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432 Hz

 

“Hoje preciso comprar a melatonina, com urgência”. Ela, que ainda não havia dormido, levantou-se para praticar a meditação de todas as manhãs. Água a ferver, banho, café no coador. O jornal só depois de sentir a inclemência das gotas quentes a abrir os poros, exaustos de insônia.

 

“Pelo menos hoje é sexta-feira”. Este foi o seu único pensamento feliz, naquele alvorecer inóspito. Não havia desvãos para a sua incompletude, às seis e meia. Quaisquer afagos provenientes de exercícios de autoajuda seriam condenados pela sua condição, trêmula. Ah, a falta que existe em despertar sem ter adormecido. Somos seres tolhidos em quimeras, fatalmente.

 

Hoje seria o dia daquela reunião, ridícula, típica de meio de ano. O chefe apresentaria os goals corporativos. As pessoas fingiriam obedecer, num bizarro espetáculo lacaniano de não ditos. Uns já combinariam, a priori, a cerveja vagabunda e gelada das sete. Outros se refugiariam no pôr-d0-sol ostentado pelas igrejas. Colegas passariam quase três horas e meia no vagão lotado até os fins de mundo particulares. Ela só pensava na farmácia, crepuscular.

 

Quando a noite finalmente chegou, pode parar de fingir que ainda trabalhava. Era muito feio sair do escritório antes das oito, em seu cargo de liderança. Por mais que tivesse concluído a enorme lista de tarefas às quatro, ela compreendia o jogo robotizado: a permanência como estilo, conceito, lição. “Eu já sou quase profissional na paciência”, ironizou, exercendo, uma vez mais, suas patéticas meditações positivas.

 

Saiu, melancólica, a pé. Fazia dez graus àquela altura. “Como amo esse tempo!” Podia ir à casa sem derramar uma gota de suor. O inverno, prematuro, era um milagre para o seu humor.

 

O comércio, no entanto, não reagia com a mesma gratidão à temperatura. Tudo estava fechado. Até a farmácia. Ela precisava dormir, de qualquer forma. “Vou à loja de vinhos, que está aberta até às nove. Devem ser os únicos, como eu, que deleitam-se com o frio inesperado de abril”.

 

Era uma grande cliente deste sítio. Os vendedores a cumprimentavam, saciados. A sede da mulher era sempre de tempestades. Jamais compraria uma única garrafa.

 

O dono da loja a acompanhou nas escolhas. Era grisalho e alto. Talvez tenha sido bonito na juventude. Sua pele era rosada, típica de enólogos. Evidenciava que a dor possa ser convertida em álcool.

 

“Este vinho é M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O! Eu mesmo o trouxe da vinícola. Como a senhora é habitué, vou fazer um preço especial. E já separo seu queijo da Serra da Estrela, os cogumelos desidratados, um quilo e meio de azeitonas chilenas. Há algo que nos vai surpreender, hoje, querida?”

 

“Não suporto ser chamada de querida”, interrompeu a longa e forçada contemplação que a acompanhara o dia todo. Além disso, ela se sentiu estúpida de ser tão previsível, para seres humanos que mal a conheciam. “Vou levar também esse chocolate do mar, belga, querido”.

 

A devassidão daquele olé no grisalho, austero, dono da loja a conectou com a sintonia profunda ao Universo. Quase como navegar pelas poderosas ondas 432 Hz, sem precisar de música. O quão bom era ser superior àquela criatura? “Eu me amo e sou correspondida, otário. Namastê”.

 

Precisaria realmente celebrar a evolução de consciência que finalmente se instalara, em sua reprogramação emocional. Todos aqueles meses de Yôga e mentalizações estavam surtindo efeito.  “Já que não tenho a melatonina, tomo duas garrafas desse vinho e durmo doze horas seguidas. Quebro meu ritual de sábado para atender às necessidades do corpo. A alma pode, enfim, esperar”.

 

Ao chegar em casa, a mulher guardou as óbvias compras na geladeira. Lavou o decanter, há meses largado no armário maciço de madeira. O cheiro do abandono impregnava no cristal, adormecido desde a sua separação. “Tempo de ressignificar estes séculos de espera”.

 

Após o jantar – uma sopa detox composta de agrião, linhaça, espinafres, quilos de gengibre, cenoura e inhame – ela pousou o queijo, divino, à table. Escolheu seu melhor cálice para abrir os buquês daquele elixir da Natureza. O vinho era a última bebida que fazia parte de sua rigorosa dieta ortomolecular.

 

Antes de trazer à boca o primeiro gole, girou a taça, em círculos perfeitos, para emancipar todos os aromas. Apreciou, com calma, cada um deles: morango, gerânio, um toque de pimenta. Ah, como era bom saber-se conhecedora de vinhos!

 

Em contato com as papilas gustativas, algo se passou, de repente. Um gosto de infância a acometeu. Árvores, exauridas em jabuticaba, no quintal da casa da avó. Risadas dos primos ao redor do galinheiro. Os olhos gentis do caseiro à espera que ela encontrasse os bilhetes deixados pelas fadas, entre as folhas de bananeira.

 

Pôs Chet Baker na vitrola para afugentar o recôndito gosto que se aflorava, ali, depois de quarenta anos. Tomou dois copos de água com gás. Engoliu as memórias, banquete inesperado do cérebro.

