Arquivo do mês: agosto 2008

Ausência

 

Às vezes demora-se anos para entender o mais óbvio que há em nós. Só hoje verdadeiramente apreendi minha paixão pela Fenomenologia Existencial. Só hoje, com cicatrizes na vista, deixo meu estrabismo intelectual de lado, para ouvir o que em mim foi chamado. Só hoje meu peito é todo aberto à amplitude dos sentidos.

Wilson Batista sabiamente escreveu um dia: “Eu sou assim, quem quiser gostar de mim, eu sou assim. Meu mundo é hoje, não existe amanhã pra mim”. Não sei se ele teve alguma troca com a terrível corrente filosófica, ou se as coisas-mesmas estão ai para todos, basta querer desanuviá-las. Só importa que ele tem razão. Eu grito ao mundo! É hoje.

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso”, retruca Clarice. Tenho essa absoluta convicção, pois é a minha insana ansiedade que fez ecoar em mim. As doces frases só circulam quentes em meu sangue porque dizem acerca do presente. O instante é o único capaz de congelar a lembrança. Ah, as Horas! Que criaturas equivocadas são as horas! Os minutos, apesar de se saberem menores, de terem obrigação com a humildade, também se conhecem muito pouco. Os dias, reis de feudos folclóricos! Freqüentemente são ridicularizados nos meus diálogos. Merleau-Ponty zomba da banalidade do tempo. Bachelard condena os meses ao calabouço. Só o aqui (agora) é Olimpo para nós.

Corro gravemente o risco de ser olhada como alguém extenuante. Todavia, meu atual instante dá de ombros para os olhares. Minha essência ironiza a tranqüilidade. Meus vícios estão em festa dentro de mim. São obviedades de viver intensamente o já.

E, quiçá, todos os amantes fenomenólogos sejam espíritos de uma incansável impaciência. Ou mesmo pode ser que eu não suporte o futuro e o passado. No entanto, não vivo cores pastéis. Sinto odiosa ojeriza daqueles que aceitam-se títeres do relógio. Careço de re-significar o que se foi e de lançar vibrações poderosas para o que ainda não é.      

Ando amarga mesmo. Esse dia, quase no fim, ardeu tanto, mas tanto… Revoltas palavras brotam sem deixar meus pensamentos floridos serem protagonistas. Há noites nas quais é preciso rebentar a ira e colocá-la no colo. Dar nome ao negro gosto. Saboreá-la, mesmo com incomensurável repúdio.

Sinto-me enferma por não poder contemplar as vicissitudes. Amarrada estou à mortalha da espera. Enfraquecida pelas horas, minutos, segundos e meses.  Desvairada pela nostalgia. Enojada por não poder viver a plenitude. Tenho a alma anorética, impossibilitada de caminhar. O instante, que tanto me nutriu, esfuziou-me com a sua ausência.

As trêmulas mãos, exauridas dos silêncios, clamam pela aparição do templo. Onde foi parar a minha pertinácia? Deixei-a cair? Estilhaçou-se? Como posso reavê-la?

Perguntas retóricas e estúpidas. Sei da data e da hora em que meu amado instante partiu. Conheço seu paradeiro. Ouço sua voz, distante e leve. Vagarosa, como seus passos e sorrisos. Já estive em alguns dos lugares pelos quais viajou. Meu instante, para desespero meu, está nos delírios dos pensadores. Acomoda-se na cabeceira, próximo à minha fronte. Posso buscá-lo, nas letras rebuscadas. Eu o identifico, na narrativa dos profetas. O raciocínio facilmente entrelaça-se com ele. Porém, o verdadeiro instante – aquele vivido – não está ao meu alcance. Preciso de outro ser humano em complexa sincronicidade comigo. Porque instante não é só presente, é presença.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Ostracismo

 

 

 

Não! Não é! Juro que não! Não quero exaltar a estranha e intrínseca submissão à imortalidade, presente em cada penugem de nossas carnes humanas. Não é o calor dos aplausos, recheados pelo narcisismo revelado. É outra coisa o que incomoda os meus dedos, desde sábado à noite. São outros sopros que me tomam as veias e me condicionam a exprimi-los. São fragmentos de outra jornada que me colocam insone. São delírios febris que estarrecem meus ouvidos exaustos. Não é simples capricho… Eu ainda não sei do que se trata. Esse texto não me deu tal liberdade… Ainda não.

 

E deixar-me-ei guiar por essa imaculada incompreensão que me tocou as lágrimas naquele sábado. É preciso ser dito. Eu o farei. Ainda tenho tanto medo dos lugares que meu pensamento murmura. Espero nunca me adaptar. O conforto é inimigo mortal das palavras. 

