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Sexta-feira

Sextas-feiras são os dias mais bonitos da semana. Tu chamas os amigos para vir a beber uns copos na nossa morada. Eu penso nas interpretações incríveis que lhes posso fazer, para adentrar essas noites contigo. Preparo poesias, ensaio canções, busco fantasias no fundo dos armários, repletos de poeira, e salvação. Não durmo nas quintas anteriores.

Tens um amigo, bêbedo, insuportável, que me vê como um puto paneleiro. Eu só quero deitar a noite na companhia dos realejos. Porque é que te importas com esse tipo de gente, acéfalos em dores de sentir? Talvez exista qualquer inveja que pulse em ti, da qual eu não percebo nada. Tua dor é o teu dom mais belo, mamã.

Quando temos sapateira, tu sempre dizes que é a comida dos deuses. Eu imagino os deuses se lambuzando, perdendo as realezas para lambidas mundanas. Gosto de pensá-los assim: enobrecendo as mãos em saliva. Tu só és feliz ao comer as sapateiras. Porque não gostas de te alimentar, Mamã?

Detestas que os pratos, sujos de histórias e risadas, fiquem à mesa, para contar as decadências. Eu os lavo, feliz, à espera das tertúlias improvisadas. Nessa hora o amigo agressivo vai-se embora. Ele não tolera os dizeres da poesia.

A guitarra está sempre a postos, na nossa sala de estar. Os brasileiros a chamam de violão. Eu amo as palavras inventadas pelos brasileiros. Eu te amo tanto, mamã.

Um Vinícius de Moraes para inaugurar os trabalhos. Fazes sempre essa piada, à luz da Umbanda. Proíbes teus convidados de tocar Garota de Ipanema. A seguir, como é óbvio, tuas cordas vocais ameaçam um português de Portugal – ridículo – porém amado, ao recitar o teu Pessoa: “canções tristes, como as ruas estreitas, quando chove.”

Teus amigos são seres de uma arquitetura imaterial. Sabem à cachaça, aos versos, à eternidade! Estão, às vezes, embriagados demais para sucumbir à tua força de anfitriã. Todavia, mostram suas garras, sempre bem-vindas. Esparramam, cuidadosamente, gentilezas absurdas, obviedades advindas, ignorâncias delicadas. Eu também vos amo, mamã.

O silêncio, quando reina em nossa casa, dilacera meu sorriso, infante. Cálices encarnados, pedaços de queijo pelo chão, palavras escritas em papéis, sujos de vinho. Eu pego, com as mãozinhas envergonhadas, os dizeres que ficaram. Para a próxima sexta-feira.

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Capítulo II – Ballet

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O cabelo bem puxado, com o coque na altura das orelhas. Uma faixa rosa que impedia os fios rebeldes de atrapalharem os olhos, inebriados pela delicadeza cintilante da sala de espelhos. Sapatilhas confortáveis, um collant, meia calça. Uma saia borboleta me fazia ir rodopiando pelas ruas, na ponta dos pés.

Foi a primeira vez que ouvi Tchaikovsky. A doçura invadiu os poros, antes de chegar à pele, arrepiada. Um dilúvio se instaurou nas vísceras, pequeninas, ignorantes, desprotegidas.

Voltei para casa, aos prantos. Sua avó, aflita, veio com um copo de água com açúcar:

– O que houve, querida?

– A professora pôs uma música muito linda, mamãe.

– E por que isso te fez ficar assim?

– Porque eu não sabia que a beleza doía tanto…

Acho que esta foi a primeira vez, Pedro, que eu soube dessa nossa condição. Não havia aprendido as palavras, escritas. Nada imaginava do amor, romântico. A música foi o despertar da incompletude, em minha alma.

É bom, contudo, quando as dolorosas fragilidades têm gosto de brigadeiro, ou de gemada. Eu fui feliz ao aprender os sentimentos, a escrevê-los, ao compreendê-los, ao desdenhá-los.

Eu te mostrei, mais tarde, aquele poeminha da Cecília Meireles, sobre a bailarina:

A bailarina

“Esta menina

 tão pequenina

 quer ser bailarina.

 Não conhece nem dó nem ré

 mas sabe ficar na ponta do pé.

 Não conhece nem mi nem fá

 Mas inclina o corpo para cá e para lá.

 Não conhece nem lá nem si,

 mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar

 e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu

e diz que caiu do céu.

