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Quiçá

A gente devia parar todo dia e ver o pôr-do-sol
A gente saia correndo de alegria
Só de ter dez minutos mais com quem a gente ama
Que fosse mais bike que carro
Mais abraço que esbarro
Mais horas de colchão
Cada tartaruga chegasse no mar
Cada bicho encontrasse um lar
E toda mãe fosse, sim, muito mãe

Dizer mais sim do que não
E que não faltasse pão
E fosse lindo de ver o rio tietê
Tivesse um medo pequeno
E fosse um amor tão sereno
Ser feliz até o ultimo fio de cabelo
Se for caso de ser indeciso
Abre um riso que de dor já chega a do mundo, amor

Que fosse mais bike que carro
Mais abraço que esbarro e mais horas de colchão
Cada tartaruga chegasse no mar
E cada bicho encontrasse
Um lar e toda mãe fosse, sim, muito mãe
Dizer mais sim do que não

E que não faltasse pão
Fosse de lindo de ver o rio tietê
E fosse um medo pequeno
Tivesse um amor tão sereno
Ser feliz até o ultimo fio de cabelo
Se for caso de ser indeciso abre
Um riso que de dor, já chega a do mundo
Que de dor já chega a do mundo, amor

Larissa Baq, essa artista incrível que tive o privilégio de escutar no meu último sarau

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Vontade de falar para dentro de mim

 

Platónico

Edgardo Cardozo

Hay un sol, que enciende mi vida…
Que cura mi herida, que camina suavemente sobre mi…

Y me lleva, como si me abriera
Paso entre la selva, como un rey..

Casi sin saber, desliza su mirada tibia…
Abriendose camino, en mi corazon…

Casi sin saber, desliza su mirada clara.
Transformando al mundo en un segundo…

Hay un sol, que enciende mi vida…
Que cura mi herida, que camina suavemente sobre mi…

Y me lleva, como si me abriera
Paso entre la selva, como un rey..

Casi sin saber, desliza su mirada tibia…
Abriendose camino, en mi corazon…

Casi sin saber, desliza su mirada clara.
Transformando al mundo en un segundo.

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Mia Couto, mestre

 

A DEMORA

O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

MIA COUTO, no livro “Idades cidades divindades”

 

 

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Janeleiro

 

Geraldo Maia e Rodrigues Lima

 

Da janela eu vejo a rua

Vejo a noite enluarada

Vejo o céu de carneirinhos

Os pardais em revoada

Vejo os pássaros nos ninhos

Vejo linda madrugada

Da janela eu vejo a rua

Os casais enamorados

As mariposas voando

Os postes iluminados

Vejo os gatos barulhando

Namorando nos telhados

Bendita seja a janela

Bendito seja o luar

Bendito seja o amor

Que ela tem para me dar

Bendita seja a janela

Lugar que gosto de estar

 

Da janela eu vejo ao longe

Quem vem do lado de lá

É ela que vem cantando

Com vontade de chegar

Ela chega me abraçando

Sedenta para me amar

Da janela eu vejo o sol

Que surge por trás da serra

Vem trazendo a energia

Que alimenta a terra

Da janela eu vejo a paz

Que quer sufocar a guerra

Bendita a janela

Bendito seja o luar

Bendito seja o amor

Que ela tem para me dar

Bendita seja a janela

Lugar que gosto de estar

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As tempestades íntimas

Todo poeta é um escravo da verdade. E não de forma axiomática, impositiva, encerrada em única possibilidade. A verdade da qual o poeta é um mero instrumento está situada em uma compreensão mais antiga, oriunda da sabedoria que só alcançou os gregos: aletheia. O não esquecimento.

Quando a poesia se torna maior que o seu criador, um estranho fenômeno acomete sua obra: autor de sua solidão, o poeta é capaz de entregar-se ao mundo e doar sua sensibilidade ao plano cósmico, ontológico. Seus dizeres sucumbem à imensidão.

A tranquilidade, enfim, pousa em seus dedos exaustos. Um sono secular invade suas pálpebras inchadas, dilacerando as reminiscências. Ah, como os retalhos do vivido são uma frustrada tentativa de apropriação! Já não é possível imaginar versos em sua concepção, ainda invólucro no coração do pensamento. O universo inunda seu artista e suas águas tornam-se o novo ventre.