 

Só precisei de um breve instante para emendar os velhos óculos de minha irmã. Eu sempre detestei os óculos e as lacunas de Monet que ele deixa passar. Mas minha meditação, aspirante à psicografia, necessita de óculos. Porque suporto menos ainda a burocracia das lentes de contato, que ferem os olhos quando você se põe a chorar. É absolutamente inaceitável para mim a ingratidão dessas gelatinosas. Ainda não sei se esse fio de luz que se desvela vai emocionar. Todavia, é imprescindível aconchegar os grandes abismos fortuitos.

 

Sem maiores delongas, estou imensamente indisposta com o fastidioso tema que me ronda. Em breve estarei totalmente absorta. Ainda não.

 

E é esse ainda-não que me apavora há dois dias. Esse ainda-não que se apodera das rezas de mães mais crédulas, eternamente à espera dos milagres tolos. O ainda-não que está incrustado na fumaça dos cigarros. O ainda-não sentado à mesa de bar, a ouvir o fantasma vacilante do sambista. Esse atordoante sentimento que criou – sem pedir licença – musgos dentro de mim.

 

Tenho um amigo-irmão que é assim. Faz parte dos lindos penhascos das infinitas possibilidades. Não as agarra pelos braços, no entanto. É genial. Ele compõe músicas secretas, daquelas que dão mãos aos nossos sentidos e fazem festa na intimidade das orelhas. Sua melodia é algo tão sublime que precisaria retaliar uma parte de seu cérebro para descrevê-la verdadeiramente.

 

E a chuva se sobrepunha soberana sobre nós, nesse sábado que passou. Apesar de todas as conversas que tenho com Deus, para deixar o fim de semana em paz, não tenho obtido muito sucesso. Dessa vez Ele tinha razão.

 

Quase como uma criança que ganha uma surpresa em plena quarta-feira, eu vi esse meu amigo ir buscar o violão, nos fundos da sua casa. Foi uma sensação que inebriou os músculos congelados.

 

As canções, uma por uma, iam navegando lucidamente por entre os pingos magistrais. Desviavam os mais avantajados, como se pudessem cessar o fogo da ira de Deus. Abriam-se para o céu e abriam-me também. E eu chovia junto. Estava encharcada.

 

Nem o entorpecimento provocado pelo vinho e pela deprimente condição daquele sábado seriam capazes de diminuir sua voz. Ele cerrava as pálpebras. Assim podia concentrar-se inteiramente, compactar toda a sua força nas cordas da voz e do violão. A chuva, enfim, cansou de competir. Estava esgotada.

 

O que eu não consigo entender e que me inunda de pungência é saber que esse meu amigo ainda não é famoso. Suas músicas são navalhas até para os ouvintes mais indiferentes. Porque ele dilacera as nossas defesas mais fortalecidas e põe nossa alma a chover. Não aceito seu ostracismo! Por que ele ainda-não é? Por que não o descobrem, meu Deus?

 

Desde então trago comigo a entediante companhia do ainda-não. Pensei em quantas pessoas eu conheço que ainda-não são, ainda-não foram. Refleti acerca dos amores ainda-não vividos. Embeveci-me em exílios. A injustiça reina próxima dos apaixonados músicos com quem semeio versos. Paira uma tristeza em meus punhos. Essa doida vontade de clamar, implorar pelo reconhecimento merecido.

 

Um vazio engoliu subitamente minha capacidade de apreensão. Fiquei inerte. Paralisada diante da minha cínica impotência. Às vezes sentir-se estátua também ajuda a transcender. Decidi. Tudo o que estiver ao alcance dos meus esforços para divulgar essas pessoas-ainda-não, eu me sujeito.

 

Não deixarei para os escafandristas a terrível descoberta. Prometo, através das minhas pequenas e raras divagações, lançar esplendorosos holofotes.

 

Saiam de seus impiedosos esconderijos, corajosos artistas! Venham ao meu encontro! Abandonem as conchas, falsas moradas de pedra! O lar de vocês é o Universo! Não permitam que a sedução das gavetas os oprima! Venham, acompanhem-me! Não me deixem só nessa insólita tarefa.  Tenho sede! Onde estão vocês? Onde Deus os expatriou? Seres enfeitiçados pelo doce fardo da Arte, uni-vos!

 

 

(…)

 

 

(Bom, enquanto espero, observo em repouso esse texto. Durma. Envelheça mais um dia. Você também ainda-não está pronto.)

 

 

 

 

 

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Teresa em mim

 

 

Nunca tive a ignorante pretensão de pautar minha subjetividade em alegrias vãs. Amo a felicidade. Enxergo-a como uma doce e jovem estrela cadente. Causa saborosos e delicados enlevos nas idéias da gente. Paralisa os instantes, dá a cor e as tonalidades mais preciosas para os olhares. É um amanhecer que inunda a nossa alma.