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.”

Você me perguntou, na altura, por qual razão eu não queria dormir como as outras crianças. Por que a madrugada sempre me foi uma companheira, apesar das galáxias que habitavam o céu do meu quarto. Por que eu alimentava a luz azul na sua cabeceira, se era hora de sonhar. Eu respondi que, às vezes, os maiores dos nossos sonhos são concebidos em vigília, à revelia dos anjos que protegem o ninar.

 

 

 

 

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Capítulo I – Pedro

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Tu olhas para este cinzeiro, giro, branco, cristal vindo do Norte. Azeitas tuas ironias, requintes de crueldade. Escolhes as bitucas impedidas de alcançar o fim: fumas as mais altas primeiro; desespero de quem ainda ama. Humilhas a ti mesma, fogo nos dedos, com as mais pequeninas. Tenho pena de ti.

“A padaria ainda não abriu”, dizes-me, ou, a ti mesma. Tens vergonha que meus olhos possam, finalmente, ter encontrado a humilhação. “Nessa época de crise não se pode desperdiçar um tabaco”. Eu reluto, porque amo-te, em agredir meu pensamento com a verdade. Acredito nas tuas palavras, desde sempre.

Já são cinco da manhã e a noite teima em ficar. Eu detesto quando a madrugada dura mais que a tua dor. Tu emparelhas as garrafas, ainda vivas, para saber de qual roubar, em silêncio. A tua inteligência me faz mais triste, mais forte. Menos miúdo. Queria ter um abraço que soubesse ao cheiro de vinho. Uma doçura boreal nos protege do amanhã. Amo-te, mamã.

Eu gostava que a dor sumisse de ti. Li todos os livros de todos os bruxos para desvendar esse mistério terrível que traz a ti a cólera. Não aprendi poesia para libertação. Chovo, nas líquidas estrelas que lumiam meu teto de menino. Adoro o nome que insististe em me dar. Pedro.

A etimologia foi, a ti, uma cúmplice inesgotável. Consegues enaltecê-la em surdez absoluta. Jamais ouvirias uma palavra, em plenitude, que atravessasse o cordão do teu silêncio. E, assim, doida e doída, amo-te, Mamã.

Sei que o Tejo nunca foi o rio da tua aldeia. Mas que o amas – talvez mais a ele que a mim – e que o rio percebe mais teus olhos do que eu: indigente, nefasto, trovador.

Queria ter nascido água. Ressuscitar os teus naufrágios.

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No abismo de uma alegria sem manhã

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O comboio apitava dentro de mim, às sete. Eram cinquenta horas acordado, sem drogas. A embriaguez me vinha da bagaceira, da ginja, das três garrafas de vinho que havíamos bebido, no sótão, uma última vez.

Do alto da Romaria parece que a vida custa menos ao pensamento. Nos telhados encarnados, crestados pelo amarelecer primeiro, não havia silêncio que duvidaria da nossa comunhão. Eu, perderia o bilhete e a dignidade, feliz de testemunhar aquela aurora ao teu lado, amada.

Mas tu te despedias de mim. Alerta. Parece que o relógio sempre habitou teus olhos, mausoléus de eternidade. “Vais perder a viagem ao Porto, se continuares aqui comigo. ” E eu dizia: “Queres que não me perca, agora? ”

Quase cai, equilibrando-me em dúvidas e descaminhos. O teu perfume escancarava minhas escolhas, errôneas. A vida atracava no Tejo, fumegando em navios cargueiros. Um anjo, inaudito, assobiava estrelas. A tua dor me era vacilante. Ou era minha a vaidade que sussurrava, estúpida, adivinhando a cobardia.

Bêbedo, apanhei a mala, sem cadeados nem senhas, à espera do impedimento. Tu me lembraste do agasalho e da t-shirt que estavam na cozinha. Eu os apanhei, ainda envoltos na tua face, dividida. De um lado me mostravas a covinha, cúmplice. À sombra, do lado direito – aquele que a miopia te castiga mais – desdenhavas os trilhos. Será que nenhum rosto vibra em doçura, quando o caminhar atropela os lábios?

As lágrimas me pouparam, enquanto o comboio arrepiava-me os cabelos, às sete. Eram cinquenta horas acordado. O coração, exagerado, precipitava-se em farpas e lamentos. O vento, implacável, coordenava as esquinas de Santa Apolónia. Vivalma impedir-me-ia de regressar à casa.

