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Nasci pra ti antes de haver o mundo.

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XXI

— Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
……………………………………………………………
Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
……………………………………………………………
Ah! não perguntes nada; antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surda,
Te ouvisse todo com o coração.

Se te vejo não sei quem sou: eu amo.
Se me faltas […]
… Mas tu fazes, amor, por me faltares
Mesmo estando comigo, pois perguntas —
Quando é amar que deves.  Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,
Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fosse
Alguém pra te falar de quem tu amas.
……………………………………………………………
Quando te vi amei-te já muito antes:
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há cousa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que o não fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro.
……………………………………………………………
E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma ‘strada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é toda humana.
……………………………………………………………
Quando eu era pequena, sinto que eu
Amava-te já longe, mas de longe…
……………………………………………………………
Amor, diz qualquer cousa que eu te sinta!
— Compreendo-te tanto que não sinto,
Oh coração exterior ao meu!
Fatalidade, filha do destino
E das leis que há no fundo deste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto
De o sentir…?
……………………………………………………………

Fernando Pessoa

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O tempo não derramado

E agradeço a esse alguém por não ter rasgado a minha carta: cada um de nós morre um pouco quando alguém, na distância e no tempo, rasga alguma carta nossa, e não tem esse gesto de deixá-la em algum canto, essa carta que perdeu todo o sentido, mas que foi um instante de ternura, de tristeza, de desejo, de amizade, de vida — essa carta que não diz mais nada e apenas tem força ainda para dar uma pequena e absurda pena de rasgá-la.”  Rubem Braga  

A materialidade de mim que reside na casa dos meus pais se transformou em uma caixa de papelão repleta de  lembranças encruzilhadas em nostálgicas reminiscências. Dói-me abaixar-me diante desses passados longínquos e obscuros, tão distantes de quem sou agora.

O instante da faxina, além de salientar os ácaros permanentes do passado, traz a insustentável dor de me livrar desses breves fragmentos enrijecidos pelo tempo, aflorados em inoportunidades.

Releio as amarelecidas declarações de amigos que não vejo mais. Deleito-me com a doçura dos primeiros namorados. Inebrio-me com as mínimas promessas de futuro que abrigam os corações de exímias sonhadoras.

De repente, sinto a profunda saudade de ser amada pelas horas que custei àquelas cartas coloridas, dolorosas, desenhadas em nanquim, fatigadas de felicidade ou desesperadas pelo abandono de um inverno inglês.

Rio-me dos erros que invadem a caligrafia difícil, obstáculo da infância. Falho em rebobinar alguns sentimentos nublados, ilegíveis a olho nu. Depois, entrego-me à estranha liberdade de engolir as verdades axiomáticas, desacompanhadas intérpretes da jornada.

Ah, esses dizeres juvenis merecem ser sepultados. Desfaço-me de milhares de folhas. Rasgo-as sem pudor porque, aqui, morando nesta pele, todos os momentos que me escreveram foram em mim publicados.

Resgato uma mala empoeirada para abrigar as cartas que, por algum motivo, ainda não me aconteceram. Letras da avó precocemente morta, sonhos irrealizáveis, nostalgias de amor…

Vou guardar-me mais um pouquinho, engrandecendo-me em sonhos que a vida ainda há de contar.

Levo, paciente, alguns quilos de coragem que me tragam a velhice em imensidão luminosa. Estilhaços meus que se extingam, pouco a pouco, na lucidez de suas concretudes. Com as vozes trêmulas de poesia, descansadas da sobriedade cronológica. Rasguem-se em solilóquios, em ruínas, em escuros. Mas fiquem um pouco mais, enquanto tenho esses verbos em dúvidas.

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Sem testemunhas

“A mais vil de todas as necessidades – a da confidência, a da confissão. É a necessidade da alma de ser exterior. Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos teus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que os segredos que digas, nunca os tenhas tido. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.”

Fernando Pessoa, in ‘Livro do Desassossego’

É longe do palco que se pode ensaiar os contornos do amanhã. Quando se apaziguam as esperanças de futuro e os sonhos perdem sua obrigação incongruente de solidez. Quando os olhos se fecham e aceito a vulnerabilidade de acordar para dentro. Ausente de observadores encontro-me viva, e só. Sem a mórbida obviedade do sofrer.

Ah, negra hora do dia: agradeço o meu anonimato. Quando a humanidade já foi deitar e o mundo permanece alheio às vicissitudes inúteis dos despertos. Sinto-me cúmplice dos suspiros das árvores, das proibições conjugais: átomos antigos, entorpecentes cósmicos.

Sinto-me, pois, neste instante, ainda em posse de uma história sem veracidade. Distante daqueles que lembram como sou, como fui e, inevitavelmente, como envelhecerei. Caminho pelos labirintos desfocados que me conduzem a essas letras. Guardei minhas palavras por algumas madrugadas. Não aceitaria que elas nascessem prematuras.

Nas profundezas marinhas da noite, as cicatrizes se escondem para dar lugar à bela totalidade arredondada. E os oceanos, mais misteriosos e demiúrgicos do que nunca, enaltecem suas melódicas queixas de escravidão ao luar.