Contudo, eu já sabia, desde pequena, que carregava certo gosto pelas tristezas cotidianas. É um segredo meu que desvelo aos poucos, à medida que as pessoas me conhecem. Com certeza meus grandes amigos, ao lerem esse texto, esboçarão sorrisos logo no início: eles sabem disso melhor do que eu.

Compreendo a tristeza como inerente ao ser humano e particularmente a mim. O sofrimento sempre me foi muito esclarecedor e essencial. Entendo-o como um banquete para o aprofundamento do eu.

Suponho que o padecimento primeiro da minha vida foi amor… Os personagens e fatos envoltos são absolutamente irrelevantes. As mudanças inauguradas dentro de mim, não.

Uma senhora de cabelos ralos e brancos. Usa um manto que a cobre por completo. Tem aqueles olhos envelhecidos muito antes do resto do corpo. Chama-se Teresa: é assim que a minha tristeza pode ser descrita.

Uma mulher de casca frágil. Quando posso mergulhar dentro dela, sei que carrega a vitalidade das paixões adolescentes. Forte como uma montanha de neve.

Teresa joga búzios e interpreta tarô com a minha carne. É professora de história. Materializa verdades irrefutáveis e vislumbra, emudecida, os caminhos mais míopes. Põe-me os óculos e retira-me de cena. Teresa é a minha grande salvadora.

É claro que tudo isso deve parecer uma alucinação lisérgica para quem lê. Não se assuste ainda. Deixe-me enunciar porque respeito e ouço a voz dela dentro dos meus ossos.

Outro dia retirei da sala um livro de Lya Luft. Chama-se “O Lado Fatal”. Era domingo, dia que Teresa mais trabalha. O vazio cortava-me os pensamentos. Comecei a ler.

Em poucos minutos eu tinha o pulmão comprimido pela asfixia das lágrimas. Lá estava minha vidente, mais uma vez, a me fazer companhia. Mastiguei cada palavra, saboreando o incalculável esmorecimento que havia. Em apenas uma hora já voltava à biblioteca, para guardar a dor de Lya. Sentia-me inexplicavelmente mais velha.

O livro é um desabafo. Ela escreveu depois que Hélio Pellegrino, seu amado, morreu. São poemas assustadoramente amargurados. Aquelas páginas são deserto. Deus não estava lá. Só havia Lya e sua indizível prostração. Eu e Teresa.

Foi então que aconteceu em mim esse texto. Eu precisava advogar em favor da melancolia. Fora da obviedade que se instalou no mundo auto-ajuda de hoje, era-me caso de vida ou morte apresentar minha defesa. Senti-me uma leoa, pronta para doar minha vida aos filhotes. As pessoas necessitavam conhecer essa senhora tão sábia.

Não entendo porque se pode fugir ou ignorar a Tristeza. É totalmente incabível para mim não admirá-la e agradecê-la. É a responsável por metade das grandes lições da vida. Nosso outro grande mestre é o Amor. 

Selecionei algumas aulas que tive com a idosa criatura para reiterar meu sentimento por ela. A primeira delas é uma lição aquática. Quando não sabemos a profundidade da piscina – e estamos submergindo – nosso ímpeto natural é tentar voltar à superfície. Todavia, se não formos até o fim, fica muito mais difícil retornar com agilidade. O fundo dá ao mergulhador o coração da água. A dor é feita de natação.

Outro curso que assisto, ministrado por Teresa, ainda não acabou. Mesmo assim posso compartilhar algumas raras colocações que internalizei. É o desapego primordial. A matéria se tornou suntuosa quando ela acompanhou um querido professor meu. Era uma aula sobre o Adeus. Dificílima. Lembro-me como se o tempo fosse incapaz de amarelar minha memória: “Você pode ir embora agora, porque eu te amo”.   

Relutei em aceitar aquelas palavras por muito tempo. Imensurável é a dor da partida. Como a separação poderia ser característica do amor? Que espécie de monstros eram aqueles dois? Como chegaram ao ponto de exprimir esse absurdo?

Depois de alguns minutos suspensa, voltei a mim. Comecei a chorar muito. (Eu gosto de chorar porque meus olhos atingem o verde. Ficam cegos de claridade. É bonito.)

Lembrei das vezes que estou para acabar um livro e passo a fingir que ele não mais existe. Nunca estou preparada para dar adeus aos personagens. Eles, que passaram dias e noites a dormir em meu leito. Já os sinto como parte da minha residência. Como é que posso deixá-los ir?

