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Eu sou exasperadamente sensível e exasperadamente inteligente.

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É costume dizer-se, desde que alguém começou a dizê-lo, que, para compreender um sistema filosófico, é preciso compreender o temperamento do filósofo. Como todas as coisas com ar de cenas, e que se espalham, isto é asneira; se o não fosse, não se teria espalhado. Confunde-se a filosofia com a formação dela. O meu temperamento pode levar-me a dizer que dois e dois são cinco, mas a afirmação de que dois e dois são cinco é falsa independentemente do meu temperamento, seja ele qual for. Pode ser interessante saber como é que eu vim a afirmar essa falsidade, mas isso nada tem com a própria falsidade, tem que ver somente com a razão do seu aparecimento.

O meu mestre Caeiro era um temperamento sem filosofia, e por isso a filosofia dele – que a tinha, como toda a gente – não é susceptível sequer destas brincadeiras do jornalismo intelectual. Não há dúvida que, sendo um temperamento, isto é, sendo um poeta, o meu mestre Caeiro exprimiu uma filosofia, isto é, um conceito do universo. Esse conceito do universo é, porém, instintivo e não intelectual; não pode ser criticado como conceito, porque não está lá, e não pode ser criticado como temperamento, porque o temperamento não é criticável.

As ideias organicamente ocultas na expressão poética do meu mestre Caeiro tentaram definir-se, com maior ou menor felicidade lógica, em certas teorias do Ricardo Reis, em certas teorias minhas, e no sistema filosófico -esse perfeitamente definido – do António Mora. Tão fecundo é Caeiro que cada um de nós três, devendo todos o pensamento da alma ao nosso mestre comum, produziu uma interpretação da vida inteiramente diferente da de qualquer dos outros dois. Verdadeiramente, não há direito de comparar a minha metafísica, e a do Ricardo Reis, que são meras vaguidades poéticas tentando esclarecer-se (ao contrário de em Caeiro, onde a alma era de certezas poéticas não buscando esclarecer-se), com o sistema de António Mora, que é realmente um sistema, e não uma atitude ou um remexer. Mas, enfim, ao passo que Caeiro afirmava coisas que, estando todas certas umas com as outras (como todos percebíamos) numa lógica que excede – como uma pedra ou uma árvore – a nossa compreensão, não eram contudo coerentes na sua superfície lógica, tanto o Reis, como eu (não falemos no Mora, por nosso superior em qualidade nesta matéria) tentávamos encontrar uma coerência lógica no que pensávamos, ou supunhamos que pensávamos, a respeito do Mundo. E isso, que pensávamos ou supunhamos que pensávamos, a respeito do mundo, isso devíamos a Caeiro, descobridor das nossas almas, colonizadas depois por nós.

Propriamente falando, Reis, Mora e eu somos três interpretações orgânicas de Caeiro. Reis e eu, que somos fundamentalmente embora diversamente poetas, interpretamos ainda com sujidades do sentimento. Mora, puramente intelectual, interpreta com a razão; se tem sentimento, ou temperamento, anda disfarçado.

O conceito da vida, formado por Ricardo Reis, vê-se muito claramente nas suas odes, pois, quaisquer que sejam os seus defeitos, o Reis é sempre claro. Esse conceito da vida é absolutamente nenhum, ao contrário do de Caeiro, que também é nenhum, mas às avessas. Para Ricardo Reis, nada se pode saber do universo, excepto que nos foi dado como real um universo material. Sem necessariamente aceitarmos como real esse universo, temos que o aceitar como tal, pois não nos foi dado outro. Temos que viver nesse universo, sem metafísica, sem moral, sem sociologia nem política. Conformemo-nos com esse universo externo, o único que temos, assim como nos conformariamos com o poder absoluto de um rei, sem discutir se é bom ou mau, mas simplesmente porque é o que é. Reduzamos a nossa acção ao mínimo, fechando-nos quanto possível nos instintos que nos foram dados, e usando-os de modo a produzir o menos desconforto para nós e para os outros, pois tem igual direito a não ter desconforto. Moral negativa, mas clara. Comamos, bebamos e amemos (sem nos prender sentimentalmente à comida, à bebida e ao amor, pois isso traria mais tarde elementos de desconforto); a vida é um dia, e a noite é certa; não façamos a ninguém nem bem nem mal, pois não sabemos o que é bem ou mal, e nem sequer sabemos se fazemos um quando supomos fazer o outro, a verdade, se existe, é com os Deuses, ou seja com as forças que formaram ou criaram, ou governam, o mundo – forças que, como na sua acção violam todas as nossas ideias do que é moral e todas as nossas ideias do que é imoral, estão patentemente além ou fora de qualquer conceito do bem ou do mal, nada havendo a esperar delas para nosso bem ou até para mal nosso. Nem crença na verdade, nem crença na mentira; nem optimismo nem pessimismo. Nada: a paisagem, um copo de vinho, um pouco de amor sem amor, e a vaga tristeza de nada compreender e de ter que perder o pouco que nos é dado. Tal é a filosofia de Ricardo Reis. É a de Caeiro endurecida, falsificada pela estilização. Mas é absolutamente a de Caeiro, de outro modo: o aspecto côncavo daquele mesmo arco de que a de Caeiro é o aspecto convexo, o fechar-se sobre si mesmo daquilo que em Caeiro está virado para o Infinito – sim, para o mesmo infinito que nega.