Acontece que a doação pode facilmente se transformar em sacrifício. A missão de deixar o Cosmos se apoderar do corpo, da alma, das entranhas é quase insuportável. A arte exige, às vezes, que a vida seja interrompida.

Qual é o peso de sobreviver ao próprio destino? Em qual palavra pode se encontrar abrigo que apazigue o deserto visceral? Quando uma ferida consegue avistar a primeira camada de pele?

É apenas em nueza absoluta. Ao escancarar a fragilidade pesada. Ao gritar para os abismos quais cicatrizes escrevem sua existência. Ao desvendar a multiplicidade de eus despedaçados é possível sonhar uma vez mais.

Por estas razões, Elena não é um documentário de cunho pessoal. Não é uma elaboração das “dores que não doem, nem na alma”. O filme confunde-se com a história de todos os artistas que povoaram este mísero corpo celeste.

A protagonista carrega o peso da arte. A irmã tem a missão de desanuviar sua ira, sua incompreensão, seu amor preso às lembranças infantes. Com o dever de salvar a si e a sua Mãe, revelando o inconsolável.

Hoje, falho de ti, sou dois a sós”, disse Pessoa ao indignar-se com a ausência de seu melhor amigo.  Quantas madrugadas você não sentiu o mesmo verso, Petra? Quantos naufrágios emanaram de seus olhos, nesta busca invencível pela metade que lhe falha?

Só a coragem é capaz de navegar os esboços e tingir a realidade em quimeras. Sinto-me covarde frente à sua poesia. Quantas palavras estão enclausuradas dentro de mim, esperneando para habitarem um outro mundo que não seja eu. Quanto medo tenho de confessar meus precipícios!

Petra, a plenitude de sua poesia me ensinou que as tempestades íntimas impedem a conjugação da tristeza, desde que haja força para atravessar os mistérios da angústia. As águas retornarão, em calmaria. Límpidas. Salpicadas por tons prateados. É Elena, lunar, luminosa, em órbita ao nosso redor, quando os escuros parecem intransponíveis.

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Luiz Melodia

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Domingo fui concretizar mais um sonho musical: ouvir de perto o Luiz Melodia. Depois de ser salva por ele, no ano que passei em Lisboa, não sabia o que iria sentir ao dar meus olhos para o ídolo. Inacreditavelmente, nos primeiros minutos já estávamos conectados. Ele sorria pela íris para mim. E eu o entendia, cósmica.

Talvez a Música seja a arte que transborde assim, antes, pré-instantânea, impregnando suas presas com a paralisia de quem engole os instantes com embriaguez.

Depois, em Fadas, ele me olhou de novo. Suspendeu o microfone aos ares. E caminhou, em sensualidade felina. Sorrindo para mim. E pegou-me em seus dedos, comungando nosso encontro. Sem dizermos uma única palavra.

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Por mero descaso…

“As vidas humanas são compostas como uma partitura musical. O homem, guiado pelo senso de beleza, transforma o acontecimento fortuito (…) num motivo que mais tarde vai se inscrever na partitura de sua vida. Voltará a esse motivo, repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o como faz o compositor com o tema de sua sonata.

(…)
O homem, inconscientemente, compõe sua vida segundo as leis da beleza, mesmo nos instantes do mais profundo desespero.
Não se pode, portanto, criticar o romance por seu fascínio pelos encontros misteriosos dos acasos (…), mas se pode, com razão, criticar o homem por ser cego a esses acasos, privando assim a vida da sua dimensão de beleza.”

Milan Kundera in A insustentável leveza do ser

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Sofrer vai ser a minha última obra…

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Paulo Leminski

 

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Fechado por dentro

Graças ao meu amado Juca Silveira, fui apresentada a essa música indizível, do nosso gênio Paulo César Pinheiro

Você bateu na porta do meu peito
Meu coração deixou Você entrar
Depois de usar meu leito
Me deixou o amor desfeito
E foi-se embora sem dizer se vai voltar
E agora não tem jeito
O coração dentro do peito
Se fechou resignado de esperar.

Enfim eu compreendi que amor perfeito
É só nome de flor, outro não há
Porém amor assim não esta direito
Você pôs tudo a seu jeito
Pra depois sem mais nem menos me deixar
Você levou a chave do meu peito
O amor não pode mais me visitar
Do coração não sei o que foi feito
Não dá mais abraço estreito
Acreditando que Você vai regressar.

