Arquivo do mês: novembro 2012

O ultimato onírico

“A noite não é um espaço. É uma ameaça de eternidade.” Bachelard in O Direito de Sonhar

Estou inerte em minha casa, à espera da morte onírica. A chuva, voraz, apaziguou minha abstemia – esta sede de orvalhos – obrigatória em noites primaveris. Falta pouco para transformar-me mais uma vez, deixar a concha aérea e ignorar seu alento precioso. Mais um sonho irá se concretizar.

Para o desavisado sonhador, toda concretude se dilacera em sorrisos. Todo crescimento aponta para a vulgaridade úmida. Toda crosta tem destino de partida. E inutilidade.

Contudo, já dizia Bachelard que a poesia “se simplesmente segue o tempo da vida, é menos do que a vida; somente pode ser mais do que a vida se imobilizar a vida, vivendo em seu lugar a dialética das alegrias e dos pesares”. E é nesta esquina que o pensamento ressona, quieto, prestes a dar o salto mortal.

Encontro a mim mesma no impasse abissal das iminências, onde os verbos só se conjugam no intransitivo. Entre o medo de pular e o prazer de doar ao meu cérebro mais uma dose de lembranças ininteligíveis.

Os céus, neste momento, tornam-se imensos, tal como a íris de olhos embevecidos por tolices. Quando não há espaço para pupilas. E, então, percebo a solidão desértica habitando-me os poros, grão a grão – areia ancestral. Invólucro do meu ser fragmentado pela derradeira alvorada.

Eu degusto o vazio uterino que caracteriza toda realização com pavor, mesmo que não concebesse a morada desocupada.

E, neste cenário, tu tocas a campainha, apesar de não existir avisos prévios da tua vinda. Nenhum coração esteve preparado para o refulgir de teus passos, para o arroubo indelével da tua chegada.

Vieste para escrever estas páginas amarelecidas da minha história, transfigurando os tilintares infantes que eu havia dado às letras imprecisas, aos acasos. Sendo assim, imploro-te: inaugura minhas janelas com tuas risadas inconfundíveis, preenche minhas frestas com a tua música, extingue as lágrimas incompreendidas. Rasga a minha ira e aniquila estas tristezas que, há tanto, fazem-me companhia.

Amor, almejo que venhas com as malas repletas de rasuras para que eu possa modificar os teus esboços. Esquece os teus mesquinhos anseios de plenitude e encarece aqueles milésimos de segundo, verticalizando nossas comunhões.

Os armários, as gavetas, os cantos e promessas ficaram dias ao sol, espantando reminiscências de outrora. Estou pronta para assassinar meus devaneios, em prol da tua presença. Em legítima defesa.

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Arquivado em Crônica, Textos meus