É isto – este conceito tão fundamente negativo das coisas – que dá à poesia de Ricardo Reis aquela dureza, aquela frieza, que ninguém negará que tem, por mais que a admire; e quem a admira – pouca gente – é por essa mesma frieza, aliás, que a admira. Nisto, de resto, Caeiro e Reis são iguais, com a diferença que Caeiro tem frieza sem dureza; que Caeiro, que é a infância filosófica da atitude de Reis, tem a frieza de uma estátua ou de um píncaro nevado, e Reis tem a frieza de um belo túmulo ou de um maravilhoso rochedo sem sol nem onde haver musgos. E é por isto que, sendo a poesia de Reis rigorosamente clássica na forma, é totalmente destituída de vibração – mais ainda que a de Horácio, apesar do maior conteúdo emotivo e intelectual. A tal ponto é intelectual, e portanto fria, a poesia de Reis, que quem não compreender um poema dele (o que facilmente sucede, dada a excessiva compressão) não lhe apreende o ritmo.

Comigo o que se passou foi o mesmo que o que se passou com Ricardo Reis, com a diferença que foi o contrário. O Reis é um intelectual, com o mínimo de sensibilidade de que um intelectual precisa para que a sua inteligência não seja simplesmente matemática, com o mínino do que ente humano precisa para se poder verificar pelo termómetro que não está morto. Eu sou exasperadamente sensível e exasperadamente inteligente. Nisto pareço-me (salvo um bocado mais de sensibilidade, e um bocado menos de inteligência) com o Fernando Pessoa; mas, ao passo que no Fernando a sensibilidade e a inteligência entrepenetram-se, confundem-se, interseccionam-se, em mim existem paralelamente, ou, melhor, sobrepostamente. Não são cônjuges, mas gémeos desavindos. Assim, expontaneamente formei a minha filosofia daquela parte da insinuação de Caeiro de que Ricardo Reis não tirou nada. Refiro-me à parte de Caeiro que está integralmente contida naquele verso, «E os meus pensamentos são todos sensações»; o Ricardo Reis deriva a sua alma daquele outro verso, que Caeiro se esqueceu de escrever, «as minhas sensações são todas pensamentos». Quando me designei como «sensacionista» ou «poeta sensacionista» não quis empregar uma expressão de escola poética (santo Deus! escola!); a palavra tem um sentido filosófico.

Não creio em nada senão na existência das minhas sensações; não tenho outra certeza, nem a do tal universo exterior que essas sensações me apresentam. Eu não vejo o universo exterior, eu não oiço o universo exterior, eu não palpo o universo exterior. Vejo as minhas impressões visuais; oiço as minhas impressões auditivas; palpo as minhas impressões tácteis. Não é com os olhos que vejo, mas com a alma; não é com os ouvidos que oiço, mas com a alma; não é com a pele que palpo, é com [a alma.] E, se me perguntarem o que é a alma, respondo que sou eu. De aqui a minha divergência fundamental do fundamental intelectual de Caeiro e de Reis, mas não do fundamental instintivo e sensitivo em Caeiro. Para mim o universo é apenas um conceito meu, uma síntese dinâmica e projectada de todas as minhas sensações. Verifico, ou cuido verificar, que coincidem com as minhas grande número das sensações de outras almas, e a essa coincidência chamo o universo exterior, ou a realidade. Isso nada prova da realidade absoluta do universo porque existe a hipnose colectiva. Já vi um grande hipnotizador obrigar um grande número de pessoas ver, positivamente ver, a mesma hora falsa em relógios que o não estavam. Concluo de aqui a existência de um Hipnotizador supremo, a quem chamo Deus, porque consegue impor a sua sugestão à generalidade das almas, as quais, contudo, não sei se ele criou ou não criou, porque não sei o que é criar, mas que é possível que criasse, cada uma para si mesma, como o hipnotizador me pode sugerir que sou outra pessoa ou que sinto uma dor que eu não posso dizer que não sinto, pois que a sinto. Para mim ser «real» consiste em ser susceptível de ser experienciado por todas as almas; e isto obriga-me a acreditar num Hipnotizador Infinito, pois criou uma sugestão chamada universo capaz de ser experienciado por todas as almas, não só reais, mas até possíveis. À parte isto, sou engenheiro – isto é, não tenho moral, política ou religião independente da realidade real mensurável das coisas mensuráveis, e da realidade virtual das coisas imensuráveis. Também sou poeta, e tenho uma estética que existe por si mesma, sem ter que ver com a filosofia que tenho ou com a moral, a política ou a religião que sou ocasionalmente forçado a ter.

