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Nasci pra ti antes de haver o mundo.

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XXI

— Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
……………………………………………………………
Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
……………………………………………………………
Ah! não perguntes nada; antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surda,
Te ouvisse todo com o coração.

Se te vejo não sei quem sou: eu amo.
Se me faltas […]
… Mas tu fazes, amor, por me faltares
Mesmo estando comigo, pois perguntas —
Quando é amar que deves.  Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,
Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fosse
Alguém pra te falar de quem tu amas.
……………………………………………………………
Quando te vi amei-te já muito antes:
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há cousa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que o não fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro.
……………………………………………………………
E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma ‘strada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é toda humana.
……………………………………………………………
Quando eu era pequena, sinto que eu
Amava-te já longe, mas de longe…
……………………………………………………………
Amor, diz qualquer cousa que eu te sinta!
— Compreendo-te tanto que não sinto,
Oh coração exterior ao meu!
Fatalidade, filha do destino
E das leis que há no fundo deste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto
De o sentir…?
……………………………………………………………

Fernando Pessoa

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O tempo não derramado

E agradeço a esse alguém por não ter rasgado a minha carta: cada um de nós morre um pouco quando alguém, na distância e no tempo, rasga alguma carta nossa, e não tem esse gesto de deixá-la em algum canto, essa carta que perdeu todo o sentido, mas que foi um instante de ternura, de tristeza, de desejo, de amizade, de vida — essa carta que não diz mais nada e apenas tem força ainda para dar uma pequena e absurda pena de rasgá-la.”  Rubem Braga  

A materialidade de mim que reside na casa dos meus pais se transformou em uma caixa de papelão repleta de  lembranças encruzilhadas em nostálgicas reminiscências. Dói-me abaixar-me diante desses passados longínquos e obscuros, tão distantes de quem sou agora.

O instante da faxina, além de salientar os ácaros permanentes do passado, traz a insustentável dor de me livrar desses breves fragmentos enrijecidos pelo tempo, aflorados em inoportunidades.

Releio as amarelecidas declarações de amigos que não vejo mais. Deleito-me com a doçura dos primeiros namorados. Inebrio-me com as mínimas promessas de futuro que abrigam os corações de exímias sonhadoras.

De repente, sinto a profunda saudade de ser amada pelas horas que custei àquelas cartas coloridas, dolorosas, desenhadas em nanquim, fatigadas de felicidade ou desesperadas pelo abandono de um inverno inglês.

Rio-me dos erros que invadem a caligrafia difícil, obstáculo da infância. Falho em rebobinar alguns sentimentos nublados, ilegíveis a olho nu. Depois, entrego-me à estranha liberdade de engolir as verdades axiomáticas, desacompanhadas intérpretes da jornada.

Ah, esses dizeres juvenis merecem ser sepultados. Desfaço-me de milhares de folhas. Rasgo-as sem pudor porque, aqui, morando nesta pele, todos os momentos que me escreveram foram em mim publicados.

Resgato uma mala empoeirada para abrigar as cartas que, por algum motivo, ainda não me aconteceram. Letras da avó precocemente morta, sonhos irrealizáveis, nostalgias de amor…

Vou guardar-me mais um pouquinho, engrandecendo-me em sonhos que a vida ainda há de contar.

Levo, paciente, alguns quilos de coragem que me tragam a velhice em imensidão luminosa. Estilhaços meus que se extingam, pouco a pouco, na lucidez de suas concretudes. Com as vozes trêmulas de poesia, descansadas da sobriedade cronológica. Rasguem-se em solilóquios, em ruínas, em escuros. Mas fiquem um pouco mais, enquanto tenho esses verbos em dúvidas.

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Sem testemunhas

“A mais vil de todas as necessidades – a da confidência, a da confissão. É a necessidade da alma de ser exterior. Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos teus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que os segredos que digas, nunca os tenhas tido. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.”

Fernando Pessoa, in ‘Livro do Desassossego’

É longe do palco que se pode ensaiar os contornos do amanhã. Quando se apaziguam as esperanças de futuro e os sonhos perdem sua obrigação incongruente de solidez. Quando os olhos se fecham e aceito a vulnerabilidade de acordar para dentro. Ausente de observadores encontro-me viva, e só. Sem a mórbida obviedade do sofrer.

Ah, negra hora do dia: agradeço o meu anonimato. Quando a humanidade já foi deitar e o mundo permanece alheio às vicissitudes inúteis dos despertos. Sinto-me cúmplice dos suspiros das árvores, das proibições conjugais: átomos antigos, entorpecentes cósmicos.

Sinto-me, pois, neste instante, ainda em posse de uma história sem veracidade. Distante daqueles que lembram como sou, como fui e, inevitavelmente, como envelhecerei. Caminho pelos labirintos desfocados que me conduzem a essas letras. Guardei minhas palavras por algumas madrugadas. Não aceitaria que elas nascessem prematuras.

Nas profundezas marinhas da noite, as cicatrizes se escondem para dar lugar à bela totalidade arredondada. E os oceanos, mais misteriosos e demiúrgicos do que nunca, enaltecem suas melódicas queixas de escravidão ao luar.

Como gostaria de despir-me, também eu, para o grande silêncio. Sem testemunhas. Pacificada pela sensação de abrigar exclusivamente um pseudônimo confuso, expatriado das mãos rancorosas de seu autor senil. Transportar-me a um mundo de domingos, onde os habitantes emudecem pelo horror ao recomeço; e se aninham, distraídos, na nulidade de suas existências.

Estou tão cansada, hora gatuna, violenta. Medíocre que sou, refugiada nesse asilo temeroso. Como anseio libertar essas histórias acorrentadas nos presságios ilusórios dos grandes desertos. Anônima. Sem ter os olhos pequenos demais para apreciar os destinos. Desanuviada.

Quero pecar sem assinatura.

Viver sem testemunhas seria, hoje, meu desejo mais arcaico. Jorrar minhas memórias por páginas desconhecidas e inacabadas. Iridescente, breve, hermética. Frases sem sentido para que ninguém mais não me morasse.

 Como se torna persecutório o ato de desenhar-se em dizeres, em traduzir-se conteúdo. Medo de ser retaliada por aquilo que foi vivido, embaraço frente aos relatos vergonhosos das melancolias juvenis. O pavor de estar em primeira pessoa. Saudade – essa qualidade da ausência – como faz sentido estar mais próxima da estranheza que suportar a inocente familiaridade. Apenas o estrangeiro de si, de pátria ou de línguas, aguenta, sem anódinos, o peso inesclarecível das funduras.

Destarte, reintegro a secura intrínseca da esterilidade. Se não posso suportar meus segredos, se os enclausuro na travessia entre o esquecimento e a confissão, perco a maestria uterina. A clarividência sempre toca o julgamento preciso de quem lê.

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Não há profundeza imemorial

Nenhuma intimidade é navegável pelos olhos…

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“Tudo o que não invento é falso.”

Manoel de Barros in Memórias Inventadas

CASO DE AMOR

Uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo.

Esta que eu ando nela agora é por abandono. Chega que os espinheiros

a estão abafando pelas margens. Esta estrada melhora muito de eu ir

sozinho nela. Eu ando por aqui desde pequeno. e sinto que ela bota sentido

em mim. Eu acho que ela manja que eu fui para a escola e estou voltando

agora para revê-la. Ela não tem indiferença pelo meu passado. Eu sinto

mesmo que ela me reconhece agora, tantos anos depois. Eu sinto que ela

melhora de eu ir sozinho sobre seu corpo. De minha parte eu achei ela bem

acabadinha. Sobre suas pedras agora raramente um cavalo passeia. E quando

vem um, ela o segura com carinho. Eu sinto mesmo hoje que a estrada é

carente de pessoas e de bichos. Emas passavam sempre por ela

esvoaçantes. Bando de caititus a atravessavam para ir ao rio do outro lado.

Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela:

um coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós.

Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo:

deixe deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai

desaparecendo igual quando carlitos vai desaparecendo

no fim de uma estrada…

Deixe, deixe, meu amor.

