Arquivo do mês: novembro 2009

O texto que se esqueceu de si mesmo

Ando à espera das minhas solidões. Não é a depressão, espectro da contemporaneidade! Desejos suicidas jamais me procuram quando penso em meu isolamento cósmico. No mundo de hoje, contudo, às vezes é muito perigoso fazer uma afirmação dessas. Estar só é degenerar-se? Por que a solitude ganha sempre fúnebres reflexões?

Minhas ideias ousam desembarcar, mas não encontro portos que as abriguem. Tudo me é borbulhante, avulso, vago. E só há um vilão para todo o meu sobejar. Sofri uma espoliação: retiraram-me os jardins do sonhar, casa da minha solidão.

A morada da qual vos falo nada possui de quietude. Ela já esteve presente no meio de uma conversa trivial, quando – apesar de prestar imensa atenção – minha mente engordava de pensamentos. Também a recuperei em irritantes céus de churrasco. O dia inebriava-se azul e a minha ínfima condição obrigava-me ao trabalho braçal. Na sóbria caminhada para o lavor, pude ocupar meu firmamento de poesia e granjear pequenos versos, bêbados, inacabados.

No entanto, naquela época, era de minha posse recuperar as imagens, resgatar as profundezas dos devaneios sem perder uma vírgula sequer. Salvaguardar as reminiscências em sua plenitude.

Hoje sinto que tenho abortado palavras, sentimentos, parágrafos inteiros… Faz-me tanta falta, cômodo do meu delírio! E se não há um lugar específico, aonde eu guio minhas perturbações literárias? Em qual sussurro, em qual vestido, em qual cidade posso reaver meu instante solitário? Estou farta dos textos que se esqueceram de si mesmos!

Talvez precise voltar a me apoderar dos diálogos insanos, com pena e tinta nas mãos. Esponja que sou, dos olhos alheios. Revisitar músicas dos anônimos, aqueles que pintam sopros em nanquim e nutrem meus seios, desanuviando o cerne do espírito.

Enquanto o habitat me é desfavorável, emendo as camisolas velhas, consciente da inevitabilidade das cicatrizes e da iminente morte do tecido. A tenacidade das inspirações não reside nos seres, nas paisagens, nos planetas. É apenas o olhar conciliatório, a tradução para os planos não cartesianos.

Assim, órfã de sítios onde o fictício torna-se possível, busco os degraus insólitos, improváveis. Desato os nós etimológicos. E festejo a descoberta das letras expatriadas. Inéditas.

Corto as unhas compridas, encarnadas de feminilidade. Porque elas fingem-se imortais, suspendem o coração do perecível. Eu quero a pele despida da queratina, somente imersa nas quimeras.

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Das Purezas Clandestinas

Perdoem-me os inquilinos do Sol, ávidos de manhãs. O relinchar dos pássaros me é alergia. Porque não há nada nas auroras que seja límpido: a claridade espanta cruelmente as purezas da terra. O olhar, quando puro, é sempre acompanhado de escuridão. Os crepúsculos, cavaleiros impiedosos, anunciam que a Majestade se aconchega. Incapaz de ser contaminada pelo brilhantismo mesquinho dos diamantes.

A poesia dificilmente nasce resplandecente. Porque a terra é sempre castanha. Os porões não são senão iluminados por velas. Epifanias são cegas. Essa singela atmosfera primaveril – lugar comum dos sonhos! – é insuportável para as meditações. 

Eu confesso. Prefiro as feridas abertas à espera das crostas. Quando o sangue ainda está vivo percebe-se melhor a dor. Quando a vermelhidão jaz não se pode alcançar a nova pele. Posterga-se o futuro. Encolhe-se a liquidez frente à incerteza do porvir. Contudo, a escolha dos corpos pelas côdeas não é aleatória. Serve de abrigo para a epidérmica purificação clandestina. Revigora as chances de renascer outras carnes.

E é sobre a ilegitimidade da vida que se deve falar. Ah, penosas imigrações solitárias! Quando a boca aprecia, estupefata, o vinho que foi servido em chávena. A morte das uvas só é evidenciada nas faces transparentes dos cálices. Quando ocultado pela porcelana, é irrevogável. Alcoólicas farpas pulsam dentro de nós. A alegria indizível, infantil, daquilo que não nos é permitido.

Ao pular os muros regulamentados, o mundo liberta as matizes da humanidade. Os pecados, a culpa católica! Tudo sendo dissolvido num depurar bastardo. As mais belas vozes são trêmulas, embriagadas. Violadas dos preceitos religiosos. Das convenções, manuais dos errantes, leva-se a certeza das infrações. Os ritos suntuosos só espelham solenes lavagens cerebrais.

