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Quimeras de farol

“A minha solidão é maior que teu silêncio”, disseste-me, há pouco, com os olhos em dilúvio. Ah, Pedro, se tu soubesses como eu sei! A tua solidão nasceu do meu vazio, amor.

A tua avó sempre me disse que o mar me habitava, dentro da barriga dela. Eu, na felicidade estúpida, infante, nunca vislumbrei o óbvio: o mar é a nossa primeira morada, sempre. Não há humanidade sem o líquido ancestral, pois.

Embora eu já tenha te contado tantas referências sensíveis, tantas dores que me trouxeram à condição de poesia, talvez o mar as inaugure todas. Não há mundo antes das águas, Pedro. Todo silêncio prepara o estouro das ondas.

O mar mora dentro de mim, Pedro. Primeiro, nas minhas lágrimas de sal e comiseração. Em sonhos aquáticos, em dúvidas postiças, em serenatas de ressaca. Mora, filho, o júbilo pelos azuis, a estranheza frágil que me suporta, frente às mares.

Mas tu precisas saber que a mudez é o despertar da imaginação. Não existiriam tantas galáxias, dentro de ti, se não houvesse este surdo chamado para os teus próprios oceanos.

A Mamã também soube brincar de enclausurar a voz. Este exercício de contar as histórias para a alma. O abandono dos alardes é o berço dos mergulhos, meu querido. Tu, que querias ter nascido água para ressuscitar os meus naufrágios! Por que te pensas merecedor de cais, Pedro?

Pula com força nestes teus silêncios. Acolhe a efemeridade das tuas marés. Abandona esta súbita vontade de dizer, antes de tudo. A palavra, quando calada, reverbera nas vísceras. Não há poesia tagarela.

Dilacera-me te mostrar a solidão. Grandes são os desertos e tudo é deserto, diria Pessoa.  Mas são maiores os nossos sonhos, quando inauditos. Quando despertares para a grandeza das estrelas, tua dor se unirá ao Universo. Poderás, enfim, cantar quimeras de farol.

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Camafeu

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Paulo Mendes Campos

A minha avó morreu sem ver o mar. Suas mãos, arquipélago de nuvens,
Matavam as galinhas com asseio; o mar também dá sangue  quando o peixe
Vem arrastado ao mundo (o nosso mundo); no entanto no mar  é muito diferente.
As gaivotas, mergulhando, indicam o caminho mais curto entre  dois sonhos
Mas minha avó era feliz e doce como um nome pintado em uma barca.
Sua ternura eterna não temia a trombeta do arcanjo e o Dies lrae:
Sentada na cadeira de balanço, olhava com humor os vespertinos.
Sua figura pertenceu à terra, porém o mar, rainha impaciente,
0 mar é uma figura de retórica. No porto de Cherburgo, há muitos anos,
Ouvi na cerração o mar aos gritos, mas minha avó jamais ergueu a voz:
Penélope cristã, enviuvada, fazia colchas de retalhos fulvos.
0 mar é uma louça que se parte contra as penhas, enquanto minha avó
Fechava a geladeira com um jeito suave, anterior às geladeiras.
Igual ao mar, os dedos da manhã a despertavam num rubor macio;
Pelo seu corpo quase centenário a invisível vaga do sol se espraiava,
A carne se aquecia na torrente dos constelados glóbulos do sangue,
As pombas aclamavam outro dia da crônica do mundo (o nosso mundo)
E de uma criatura que se orvalha em suas bodas com a terra dos pássaros
Matutinos, das frutas amarelas, da rosa ensanguentando de vermelho
0 verde, o miosótis, o junquilho, e em tudo um rumor fresco de águas novas,
Um verdejar de abóboras, pepinos, um leite grosso e tenro, e minha avó
Com tímida alegria indo, vindo, a prever e ordenhar um dia a mais,
Assim como as abelhas determinam mais 24 horas de doçura.
E enfim no litoral destes brasis, o mar afogueado amando a terra
Com seu amor insaciável, dando um mundo ao mundo (o nosso mundo)
E a gravidade intransigente do mistério. Mas minha avó morreu sem ver o mar.

