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Sol Velho Lua Nova

Eu havia acabado de chegar ao Mezinhas de Alfama, bar de um querido, à espera do encontro que poderia render umas boas conexões em Lisboa. Gente do bem, projecto lindo, lua de gato de Alice.

Recebi, inesperada, a mensagem dele, meu amigo, Flavio Tris, sobre o lançamento do seu disco, uma semana depois daquela quinta-feira, minguante. Ganhava o maior presente de aniversário adiantado, naquelas janelas pululantes de facebook. Entre um gole de vinho e um suspiro para a madrugada, a engatinhar.

“Não se preocupe, meu bem!” “Aproveite a sua noite. O disco é pra ser ouvido de fone, com calma.”

Respeitei os dizeres, sábios, humildes, desencontrados das falsas iluminações egóicas. Ao amanhecer, quando voltei para casa, pés descalços e alma imaculada pelo nascer do novo dia, finalmente ouvi Sol Velho Lua Nova.

Lembrei-me de que a arte nos é selvagem. Perto do coração, tudo nos deixa primitivos.

Em meados de dezembro, prematuro disco, assisti ao show que anunciava a mudança: sereno será. Ele convida-nos a degustar tempestades posteriores, alheias às harmonias de suas nove redondas cancões.

És Bob Dylan. E eu nem gosto de inglês. És xamã, em noite de mirações. Cantas as manhãs ancestrais à nossa redenção cósmica. Faz-nos mergulhar nos azuis uterinos que abençoam os sonhos mais pueris.

Chamei os orixás, os dilúvios, os litorais. Oiço o teu canto, além-mar. Que sejam mais quinze mil eras para descrever as nuanças da tua Terra. E oitocentas mil galáxias para cobrir a tua voz, única.

Incendeias os amores que me virão, banda sonora obrigatória. Cá estou, exausta, inebriada por luzes e horizontes.

Hoje, Flavio, eu não quero esquecer de mim. Cantas pelas janelas que desnudam o Tejo, ao pôr-do-sol. Tua música se confunde com o céu de Van Gogh. Meu escrever almeja ser rupestre.

Não sei quantas estrelas se apagaram. Mas encontraste os caminhos que nos trazem à essência. O som primeiro ignora todas as metáforas. Pulsa, pertence, atrás da palavra. Antes de alvorecer os insones futuros, tu os previste.

Alcancei, ao ouvir-te, a mansuetude de dentro, enfim.

O álbum está disponível na íntegra no YouTube:

 

 

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Arquivado em Outros poetas, Textos meus

Onde vivem os dons

“Se um dia me arriscar num outro lugar, hei-de levar comigo a estrada que não me deixa sair de mim.” Mia Couto – Terra Sonâmbula.

Há semanas procuro uma resposta. Na verdade, sei que as respostas são ínfimas, fragmentadas na cosmologia dos pensamentos. Não há nada nelas que assossegue o ser. Assim mesmo, sonho com o seu vulto lampejando a alma em epifanias.

Onde moram os dons? – questionava-me. Quando eles são despertos? Cada pessoa abriga dentro de si uma indelével cicatriz da arte? Somos todos convidados, bem-vindos para acordar em sua cama? Há sinais suficientemente claros para que a vigília nos possua? É possível viver em letargia? Existirá dor maior do que o hibernar de uma vida inteira?

Nenhuma resolução foi a mim concedida, desde que todas essas interrogativas passaram a povoar minha escrita. Então decidi ir atrás daquilo que me era palpável: os vígeis.

Não foi necessário pensar muito. Em poucos segundos já existia uma pessoa reverberando em mim: meu amigo músico Flavio Tris. Ele concordou em me receber para uma entrevista, sem questionar a minha motivação.

E lá estava ele. Pronto para as minhas loucas perguntas naquela quarta-feira insuportavelmente ensolarada. Quis ser cronológica, para investigar sua meninice primeiro. Verificar, meticulosa, todos os espaços que me trariam algum conforto. Sábio, meu entrevistado soube lidar com as minhas aflições. E respondeu a cada pergunta como se revisitasse sua estrada musical.