António Mora, sim. Esse realmente, recebendo de Caeiro a mensagem na sua totalidade, se esforçou por traduzi-la em filosofia, esclarecendo, recompondo, reajustando, alterando aqui e ali. Não sei se a filosofia de António Mora será o que seria a de Caeiro, se o meu mestre a tivesse. Mas aceito que seria a filosofia de Caeiro, se ele a tivesse e não fosse poeta, para a não poder ter. Assim como da semente se evolve a planta, e a planta não é a semente magnificada, mas uma coisa inteiramente diferente em aspecto, assim do gérmen contido na totalidade da poesia de Caeiro saiu naturalmente o corpo diferente e complexo que constitui a filosofia de Mora. Vou deixar a exposição da filosofia de Mora para o trecho seguinte a este. Estou cansado de querer entender.

27-2-1931

Pessoa por Conhecer – Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990.

– 372.

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Adeus!

Eugénio0001

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa”

 

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Desencontrar-te

portas do sol

“Não estou indo em direção ao fim. Estou indo em direção às origens”. Manoel de Barros

Gosto de atravessar a rua e desdenhar a Praça do Príncipe Real, no caminho para o trabalho. A beleza deve sempre ser evitada, Lisboa. Os passos me parecem mais largos, longe dos bosques amarelecidos. As calçadas, estreitas, desaceleram os meus pensamentos, intransponíveis. A tua lentidão me exaspera.

Passaram-se três séculos e nove meses. Os dias duram demasiado, nos teus braços. As semanas se prolongam em anos e anos, sem envelhecerem meu rosto. Cruéis são estes tempos de espera.

Devo adiar o inadiável, Lisboa? Só basta um instante a navegar nos teus azuis para dizer que sim. Amanheço com o coração encharcado em quimeras, para que o Sol evapore os acontecimentos, nas seis badaladas do porvir.

Um único telefonema é capaz de calar meu pessimismo. Rodopiamos pela madrugada insone. E digo-te: sim, gosto imenso de ti. Sim, cá ficarei. Mas a manhã é irrecuperável, novamente. E tu me dilaceras as certezas com a mesma calma com que me embriagas em promessas.

No domingo fiquei à procura de tempestades. A chuva, no entanto, era fugidia. Só choveu dentro da minha casa porque teimo em abrir as janelas.

Será que todo amor atinge a plenitude no desencontro?

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Dividir os domingos

“O que um dia vou saber, não sabendo eu já sabia” Guimarães Rosa

Quando o amor, enfim, feneceu em mim, tive a certeza de que já não me apaixonaria mais. Uma mistura de liberdade com esmorecimento, de alegria e desespero. Páginas brancas finalmente povoavam os meus sonhos, antes escritos em nanquim e escarlate. Aquela cama que jamais seria bagunçada de novo. Os olhares, negros em maquiagem, que deitariam molhados no travesseiro, gélido.

Eu já me prometi que o amor seria a última das bobagens a me chatear, nessa incansável solidão.

Contudo, ao ser convidada para revisar esse livro, confesso que me senti ofendida pela vida. Por que seria eu a pessoa a corrigir seus erros, se o maior deles era escrever sobre o amor? Eu nunca soube escrever sobre o amor, Bruno. Eu estarreço de cólera em ser piegas, óbvia, redundante. Nunca acreditei que o viver deva ser sentenciado pela palavra.

Entre delírios de Clarice, sussurros de Paulo Mendes Campos e estalos dos meus próprios dizeres, aceitei esse trabalho. Afinal, esse amor durou só uma estação! Como poderá atar-me a todos os meus invernos?

Você brinca com os olhos que se fecham para descer aos sorrisos da amada. Como se os próprios olhos fossem capazes de se encantar com as tessituras infantes. E você me alerta sobre o quão difícil é carregar uma saudade, sozinho. Ah, Bruno, será que existem saudades compartilhadas?