 

O segundo cálice veio andrajo, vacilante. Sabia a mar e a meteoros, em noite de réveillon. Conjectura lívida, desprovida de anseios. Manteiga na pipoca, circo, mágicos conduzindo voos. Uma dor inescrupulosa desferiu-lhe os seios. A saudade se ofertava, menina.

 

Trocou o disco. Repetiu os mantras que apaziguavam as culpas. Meditou sobre o terceiro olho, onde reinava a intuição. Lembrou-se, em chakras e lágrimas gordas, que seu cachorro havia morrido. Um mês antes de estar sozinha, novamente.

 

Aquela garrafa de rótulo sóbrio, cores acinzentadas, proveniente de terras tão distantes, despertava cada uma de suas súplicas, naufragadas. Três casamentos, dois abortos, o avô vegetando na U.T.I. Era, sem dúvida, o melhor vinho que havia bebido em toda a sua existência.

A cada gole, uma tortura. Uma gota por imagem. Milímetro a milímetro, nostalgia iminente. A rolha, de cortiça, não era um aglomerado de outras rolhas. Única. Que rolha! Que rolha perfeita.

 

Antes de deitar a rolha natural no estranho compartimento, destinado ao passado dos porres, reviu a cena: sofá intacto, queijo pela metade, gogi berrys atrapalhando o caos. Pão orgânico, intocado, à mesa. “Talvez seja este o cerne da loucura”, refletiu, inebriada. Desacontecer. “Um vinho sem testemunhas”.

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Sobre o voar

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Eu sempre organizava a casa para a chegada do Tom. Comprava leite Ninho, lia a programação infantil do fim de semana, punha mais água nas plantas. O ritual de sua vinda me fazia um homem mais sereno. Deixava de lado as noitadas regadas à gin tônica ou uísque sour. Esquecia-me do computador, dos meus funcionários, de tomar o antidepressivo.

Às vezes, confesso, ainda me dá medo de como será nosso encontro. Nem sempre estamos em plena sintonia. Por mais que nos esforcemos, os dois, há a estranheza da ausência, o escândalo da demora, a vertigem de me ver, em outros olhos.

O Tom mora com a mãe, no Recife, desde os dois anos de idade. A cada quinze dias ele vem me visitar em São Paulo. Este fim de semana era especial – feriado prolongado. Tínhamos cinco dias para desbravar dinossauros, visitar planetas pueris, desenhar universos encantados.

Decidi convidar duas amiguinhas do jardim de infância, no sábado. Sinceramente, não sabia se elas ainda lembrariam dele. Quando se tem dois anos e o cérebro ainda em construção, é impossível discernir qual lembrança escolherá a memória como casa.

A Beatriz e sua mãe chegaram pontualmente às três horas. O sorriso da pequena era capaz de me salvar de todos os pesadelos que tive, quando criança. A inesgotável felicidade de quem vive os instantes em doses homeopáticas. Sua alegria em ver meu filho, austero, menino, transbordava os quartos e os contos de fadas. Paixão mesmo.

A outra menina demorou mais de uma hora para se juntar àquela sala de verdades inventadas. Sua mãe, Maíra, uma socialite que não estava acostumada a dirigir o próprio carro, tivera dificuldade em estacionar. Eu moro ao lado do Morumbi e era final do Campeonato Paulista.

Enquanto a Julia, rebenta da burguesa insossa, não chegava, parecia-me óbvio que Beatriz se esbaldava na exclusividade com o Tom. Envergonhadíssima e alerta. Elegia todos os seus brinquedos preferidos. Enredava desvarios de eternidade. Sorria, tímida, à espera da aprovação da mãe que, estarrecida, buscava alguma cumplicidade no meu olhar.

A tarde durou menos que um pôr do sol de outono. Quando me deparei com o relógio de mesa, uma relíquia vintage comprada na semana anterior, já passava das oito. Repletas de brigadeiros e poesia, as meninas se despediram do Tom e de mim. Reparei nos sorrisos escondidos na íris de Beatriz. Sua mãe, acanhada, veio me confessar, baixinho:

– A Bia fala toda hora do Tom. Ele é o primeiro amor da vida dela, mesmo sem vê-lo.

Atordoado, passei a noite pensando naqueles primeiros afetos. Amores que levamos em formas de nuvens. Amores que se dissipam nos azuis e esquecemos para sempre.

No dia seguinte, levei o Tom para Guaecá. Achei que nossas horas seriam melhores, longe do caos da Pauliceia. Lá, distraído pelo cheiro de algas e mergulhado nos escritos de Henry Miller, recebi um vídeo da mãe da Bia. Elas haviam estado no Borboletário de São Paulo, naquele momento. Uma borboleta, silenciosa, atreveu-se a pisar no nariz da menina. A mãe, orgulhosa, registrava a doçura com o celular, quando a filha lhe disse:

– Borboleta, quero que você vá até o Tom, que mora no Recife!

Uma delicadeza enorme e corroída me suspendeu em quimeras. Como é possível uma criança sentir esse absurdo gratuito que é o amor, nessa idade?

Mostrei o vídeo, imediatamente, ao meu filho, exausto de oceanos. Ele, menino, mostrou-se profundamente desinteressado:

– Papai, eu detesto borboletas!

