Arquivo do mês: abril 2011

Adiamento

Álvaro de Campos

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…

O porvir…
Sim, o porvir…


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O amor na estante

A madrugada em solitude se apodera de mim como se não fosse uma estrangeira a invadir os aposentos. Eu a aceito, na feliz condição de quem está no caminho dessa entidade – incompreendida e sobranceira. Já desisti, há muito, de ousar traduzi-la, transpô-la ao cognoscível que sustenta o espírito racional da humanidade.

É no maior dos silêncios que me chegam as palavras. Capturadas de páginas inconclusas ou exigidas de uma memória da qual sou totalmente impotente, elas me cruzam em suas trajetórias irregulares e tardias, translúcidas e calmas.

Que seria de mim se não fossem esses empilhados de papéis nessa hora tão perigosa? Em que umbral me encontraria se não houvesse a existência mágica dos livros na minha jornada? Seres que me permitem inclinar-me aos penhascos, para ao menos retrair o coração, submisso, e admirar o inefável ontológico dos abismos.

Amo-os como jamais fui capaz de mensurar. A casca, capa, o invólucro já me são manifestações do pré-amor. Ah, quantos amores são como os livros! Não! Os meus amores todos são livros.

Há os que dão saudades dos personagens e dos quais não me canso de recordar a felicidade extraordinária que proporcionaram suas epifanias brilhantes (e não efêmeras). Quantas lágrimas fugiram de mim, nas últimas linhas… Como sofri, aprendi e temi aquele fim, porque o fim é sempre inevitável.

Quantos livros não descartei nas primeiras folhas: ora por serem ininteligíveis na época, ora por carregarem uma prepotência insustentável. Um sorriso se encosta nos lábios ao trazer à tona alguns desses homens semi analfabetos!

Houve também as histórias curtas, magras, fáceis de ler. Pouco foram sedimentadas dentro do corpo. Jamais traziam a finalidade de ser abrigo aos bustos construídos em minh’alma.

E mais tantos amores-aventuras que poderia mensurar. Quando se gruda o olho à letra, o pulso ao limite até o ponto final. E a invasão serena, mista de alegria e alívio.

Se eu pudesse encaixar os amores nos livros, haveria também os de autoajuda, com suas fórmulas piegas, a náusea de sua previsibilidade e simplórias senhas de felicidade. Também os clássicos, pedantes, flácidos, ensimesmados, mofados e taciturnos que a gente se obriga a ler na frustrante tentativa de pertencimento, de transbordar aos outros nossa biblioteca incorporada.

Sobrará algum livro imorredouro cá dentro, então? Com os olhos do pensamento apertados em nitidez, eis que surge minha resposta: a poesia é o meu único amor que não tem prazo. Porque ela invadiu as fronteiras dessa noite com todas as janelas escancaradas às possibilidades. Imortal, com a fulgurância comparável aos fogos de artifício, quando tenho o faiscante espírito em festa. Ela, que me tece em seus retalhos e me dá o sentido desvelado de continuar. Que aniquila o laconismo mundano do choro. A ocêanica poesia que me arrebata em segundos, alucina meus poros e me deixa cambiante. Única, retira-me da medonha sonambulia perambular da ignorância. Que joga a desesperança dos trilhos para longe de mim. Esse foi o único de todos os meus amores que se perpetuou. O amor que me extrapola em lirismos e resplandeceres, sem nomeá-los de tal forma. Poesia que conflui a soturnidade, a clareza e o mais débil contentamento em verso. És a derradeira permanência neste mundo.

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A desistência é uma revelação.

Clarice Lispector

“(…) E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha condição.

A desistência é uma revelação.

Desisto, e terei sido a pessoa humana – é só no pior de minha condição que esta é assumida como o meu destino. Existir exige de mim o grande sacrifício de não ter força, desisto, e eis que na mão fraca o mundo cabe. Desisto, e para a minha pobreza humana abre-se a única alegria que me é dado ter, a alegria humana. Sei disso, e estremeço – viver me deixa tão impressionada, viver me tira o sono.”