SOBRE IMPORTÂNCIAS

Um fotógrafo-artista me disse outra vez: veja que pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar. Falou mais: que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. Assim um passarinho nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que a Cordilheira dos Andes. Que um osso é mais importante para o cachorro do que uma pedra de diamante. E um dente de macaco da era terciária é mais importante para os arqueólogos do que a Torre Eifel. (Veja que só um dente de macaco!) Que uma boneca de trapos que abre e fecha os olhinhos azuis nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que o Empire State Building. Que o cu de uma formiga é mais importante para o poeta do que uma Usina Nuclear. Sem precisar medir o ânus da formiga.  Que o canto das águas e das rãs nas pedras é mais importante para os músicos do que os ruídos dos motores da Fórmula 1. Há um desagero em mim de aceitar essas medidas. Porém não sei se isso é um defeito do olho ou da razão. Se é defeito da alma ou do corpo. Se fizerem algum exame mental em mim por tais julgamentos, vão encontrar que eu gosto mais de conversar sobre restos de comida com as moscas do que com homens doutos.

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Despedida

RUBEM BRAGA

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

Foto de Marcela Lalim: Lisboa ao amanhecer

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Quase

Mário de Sá-Carneiro

Um pouco mais de sol – eu era brasa,

Um pouco mais de azul – eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa…

Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz?  Em vão… Tudo esvaído

Num grande mar enganador de espuma;

E o grande sonho despertado em bruma,

O grande sonho – ó dor! – quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim – quase a expansão…

Mas na minh’alma tudo se derrama…

Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo … e tudo errou…

– Ai a dor de ser – quase, dor sem fim…

Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se enlaçou mas não voou…

Momentos de alma que, desbaratei…

Templos aonde nunca pus um altar…

Rios que perdi sem os levar ao mar…

Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…

Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;

E mãos de herói, sem fé, acobardadas,

Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,

Tudo encetei e nada possuí…

Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi…

Um pouco mais de sol – e fora brasa,

Um pouco mais de azul – e fora além.

Para atingir faltou-me um golpe de asa…

Se ao menos eu permanecesse aquém…

 

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A viajante*

Rubem Braga

Com franqueza, não me animo a dizer que você não vá.

Eu, que sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma casa pelo assanhamento triste dos ventos da vagabundagem, eu não direi que fique.

Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra. Você talvez esteja fugindo de si mesma, e a si mesma caçando; nesta brincadeira boba passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida — e às vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo, e nós (às vezes) estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando. Assim estou eu. E não é sem melancolia que me preparo para ver você sumir na curva do rio — você que não chegou a entrar na minha vida, que não pisou na minha barranca, mas, por um instante, deu um movimento mais alegre à corrente, mais brilho às espumas e mais doçura ao murmúrio das águas. Foi um belo momento, que resultou triste, mas passou.

Apenas quero que dentro de si mesma haja, na hora de partir, uma determinação austera e suave de não esperar muito; de não pedir à viagem alegrias muito maiores que a de alguns momentos. Como este, sempre maravilhoso, em que no bojo da noite, na poltrona de um avião ou de um trem, ou no convés de um navio, a gente sente que não está deixando apenas uma cidade, mas uma parte da vida, uma pequena multidão de caras e problemas e inquietações que pareciam eternos e fatais e, de repente, somem como a nuvem que fica para trás. Esse instante de libertação é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade abandonada. E há também instantes bons, em terra estrangeira, melhores que o das excitações e descobertas, e as súbitas visões de belezas sonhadas. São aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa de um bar, ele vê, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua.

Mas há também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais distraído, é de um cheiro antigo de chuva na terra da infância, é de qualquer coisa esquecida e humilde – torresmo, moleque passando na bicicleta assobiando samba, goiabeira, conversa mole, peteca, qualquer bobagem. Mas então as bobagens do estrangeiro não rimam com a gente, as ruas são hostis e as casas se fecham com egoísmo, e a alegria dos outros que passam rindo e falando alto em sua língua dói no exilado como bofetadas injustas. Há o momento em que você defronta o telefone na mesa da cabeceira e não tem com quem falar, e olha a imensa lista de nomes desconhecidos com um tédio cruel.

Boa viagem, e passe bem. Minha ternura vagabunda e inútil, que se distribui por tanto lado, acompanha, pode estar certa, você.

Rio, abril de 1952.

Texto extraído do livro “A Borboleta Amarela”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1963, pág. 145.

*Foto: Marcela Lalim – Lisboa

 

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Esta angústia que trago há séculos em mim transbordou da vasilha…

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que…,
Isto. Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.

 
Estou assim… Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou. Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

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Dá-me mais vinho porque a vida é nada!

Amado Pessoa,
Ainda bem que a morte te levou antes da vitória…

Estética da Abdicação

Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue.

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós…
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas…
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

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A ontológica ferida

Quando eu me hospedei dentro do meu próprio corpo, desencontrada forasteira do planeta, ainda não o sabia. Ah, quantas tardes passei a afagar o ventre do pensamento, bólide intruso! Inventei, imbuída, noites intermináveis que se ocupassem da sua hipotética existência. Madrugadas me navegaram, imunes ao sono, na ânsia do seu encontro. Eu engolia o lancinante espanto de saber-me orquestrada por cicatrizes ontológicas. E sem ao menos tê-lo tocado.

Como vaguei, Quíron, em busca de unguentos para a minha ferida. Seria apenas uma flor que amarelecia a página esquecida? Não. Nenhum estrangeiro está imune aos vestígios.

Sua vinda trouxe-me o enterro das obviedades monótonas. Permitiu que o sonho recém-nascido impulsionasse aquele choro desesperado de quem aterrisa no mundo. E, assim, pude finalmente reverenciar-me à vulnerabilidade, invólucro da sabedoria.

A pele estará sempre rasgada pelo perceptível. Entre as vísceras, pousa uma flecha em concretude. O coração é, dia após dia, envenenado pelo terreno oxigênio. Contudo, não há devaneio que seja esmagado por tirânicas verdades.

Nos séculos que precederam sua chegada, a fragilidade não alimentou a minha carne. Senti-me dúbia, incoerente, solitária. Como se eu, enclausurada nesse corpo, abrigasse o síncrono. Cavalo e mulher.

Aos deuses, aplausos. Fui abençoada com o fardo incurável das palavras. As mãos seladas ao sangue que jorra em melodia. Nenhuma tristeza me apunhala senão em versos. Irônica, a cura se materializa na desistência da imortalidade. A ambiguidade elíptica me sorri. Sóbria. Louca. Inconclusa.

Leva-me consigo, asteroide errante? Captura o meu cansaço em seus domínios, no ínfimo espaço que há entre Saturno e Urano. Não tenho medo, no escuro de mim. Apavora-me mais a mansuetude dos olhos, rígidos, cárceres da realidade. Estou farta de sepultar quimeras.

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De carne e osso…

Pouquíssimas coisas na vida são mais doces que conhecer a primavera dos versos em um grande poeta!

SORRISO PERDIDO


Calma…
Calma que um dia o sorriso volta
Está perdido entre soluços
Preso entre músculos retesados
Calma.
Veja se não está escondido numa gaveta
junto de uma foto do passado
Busca nos pêlos desse cão que te lambe
Talvez num pedaço de céu, de jardim
Calma.
Olha pra mim
Quando o viu pela última vez?
Vai que esqueceu-o no espelho
Vai que largou-o pelo caminho
enquanto distraía-se por aí
Faz uma reza a São Longuinho
Mas calma, pra tudo tem jeito
Pode estar na boca de alguém
Outro alguém, não eu…
Como diz a minha avó
O que é perfeito tem defeito.
Calma.
Vamos achar esse sorriso
E chega de choro
Chega de olhar xoxo
Chega.
Não se perde um sorriso assim
de uma hora pra outra
Esse seu sorriso ilumina
Alguém roubou? Me diz
Não tenha medo
Calma.
Procura essa luz aí no quarto
na sala, embaixo do sofá
Será que ninguém varreu?
O vento não levou?
Às vezes o vento leva as esperanças
Calma.
Calma.
Melhor dormir
Procura amanhã
Amanhã seu sorriso volta
Deita e dorme triste
Um sono sem sonhos, pode ser
Amanhã seu sorriso volta
Eu volto também, se isso ajuda
Faça lágrima
Faça riso
Estarei.
Seu sorriso vai voltar.
Calma.