Senti-me um imbecil. Por ser homem; por entendê-lo; por testemunhar tamanha atrocidade, vinda dele. Meu pequeno paraíso repetia as mesmices que eu tanto abominava. Onde havia escondido sua sensibilidade?

Passei o domingo inteiro e boa parte da manhã de segunda a explicar ao Tom sua impassibilidade com a amada. Argumentei que nada era relacionado às borboletas. Só existia o desejo de endereçar saudades, algures.

Não tive a certeza de que ele me entendeu, até o fim do dia. Entramos no mar, ainda morno de sol. Uns quatro peixinhos, gêmeos, invadiram a paisagem. Eram amarelos com detalhes rosados. O Tom, inebriado pela possibilidade de agradecer, tentou encarcerá-los com os dedos, miúdos. Falou, com a liberdade dos deuses:

– Vou guardar esses peixinhos para a Bia, papai. Quem sabe ela também goste de voar para dentro!

Embasbacado, eu não consegui pensar em outra coisa: tornei-me pai para regressar ao Nunca.

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O Presságio dos Adeuses

 

O abandono primeiro é a morte do silêncio. Antes do nascimento das cores fartas da aurora, são pássaros a anunciar o desvanecimento da noite. O sol, pois, é um mero coadjuvante na solidão arquetípica – escura – do poeta. Ah, quanta candura envolve os devaneios uterinos, na impossibilidade de adiar a despedida!

Manuel Bandeira auscultou – ouvido cósmico e maldito – os olhos à espera da carne. Ele estava certo: o olhar antecipa-se ao presente, premeditando inegáveis acontecimentos. Por qual razão se possui um órgão em tamanha desigualdade com o resto do corpo?

E assim aconteceu.

A última lucidez invadia a íris manhã de Carlos. Apressado – como deveriam ser os derradeiros – pôs seu sobretudo de lã marrom por cima do pijama quadriculado, calçou os tênis surrados com as solas quase atingindo a carne da terra; e desceu em direção à padaria.

Bebeu um café demorado, dando goles entorpecidos pela nítida claridade. Nunca havia gostado de presenciar o barulho dos ônibus daquela esquina, tampouco os transeuntes felizes, em plena segunda-feira. Porque, em entardeceres dominicais, estão fecundas todas as promessas. E brutalmente se esvaem, aniquiladas pelos pecados cometidos algumas horas depois. Segundas-feiras são fúnebres para aqueles que sonham.

Comprou o jornal, travestido de rotina. Nenhuma boa notícia permeava o universo. Sequestros, assaltos. Lixo sensacionalista. Mas o pior de tudo era saber que o jornalismo engolia seu epitáfio na assinatura de seus repórteres.

Carlos deu-se ao direito de não almoçar. As obrigações jaziam frente à sua escolha. Pensou no quanto se sentia privilegiado de ter aquele dia restante. Era azulado – porém frio – como são as miragens.

No fim da tarde, apareceu no armazém de vinhos. Lá todos o conheciam e o tratavam com certa estima. Ele desconfiava que fosse apenas o dinheiro depositado, semana após semana. No entanto, quais relações em sua vida não eram emolduradas pelo desconcertante viés das máscaras? Quando houve amor verdadeiro, clichê indigno da poesia?

Saiu de lá com duas garrafas caríssimas. E alguns maços de cigarros – contrabandeados – por terem sabor. Impressionante como até o gosto do tabaco incomoda a política execrável desses tempos.

Abriu a porta de casa. Duas longas voltas na chave, como era de costume. Parecia a primeira vez que aquela mania o acorrentava. Não, Carlos. Nunca mais duas voltas na chave, nunca mais o armazém, nunca mais o café expresso com a xícara manchada de batom da padaria barata, nunca mais saborear a doçura dos céus gelados, vertiginosos de julho.

À fumaça que insiste em sair da sua boca: adeus. Ao gosto frutado do vinho: adeus.

Os dedos estão trôpegos, é o inebriar da madrugada amolecendo os órgãos, exauridos. A saudade começa a arder nos olhos, anuviados. Quando a noite acaba? Como será o ontem, para o louco que se despediu da realidade?

Mário de Sá Carneiro, certa vez, disse a Fernando Pessoa (que acabara de confessar a sua loucura ao melhor amigo) que ele era ainda mais louco, pois não conseguia conservar nem os vícios. Enquanto o poeta maior maldizia seu apreço pelo álcool, como lhe dilacerava a incessante vontade de fumar, Mário de Sá Carneiro se queixava de ser tão louco, mas tão louco, que não tinha nem a organização de um viciado. Para termos vícios, Carlos, é imprescindível planejamento. E isto calcularia a normalidade de um ser humano?

Desculpe-me por invadir a narrativa. Entendo que a alma siga violenta, sonâmbula, quando é desperta subitamente por um cheiro antigo. Inocentes e libertos somos, por aromas de porão. Ah, inaudita memória que nos atinge e nos expulsa da falsidade ideológica, em posições fetais!

Todavia, Carlos, ao vestir-se de branco, sem mangas, você me abandona. Estou envolta em nós cegos. O presságio navega pelos olhos vazios, sedentos de inspiração. Também eu perdi minhas letras borradas de nanquim. Agora só consigo escrever sob as duras linhas da caligrafia, ordenadas, com destino traçado em obviedade. Nenhuma desistência traz a nobreza dos heróis.

