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Às avessas

 

“Para além das ideias de certo e errado existe um campo. Eu me encontrarei com você lá”  Rumi

 

Esta noite sonhei com alguém que fez parte do meu convívio íntimo por anos. Eu e ele,  apesar de vivermos próximos, nunca nos aturamos. No sonho havia uma estrada repleta de buracos e desfiladeiros. Eu conduzia a partir do banco de trás, com dificuldade, desviando do perigo. Um caminhão, desgovernado, ultrapassava-me e capotava, logo a seguir. Parei, aturdida. Meu desafeto saia da mata, inconformado com a cena grotesca. Reconhecíamo-nos, pois, a assistir os destroços do veículo. Ele me abraçava, chorando. Juntos, buscamos socorrer os passageiros. Não havia ninguém.

Olhei-o nos olhos e o questionei, mentalmente: “por qual razão sempre foste tão duro comigo?” Ele, desamparado, respondeu, também em silêncio: “porque jamais tolerei a tua capacidade de ser frágil.”

Acordei aliviada, a sentir uma reparação, vinda do Universo.

Acolheria-o, se pudesse, imediatamente no meu colo, afagaria seus cabelos, conectar-me-ia com a sua dor. Eu não sou uma pessoa rancorosa.

Ao descobrir o livro de Marshall Rosenberg, Comunicação Não Violenta, tive o ímpeto de pedir perdão a todos os seres humanos com os quais convivi. Pai, mãe, irmãos, amigos de infância, ex-namorados, colegas de trabalho. Para alguns pude enviar pequenos textos. Para outros enviei mensagens através das meditações. Contudo, jamais tive a coragem de escrever para a personagem do sonho. Foi uma profunda libertação cármica.

Sei que posso parecer arrogante, superior, ao declarar isso. Mas é o inverso. Sou imensamente falha com os meus. Inúmeras vezes fui ingrata com aqueles que mais amo. Sinto que, com eles, posso errar.

Talvez a linguagem seja o maior paradoxo humano.

A palavra é o amor mais doloroso da minha vida. Nasci, sem a menor possibilidade de escolher, em uma família literária. Em nenhum momento tive chance com os lápis de cor, telas, instrumentos musicais.

A escrita foi-me, desde menina, a maior de todas as libertações. Não sei falar, posso escrever. Não sei pedir perdão, posso escrever. Não sei amar, posso escrever.

Escrever em uma tempestade, encostada no caixote do lixo. Escrever, com a caneta violeta e cheirosa, no papel de carta. Escrever um bilhete no caderno rasurado. Escrever antes de viver, escrever acima do vivido, escrever para seduzir o interlocutor. Escrever.

No nascimento da minha irmã: escrevi. Ao perder meu namorado, na oitava série, escrevi. Para dominar o pavor que sentia, escrevi. Sinto que não existo, desprovida dessas armas sutis, escritas.

Por que as confissões, não escritas, parecem tão laboriosas?

Dizem que há um outro planeta, muito semelhante à Terra, onde são todos telepatas.

E se fôssemos todos telepatas? O que aconteceria com nossas relações, caso os outros soubessem verdadeiramente o que se passa dentro de nossas mentes vis? O que aconteceria com a literatura?

A comunicação, quando afastada da vulnerabilidade, leva-nos à violência. Somos treinados, desde crianças, a esconder nossos desejos, a travestir nossas carências, a ocultar as fraquezas. Entanto, há mais magia em sermos incompletos. E a poesia nos devolve esse sentimento. A poesia livra-nos da sordidez.

Hoje, ao acordar, mentalizei esse ser humano que fez parte da minha existência. Essa pessoa que eu julguei ter-me feito mal. E a ele pedi perdão. E a mim também. Libertei-me dessas memórias não afetivas. Espero que um dia possamos nos encontrar, em absoluta fragilidade, no mundo invertido.

Quem sabe, em uma manhã de outono, acordarei desarmada, telepática.

Enquanto isso vou enfrentar a realidade com poesia, escrever delírios, revisitar meus fantasmas no porvir.

 

Dedico este texto ao meu querido amigo Adriano Toloza, aquele me ensinou a olhar para os paradoxos com afeto.

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Bacalhau com natas

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“Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribundos.

Aquela relação que há entre o sono e a vida é a mesma que há entre o que chamamos vida e o que chamamos morte. Estamos dormindo, e esta vida é um sonho, não num sentido metafórico ou poético, num sentido verdadeiro.

Tudo aquilo que em nossas actividades consideramos superior, tudo isso participa da morte, tudo isso é morte. Que é o ideal senão a confissão de que a vida não serve? Que é a arte senão a negação da vida? Uma estátua é um corpo morto, talhado para fixar a morte, em matéria de incorrupção. O mesmo prazer, que tanto parece uma imersão na vida, é antes uma imersão em nós mesmos, uma destruição das relações entre nós e a vida, uma sombra agitada da morte.

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.

Povoamos sonhos, somos sombras errando através de florestas impossíveis, em que as árvores são casas, costumes, ideias, ideais e filosofias.