Gustavo Braun, 2006

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Memórias de um verão em Lisboa…

La lune de Gorée

Gilberto Gil
Capinan

La lune qui se lève
Sur l’île de Gorée
C’est la même lune qui
Sur tout le monde se lève

Mais la lune de Gorée
A une couleur profonde
Qui n’existe pas du tout
Dans d’autres parts du monde
C’est la lune des esclaves
La lune de la douleur

Mais la peau qui se trouve
Sur les corps de Gorée
C’est la même peau qui couvre
Tous les hommes du monde

Mais la peau des esclaves
A une douleur profonde
Qui n’existe pas du tout
Chez d’autres hommes du monde
C’est la peau des esclaves
Un drapeau de Liberté

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A embriaguez dos despertares

É algo dolorido de admitir, e é dever. Tenho um defeito de nascença. Um mau funcionamento do cérebro, uma falha conceptual de emoções. Não sei, ao certo, qual seria a cartesiana explanação. Errâncias congênitas? Se fossem, haveria uma justificativa? Ou seriam, na confluência modal, algumas cicatrizes decididas ao encarnar? Pouco sei. No entanto, carrego, em cerne de íris, a obrigatoriedade da paixão.

Pouco me importa o que dizem os especialistas sobre a imemória do pós-feto. Estou convicta: no primeiro sopro de vida já estava adicta à patológica substância, invólucro do amor.

E porque as obviedades são a mim um insulto à leitura, nada quero discorrer acerca dos amores conjugais. Um outro – ainda sem altruísmo ou desespero – povoa as conexões cósmicas, abençoadas por noite geminiana de lua cheia.

A pureza da minha alma foi corrompida pelo conhecer. Confesso, nesse instante cadente: a luz da consciência me é a rebenta embriaguez. Aquele ancestral entorpecimento, dicotômico humano. Linha etimológica entre ser e estar. Eu me engulo, posse do corpo. Decidida: conjugo-me verbo. Essa fantasmagórica capacidade de atribuir sentidos àquilo que antes era um espectro perâmbulo. De repente, transmuta-se em longos devaneios. Ah, a divina sombra que protege o alumiamento das verdades!

(Percebo a condição hermética do que escrevo. Todavia, nada me é mais sólido e nítido, óbvios navegantes.)

Só vivo, hoje, para agradecer meus queridos mestres. Por me deixarem essa orfandade de janelas. Vazias. Por aguentarem o susto, quando transbordam, cintilantes, os soluços da ignorância. Por todo o cansaço que atravessa as invisíveis revelações insones. E o inerente estrabismo frente à luz.

“Até a próxima letra!” – sussurram, esdrúxulos. “Aprenda a compreender o sabor além da boca, mastigante de palavras”. Enquanto as minhas carnes, fumegantes, reverberam o coração oxigenado pelas alcoólicas fontes da sabedoria.

“Ponha as aspas em confusão. Não componha seus pensamentos, não os paute. Não os encerre. Que a avidez não seja estrela dos seus olhos. Contorne suas coreografias em infinito. O desabrochar, veloz, jamais lhe conduzirá com maestria às mãos da homeopática sapiência. Mares, enclausurados em terra, não nos guiam às naus. O destino é a cegueira do sonhar.”

Permaneço. Existo, uma vez só, quieta. Os imperativos, em nenhuma circunstância, encerram os dizeres. Mas há, dentro de mim, qualquer coisa que venta. Caiu-me um dente do viver. O vão – alicerce de quaisquer loucuras infindáveis – trouxe-me de volta a sábia meninice que dá abrigo aos corações. Eternamente aprendizes. E, portanto, banguelas.

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Despertares

“Todo o caso de loucura é porque alguma coisa voltou. Os possessos, eles não são possuídos pelo que vem, mas pelo que volta” Clarice Lispector

A loucura invade a galáxia, irrompe a atmosfera, atravessa estradas, violenta a casa e o atinge. Não. A loucura estava dentro, hibernava profunda dentro dele. Acorda ainda sonolenta, os olhos bem devagar alcançam as luzes e dão formas às coisas. O rosto ainda inchado daquele sonho de séculos. Depois do seu despertar, todavia, não há volta. A loucura tem os ouvidos atentos para a ruidez do piscar de olhos do seu hospedeiro. Ah, todos os silêncios preparam o estourar das ondas!

Parasita, a loucura se deleita nessa terra de ninguém que é o homem. E a pobre vítima se desespera, esperneia, vocifera, quer matar, quer cometer suicídio. A estranheza se apossou do espectro e não há nada – só o tempo? – que o permita sublimá-la.

Hipocrisia tamanha em assombrar-se com o âmago! Porque o louco não é avesso ao mundo. O louco não é manicomial. A vida só está pulsando em ritmo acelerado e se enxerga demais. O louco toca seu vazio fértil, engole todas as possibilidades de uma vez e não as digere.

Não há íris que suporte essa nitidez horrível que há em cada pedra.

Uma vez insano e acabou. É um gole para contaminar toda a existência. Não há cura. Mas há a arte que fagocita. E há também a intersecção das realidades. É no outro, cúmplice, hospedeiro insone. A noite pode avizinhar-se em calmaria. Desde que exista um e apenas um ser humano que confesse em mudez. As palavras não libertam a loucura. Também já estive adormecido.

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O texto que se esqueceu de si mesmo

Ando à espera das minhas solidões. Não é a depressão, espectro da contemporaneidade! Desejos suicidas jamais me procuram quando penso em meu isolamento cósmico. No mundo de hoje, contudo, às vezes é muito perigoso fazer uma afirmação dessas. Estar só é degenerar-se? Por que a solitude ganha sempre fúnebres reflexões?

Minhas ideias ousam desembarcar, mas não encontro portos que as abriguem. Tudo me é borbulhante, avulso, vago. E só há um vilão para todo o meu sobejar. Sofri uma espoliação: retiraram-me os jardins do sonhar, casa da minha solidão.

A morada da qual vos falo nada possui de quietude. Ela já esteve presente no meio de uma conversa trivial, quando – apesar de prestar imensa atenção – minha mente engordava de pensamentos. Também a recuperei em irritantes céus de churrasco. O dia inebriava-se azul e a minha ínfima condição obrigava-me ao trabalho braçal. Na sóbria caminhada para o lavor, pude ocupar meu firmamento de poesia e granjear pequenos versos, bêbados, inacabados.

No entanto, naquela época, era de minha posse recuperar as imagens, resgatar as profundezas dos devaneios sem perder uma vírgula sequer. Salvaguardar as reminiscências em sua plenitude.

Hoje sinto que tenho abortado palavras, sentimentos, parágrafos inteiros… Faz-me tanta falta, cômodo do meu delírio! E se não há um lugar específico, aonde eu guio minhas perturbações literárias? Em qual sussurro, em qual vestido, em qual cidade posso reaver meu instante solitário? Estou farta dos textos que se esqueceram de si mesmos!

Talvez precise voltar a me apoderar dos diálogos insanos, com pena e tinta nas mãos. Esponja que sou, dos olhos alheios. Revisitar músicas dos anônimos, aqueles que pintam sopros em nanquim e nutrem meus seios, desanuviando o cerne do espírito.

Enquanto o habitat me é desfavorável, emendo as camisolas velhas, consciente da inevitabilidade das cicatrizes e da iminente morte do tecido. A tenacidade das inspirações não reside nos seres, nas paisagens, nos planetas. É apenas o olhar conciliatório, a tradução para os planos não cartesianos.

Assim, órfã de sítios onde o fictício torna-se possível, busco os degraus insólitos, improváveis. Desato os nós etimológicos. E festejo a descoberta das letras expatriadas. Inéditas.

Corto as unhas compridas, encarnadas de feminilidade. Porque elas fingem-se imortais, suspendem o coração do perecível. Eu quero a pele despida da queratina, somente imersa nas quimeras.

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Quase

 

Quando eu era pequena tinha um cachorro de plástico com rodinhas e chapéu quadriculado – daqueles que a gente pode fantasiar passeios – chamado Quase. Do Quase eu me lembro nitidamente, como se ele tivesse acompanhado todos os amadureceres ao meu lado. Talvez seja o brinquedo que mais tenha alma de fotografia, dentro da minha memória.

Nos últimos tempos, tenho recordado inúmeras vezes meu Quase. Porque eu, hoje, habito a morada dos quases. E, não sei se por egoísmo ou ontologia, acredito que esse lugar seja o grande limbo da humanidade. O Quase é a casa da deslembrança.

