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Os antigos futuros

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As letras me deixaram órfã aos quinze anos de idade. Naquela altura, depois de escrever meia dúzia de poemas, sofrer em cumplicidade com meu melhor amigo e depurar meus amores inventados, só o vazio parecia fazer-me companhia. Enterrei meus versos e permaneci com a alma vestida de preto durante oito longos anos. Emudecida.

Aos vinte acreditei que a família estava ruindo e que o ódio seria o grande protagonista das reminiscências sobre mim. Minha imaginação estava enclausurada à ideia de permanência.

Quando o amor me rejuvenesceu, semanas depois de ter sido dado como impossível, não acreditei que ele pudesse superar dois países, em mares de saudades: um ano sem a presença dos seus sorrisos-crianças.

Se esfregar os sonhos em busca de um passado, vejo-me menina, a conversar com os espíritos que não voltaram mais. A certeza, contudo, de suas luminosas energias, não foi esquecida em nenhum instante.

E quem imaginaria que as palavras tornariam a me possuir, em noite inesperadamente quente de outono, com vestes rebuscadas e devaneios eternos de existência?

Nunca imaginei que estaria, petrificada de medo, dentro de um avião, em agosto de 2009, rumo à Lisboa. A minha covardia em ficar no Brasil era maior do que o sonho de engolir o país de meu mestre. O Tejo é mais livre em mim, hoje, do que o meu próprio pensar…

Os sentimentos, pois, não bebem o gosto amargo do tempo. Fui eu que escolhi descartá-los de mim, quando o amarelecer das folhas começava a apagar a escrita sobre o vivido. Algumas memórias, náufragas, relutam, porém, em serem deitadas fora, como se a mudez das décadas as estivesse petrificado. Basta um sopro de plenitude para ancorá-las em vida.

Ah, quantas realidades insólitas desejaria sepultar em meus olhos!

Algumas lembranças estão perpetuadas por um olhar imóvel, incapaz de ser restaurado. Pálidas. A releitura de meus antigos futuros permanece sem rancores.

Ao vê-los passar, engrinaldados em óbvias mortalhas, alegro-me por completo. Deixá-los morrer, todos os dias, conforta-me frente ao oceânico medo, inerente às profundezas.

Só há uma velha fantasia que minhas vísceras não suportariam enterrar: esta perfeita intimidade com a escuridão. Esta comunhão transcendental com o inaudito. A solitária nau, esbanjando o azul marinho de todos os acontecidos. Foi ela quem jamais deixou de me navegar, em nenhum tempo verbal. Só a poesia, em mim, é acrônica.

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Arquivado em Crônica, Textos meus

Outra estrada que achar

NA VÉSPERA de nada
Ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada
Durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via,
Ninguém aqui chegou.
Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.

Fernando Pessoa

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