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Compreensões inexplicáveis

Cousa mais bela essa música… E eu não sei nada sobre a vida do Leo…

Leo

Milton e Chico

Um pé na soleira e um pé na calçada, um pião
Um passo na estrada e um pulo no mato
Um pedaço de pau
Um pé de sapato e um pé de moleque
Leo

Um pé de moleque e um rabo de saia, um serão

As sombras da praia e o sonho na esteira
Uma alucinação
Uma companheira e um filho no mundo
Léo

Um filho no mundo e um mundo virado, um irmão
Um livro, um recado, uma eterna viagem
A mala de mão
A cara, a coragem e um plano de vôo
Leo

Um plano de vôo e um segredo na boca, um ideal
Um bicho na toca e o perigo por perto
Uma pedra, um punhal
Um olho desperto e um olho vazado
Leo

Um olho vazado e um tempo de guerra, um paiol
Um nome na serra e um nome no muro
A quebrada do sol
Um tiro no escuro e um corpo na lama
Leo

Um nome na lama e um silêncio profundo, um pião
Um filho no mundo e uma atiradeira
Um pedaço de pau
Um pé na soleira e um pé na calçada

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Tríptico

HerbertoHelder

Herberto Helder

 
Não sei como dizer-te que minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite

esplêndida e vasta.

Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos

se enchem de um brilho precioso

e estremeces como um pensamento chegado. Quando,

iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado

pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima

— eu não sei como dizer-te que cem ideias,

dentro de mim, te procuram.

 

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros

ao lado do espaço

e o coração é uma semente inventada

em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,

tu arrebatas os caminhos da minha solidão

como se toda a casa ardesse pousada na noite.

— E então não sei o que dizer

junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas

que às vezes se despenham no meio do tempo

— não sei como dizer-te que a pureza,

dentro de mim, te procura.

 

Durante a primavera inteira aprendo

os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto

correr do espaço —

e penso que vou dizer algo cheio de razão,

mas quando a sombra cai da curva sôfrega

dos meus lábios, sinto que me faltam

um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer

coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres

que dentro de mim é o sol, o fruto,

a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,

o amor,

que te procuram.

(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)

Meu agradecimento especial ao poeta Eduardo Lacerda, que me ensinou esse poema sublime…

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Erros de continuidade

estela

“A noite era cheia daquelas pequenas nuvens muito brancas, que se destacam umas das outras. Vista através de uma ou outra delas, a Lua tinha em seu torno um halo azul, castanho e amarelo, com uns tons supostos de verde-vivo. Entre as árvores o céu era dum azul-negro profundíssimo, longínquo, irrevogável. As estrelas viam-se ora através das nuvens, ora, muito longe, mas entre elas. Uma saudade de coisas idas, de grandes passados da alma, talvez porque em reencarnações antigas, olhos nossos, no corpo físico, houvesse visto, este luar sobre florestas longínquas, quando selvática ainda, a alma infanta talvez pressentia, por uma memória em Deus ao contrário, no futuro das suas reencarnações, esta lua retrospectiva. E assim essas duas luas davam mãos de sombra por sobre a minha cabeça abatida.”

Bernardo Soares / Fernando Pessoa.

Não faz muito tempo que minha melhor amiga veio me confidenciar o sonho fenomenológico que teve, dias após ser mãe. Ela conversava na varanda de uma fazenda com meu pai – aquele ser digno de desdenhar os bestiários de Cortázar – em noite de lua cheia.

Talvez ele seja a pessoa mais capaz de transformar o realismo fantástico em verdade, no piscar de uma galáxia. Até consigo ouvir sua voz, naquela noite em que não sonhei, naquela pele onde nunca vivi.

Meu pai, em seu enredo, alertava-a sobre o famoso erro de continuidade, de um filme irretocável. Sua epifania, ao despertar, habitava os domínios extraordinários do óbvio: a maternidade não poderia abrigar tais descuidos.

Pensei, embasbacada, apaziguando meus silêncios em sortilégios: e se o maior erro de continuidade fosse minha própria existência? Estaria eu blasfemando a memória de todas as mulheres que caminharam até minha íris? Seria o momento de interromper essa escravidão cardíaca das estrelas, agora?

E se formos, todos nós, erros de continuidade, insistentes numa redenção impossível, delirantes com a vergonhosa liberdade? Suplicamos, a vida toda, por magos que sobrevoem as biografias, espalhando os famosos goles de velhice?

Aquela conversa, indecifrável, fez-me indagar acerca da minha ancestralidade. Por que, meu Deus, havia tanta fertilidade nos nossos dilúvios?

Herdamos os planos enclausurados, as cartas de amor seculares, uma linhagem de poetas. Contudo, ainda assobiamos as canções milenares, em madrugadas de festa? O café sempre cheira a saudade? Estaremos luminosas, quando a solidão cair do céu?

Pergunto a essas mulheres que me traçam o espírito: qual o peso que se dá entre o escuro e o entardecer? Quais revoluções intrínsecas devo lutar? No dinheiro que sobrar para a viagem: quais parentes visitar? Quantas são as fragilidades que me encontro autorizada a convidar, quando vir uma alma em frangalhos?

Ah, fardo irremediável da delicadeza!

Só peço, em vertigem anciã, às amadas que navegam pelo meu sangue: preservem-me alguma sanidade. Há mais dor no instante que precede o despertar do machucado. Acho que nenhuma dor dói, desde que não seja incomodada.

E reitero, enfim: nunca se esqueçam da minha devoção às palavras. Pois aprendi que não se morre de amor; morre-se de cachaça. Quando ideias se tornam interiores, esqueço-as como moedas. Um dia reencontro-me com elas, em lugares inusitados. A mim, sobram-me os caminhos, que perco tanto quanto canetas. Só que as canetas me fazem mais falta do que as estradas. As canetas são avós do futuro.

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Soberania

IMG_1402.JPG

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.

Manoel de Barros, saudades tuas

 

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Quero a fome

adelia

“A mim que desde a infância venho vindo,

como se o meu destino,

fosse o exato destino de uma estrela,

apelam incríveis coisas:

pintar as unhas, descobrir a nuca,

piscar os olhos, beber.

Tomo o nome de Deus num vão.

Descobri que a seu tempo

vão me chorar e esquecer.

Vinte anos mais vinte é o que tenho,

mulher ocidental que se fosse homem,

amaria chamar-se Fliud Jonathan.

Neste exato momento do dia vinte de julho,

de mil novecentos e setenta e seis,

o céu é bruma, está frio, estou feia,

acabo de receber um beijo pelo correio.

Quarenta anos: não quero faca nem queijo.

Quero a fome.”

Adélia Prado

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Um poema para salvar a minha vida, hoje

silence____by_wiciaq

Calei muitos
anos de calados dezembros,
quando o gosto da champanha azeda
combinava com todas as ânsias.
Calei muito
e não falaram por mim.

Aprendi sozinho
o que sozinho se aprende
do instante que não quer ser
mais que um instante,
e de nós, que nos matamos,
para ser esse instante.

Calei muito
e não fui reclamado:
minha voz não era a esperada.
Mas, o que disseram
durante o meu silêncio?

Poema “Lamento um tanto regressivo”
ALBERTO DA CUNHA MELO
No livro “Noticiário”, 1979

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Autotomia

holotúria
Wislawa Szymborska

Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um voo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.

(tradução coletiva, publicada na revista Inimigo Rumor número 10)

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