As trilhas nunca amparam aquilo que não foi desbravado – a não ser em seus fins. Acessar o desconhecido, Carlos, submete-nos àquilo que não estamos (e jamais seremos) preparados. Para ficar, inúmeras vezes, é preciso partir de nós mesmos. E cabe à familiaridade nos dizer quando é tempo de cheganças.

Os adeuses, Carlos, podem ser tristes, como a menina que vislumbra seu amado desaparecer enevoado pelas ávidas novidades. Podem ser doces, como a insônia que precede o novo emprego. Podem ser frios, como o féretro que protege o ente querido. Entretanto, talvez seja novidade, todo e qualquer presságio que inaugura sua alma também é matéria onírica para mim.

Reside aqui, na emancipação da miopia, na expulsão da menor quimera, no alívio das lágrimas, quando o gordo sonho ocupa a nossa casa por inteiro.

Render-se ao isolamento, à incompreensão, ao delírio não fará sua existência mais pertinente que a minha. Somos igualmente afetados pela mediocridade, pelo esquecimento, pelo medo.

Contudo, ao tê-lo ao meu lado, Carlos, neutralizo meus fantasmas. Posso pacificar meus compassos, órfãos. No pequenino interstício que nos une, sinto-me plenamente contornada. Não me deixe só. Eu suplico: edifica-me com o seu desamparo, para  que eu possa reverdecer, epifânica.

 

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Perdi meu amor em Lisboa

Antes de tu chegares jamais pude escolher o meu sonhar. E, confesso, desde pequenina tentava driblar esses vastos porões do inconsciente – a fim de domá-los. Arrogante que era, acreditava que as fúrias de minha profundeza também me pertenciam, domesticáveis.

Porém, certa noite, desejei ter-te cá dentro da minha narrativa selvagem. Aceitei ser títere dos baús empoeirados, abrir os lacres poderosos da razão. E sonhei com a possibilidade de estar ao teu lado.

Na altura eu era jovem e louca e infantil. Não havia aprendido a linguagem nítida dos devaneios noturnos. Estrangeira. Sozinha. Liberta das amarras do pertencimento.

O sonho era óbvio. Literal – como são essas terras. Estávamos em uma festa, dispersos nas conversas triviais com conhecidos e outras pessoas que trouxe do meu país para o sonho. Embriagados e obtusos.

Acordei. Invólucro, ainda, de vinhos não entornados. Desorientada de estar na realidade de mais um dia. Fui à tua procura, certa de que deveria desanuviar as incertezas, apagar a lembrança não vivida. Quantas horas passamos a falar! Tu, totalmente imune ao meu sonho, enquanto eu tentava rebobinar as fantasias para ver se faziam jus aos porões.

No entanto, foi a noite seguinte que consumiu a profecia autorrealizadora. Depois de um jantar irrelevante. Ah, como me senti manipuladora nos instantes que precederam o beijo. Porque já o havia beijado antes, mesmo que tu não soubesses disso.

Não aguardava o amanhã que te trazia novamente. Não era mais sonho, não havia roteiro traçado. E tu estavas lá, à minha espera. Com os olhos negros e vazios, convidando-me a preenchê-los com a minha própria vida. Como compreendeste cedo as canções impronunciáveis de meus artistas natais! Ensinaste a mim a literatura anciã dos navegantes e os ventos que compõem as tempestades. Foi assim que aprendi: as calmarias duradouras são perigosas iminências do mudar.

Tu desmembraste minha família destruída, colocaste-me no rígido papel de protagonista. As minhas lágrimas vitimizadas perdiam, a cada momento, seu triunfal poder de convencimento. E eu, tão pobre de retórica, tão fraca em me expressar na tua língua, via-me solo das sementes inesgotáveis.

Com o paganismo infantil, ampliava meus ouvidos para a música que só tu eras capaz de explicar, em gestos magistrais de professor. Distinguia cada um dos Beatles nas canções – pela forma, conteúdo, voz. Contudo, admito que avistava em Ringo o mais estranho dos personagens e, por isto, o amava a revelia dos truísmos.

Mas, também eu era capaz de ensinar. A tua robustez nutria meu cerne, pouco a pouco. Conseguia traduzir em notas os minúsculos poros da tua pele exótica. Discorria sobre as engenhosas construções matemáticas que compõem uma tessitura. Compartilhava meus costumes gélidos, explicando como a minha nação não tinha condições de agregar culturas indígenas. Preparava refeições, no ímpeto de alimentar tuas inspirações literárias.

Pude resgatar a ti dos abismos atrozes onde moram os pesadelos, ao levar-te por um passeio inusitado à beira do Tejo, em madrugada estelar. Tua alma, cintilante, finalmente atingia a incomensurável felicidade. Sempre nos gestos banais, microscópicos, eu estava a exercer a função pedagógica do amor.

Quis casar-me contigo, todos os dias, embora não possuísse emprego fixo nem curso superior. Obedeci, pois, a cada um dos fugazes impulsos que vivia meu coração apaixonado.

Paulatinamente, amado, fui recuperando meu ser esquecido, antes pelos lamentos. Enquanto as tuas raízes convertiam-se em maleabilidade, minha casa ganhava ornamentos. Tu vivias anseios de naufrágios juvenis, corajosos e típicos de quem sabe navegar. Eu queria apenas fincar minha bandeira em solo clandestino.

