Arquivo do mês: dezembro 2019

Previsões de ontem

 

Nesta madrugada de fim de ano

aqui,

no mundo invertido,

encontro-me sozinha.

Feliz.

 

Os estranhos desígnios cármicos

me levaram ao profeta português:

Gonçalo Anes Bandarra.

 

Nas minhas pesquisas herméticas

só recolho uma certeza:

as profecias jamais invocaram

a presença feminina.

 

Assim, distancio-me delas.

 

Não há futuro sem mulher.

 

Meu desejo mais profundo

ano novo

é acreditar no equilíbrio

entre os sagrados.

 

Inaugurar a fraternidade.

 

Esquecer dos pavores

que enfrentamos,

duais.

 

Bandarra previu Portugal

como desbravador das intuições.

Eu o corroboro,

com o seguinte adendo:

só uma mãe

é capaz de mapear

o coração.

 

Eu não sou mãe.

 

Às vezes, sinto-me indigna

de receber essa missão.

 

Nenhum corpo cresceu dentro de mim,

afora minhas personagens

e devaneios.

 

Sinto-me inferior por isso.

Como se o peso do mundo

não pudesse ter me tocado,

inteiramente,

pela gelidez do meu útero.

 

Tive inúmeras comprovações,

nesse ano do qual me despeço.

Sou pequena,

sou imensa,

fomos todos escritos,

ontem.

 

Tenho medo de não aguentar

o expurgo

que é necessário à evolução.

 

Prometo,

Contudo,

ser a mais atenta:

Ouvir flores e crianças;

Abraçar todos os verdes,

Meditar os azuis.

 

Anotar as palavras

Virgens à minha caneta.

Traduzir as marés,

Límpidas,

reminiscentes

 

Mas,

se já fomos declamados

Em saraus do Olimpo

Por que há tantas letras

(eu as conheço)

que ainda não foram ditas?

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Quando o poeta te lê…

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A propósito do belo livro ‘Viver é Fictício’, de Mariana Portela.

Sabe-se que existem rios ocultos sob as várias colinas de Lisboa. São eles que
levam nas suas águas para o Tejo tranquilo, saudades, amores, culturas, alegrias
e tristezas. Ah! E as Tágides.
Sim, essas ninfas, inspiradoras de poetas, nascem nas águas cristalinas das
fontes subterrâneas das colinas e fazem do Tejo o seu lar.
Mergulhada na poesia de Camões e Pessoa, Mariana Portela, oriunda de outras
geografias, de outras águas e de outras atmosferas, quis conhecer esses seres
mitológicos. Nessa busca, percorreu becos, travessas e recantos da cidade
seguindo os rumores que ouvia nos fados cantados nas tabernas e, sem se
aperceber, apaixonou-se por Lisboa e pelas suas gentes.
Hoje, impregnada pela mística que emana das colinas debruçadas sobre o Tejo,
Mariana faz deslizar pela corrente dos seus textos, ricos em poesia e
introspecção, o amor pela cidade que aprendeu a amar, principalmente, nas
silenciosas horas da madrugada.
A leitura deste livro foi, para mim, uma surpresa muito agradável que venho
recomendando com prazer e com orgulho por ter conhecido a sua autora.

Reinaldo Ribeiro
09DEZ2019

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