Em Alfama, as gaivotas desenhavam nuvens. O lume jazia em nossa casa. Nenhum vizinho sabia nada de ti. As janelas, cerradas, obrigavam-me a esmagar o capacho, com aqueles dizeres esdrúxulos de amantes hibernados.

Tu, já longe, saberias do meu retorno, infame? Ah, só a literatura para suprir essa ausência de séculos que me imprimiste!

A solidão, todavia, invadiu meu terno, ao tocar a campainha. Perscrutou os bolsos, à procura do teu nome. Verificou minhas mãos, cobertas em epifanias, e tinta. Eu achava que o amor, valente, suportaria a cronologia. Mas plenitudes carregam o fardo do abandono. Não há cais que resista ao lenço branco.

O abismo, hoje, impede-me de enxergar as manhãs.

*Foto: Rik de Jager

 

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Sobre o voar

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Eu sempre organizava a casa para a chegada do Tom. Comprava leite Ninho, lia a programação infantil do fim de semana, punha mais água nas plantas. O ritual de sua vinda me fazia um homem mais sereno. Deixava de lado as noitadas regadas à gin tônica ou uísque sour. Esquecia-me do computador, dos meus funcionários, de tomar o antidepressivo.

Às vezes, confesso, ainda me dá medo de como será nosso encontro. Nem sempre estamos em plena sintonia. Por mais que nos esforcemos, os dois, há a estranheza da ausência, o escândalo da demora, a vertigem de me ver, em outros olhos.

O Tom mora com a mãe, no Recife, desde os dois anos de idade. A cada quinze dias ele vem me visitar em São Paulo. Este fim de semana era especial – feriado prolongado. Tínhamos cinco dias para desbravar dinossauros, visitar planetas pueris, desenhar universos encantados.

Decidi convidar duas amiguinhas do jardim de infância, no sábado. Sinceramente, não sabia se elas ainda lembrariam dele. Quando se tem dois anos e o cérebro ainda em construção, é impossível discernir qual lembrança escolherá a memória como casa.

A Beatriz e sua mãe chegaram pontualmente às três horas. O sorriso da pequena era capaz de me salvar de todos os pesadelos que tive, quando criança. A inesgotável felicidade de quem vive os instantes em doses homeopáticas. Sua alegria em ver meu filho, austero, menino, transbordava os quartos e os contos de fadas. Paixão mesmo.

A outra menina demorou mais de uma hora para se juntar àquela sala de verdades inventadas. Sua mãe, Maíra, uma socialite que não estava acostumada a dirigir o próprio carro, tivera dificuldade em estacionar. Eu moro ao lado do Morumbi e era final do Campeonato Paulista.

Enquanto a Julia, rebenta da burguesa insossa, não chegava, parecia-me óbvio que Beatriz se esbaldava na exclusividade com o Tom. Envergonhadíssima e alerta. Elegia todos os seus brinquedos preferidos. Enredava desvarios de eternidade. Sorria, tímida, à espera da aprovação da mãe que, estarrecida, buscava alguma cumplicidade no meu olhar.

A tarde durou menos que um pôr do sol de outono. Quando me deparei com o relógio de mesa, uma relíquia vintage comprada na semana anterior, já passava das oito. Repletas de brigadeiros e poesia, as meninas se despediram do Tom e de mim. Reparei nos sorrisos escondidos na íris de Beatriz. Sua mãe, acanhada, veio me confessar, baixinho:

– A Bia fala toda hora do Tom. Ele é o primeiro amor da vida dela, mesmo sem vê-lo.

Atordoado, passei a noite pensando naqueles primeiros afetos. Amores que levamos em formas de nuvens. Amores que se dissipam nos azuis e esquecemos para sempre.

No dia seguinte, levei o Tom para Guaecá. Achei que nossas horas seriam melhores, longe do caos da Pauliceia. Lá, distraído pelo cheiro de algas e mergulhado nos escritos de Henry Miller, recebi um vídeo da mãe da Bia. Elas haviam estado no Borboletário de São Paulo, naquele momento. Uma borboleta, silenciosa, atreveu-se a pisar no nariz da menina. A mãe, orgulhosa, registrava a doçura com o celular, quando a filha lhe disse:

– Borboleta, quero que você vá até o Tom, que mora no Recife!

Uma delicadeza enorme e corroída me suspendeu em quimeras. Como é possível uma criança sentir esse absurdo gratuito que é o amor, nessa idade?

