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No quarto do meu coração, menino…

Contigo aprendi a temer as claridades leitosas, títeres travestidos da escuridão. Abandonei os primeiros pensamentos, esboços de mim. Não mais atuo em monólogos para plateias vazias. Fardos só existem para nos lembrar que a alma carrega sempre a possibilidade de tocar a erudição simples… Em nossa relação – criador e criatura – tu estás ali, à minha frente, desdenhando tudo aquilo que me foi rebuscado.

Meu Amigo, Meu Herói

Gilberto Gil

Oh meu amigo, meu herói
Oh como dói saber que a ti também corrói
A dor da solidão
Oh meu amado, minha luz
Descansa tua mão cansada sobre a minha
Sobre a minha mão
A força do universo não te deixará
O lume das estrelas te alumiará
Na casa do meu coração pequeno
No quarto do meu coração menino
No canto do meu coração espero
Agasalhar-te a ilusão
Oh meu amigo, meu herói
Oh como dói
Oh como dói

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Sobre os dentes de leite

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“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda”. Clarice Lispector

 

Eram quase três horas da manhã. Tragávamos o cigarro que religiosamente precede nosso adeus. A conversa, galáctica, já irrompia nebulosas. A fumaça alcançava – braços longos que tem – satélites e órbitas inabitadas. Íamos juntas, enlevadas. Pejadas estávamos, gordas de madruguez:

– Sabe, amiga, eu nunca gostei da multiplicação. Quando estamos multiplicando, na realidade há uma repartição. Tornamos as coisas pequenas. A essência esquece de si, fragmentada em minúsculas parcelas.  

Quanta sabedoria despontava em sua confissão! Fiquei cerca de dois segundos estacionada naquela frase. E respondi, cúmplice que sou:

– É por isso que os únicos providos de alma são os números primos. A eternidade é divisível.  

Imediatamente, ficamos nítidas. As miopias cediam, uma por uma, lugar para os epífanos sentidos. A aterrisagem do olhar primeiro nos permitia navegar águas mais foscas… Dissertamos matematicamente acerca das relações e das suas raízes quadradas. Inserimos cada ser humano na indubitável condição. Só somos repartidos em nossa própria unidade.

Por qual razão, números primos que somos, tão facilmente nos multiplicamos nas relações com os outros? Não há deveras verticalidade nos humanos? Os trilhos não são supostamente  preenchidos em horizontalidade? A harmonia cósmica não reside nos espíritos pensantes?

Seria preciso acender mais um cigarro. O diálogo era, naquele instante, ectoplasma. O simulacro dos relacionamentos mais uma vez tecia os pensamentos. Felino, ronronava entre as ideias, aconchegando-se nas memórias mais longínquas. Cigano, roubava-nos a racionalidade. Por que, meu Deus, por que vivemos constantemente em estressantes movimentos de gangorra?

Quanto mais recordávamos nossos relacionamentos – fossem eles de amor, de amigo ou de escárnio – mais óbvias íamos nos percebendo. Ao revisitar a nós mesmas, nenhuma comunhão oblíqua havia sobrevivido com ternura. Todas estavam trancafiadas em pesadelos, empoeirados conveses da lembrança.

Todavia, nem tudo era carregado de maledicência. Havia também aprazíveis resgates. Às margens dos envolvimentos medíocres, nasciam delicadas reminiscências. Eram devaneios das relações aprendizes. Encharcadas de lepidez, indissolutas, primas. Indivisíveis.

Desvelado o grande mistério, era fácil compreender. Um manancial de descobertas sobrepujava-nos. A clarividência enfim tomava as fumaças e concretizava-se, sincrônica. Como era lindo estar em posse de tão precioso pecúlio!

A felicidade residiu em nós apenas quando estivemos na condição de alunas. Ah, a doçura do desconhecimento! Os náufragos personagens que mereciam morar nos sonhos eram aqueles que acordavam as nossas verdadeiras paixões. O resto, o resto cobria-se inteiramente em sofismas.

Infelizmente, poucos são os homens que revelam-se cândidos. Equivocadamente precisamos nos afirmar em maestria. A ignorância aparece como desvio, estupidez, fraqueza. O que há de errado em reconhecer-se na incompletude? Por que a nossa falta de luz denota tamanha humilhação?

Naquela madrugada, algo fora despertado dentro de mim. Selei, calada, um pacto para toda a minha jornada. Tenaz e silencioso. Quero tudo o que seja decidual. Nada além do que uma vida entre dentes de leite.           

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Não há palavras!