Fui, inebriada, entre os clichês, inevitáveis, e as paisagens, inusitadas. Com as ressalvas de proximidade ao leitor. Encontrei-me com dias cinzas que se pensavam azuis. Em cada verso, a cada vogal, a cada reticência inconformada do seu texto, eu me percebia romântica. Eu deitava fora minhas amarras infelizes. A quem posso ofertar, agora, esse silêncio que transborda, sem angustiar meu interlocutor?

Já sou capaz de ensinar plenitudes…

Quando acabei, tive sede de chuva. Será que o tempo muda de nome com o amor? Esta pergunta, que ainda me inspira, só se agiganta, ao terminar a obra. Gostar é dividir um domingo, você me explicou. Foi uma honra dividir um domingo contigo.

Link para o crowdfunding do livrohttps://www.catarse.me/brunofontes

 

 

 

 

 

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Necrológio dos desiludidos de amor

Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.

Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.

Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.

Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia…

Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe).

Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.

Carlos Drummond de Andrade

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Onde a dor não tem razão

Canto
Para dizer que no meu coração
Já não mais se agitam as ondas de uma paixão
Ele não é mais abrigo de amores perdidos
É um lago mais tranquilo
Onde a dor não tem razão
Nele a semente de um novo amor nasceu
Livre de todo rancor, em flor se abriu
Venho reabrir as janelas da vida
E cantar como jamais cantei
Esta felicidade ainda
Quem esperou, como eu, por um novo carinho
E viveu tão sozinho
Tem que agradecer
Quando consegue do peito tirar um espinho
É que a velha esperança
Já não pode morrer

 

Ps: to voltando Tejo Bar, meu amor…

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No abismo de uma alegria sem manhã

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O comboio apitava dentro de mim, às sete. Eram cinquenta horas acordado, sem drogas. A embriaguez me vinha da bagaceira, da ginja, das três garrafas de vinho que havíamos bebido, no sótão, uma última vez.

Do alto da Romaria parece que a vida custa menos ao pensamento. Nos telhados encarnados, crestados pelo amarelecer primeiro, não havia silêncio que duvidaria da nossa comunhão. Eu, perderia o bilhete e a dignidade, feliz de testemunhar aquela aurora ao teu lado, amada.

Mas tu te despedias de mim. Alerta. Parece que o relógio sempre habitou teus olhos, mausoléus de eternidade. “Vais perder a viagem ao Porto, se continuares aqui comigo. ” E eu dizia: “Queres que não me perca, agora? ”

Quase cai, equilibrando-me em dúvidas e descaminhos. O teu perfume escancarava minhas escolhas, errôneas. A vida atracava no Tejo, fumegando em navios cargueiros. Um anjo, inaudito, assobiava estrelas. A tua dor me era vacilante. Ou era minha a vaidade que sussurrava, estúpida, adivinhando a cobardia.

Bêbedo, apanhei a mala, sem cadeados nem senhas, à espera do impedimento. Tu me lembraste do agasalho e da t-shirt que estavam na cozinha. Eu os apanhei, ainda envoltos na tua face, dividida. De um lado me mostravas a covinha, cúmplice. À sombra, do lado direito – aquele que a miopia te castiga mais – desdenhavas os trilhos. Será que nenhum rosto vibra em doçura, quando o caminhar atropela os lábios?

As lágrimas me pouparam, enquanto o comboio arrepiava-me os cabelos, às sete. Eram cinquenta horas acordado. O coração, exagerado, precipitava-se em farpas e lamentos. O vento, implacável, coordenava as esquinas de Santa Apolónia. Vivalma impedir-me-ia de regressar à casa.

Em Alfama, as gaivotas desenhavam nuvens. O lume jazia em nossa casa. Nenhum vizinho sabia nada de ti. As janelas, cerradas, obrigavam-me a esmagar o capacho, com aqueles dizeres esdrúxulos de amantes hibernados.

Tu, já longe, saberias do meu retorno, infame? Ah, só a literatura para suprir essa ausência de séculos que me imprimiste!

A solidão, todavia, invadiu meu terno, ao tocar a campainha. Perscrutou os bolsos, à procura do teu nome. Verificou minhas mãos, cobertas em epifanias, e tinta. Eu achava que o amor, valente, suportaria a cronologia. Mas plenitudes carregam o fardo do abandono. Não há cais que resista ao lenço branco.

O abismo, hoje, impede-me de enxergar as manhãs.

*Foto: Rik de Jager

 

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