Nevoeiros tornam-se sutis, frente aos temporais.

Assim, nossa cumplicidade telepática foi tornando-se adúltera. Tu, sedes de além-mar. Eu, quimeras continentais, com horror aos arquipélagos. Nossa solidez, taciturna, foi-se devastando em crescimentos incompatíveis, alheia à intersecção primeira.

Tu foste à África, buscar os sons que engrandecem tua língua. No Brasil, abandonaste as feições tristes do fado. Descobriste a razão de ter os pés sempre a tremer. Era o samba, erupção vulcânica, escondido em tua carne.

Simultânea, interpretei todos os azuis dessa cidade, atrás do teu rastro. Deitei pelas noites gentis, a enlanguescer-me. Retornei, apática, à fonética carecida de poesia de meus iguais.

Dissipamo-nos, faíscas, como a breve carcaça das fogueiras.

Desaprendeste de mim? Conseguiste caminhos em tua memória que apagassem meu nome? Pois esforço-me imenso, até hoje, por fórmulas imediatas de revogar. Invoco lúcidos sonhos que me retirem de Lisboa, berço desse lirismo tolo. Um eclipse irrefutável, talvez.

Escrevo para calar aquilo que reverbera. Esquecer-te desperta, em vigília. Onírica, já sabes, serei incapaz de deitar-te fora. A noite sempre me chega para rarefazer as cicatrizes, para enaltecer os domínios dos quais não sou senhora.

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A casa tomada*

*Julio Cortázar

Gostávamos da casa porque, além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.

Acostumamo-nos Irene e eu a persistir sozinhos nela, o que era uma loucura, pois nessa casa poderiam viver oito pessoas sem se estorvarem. Fazíamos a limpeza pela manhã, levantando-nos às sete horas, e, por volta das onze horas, eu deixava para Irene os últimos quartos para repassar e ia para a cozinha. O almoço era ao meio-dia, sempre pontualmente; já que nada ficava por fazer, a não ser alguns pratos sujos. Gostávamos de almoçar pensando na casa profunda e silenciosa e em como conseguíamos mantê-la limpa. Às vezes chegávamos a pensar que fora ela a que não nos deixou casar. Irene dispensou dois pretendentes sem motivos maiores, eu perdi Maria Esther pouco antes do nosso noivado. Entramos na casa dos quarenta anos com a inexpressada idéia de que o nosso simples e silencioso casamento de irmãos era uma necessária clausura da genealogia assentada por nossos bisavós na nossa casa. Ali morreríamos algum dia, preguiçosos e toscos primos ficariam com a casa e a mandariam derrubar para enriquecer com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos com toda justiça, antes que fosse tarde demais.

Irene era uma jovem nascida para não incomodar ninguém. Fora sua atividade matinal, ela passava o resto do dia tricotando no sofá do seu quarto. Não sei por que tricotava tanto, eu penso que as mulheres tricotam quando consideram que essa tarefa é um pretexto para não fazerem nada. Irene não era assim, tricotava coisas sempre necessárias, casacos para o inverno, meias para mim, xales e coletes para ela. Às vezes tricotava um colete e depois o desfazia num instante porque alguma coisa lhe desagradava; era engraçado ver na cestinha aquele monte de lã encrespada resistindo a perder sua forma anterior. Aos sábados eu ia ao centro para comprar lã; Irene confiava no meu bom gosto, sentia prazer com as cores e jamais tive que devolver as madeixas. Eu aproveitava essas saídas para dar uma volta pelas livrarias e perguntar em vão se havia novidades de literatura francesa. Desde 1939 não chegava nada valioso na Argentina. Mas é da casa que me interessa falar, da casa e de Irene, porque eu não tenho nenhuma importância. Pergunto-me o que teria feito Irene sem o tricô. A gente pode reler um livro, mas quando um casaco está terminado não se pode repetir sem escândalo. Certo dia encontrei numa gaveta da cômoda xales brancos, verdes, lilases, cobertos de naftalina, empilhados como num armarinho; não tive coragem de lhe perguntar o que pensava fazer com eles. Não precisávamos ganhar a vida, todos os meses chegava dinheiro dos campos que ia sempre aumentando. Mas era só o tricô que distraía Irene, ela mostrava uma destreza maravilhosa e eu passava horas olhando suas mãos como puas prateadas, agulhas indo e vindo, e uma ou duas cestinhas no chão onde se agitavam constantemente os novelos. Era muito bonito.