Primo do Quase é o mediano. No entanto, contrário do que se pode pensar – em uma primeira análise – eles são desirmanados. A planície da mediocridade, embora vizinha, não germina os mesmos frutos. Porque o dono da propriedade deita sementes de outras naturezas.

Nas cordilheiras do Quase reside um senhor de relógios. Suas vestes foram carcomidas por amores adiados. Seus dedos têm rugas de mar. E mesmo devastado por tudo aquilo que não foi, o senhor permanece insuspeito, tranquilo, imune.

O senhor de relógios só cultiva coisas demoradas. Há uma vinicultura gigantesca em seu território. Como essas uvas anseiam pela metamorfose! Quantas vezes sonham com a liquidez em garrafas. Mas as brumas gestantes suspendem todos os seus desejos de celeridade.

Os homens e mulheres que convivem nos domínios do Quase são muitos. Alguns demonstram fadiga e envelhecimento. Porque não há camas nos cômodos. O senhor dos relógios não permite que o sono abrande o esgotamento da jornada. Tampouco é permitido sentar-se à beira do lago. O Quase é reino de movimento.

Assim, as janelas ficam escancaradas. Não há distração que não possa entrar. Mágoas maquiam púrpuras olheiras. Desesperos assombram os inquilinos com sopros de eternidade. E amiúdes fracassos deblateram os perigos de almejar.

As semoventes aparições levam as pessoas à loucura com enorme facilidade. E todos os dias eu vejo esquálidas criaturas dizerem adeus ao domicílio do Quase. Com as almas em carne viva, desistem. Emigram, cabisbaixas, para os vales da mediocridade.

Outros encontram-se totalmente anestesiados. Já não andam nem falam. Em pé, permanecem imóveis. São pessoas que aceitaram a tardança. Não têm a mínima intenção de caminhar direção ao cume.

Eu estou aguentando a paralisia do agora. Sei que hoje não avistarei o mundo do ápice. Insone, permaneço. Sem precipitar os devaneios de topo. Não carrego nenhuma pressa. Porque sei que a realização não é casa de ninguém, mas a  efêmera luz que ela deixa apaga todas as demoras.    

 

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Paciente fui eu

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Socorro tem cinquenta e poucos anos. É preta. Pobre. Chega quase a ostentar o sofrimento através de suas rugas. Nascida em um manicômio judiciário, pouco sabe de sua mãe. Pouco mais que nada. Foi adotada aos seis meses de vida por um casal que trabalhava no depósito de loucos.

Lembra-se muito pouco de sua infância. Seu pai morreu quando ela era bem menina. Sua mãe na pré-adolescência. De sua família sobraram os irmãos. Eles a acolheram por não terem outra alternativa. Um de seus cunhados a tratava carinhosamente por ‘negão’. Criaram-na como se criam os velhos – assim sem paciência, contando os minutos para que a vida se encarregue da última possibilidade de todos os mortais.

Aos vinte e seis, Socorro tentou contra sua existência. Errou na dose. Fracassou. Por volta dos quarenta viu a si mesma como portadora de hepatite C. Qual não seria a ironia se ela nunca pudesse saber onde a teria pegado? Será que a doença veio como alimento, através de seu cordão umbilical? De que importa a memória? Ela já estava acostumada com o esquecimento.

Aos cinquenta sua alma pediu as contas. Socorro destruiu impiedosamente sua morada. Arrancou o carpete e as cortinas. Rasgou suas roupas e as defenestrou. Destruiu seus colares de miçanga com ódio. Cortou os fios de telefone. Qual contato poderia ela ter com esse mundo exterior?

Ah, tanta bipolaridade pôde ser vista em sua possessão!!!

Socorro contou sua história para muitos. Era impossível não se comover com tamanha tragédia. No entanto, a tragédia jamais a ajudou ou lhe deu abrigo. Talvez não fosse esse o caminho a ser percorrido.

Socorro tem cinquenta e poucos anos. Está sempre maquiada. Cortou os cabelos sarará. Outro dia estava investigando qual problema Deus teria com tatuagens. Não o encontrou e decidiu gravar em sua pele a marca do seu segundo nascimento.

Afugentou, a duras penas, os fantasmas que rodeavam sua casa. Socorro, aliás, mudou-se. Não de endereço propriamente dito, mas de olhar. Agora ela se encontra numa bela mansão, grávida de sonhos. Cinquenta e poucos.

Há um mês sentiu saudade pela primeira vez. Foi lindo, segundo ela. Uma escova de cabelo, uma laje na Lapa, bela vista da cidade. Os olhos encontraram a salgada lembrança. Não pela primeira, mas um dos poucos instantes marejados. Sorriu.

Hoje Socorro descobriu que foi o orgulho que lhe possibilitou a sobrevivência. Que milagre essa vida, diz ela. Percebeu que as lágrimas guardadas, a nunca-saudade, os cacos apenas pelo lado de dentro a tornaram capaz de continuar. Ficou maravilhada! O passado deixou de ser imutável. As dívidas consigo mesma vão, pouco a pouco, sendo quitadas. Quantas lembranças ainda não preparam seus lábios?

Lei tem cerca de mil anos. Branco, olhos verdes. Família gigante. Feliz. Sua vida nada teve, tem ou terá a ver com a de Socorro. Provavelmente ele nunca encontrará no sorriso dela, familiaridade. Uma pena.

Estranhamente, a luminosidade de sua boca foi reconhecida hoje. A mesma luz de mil anos foi acesa novamente. Outro corpo. Outra história. Essa vontade de ser feliz, essa simplicidade apenas destinada aos sábios. É inebriante.

Hoje, ao ouvir Socorro contar meninices dos cinquenta, lembrei. A sala foi invadida por milhares de átomos com gosto de mexerica. Fiquei inerte.

E a poesia, como acontece sempre, obrigou meus dedos a agradecê-los. Era uma questão de vida e morte manifestar minha gratidão. Obrigada por fazerem parte da minha vida. Eu, com meus vinte anos. Provavelmente na primeira existência – as linhas são fracas na minha palma da mão.

E eu, hoje, envelheci. Toquei meus dedos na doçura dos mil e dos cinquenta. Estou suspensa na divindade dos sorrisos. Perplexa, decidi. Quero muito ser feliz.

PS: Socorro é um nome fictício. Lei não.

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Cortinas Encarnadas

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Nunca fiquei espantada com a transformação das pessoas. Parece-me até um movimento óbvio. O amor modifica, a convivência nos torna realmente parecidos. Não é à toa que mulheres cúmplices derramam o sangue da vida na mesma semana.

John Lennon, pós Yoko, virou japonês. A minha vizinha é exatamente igual ao seu basset: gorducha, ruiva, pelo curto. Manoel de Barros carrega o misticismo das abelhas. Minha mãe herdou a obsessão por refeições que outrora foi vício da minha avó.

Eu sinto-me mais verde, desde que o amor nasceu nas minhas palavras. É quase instantâneo o movimento de fidelidade canina que me envolve. Estou mais doce, mais tenra. Meu espírito é celeuma de marinheiro, canto decorado com tatuagem. Óbvia me é esta ideia – as pessoas podem consagrar gélidas montanhas.

Entretanto nunca ouvi falar em fagocitose de lugar. Nem nas leituras poéticas mais atentas, nem na nobreza acadêmica. E julgo ser uma descoberta só minha – e agora do planeta! Nós nos tornamos essencialmente parceiros dos sítios nos quais despendemos nossas horas. Como as paredes podem dizer de nós mesmos!

Essa epifania tola veio através dos devaneios solitários que vivo no trabalho. Como estão escancaradas as grandes descobertas, em pequenas algibeiras do sonhar! Como o espelho demonstra a irmandade silenciosa. Quanta burrice a minha, de jamais ter dado conta desse fenômeno manifesto.

Para desanuviar as incógnitas, trabalho em um lindo cinema. Está situado no coração da Avenida Liberdade, aorta de Lisboa. Chego por volta das dez, quando nem os fantasmas estão de pé. Faço toda a burocracia, como se pelas mãos eu fosse a regente da renascente orquestra. Durante seis dias da semana sou capaz de ressuscitar uma sala digna de realeza.