Nos segredos tortuosos, nas intimidades sujas, nas coléricas madrugadas fazem-se palavras. A imundície é o verdadeiro palco dos versos. Só esconjurando Deus é possível emancipar-se. A viuvez primeira de se saber fraco. Diligência em saber-se erro. Estar alerta, consentâneo. Descortinado. Insanável, como tudo aquilo que comunga os silêncios.

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Quase

 

Quando eu era pequena tinha um cachorro de plástico com rodinhas e chapéu quadriculado – daqueles que a gente pode fantasiar passeios – chamado Quase. Do Quase eu me lembro nitidamente, como se ele tivesse acompanhado todos os amadureceres ao meu lado. Talvez seja o brinquedo que mais tenha alma de fotografia, dentro da minha memória.

Nos últimos tempos, tenho recordado inúmeras vezes meu Quase. Porque eu, hoje, habito a morada dos quases. E, não sei se por egoísmo ou ontologia, acredito que esse lugar seja o grande limbo da humanidade. O Quase é a casa da deslembrança.

Primo do Quase é o mediano. No entanto, contrário do que se pode pensar – em uma primeira análise – eles são desirmanados. A planície da mediocridade, embora vizinha, não germina os mesmos frutos. Porque o dono da propriedade deita sementes de outras naturezas.

Nas cordilheiras do Quase reside um senhor de relógios. Suas vestes foram carcomidas por amores adiados. Seus dedos têm rugas de mar. E mesmo devastado por tudo aquilo que não foi, o senhor permanece insuspeito, tranquilo, imune.

O senhor de relógios só cultiva coisas demoradas. Há uma vinicultura gigantesca em seu território. Como essas uvas anseiam pela metamorfose! Quantas vezes sonham com a liquidez em garrafas. Mas as brumas gestantes suspendem todos os seus desejos de celeridade.

Os homens e mulheres que convivem nos domínios do Quase são muitos. Alguns demonstram fadiga e envelhecimento. Porque não há camas nos cômodos. O senhor dos relógios não permite que o sono abrande o esgotamento da jornada. Tampouco é permitido sentar-se à beira do lago. O Quase é reino de movimento.

Assim, as janelas ficam escancaradas. Não há distração que não possa entrar. Mágoas maquiam púrpuras olheiras. Desesperos assombram os inquilinos com sopros de eternidade. E amiúdes fracassos deblateram os perigos de almejar.

As semoventes aparições levam as pessoas à loucura com enorme facilidade. E todos os dias eu vejo esquálidas criaturas dizerem adeus ao domicílio do Quase. Com as almas em carne viva, desistem. Emigram, cabisbaixas, para os vales da mediocridade.

Outros encontram-se totalmente anestesiados. Já não andam nem falam. Em pé, permanecem imóveis. São pessoas que aceitaram a tardança. Não têm a mínima intenção de caminhar direção ao cume.

Eu estou aguentando a paralisia do agora. Sei que hoje não avistarei o mundo do ápice. Insone, permaneço. Sem precipitar os devaneios de topo. Não carrego nenhuma pressa. Porque sei que a realização não é casa de ninguém, mas a  efêmera luz que ela deixa apaga todas as demoras.    

 

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Sorrir

Lembro-me de estar só em Girona. Era um dia lindo e meu amor havia partido. Andei por aquela minúscula cidade, cercada por muros seculares. No meio do caminho, estava a exposição do Chaplin, pequenina como Girona. Foi o grande sorriso que inundou aquele dia.

Sábio, como devem ser todos os palhaços…

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Escrito no ar – roubado do projeto Scott Johnsonn