Mostrei o vídeo, imediatamente, ao meu filho, exausto de oceanos. Ele, menino, mostrou-se profundamente desinteressado:

– Papai, eu detesto borboletas!

Senti-me um imbecil. Por ser homem; por entendê-lo; por testemunhar tamanha atrocidade, vinda dele. Meu pequeno paraíso repetia as mesmices que eu tanto abominava. Onde havia escondido sua sensibilidade?

Passei o domingo inteiro e boa parte da manhã de segunda a explicar ao Tom sua impassibilidade com a amada. Argumentei que nada era relacionado às borboletas. Só existia o desejo de endereçar saudades, algures.

Não tive a certeza de que ele me entendeu, até o fim do dia. Entramos no mar, ainda morno de sol. Uns quatro peixinhos, gêmeos, invadiram a paisagem. Eram amarelos com detalhes rosados. O Tom, inebriado pela possibilidade de agradecer, tentou encarcerá-los com os dedos, miúdos. Falou, com a liberdade dos deuses:

– Vou guardar esses peixinhos para a Bia, papai. Quem sabe ela também goste de voar para dentro!

Embasbacado, eu não consegui pensar em outra coisa: tornei-me pai para regressar ao Nunca.

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A culpa da alegria

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Havia quatro anos que não nos víamos. Eu, tu e a inevitável velhice. Achei-te mais jovem desta vez: parecias mais exausta e decadente, em nosso último encontro. Talvez a tua pele tenha sido renovada pela popularidade tardia, ou quem sabe a vaidade tenha finalmente tocado teus poros. Fiquei com ciúmes de ti.

Estávamos, contudo, em perfeita sintonia. Ah, as tardes amareladas em doçura não podiam enganar-me! Sabia-me, uma vez mais, amada por tua presença. O amor, ao menos, é uma maneira de possuir-me a mim.

Não foram, pois, os copos, tantos, que enfeitiçaram meu espírito, visceralmente. Juro-te que nada tem a ver com os amanheceres em Alfama, cercados de gaivotas em pertencimento. Ainda me lembro quando te disse, ao pé do ouvido, o quão eras incapaz de abrigar vampiros, como eu. Estar contigo é abandonar as fronteiras da própria alma.

Mas, afinal, deitaste-me fora, em noite de Santos, como se eu fosse uma amante qualquer. Apenas mais uma brasileira, igual a todas: sedenta de aventuras e anestesiada para a melancolia.

Fiquei tão triste contigo. Aquela festa, suntuosa, tão sonhada nas minhas sensações, fora aniquilada em ruas estreitas e sardinhas mal assadas. Fiquei mesmo triste contigo, porque parecia que ias esquecer-te do dia dos meus anos. Tive medo que não me dissesses nada.

Saí à tua procura, despassarada. O rosto milimetricamente desenhado. Os lábios encarnados. Andei pelo Príncipe Real, na chuva. Envelheceria privada de ti? Cheguei ao Bairro, já desesperançada de ter contigo. Mas apareceste, em trajes de surpresa, dizendo-me que a casa era minha e que podia estar para sempre em tua morada. Acho que não sabes, mas já tinha decorado teu código postal, há muitos anos.

Os dias e noites, a seguir, preenchiam as saudades. Alimentaste-me de cores, em Belém. Fomos ao Cabo da Roca, realizar o velho sonho de ventar. Passeámos em comboios, autocarros, metros, eléctricos. Revivemos o Cais do Sodré, em comunhão com nossos fantasmas.

Em nossa última noite, no Tejo Bar, pudemos reconhecer nossos amigos. Eu jamais me senti tão querida em toda a minha vida. Cantámos e brindamos esse amor que não se explica, nem em lirismo exacerbado. Sentámos à igreja, para invocar todos os sons de todas as guitarras de toda a gente que passou pelo miradouro de Santo Estevão. O sol escancarava os adeuses.

Acendias o rio naquele azul impossível, farto de eternidades. Meu coração, a nau, arrependia-se de partir. Tuas mãos ainda aqueciam as maçãs de meu rosto, rubras de vinho e poesia.

Tu me beijaste por todas as madrugadas insones, silenciando minhas juras. Tantos versos ficaram enclausurados. Não aceitaste que a correspondência viesse pelo correio. Toda descoberta é uma renúncia ao ninho. E eu te prometo, Lisboa: estaremos juntas, muito em breve, para navegarmos as nuvens que nos enchem de plenitude. Ensinaste-me que não é preciso sentir culpa da alegria.