O hospedeiro, então infante, ainda nada sabia sobre seu destino. Contudo, tinha as mãos pousadas no piano. Por mais que as referências parentais gritassem a sua jornada, ele parecia alheio a qualquer tipo de determinismo. Talvez fosse a certeza do reencontro. Mia Couto já advertia: “Em criança não nos despedimos dos lugares. Pensamos que voltamos sempre. Acreditamos que nunca é a última vez.”

As aulas de piano não vociferaram seu chamado. Pelo contrário. Era quando acabavam que o menino mais tinha vontade de tocar. A desobediência eu já conhecia: todo dom é insubordinado.

Depois, veio o violão. Sem nunca uma aula ter feito parte dessa parceria. Na adolescência, as cordas, associadas às aulas de gramática, trouxeram o sabor primeiro dos grandes músicos brasileiros.

Contudo, a arte lhe seria um fardo insultuoso: todos os seus irmãos já navegavam por esses oceanos marginais. Assim, ele optou pelo Direito. “Fui ser ‘normal’ e aliviar minha família”, disse a mim. “Acreditava que a carreira seria uma ferramenta de transformação social, além de o futuro ser rentável e sólido”.

A música, pois, não deixaria Flavio em paz. Mais tarde, no recolhimento solitário, ilhado pela melancolia amorosa do intercâmbio linguístico em Montpellier, ela o abraçaria e o tornaria arredondado. Terapêutica.

Foi num desses diálogos silenciosos que ele tomou gosto pelas incertezas. “Passei a elogiar os mistérios da vida em minhas canções”. Esse reinado de possibilidades, a abertura de janelas, infinidade de caminhos. A imersão no vazio fértil o estimulava. E o olhar surpreso ia invadindo as paisagens francesas e a obra do artista.

A metamorfose da voz também se ofereceu em ontologias. É o caso de “Brisa Boa, Vento Leve”. O amor já não povoava suas composições: “O compor foi se modificando, alcançando minhas percepções vitais. Tocar a natureza. Buscar um lirismo para enovelar  situações corriqueiras.”

A arte é uma casa que resiste às tempestades da vida mundana. E não é coragem, frente ao destino. Flavio permitiu a si regressar, àquilo que já na infância fora dito. Abandonou o terno e renasceu, rebatizando-se. Veio o Tris: “Há uma ambiguidade na minha escolha. Tris é parte do sobrenome de minha mãe. Tris remete a triz. Tris me leva à triade: somos três músicos. O Maurício Maas, no acordeon e percuteria; e o Tchelo Nunes, no violino e baixo elétrico.”

E eu não perdi a oportunidade de provocá-lo: “Dá muito medo? Largar o pontilhar certeiro do seu sucesso na advocacia para a inesperada condição da música?” Ele nem titubeou: “Meu medo de não tentar seguir o chamado é muito maior. Tenho certeza de que iria me frustrar, caso permanecesse vivendo nos moldes sociais que me impus.”

Deambulei, inerte por aqueles dizeres familiares. Era o peremptório se apossando de mim. Porque a arte, se não tem espaço para a florescência, inflama a pele. O dom, como a loucura, fica à espera de um cisco que o acorde.

Mergulhei em silêncios no meio da entrevista. Não havia mais nenhum assunto a ser explanado. Nada mais importava. A confluência: era a vida dele sendo recordada; era a minha vida sendo preenchida em improvisos. Nessas horas, o coração se agiganta.

Ali, aconchegada pela melodia, todos os devaneios de orfandade iam para o exílio. Extintos. Quando a arte nos atinge, não adianta mais tentar arrancar os brancos fios, enluarados. Há de se aceitar a ancestralidade libertária, como as árvores que assumem ser berço dos passarinhos.

Ps: quem já ouviu o Flavio, compreende a invasão prenunciada do vício: como a dor que dá a leitura das últimas linhas de um livro sublime, a gente torce para que a madrugada se enlace ao infinito. E que imponha aos nossos ouvidos ateus a condição de estarem atentos: por favor, não percam as notas na imemória!

Para encontrá-lo: hoje, 25/03/10, a partir das 21h no Caldeira Acústica – Casa das Caldeiras. 

Myspace: 

https://myspace.com/flaviotris

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