Como não me lembrar da distribuição da casa! A sala de jantar, lima sala com gobelins, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá para a rua Rodríguez Pena. Somente um corredor com sua maciça porta de mogno isolava essa parte da ala dianteira onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos e o salão central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um corredor de azulejos de Maiorca, e a porta cancela ficava na entrada do salão. De forma que as pessoas entravam pelo corredor, abriam a cancela e passavam para o salão; havia aos lados as portas dos nossos quartos, e na frente o corredor que levava para a parte mais afastada; avançando pelo corredor atravessava-se a porta de mogno e um pouco mais além começava o outro lado da casa, também se podia girar à esquerda justamente antes da porta e seguir pelo corredor mais estreito que levava para a cozinha e para o banheiro. Quando a porta estava aberta, as pessoas percebiam que a casa era muito grande; porque, do contrário, dava a impressão de ser um apartamento dos que agora estão construindo, mal dá para mexer-se; Irene e eu vivíamos sempre nessa parte da casa, quase nunca chegávamos além da porta de mogno, a não ser para fazer a limpeza, pois é incrível como se junta pó nos móveis. Buenos Aires pode ser uma cidade limpa; mas isso é graças aos seus habitantes e não a outra coisa. Há poeira demais no ar, mal sopra uma brisa e já se apalpa o pó nos mármores dos consoles e entre os losangos das toalhas de macramê; dá trabalho tirá-lo bem com o espanador, ele voa e fica suspenso no ar um momento e depois se deposita novamente nos móveis e nos pianos.

Lembrarei sempre com toda a clareza porque foi muito simples e sem circunstâncias inúteis. Irene estava tricotando no seu quarto, por volta das oito da noite, e de repente tive a idéia de colocar no fogo a chaleira para o chimarrão. Andei pelo corredor até ficar de frente à porta de mogno entreaberta, e fazia a curva que levava para a cozinha quando ouvi alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca. O som chegava impreciso e surdo, como uma cadeira caindo no tapete ou um abafado sussurro de conversa. Também o ouvi, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que levava daqueles quartos até a porta. Joguei-me contra a parede antes que fosse tarde demais, fechei-a de um golpe, apoiando meu corpo; felizmente a chave estava colocada do nosso lado e também passei o grande fecho para mais segurança.

Entrei na cozinha, esquentei a chaleira e, quando voltei com a bandeja do chimarrão, falei para Irene:

— Tive que fechar a porta do corredor. Tomaram a parte dos fundos.

Ela deixou cair o tricô e olhou para mim com seus graves e cansados olhos.

— Tem certeza?

Assenti.

— Então — falou pegando as agulhas — teremos que viver deste lado.

Eu preparava o chimarrão com muito cuidado, mas ela demorou um instante para retornar à sua tarefa. Lembro-me de que ela estava tricotando um colete cinza; eu gostava desse colete.

Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou numa garrafa de Hesperidina de muitos anos. Freqüentemente (mas isso aconteceu somente nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza.

— Não está aqui.

E era mais uma coisa que tínhamos perdido do outro lado da casa.

Porém também tivemos algumas vantagens. A limpeza simplificou-se tanto que, embora levantássemos bem mais tarde, às nove e meia por exemplo, antes das onze horas já estávamos de braços cruzados. Irene foi se acostumando a ir junto comigo à cozinha para me ajudar a preparar o almoço. Depois de pensar muito, decidimos isto: enquanto eu preparava o almoço, Irene cozinharia os pratos para comermos frios à noite. Ficamos felizes, pois era sempre incômodo ter que abandonar os quartos à tardinha para cozinhar. Agora bastava pôr a mesa no quarto de Irene e as travessas de comida fria.

Irene estava contente porque sobrava mais tempo para tricotar. Eu andava um pouco perdido por causa dos livros, mas, para não afligir minha irmã, resolvi rever a coleção de selos do papai, e isso me serviu para matar o tempo. Divertia-nos muito, cada um com suas coisas, quase sempre juntos no quarto de Irene que era o mais confortável. Às vezes Irene falava:

— Olha esse ponto que acabei de inventar. Parece um desenho de um trevo?

Um instante depois era eu que colocava na frente dos seus olhos um quadradinho de papel para que olhasse o mérito de algum selo de Eupen e Malmédy. Estávamos muito bem, e pouco a pouco começamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.

(Quando Irene sonhava em voz alta eu perdia o sono. Nunca pude me acostumar a essa voz de estátua ou papagaio, voz que vem dos sonhos e não da garganta. Irene falava que meus sonhos consistiam em grandes sacudidas que às vezes faziam cair o cobertor ao chão. Nossos quartos tinham o salão no meio, mas à noite ouvia-se qualquer coisa na casa. Ouvíamos nossa respiração, a tosse, pressentíamos os gestos que aproximavam a mão do interruptor da lâmpada, as mútuas e freqüentes insônias.

Fora isso tudo estava calado na casa. Durante o dia eram os rumores domésticos, o roçar metálico das agulhas de tricô, um rangido ao passar as folhas do álbum filatélico. A porta de mogno, creio já tê-lo dito, era maciça. Na cozinha e no banheiro, que ficavam encostados na parte tomada, falávamos em voz mais alta ou Irene cantava canções de ninar. Numa cozinha há bastante barulho da louça e vidros para que outros sons irrompam nela. Muito poucas vezes permitia-se o silêncio, mas, quando voltávamos para os quartos e para o salão, a casa ficava calada e com pouca luz, até pisávamos devagar para não incomodar-nos. Creio que era por isso que, à noite, quando Irene começava a sonhar em voz alta, eu ficava logo sem sono.)

É quase repetir a mesma coisa menos as conseqüências. Pela noite sinto sede, e antes de ir para a cama eu disse a Irene que ia até a cozinha pegar um copo d’água. Da porta do quarto (ela tricotava) ouvi barulho na cozinha ou talvez no banheiro, porque a curva do corredor abafava o som. Chamou a atenção de Irene minha maneira brusca de deter-me, e veio ao meu lado sem falar nada. Ficamos ouvindo os ruídos, sentindo claramente que eram deste lado da porta de mogno, na cozinha e no banheiro, ou no corredor mesmo onde começava a curva, quase ao nosso lado.

