Arquivo do mês: janeiro 2016

Elis: essa Mulher!

Essa mulher

(Joyce / Ana Terra/ Aine Ribeiro)

De manhã cedo, essa senhora se conforma
Bota a mesa, tira o pó, lava a roupa, seca os olhos
Ai. como essa santa não se esquece de pedir pelas mulheres
Pelos filhos, pelo pão

Depois sorri, meio sem graça
E abraça aquele homem, aquele mundo
Que a faz, assim, feliz
De tardezinha, essa menina se namora

Se enfeita, se decora, sabe tudo, não faz mal
Ai, como essa coisa é tão bonita
Ser cantora, ser artista
Isso tudo é muito bom

E chora tanto de prazer e de agonia
De algum dia, qualquer dia
Entender de ser feliz
De madrugada, essa mulher faz tanto estrago

Tira a roupa, faz a cama, vira a mesa, seca o bar
Ai, como essa louca se esquece
Quanto os homens enlouquece
Nessa boca, nesse chão

Depois, parece que acha graça
E agradece ao destino aquilo tudo
Que a faz tão infeliz
Essa menina, essa mulher, essa senhora

Em que esbarro toda hora
No espelho casual
É feita de sombra e tanta luz
De tanta lama e tanta cruz
Que acha tudo natural.

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Lisboa que amanhece

Sérgio Godinho

Cansados vão os corpos para casa
dos ritmos imitados de outra dança
a noite finge ser
ainda uma criança
de olhos na lua
com a sua
cegueira da razão e do desejo

A noite é cega e as sombras de Lisboa
são da cidade branca a escura face
Lisboa é mãe solteira
amou como se fosse
a mais indefesa
princesa
que as trevas algum dia coroaram

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

O Tejo que reflecte o dia à solta
à noite é prisioneiro dos olhares
ao cais dos miradouros
vão chegando dos bares
os navegantes
amantes
das teias que o amor e o fumo tecem

E o Necas que julgou que era cantora
que as dádivas da noite são eternas
mal chega a madrugada
tem que rapar as pernas
para que o dia não traia
Dietrichs que não foram nem Marlenes

Não sei se dura sempre esse teu beijo …

Em sonhos, é sabido, não se morre
aliás essa é a única vantagem
de, após o vão trabalho
o povo ir de viagem
ao sono fundo
fecundo
em glórias e terrores e venturas

E ai de quem acorda estremunhado
espreitando pela fresta a ver se é dia
a esse as ansiedades
ditam sentenças friamente ao ouvido
ruído
que a noite, a seu costume, transfigura

Não sei se dura sempre esse teu beijo …

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janeiro 13, 2016 · 2:00 pm

O nascimento da eternidade

miniBowie

 

Segundas-feiras sempre são enfadonhas. Ontem não foi diferente. Levantar cedo depois de dormir tarde, recalcular toda a semana, ainda embevecida pelos resquícios de sonhos, suportar o peso do despertador que invade a manhã. Eu tenho sempre o costume de adiantar minhas horas em ilusões, na tentativa estúpida de deixar o acordar menos ordinário.

No entanto, ontem eu não consegui ficar alguns minutos a mais na cama. Estampado no jornal online estava a notícia da sua morte. Acendi um cigarro. Como é que você, mestre, após fazer anos na sexta-feira, poderia ter nos deixado?

A princípio não consegui nem chorar. Fui tomar banho. Confusa. Incrédula. Ao me vestir fui rebobinando algumas memórias nossas. E, depois disso, não consegui sustentar mais as lágrimas, dentro de mim.

Você foi o primeiro homem pelo qual me apaixonei. Eu devia ter uns cinco, seis anos de idade quando vi Labirinto. Todo um universo onírico se abria, frente ao meu repertório infante. Invejei a beleza da Jennifer Connelly e questionei se eu também daria aquele bebê lindo pelo seu reino.

É engraçado, o primeiro homem que amei era andrógino, longe dos estereótipos de um macho alfa. Era sedutor, era envolvente e lírico. Era músico. Quando crianças não vestimos os preconceitos em nossos olhares. Eu desconsiderei a sua falta de masculinidade como me esquecia de que meus amigos eram negros ou japoneses. A gente só enxergava a alma, naquela época.