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Sobre as quedas (e os equilibristas)…

 

Todas as vezes que leio ou assisto a um filme bonito, choro. Não, não é um choro desesperado, desses que a gente não consegue engolir ou extravasar. É um chorar mais infantil. Remete-me às caidas não dolorosas de infância que, puramente por instinto, abrimos as portas marejadas dos olhos. E, particularmente, não quero o socorro inútil da mãe aflita. Quero apenas sentir-me humana, por uma fração de segundos. As lágrimas são só minhas e não há um compartilhar com nenhuma figura maternal – é unicamente o amor entre mim e o artista em questão.

Hoje elevo a audácia de falar de amor. Foi um chamado, depois de ouvir as confissões sofridas de amigos homens. Ambos terminaram agora relacionamentos que foram muito bonitos. Os dois, misteriosamente, oferecem-me o mesmo discurso: “foi a mulher que mais amei em toda a vida, o que eu faço com esse transbordar de sentimentos?”. Eu reluto em aceitar a idéia do amor (maior). E disse-lhes: grandes são vocês. Estão a amadurecer. Ainda não se permitem admitir, mas assobiam lindamente o envelhecimento. É claro que o amor fica mais uniforme, mais nítido. Há a sensação de ser o imenso, o mais depurado, o mais vívido. No entanto – peço-lhes desculpas por expressar minha opinião – é apenas o amor próprio que pôde nutrir paixões tão fora do ordinário. Está apenas em um e em outro a grande falta. O peito desses meninos carrega um vazio apenas fértil. Nada mais há neles.

Todavia, é em Valquíria ou em Silvana que colocam seus afetos. Contemplam suas dores e as dividem comigo – ainda não sei bem o porquê de ser eleita! Retruco, quase de forma dissimulada – pois também já morri dessas anomalias – que a responsabilidade de amar é nossa, absolutamente egoísta. Se houve um fim, certamente essas moças nunca serão as mais adoradas. São parte de uma infinda escada de estrelas. São um degrau, na bela evolução deles como seres humanos. A carne grita, nesse instante: “Como ela pode ser tão cruel? O nosso amor não é destinado aos objetos de encontro? O que eu faço com esse rasgar que minha pele permitiu? Meus pulmões estão ressecados pelo pranto…”

Meus delicados amantes, suplico-lhes que tentem agüentar este texto até o fim. Não deixem que a queda busque o aconchego primitivo de vossas mães. Guardem esse mentiroso penar que tem memória em nossas inocentes lembranças. Aniquilem a história do príncipe e da besta. A princesa faleceu. A fera é uma luta simbólica, mora cá. É uma interna que vagueia em nosso manicômio de pensamentos.  

Deixem os loucos bailarinos dentro de vossas almas, ainda em ferida. Ouçam as vozes de línguas estrangeiras. As que fazem estranhas reuniões dentro de nós. Aquele sussurrar que dilacera. Ignorem meus conselhos que beiram à petulância. Deixem-me, contudo, fecundar em solilóquios as palavras. O momento em que partilhamos confidências, vocês me deram o tema. E eu invoco os Deuses Ancestrais para escreverem por meus dedos as impressões que vos trago. Extraiam da terra molhada o ininteligível sentido do fim.

Eu vos prometo que cabelos mais cheirosos e sorrisos mais brancos aparecerão. Formas mais eufônicas, talvez menos redondas. O neoplatonismo saiu de moda. Enquanto o amor não chega, novamente, suportem que vossa animalidade reine. A comunhão é colheita, precisa de tempo e paciência. Mas, por favor, não se iludam. É mesquinho demais! Contudo, a capacidade de atribuir ternura não é altruísta. E exatamente por isso podemos amar autores, compositores, malabaristas sem nunca sequer estarmos em posse de suas presenças… O amor reside na narcísica corda bamba, da qual vamos tombar e recomeçar, sempre um passo a frente. Mais grisalhos. 

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As minhas meninas (mais trechos)

 

Porque você é a primeira e mais bela de todas: espelho da alma que desejo com uma robustez impetuosa. Doce e frágil, lembro-me de paranóicas quimeras que vivi ao imaginar um dia a sua ausência. Você que nada entende do que eu escrevo. Quiçá por ser loira ou talvez por procurar algo além nas minhas simples palavras. Não é tudo que provoca a dicotômica relação entre aparência e essência. Entendemo-nos tão bem que não há a necessidade de nos emaranharmos em textos. Nossa comunicação se dá de mãos em conchas, rodeadas pelas infinitas forças vindas dos protetores de Luz. E de você herdei o gosto pelo vinho. Bálsamo que tenho tomado com uma certa freqüência. O seu espírito, minha mãe, é feito de estrelas dionisíacas, não me restam dúvidas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E a sua vinda deixou meu coração repleto de incertezas… Tristeza e contentamento, tudo misturado. Foi para você que roubei meu primeiro poema. Há em mim a certeza de que a sua chegada enobreceu minha carne, por inteiro. Primeiro por me apontar a beleza da ambigüidade. Depois por ser obrigada a tudo dividir. Deixei para trás a máscara rude de menina loba. Quantas piadas internas colecionamos! É a minha mais bela coleção de todas! E quantos olhares, gordos de cumplicidade. Alguns pulsos cortados, é claro. Porque viver às vezes fere mesmo. Mas são mutantes, esses pulsos cortados. Hoje nos mostram o charme das cicatrizes bem elaboradas. Dão a nós, irmãzinha, o alerta da melancolia sem sentido.