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O escultor de nuvens

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“— A quem mais amas tu, homem enigmático, dizei: teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu irmão? 

— Eu não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
— Teus amigos?
— Você se serve de uma palavra cujo sentido me é, até hoje, desconhecido.
— Tua pátria?
— Ignoro em qual latitude ela esteja situada.
— A beleza?
— Eu a amaria de bom grado, deusa e imortal.
— O ouro?
— Eu o detesto como vocês detestam Deus.
— Quem é então que tu amas, extraordinário estrangeiro?
— Eu amo as nuvens.., as nuvens que passam lá longe…
as maravilhosas nuvens!” 

Charles Baudelaire

Atordoado, o homem, envolto em bocejos, comunga o céu. Busca, insone, algum chamado para a distante perfeição aos seus versos. Sabe, pelos gregos, o quão generosa é a natureza para a criação. São 5h30. Na observação milimétrica, quiçá, ele há de encontrar vozes que clamarão sua pena.

A imaginação, em relação às nuvens, sem dúvida o fará dialogar com o aspecto mais óbvio do devaneio: a abertura da matéria. Afinal, as nuvens são capazes de clarear o mundo, tornando-se um veículo da translucidez. Escolhem, a cada instante, onde estarão as luzes e as sombras.  Ele, matéria imóvel, em sua essência medíocre, poderá flanar, em flocos, para beber o azul do dia.

Uma andorinha exibe os fios, tecidos no horizonte. Distraída, não reclama a autoria do voo que está sendo furtado, traduzido em letras. Seu rasante é, então, libertado pela onírica angústia do espectador.

Surge, no insuspeito poeta, o ímpeto de rasgar a manhã, em voos delirantes e brancos. Pois sabe-se, agora, condenado à mobilidade. Senhor de asas que lhe foram doadas pela primitiva meteorologia.

Tudo caminha para um périplo em mansuetude. A fauna enaltece a alegria. Árvores reverenciam, harmônicas, a tranquilidade adormecida dos deuses. No entanto, não há programação que esteja alheia aos imprevistos. Uma tormenta se enclausura nos domínios do desavisado navegante. E o dilúvio se instaura em cobiça, explicitando a minúscula presença do intruso. E o dilúvio apaga todas as epifanias, filhas da certeza.

O poeta, escravo da verdade, esvoaçado em desencontros, questiona a jornada, expediente incomum. Rememora a trajetória, em terminologia proposital: foi deflorado em nevoeiro, aurora sem sol. Stratus é o desígnio dado a elas, pensou, orgulhoso das aulas que devolveu ao coração, acerca das nuvens. Depois, lá pelas 10h, experimentou a onipotência, acompanhado de Cumulus. O auge do desejo só poderia ser retratado com um nome magistral. A fúria, porém, precipitou-se às 15h, vestida de Nimbus. Exatamente quando ignorava os presságios, trazidos pelos ventos iminentes da grandeza. O naufrágio inundou as folhas e borrou, sem escrúpulos, todos os seus contornos.

As horas se espreguiçam – ressaca de tormenta – vagarosas. A noite ensaia, enfim, suas cores inevitáveis. O sonhador, inebriado, inaugura um pensamento, onde o escuro se dissipa. Quão morosa é a contemplação, nesse fim de tarde de outono?

As iras, também, são fonte de inspiração. Encharcado, às 16h30, o aprendiz de tecelão pode reavistar o astro rei, com seu altruísmo de divindade, a secar as linhas, outrora perdidas em arrogância.

Os momentos que precedem o crepúsculo, tornam-se, assim, imprescindíveis ao conhecimento. As nuvens, criativas e destruidoras, irão descansar da claridade para reverenciar a solidão, lunática.

Em prol de sua redenção, o azul alaranjado pinta no firmamento a última lição: murmura, antes, a provável tempestade, para depois se aninhar em doçura, Cirrus, ululante metáfora da existência.

Uma salutar felicidade, pode, enfim, agasalhar suas palavras. A lentidão já lhe era ontológica. A mesma lã que sonha com metamorfoses, é víscera de fiandeiras. Nenhuma transformação convida a ansiedade. Todo destino reside no floco, inesgotável. O peso da leveza é o tempo.

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