Quando escrevi meu primeiro “livro”, aos onze, eu contava a história de uma menina que se apaixonava por um extraterrestre. Hoje me veio essa epifania: talvez meu inconsciente já estivesse conectado à sua ascendência cósmica.

Depois de Labirinto, minha irmã nasceu. Ah, como eu desejei que os goblins a levassem embora. Quantas vezes sonhei com a aparição de Jareth, conduzindo-me ao seu universo peculiar. Contudo, aprendi a amar aquele ser. E me prometi que a ensinaria algumas das doces memórias que eu tinha da infância. Que ela passaria pelos processos fantasiosos como eu havia passado.

Aos seis anos de vida dela – e eu com treze – percebi que era hora dela conhecê-lo também. Lembro-me bem como minha tia, psicóloga, tentou impedir minha mãe de apresentar o mundo de Labirinto para minha irmã. Para ela você era uma aberração e o filme completamente inapropriado. Eu, como uma boa manipuladora, consegui assisti-lo uma vez mais, libertando a mente da caçula em uma explosão de galáxias imaginadas.

Ela virou uma fã inveterada. Comprou suas camisetas, seus DVDs, bebeu sua discografia com ímpeto de viciado. Eu permaneci mais sóbria, mais comedida. Todavia, não houve uma viagem em que sua voz não reinasse em alto volume, pelas jornadas que percorri. Não houve uma festa que eu não tenha pedido a sua presença. Não existiu um momento em que meu corpo não dançasse, involuntário, quando seu timbre escancarava meus ouvidos. Você esteve comigo em todos os amores, em todos os desamores, em momentos de poesia e instantes de desespero.

Ontem senti algo muito estranho. Ao invés de ter ciúmes de todos aqueles que, como eu, partilhavam uma história de cumplicidade consigo, fiquei orgulhosa da sua arte grande. Fiquei emocionada como um ser tão diferente dos terráqueos pudesse emanar tanta luz, tanta saudade.

Agora, já que não pudemos nos conhecer pessoalmente, vou colocá-lo nos meus desejos de retornar ao planeta que me é sonhado. Que você venha me abduzir, com suas íris desencontradas, com suas calças apertadas, com a superioridade de outros corpos celestes. Agradeço por ter sido sua contemporânea. E por ter testemunhado o nascimento da eternidade.

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Ensaios sobre o porvir

I.

Agora, sentada nesse quarto que não me pertence, com a chuva redundante de verão, teimando em atrapalhar a música, pergunto-me, desesperançosa: como teria sido a minha vida ao teu lado. Será que ainda seríamos felizes, hoje? Ficaste no patamar onírico do impossível, na memória doce do porvir, nos sonhos infantes do amor inesgotável.

Agora, quando o cheiro de finitude das velas invade as reminiscências de nós dois, coloco-me à disposição do Universo para receber as respostas que estão enclausuradas há tantos anos na minha carne. Existe algum pedaço de vida que nos é amputado, pelas escolhas que fazemos?

Com os olhos inchados de tamanha realidade, sinto-me pequena, frente àquilo que não vivemos nós. De todas as dores, esta, mais clichê, é a que mais dilacera uma alma bipolar: o lado que sonha.

Permaneço, nestas horas insones, a flutuar sobre o que não fomos. Ah, se tivesse perdido aquele voo! Ah, se minha alma não fosse tão cruel! Ah, como pude suportar as tuas lágrimas, no táxi que separaria nosso destino para sempre?

Tu sofreste a minha partida tão antes…. Eu sofro a minha chegada, neste instante. Separados, em séculos de espera. Será que existe, nesse mundo, amor em compasso? Ou o amor só resiste aos relógios desconexos, ausentes de plenitude?

Sinto saudade da tua incompletude. De te ensinar o óbvio e ver teus olhos azuis a agigantar epifanias. Sinto falta de falarmos línguas estranhas. Queria reconhecer cada fio de cabelo branco, e ralo, que envaidece a tua cabeça. Desejava colocar-te, uma vez mais, em minhas pernas, e te contar que o teu passado aumenta meu futuro. Almejava ter te visto envelhecer em cada ruga.

De tantos anos e tantas tempestades, é só agora, amado, que minha miopia se foi embora. Dói-me viver sem ter-te tido. Desola-me pensar-te distante desse cais. Que a vida possa-me trazer-te, em ondas, nem que seja por outros mares.

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