Passo mais ou menos três horas sem ter ninguém para conversar. Encontro-me desprovida de clientes, de tarefas, de limites. Às vezes invento mesmo: limpar a varanda, contar os cálices intactos, investigar qual máquina faz o melhor café…

O Cinema São Jorge é realmente digno de Cinema. Sala imensa, quase mil lugares. Iluminação com cheiro de saudade. O banheiro abriga um camarim. Tudo, absolutamente tudo me olha grande. Toda uma decadência gloriosa me habita, nesses instantes. Aquilo que foi, aquele glorioso passado! Eu me absorvo – porque o cinema já sou eu. Fico inerte pelas cortinas labirínticas da década de 50. Será que há o poder de transfigurar o enredo? É possível ser eu o maestro das sinfonias imaginadas?

Sei que é muito mais difícil descrever do que sentir. Mais o compartilhar me é objetivo maior, nessa vida. E eu lhes digo: como parecemos com os lugares onde desenrolamos nossas horas!

Isto é aviso e é literatura. Não tenho intenção – apologia grotesca. Eu apenas estou a dissertar sobre obviedades do meu coração. Eu sei que me comporto, por  osmose ou preguiça, exatamente igual ao lugar onde permaneço oito horas do meu dia. Eu sou quem abriga faxineiras que fingem trabalhar, embora não haja muito o que ser limpo. Eu incorporo a tristeza, esse vazio fantasmagórico, essa solidão desmesurada. Eu, habitante do meu lugar, sinto as marcas, as nódoas. Estou manchada pela potencialidade que carrego.

Como nos é perigoso reter os emudecidos líquidos! Se não existir uma consciência plena do que se é incorporado, a confluência vira realidade. Um pensamento estúpido é convidado a acampar em nossas divagações.

Desde que descobri esse gesto da minha alma, tomo muito cuidado. Enfeito o salão com vestidos de gala. Pinto as mesas com luvas de seda. Jogo paletós, chapéus e gravatas pela varanda. Uso com muita dificuldade toda a minha capacidade infantil de imaginar.

Em apenas um instante, todas as luzes estão acesas. Loto o balcão de doces castiçais. Os lustres só precisam de um sentimento vivo para acordarem. Fico imensamente feliz: só os fenomenólogos são capazes de cavalgar impunemente pelos passados, alterando a sua antiga nitidez.

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Aletheia

fernando-pessoa

Eu ainda era um coração permeado pela infantilidade. Um jovem coração que não havia sangrado. Absorto em ilusões e incontáveis errâncias. Limítrofe de mim e da magnitude mundana. Um protótipo alojado junto ao peito e mais nada. Nem ao menos pressentia o terrível fim da autêntica ignorância. Involuntário desligamento da infância, pobre coração. Até que a poesia menstruou. Estava entornada por todas as esquinas do pensamento. Impetuosidade e fúria. A fluidez atingia as têmporas, embasbacadas. E eu, o coração, senti-me velho. Estupefato da liquidez. Ah! Como doeu a sofreguidão daqueles versos!

E foi com gulodice que devorei um livro inteiro. E outro. E mais um. A biblioteca mudara-se para o quarto. Baudelaire, Rimbaud, Pessoa, Manoel de Barros, Cecília Meirelles, Vinícius, Florbela Espanca, Camões! Quantas personalidades entraram e evanesciam em mim. Eram tantas paixões ao mesmo tempo. O palpitante coração não podia declamar juras de fidelidade. Em meu lirismo não havia monogamia. Li, decorei, recitei. Chorei com eles as amarguras. Vivi os malogros dos malditos como se a minha própria carne estivesse afundada em insucessos. Depois me ri, fortalecida em rimas. Doravante. Havia tanto ainda para ser lido.

As circunstâncias ajudaram, não há dúvidas. Desamores, culpas, contragostos, cóleras. A alma perdera a guerra contra os sentimentos. E os poetas terapeutas auxiliaram-me na reconstrução da  morada. Retiraram a cegueira estúpida do mundo: “Vamos adiante, menina! Às vezes, quanto mais duro o caminhar, mais belas são as palavras. Os poços, enigmáticos abismos do ser, só nos fortalecem.”

Eu me senti tão pequenina perto dos dizeres daqueles mestres, meu Deus. Impossibilitada de voltar à minha pátria. Por osmose, cumplicidade ou arrogância: eu simplesmente já era como eles.

Quantas vezes fui salva! Quantas noites a loucura bateu à minha porta. E vinha a leitura, exorcizando entidades inferiores. Eu os evoquei tanto. Invocados foram, para dar quentura à minha cama.

Aconteceram também os desertos. Não houve aridez ou secura que não pudesse ser atravessada, quando um abraço entrelaçava um maestro das letras. Pude doar uma poesia para cada entrave da jornada. Sobrevivi, por tê-los em mãos, às bofetadas, oceanos do lamento. Venci a esterilidade com estrofes.  

Fui para muito longe, fugitiva das intrincadas fomes inumanas. Corri dos padres que ensinam filosofia. Ignorei os assassinos da literatura. E voltar pude, a ser pueril. Fui batizada, afinal, por oníricas canções. Desmedida, estudei as forças dos meus artífices. Hoje conheço cada nota escrita de cor. Espanto em saraus as cinzas, os  fantasmas da utilidade. Afugento quaisquer necessidades. Transmutada estou em anulidade pura. Nem tudo se converte. Nem tudo pode ser calculado!

Vim provar o quanto a poesia pode modificar uma pessoa. A gente pode se sentir menos esquisito. Falta-nos coragem. Um poema pode nos lembrar: não há apenas o sagrado! Somos multívagos, somos doidos, somos trôpegos!  

Para aceitar é preciso ter os ombros extravagantes. Nus. O sentir não nos é comedido! Somos cintilantes, pulsantes fragmentos. Há em nós a fugidia herança dos animais.  

Outrora neguei o meu destino. Hoje escrevo também. Muitas vezes por achar meu universo triste e inevitavelmente imerso em superficialidades mesquinhas. A imagem poética me salva do planeta. E o planeta? Ele retorna a mim em delicadezas e nuances. Tênue e colorido. Eu o construo com as minhas memórias. Ninguém vive daquilo que é. Viver é fictício. O olhar, não se iludam, é intencional. A história não passa de egoístas interpretações. Sendo assim, meu firmamento etéreo sublima a imensidão imponente da suposta realidade.

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No planeta em que nasci

No planeta em que nasci os seres têm cores radicalmente distintas. Mesmo assim vivem em perfeita harmonia.

No planeta em que nasci os bebês vem embrulhados em mantos de versos e são alimentados em seios de vinho.

No planeta em que nasci sempre há música. Às vezes são improvisações perfeitas de jazz, às vezes são lindas letras de MPB, às vezes são canções maravilhosas de gênios do rock’n’roll.

O tempo passa devagar, no planeta em que nasci… Os segundos transformam-se em horas (sempre plenas) e os bons momentos são muito mais duradouros que as tristezas.

Os seres despem suas almas, mostram seu avesso, dividem suas dores e são convidados a sonhar.

O planeta em que nasci possui lindas praias para realizar os sonhos de calor, e florestas monumentais para se viver o frio.

Fazia muito tempo que eu não me lembrava desse planeta. Pequena fui mandada para cá. Esqueci-me de quase todas as maravilhosas lembranças que foram gravadas em minha memória.

E quando as tinha, me sentia estranha, me sentia muito longe do que chamam realidade.

Tentaram me adequar ao modo desse novo planeta, ao modo como as pessoas aqui vivem. Com muita dor, arrancava minhas doces recordações do solo de meu espírito.

Um dia, porém, encontrei uma pessoa que me pareceu familiar. Era uma pessoa que tinha cor, como eu. Todas as minhas lembranças inundaram meu corpo, agora totalmente vermelho. E as músicas, os mantos de versos, o gosto tão familiar do vinho retornavam a mim. Era alguém do meu planeta…

Caminhando ao seu lado fui me descobrindo verdadeiramente. Quantas risadas iluminaram meus dias! E eu que acreditava que pudesse ser magia, sincronicidade ou coincidência. Há quantos anos o procurava? Quantas lágrimas não derramei lamentando sua perda? Quantas vezes ele me foi dado como morto?

Não importava mais. Eu o tinha reconhecido.

É, amor, você tem razão, os deuses devem nos odiar…

 

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Fecundar

lisboa-081108-251Todo coração é árvore. Nasce semente. A alma grita tão alto que as raízes – não suportando a angústia primeira – fogem para a úmida e gélida base. Arrependem-se. O calor lhes é familiar.