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Naquela noite fria e chuvosa em Alfama, o Tejo bar, como de costume, estava repleto de pessoas com diferentes feições e sotaques. Uma certa aura de mistério misturada com uma aparente disposição para o encontro fazia com que pequenos grupos de italianos, espanhóis, alemães, brasileiros, portugueses, cabo-verdianos e franceses (pelo menos foram estas pronúncias que pude reconhecer), partilhassem olhares, gestos, declamações, algumas palavras na língua alheia, acordes no violão e algumas canções. Este clima foi modificado bruscamente com a entrada daquele homem que se apresentou como Scott Johnsonn. Mesmo se portando de uma maneira visivelmente sob excessiva influência do álcool, somado ao péssimo português falado, Scott Johnsonn prendeu a atenção de todos com suas narrativas tão exóticas e cambaleantes quanto sua figura. O que sugeriam ser narrativas autobiográficas.
Contudo, aquele tom vacilante do Scott Johnsonn, de súbito, se transformou em um eloqüente e insurgente discurso. Igualmente súbita foi sua queda após pronunciar aquelas palavras à porta do Tejo bar. Por sorte, distraidamente havia deixado minha câmera ligada desde a bela declamação de Clarice Lispector feita por Mariana antes da chegada do Scott Johnsonn, permitindo a captura em áudio. Não sabíamos naquela altura que aquele homem que teve uma vida praticamente livresca iria deixar a sua última obra escrita no ar:
“Somos todos judeus alemães!” Não se engane foi apenas o Campo de Concentração que se modernizou. Antes e, não obstante arduamente, vivêssemos em uma época de servidão voluntária como bem diagnosticou La Boétie. A servidão ganha agora ares de um sinistro genocídio auto-imposto. Este escrito fará mais sentido se lido num domingo de noite. Caso isso não coincida, imagine-se envolto pela presença de uma segunda-feira rotineira e talvez já seja suficiente. Bem- vindo à Era dos micro-genocídios, aqui o seu corpo cruelmente morto não será necessariamente jogado em uma vala comum, afinal, na melhor das hipóteses, nós mortos-vivos-padrão nos encaminharemos, mais cedo do que gostaríamos, a alguma forma de transporte público lotado para depois termos a honra de sermos explorados. Um verdadeiro privilégio para um contingente cada vez menor. Isto não é tão somente a expressão indignada de um vagabundo insatisfeito com a sua própria vida como já me questionaram, é mais um ruído de alguém que pensa que a nossa pretensa harmonia, mais do que enlouquece, mata. O cigarro me advertiu: o Estado mata! Aliás, para lembrar uma “equação” foucaultiana de um de seus cursos aritmética da existência aplicada à guerra, o Soberano que fazia morrer e deixava viver, entretanto, o Estado contemporâneo faz viver e deixa morrer. Então não me acusem de cinismo, olhe para nossa organização e verá bem mais… Ou então, antes de ir trabalhar repare bem ao escovar os dentes na sua cara de zumbi. Mas tente se alegrar, os tempos são outros, você morreu, mas deixaram-te viver!
Mas antes de sair repare bem na sua casa, em como a solidão transformou a nossa relação com os eletrodomésticos, esses arautos da vida “moderna”. Abrimos a geladeira para meditar, ligamos a televisão para cuidar de nossos filhos, observamos pelo computador o que se passa lá fora… Se estes espantosos atos lhe dizem alguma coisa, então por que não rebatizar esses nossos companheiros?! Geladeira-oráculo, Televisão-babá, Computador-janela. É favor não me classificar como romântico antes de terminarem de ler. Ao mesmo tempo diria que isso é um julgamento quase inevitável para quem está praticamente etiquetando os seus costumes com um tom de desaprovação, algo que pode realmente ser lido como um saudosismo de uma comunidade perdida. Contudo, prefiro me inspirar no Bruno Latour que propôs de uma maneira desconcertante: e se jamais fomos modernos? Então, respondo perguntando: isto faz de nós pós-modernos-medievais?! Logo, comunidade nunca existiu, saudade tampouco! Então foi assim e Hakim Bey em parte me daria razão: mentiram sobre bem e mal, sobre o nosso amor carnal, incutiram massivas doses de medo, umas porções generosas de culpa e boas pitadas ressentimento… Pronto! Está dada a receita do pão-nosso-de-cada-dia. Só não se esqueçam de rezar antes da refeição e incluir nos agradecimentos o mestre-cuca Nietzsche, afinal ele que traduziu para o alemão o nosso cardápio favorito.
(Alex Reinecke de Alverga)

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Amor de instante, instante de amor

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Há dias possuo um tema muito pertinente para os versos. Até a foto que ilustrará suas linhas já está devidamente reservada, manto para o seu rebentar. Contudo, está sendo impossível fazê-lo desfranzir entre a inópia das  minhas ideias.

Decidi, pois, doar o meu hoje ao pensamento vazio dos truísmos. Espantar quaisquer formas de elaboração cerebrina. Sequestrei-me de mim, posto que as palavras negaram sua magnitude. Ter mote sem espinha é matar o glosador.

As luzes do quarto e do olhar já haviam sido apagadas. Eu estava prestes a desligar o computador. Foi quando deparei-me com um minúsculo inseto de asas incontestáveis e de aspecto repugnante. Ao acender as luzes, atabalhoada pelo horror enorme àquele ser infinitesimal, descobri-me a mais ínfima criatura do universo. Era tão somente uma linda joaninha que viera visitar a minha demérita madrugada.