Sequer nos olhamos. Apertei o braço de Irene e a fiz correr comigo até a porta cancela, sem olhar para trás. Os ruídos se ouviam cada vez mais fortes, porém surdos, nas nossas costas. Fechei de um golpe a cancela e ficamos no corredor. Agora não se ouvia nada.

— Tomaram esta parte — falou Irene. O tricô pendia das suas mãos e os fios chegavam até a cancela e se perdiam embaixo da porta. Quando viu que os novelos tinham ficado do outro lado, soltou o tricô sem olhar para ele.

— Você teve tempo para pegar alguma coisa? — perguntei-lhe inutilmente.

— Não, nada.

Estávamos com a roupa do corpo. Lembrei-me dos quinze mil pesos no armário do quarto. Agora já era tarde.

Como ainda ficara com o relógio de pulso, vi que eram onze da noite. Enlacei com meu braço a cintura de Irene (acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de partir senti pena, fechei bem a porta da entrada e joguei a chave no ralo da calçada. Não fosse algum pobre-diabo ter a idéia de roubar e entrar na casa, a essa hora e com a casa tomada.

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Corrigindo a vida

Há temor maior que a abertura de um livro? A surdez que antecede o espamo. Aquele momento fugidio – e para tantos sem nenhuma importância – em que se dilacera a capa? Existe alguma taquicardia superior ao deflorar açucarado desse rompimento?

Pois bem, eu cresci sentindo essa emoção. Cada página mergulhada me foi mais importante do que beijo de namorada. Por muito tempo, senti-me um estrangeiro de mim mesmo, um foragido do planeta, caminhante de muletas.

Olho hoje para tudo o que se considera mundo e me choco. Agora, agora que tenho pessoas em minha posse, agora que há relações verdadeiramente humanas pulsando dentro das minhas emoções, questiono-me sobre o meu teórico aprisionamento.

As pessoas que passam por mim – ao contrário dos meus esféricos personagens de outrora – são cartões postais de si mesmas. Paisagens magistrais, mentiras fotográficas, sóis em brasa sem luz alguma. Todos com um estarrecedor medo de viver.

Empiricamente, vejo que não há depressão, bipolaridade, ansiedade ou esquizofrenia. A maior patologia de todos é a própria vida. Pavor ao câncer, ódio à pobreza, ojeriza à criminalidade. Medo de matar, medo de morrer, medo da loucura, medo de desvelar a verdade. Medo do adoecer. E é tão devastador esse medo de viver que o medo torna-se invólucro do enfermo. E se morre, literalmente, de tanto se pensar na iminência dos perigos.

Dir-nos-ia o mestre Guimarães Rosa que o viver é muito perigoso. Quantas vezes fui acusado de covarde, pela escolha da literatura! Eu? Eu que naveguei por abismos impossíveis, por angústias algemadas. Eu que não recolhi os pulsos, para não esconder os quelóides do suicídio fracassado. Eu que dormi ao relento, acompanhado de seres inumanos. Fui, inerte, o grande protagonista dos anoiteceres da alma! Eu e os meus autores. Testemunha da única verdade. Porque escrever é ter a nudez tatuada.

Em minha casa não entra ninguém que não tenha sido convidado. Na minha cama só há espaço para volúpias. As mulheres dos meus devaneios têm lábios mais maduros e seios desprovidos de consertos mesquinhos. E as páginas me engravidam de vocabulários e sonhos e sentidos redondos. E, às vezes, eu declamo minha cumplicidade para impregnar minha sala em amarelecidas fumaças. Inebrio-me com o gosto mofado dos anos. E durmo tranquilo porque o amanhã me reserva o inefável.

Sim. Eu só posso ser o farol que se arrisca frente às tempestades porque me nutri em coragens escritas. E saio pelos papéis pulverizando insanidades e encorajando mentecaptos. No entanto, há mais veracidade em mim. Eu, Scott Johnsonn, temerário analfabeto da vida.

Afinal, quem é  letrado em viver? Vocês, com suas fobias, suas alergias ao oxigênio? Vocês, mais sujos que os mendigos? Mais vis que as meretrizes? Vocês, atordoados por ressacas morais! Por inúteis amnésias alcoólicas? Com o receio tedioso de soltar o ignóbil que os corrói por dentro?

Vocês, agorafóbicos que são! Ressecados pelo horror à chuva. Invencioneiros sem bússola. Infames pelas próprias castidades. Como se os deuses estivessem preocupados com seus pecados mínimos. Acham mesmo que os deuses explanam a pureza?

Eu cresci com os mitômanos abençoados. Homens e mulheres que corrigiram a vida através de suas inventivas narrações. Delirantes, fracos, derrotados. Imperfeitos. Mas que puderam transmitir esse impalpável fiapo. Que cicatrizaram sua inconsciência ao tecer oraculares linhas em sinceridade. Porque o outro, espelho do avesso, anestesia todas as essências. E é a literatura – de quem lê e de quem aceita ser hospedeiro – é ela a mãe das nossas terras.

