Arquivo do mês: abril 2012

Só me conheço como sinfonia.

Imagem

“Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tange e range, cordas e harpas, tímbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia.

Todo o esforço é um crime porque todo o gesto é um sonho inerte.

As tuas mãos são rolas presas.

Os teus lábios são rolas mudas.

(que aos meus olhos vêm arrulhar)

Todos os teus gestos são aves. És andorinha no abaixares-te, condor no olhares-me, águia nos teus êxtases de orgulhosa indiferente.

E toda ranger de asas, como dos (…), a lagoa de eu te ver. Tu és toda alada, toda (…)

Chove, chove, chove…

Chove constantemente, gemedoramente (…)

Meu corpo treme-me a alma de frio… Não um frio que há no espaço, mas um frio que há em vir a chuva…

Todo o prazer é um vício, porque buscar o prazer é o que todos fazem na vida, e o único vício negro é fazer o que toda a gente faz.”

Fernando Pessoa

s.d.

Livro do Desassossego. Vol.I. Fernando Pessoa. (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990.

– 128.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Outros poetas

O Presságio dos Adeuses

 

O abandono primeiro é a morte do silêncio. Antes do nascimento das cores fartas da aurora, são pássaros a anunciar o desvanecimento da noite. O sol, pois, é um mero coadjuvante na solidão arquetípica – escura – do poeta. Ah, quanta candura envolve os devaneios uterinos, na impossibilidade de adiar a despedida!

Manuel Bandeira auscultou – ouvido cósmico e maldito – os olhos à espera da carne. Ele estava certo: o olhar antecipa-se ao presente, premeditando inegáveis acontecimentos. Por qual razão se possui um órgão em tamanha desigualdade com o resto do corpo?

E assim aconteceu.

A última lucidez invadia a íris manhã de Carlos. Apressado – como deveriam ser os derradeiros – pôs seu sobretudo de lã marrom por cima do pijama quadriculado, calçou os tênis surrados com as solas quase atingindo a carne da terra; e desceu em direção à padaria.

Bebeu um café demorado, dando goles entorpecidos pela nítida claridade. Nunca havia gostado de presenciar o barulho dos ônibus daquela esquina, tampouco os transeuntes felizes, em plena segunda-feira. Porque, em entardeceres dominicais, estão fecundas todas as promessas. E brutalmente se esvaem, aniquiladas pelos pecados cometidos algumas horas depois. Segundas-feiras são fúnebres para aqueles que sonham.

Comprou o jornal, travestido de rotina. Nenhuma boa notícia permeava o universo. Sequestros, assaltos. Lixo sensacionalista. Mas o pior de tudo era saber que o jornalismo engolia seu epitáfio na assinatura de seus repórteres.

Carlos deu-se ao direito de não almoçar. As obrigações jaziam frente à sua escolha. Pensou no quanto se sentia privilegiado de ter aquele dia restante. Era azulado – porém frio – como são as miragens.

No fim da tarde, apareceu no armazém de vinhos. Lá todos o conheciam e o tratavam com certa estima. Ele desconfiava que fosse apenas o dinheiro depositado, semana após semana. No entanto, quais relações em sua vida não eram emolduradas pelo desconcertante viés das máscaras? Quando houve amor verdadeiro, clichê indigno da poesia?

Saiu de lá com duas garrafas caríssimas. E alguns maços de cigarros – contrabandeados – por terem sabor. Impressionante como até o gosto do tabaco incomoda a política execrável desses tempos.

Abriu a porta de casa. Duas longas voltas na chave, como era de costume. Parecia a primeira vez que aquela mania o acorrentava. Não, Carlos. Nunca mais duas voltas na chave, nunca mais o armazém, nunca mais o café expresso com a xícara manchada de batom da padaria barata, nunca mais saborear a doçura dos céus gelados, vertiginosos de julho.

À fumaça que insiste em sair da sua boca: adeus. Ao gosto frutado do vinho: adeus.

Os dedos estão trôpegos, é o inebriar da madrugada amolecendo os órgãos, exauridos. A saudade começa a arder nos olhos, anuviados. Quando a noite acaba? Como será o ontem, para o louco que se despediu da realidade?

Mário de Sá Carneiro, certa vez, disse a Fernando Pessoa (que acabara de confessar a sua loucura ao melhor amigo) que ele era ainda mais louco, pois não conseguia conservar nem os vícios. Enquanto o poeta maior maldizia seu apreço pelo álcool, como lhe dilacerava a incessante vontade de fumar, Mário de Sá Carneiro se queixava de ser tão louco, mas tão louco, que não tinha nem a organização de um viciado. Para termos vícios, Carlos, é imprescindível planejamento. E isto calcularia a normalidade de um ser humano?

Desculpe-me por invadir a narrativa. Entendo que a alma siga violenta, sonâmbula, quando é desperta subitamente por um cheiro antigo. Inocentes e libertos somos, por aromas de porão. Ah, inaudita memória que nos atinge e nos expulsa da falsidade ideológica, em posições fetais!

Todavia, Carlos, ao vestir-se de branco, sem mangas, você me abandona. Estou envolta em nós cegos. O presságio navega pelos olhos vazios, sedentos de inspiração. Também eu perdi minhas letras borradas de nanquim. Agora só consigo escrever sob as duras linhas da caligrafia, ordenadas, com destino traçado em obviedade. Nenhuma desistência traz a nobreza dos heróis.

As trilhas nunca amparam aquilo que não foi desbravado – a não ser em seus fins. Acessar o desconhecido, Carlos, submete-nos àquilo que não estamos (e jamais seremos) preparados. Para ficar, inúmeras vezes, é preciso partir de nós mesmos. E cabe à familiaridade nos dizer quando é tempo de cheganças.

Os adeuses, Carlos, podem ser tristes, como a menina que vislumbra seu amado desaparecer enevoado pelas ávidas novidades. Podem ser doces, como a insônia que precede o novo emprego. Podem ser frios, como o féretro que protege o ente querido. Entretanto, talvez seja novidade, todo e qualquer presságio que inaugura sua alma também é matéria onírica para mim.

Reside aqui, na emancipação da miopia, na expulsão da menor quimera, no alívio das lágrimas, quando o gordo sonho ocupa a nossa casa por inteiro.

Render-se ao isolamento, à incompreensão, ao delírio não fará sua existência mais pertinente que a minha. Somos igualmente afetados pela mediocridade, pelo esquecimento, pelo medo.

Contudo, ao tê-lo ao meu lado, Carlos, neutralizo meus fantasmas. Posso pacificar meus compassos, órfãos. No pequenino interstício que nos une, sinto-me plenamente contornada. Não me deixe só. Eu suplico: edifica-me com o seu desamparo, para  que eu possa reverdecer, epifânica.

 

4 Comentários

Arquivado em Conto, Textos meus