A curiosidade, como se sobrepõe ao carinho, faz-me então devorar, sem a menor piedade, as últimas e doloridas páginas. Teresa põe-me em seu colo, afaga meus cabelos e me dá goles de velhice. E mesmo sem a presença manifesta, o espectro de Miguilim é lareira dentro de mim.

O último ensinamento que vou tornar palavra também foi aula em conjunto. Dessa vez com Gianetti. Minha afável e querida anciã pôs-se a discutir com ele a verdadeira fórmula da felicidade. Aprendi que não podemos ter fé nas sedutoras pílulas. Temos que tranqüilizar o espírito, ávido de novidades, e aceitar a construção, tijolo por tijolo. Felicidade é uma morada eternamente inacabada, incessantemente em reformas e aperfeiçoamentos. Não é adição. É cara.

E agora vem o questionamento: quando posso então saber se um módulo chegou ao fim? É muito simples! Vejo um novo cabelo branco, um rabo de cometa, ensaio novos devaneios. A sensação de missão cumprida usurpa a minha realidade…

E caminho com Teresa pelos bosques, pelas refeições exageradas, pelas músicas celestes. Ela está comigo nos crepúsculos e nasceres de sol. Vamos abraçadas pelas tardes chuvosas e frias, pela saudade das épocas áureas, por poetas e pintores fenecidos. Porque não fujo dela nem a escondo, aceito-a. A inexperiente menina vai mostrando, pé ante pé, os caminhos tortuosos. A encanecida erudita propaga instransponíveis passagens secretas. Ébria de poesia, abre-me as janelas. Avisto as formas de outra velha conhecida minha. Na casa de Teresa, às vezes, encontro-me com a inspiração.

 

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Entre as árvores

 

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Estou um tanto obcecada com a idéia de inveja. A princípio e para causar uma sensação indigesta na leitura, tenho inveja daqueles que têm pequenos cadernos e canetas em suas bolsas. Eu precisava ter chegado um momento antes para não perder a espinha dorsal deste texto…

Tenho pensado muito nesse tema e há tempos ensaio seus contornos em papel. A idéia de dissertar sobre algo tão humano e tão inexplicável é tarefa para poucos. Eu, metida desde pequenina, dou-me ao luxo de navegar suas entranhas e de expor minha opinião. Quero logo que a idéia desocupe minha cabeça, para que eu possa pensar em coisas mais bonitas.

Recolhi, ao longo desses dias, todos os fragmentos em que a espaçosa dita cuja estava aqui, dançando por meus pensamentos. Quais eram as minhas invejas? Quais eu era inapta a compreender?

A inveja mais doída que eu tenho é de não ser uma pessoa zen. Venero aqueles que vivem realmente em cumplicidade total com o Cosmos. Não falo de nada parecido com neo-hippismo burguês – defectível e repugnante. Falo de Manoel de Barros, grande companheiro das formigas. Desvenda a Via Láctea através de um ninho. Proprietário de uma profundidade exageradamente simples. Gênio.

Se eu fosse descrever todas as minhas invejas literárias, não poderia mais fazer nada – e não teria nenhum sentido para alguém que as lesse. Então, genericamente, tenho inveja dos versos sangüíneos, das palavras exóticas pinceladas no lugar preciso da frase, das vírgulas galopantes e de devaneios de nudez. Olho todos os artistas humanos e os reverencio. Perto deles sou apenas um adulto trôpego, tentando engatinhar com destreza.

No que diz respeito ao humor também posso confessar. Morro de inveja das pessoas que, sem o menor esforço, sem arquitetura ou planejamento minucioso, conseguem ser engraçadas. É um milagre para os ouvidos. Levaria as indústrias farmacêuticas à falência. Como não posso sê-las, busco estar sempre perto delas, grandes bálsamos para o coração.

A inveja nada mais é do que pretender o que nos falta. Depositamos a cura naquilo que o outro é senhor. Só que, no momento de senti-la, seria impossível possuir o atributo cobiçado. A inveja é gula de engolir os pequenos trejeitos de alguém, com uma voracidade digna dos consumidores obesos de fast-food.

Não suporto conceber a inveja de outra pessoa. Inteira. Como é possível desejar um rosto que não lhe pertence? Imagine-se olhando no espelho e, exasperadamente, não achar um traço sequer que lhe pareça familiar. Também há pessoas que têm inveja dos relacionamentos dos outros. Como podem se sentir diminuídas por laços que são protagonizados por terceiros? Não entendem que só sendo elas mesmas poderiam vivenciar uma completude?

Se eu sou uma amendoeira, posso admirar as flores do Ipê Amarelo. No entanto, estou absolutamente impossibilitada de ser Ipê. Por isso preciso resgatar todos os nutrientes da minha terra – aqueles pequenos duendes que constituem a minha alma – e tentar ser uma amendoeira fortalecida. Necessito de raízes profundas e ao mesmo tempo serenas, para agüentar o desapego do outono e a renovação subjacente do inverno.