 

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Quando Vinícius invadiu minha memória…

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…

Vinícius de Moraes

 

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Sarau Mundano

Apresento-lhes meu filho, feito apenas de poesia: Sarau Mundano!

“É triste explicar um poema. É inútil também. Um poema não se explica. É como um soco. E, se for perfeito, te alimenta para toda a vida. Um soco certamente te acorda e, se for em cheio, faz cair tua máscara, essa frívola, repugnante, empolada máscara que tentamos manter para atrair ou assustar. Se pelo menos um amante da poesia foi atingido e levantou de cara limpa depois de ler minhas esbraseadas evidências líricas, escreva, apenas isso: fui atingido. E aí sim vou beber, porque há de ser festa aquilo que na Terra me pareceu exílio: o ofício de Poeta.”

Hilda Hilst em Cascos & Carícias & Outras Crônicas

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O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia…

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

   Alberto Caeiro, Fernando Pessoa e Tom Jobim.

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Janela sobre os seres e os fazeres…

“A pele da passadeira de roupas é lisa.
Longo e pontiagudo é o consertador de guarda-chuvas.
A vendedora de frangos parece um frango depenado.
Brilham demônios nos olhos do inquisidor.
Há duas moedas entre as pálpebras do avarento.
Os bigodes do relojoeiro marcam as horas.
Têm teclas as mãos da secretária.
O carcereiro tem cara de preso e o psiquiatra, cara de louco.
O caçador se transforma no animal que persegue.
O tempo transforma os amantes em gêmeos.
O cão passeia o homem que o passeia.
O torturado tortura os sonhos do torturador.
Foge, o poeta, da metáfora que encontra no espelho.”
Eduardo Galeano

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Os livros são pássaros do sonhar

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O outono visto pela janela / Código Postal

De arrepiar… Obrigada Portugal por existir como minha pátria da poesia!

E ainda mais lindo…

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Não há profundeza imemorial

Nenhuma intimidade é navegável pelos olhos…

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Do disco voador!!!

http://http://www.youtube.com/watch?v=II1HjAeo7k4

Tenho que escolher o que detesto — ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensibilidade repugna; ou a acção, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.

Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar, ou agir, misturo uma coisa com outra.

Livro do Desassossego. Vol.II. Fernando Pessoa.

]

Hoje é domingo missa e praia céu de anil
Tem sangue no jornal, bandeiras na avenida Zil
Lá por detrás da triste linda Zona Sul
Vai tudo muito bem, formigas que trafegam sem porquê

E das janelas desses quartos de pensão
Eu como vetor, tranquilo tento uma transmutação
Ô, ô, ô seu moço do disco voador
Me leve com você, pra onde você for

Ô, ô, ô seu moço mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que tem tanta estrela por aí.

Andei rezando para tótens e Jesus
Jamais olhei pro céu, meu disco voador além
Já fui macaco em domingos glaciais,
Atlantas colossais, que eu não soube como utilizar

E nas mensagens que nos chegam sem parar
Ninguém, ninguém pode notar

Estão muito ocupados pra pensar.
Ô, ô, ô seu moço do disco voador
Me leve com você, pra onde você for

Ô, ô, ô seu moço mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que vem tanta estrela por aí.

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Todas as vidas que eu outrora tive, numa só vida…

NESTA vida, em que sou meu sono,
Não sou meu dono,
Quem sou é quem me ignoro e vive
Através desta névoa que sou eu
Todas as vidas que eu outrora tive,
Numa só vida.
Mar sou; baixo marulho ao alto rujo,
Mas minha cor vem do meu alto céu,
E só me encontro quando de mim fujo.

Quem quando eu era infante me guiava
Senão a vera alma que em mim estava?
Atada pelos braços corporais,
Não podia ser mais.
Mas, certo, um gesto, olhar ou esquecimento
Também, aos olhos de quem bem olhasse
A Presença Real sob disfarce
Da minha alma presente sem intento.