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Onírico desatino

“Mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro, brota depois…Pois então, o senhor me responda: amor assim pode vir do demo? Poderá?” João Guimarães Rosa – Grande Sertão Veredas

Acordou num sobressalto. Desassossegada das manhãs, temia estar mais uma vez atrasada para o viver. O coração pululava em intimidadas artérias. Um suor, mascarado em umidade, escondia o acontecimento delirante. E não houve uma consciência recobrada anterior ao pertencer dos impropérios sentidos que avassalavam os poros, ainda trôpegos de vinho e insônia.

Então havia existido. Em alguma esquina onde moram todos os desejos, ardia. Inútil, o convite, impensado devaneio. Por que, meu Deus, fui habitada por essa possibilidade? Por que me vem agora essa terrível clarividência daquilo que não sou capaz de compreender?

A ira, cerebral, era mínima. Sempre lhe foi inelutável sustentar as estribeiras do pensamento, frente à imprevista tempestade oracular. Defendida de si e para si, percorreu a cidade, passos longos. Suspensos, os minutos não a auxiliavam no entendimento da fantasia. Não quero o amor a me rondar, agora! Que descaso é esse, descabido inconsciente? Que audácia é essa de tingir meu sonho em retalhos escarlates?!

A sucessão das horas não foi apaziguando o reverberar das cordas. Não trouxe a desligada calmaria do ouvido que desiste de se atentar à insuportável presença do tempo. Absolutamente tudo se concretizou, ali. Instante onde a quimera entrelaça o inadmissível – e o concebe caminho. Num repouso em que todos os corpos estão nus.

O ímpeto de telefonar a ele e dizer a loucura repercutida em sua cabeça fora maior que o entregar-se ao incabível. Nas profundezas de sua racionalidade, ela precisava pôr fim àquelas indizíveis previsões.

E ele? Sem ter menor noção do que se tratava, foi ao encontro da amiga, na tarde ensolarada que cobria as outonais nuances. E ambos vagaram pelas ruas: ela com a culpa ridícula do sonho; ele com a ignorância dos infantes.

A tarde, imune, encolheu-se, vestindo-os com o pôr-do-sol à beira da esplanada. Sincronizou a paisagem à memória dos clichês. Estupefata, ela respirava o alívio de todos os sonhadores desavisados. A esquálida fumaça transparente das esperas ia, pouco a pouco, deixando seus domínios. O intraduzível que os silenciava, no auge crepuscular do óbvio, abandonava o pesado recinto. Ah! – suspirou – como é bom me desafogar desses dilúvios! O conforto de ter as rédeas da razão em punho! Nada existiu. Nada existiu.

Cambaleante, alta noite se inaugurava vagarosa, com a preguiça que nortea todo esplendor. Uma lucidez indigna da miopia estrelava os olhos, antes aflitos, daquela moça. Os anseios – exaustivos para quem já teve uma imaginação em chamas – em mudez. Sonhos pueris, que navegam a vigília e o latente, enfim superados. Nada aconteceu.

O dia a seguir, haveria o encetar da ressaca que se cala? A extenuante inquisição das rotinas? Nada! A jornada já não seria a mesma. No amor ou ideia de amor, na lembrança iludida ou na sua oposta desaventura. É.

Ele também compreendeu: ao buscá-la, após o expediente, não decoraria dizeres. Tudo aquilo que não existia já estava adormecido em sua carne. A intempérie não jazia, hospedava-o. Preambular àquele passeio.

A relação mudou. E o porquê não o interessava. Nos sutis tintilares que eram despertos, os sorrisos escaldantes submergiam seu rosto claro.

Surgido o oportuno momento, apenas invocaria a ancestral originalidade. Afinal: viver se enquadra, milimetricamente, no sonhar?

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