Arquivo do mês: outubro 2013

O invólucro dos segredos*

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“Cada poema é uma garrafa de náufrago jogada às águas… Quem a encontra, salva-se a si mesmo.” Mario Quintana

A velha manhã anuncia que já não é mais hora para ti. O dia é um grande castrador da embriaguez. Nenhuma nau está atracada no porto do meu silêncio, embora eu deseje quebrar-te para desejar os bons ventos e as calmarias às viagens aos horizontes.

O vinho envelhece, agonizando em maestria, em teus contornos. Suicidas se aproveitam da tua vulnerabilidade para dar cabo às suas vidas, em gestos de desrespeito com a tua integridade.

Selas as amizades, ao seres desvirginada pelos companheiros fartos de realidade. Inauguras os amores, nas noites primeiras. E também és cúmplice dos olhares últimos, já extintos de paixão.

Fazes a solitude tornar-se diáfana. Não há isolamento que não sonhe em presenças. Armazenas a ti mesma, mesquinha que és, como troféu incógnito das madrugadas.

Tatuas as memórias mais cruéis, os amores perdidos, em devaneios de oceano. És requinte das bruxas, em rituais de primavera. Fornecida de graça, vestida de água, nas mesas dos restaurantes europeus.

Enclausuras a poesia que não pode ser degustada. Povoas as minhas reminiscências de infância, nos almoços desprovidos de maldade. Oferecem-te flores, e já não existes em essência.

Abrigas as conchas, desavisadas da tua missão. Encontram-te quando estão perdidos. Invocam-te quando as esperanças foram esgotadas. Almejam a única gota que ainda carregas no ventre, exausta de gravidez.

Guardam-te, anos e mais anos, para celebrar os casamentos. Confidente dos ébrios, estás envolta pelos dedos crestados de imundície. Ah, tua história fenícia e milenar! Quão bela não te sentes agora?

Mas tu, meio de transporte, uniforme de lágrimas, símbolo dos romantismos absurdos, berço dos poemas, figurante das alegrias, amante escura das ondas violentas. Talvez tu sejas apenas eu, este invólucro de segredos que anseia pela deriva em alto mar.

*Minha eterna gratidão ao meu amigo Felippe Angeli, companheiro de garrafas que me encobriu de epifanias sobre a minha escrita.

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Arquivado em Crônica, Poesia, Textos meus

O Lutador

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.
Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.
Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.
Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.
Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.
O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

Carlos Drummond de Andrade

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Tejo Bar: Santuário das Incompletudes

MIACOUTO

Nunca poderia deixar de imaginar que Lisboa fosse uma cidade de sítios mágicos. Contudo, o clichê literário, exaustivamente desdenhado, não me era capaz de seduzir, em primeira pessoa. Os cafés, ninho dos antigos fantasmas, as esquinas, mínimas e estonteantes, o monumental cinema abandonado.

Apenas quem guarda o horizonte em águas é capaz de viver saudade. Quantas eternidades são amanhecidas, quando o olhar estica os oceanos? Talvez esta seja a grande obviedade inexorável da cidade. Uma vontade de partir, afogada pela dor de ir embora.

Há, pois, um lugar que transcendeu sua existência para atravessar as distâncias insuportáveis da poesia.

Das ruas estreitas, penduradas pelas luzes envelhecidas, pouco se pode perceber. Os dilúvios taciturnos despistam o sonhador mais distraído. A obscuridade de informações. Quem conhece sabe chegar, quase em transe mediúnico. Quem o tem no imaginário se perde nos relatos incompreensíveis das testemunhas.  Só resta uma certeza: o coração é devorado, ao entrar, como oferenda ao santuário da incompletude.

Tejo Bar, ventre de Alfama, tantas letras ainda insistem em te traduzir! Ah, teus poetas vadios, tuas noites infindas, tua harmonia com a sincronicidade! Fico, inebriada, a inventar todos os amores que te fizeram enredo.

Onde existirá outra porta que nos devolva à condição de instrumentos da arte?

Basta bater.

É perfeitamente admissível que muitos o tenham rejeitado, ao se depararem com a solidão imperdoável. Criadora.

No entanto, aqueles que suportaram a entrega ao invólucro jamais o deixariam, novamente.

Miscigenar-se com outras peles, línguas ancestrais, impensadas melodias. Sentar à mesa de estranhos cúmplices. Declamar os silêncios. E depois, fartos de epifanias, é permitido estilhaçar-se em excessos.

É por isso, Tejo, que és também rio das despedidas. Teu lugar é uma nau, desprovida de bússolas. Teu pertencimento está em aceitar o rumo das marés. O mundo, agora, reverencia: envaideces as estrelas com a tua presença.

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Informações:

O Tejo Bar, agora também itinerante, já esteve em São Paulo e Bolonha. Olinda foi eleita a próxima casa natal, em plena Fliporto. A mística experiência poética será realizada no sábado, dia 16 de novembro de 2013, no Tribuna Bar e Restaurante Sabores Ibéricos, rua de São Bento, 210 | Varadouro, às 23h, com a condução do seu criador, Mané do Café, e outros frequentadores inverossímeis. Todos estão convidados para serem os novos membros da divina seita.

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Vídeos:

João Pires, Marcelo Pretto e Chico Saraiva no Tejo Bar em Lisboa:

Tejo Bar em São Paulo:

Tejo Bar em Bolonha:

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