O nascimento da eternidade

miniBowie

 

Segundas-feiras sempre são enfadonhas. Ontem não foi diferente. Levantar cedo depois de dormir tarde, recalcular toda a semana, ainda embevecida pelos resquícios de sonhos, suportar o peso do despertador que invade a manhã. Eu tenho sempre o costume de adiantar minhas horas em ilusões, na tentativa estúpida de deixar o acordar menos ordinário.

No entanto, ontem eu não consegui ficar alguns minutos a mais na cama. Estampado no jornal online estava a notícia da sua morte. Acendi um cigarro. Como é que você, mestre, após fazer anos na sexta-feira, poderia ter nos deixado?

A princípio não consegui nem chorar. Fui tomar banho. Confusa. Incrédula. Ao me vestir fui rebobinando algumas memórias nossas. E, depois disso, não consegui sustentar mais as lágrimas, dentro de mim.

Você foi o primeiro homem pelo qual me apaixonei. Eu devia ter uns cinco, seis anos de idade quando vi Labirinto. Todo um universo onírico se abria, frente ao meu repertório infante. Invejei a beleza da Jennifer Connelly e questionei se eu também daria aquele bebê lindo pelo seu reino.

É engraçado, o primeiro homem que amei era andrógino, longe dos estereótipos de um macho alfa. Era sedutor, era envolvente e lírico. Era músico. Quando crianças não vestimos os preconceitos em nossos olhares. Eu desconsiderei a sua falta de masculinidade como me esquecia de que meus amigos eram negros ou japoneses. A gente só enxergava a alma, naquela época.

Quando escrevi meu primeiro “livro”, aos onze, eu contava a história de uma menina que se apaixonava por um extraterrestre. Hoje me veio essa epifania: talvez meu inconsciente já estivesse conectado à sua ascendência cósmica.

Depois de Labirinto, minha irmã nasceu. Ah, como eu desejei que os goblins a levassem embora. Quantas vezes sonhei com a aparição de Jareth, conduzindo-me ao seu universo peculiar. Contudo, aprendi a amar aquele ser. E me prometi que a ensinaria algumas das doces memórias que eu tinha da infância. Que ela passaria pelos processos fantasiosos como eu havia passado.

Aos seis anos de vida dela – e eu com treze – percebi que era hora dela conhecê-lo também. Lembro-me bem como minha tia, psicóloga, tentou impedir minha mãe de apresentar o mundo de Labirinto para minha irmã. Para ela você era uma aberração e o filme completamente inapropriado. Eu, como uma boa manipuladora, consegui assisti-lo uma vez mais, libertando a mente da caçula em uma explosão de galáxias imaginadas.

Ela virou uma fã inveterada. Comprou suas camisetas, seus DVDs, bebeu sua discografia com ímpeto de viciado. Eu permaneci mais sóbria, mais comedida. Todavia, não houve uma viagem em que sua voz não reinasse em alto volume, pelas jornadas que percorri. Não houve uma festa que eu não tenha pedido a sua presença. Não existiu um momento em que meu corpo não dançasse, involuntário, quando seu timbre escancarava meus ouvidos. Você esteve comigo em todos os amores, em todos os desamores, em momentos de poesia e instantes de desespero.

Ontem senti algo muito estranho. Ao invés de ter ciúmes de todos aqueles que, como eu, partilhavam uma história de cumplicidade consigo, fiquei orgulhosa da sua arte grande. Fiquei emocionada como um ser tão diferente dos terráqueos pudesse emanar tanta luz, tanta saudade.

Agora, já que não pudemos nos conhecer pessoalmente, vou colocá-lo nos meus desejos de retornar ao planeta que me é sonhado. Que você venha me abduzir, com suas íris desencontradas, com suas calças apertadas, com a superioridade de outros corpos celestes. Agradeço por ter sido sua contemporânea. E por ter testemunhado o nascimento da eternidade.

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2 Comentários

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2 Respostas para “O nascimento da eternidade

  1. eduengler

    Tenho o mesmo sentimento.

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