Arquivo do mês: agosto 2018

A cidade em milagres

quarto do pessoa

Eu sabia que na manhã do dia 13 iria acontecer um milagre. É meu dia favorito. Nasci em uma segunda-feira, 13 de junho. Como Lisboa e Fernando Pessoa.

Fui tomar café, sem a menor hipótese de escolhê-lo, em frente à paragem onde estava o senhor cego do dia do milagre do aniversário da Marielle.

Ao meu lado sentou a dona Luísa, com óculos maravilhosos e uma faixa na mão. Eu, que sou extrovertida, atrevi-me a contar que a praia de Avencas é famosa por curar as nossas dores ósseas. Curou o meu joelho no outro dia.

Luísa, daquela música incrível de Tom, nasceu no dia 30 de junho, como duas pessoas que eu amo muito. Uma delas já foi capaz de me curar por duas vezes. A outra eu estou à espera que me cure, ainda.

Não me contive e me ofereci para fazer reiki em seu braço. Compreendi, em harmonia com o Universo, que deveria comer algo, tomar mais café, água das pedras e fumar um cigarro antes de iniciar a sessão mediúnica de cura. Naquele instante uma epifania me acometeu, verde em folha. Eu sou psicóloga.

A dor havia começado dois meses antes, após um desentendimento com uma vizinha polonesa. Minha família veio da Polônia. A vida já pulsava em sincronicidades.

Ficamos ali, nós duas, a conversar sobre a vida. O azul do céu e a simpatia da dona Luísa já seriam milagres para mim. Mas apareceu novamente, enquanto eu falava sobre ele, João, o cego. Ele tomou um tiro na cabeça do amante de sua mulher. “A dor da gente não sai no jornal”, diria o Chico. João também é Quíron.

Nós somos nossos maiores Deuses. E há diversas formas de curar a humanidade. Eu fui capaz de encontrar a minha. Ela envolve o Fernando Pessoa, o Chico Buarque, Lisboa, o número 13 e a Poesia. As sincronicidades da minha vida são pautadas única e exclusivamente nas minhas ideias, convicções, mas, inevitavelmente, naquilo que eu amo. O que eu amo é capaz de chegar até mim e o Universo é generoso. Ele nos pode oferecer tudo o que desejamos. Basta perguntar, com carinho e respeito. Libertos do medo e da culpa.

Se cada um de nós buscar profundamente os próprios Deuses, os próprios fantasmas e as próprias curas, seremos capazes de nos libertar, como Humanidade, para um outro nível de vínculo.

Jung estava certo. Devemos passar pelo processo de individuação, experimentar as oito funções, mas nunca na dualidade luz e sombra, certo e errado, bom e mau. Essas são nossas maiores prisões.

A Poesia é a maior riqueza do homem.

Entanto, é imprescindível que cada um seja capaz de perdoar D’us por ter nascido.

E me perdoem.

Lilith

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Morada

amor

O amor me ensinou a chorar durante o sexo. O amor me distraiu e tropecei em Paris. Amanheci em Lisboa. O amor me fez perder o voo e o comboio. O amor me fez parar na sua cama, sem você estar lá.

Eu vi o amor na manhã de Alfama porque o inventei. Ele tinha sotaque da Sardenha e uma bagunça digna de Monicelli. O amor é leve como o autocarro 758, cheio de anedotas, velhos, cegos e crianças sorridentes.

O amor atravessa as encarnações, em amizades inseparáveis, em ódios mortais, em abismos intransponíveis. Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Monica e Marielle. Hamlet e Ophelia. Hilda Hilst e Nélida Piñon. Clarice Lispector e Lúcio Cardoso. Caetano Veloso e Gilberto Gil. Jung e Freud.

O amor gera filhos lindos, louros, que nos fazem amar ainda mais os nossos companheiros. O amor também acaba, como sabiamente nos profetizou Paulo Mendes Campos. E quando ele acaba sobra o vazio. Às vezes fértil. Às vezes apocalipse. Mas sempre, porque houve amor, há uma galáxia sendo gestada. Há futuro.

Ontem eu me encontrei com o amor numa dedicatória psicografada. E numa música que há anos não ouvia. E vi o amor entrelaçado nas mãos de um casal.

Tenho visto o amor em tudo: nas garagens, nas esquinas, nas ventanias, no azul. E você não está aqui para cantar comigo todas as canções. Não tenho o seu olhar cúmplice, quando apanho o autocarro. Caminho só pela avenida Liberdade. Quando disse que o meu poema favorito do Pessoa era aquele, não havia ninguém para me imitar.

Talvez seja a grande lição da sua ausência: descobrir onde há amor dentro de mim, endereçado exclusivamente a mim mesma.

 

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Estrela da tarde

Carlos do Carmo 

Era a tarde mais longa de todas as tardes
Que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas
Tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca,
Tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste
Na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhamos tardamos no beijo
Que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz
Que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto
Tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite,
Para haver outro dia.
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.

Foi a noite mais bela de todas as noites
Que me aconteceram
Dos noturnos silêncios que à noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.

Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram.

Eu não sei, meu amor, se o que digo
É ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
Dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto.
Meu amor, nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto!

 

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