O museu dos amores perdidos

Enquanto o garçom deitava ao chão uma bandeja trovejante de pratos e cálices e restos, para eles o mundo não acontecia. Entre risadas inconfundíveis e tímidas carícias, o mundo não acontecia. Apesar do barulho, o mundo não acontecia. No cerne da futilidade pequeno-burguesa dos restaurantes dos Jardins, nada em torno fazia alarde àquele momento. E o amor era uma crase.

Os céus lhes sorriam e reverenciavam tudo o que não era dito. Mágicas como móbiles em berços, as estrelas salpicavam – uma a uma –  a noite cúmplice. Existiram batidas policiais, assaltos à mão armada, fugas de adolescentes desesperados, porres, injúrias, traições ou suicídios? Nada. O mundo não acontecia ali.

Contudo, a noite se esvaiu e o dia é muito perigoso para quem ama. As manhãs trazem as irregularidades no rosto, as maquiagens borradas, o hálito adormecido. Quando o planeta se ilumina e volta a pegar o ônibus, toda a magia se dissolve em gélidas neblinas.

Eu tenho testemunhado a morte do amor em cada uma de minhas gavetas. Mesmo para os corajosos que se doam e não temem o sofrimento, o amor tem se evaporado. O que me assusta é que tudo pode findar-se por uma semana que os dois não fazem sexo. Porque os jantares na casa da tia avó são enfadonhos e o tio com Alzheimer repete as mesmas histórias da Grande Guerra.

Os mais lindos roteiros de filme que já vi efetivados estão se diluindo. E os casais se rarefazem porque é tão mais difícil superar as adversidades. Que não cabem em cento e quarenta caracteres. O esquecimento imediato torna as pessoas descartáveis.

Onde, então, habita o lugar para quem está disposto? A sombra de vossa liberdade é tão grande e densa quanto sua dolorida conquista. Possuímos um histórico alarmante dos que viveram conjugados por obrigações. Mas, agora, também as nossas cartas perfumadas têm prazo de validade.

Eu sei que o amor acaba. Todavia, qual é a força da condescendência frente à incompletude do outro? Já que não se pode fazer plástica nos horrores estruturais – naquele dia, naquele restaurante, lembra?

Existo para modificar seus futuros. Ah, quanto medo sinto de ser esquecida! Porque eu não esqueço. Eu guardei tudo. Beijos, olhares, feições e todos os amanheceres sutis. Sou o próprio cemitério de todos vocês que andam fugindo. Tornei-me o museu dos amores perdidos porque sei que a nitidez de quem relembra tem a mesma intensidade do momento vivido. Eu luto contra o universo estrondoroso do efêmero.

Nesses dias de pavor à nulidade, dá-me uma vontade de abrir-me todo em ferimentos meninos. Deixá-los gotejar um bocadinho. Levar os dedos a degustar o sangue. Esperar a resiliência corpórea. Atrasá-la uns dias, rompendo-lhes as côdeas. Sentir o formigamento da cura. E tatuar-me em cicatrizes mínimas que recordem o quão poderosas são as ínfimas explosões da delicadeza. Elejo a vibração da dor à mesmice amortecida. Parem de me alimentar!

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6 Comentários

Arquivado em Textos meus

6 Respostas para “O museu dos amores perdidos

  1. Gu

    Você é a que lembra e eu sou o que esqueço.

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  2. Georgea (@geo2508)

    Oi Mariana esta é a minha primeira visita ao blog, na verdade, foi uma ótima indicação que vi no twitter do @braungustavo há poucos minutos ; ) que bom que resolvi acolher esta indicação! Adorei teu texto, virei visitá-la mais vezes, afinal, neste mundo tão efêmero, como você bem colocou, é reconfortante saber que alguém por aqui ainda fala em amor de forma pessoal.
    Beijo

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  3. Mari…absolutamente inspirador…limpo…leve…e ao mesmo tempo contundente…provocador…estimulante…eu amo o que vc escreve…bjo..db

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  4. jairo

    Mari, lindo demais!
    sper sensivel, leve e verdadeiro!
    parabens e obrigado!

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  5. Lindíssimo, prima. Há tempos não lia algo seu e vejo tanta semelhança de temas entre esse e aquele seu belíssimo Colecionador de saudades. Muito bonito mesmo. Você tem umas construções narrativas tão diferentes. Àmor.

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  6. “Sou o próprio cemitério de todos vocês que andam fugindo”
    incrível Mari amei o texto. Parabéns.

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