Arquivo do mês: julho 2012

O Fausto em Pessoa

 

 

 

Primeiro Tema: O Mistério do Mundo

XXII

Ah, não poder tirar de mim os olhos,
Os olhos da minha alma […]
(Disso a que alma eu chamo)
Só sei de duas coisas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.
 
Oh vulgar, oh feliz!  Quem sonha mais,
Eu ou tu?  Tu que vives inconsciente,
Ignorando este horror que é existir,
Ser, perante o [profundo] pensamento
Que o não resolve em compreensão, tu
Ou eu, que analisando e discorrendo
E penetrando […] nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido.
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta
Fosse apenas sonhando mais profundo
……………………………………………………………..
Fernando Pessoa e Rembrandt

 

 

 

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Sorrio. Por trás do sorriso, não sou eu.

“São poucos os momentos de prazer na vida…
É gozá-la… Sim, já o ouvi dizer muitas vezes
Eu mesmo já o disse. (Repetir é viver.)
É gozá-la, não é verdade?

Gozemo-la, loura, falsa, gozemo-la, casuais e incógnitos,
Tu, com gestos de distinção cinematográfica
Com teus olhares para o lado a nada,
Cumprindo a tua função de animal emaranhado;
E no plano inclinado da consciência para a indiferença,
Amemo-nos aqui. Tempo é só um dia.
Tínhamos o [?romantismo?] dele!
Por trás de mim vigio, involuntariamente.
Sou qualquer nas palavras que te digo, e são suaves — e as que esperas.
Do lado de cá dos meus Alpes, e que Alpes! somos do corpo.
Nada quebra a passagem prometida de uma ligação futura,
E vai tudo elegantemente, como em Paris, Londres, Berlim.
«Percebe-se», dizes, «que o senhor viveu muito no estrangeiro.»
E eu que sinto vaidade em ouvi-lo!
Só tenho medo que me vás falar da tua vida…
Cabaret de Lisboa? Visto que o é, seja.
Lembro-me subitamente, visualmente, do anúncio no jornal
«Rendez-vous da sociedade elegante»,
Isto.
Mas nada destas reflexões temerárias e futuras
Interrompe aquela conversa involuntária em que te sou qualquer.
Falo médias e imitações
E cada vez, vejo e sinto, gostas mais de mim a valer que [] hoje;
É nesta altura que, debruçando-me de repente sobre a mesa
Te segredo o que exactamente convinha.
Ris, toda olhar e em parte boca, efusiva e próxima,
E eu gosto verdadeiramente de ti.
Soa em nós o gesto sexual de nos irmos embora.
Rodo a cabeça para o pagamento…
Alegre, álacre, sentindo-te, falas…
Sorrio.
Por trás do sorriso, não sou eu.”

Fernando Pessoa – Álvaro de Campos

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A velha chama e a negra solidão

Meu pai, grande escritor e jornalista, acaba de lançar seu primeiro e-book, intitulado “A Velha Chama e a Negra Solidão”. Segue uma degustação para quem quer conhecer um pouco mais desta literatura mágica. O link para a Amazon.com está no fim deste post.

Histórias

Os dias são abafados, insuportáveis; as noites são amenas e às vezes frias. Vá entender. O tempo mudou, radicalmente, nos últimos quarenta anos. Mas os meteorologistas insistem em afirmar que não há surpresas. Tudo o que acontece agora já aconteceu décadas atrás, garantem. Pra cima de mim… Como se, décadas atrás, houvesse estatísticas.

Há uma revolução na meteorologia, eu vivo dizendo isso, mas meu pessoal prefere acreditar que estou meio pirado. É natural. Eles são habitantes do interior do Brasil, e eu, a vida inteira, andei pelas cidades grandes. A minha lógica não bate com a deles.

Pois são eles que veem, quase todos os dias, os tais dos objetos voadores. Outra coisa de que não se ouvia falar muito, antigamente. É inacreditável o número de relatos: são objetos em forma de disco mesmo, ou de pratos; são charutos; feixes de luz; cometas. Há de todos os tipos, todas as formas; provocam as mais diferentes reações.

E eu aqui, debaixo de um céu repleto de astros normais e esplendidamente visíveis. Chegando aos oitenta, mas com uma lucidez que jamais experimentei antes, lendo as almas das pessoas a partir das suas expressões fisionômicas. Um sábio. Meu corpo, é claro, deixa muito a desejar, e visito mais os médicos do que os amigos. Meus gestos são lentos. A mente é um azougue.