É esse ódio de não ser um ipê que estremece as relações humanas. Ao invés de olhar para as incríveis e inenarráveis possibilidades da amendoeira, eu discuto com Deus sobre flores amarelas. E grito a ele: “Também poderia ser um Pau Brasil! Por que sou obrigada a conceber esses inúteis frutos?”

Pode parecer muito engraçado, quando olhamos figuradamente para essa imagem. Todavia, eu vejo estilhaços de inveja por todos os cantos onde passo. Desvio meu peito daqueles que se apresentam mais imponentes, mais nítidos, mais endurecidos, fatais. Sei que muitas vezes sou atingida por outros projéteis, travestidos de doçura e colo. Minha única defesa é tomar posse de uma atenção que flutue e que invada as entrelinhas.

E tenho um segredo para desamarrar as minhas próprias concupiscências. Vivo o Ipê, o rosto bonito, o relacionamento perfeito, a felicidade plena? De forma alguma. Se construo um personagem dono de um talento único, é de lei abrir mão de todas as outras dádivas que não estavam no solo, no instante em que ele foi fecundado. Mesmo assim, outros personagens virão, ávidos de sonhos e deficiências, exatamente como deve ser.

Confesso, contudo, que eu queria mesmo era ser um Chorão. Porque ele é a mais bela pintura da melancolia despretensiosa.

 

 

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A ladra

 

Outra noite falávamos sobre o rompimento literário em nossas vidas… Nós sempre falamos muito, sem parar. Quantas histórias deixamos de nos contar pela emergência dialogada do outro! Quantos assuntos em suspenso ainda não estão guardados para o resto de nossas vidas? Acho inebriante. O infinito que nos permeia me dá tantas forças e tantas alegrias, tu não podes imaginar. O nunca-tédio de estar com alguém jamais havia habitado minha alma.

Tu me contaste dos teus castigos em letras. Tuas obrigações para com a literatura, desde pequenino. Quantas resenhas não fez em voz alta, meu amor? Quantas palavras tiveram que ser devoradas por ti? Penso que não há penitência mais doce. A leitura como coerção me é a mais deliciosa das punições.

Refleti, à luz de Clarice, como a literatura me foi iniciada. Em qual momento de minha vida me senti convidada a sonhar? Quando foi a primeira vez que estive perplexa, diante do Universo de sentidos?

Lembro-me muito bem das minhas manhãs de sábado. Morávamos na Vila Mariana. Meu pai me acordava bem cedo, antes das oito da manhã. Imagines pensar em acordar tão cedo no sábado? Pois bem, eu acordava feliz. Feliz porque sabia que era o dia de me encontrar com os livros. Íamos a uma livraria, encontrar figuras inusitadas. Eram personagens de livros, feitos de carne e osso. Talvez meu pai seja escritor porque conheceu infinitos personagens em vida real. Talvez não.

Eu tinha direito a um livro por semana. Gostava por demais da coleção Pom-Pom. Eram livros fofos de contos de fada. A coleção me ensinou a história da princesa e da ervilha. Meu pai me transferiu a obsessão pelas livrarias. Algum tempo depois, ganhei um livreto de poesias. Versos simples, quase infantis. Roubei um deles para dedicar ao nascimento da minha irmã. Foi meu primeiro furto literário.

Quando tinha uns doze anos, tive poesia na escola. No início, senti um repúdio. Precisava de distanciamento. Tudo aquilo era muito difícil e profundo. Jamais conseguiria eu, mera copiadora de versos juvenis, conduzir minhas próprias rimas e imagens. Fiquei apavorada. Sempre tive muito medo do desconhecido. Daquilo que não se pode controlar, daquilo que se pode fracassar. Ignorei a poesia. Só por um breve instante.

Devo ter comentado com meus pais sobre as aulas de poesia e sobre minha resistência. Eles devem ter entendido que não passava de vontade de aprender, e de ser a melhor nisso. Foi quando minha mãe chegou com uma pastinha embaixo do braço. Disse a mim: “Filha, isso aqui é um tesouro meu. São meus cadernos de poesia de quando era um pouco mais velha que você. Guarde-o com carinho e respeito. A poesia é algo que merece absoluta intimidade, não se pode deixá-la no mundo sem delicadezas…”

Aqueles cadernos de minha mãe, escondidos até hoje na bagunça do meu quarto, foram incrivelmente surpreendentes. A princípio, senti um constrangimento enorme. As confissões daquela menina eram alma demais. Tive vontade de ser amiga dela e raiva de ser minha mãe.