Nunca encontrar Deus, nunca saber, sequer, se Deus existe! Passar de mundo para mundo, de encarnação para encarnação, sempre na ilusão que acarinha, sempre no erro que afaga.

A verdade nunca, a paragem [?] nunca! A união com Deus nunca! Nunca inteiramente em paz mas sempre um pouco dela, sempre o desejo dela!”

Autobiografia sem factos, in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

 

As primeiras gotas de chuva se esqueciam de me pingar, protegida pelo ombrelone do quiosque, na Praça de Camões. Alguns minutos antes, em uma conversa digna da faculdade, daquelas em que saímos plenos de coragem e amor pelo existir, senti-me ínfima, perante o alumbramento. Meu amigo foi embora e eu tinha a obrigação de desvendar os caminhos, sedentos de futuro.

Como seria possível retornar à Lisboa, depois de tantos anos?

O choro começou em calmaria. Não havia pelo que desesperar. O voo estava confirmado para a próxima manhã. A cidade parecia destronada, em minha profética ausência. Alguns turistas insistiam em comer pastel de nata. Já não havia mais ninguém na esplanada, além de mim. Do outro lado, um homem com um chapéu de chuva, bem pequenino, tentava proteger seus pertences, coberto pelo telhado do banco. O slogan de um cor de rosa tão familiar, anos 90.

“Se ele ficar um pouquinho mais à esquerda, tiro uma foto primorosa”, pensei. E pedi. Já não possuía nenhuma dúvida, nada me era mais importante do que ser eu, em Lisboa. E, se possível, eternizar aquela noite, aquele dilúvio. Talvez a nossa última separação.

O homem assentiu, como se soubesse do nosso encontro. Depois de tirar umas tantas fotos, dirigindo meu modelo, fui ao pé dele, para agradecer aos instantes cinematográficos.

Só ai é que pude enxergar os seus pertences: meia dúzia de papelões, encharcados. Ele, muito ruivo, barbudo, logo veio reclamar:

– É muito difícil ser morador de rua cá, no Camões. Especialmente quando chove!

– Não posso concordar. Não é fácil ser mendigo em qualquer parte do mundo. O senhor não conhece a Cracolândia, em São Paulo.

David é romeno, mas já mora em Lisboa há treze anos. Fala oito línguas fluentes e é viciado em História.

Fumamos um cigarro. Peguei meu telemóvel, para checar as horas: 20h20. Havia combinado de jantar no Bairro Alto, para me despedir do Matheus, amigo lisboeta de longa data.

Olhei para a beata do cigarro de David. Ela se diluia na calçada de pedra sabão. Talvez mais próxima aos seus sonhos do que ao meu jantar. E decidi. Iria levá-lo para comer bacalhau com natas. Telefonei ao Matheus:

– Vou levar o mendigo para o jantar.

Ele, de família circense, canceriano e leve, nada questionou. Disse-me:

– Óbvio que sim!

Fomos ao Baiuca, na rua da Barroca. A gentileza de Izidro, o garçom, e da Eliana, a dona, já amenizavam as águas e o medo que eu tinha de levar um morador de rua a um restaurante. Pensamento burguês e nefasto.

Por qual razão teria problema em fazer isso?

De qual sociedade eu tentava me esconder, com meu inusitado convite?

De quem eu estava com vergonha, ao dividir uma refeição com outro ser humano?

Pedimos vinho, aceitamos o couvert farto. Esqueci-me dos euros e da lógica mesquinha. Era minha última noite na cidade em que iria viver para sempre, um dia. David ria, contava suas desventuras amorosas, as dores sutis.

Não havia reclamações sobre a comida, sobre o colchão, acerca das estrelas. Matheus e eu ficamos inertes, naqueles relatos tão certeiros, tão nossos. Como é que uma casa pode nos afastar tanto de alguém que também sonha os óbvios?

Decidi continuar a festa com o mendigo. Fomos à Alfama, ouvir clássicos fadistas, jovens brasileiros e toda a gente que se dispôs a tocar um instrumento, entre o Beco do Vigário e a igreja de Santo Estêvão.

E eu, não sentia pena alguma de pagar uns copos para o gajo. Sentia era pena de mim, obrigada a apanhar o voo, às 10 da manhã. Alfama amarelecia a minha ira, a fome, a lucidez. E as horas passavam entre ginjas e silêncios. Em poesia e despejos. Entre o cúmplice e o cárcere.

No dia a seguir, perdi o voo e o trabalho.

Tive de deixar Lisboa, pela última vez, dois dias depois.

Passei exatos seis meses em São Paulo, arquitetando a espera, condenando a saudade, suplicando por aqueles papelões na praça.

Quando voltei, ao mesmíssimo restaurante, com os olhos repletos de quimeras e os julgamentos afiados, fui surpreendida:

– Mariana, o mendigo foi o maior presente que esse restaurante já teve. Ele vem cá toda semana, traz inúmeros gringos e ainda diz que temos o melhor bacalhau com natas da cidade. Tu nos fizeste um bem enorme de o ter trazido.

Aceitei aquelas palavras.

O mundo invertido foi inaugurado naquele instante.

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