 

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Todas as vidas que eu outrora tive, numa só vida…

NESTA vida, em que sou meu sono,
Não sou meu dono,
Quem sou é quem me ignoro e vive
Através desta névoa que sou eu
Todas as vidas que eu outrora tive,
Numa só vida.
Mar sou; baixo marulho ao alto rujo,
Mas minha cor vem do meu alto céu,
E só me encontro quando de mim fujo.

Quem quando eu era infante me guiava
Senão a vera alma que em mim estava?
Atada pelos braços corporais,
Não podia ser mais.
Mas, certo, um gesto, olhar ou esquecimento
Também, aos olhos de quem bem olhasse
A Presença Real sob disfarce
Da minha alma presente sem intento.

Fernando Pessoa

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Olinda que amanhecerá em mim

Banhos de mar

Clarice Lispector

Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.

Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?

De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.

Saímos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.

Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras da minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade.”

Passávamos por cavalos belos que esperavam de pé pelo amanhecer.

Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.

No bonde mesmo, começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda. Finalmente saltávamos e íamos andando para as cabinas pisando em terreno já de areia misturada com plantas. Mudávamos de roupa nas cabinas. E nunca um corpo desabrochou como o meu quando eu saía da cabina e sabia o que me esperava.

O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo.

Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.

O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele.

Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na cabeça.

Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ía secando meus cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.

Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.

Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar.

A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?

Nunca mais.

Nunca.

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Promessa de Ano Novo

O Natal de Maria Clara, naquele ano, havia sido mais triste. Desde que conhecera o Teatro Municipal, não encontrara muita beleza nas luzes estapafúrdias que engoliam a cidade e as pessoas.

O Réveillon também era uma estranha recordação. Seus tios, depois de uma certa altura, pareciam mais crianças que ela mesma – e isto fora muito divertido. Só que, no dia seguinte, passaram a se queixar de dores de cabeça. Cobriam seus olhos com óculos escuros. Fugiam impunes do sol, em plena praia. Como uma noite de infância dói tanto?

Clarinha refletiu muito tempo sobre esse assunto. E, como necessitava de uma resolução para todos os problemas, perdoou os parentes. Realmente ser criança é ter muitos planetas à disposição. Isso deve machucar as cabeças que trabalham todos os dias.

O verdadeiro significado do verão, para ela, no fundo, no fundo, era o mar. Levantar bem cedinho – o frio da noite ainda não fora dormir – e observar os raios amarelos que pintavam as ondas com precisa timidez.

Com o mar, Maria Clara passava horas de sereia. Coordenava aventuras infinitas, que só seriam resolvidas no misterioso amanhã. Aumentar o tamanho das histórias prolonga os verões, pensava com orgulho de si mesma. E era o almoço o invencível vilão. Porque depois dele o mar seria saudade de imaginar. Ah, a obrigação horrorosa de digerir as manhãs. 

A menina descobrira uma forma genial de acelerar as duas horas que a separavam do mar. E como sentia-se esperta de ter elaborado aquela saída! Eram horas de leitura, de concentrar-se totalmente nos livros. Até sentir a vertigem gostosa. Até grudar-se nas páginas e quase não ler mais: a palavra já estava presa aos olhos.

Nos fins de tarde, quando o mar era muito gelado e o coração estava nublado de lembrança, vinham as peripécias contadas pelos tios. Narrativas de piratas e navegadores de verdade. Mas tudo, tudo sempre encharcado de oceanos protagonistas.

E foi numa tarde de janeiro que a tia, com ironia ferina, contou para ela sobre a descoberta do Brasil. Com desdém, riu-se dos índios. Primitivos. Incapazes de enxergar as caravelas. Sentiram apenas uma estranheza no horizonte!