Decidi, pois, que necessitava aprender a escrever como ela. As rimas, as mensagens, as interrogativas existenciais já não pertenciam mais a ela. Eram minhas! Eram meus pensamentos escritos por outrem! Como poderia ter roubado minhas idéias? Eu nunca havia contado nada a ninguém! Como seria possível?

Foi ai que comecei a ter uma compulsão. Roubava rimas daqueles cadernos, roubava versos, roubava poesias inteiras! Tornei-me uma viciada. Cometi o crime da falsidade ideológica. Possuí uma estranha amizade com aquela menina, quase da minha idade, que era minha mãe. Vicky, o pseudônimo dela, era como uma irmã de letras. Uma ladra dos meus pensamentos mais íntimos e dolorosos. Um estimulante ao furto e à perda da identidade. Um caderno de segredos.

Nunca havia compartilhado essa história antes. Nem quando cavei o porão de mim mesma, em confissões terapêuticas, tive essa coragem. Esses meus crimes só poderiam ser divididos com aquele que me confiasse seus delitos lingüísticos.

Depois dos sábados, da poesia criança e de Vicky, as lembranças ficam um pouco embaçadas. Um pouco vazias. Pena. Não consigo colocar de volta em meu coração o instante em que toquei Pessoa.

O que importa, todavia, é o transbordamento da literatura das minhas veias. Fui escolhida e escolhi, tomada pela ambigüidade do Português. Doçura e enojamento. Pertencida e dolorida ao mesmo tempo. Rebeldia e redenção.

Apesar do abismo desmemoriado, ainda falta um capítulo da minha história com a Literatura: és tu. A tua vinda me trouxe velhos desejos de furto. Despertou-me a ira mortal. Malditos sejam Vinícius, Pablo, Chico, Edu Lobo! Assaltantes dos meus sentimentos mais bonitos… Deveria ser meu esse verso, como puderam extrair de mim?

Ao mesmo tempo, ao pensar em ti, sentia uma estranha e familiar ânsia. Um transbordar de palavras. Calma! Espera! Preciso de caneta, preciso de papel, preciso me lembrar! Como um bebê que não controla seu próprio corpo, eu me dissolvia em poesia por ti.

Amor, inestimável é o valor da nossa musa. Incalculável é a delícia de inspirar versos. A urgência de escrever aniquilou a inveja. Tu me permitiste a fertilidade. Trouxeste até mim o meu poço de devaneios, a minha própria pasta. Onde foi que a encontraste? Como poderia saber que me era propriedade?

E o destino, irônico, está te levando embora. As palavras que tanto amo estão se impondo sobre mim. A minha musa vai atrás de versos mais complexos, de estilos mais primeiros, de línguas mais sonoras, menos ambíguas. “A ausência é um estar em mim”. Disse a ti, naquela outra conversa. Tu rebentaste em mim a amortecida mensagem. Tu despertaste adormecidos textos. Isto me é definitivo, a partir da tua chegada. Por isso posso deixar que encontres novas palavras. Vou atrás das minhas, carregando cá dentro o espírito do melhor presente que já recebi. Deixo para trás meu passado vergonhoso de ladra. Vou, inspirando a tua presença. Já posso expirar minhas próprias palavras.

 

 

 

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Mizebeb & Nonniel

 lei

 

 

O início desta fábula necessita de uma explicação: ela foi concebida no maior calor dos séculos, a bordo de um carro quase parado. No entanto este fato não é o mais curioso, nem estranho dessa concepção. Sua inspiração veio de um filme piegas, previsível, um verdadeiro plágio cinematográfico! Mas a vida, grandiosa, não deixa que as inspirações morram, nem mesmo com toda a mediocridade terrestre. A poesia guerreia, ultrapassa, atravessa, rompe e rebenta na solidão das grandes mesmices. Ela sempre sabe como burlar as regras e reagir a tudo – afinal de contas, de qual planeta você acha que a poesia veio?

Sem maiores delongas, essa história é (como quase todas o são) uma história de amor. Um amor que desrespeitou ordens divinas. Um amor que uniu um anjo a uma princesa…

         A princesa Mizebeb há muito não governava reino algum. Era uma princesa sem pátria, sem súditos, sem coroa. A única coisa que ela ainda possuía do seu status de realeza eram lindos sonhos de vestido. Nada mais. Nada menos. O reino da princesa fora destruído muitos anos antes, quando ela ainda era uma exímia amazona. Como acontece nas histórias clichês, a princesa foi obrigada a passar por uma provação, que lhe custaria a incapacidade da ignorância. E felizes são aqueles que olham para as coisas, mas não as vêem!