Fernando Pessoa

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Amei mais do que pude, eu fiquei cego de paixão…

Meninos, eu vi

Chico Buarque

Um grande amor

Para viver um grande amor

Eu vi o grande amor no claro olhar da minha amada, eu vi
Que todo o grande amor ainda é pouco, ainda é nada, eu vi
Amores que jamais verei
Meninos, eu vivi
Vivendo a poesia de verdade

Também vi a cidade incendiada, eu tive medo
Eu vi a escuridão
Eu vi o que não quis
Amei mais do que pude, eu fiquei cego de paixão
E acho que enfim eu vi um homem ser feliz

Juro que um dia eu vi um homem ser feliz

Eu vi o grande amor escancarado em cada cara, eu vi
O amor evaporando pelos céus da Guanabara
Amores de imortal verão
Meninas, como eu vi
Vivendo poesia de verdade

Eu vi uma cidade enfeitiçada, e tive medo
Eu vi um coração
Molhando o meu país
Amei mais do que pude, eu fiquei cego de paixão
E acho que enfim eu vi o homem ser feliz

Juro que um dia eu vi o homem ser feliz

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Memórias de um verão em Lisboa…

La lune de Gorée

Gilberto Gil
Capinan

La lune qui se lève
Sur l’île de Gorée
C’est la même lune qui
Sur tout le monde se lève

Mais la lune de Gorée
A une couleur profonde
Qui n’existe pas du tout
Dans d’autres parts du monde
C’est la lune des esclaves
La lune de la douleur

Mais la peau qui se trouve
Sur les corps de Gorée
C’est la même peau qui couvre
Tous les hommes du monde

Mais la peau des esclaves
A une douleur profonde
Qui n’existe pas du tout
Chez d’autres hommes du monde
C’est la peau des esclaves
Un drapeau de Liberté

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Não se sonha uma vida fora…

E porque estou, a cada dia, ajeitando o meu caminho para encostar no teu…

Watching the wheels – John Lennon

People say I’m crazy doing what I’m doing
Well they give me all kinds of warnings to save me from ruin
When I say that I’m o.k. well they look at me kind of strange
Surely you’re not happy now you no longer play the game

People say I’m lazy dreaming my life away
Well they give me all kinds of advice designed to enlighten me
When I tell them that I’m doing fine watching shadows on the wall
Don’t you miss the big time boy you’re no longer on the ball

I’m just sitting here watching the wheels go round and round
I really love to watch them roll
No longer riding on the merry-go-round
I just had to let it go

Ah, people asking questions lost in confusion
Well I tell them there’s no problem, only solutions
Well they shake their heads and they look at me as if I’ve lost my mind
I tell them there’s no hurry
I’m just sitting here doing time

I’m just sitting here watching the wheels go round and round
I really love to watch them roll
No longer riding on the merry-go-round
I just had to let it go
I just had to let it go
I just had to let it go

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Sobre Genialidade e Loucura

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Looking for flying saucers in the sky…

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Monólogo de Orfeu

                                                                                                                                                                   

Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
É mais por que te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada…
E sabes de uma coisa? Cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, – que é que eu sei! Essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confundir o espírito
De um homem – nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! E me dizes essas coisas
Que me dão essa força, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! Sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice…
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura! Quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres – que ele, Orfeu
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo! 

Vinícius de Moraes – Orfeu da Conceição

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Amor Inconcluso

 

Ana galgava devaneios enquanto a máscara negra ia cobrindo seus cílios compridos.  De sua mão escorriam gotas imperfeitas, repletas de cólera e temor. Encontrava-se horrorizada pelas sensações que assombravam o espírito, naquele instante. Ana já não galgava – lenta em sua exatidão – cada uma das lembranças que a acalentaram a alma após aqueles quase trinta anos.

Como ressurgia assim, meu Deus?! E por qual razão, agora, vinte e sete anos depois? O incognoscível sabor da possibilidade ia surgindo ansioso em sua boca, já pintada de vermelho sangue – e como era óbvia, na escolha do batom! Às vezes a obviedade insurge para dar nuances ao real.  

Vinte e sete anos. É uma vida! Toda uma encarnação em ausência. Repousara em recordações durante todo esse tempo? Fora escrita de novo, na casa da memória? Nada. A existência havia entardecido rapidamente, como se fosse abrigar um dilúvio.

E por que a sincronicidade ri dos seus sentimentos depois de vinte e sete anos? Não guardaria mais tudo aquilo que a imaginação construíra? “Sou apenas uma prosódia que precisa se aconchegar à melodia?”, refletia estupefata. 

A senhora de quarenta e nove anos incutia a imagem no espelho. A velhice não chegara em decrepitude, como acontecera com a maioria das amigas dela. Embora precisasse de uma cinta modeladora para apaziguar as formas no vestido, havia uma beleza ainda pueril no desenho dos seus ombros. Enquanto o corpo envelhecera, os ombros permaneceram intactos, resguardando as saboneteiras salientes. Era seu resto de infância traduzido na ossatura.  