Para a menina, nada era mais óbvio. Como poderiam ter avistado? A imaginação ainda não tinha sonhado com navios. Exatamente igual ao que ocorria com seus personagens de mar. O hoje é fundamental para o nascimento das coisas. Ontem, por exemplo, não havia criado uma baleia que a salvasse dos dentes terríveis do tubarão. Se a baleia fosse antecipada, não existiria a taquicardia da batalha.

Enquanto os tios amarfanhavam os heroicos índios, Clarinha ia deixando aquelas falas inúteis serem anonimizadas. Fez para si uma promessa de Ano Novo: passaria o resto daquele verão – ou se fosse preciso, o ano inteiro – à procura de índios. Índios que, como ela, não traduziriam em caravelas o indizível sentido das marés.

 

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Remanso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sempre me senti dona de uma esperteza inegável. Desde pequenina, estava eu, de pijamas ou de tranças, metida nas conversas adultas dos amigos de meus pais. Todavia, hoje eu me olho e me sinto frágil. Precária. Capaz de entrever meus ossos esmigalhados, em um tilintar de segundos. Não sei de onde tirei a estúpida idéia de ser espevitada…

Hoje ouvi ondas e esbocei um imenso sorriso. Era apenas a máquina de lavar, companheira heróica da minha jornada. Pois é, estou viciada em limpar minhas roupas. E sei que isso tem total relação com a regeneração da pele. Lavar dá toda uma nova possibilidade para a roupa existir, sem vestígios de passado incrustados na superfície. E eu sou eternamente o vestido, a meia e a camisa.

Tudo me tem sido difícil e tudo me tem sido sozinho. Absolutamente por escolha irremissível de meu coração. Ou por altivez da minha alma. Temos conversado muito a respeito de minhas atitudes. Em conclusões não falamos, até o presente instante. Eu agradeço ao poder divino do ainda não, desta vez. Porque estar em contato com respostas faria com que me sentisse detestável. Seria capaz de enfartar o fenomenólogo coração que carrego atrás do seio.

A solitude, como me disse um dia um grande amigo de infância, é composta de solidão com plenitude. Miserável sou, ao não conseguir de forma alguma alcançar essa tranqüilidade. Tenho vivido dias e noites “de cão”! Aliás, o entendimento dessa expressão me é impossível de ser tocado. Meus dedos se recolhem, quando pensam nela. Os cães, ao não pensarem em si mesmos, vivem a reluzente euforia da ignorância. Só os humanos têm ciclos infelizes e, ao mesmo tempo, possuem a ousadia de não se esquecerem deles.

Sinto, cá, a perecibilidade das relações. Não, não aceito a insolente resposta de que meu tempo aqui é pouco e que em breve revisitarei a busca tão sonhada da amizade. É outra cousa que transborda de mim. Composta de falta mesmo, de não concernir, de insônia. Por vezes a insônia é bela: o dia anterior ao acantonamento, a conversa que inunda as conexões nervosas, o porvir e seu maravilhoso universo de acontecimentos sonhados.

A minha anipnia é outra: “não porque morresse ou me matasse. Mas porque me seria impossível viver amanhã e mais nada”, diria o mestre Fernando Pessoa, em minha preferida poesia.

Não durmo. À espera de compreender o sentido mais íntimo de minha estadia. Não durmo pois eu sei que o amanhã não me fará uma ínclita cozinheira. Não durmo pois meus amigos estão adormecidos dentro do meu abstrato desígnio. Sempre tive, mesmo nas áureas madrugadas estelares, muito medo do repouso. Porque a vida passa numa velocidade muito maior do que minha ânsia de vivê-la. Então eu bebo vinho e respiro enfim ares cor de rosa. Aguardo Deus, para que ele abençoe meu sono. Permita que eu prossiga este tão áspero e açucarado crepúsculo. Conceda-me a escrita, só mais uma vez.

 

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