         Num universo quase paralelo, vivia Nonniel. Era um anjo consagrado por sua bondade, por suas ações sempre bem intencionadas com todos. Por onde passava, o jovem anjo recebia elogios: seus sorrisos eram capazes de finalizar grandes e terríveis guerras; seus olhares enchiam de acalanto os pobres corações humanos… Foi numa de suas idas à Terra que Nonniel descobriu a simplicidade dos prazeres mundanos. Imediatamente se encantou com as festas dionisíacas, com as águas claras dos mares infinitos. E desejou pertencer a isso, mesmo sem saber o porquê. Foi até Deus (com uma cara bem séria) e o questionou durante incontáveis horas. Aliás, essa é uma característica marcante do velho espírito: a argumentação. Nonniel, ao fim de seis dias de diálogo com Deus, não entendeu as razões para o céu ser tão careta. Por que não havia violões tocando em grandes nuvens? Por que os oceanos não eram grandes como na Terra? Por que os sonhos não eram utópicos? Ele queria sonhar como os homens. E desceu.

         Enquanto isso, em algum livro de cabeceira, em alguma carta endereçada a um mago, em alguma saudade do século XIX, Mizebeb sofria. Sentia-se despedaçada. Era feliz, é claro. Todavia, como toda princesa que se preze, ela sentia a ervilha a cutucar-lhe a espinha. Ela só não sabia em qual colchão poderia encontrá-la… e vivia a passar noites em claro, atrás de explicações.

         E foi numa noite viniciada que ela o conheceu. Uma festa digna de Dionísio. Havia muita música, muitas cores, muitos prazeres simples naquele espaço entre os crepúsculos. Ela, ainda dissolvendo a traição de si própria, pôs-se a conversar com o ex-anjo. E quantas horas acolheram aquelas palavras familiares! Quantos versos foram trocados em segredo. Um segredo até mesmo deles dois. Nenhum dos dois ousou pensar no outro.  Impediram-se de rumorejar, quando estavam sozinhos em seus quartos, naquela noite. Sublimaram os pensamentos, insistentes e teimosos, que perambulavam por todos os poros dos seus corpos. Não seria possível acreditar no que estava acontecendo…

         A sincronicidade do universo, no entanto, falou mais alto. E já era impossível não deixar pelos chãos grandes suspiros de amor. A conexão era inevitável. Nonniel já nem pensava em seus poderes luminosos, tampouco nos deuses que habitaram por tanto tempo sua existência de eternidade. Mizebeb deixou de estalar suas costas. Procurou por todas as extremidades de seus ossos a dor, que a acompanhava há séculos. Até chegou a esmorecer por ter perdido tão fiel companheira. Mas isto durou apenas um instante: ela já havia encontrado a melhor de todas as companhias.

         E os anos passaram, repletos de paranormalidades. Por fim, os dois entenderam que não pertenciam àquele planeta. E que nada importava mais. Haviam se encontrado em meio a tanta banalidade.

         Mizebeb e Nonniel brigaram muito. Pois é, esta não é uma história de amor rodeada de perfeições. O que é perfeito não pode permear o reino das possibilidades… É bom sentir os goles da realidade, às vezes.

         O anjo e a princesa saborearam muitas, inúmeras vezes as sensações primeiras. As delícias de pertencerem um ao outro. As doçuras telepáticas. A riqueza dos afagos. A pureza das noites quietas. O cheiro da infância de um já podia circular na corrente sangüínea do outro. Protagonizaram, lado a lado, incontáveis ensaios de filhos.  De almas nuas, abrigaram alguns maiores abandonados.

         Certo dia, porém, o Destino os incomodou: seus caminhos haveriam de seguir, apartados. Era a hora de escolher. Um poderia carregar o outro pelos braços? Nonniel era capaz de plantar em Mizebeb seus planos de liberdade? Seria ela hábil o suficiente, a ponto de encontrar um ponto de intersecção?

         Nas profundezas melancólicas dos grandes desencontros, embevecidos de dor, de desespero e confusões, eles emudeceram. Estáticos, viram-se obrigados a decidir. Ele agarrou seu grande futuro, com todas as suas forças, pelos pulsos. Ela esperou ressuscitar seu nódulo dorsal. A ervilha, contudo, estava adormecida para sempre, nos distantes calabouços de Hades.  

         As distâncias cresceram, tocaram o infinito. “A tristeza é uma maneira da gente se salvar depois”, pensou ela. E o esperava nos sonhos, que custavam tanto a vir. As noites, insones, eram mais doloridas que as lembranças de castelo. “Minha carne estava tão acostumada em dividir o leito com as asas do anjo”, lamentava.

