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Um poema para salvar a minha vida, hoje

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Calei muitos
anos de calados dezembros,
quando o gosto da champanha azeda
combinava com todas as ânsias.
Calei muito
e não falaram por mim.

Aprendi sozinho
o que sozinho se aprende
do instante que não quer ser
mais que um instante,
e de nós, que nos matamos,
para ser esse instante.

Calei muito
e não fui reclamado:
minha voz não era a esperada.
Mas, o que disseram
durante o meu silêncio?

Poema “Lamento um tanto regressivo”
ALBERTO DA CUNHA MELO
No livro “Noticiário”, 1979

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Lições tardias

albertodacunhamelo

Alberto da Cunha Melo
Para Silvana Guimarães

Não devemos aprender a esperar.
Devemos, sim,
esquecer as coisas esperadas.
Ainda que nos digam:
“espere-me, à tal hora, em tal jardim”,
o jardim nos deve bastar.
Que a chegada daquilo
que nos fez esperar
seja algo normal naquele mundo,
como a morte de uma borboleta
ou a fuga de um lagarto nas pedras.
Se nada chega,
se ninguém aparece,
não notaremos a sua falta.

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O delírio das assinaturas

 

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O que a noite me ensinou, sobre todas as coisas, pode ser traduzido na meditação desesperada dos silêncios. Estes instantes de exílio poético, em que as clausuras do amanhã não se sobrepõem às eternidades imaginadas.

Sempre precisei das madrugadas para dar início a uma carta, uma leitura profunda, uma mudez escancarada em quimeras. Manhãs nunca me foram testemunhas dos sonhares.

Por que será que as vísceras só se abrem nessas horas? Quais reinos são libertos, na escuridão dos antigos murmúrios? “Meu coração é um albergue aberto toda a noite”, sussurra Pessoa.

Contudo, uma vez proferidas, as palavras se despedem para habitar outras íris, outras mãos, outros pensamentos. E eu poucas vezes me percebi, anoitecendo minha alma na memória de narrativas alheias.

Nas últimas semanas, fui revisitar-me em duas ocasiões, em sincronia cósmica. Uma velha amiga me agradeceu pelo livro que a presenteei, em seu aniversário de vinte anos. Foram algumas poucas frases para que pudesse trazer à mente todos os desejos pueris que envolviam aquela data. E o coração pode celebrar, sem fantasias, a grandeza de ser repertório da existência dela, ainda que o hoje já não abrigasse nossos caminhos. Ontem fui imprescindível para aquela pessoa.

“Escrevemos cada vez mais para um mundo cada vez menos”, ensinou-me, tardiamente, Alberto da Cunha Melo. Essa melancolia arque(típica), quase inoportuna, quase clichê que apavora o destino de todos os escribas.

O mais importante, todavia, veio de um saudoso amigo da adolescência, por quem nutri muito carinho e admiração – na primeira metade de mim. Ele me confessou, com ternura juvenil, que eu havia escrito uma das cartas mais bonitas de toda a sua vida.

Meu coração, o albergue, sofreu um dilúvio imediato. Recordei todos os sentimentos que me avassalavam naquela época: dores infinitas, a solitude do não pertencimento, a recusa à obediência. Depois, fui encharcada por um orgulho sem nome, uma alegria além dos versos. Era a minha carne de menina, em papel e tinta, morando na alteridade.

Um pedaço meu guardado pelo tempo, expatriado da minha lembrança. De quem seriam aquelas declarações? Por quais estradas com ele estive, nesses anos todos? Quais seriam as inúteis revelações? De onde nasceram essas sagradas cicatrizes que eu havia cometido?

O fundamental daquele fenômeno, pois, não residia nos lugares comuns que eu provavelmente utilizei, tampouco o conteúdo de uma carta, ridícula. Os fatos eram apenas o preâmbulo de algo essencial: só me comunico através da escrita, verdadeiramente. Se amei, amo ou amarei alguém, nesta encarnação, necessito das palavras para elaborar as sensações. Só peço desculpas quando incorporada em literatura.

Não há memória que atinja, em igual beleza, uma superfície perfumada, com firma reconhecida. E isto constitui o maior fardo e o maior dom que alguém pode carregar. Todas as verdades só existem antigamente, quando a coragem legitimou o delírio de uma assinatura.