Como toda célula humana que se preze, as garras, adocicadas por pepitas esféricas, sucumbem à tentação da mordida. E por fagocitose sentem-se doces, como se o néctar que as nutrisse fizesse parte delas. A resposta feliz é crescer.  

Não espere uma descrição habitual, como o surgimento do tronco e toda a sua capacidade de suporte. Penso no redondo, aquele que delimita as duas metades da postura da árvore. Seria o calcanhar de Aquiles, tão exposto e tão óbvio? É janela. Portal para os pés. Eles podem sentir o deleite do universo, mesmo condenados à imersão, a Hades.

A adolescência aparece claramente nos galhos. Alguns vistosos, luxuriantes. Outros comiseráveis, frágeis. Artérias inúteis – pensa o jovem coração. Antagônicas à solidez, enfrentam com os olhos fechados de medo a rígida chegada do inverno. Permitem a si mesmas a envergadura. E não esmorecem.

Próximo do céu, o rebento sonha. Há nele todo aquele ardor, a busca pela reentrância. Em si? Jamais. Aprendeu muito antes que existirá, inevitável, aquele pavoroso alarido. Oblíquo, sente incandescente o invólucro espacial. Quanta matéria e quanta vida! Possíveis húmus, infinitos elementos postos a ele para o devaneio.

O grão, homem feito, adormece em aveludadas fantasias. A luminescência delas é tanta que a carne faísca novas estruturas, impedindo a queda. Repousantes do sono são as folhas. Quando sentem-se exangues de recolher tantos projetos e alucinações, pedem auxílio às flores: Cubram-no de pólen! Abençoem a fecundação. Ajudem-nos a hidratar essas chamas! Não as deixem apagar. As flores são guardiãs da inspiração.

Meu coração sofre de taquicardia. Começou pelos frutos. Ávido pela realização. Encharcou-se de libertinas, frívolas sensações boas. Muito depois viu-se germinar em entranhas. Observou, com dor e impotência, os frutos a aprodrecer. A sábia Terra o ensinou. Ele os pode retomar, desde que aceite o processo. A Natureza não se fez de digressões.  

Óvulo tardio, decidiu finalmente irromper. Justo no outono. Sempre confuso, atrasado. Mentira minha. Quis, a existência toda, burlar normas. Lutou contra todas as caretices mundanas. Fingiu inovações.

As amareladas folhas, fartas de utopias, dissiparam à lonjura os enormes quebrantos cobiçados pelo espírito. O coração ficou nu. Abdicou das redes do sonhar. Sem querer beijou uma abelha. O mais prevísivel sortilégio aconteceu.  Apaixonou-se. Hoje desenha cânticos em mansidão. Engatinha. Ri de si. E é mais belo.  

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Anuência

Esqueço-me, por vezes, a inesgotável e inaudível beleza das tuas madrugadas. Silenciosas. Sinto-me envergonhada, Lisboa, por querer tanto de ti e de tão pouco me doar. Insone, entorpecida, descabida… Não és tu, sou eu. Eu, este ser tão carente e tão solitário. Eu, repleta de perguntas que sempre voltam às mesmas interrogativas inexistentes. Eu, analfabeta do âmago de minha alma.

Peço-te perdão por todo o meu desdém. És linda! Tens o enorme coração cravado na Praça do Comércio, que deixa a noite com esplendidez. E como o coração é grande, ele me inunda ao pé da Avenida Liberdade, principalmente com a vista inconfundível de meu novo trabalho, à margem da esplanada, no Cinema São Jorge. Há um rio, digno de aorta. Um imenso oceano capaz de levar os pensamentos além-mar. Deixa imensas saudades nos olhos, quando procuro verdadeiros amigos. Periféricas estrelas apontam o triste Cristo Rei, fruto do descuido e da confiança perdida. Um dia foste permeada pela crença. Hoje há em ti a incômoda incerteza. Um não-poder-partilhar-segredos. Choro, junto contigo, quando há chuva. Sinto o teu vento a cortar-me sem piedade os lábios e o espírito intransigente.

Há dias em que acordo – ressoando as palavras de um amigo quase português – com tanto medo! A cama tem tentáculos. Firmes, rijos. Possuo uma estranha sensação. Gostaria de deixar minha raiz, colocar de lado minha nação – nação que com robustez idolatro. Cresci, ó cidade, rodeada por negros, pobres e anões. Nunca os diferenciei pela pele, pedigree ou altura. Não me peças para o fazer. Incapaz me torno, perante ao preconceito que rompe. A minha boca é pouco para descrever minhas dilaceradas pétalas. Cá sou cristal.

Contudo, pela incrível leveza dos diálogos aparentemente infrutíferos, percebo a soberania de escrever e de fazer terapia com as minhas letras. Agradeço a herança primordial – e tua. Ai, as lindas palavras de tua língua. À procura não estou de teus cidadãos plangentes. Minha jornada é canhestra. Existe um eterno ribombo dentro dos meus sentimentos. Dona de bálsamos, ungências e feridas. Mas dona, apenas eu e mais ninguém.

Não me deites fora. Digo isso para ouvir o conselho vindo de minha inteligência racional. Pude me deitar fora em muitas ocasiões. Na lixeira propriamente dita, em diarréias incolores, nos braços frígidos de um homem sem paixão, nos copos do Bairro Alto.  Recôndita. Minha face está enfim liberta. Contorno. Sorrisos impronunciáveis. A descoberta da vinda! Asperamente estou a retirar o curativo. O sangue não está mais grudado no branco e gigantesco pano. O sangue se calou. Não há renúncia da morada minha. Pinto em nanquim as esquadrias da percepção sublimada. Adoro-te. Os paroxismos estancados, por fim. O latejar que revive apenas ouvidos atentos. As orelhas fartas das mesmas ladainhas. Ladainhas imaginadas pela minha pobreza de sentidos.

Amanhã, quando o corpo estiver descansado, irei fazer uma visita enamorada em tua presença. Exaltarei as cores do sol que só pertencem a ti. Como as janelas dispostas do sótão, aceitarei os raios azuis e amarelos. Posso sonhar ao teu lado. Recolher-me no frio de teus porões também, porque a vida é feita de uma suculenta umidade. O negrume da lama e o calor do nosso pacto. Enoveladas pela sagrada, esfuziante conversação íntima. Eu e tu, Lisboa, anuentes. Tu em mim. Alagas em saliva, fragmento após fragmento, as horríveis nódoas de minhas roucas cordas vocais. És a mim um convite. Cerne meu. Órbita da missão. Nós duas, ambas inconclusas.

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Ao inventar verdades

 

 

 

 

 A minha ausência cibernética deixa os dedos tímidos ao lançar esse texto. Escrito à mão, ele já me parece distante, já se encontra quase rudimentar… Sim, digo quase porque seria uma enorme mentira alegar que Paris não povoa mais meus pensamentos.

 

Escrever à mão é algo que perdi o hábito. Minha letra já está totalmente debilitada, depois de tantas teclas apreendidas pelos meus punhos. No entanto, neste horrível período de adaptação, é preciso ter a versatilidade de um ser camaleônico. Não posso deixar de escrever. A loucura ronda-me, insistente e sedutora.

 

Voltar a Lisboa depois de uma semana indizível em Paris me soa insuportável. Aparentemente insuportável. Tudo cá me é estranhamento. Exceto o anafalbetismo, tudo o que me circunda e que respiro dói.

 

Foi num sábado, enredado de esperança, que embarquei no avião. Já estava ciente da minha escala em Madrid. Não houve em mim nenhum tipo de desconforto. Para estar perto de quem se ama, na cidade do Amor, não pode haver mumunhas.

 

E subitamente, no trajeto insustentável entre a decolagem o pouso, deparei-me com um pensamento que há muito persevera minha estadia além mar: será que finalmente encontrarei a familiaridade almeijada por minh’alma? Muito fantasiei as palavras de minha mãe. Ensandecida pela cidade Luz, ela foi capaz de percorrer as ruas, em sua primeira visita, como se um sopro estivesse sempre ao pé do ouvido. Lágrimas teimavam em deixar seus olhos, tontos de estarem em casa. Eu infantilmente vislumbrei essa fantasia, ao aterrisar em Portugal.