         Mas essa é uma história de amor. E mais! É uma história de amor entre um anjo e uma princesa. Claro que dois personagens bem incomuns: um anjo mortal e uma princesa nômade.

         A princesa foi buscar sua morada, finalmente. Sabia que não se tratava de materialidades. “Meu namorado, minha morada é onde for morar você”. Mergulhou, pois, nas entranhas do Velho Mundo. Sentia um pertencimento imediato. Sabia daqueles lugares. Conhecia cada beco, cada saída, cada atalho. Adentraram horizontes dos mais belos. E estavam juntos novamente. O sono vinha, os vícios iam se esquecendo de habitar seu corpo. Precisava simplesmente ouvir uma canção para acalmar os antigos desejos de fumaça. E os sonhos engordavam a cada dia, criavam as formas que ela tanto duvidou. Vieram os filhos, bondosos como o pai. Passionais como a mãe. Vieram os netos. A velhice bateu à porta. Nada disso tinha importância. Um segundo daquele amor que inundava os mundos era capaz de ganhar a imortalidade dos grandes mestres.

 

                                               FIM

 

Pósfacio: a inspiração é mesmo um cavalo incapaz de ser domado. Ela estabelece suas regras, possui os dedos, ocupa o corpo e faz dele o que bem quer. As histórias não são compostas por nenhum autor, mas pela coragem e imponência dessa força, maior que tudo o que há em mim, a não ser o que eu sinto quando pairo sobre a sua idéia, sobre o seu olhar. 

 

 

 

 

 

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Em Terra Estrangeira

 

 

Há em mim uma inquietude, uma estranheza que minha alma deve carregar há séculos. Um sentimento de ter sido colonizada, de fincarem bandeiras em meu solo sem que eu pudesse interferir. No início, encantada pelo ouro, pelos espelhos e por todas as plumas que me trouxeram, permaneci terrivelmente seduzida. No segundo seguinte queria minha terra de volta, exatamente da forma que era. Infeliz ou felizmente, isso me era impossível. Somos impotentes frente às tempestades.

 

Tenho procurado me recolher o máximo possível para não transformar minhas divagações em arrogância. Já tive fases de simplesmente abominar, rejeitar e ignorar meus colonos. Hoje olho para eles como pessoas que estão à procura de uma casa, de um pertencimento primeiro. Querem deixar de ser nômades. Seus corpos estão cansados e desidratados. A fome invade, inescrupulosamente. Eles também estão inquietos e aflitos. Buscam, regidos pelo desespero, o cheiro de seus cantos, os ângulos das quinas, os segredos perdidos em armários.

 

A grande diferença entre mim e a grande maioria das pessoas que conheço está na impossibilidade de me assentar em qualquer lugar. Sou alguém que perambula pelos livros, repouso minhas idéias, encontro divinos palácios e retomo minha caminhada. Deixo-me ser guiada pelos sussurros dos poetas e desenho meu próprio cômodo ao submergir em um oceano de letras harmoniosas.  Estou em casa.

 

Quando soube da teoria dos Maias terem sido abduzidos, fiquei perplexa. Finalmente vislumbrei uma saída absolutamente (i) lógica para o meu desequilíbrio. Eu habitava um planeta cujos seres não eram semelhantes. Os desbravadores terrestres possuíam forma, finalmente.

 

Decidi, pois, que procuraria os meus irmãos pelo mundo. Com alguns olhares mais intensos, algumas conversas pouco convencionais, provocações, ironias… qualquer coisa que me fizesse identificá-los! “Você viu aquele filme do Truffaut no qual as pessoas alcançam a liberdade ao aprisionarem-se como livros?” Nenhuma ressonância. Cavernas sem eco. 

 

Em minha jornada auscultei muitos silêncios. Fui entendendo que não seria tão fácil desvelar as excêntricas criaturas. Não poderia mais ficar nua pelas ruas, bares e reuniões. Necessitava esperar que eles viessem até mim.

 

Até hoje sinto uma enorme dificuldade em estabelecer contato com os humanos normais. Dói-me – como se tivesse os dedos cortados por uma folha de papel – escutar seus anseios, vontades e paixões. Minhas membranas são rasgadas, dia após dia, quando atendo a seus convites. Todavia, vez em quando, no mar dos domadores exóticos, dou de cara com olhares íntimos. Meu contorno e minha carne sucumbem ao sabor da minha morada. Feridas de papel são impiedosamente cicatrizadas. Agradeço pela regeneração e respeito a marca que deixaram –  são fragmentos inexoráveis de mim. Os exploradores se enfurecem. Pobre deles. Não sabem a diferença entre o aconchego e a hospedagem. Confundem o sentido de sua própria linguagem. Conhecer não é o mesmo que (re) encontrar.

 

 

 

 

 

 

 

 

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