Deixei de ironizar uns e outros, porque eles não entendem nada, coitados. Gozando-os eu acabava tendo a impressão de que gozava a mim mesmo. Já pensou? Você faz uma piada aqui, outra ali, e seu interlocutor continua sorrindo, cândido, como se você o elogiasse. O que é o chiste, uma boutade, se o outro não entende? Aí você percebe que a única vítima é você. E decide adaptar-se ao meio.

Foi o que fiz. Sentei-me, nas noites longas, e apenas ouvi histórias. Mais de noventa por cento delas falavam dos objetos. Incrível.

A mais empolgante, no entanto, foi-me contada dia desses. Narizinho, um aqui da região, apelidado assim por causa do seu nasal exageradamente arrebitado, estava voltando do estábulo às seis da tarde, exausto da labuta do campo, quando ouviu um silvo estranho. No primeiro momento imaginou que fosse uma cobra nova, depois sentiu que não era som deste mundo. Virou-se, assustado, e bem diante dele, no chão, estacionada, como se uma carreta fosse, estava a nave. Em forma de um disco ovalado, com muitas luzes piscando por dentro e por fora. Por dentro, sim! Uma imensa porta, aberta, mostrava um interior metálico, cinza-claro; e, de pé, sorrindo para ele, um homem vestido e uma mulher pelada. Narizinho conseguiu sobrepor seu deslumbramento ao natural susto que experimentara. Jamais vira mulher mais bela na sua vida. De rosto, quero dizer. De corpo, então…

“Que é isso, sô?”, foi a única coisa que Narizinho conseguiu dizer.

Ele explicou que o homem se dirigira a ele, saudando-o, dizendo que estavam ali para propor uma experiência muito importante, um intercâmbio entre o nosso mundo e o deles. O capiau ouvira perfeitamente o que ele dissera, mas, que loucura!, o homem não abrira a boca. Continuava rindo, apenas, enquanto a mulher, ao lado, não ria, exatamente, mas expressava, no rosto, um desejo indubitável: “Eu te quero, Narizinho… Eu te quero como homem!”

Ele também a queria, como mulher, e não estava sequer preocupado ou assustado com o inusitado da situação; aquela mulher o arrebatava e o mantinha num estado permanente de êxtase. Imagine na hora de…

‘Mas como posso fazer qualquer coisa com esse cara aí ao lado?’ E, no momento em que ele formulou este pensamento, o homem se afastou imediatamente, enquanto a mulher avançou em sua direção. Mais: movimentou os braços para frente, como quem pede um abraço. Apertado. Carnal.

Narizinho me descreveu, então, o ato sexual mais completo e ardente que eu já ouvira em toda a minha vida, e olha que li a obra completa de Henry Miller. Cheguei, confesso, a experimentar uma certa memória erétil. Eu não estava sozinho naquela conversa. Do meu lado, os caipiras só faltavam pedir licença para se masturbarem. Foi uma excitação só. Eu acreditei em tudo. Mas, agora, começava também a sonhar.

“Será que eles conseguem levantar o meu pau?”, perguntei a Narizinho, ingenuamente. Ele me olhou muito sério.

“Depois que dei a terceira, doutor, a mulher me pediu licença e perguntou se eu gostaria de continuar naquele ritmo. Eu ia responder o quê? ‘É claro, gostosa, é claro!’ Aí ela foi até uma mesinha da cor do chão e do teto, pois tudo era da mesma cor, e pegou uma seringa pequenina, como se fosse de brincadeira de boneca, e disse (não abria a boca, eu ouvia tudo na mente, o que é muito mais direto): ‘Vire a bundinha, vire…’ Nem senti a picada. E logo depois estava dando a terceira, a quarta e por aí vai…”

Foi naquela noite do relato que tomei a decisão, mas levei uma semana para divulgá-la. Em meados de dezembro, não sei exatamente o dia, convoquei esse meu povo, às oito da noite, na varanda da casa. Veio todo mundo, se bem que todo mundo são dez pessoas. Até o filho de Mané Carpinteiro, de quatro anos, foi obrigado a vestir sua melhor roupa para me assistir. Aí eu subi num caixote, amparando-me no ombro dos rapazes, e fiz o meu pedido quase súplica:

“Gente, estou sabendo que os discos voadores andam sobrevoando aqui, a região, e até pousam nos pastos. Os pilotos têm convidado algumas pessoas para conhecer o avião, quer dizer, o disco. Pois bem: vocês sabem que tenho sono pesado, apesar de velho, mas se algum desses objetos baixar por aqui, mesmo que seja distante vinte quilômetros, pelo amor de Deus, meus amigos, me chamem imediatamente! Eu quero ir embora com eles!”