 

 

 

Sobrevivente do mesma tropa que eu. Tivemos alguns membros amputados nas batalhas ardilosas da adolescência. Mas, com uma força sobrenatural – mistérios são a parte mais bonita de envelhecer – eles tornaram a crescer. Mais fortes, mais definidos. Os músculos estão mais largos, as caminhadas aumentam em progressão geométrica em nossas existências. E há você aqui na minha idéia. A inútil incompreensão do seu não-adeus. Do seu recolhimento precoce, em meu último dia. (Preciso parar um instante). Só para fumar um cigarro, você me espera? Nem hesito em levantar. Sabemos do tempo de um cigarro e de toda a sua complexidade poética. A fumaça que limpa as nuvens fartas de tédio. Sinto falta de dividir minhas solidões consigo. Quantas vezes fui até a sua morada para encontrar meu colo? Irmã de alma, coração e cérebro. Aliás, quando você estiver aqui comigo, tomaremos juntas um cálice de novidades, decadências e literatura. Vem logo, amor!

Há você também, minha pequenina perseguida. Que acha meu amor displicente, vazio e distante. Você, que tem a docura mais contida, a agressividade mais inesperada, a disponibilidade de doação mais depurada que conheço. Foi a sua amizade que me ensinou a amar e me apaixonar todos os dias pelo Chico, a compreender o avesso da minha espontaneidade tresloucada. Você, organizada, prestativa, arrumada. Você compactada nos sentimentos, embora por dentro sejam gigantes deuses do Olimpo. Quantos abraços eu te roubei? Que apresentação de despedida mais linda, deste a mim. Que memória é essa, que você tem e teima em ignorar? Espero ter dado em você uma flecha certeira. Só envenenada de amor e aventura. Não quero seu estômago a reclamar do seu coração mais. Jamais.

Maninha: recordo agora aquele dia de fazer cópias dos seus documentos. Era um frio no ventre miscigenado ao inebriante sentimento de conhecer o mundo. E estava você aqui, há alguns anos. Como me fez falta! A minha melhor maquiadora, a minha conselheira de todos os momentos. Uma fada, capaz de virar de ponta cabeça quaisquer pensamentos pré-concebidos em futilidades! Dona da inteligência mais sensível que conheci. Do melhor de todos os cafés. Senhora de olhos de pôr-do-sol. Quantas madrugadas foram testemunhas do nosso pertencimento imediato! Como é bom saber-me da sua família. Mando daqui longas vibrações de borboletas. E imensos suspiros amarelos. Senti a soturnidade de não passar consigo a celebração do seu ano novo astral. Mas celebrei cá também. O grande milagre do seu nascimento.  

 

 

 

 

 

 

 

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As minhas meninas (trecho)

 

 

Então aconteceu essa folha em branco. Hoje é aniversário da sua criadora. Mulher extraordinária que está nutrindo meus pensamentos de sonhos. Hoje foi um dia terrivelmente difícil. Sozinho, eu que amo os dias par-em-par. E justamente hoje fiz algo totalmente inusitado. Agora há pouco (já passa da meia noite) movimentei lentamente os pés rumo à geladeira. Sabia que o espaço entre mim e a colher me seria fatal. Você sabe bem que sou um tanto masoquista…

Deixei a colher tomar as papilas gustativas. Agressivamente. Uma só punhalada. E as lágrimas instantâneas. Instantâneas como o prazer. O melhor gosto que já senti. Talvez melhor do que a vida. É muito mais doce e muito menos cindido que viver. E o doce de leite fez meu corpo todo estremecer de saudade de você. Saudade e vontade de ter você para sempre. Uma vida muito menos doce de leite. Mais amarga. Mais áspera. Uma vida não composta de redondezas. De penhascos e planícies. De afogamentos e de plenitudes. Porque você estará comigo. Só a companhia já basta. E hoje, justo hoje, eu sou a pessoa mais corajosa do universo. Pobres daqueles que pensam a coragem como virtude ermitã. A minha coragem é abraço. É comunhão contigo.

 

 

 

 

 

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