Parem! Chega dessa repulsa a mim! Eu, como todos aqueles que des-cobrem os signos dessa humanidade, sou incapaz de dissimular. Transparente como são todas as infâncias. Descrevo minhas mazelas. Rasuro-me. Reviso-me. E sei. Jamais abrigarei o ponto final.   

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Amor Inconcluso

 

Ana galgava devaneios enquanto a máscara negra ia cobrindo seus cílios compridos.  De sua mão escorriam gotas imperfeitas, repletas de cólera e temor. Encontrava-se horrorizada pelas sensações que assombravam o espírito, naquele instante. Ana já não galgava – lenta em sua exatidão – cada uma das lembranças que a acalentaram a alma após aqueles quase trinta anos.

Como ressurgia assim, meu Deus?! E por qual razão, agora, vinte e sete anos depois? O incognoscível sabor da possibilidade ia surgindo ansioso em sua boca, já pintada de vermelho sangue – e como era óbvia, na escolha do batom! Às vezes a obviedade insurge para dar nuances ao real.  

Vinte e sete anos. É uma vida! Toda uma encarnação em ausência. Repousara em recordações durante todo esse tempo? Fora escrita de novo, na casa da memória? Nada. A existência havia entardecido rapidamente, como se fosse abrigar um dilúvio.

E por que a sincronicidade ri dos seus sentimentos depois de vinte e sete anos? Não guardaria mais tudo aquilo que a imaginação construíra? “Sou apenas uma prosódia que precisa se aconchegar à melodia?”, refletia estupefata. 

A senhora de quarenta e nove anos incutia a imagem no espelho. A velhice não chegara em decrepitude, como acontecera com a maioria das amigas dela. Embora precisasse de uma cinta modeladora para apaziguar as formas no vestido, havia uma beleza ainda pueril no desenho dos seus ombros. Enquanto o corpo envelhecera, os ombros permaneceram intactos, resguardando as saboneteiras salientes. Era seu resto de infância traduzido na ossatura.  

Era tão fácil para ela entender a aparente imortalidade dos ombros. Porque uma vida sonhada fora muito mais bela. E os ombros não suportaram jamais as dores da velhice. E tudo para Ana havia sido leve e sonhado e puro. Até o momento em que atendeu ao telefonema do amor devaneado.

Por que atendeu ao telefone? E por que ele liga, justo hoje? “Já tivemos tantas oportunidades de nos cruzar pelas calçadas! Quantos aniversários de amigos em comum fui, à espera de reconhecer o seu olhar quente, desértico. E o destino jamais quis o nosso re-encontro!”

Justo hoje ouvia um “eu te amo” desesperado. Como assim? “Vamos tomar um café na livraria onde nos conhecemos?” ele disse, animado. E ela, estarrecida, disse que sim. É claro que sim. E agora, com a maquiagem pronta, os cabelos tingidos, as mãos feitas, a cinta disfarçando a barriga, agora já não sabia se desejava destruir todos os sonhos com esse mísero café.

Esse século que os separou a alimentou. Amor inconcluso. Ah, quantas noites não vividas tiveram o gosto indecifrável da ventura! Como ela fora resiliente, frente a todos os infortúnios, só por ter trancafiado apaixonadas fantasias! E de seu sono imperturbável nasceram todas as defesas contra as enfermidades mundanas. E tudo estava correndo o risco de ser acabado.

Seria inelutável? Havia uma robustez tão grande de espírito, por todos os futuros inventados! Um amor sem molduras, rebento em larguezas juvenis. Amor que dorme ao relento sem precisar agasalhar-se. Há maior amor que o amor imorredouro?

Num esforço de lembrança, Ana velava as sobrancelhas do amado. Passava pela sua barba imponente. Ressuscitava cada centímetro dele. Ela sabia de cor suas unhas redondas. E sabia de cor as cutículas pesadas de carne. Porque teve uma enorme tristeza em vê-las partir.

Indelével. Fora assim que a inconclusão pousou em Ana. A fortaleza do vir-a-ser em quimeras lhe cobrira de esperanças para inúmeras vidas. Como o que ocorre com os escritores, ela havia dado a si mesma o presente da invenção.

A curiosidade mesquinha sobrepujaria sua insana recordação? Porque, para ela, ele tinha a alma aberta como o mar em noite de ressaca. Seria capaz de aniquilar uma imagem tão bela e tão inumana como esta? Haveria ele envelhecido normalmente? Com preocupações estúpidas? Com questões triviais? Mas se ainda a amava, poderia ter se transformado num completo imbecil? Ele navegou com ela por canções inebriantes. Mastigaram juntos os mais belos pores-de-sol.   

Não. Não ousava descrever em palavras o que efetivamente havia acontecido. Todas as vezes que se submeteu à confissão desse amor, partiu-se ao meio. Ninguém a entendera. E nem era para ser entendida. Seu amor era monolítico. Os rastros ficariam estampados nas gavetas, escondidos nas paredes embranquecidas, encerrados nos abraços perigosos.

Ana acendeu um cigarro. Sentou-se na cadeira de balanço. Invocou a presença de Chet Baker. Preparou um copo de uísque sem gelo. Recolheu toda a bagunça que estava para fora dela. E esperou a noite chegar. Satisfeita. O sangue não partiria de suas mãos. Ana era grata por não ser uma assassina de irrealidades. 

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