Eles me ouviram sem dizer uma palavra. Todos, ou quase todos, inclusive os dois adolescentes do grupo, já me haviam contado alguma história envolvendo os objetos voadores. Mas, ao me ouvir, assim, numa convocação oficial, fizeram uma cara esquisita, de frustração, e saíram cochichando.

Depois eu soube que espalharam, até os confins do Estado, que eu estava louco. Senil. “O velhinho descompensou de vez”, disseram, “agora quer viajar de disco-voador”.

São eles que contam as histórias e eu que enlouqueço. Ninguém jamais comentou que Narizinho, dando oito na extraterrestre, havia pirado. Mas aí descobri da cumplicidade que existe entre eles: histórias são histórias, não é para acreditar. Eles ouvem tudo, sérios, compenetrados, depois contam as suas, que os outros ouvem. Se acontecer de algum idiota de fora acreditar nas lorotas, melhor. Assim elas se tornam verdades rapidinho.

Hoje, quando Narizinho aparecer por aqui para trazer o garanhão que vai cobrir minha égua, vou lhe dizer que apareceu, bem na frente de casa, o tal disco oval, com a porta aberta e tudo. E aí surgiu o mesmo cara, com a mesma peladona, que logo abriu os braços pra mim.

“Coroa, você é muito mais homem do que o Narizinho…”, ela comentou, depois da décima primeira, antes do galo cantar.

O link para o e-book está aqui:

B008KVSM38


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A solidão poética

Miriam Portela 

NÃO DÓI NÃO

GRITA O POETA

OLHOS RASOS

VEIAS ABERTAS

FRUTO MADURO

A MATAR A FOME

DA VIDA.


NÃO DÓI NÃO

GEME O POETA

A LAMBER AS ÚLCERAS

COSTURANDO OS PULSOS

CORTADOS PELOS VENTOS

 

NÃO DÓI NÃO

MURMURA O POETA

OLHOS MÍOPES

A ACARICIAR AS RUGAS

DESENHADAS A CANIVETE.

 

DOEU, NÃO DÓI MAIS

ADMITE O POETA

O CORPO HIRTO

AS MÃOS INÚTEIS.

5/07/12

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O fardo do poeta

Graça e Desgraça*

Otto Lara Resende

RIO DE JANEIRO, 20/04/1992 – Tendo mais de uma vez escrito sobre a sina do poeta, nem sempre fui entendido como queria e esperava. Não sou poeta, porque não tive o dom, que é dado de nascença. Nem por isto deixo de reconhecer a importância da poesia para a cultura de um povo. E até para o destino da humanidade. Sou do tempo em que se dizia que o mundo precisava mais de poesia do que de carvão. E também que, se o mundo tivesse de ser salvo, por certo o seria pelos poetas.

Nem por isto deixo de reconhecer que a sina do poeta, a sua sorte, não está entre as mais desejáveis, sobretudo num século que cultiva acima de tudo o conforto dos bens materiais. Para confirmar o que digo, posso me valer do testemunho de muitos poetas. Escolho um, pela eloqüência com que se pronunciou a respeito. Trata-se de Paul Claudel. Poucas pessoas são capazes de suportar a vocação artística, diz ele. A arte é perigosa para a imaginação e a sensibilidade.

Basta ver a maior parte dos poetas. Dão às vezes um espetáculo de completo desequilíbrio. São vidas freqüentemente frustradas. Até Chateaubriand e Victor Hugo foram vítimas de um profundo desequilíbrio. Os poetas não têm a paz dos homens de ciência. Ou dos homens de ação. Um Pasteur e um Lesseps se realizaram num êxito saudável. Foram vidas felizes. Já poetas, e escritores também, conhecem experiências dolorosas. Quem gostaria de ser um Baudelaire ou um Verlaine?

O martirológio dos artistas é mais que exuberante. E não falo dos poetas malditos, que a meu ver constituem um enigma. Ninguém em sã consciência pode desejar para si ou para um filho a vocação artística. Marginal, nada tem de atraente. Penso na minha irmã Camille. Graça terrível, o poeta aparece neste mundo sem graça por um decreto dos poderes supremos. É o que está em Baudelaire. Será que o mundo sentiria falta de Verlaine, se não tivesse existido?

Nenhum pai de família é bastante louco para desejar ao filho a vocação de um Rimbaud. Quem poderá dizer que a vida de Gide foi desejável? Ser poeta é mais ou menos como ser médium. Vivem de si mesmos, do seu equilíbrio. O artista vive à procura de sua essência, quase sempre voltado para os lados negativos e não para o lado bom. Veja o caso de Proust. Haverá vida pior do que a dele? Até aqui, é Claudel quem fala. Um poeta, pouco importa o que dele se pense.

*A foto é de Fernando Ricci, no Sarau Mundano de junho/12.

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