 

Para a minha infelicidade, a cidade não me trouxe o aconchego de vidas passadas. Era apenas, como Pessoa, uma estrangeira. Pássaro assustado que cai do ninho. Frágil, frente à frigidez do povo, às duras palavras, ao sotaque incompreensível. Uma nação que teve o mais glorioso dos passados, mas que teme seu futuro, intocável. Não há gerúndios em Portugal: ‘estou a comer’, dizem. A língua parece ter sido congelada. Fóssil triste como as tartarugas.

 

Pois bem, voltando a Paris, pois é lá onde encontra-se minha memória agora. Adentrei as terras francesas com o imenso desejo de retornar à minha morada. Depois de pegar a mala, todo um desespero tomou-me conta: onde está o meu amado? Quase duas horas depois, o alívio! Não havia morrido, como minhas idéias obrigavam meu coração a sentir. Era apenas um atraso. Costumeiro. Eu já havia me esquecido dessa característica, irritante e inofensiva de sua personalidade.

 

A minúscula casa, colocou dentro de mim a urgência de descer as escadas e ir ao encontro da cidade da minha mãe. De bicicleta, como se um filme fosse minha própria vida, avistei a famosa torre. Ela piscava, saudando-me.

 

Chegamos, por volta da uma hora do novo dia, no apartamento do amigo russo. Tudo me era lindo e novo. O olhar primeiro foi meu grande companheiro de viagem. E de repente, posta em um emaranhado de línguas-bebidas e música, sentia-me aquecida por todo o ambiente. Sentei-me, envergonhada, só por um breve suspiro. Não há lugar para estranhezas, aqui.

 

E ao ouvir o som da Balalaica, instrumento da típica música russa, aconteceu aquilo que tanto esperava. O choro recém nascido, o choro de reconhecimento. Aquele som invadia todas as minhas coragens, entregues a Deus. Ah, minha ascendência polaca! A alma brasileira também pode ser alcançada a menos de quarenta graus.

 

Os dias subseqüentes não cabem em minha literatura. Les Invalides e o monumental túmulo de Napoleão. Quase trezentos degraus e ter a invasão de Paris pelos olhos, no Arc de Triomphe. Setecentos degraus de metal. Um elevador até o topo. Um medo que nunca havia habitado antes meu ectoplasma. A altura de duzentos e setenta e seis metros do solo. O mundo e La Tour Eiffel me diziam, enquanto eu tentava me apoiar em nuvens, embalada pelo iminente delíquio: ‘É Mariana, a sua pequenez insignificante…’

 

Tomar um vinho no Château du Versailles. A cada gole entornar a anistia. A nobre inutilidade da vida valia uma cabeça decapitada! Ter também a alma totalmente conectada aos egípcios extraterrestres, no Musée du Louvre. Poder morrer no mesmo instante em que meus pés pisaram o Jardin du Luxembourg. Dar um oi a Baudelaire, a Simone de Beauvoir, Sartre, Beckett, Julio Cortázar. Não encontrar Durkheim e ser absolutamente irrelevante… Encharcar-me de música no Champs de Mars. Encontrar a igualdade da Morte nas Catacumbas. E ver que não há morte do corpo na igreja da Rue du Bac. Ter vontade de trabalhar no Pompidou… Sentar no parque mais lindo do mundo e presenciar a ressurreição de um peixe. Ser testemunha de infinitas paisagens. Dormir e acordar abraçada pelo Amor. Andar pelas glamourosas ruas e isso simplesmente bastar ao espírito. Uma vida vale uma semana em Paris.

 

Tomar vinho e fazer um sarau, apinhada por pessoas de todo o Planeta Terra. Aprender o que verdadeiramente significa ser cidadão do mundo. Realizar o sonho sonhado e este ser ainda mais belo do que em mim foi devaneio. Ouvir russos cantando em Português e ver que eles pertencem à minha terra. Tanto quanto eu pertenço à Polônia? Não posso dizer… Esse é o grande segredo literário. É o grande poder da palavra. Sentir ou inventar felicidades. Inventar sincronicidades é o dom-ápice do poeta. O que é genuíno em liberdade. A invenção também é verdade para quem escreve”.

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Teresa em mim

 

 

Nunca tive a ignorante pretensão de pautar minha subjetividade em alegrias vãs. Amo a felicidade. Enxergo-a como uma doce e jovem estrela cadente. Causa saborosos e delicados enlevos nas idéias da gente. Paralisa os instantes, dá a cor e as tonalidades mais preciosas para os olhares. É um amanhecer que inunda a nossa alma.

Contudo, eu já sabia, desde pequena, que carregava certo gosto pelas tristezas cotidianas. É um segredo meu que desvelo aos poucos, à medida que as pessoas me conhecem. Com certeza meus grandes amigos, ao lerem esse texto, esboçarão sorrisos logo no início: eles sabem disso melhor do que eu.

Compreendo a tristeza como inerente ao ser humano e particularmente a mim. O sofrimento sempre me foi muito esclarecedor e essencial. Entendo-o como um banquete para o aprofundamento do eu.

Suponho que o padecimento primeiro da minha vida foi amor… Os personagens e fatos envoltos são absolutamente irrelevantes. As mudanças inauguradas dentro de mim, não.

Uma senhora de cabelos ralos e brancos. Usa um manto que a cobre por completo. Tem aqueles olhos envelhecidos muito antes do resto do corpo. Chama-se Teresa: é assim que a minha tristeza pode ser descrita.

Uma mulher de casca frágil. Quando posso mergulhar dentro dela, sei que carrega a vitalidade das paixões adolescentes. Forte como uma montanha de neve.

Teresa joga búzios e interpreta tarô com a minha carne. É professora de história. Materializa verdades irrefutáveis e vislumbra, emudecida, os caminhos mais míopes. Põe-me os óculos e retira-me de cena. Teresa é a minha grande salvadora.

É claro que tudo isso deve parecer uma alucinação lisérgica para quem lê. Não se assuste ainda. Deixe-me enunciar porque respeito e ouço a voz dela dentro dos meus ossos.

Outro dia retirei da sala um livro de Lya Luft. Chama-se “O Lado Fatal”. Era domingo, dia que Teresa mais trabalha. O vazio cortava-me os pensamentos. Comecei a ler.

Em poucos minutos eu tinha o pulmão comprimido pela asfixia das lágrimas. Lá estava minha vidente, mais uma vez, a me fazer companhia. Mastiguei cada palavra, saboreando o incalculável esmorecimento que havia. Em apenas uma hora já voltava à biblioteca, para guardar a dor de Lya. Sentia-me inexplicavelmente mais velha.

O livro é um desabafo. Ela escreveu depois que Hélio Pellegrino, seu amado, morreu. São poemas assustadoramente amargurados. Aquelas páginas são deserto. Deus não estava lá. Só havia Lya e sua indizível prostração. Eu e Teresa.

Foi então que aconteceu em mim esse texto. Eu precisava advogar em favor da melancolia. Fora da obviedade que se instalou no mundo auto-ajuda de hoje, era-me caso de vida ou morte apresentar minha defesa. Senti-me uma leoa, pronta para doar minha vida aos filhotes. As pessoas necessitavam conhecer essa senhora tão sábia.

Não entendo porque se pode fugir ou ignorar a Tristeza. É totalmente incabível para mim não admirá-la e agradecê-la. É a responsável por metade das grandes lições da vida. Nosso outro grande mestre é o Amor. 

Selecionei algumas aulas que tive com a idosa criatura para reiterar meu sentimento por ela. A primeira delas é uma lição aquática. Quando não sabemos a profundidade da piscina – e estamos submergindo – nosso ímpeto natural é tentar voltar à superfície. Todavia, se não formos até o fim, fica muito mais difícil retornar com agilidade. O fundo dá ao mergulhador o coração da água. A dor é feita de natação.

Outro curso que assisto, ministrado por Teresa, ainda não acabou. Mesmo assim posso compartilhar algumas raras colocações que internalizei. É o desapego primordial. A matéria se tornou suntuosa quando ela acompanhou um querido professor meu. Era uma aula sobre o Adeus. Dificílima. Lembro-me como se o tempo fosse incapaz de amarelar minha memória: “Você pode ir embora agora, porque eu te amo”.   

Relutei em aceitar aquelas palavras por muito tempo. Imensurável é a dor da partida. Como a separação poderia ser característica do amor? Que espécie de monstros eram aqueles dois? Como chegaram ao ponto de exprimir esse absurdo?

Depois de alguns minutos suspensa, voltei a mim. Comecei a chorar muito. (Eu gosto de chorar porque meus olhos atingem o verde. Ficam cegos de claridade. É bonito.)