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Orgasmo

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Alberto da Cunha Melo

Todo corpo, em seu esplendor,
divide em duas esta vida,
mas este êxtase existe mesmo
para ocultar uma descida

da carne, no único momento
em que do cosmo é instrumento;

truque do eterno é todo amor:
toca por baixo o fogo alto
que aquece o sonho ao sol se pôr,

porque logo devolve aos dois
o nada de antes e depois.

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Licença Poética

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Para Paulo Carvalho

“O poema sai de mim ou eu saio da vida.” – Alberto da Cunha Melo

Acordei perfumada. Os olhos saltaram da cama antes da carne, ainda recoberta em fragmentos inconclusos do sonhar. O mundo não me enviou seus pesares, nesta manhã. O torcicolo permanece dormindo, depois de séculos a torturar-me nessa dor vã e mesquinha. Hoje.

Tenho um samba antigo cantarolando entre os dedos, frenéticos para tocar o infinito. A dor é apenas uma melodia mais bela, e não triste. Uma estranha vontade de ser feliz inunda meus pulmões. Hoje.

Nenhuma conta bancária assustou-me, encostada na porta de casa. E o improvável gris que acometeu o céu, em pleno janeiro, não me é incômodo. Como se estivesse protegida, preparada para enfrentar os dragões. No entanto, no lugar das armaduras, há um corpo nu e silencioso que me contorna. Hoje.

Meu coração está calmo, e extasiado, e único, como alvoreceres azuis de Lisboa, quando a vida podia doer mais do que um fado. O despertador não tocou e amanheci sozinha. Hoje.

Sinto os aromas escarlates do Recife, em pleno carnaval, inebriando as nuances dos meus olhos, ao celebrarem o mar de Boa Viagem. Esqueci-me de tomar o antidepressivo, antipoema. E não há instante de tédio que não possa ser colorido em versos. Hoje.

Não me atrasei para a consulta com o solitário diretor da multinacional, embora o relógio tenha sido negligenciado. E eu pude ver em seu sorriso velho uma centelha de futuro, faiscante, faiscando uma promessa de viver em plenitude. Hoje, as promessas, ilusões da traição dissoluta, são bem vindas.

O crescimento deixou de ser a perda do brincar para assentar suas raízes no mistério. Por que, meu Deus, por que hoje?

Porque hoje é dia de Poesia. Porque hoje os uniformes foram suspensos dos hospícios e não há Gardenal para ninguém. As amarras foram esfaceladas, timidamente, já que as camisas de força não possuem força alguma.

Não há sustos apavorando os passageiros enfileirados, esperando a desesperança dar sossego. Porque não há sustos, no dia de hoje. Não há de haver nenhuma brusca ruptura entre o imaginado e o real – esta cisão cruel que nos ameaça.

Alguns acabarão a madrugada reinventando seus afetos, possuídos por uma vontade alheia aos pensamentos bélicos de realidade. Uns poucos seguirão seus caminhos, sem farpas de angústia. Outros sentirão a necessidade de psicografar suas epifanias malditas, em homenagem ao espírito calado pelas rotinas. Mas, por que só hoje?

Eu vou sentir o tremor primeiro de quem escreve. Sentada na iminência abissal que verticaliza o instante. Eu serei a testemunha clarividente desta noite irreversível. Eu ouvirei os poros dos presentes, e dos ausentes que estão sendo contemplados em segredo cósmico. O arrepio é a alma reconhecendo-se no mundo.

Todavia, nenhuma alegria é revisitável. Todo desassossego traz em si a reminiscência uterina de ter um dia pertencido. E sentirei saudade, o não permanecer mais íntimo de todos os sentimentos. E não a quero. Nunca mais.

Há em mim um enternecimento tão poderoso que não posso mais aceitar as condições efêmeras desse existir. Uma inquietude visceral, não esboçada em papéis violentados por releituras inúteis. Uma memória de outros domingos que não foram, ainda, rasgados pelo calendário.

Lá está a poesia cotidiana.

Nas esquinas difusas, sepulta em distrações corriqueiras. Nos adeuses dos homens engolidos por abstenções econômicas. Em milímetros de pele esquecidos na íris do antigo amor. Órfãos do desconhecido que somos, à espera do impossível retorno.

Por uma vida genuinamente literária, deixo os devaneios cravarem suas bandeiras no meu ser. E peço licença poética para atravessar todas as tempestades.  Pois não há verbo para saudade. E nem dia para a Poesia.

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