que tive, 
   Por esta hora mística e espiritual e antiquíssima,
   Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece, 
   Platão sonhando viu a idéia de Deus
   Esculpir corpo e existência nitidamente plausível.  
   Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.

   Seja por esta hora que me leveis a enterrar, 
   Por esta hora que eu não sei como viver,
   Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho, 
   Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva, 
   Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas, 
   Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível 
   Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.

  Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter.
  Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio
  A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,
  Olha-me em silêncio e em segredo e pergunta a ti própria
  — Tu que me conheces — quem eu sou …

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Epifania



Murilo Mendes

Eu te procurei tal qual os três reis magos
Que caminhavam através de mares e desertos,
Até que um dia uma estrela enviada por ti mesmo
Me trouxe até a tua inefável presença.
Não posso te ofertar o ouro, o incenso e a mirra:
Ofereço-te a minha alma que tu mesmo criaste,
Ofereço-te a minha aridez e o meu pecado.
Ilumina agora e sempre todos os que te procuram
E todos aqueles que acreditam no teu fim.
Angústia e escuridão dominam o homem
Porque tu ainda não deste a volta ao mundo.

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Epifanias Cadentes

“Por epifania entendia uma súbita manifestação espiritual, tanto na vulgaridade da fala ou do gesto, quanto numa frase memorável da própria mente. Acreditava ser função do homem de letras registrar essas epifanias com extremo cuidado, visto serem elas os momentos mais delicados e evanescentes”. James Joyce in “Stephen Hero”, primeiro ensaio que ele escreveu para o “Retrato do artista quando Jovem”.

Perdia-me, sempre, em gordas horas de reflexão. Buscava, arrogante, pelo ainda inominável. O que não foi desvelado à espécie? Quais inovações posso trazer para a literatura? Que florestas do pensar ainda estão virgens para as minhas palavras? Como poderei desembravecer as feras poéticas que me habitam e que sufocam a minha inteligência?

Assim, quem sabe, havia de me tornar grande. Única.

Enquanto eu procurava pelas originalidades inviáveis, ia negligenciando grande parte das minúsculas luminescências que carregam os instantes. Esquecia dos segundos de claridade que contêm uma alegria efêmera. Redonda. E nunca menos densa.

Esses rasteiros e silenciosos lampejos, agora, impedem-me de cair em obtusidades mesquinhas. Alerta ao instantâneo, posso colher as imagens mais ricas. Uma conversa despretensiosa transforma-se em sopro criador. Afinal, são as choupanas que trazem a sabedoria da escrita ao espírito. Todo palácio é prolixo.

Se a mente perpetua-se em vigília, há inesgotáveis manifestações dessas harmonias anãs. Ah, que prazer superior foi sentir o cheiro da casa natal, vindo incandescente na distração de um sonhar vagabundo! Pertencimento infante que toma o corpo mais uma vez. Jorra a bela lembrança do brincar. Época em que os esconderijos, uterinos, guardavam amigos imaginários e devaneios de boneca.

Às vezes, aconteceu de abrir o livro amarelecido, envolto em poeira e herança familiar. A página, aberta aleatoriamente, tem cravada em si a letra incorrigível da avó, falecida há anos. Neste momento há uma capacidade de se confrontar com frases em carne viva. Algum cerne do viver. A jornada anciã pertence, finalmente, ao seu destino. A comunhão supera a instranponível passagem da morte.

Quando turista também pude me deparar com esse ínfimo alumbramento. Perdida, enfurecida, desnorteada. Todavia, ao enxergar uma viela, uma praça fora do mapa, uma árvore ou, quiçá, uma esquina, fui coberta pelo improvável sorriso. Se estivesse atenta, soberana, jamais avistaria esses segredos. Boas viagens não se documentam por cartões postais.

Hoje, por exemplo, vivenciei o inescrutável sentimento de compaixão frente à dor de uma personagem. Quando as lágrimas resplandecem um sofrimento  coletivo e invariavelmente humano. E como isso já me foi trivial! Quão inútil pode-se compreender a cumplicidade.

Nos últimos dias estou mais desperta para o vagalumiar da existência. Abandonei as grandiosas fontes de inspiração. Aprecio o entristecer crepuscular dos olhos. Porque a noite é grande e escura e límpida demais para a pequeneza da minha alma. Quero amanhecer em sobriedade aos detalhes inoportunos. Irrelevantes. Qualquer vão acontecimento desabrocha a poesia, antes de a fenecer.

Tenho pautado meus cadernos naquilo que é momentâneo. E observo que a plenitude tem sido a melhor hóspede. Depois de tragar a humildade para dentro dos pulmões, o coração está livre. Quando digo adeus às inúteis tentativas de imensidão, uma tempestade de centelhas incontornáveis vem me visitar. O verso já pode compor sua força nos limites. Só por causa delas, as epifanias cadentes.


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