Lembrei das vezes que estou para acabar um livro e passo a fingir que ele não mais existe. Nunca estou preparada para dar adeus aos personagens. Eles, que passaram dias e noites a dormir em meu leito. Já os sinto como parte da minha residência. Como é que posso deixá-los ir?

A curiosidade, como se sobrepõe ao carinho, faz-me então devorar, sem a menor piedade, as últimas e doloridas páginas. Teresa põe-me em seu colo, afaga meus cabelos e me dá goles de velhice. E mesmo sem a presença manifesta, o espectro de Miguilim é lareira dentro de mim.

O último ensinamento que vou tornar palavra também foi aula em conjunto. Dessa vez com Gianetti. Minha afável e querida anciã pôs-se a discutir com ele a verdadeira fórmula da felicidade. Aprendi que não podemos ter fé nas sedutoras pílulas. Temos que tranqüilizar o espírito, ávido de novidades, e aceitar a construção, tijolo por tijolo. Felicidade é uma morada eternamente inacabada, incessantemente em reformas e aperfeiçoamentos. Não é adição. É cara.

E agora vem o questionamento: quando posso então saber se um módulo chegou ao fim? É muito simples! Vejo um novo cabelo branco, um rabo de cometa, ensaio novos devaneios. A sensação de missão cumprida usurpa a minha realidade…

E caminho com Teresa pelos bosques, pelas refeições exageradas, pelas músicas celestes. Ela está comigo nos crepúsculos e nasceres de sol. Vamos abraçadas pelas tardes chuvosas e frias, pela saudade das épocas áureas, por poetas e pintores fenecidos. Porque não fujo dela nem a escondo, aceito-a. A inexperiente menina vai mostrando, pé ante pé, os caminhos tortuosos. A encanecida erudita propaga instransponíveis passagens secretas. Ébria de poesia, abre-me as janelas. Avisto as formas de outra velha conhecida minha. Na casa de Teresa, às vezes, encontro-me com a inspiração.

 

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A ladra

 

Outra noite falávamos sobre o rompimento literário em nossas vidas… Nós sempre falamos muito, sem parar. Quantas histórias deixamos de nos contar pela emergência dialogada do outro! Quantos assuntos em suspenso ainda não estão guardados para o resto de nossas vidas? Acho inebriante. O infinito que nos permeia me dá tantas forças e tantas alegrias, tu não podes imaginar. O nunca-tédio de estar com alguém jamais havia habitado minha alma.

Tu me contaste dos teus castigos em letras. Tuas obrigações para com a literatura, desde pequenino. Quantas resenhas não fez em voz alta, meu amor? Quantas palavras tiveram que ser devoradas por ti? Penso que não há penitência mais doce. A leitura como coerção me é a mais deliciosa das punições.

Refleti, à luz de Clarice, como a literatura me foi iniciada. Em qual momento de minha vida me senti convidada a sonhar? Quando foi a primeira vez que estive perplexa, diante do Universo de sentidos?

Lembro-me muito bem das minhas manhãs de sábado. Morávamos na Vila Mariana. Meu pai me acordava bem cedo, antes das oito da manhã. Imagines pensar em acordar tão cedo no sábado? Pois bem, eu acordava feliz. Feliz porque sabia que era o dia de me encontrar com os livros. Íamos a uma livraria, encontrar figuras inusitadas. Eram personagens de livros, feitos de carne e osso. Talvez meu pai seja escritor porque conheceu infinitos personagens em vida real. Talvez não.

Eu tinha direito a um livro por semana. Gostava por demais da coleção Pom-Pom. Eram livros fofos de contos de fada. A coleção me ensinou a história da princesa e da ervilha. Meu pai me transferiu a obsessão pelas livrarias. Algum tempo depois, ganhei um livreto de poesias. Versos simples, quase infantis. Roubei um deles para dedicar ao nascimento da minha irmã. Foi meu primeiro furto literário.

Quando tinha uns doze anos, tive poesia na escola. No início, senti um repúdio. Precisava de distanciamento. Tudo aquilo era muito difícil e profundo. Jamais conseguiria eu, mera copiadora de versos juvenis, conduzir minhas próprias rimas e imagens. Fiquei apavorada. Sempre tive muito medo do desconhecido. Daquilo que não se pode controlar, daquilo que se pode fracassar. Ignorei a poesia. Só por um breve instante.

Devo ter comentado com meus pais sobre as aulas de poesia e sobre minha resistência. Eles devem ter entendido que não passava de vontade de aprender, e de ser a melhor nisso. Foi quando minha mãe chegou com uma pastinha embaixo do braço. Disse a mim: “Filha, isso aqui é um tesouro meu. São meus cadernos de poesia de quando era um pouco mais velha que você. Guarde-o com carinho e respeito. A poesia é algo que merece absoluta intimidade, não se pode deixá-la no mundo sem delicadezas…”

Aqueles cadernos de minha mãe, escondidos até hoje na bagunça do meu quarto, foram incrivelmente surpreendentes. A princípio, senti um constrangimento enorme. As confissões daquela menina eram alma demais. Tive vontade de ser amiga dela e raiva de ser minha mãe.

Decidi, pois, que necessitava aprender a escrever como ela. As rimas, as mensagens, as interrogativas existenciais já não pertenciam mais a ela. Eram minhas! Eram meus pensamentos escritos por outrem! Como poderia ter roubado minhas idéias? Eu nunca havia contado nada a ninguém! Como seria possível?

Foi ai que comecei a ter uma compulsão. Roubava rimas daqueles cadernos, roubava versos, roubava poesias inteiras! Tornei-me uma viciada. Cometi o crime da falsidade ideológica. Possuí uma estranha amizade com aquela menina, quase da minha idade, que era minha mãe. Vicky, o pseudônimo dela, era como uma irmã de letras. Uma ladra dos meus pensamentos mais íntimos e dolorosos. Um estimulante ao furto e à perda da identidade. Um caderno de segredos.

Nunca havia compartilhado essa história antes. Nem quando cavei o porão de mim mesma, em confissões terapêuticas, tive essa coragem. Esses meus crimes só poderiam ser divididos com aquele que me confiasse seus delitos lingüísticos.

Depois dos sábados, da poesia criança e de Vicky, as lembranças ficam um pouco embaçadas. Um pouco vazias. Pena. Não consigo colocar de volta em meu coração o instante em que toquei Pessoa.

O que importa, todavia, é o transbordamento da literatura das minhas veias. Fui escolhida e escolhi, tomada pela ambigüidade do Português. Doçura e enojamento. Pertencida e dolorida ao mesmo tempo. Rebeldia e redenção.

Apesar do abismo desmemoriado, ainda falta um capítulo da minha história com a Literatura: és tu. A tua vinda me trouxe velhos desejos de furto. Despertou-me a ira mortal. Malditos sejam Vinícius, Pablo, Chico, Edu Lobo! Assaltantes dos meus sentimentos mais bonitos… Deveria ser meu esse verso, como puderam extrair de mim?

Ao mesmo tempo, ao pensar em ti, sentia uma estranha e familiar ânsia. Um transbordar de palavras. Calma! Espera! Preciso de caneta, preciso de papel, preciso me lembrar! Como um bebê que não controla seu próprio corpo, eu me dissolvia em poesia por ti.

Amor, inestimável é o valor da nossa musa. Incalculável é a delícia de inspirar versos. A urgência de escrever aniquilou a inveja. Tu me permitiste a fertilidade. Trouxeste até mim o meu poço de devaneios, a minha própria pasta. Onde foi que a encontraste? Como poderia saber que me era propriedade?

E o destino, irônico, está te levando embora. As palavras que tanto amo estão se impondo sobre mim. A minha musa vai atrás de versos mais complexos, de estilos mais primeiros, de línguas mais sonoras, menos ambíguas. “A ausência é um estar em mim”. Disse a ti, naquela outra conversa. Tu rebentaste em mim a amortecida mensagem. Tu despertaste adormecidos textos. Isto me é definitivo, a partir da tua chegada. Por isso posso deixar que encontres novas palavras. Vou atrás das minhas, carregando cá dentro o espírito do melhor presente que já recebi. Deixo para trás meu passado vergonhoso de ladra. Vou, inspirando a tua presença. Já posso expirar minhas próprias palavras.

 

 

 

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