Era tão fácil para ela entender a aparente imortalidade dos ombros. Porque uma vida sonhada fora muito mais bela. E os ombros não suportaram jamais as dores da velhice. E tudo para Ana havia sido leve e sonhado e puro. Até o momento em que atendeu ao telefonema do amor devaneado.

Por que atendeu ao telefone? E por que ele liga, justo hoje? “Já tivemos tantas oportunidades de nos cruzar pelas calçadas! Quantos aniversários de amigos em comum fui, à espera de reconhecer o seu olhar quente, desértico. E o destino jamais quis o nosso re-encontro!”

Justo hoje ouvia um “eu te amo” desesperado. Como assim? “Vamos tomar um café na livraria onde nos conhecemos?” ele disse, animado. E ela, estarrecida, disse que sim. É claro que sim. E agora, com a maquiagem pronta, os cabelos tingidos, as mãos feitas, a cinta disfarçando a barriga, agora já não sabia se desejava destruir todos os sonhos com esse mísero café.

Esse século que os separou a alimentou. Amor inconcluso. Ah, quantas noites não vividas tiveram o gosto indecifrável da ventura! Como ela fora resiliente, frente a todos os infortúnios, só por ter trancafiado apaixonadas fantasias! E de seu sono imperturbável nasceram todas as defesas contra as enfermidades mundanas. E tudo estava correndo o risco de ser acabado.

Seria inelutável? Havia uma robustez tão grande de espírito, por todos os futuros inventados! Um amor sem molduras, rebento em larguezas juvenis. Amor que dorme ao relento sem precisar agasalhar-se. Há maior amor que o amor imorredouro?

Num esforço de lembrança, Ana velava as sobrancelhas do amado. Passava pela sua barba imponente. Ressuscitava cada centímetro dele. Ela sabia de cor suas unhas redondas. E sabia de cor as cutículas pesadas de carne. Porque teve uma enorme tristeza em vê-las partir.

Indelével. Fora assim que a inconclusão pousou em Ana. A fortaleza do vir-a-ser em quimeras lhe cobrira de esperanças para inúmeras vidas. Como o que ocorre com os escritores, ela havia dado a si mesma o presente da invenção.

A curiosidade mesquinha sobrepujaria sua insana recordação? Porque, para ela, ele tinha a alma aberta como o mar em noite de ressaca. Seria capaz de aniquilar uma imagem tão bela e tão inumana como esta? Haveria ele envelhecido normalmente? Com preocupações estúpidas? Com questões triviais? Mas se ainda a amava, poderia ter se transformado num completo imbecil? Ele navegou com ela por canções inebriantes. Mastigaram juntos os mais belos pores-de-sol.   

Não. Não ousava descrever em palavras o que efetivamente havia acontecido. Todas as vezes que se submeteu à confissão desse amor, partiu-se ao meio. Ninguém a entendera. E nem era para ser entendida. Seu amor era monolítico. Os rastros ficariam estampados nas gavetas, escondidos nas paredes embranquecidas, encerrados nos abraços perigosos.

Ana acendeu um cigarro. Sentou-se na cadeira de balanço. Invocou a presença de Chet Baker. Preparou um copo de uísque sem gelo. Recolheu toda a bagunça que estava para fora dela. E esperou a noite chegar. Satisfeita. O sangue não partiria de suas mãos. Ana era grata por não ser uma assassina de irrealidades. 

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Véspera

Enquanto as malas ainda estão abertas, o coração já embarcou.

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Míope é a vida!

Um lindo poema da Adélia Prado, interpretado pelo Mané do Café. E, incidental ou não, uma homenagem à minha mãe!

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Sonhos não envelhecem…

E no meio de tanta tristeza que aterrorizou a sua segunda-feira, você lembrou de mim. Meus sonhos, ao seu lado, não envelhecem…

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Sorrir

Lembro-me de estar só em Girona. Era um dia lindo e meu amor havia partido. Andei por aquela minúscula cidade, cercada por muros seculares. No meio do caminho, estava a exposição do Chaplin, pequenina como Girona. Foi o grande sorriso que inundou aquele dia.

Sábio, como devem ser todos os palhaços…

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Vicente Amigo

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Não há palavras!

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