Arquivo do mês: agosto 2016

Não a vida

leminski2408

“Amor, então,

também, acaba?

Não, que eu saiba.

O que eu sei

é que se transforma

numa matéria-prima

que a vida se encarrega

de transformar em raiva.

Ou em rima.”

Paulo Leminski

Se eu pudesse ter escrito a nossa história – e não a vida – traria a tua vinda em trajes de outono. Aparecerias, esquisito, pulôver e cachecol, em noite fria de maio. Oferecerias três garrafas de vinho português para a mesa, acompanhadas de queijo gruyère.

Virias, daquele jeito, pedante, a cumprimentar os amigos em comum. A sala se envaideceria em tua presença? Ah, delírio de um acontecimento inigualável! Aceitarias – como quis a vida – que tua mesquinhez fosse abafada pelo entorpecimento. Era apenas a alegria de estarmos juntos.

Sentarias, ao meu lado. Eu, inebriada pelo tilintar das brasas. Tu, à espera de que me lembrasses de ti. Mal sabias, quisera eu – não a vida – que possuo essa mania estúpida de me entregar aos lugares, em detrimento dos seres humanos.

Se eu pudesse ter escrito nossa história, antes da vida, teria suspendido as cicatrizes que amarguram tuas dores. Vivenciaríamos as borbulhas primeiras, virgens na pele.

Borbulharíamos, únicos. Estrada que somos e que nos contorna a solidão.

Não suporto apadrinhar os horrores que não me foram, meu amor.

Contudo, ao escolher o nosso beijo, em literatura, eu abdicaria de todos os clichês.

Excluiria ternuras.

Desprovida de obviedades, vestir-me-ia de ti, em camisetas e gatos e cigarros.

Afastada de quaisquer ninharias, terias-me sido, como em vida: transeunte, impermanente, indubitável. Tu, se alcançasses a narrativa, acontecerias do mesmo jeito: inesperado.

Se eu pudesse ter escrito a nossa história – e não a vida – ainda degustaríamos aquele restaurante japonês, digno de filme. Escandalizaríamos os silêncios, em madrugadas juvenis. Mendigos, em cada dose de gim, ou de cólera.

Em mim, a tua existência segue mais bela. Se eu pudesse ter-nos escrito, não seríamos nós, amor. Seria literatura.

A vida, se me deixasse, teria enaltecido cada momento vão, como se escolhesses o carro errado e tudo fosse motivo para rir.

A vida nunca coube nas horas que tivemos, nem na minha escrita mais bonita.

Tu não dormiste em verso nenhum…

Onde auscultaram tua partida, amado?

Se eu pudesse ter escrito nossa história – e não a vida – jamais negligenciaria teus tormentos de menino. Minha poesia aguentaria tuas errâncias invisíveis.

Ah, inveja da vida que me escreveu a tua história!

 

 

 

 

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Procura da Poesia

drummond

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Amar

 

Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

amar e esquecer,

amar e malamar,

amar, desamar, amar?

sempre, e até de olhos vidrados, amar?

 

Que pode, pergunto, o ser amoroso,

sozinho, em rotação universal, senão

rodar também, e amar?

amar o que o amar traz à praia,

o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,

é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

 

Amar solenemente as palmas do deserto,

o que é entrega ou adoração expectante,

e amar o inóspito, o áspero,

um vaso sem flor, um chão de ferro,

e o peito inerte, e a rua vista em sonho,

e uma ave de rapina.

 

Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura medrosa,

paciente, de mais e mais amor.

 

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa

amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

 

Não Passou

Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.

Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão- a tua mão, nossas mãos-
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?

Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.

Carlos Drummond de Andrade

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Tríptico

HerbertoHelder

Herberto Helder

 
Não sei como dizer-te que minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite

esplêndida e vasta.

Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos

se enchem de um brilho precioso

e estremeces como um pensamento chegado. Quando,

iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado

pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima

— eu não sei como dizer-te que cem ideias,

dentro de mim, te procuram.

 

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros

ao lado do espaço

e o coração é uma semente inventada

em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,

tu arrebatas os caminhos da minha solidão

como se toda a casa ardesse pousada na noite.

— E então não sei o que dizer

junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas

que às vezes se despenham no meio do tempo

— não sei como dizer-te que a pureza,

dentro de mim, te procura.

 

Durante a primavera inteira aprendo

os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto

correr do espaço —

e penso que vou dizer algo cheio de razão,

mas quando a sombra cai da curva sôfrega

dos meus lábios, sinto que me faltam

um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer

coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres

que dentro de mim é o sol, o fruto,

a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,

o amor,

que te procuram.

(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)

Meu agradecimento especial ao poeta Eduardo Lacerda, que me ensinou esse poema sublime…

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