Como gostaria de despir-me, também eu, para o grande silêncio. Sem testemunhas. Pacificada pela sensação de abrigar exclusivamente um pseudônimo confuso, expatriado das mãos rancorosas de seu autor senil. Transportar-me a um mundo de domingos, onde os habitantes emudecem pelo horror ao recomeço; e se aninham, distraídos, na nulidade de suas existências.

Estou tão cansada, hora gatuna, violenta. Medíocre que sou, refugiada nesse asilo temeroso. Como anseio libertar essas histórias acorrentadas nos presságios ilusórios dos grandes desertos. Anônima. Sem ter os olhos pequenos demais para apreciar os destinos. Desanuviada.

Quero pecar sem assinatura.

Viver sem testemunhas seria, hoje, meu desejo mais arcaico. Jorrar minhas memórias por páginas desconhecidas e inacabadas. Iridescente, breve, hermética. Frases sem sentido para que ninguém mais não me morasse.

 Como se torna persecutório o ato de desenhar-se em dizeres, em traduzir-se conteúdo. Medo de ser retaliada por aquilo que foi vivido, embaraço frente aos relatos vergonhosos das melancolias juvenis. O pavor de estar em primeira pessoa. Saudade – essa qualidade da ausência – como faz sentido estar mais próxima da estranheza que suportar a inocente familiaridade. Apenas o estrangeiro de si, de pátria ou de línguas, aguenta, sem anódinos, o peso inesclarecível das funduras.

Destarte, reintegro a secura intrínseca da esterilidade. Se não posso suportar meus segredos, se os enclausuro na travessia entre o esquecimento e a confissão, perco a maestria uterina. A clarividência sempre toca o julgamento preciso de quem lê.

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Não há profundeza imemorial

Nenhuma intimidade é navegável pelos olhos…

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“Tudo o que não invento é falso.”

Manoel de Barros in Memórias Inventadas

CASO DE AMOR

Uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo.

Esta que eu ando nela agora é por abandono. Chega que os espinheiros

a estão abafando pelas margens. Esta estrada melhora muito de eu ir

sozinho nela. Eu ando por aqui desde pequeno. e sinto que ela bota sentido

em mim. Eu acho que ela manja que eu fui para a escola e estou voltando

agora para revê-la. Ela não tem indiferença pelo meu passado. Eu sinto

mesmo que ela me reconhece agora, tantos anos depois. Eu sinto que ela

melhora de eu ir sozinho sobre seu corpo. De minha parte eu achei ela bem

acabadinha. Sobre suas pedras agora raramente um cavalo passeia. E quando

vem um, ela o segura com carinho. Eu sinto mesmo hoje que a estrada é

carente de pessoas e de bichos. Emas passavam sempre por ela

esvoaçantes. Bando de caititus a atravessavam para ir ao rio do outro lado.

Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela:

um coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós.

Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo:

deixe deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai

desaparecendo igual quando carlitos vai desaparecendo

no fim de uma estrada…

Deixe, deixe, meu amor.

SOBRE IMPORTÂNCIAS

Um fotógrafo-artista me disse outra vez: veja que pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar. Falou mais: que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. Assim um passarinho nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que a Cordilheira dos Andes. Que um osso é mais importante para o cachorro do que uma pedra de diamante. E um dente de macaco da era terciária é mais importante para os arqueólogos do que a Torre Eifel. (Veja que só um dente de macaco!) Que uma boneca de trapos que abre e fecha os olhinhos azuis nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que o Empire State Building. Que o cu de uma formiga é mais importante para o poeta do que uma Usina Nuclear. Sem precisar medir o ânus da formiga.  Que o canto das águas e das rãs nas pedras é mais importante para os músicos do que os ruídos dos motores da Fórmula 1. Há um desagero em mim de aceitar essas medidas. Porém não sei se isso é um defeito do olho ou da razão. Se é defeito da alma ou do corpo. Se fizerem algum exame mental em mim por tais julgamentos, vão encontrar que eu gosto mais de conversar sobre restos de comida com as moscas do que com homens doutos.

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Despedida

RUBEM BRAGA

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

Foto de Marcela Lalim: Lisboa ao amanhecer

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Quase

Mário de Sá-Carneiro

Um pouco mais de sol – eu era brasa,

Um pouco mais de azul – eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa…

Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz?  Em vão… Tudo esvaído

Num grande mar enganador de espuma;

E o grande sonho despertado em bruma,

O grande sonho – ó dor! – quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim – quase a expansão…

Mas na minh’alma tudo se derrama…

Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo … e tudo errou…

– Ai a dor de ser – quase, dor sem fim…

Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se enlaçou mas não voou…

Momentos de alma que, desbaratei…

Templos aonde nunca pus um altar…

Rios que perdi sem os levar ao mar…

Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…

Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;

E mãos de herói, sem fé, acobardadas,

Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,

Tudo encetei e nada possuí…

Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi…

Um pouco mais de sol – e fora brasa,

Um pouco mais de azul – e fora além.

Para atingir faltou-me um golpe de asa…

Se ao menos eu permanecesse aquém…

 

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