Instantaneamente senti um profundo amor por aquela joaninha diminuta. Ela passeava lentamente pelas letras escuras do meu delírio. Voava tão baixo que me era possível sentir seu respirar.

E era gélida. Platônica. Inconsciente do transbordar. Alheia à invasão que provocava em minhas terminações nervosas. Sem a mínima pretensão de ser meu elo poético.

Escrever nada mais é do que essa fatalidade feliz do encontro, essa sincronicidade ilusória, essa máscara de destino. A escrita só escolhe habitar os psicógrafos das atenções flutuantes.

No entanto, não se pode confundir. A espera reveladora não é sinônimo de paciência. Pode-se passar toda uma vida devaneando aparições de joaninha. Mas basta um segundo para que sua convergente presença seja evaporada em janela.

Estúpida, passei semanas à procura das imagens! Eu almejei tanto um discorrer acerca dos imprevistos amores. Eu, iconólatra, engoli páginas e páginas, auscultei pilhas de escrituras.

De repente, compreendo a subitaneidade apossando-se de mim. Mais uma vez estou imersa em paixão instantânea. E a vida curta de joaninha – precisamente cento e oitenta dias – transfigura-se em pequenas eternidades.    

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Sobre os dentes de leite

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“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda”. Clarice Lispector

 

Eram quase três horas da manhã. Tragávamos o cigarro que religiosamente precede nosso adeus. A conversa, galáctica, já irrompia nebulosas. A fumaça alcançava – braços longos que tem – satélites e órbitas inabitadas. Íamos juntas, enlevadas. Pejadas estávamos, gordas de madruguez:

– Sabe, amiga, eu nunca gostei da multiplicação. Quando estamos multiplicando, na realidade há uma repartição. Tornamos as coisas pequenas. A essência esquece de si, fragmentada em minúsculas parcelas.  

Quanta sabedoria despontava em sua confissão! Fiquei cerca de dois segundos estacionada naquela frase. E respondi, cúmplice que sou:

– É por isso que os únicos providos de alma são os números primos. A eternidade é divisível.  

Imediatamente, ficamos nítidas. As miopias cediam, uma por uma, lugar para os epífanos sentidos. A aterrisagem do olhar primeiro nos permitia navegar águas mais foscas… Dissertamos matematicamente acerca das relações e das suas raízes quadradas. Inserimos cada ser humano na indubitável condição. Só somos repartidos em nossa própria unidade.

Por qual razão, números primos que somos, tão facilmente nos multiplicamos nas relações com os outros? Não há deveras verticalidade nos humanos? Os trilhos não são supostamente  preenchidos em horizontalidade? A harmonia cósmica não reside nos espíritos pensantes?

Seria preciso acender mais um cigarro. O diálogo era, naquele instante, ectoplasma. O simulacro dos relacionamentos mais uma vez tecia os pensamentos. Felino, ronronava entre as ideias, aconchegando-se nas memórias mais longínquas. Cigano, roubava-nos a racionalidade. Por que, meu Deus, por que vivemos constantemente em estressantes movimentos de gangorra?

Quanto mais recordávamos nossos relacionamentos – fossem eles de amor, de amigo ou de escárnio – mais óbvias íamos nos percebendo. Ao revisitar a nós mesmas, nenhuma comunhão oblíqua havia sobrevivido com ternura. Todas estavam trancafiadas em pesadelos, empoeirados conveses da lembrança.

Todavia, nem tudo era carregado de maledicência. Havia também aprazíveis resgates. Às margens dos envolvimentos medíocres, nasciam delicadas reminiscências. Eram devaneios das relações aprendizes. Encharcadas de lepidez, indissolutas, primas. Indivisíveis.

Desvelado o grande mistério, era fácil compreender. Um manancial de descobertas sobrepujava-nos. A clarividência enfim tomava as fumaças e concretizava-se, sincrônica. Como era lindo estar em posse de tão precioso pecúlio!

A felicidade residiu em nós apenas quando estivemos na condição de alunas. Ah, a doçura do desconhecimento! Os náufragos personagens que mereciam morar nos sonhos eram aqueles que acordavam as nossas verdadeiras paixões. O resto, o resto cobria-se inteiramente em sofismas.

Infelizmente, poucos são os homens que revelam-se cândidos. Equivocadamente precisamos nos afirmar em maestria. A ignorância aparece como desvio, estupidez, fraqueza. O que há de errado em reconhecer-se na incompletude? Por que a nossa falta de luz denota tamanha humilhação?

Naquela madrugada, algo fora despertado dentro de mim. Selei, calada, um pacto para toda a minha jornada. Tenaz e silencioso. Quero tudo o que seja decidual. Nada além do que uma vida entre dentes de leite.           

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