Arquivo do mês: dezembro 2016

Capítulo VI – O cavalo

asas

Pedro, meu amor: eu sempre quis que você não tivesse essa desconexão que eu tenho com a Natureza. Não sei se o excesso de conexão mental, que me acomete, como ao seu avô, afasta-me assim dos verdes, dos cantos, dos seres. Eu temi as florestas, como se as florestas pudessem desnudar todos os meus pecados. Eu evito os gafanhotos para que eles não cantem as minhas gafes. Eu odeio os sapos, porque os engoli.

Pois bem, sabendo disso, quando era bem menina, decidi ser amazona. Os animais corpulentos não eram capazes de denunciar minhas noites insones. Ao contrário disso, os grandes me salvariam das mesquinharias.

Ao começar a treinar em um cavalo, eu já sabia que seria uma péssima amazona. Eu sempre sei quando serei ruim em alguma coisa. Pode parecer arrogância, ou medo, ou “cobardia”, meu filho. Eu chamo de intuição.

O problema é que eu amava muito os cavalos. Eles só perdiam, na minha opinião, para os golfinhos. A gente, mora muito longe d0 mar, ainda. Se eu pudesse estar em cima de um golfinho, minha vida seria um sonho…

Sua mãe, contudo, mesmo sabendo que era péssima, decidiu que iria bancar o cavalo. Eu, confessando para você, ficava estarrecida de medo, todas as terças e quintas, quando o motorista me deixava na Hípica. A aptidão era nula – pior que o ballet!

Sou, todavia, teimosa e orgulhosa. Eu aprendi, Pedro. Aprendi a trotar. A pular. Vivenciei, sem selas, o poder de cavalgar. Aquela inexplicável sensação de ser única: você e o cavalo! Ganhei um de aniversário.

No dia que eu ia andar com o meu cavalo – maravilhoso, com o melhor pedigree do universo, meu sonho de princesa realizado… a gente caiu, Pedro. Eu quase fiquei paralítica. Meu terapeuta acha que foi a forma da princesa dentro de mim morrer. Seu avô nunca mais pode ver um cavalo na frente. Sua avó, louca, levou –me pro hospital. Ela acredita nas incríveis entidades, responsáveis pela cura milagrosa.

Eu não sei, Pê. Quando eu cai, senti que caiu um monte de coisa comigo. Perdi aquele status de princesa. Eu só pensava em viver em pouco mais, em te trazer ao mundo. Depois, conseguiram tirar o meu cavalo de cima de mim. Eu levantei, com a falta de ar que se tem quando se cai de costas do brinquedão no parquinho. Saí andando até minha cama. E deitei.

Aí, foi muito mais literário: eu não conseguia mais andar. Eu não me mexia mais. Na altura estava lendo “Longo caminho de volta”, um livro em que o protagonista fica paralisado por um atropelamento. Mas eu não estava com medo. Eu tinha aceitado. É muito absurdo mesmo, Pedro. Mamã tinha onze anos, caído do cavalo, suspeita de estar paralítica e estava bem. Eu nunca vou conseguir entender o que aconteceu.

Encurtando bastante a história: os médicos acharam que a mamãe era um menino (porque meu cabelo estava preso – eu fiquei puta!); quando fui fazer a radiografia tinha alguém ali comigo (esquentava as minhas costas). Eu quebrei a única vertebra que não paralisa – nem para cima nem para baixo.

Anos depois, o terapeuta me disse que essa queda, Pedro, salvou-me de ser a princesa da minha família. Não sei te dizer, meu amor: aqui está, no meio das minhas costas, cicatrizada, no meu medo eterno de cavalos, na lembrança de todos os jogos que vi da copa de 1994, enquanto estava no hospital. Na estranha certeza de que a Poesia era maior do que o andar.

 

 

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Natureza-morta com um balãozinho

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(Le Ballon Rouge – Laurent Chehere)

Em vez da volta das lembranças

Na hora de morrer

Quero ter de volta

As coisas perdidas.

 

Pela porta, janela, malas,

Sombrinhas, luvas, casaco,

Para que eu possa dizer:

Para que tudo isso.

 

Alfinetes, este e aquele pente,

rosa de papel, barbante, faca,

para que eu possa dizer:

Nada disso me faz falta.

 

Esteja onde estiver, chave

tente chegar a tempo,

para que eu possa dizer:

Ferrugem, minha cara, ferrugem.

 

Caia uma nuvem de atestados,

licenças, enquetes,

para que eu possa dizer:

Que lindo sol se pondo.

 

Relógio, aflore do rio

e permita que te segure na mão,

para que eu possa dizer:

Você finge ser a hora.

 

Vai aparecer também um balãozinho

levado pelo vento,

para que eu possa dizer:

Aqui não há crianças.

 

Voe pela janela aberta,

voe para o vasto mundo,

que alguém grite: Ó!

para que eu possa chorar.

 

Wislawa Szymborska

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