Arquivo do mês: março 2013

Em nanquim

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A mala pronta, com antecedência milenar, queria ser aberta, precipitando-se ao destino. Meus olhos, encarnados, tentavam expulsar a frustração de uma semana perdida. E a ida ao aeroporto foi tortuosa. Parecia-me que me seria impossível recolher-me novamente à minha alma, depois de acontecimentos tão doloridos, tão ínfimos e miseráveis. O coração não estava à espera de surpreender-se, naquele fim de semana em Itapuã.

E quem foi que viveu um amor em cronograma? Quem escolheu, em verso, data e hora, o instante de contemplação? Qual ser humano desvelou a própria morada, a priori de algum pertencimento?

“A tinta de escrever, por suas forças de alquímica tintura, por sua vida colorante, pode fazer um universo, se apenas encontrar seu sonhador.” – disse, sabiamente Bachelard, em devaneios de matéria. Alguns lugares são feitos para nos dar abrigo. Ficam calmos, suspensos no vazio, até a chegada do intruso que lhes ocupará.

Para mim, o pouso de três meros dias na casa do Vinícius, na Bahia, foi dessa maneira. Como se aquele casulo já tivesse habitado meus poros há milênios do saber. Todo poema é ideia que viaja pelo sangue à frente das sinapses.

Mais tarde, percebi que a casa em Itapuã refletia os mesmos sentimentos amorosos que nutri por Lisboa e pelo Recife. Não era a primeira vez que me apaixonava daquela forma, pelas pessoas, pelos olhares demorados, pelos pensamentos entrelaçados ao nascer do sol.

Talvez seja assim que a vida se apresente em sua forma mais pura. O delírio encharca a realidade, e podemos beber alguns goles de nossa essência. Inteiramente desprovidos de máscaras, vestes ou distinções burocráticas. Na esquina bonita onde as flores outonais da prosa e da poesia se misturam, derramadas em sinfonia.

Apenas no átomo interestelar está a vida. Seja na vigília do acaso, em Kundera, na meditação das pedras, em Caeiro, no balão que Cony não soltou. Ou simplesmente na sapiência de Vinícius, que pediu perdão ao que amou de repente, embora fosse uma velha canção, ressonando em seus ouvidos.

Nas imagens depuradas dos poetas percebi a necessidade de estar atenta, pois não se pode abandonar o segundo à revelia de uma era perdida.  Lá se encontram a casa natal, a cabana mais pueril, a misteriosa clareira em meio à floresta. A caverna mais íntima crava suas inscrições rupestres em nós, antes.

Certas vezes, quando a sobriedade impera há muito, nascem utopias felizes, para aniquilar a melancólica lucidez. E os lugares que passamos a amar nos levam à infância roubada, esquecida nos mapas indecifráveis de nós mesmos.

Na madrugada triste, insone, cálida, venho a me perder nessas lembranças. De Lisboa, do Recife, da Bahia. Reinventar a minha ausência, imaginada. Sentir saudade de ter sido feliz. E de ter ficado absolutamente perplexa, nas cores que o dia enalteceu, enquanto a ficção escrevia – em nanquim – as minhas águas.

Itapuã

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Luiz Melodia

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Domingo fui concretizar mais um sonho musical: ouvir de perto o Luiz Melodia. Depois de ser salva por ele, no ano que passei em Lisboa, não sabia o que iria sentir ao dar meus olhos para o ídolo. Inacreditavelmente, nos primeiros minutos já estávamos conectados. Ele sorria pela íris para mim. E eu o entendia, cósmica.

Talvez a Música seja a arte que transborde assim, antes, pré-instantânea, impregnando suas presas com a paralisia de quem engole os instantes com embriaguez.

Depois, em Fadas, ele me olhou de novo. Suspendeu o microfone aos ares. E caminhou, em sensualidade felina. Sorrindo para mim. E pegou-me em seus dedos, comungando nosso encontro. Sem dizermos uma única palavra.

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Por mero descaso…

“As vidas humanas são compostas como uma partitura musical. O homem, guiado pelo senso de beleza, transforma o acontecimento fortuito (…) num motivo que mais tarde vai se inscrever na partitura de sua vida. Voltará a esse motivo, repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o como faz o compositor com o tema de sua sonata.

(…)
O homem, inconscientemente, compõe sua vida segundo as leis da beleza, mesmo nos instantes do mais profundo desespero.
Não se pode, portanto, criticar o romance por seu fascínio pelos encontros misteriosos dos acasos (…), mas se pode, com razão, criticar o homem por ser cego a esses acasos, privando assim a vida da sua dimensão de beleza.”

Milan Kundera in A insustentável leveza do ser

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Sofrer vai ser a minha última obra…

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Paulo Leminski

 

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Deformidade de asas

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Nasci com deformidade de asas

Curtas e desplumadas

Roubam-me o equilíbrio

Mas nunca desisti de voar.

 

A cada tombo reajo

A toda queda

Insisto

Sei que tudo é

Questão de exercício.

 

E se eu corresse, corresse

Corresse

Ainda alcançaria a infância perdida?

 

Miriam Portela, minha mãe, minha inspiração e minha musa literária, março de 2013.

 

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Fechado por dentro

Graças ao meu amado Juca Silveira, fui apresentada a essa música indizível, do nosso gênio Paulo César Pinheiro

Você bateu na porta do meu peito
Meu coração deixou Você entrar
Depois de usar meu leito
Me deixou o amor desfeito
E foi-se embora sem dizer se vai voltar
E agora não tem jeito
O coração dentro do peito
Se fechou resignado de esperar.

Enfim eu compreendi que amor perfeito
É só nome de flor, outro não há
Porém amor assim não esta direito
Você pôs tudo a seu jeito
Pra depois sem mais nem menos me deixar
Você levou a chave do meu peito
O amor não pode mais me visitar
Do coração não sei o que foi feito
Não dá mais abraço estreito
Acreditando que Você vai regressar.

 

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