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Monólogo de Orfeu

                                                                                                                                                                   

Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
É mais por que te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada…
E sabes de uma coisa? Cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, – que é que eu sei! Essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confundir o espírito
De um homem – nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! E me dizes essas coisas
Que me dão essa força, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! Sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice…
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura! Quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres – que ele, Orfeu
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo! 

Vinícius de Moraes – Orfeu da Conceição

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Autoajuda e Poesia


*Foto: Marcela Lalim

As prateleiras ficam, a cada dia, menores para eles. Seus autores acumulam milhares de milhões de dólares pelo mundo afora. Homens e mulheres correm em desespero atrás das palavras otimistas: anseiam pelo acalanto que venha através das mágicas fórmulas. Enquanto a humanidade sente-se órfa de Deus, a autoajuda reina solitária. Aproveita-se muito bem do vazio espiritual que há.

A célebre passagem do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, “Deus está morto!” embora já tenha sido questionada e revisitada inúmeras vezes, encaixa-se perfeitamente na análise cultural da autoajuda. Infelizmente não ocorreu o que Nietzsche esperava. Os homens não aproveitaram a morte de seu criador para repensar os valores morais e éticos das novas sociedades. Não fomos capazes de utilizar a filosofia como condutora da nossa liberdade. Apenas substituímos Deus por nós mesmos – e cada um é livre para construir suas doutrinas.

O conceito em questão não tem raízes contemporâneas. O primeiro livro encontrado nessa categoria data de 1859, escrito pelo autor inglês Samuel Smiles. Self Help é baseado em feitos pessoais e descrições de pessoas cujas vidas foram bem sucedidas. Aliás, sucesso é palavra chave para a sociedade moderna. Perseverança, conquista, força de vontade. Os grandes chavões nunca tocam a necessidade da tristeza ou do sofrimento. O caminho para apanhar o estrelato não pode ser acompanhado de fraquezas. O homem precisa engolir o choro, abandonar seus medos. Só assim será uma grande estrela, no universo dos triunfos.

A crescente perda da ligação com o Cosmos tem auxiliado muito esses mercados. A agência Marketdata estima que o mercado da “Auto-Melhoria” movimentou cerca de US$11 bilhões em 2008. São palestras, livros, vídeos, catálogos, treinamentos e cursos destinados a grupos. Tudo em prol do auto desenvolvimento.

As pílulas da felicidade instantânea são espalhadas como as pestes, nos precários tempos de outrora. Todos os meios são justificáveis para Vencer. No entanto, a procura por medicamentos que aliviam as angústias tem crescido em progressões geométricas. Sentir-se entristecido tem sido compreendido como doença. O sofrimento – embora seja parte essencial de nossa evolução – é tragédia iminente. O fracasso não pode ser tolerado.

Pensamentos como os de Shri Swami Tilak, podem ser facilmente encontrados em sites de autoajuda: “O sábio e o ignorante, ambos vivem no mundo. O sábio sabe como diferenciar o verdadeiro do falso, enquanto o ignorante confunde um com o outro. A causa do sofrimento não é o mundo, mas a nossa atitude perante o mundo.”

Será que realmente o sábio distingue com maestria o verdadeiro do falso? A felicidade é possível de ser alcançada, a partir de exercícios repetitivos e metodologias plagiadas? Como pode existir uma ajuda de si mesmo se o humano é ontologicamente um ser com os outros? Não estamos rodeados por uma infinidade de convicções? É possível que, para além da orfandade divina, estejamos também carentes das imagens poéticas? Baudelaire, nos dirá, em seus Escritos Íntimos:

É por não ser ambicioso que não tenho convicções, como as entendem as pessoas do meu século. Não há em mim nenhuma base para convicção. Há sempre uma certa covardia ou moleza nas pessoas de bem. Só os aventureiros têm convicções. De quê? – De que têm de vencer. E por isso vencem.  

Um enorme silêncio atinge então o coração do leitor que busca ajudar a si próprio. Será que vencer existe? E, em caso afirmativo, o êxito traz plenitude ao existir? Não seremos meros títeres, em palcos absurdamente artificiais? Cabe a nós seguir o caminho do Olimpo?

Talvez a fragilidade não deva ser negligenciada. A sombra é essência. Ora, o horrível negrume dos defeitos. Ele merece ser esquecido? A verdade dos poetas desanuvia. O pecado confessado aquece. E o desconhecimento de si faz ninho.

Manoel de Barros, poeta brasileiro, sempre buscou a inspiração nas lesmas e nas rãs. Viu a si como um filho do Universo. Seus poemas retratam a ligação cósmica da qual estamos privados. Ao lermos Auto Retrato Falado, confrontamo-nos com a mais pura fragilidade: “Me procurei a vida inteira e não me achei – pelo que fui salvo”. Um líder motivacional utilizaria esse verso para personificar um verdadeiro perdedor. A poesia não poderá jamais recrutar jovens que aspiram ao sucesso. Quantos defeitos encontramos em suas palavras! Quanto medo, quanto desespero pode estar contido em uma estrofe. A obra escrita muitas vezes leva-nos ao escândalo. Maurice Blanchot, em um dos seus ensaios compilados em O Livro Por Vir, diz que “a arte nos oferece enigmas mas, felizmente nenhum herói.” Sutil e silencioso, o ensaista francês traduz a arte como um quebra-cabeças infindo. Feliz será o anti-herói? Ou ainda: não estamos a viver enclausurados em uma figura idolatrada que não nos pertence? Não seria demasiado perigoso irmos atrás da perfeição? Blanchot continua a esclarecer a obscura relação do homem com a poética, esclarecendo-nos a questão:

O que pode ensinar-nos a obra de arte acerca das relações humanas em geral? Que espécie de exigência nela se anuncia, de modo que não possa ser captada por nenhuma das formas morais em curso, sem se tornar culpado quem a ignora, nem inocente quem pensa realizá-la, livrando-nos de todas as injunções do “Eu devo”, de todas as pretensões do “Eu quero”, para nos deixar livres? Entretanto, nem livres, nem privados de liberdade, como se ela nos atraísse a um ponto onde, esgotado o ar do possível, oferece-se a relação nua que não é um poder, que precede até mesmo a toda possibilidade de relação.

A arte é, pois, tomada pelo caos? Não, as palavras de Blanchot habitam outras configurações. O que ele quis deixar claro é a soberania da arte sobre a Humanidade. A linguagem artística transcende nossas formas de organização. E ao mesmo tempo não sucumbe aos devaneios de anarquia. Porque é de harmoniosa relação com o Universo. De quais discursos necessitam os rebanhos humanos? Quais as mitológicas criaturas devemos seguir? Obedeceremos aos autarcas? Seguiremos os conselhos oferecidos em palestras de autoconhecimento? Nossos ouvidos incorporam os cultos motivacionais? Blanchot também se interrogou acerca disso. E nos adverte sobre o poder mudo que as palavras infligem:

No mundo, a linguagem é poder por excelência. Aquele que fala é o poderoso e o violento. Nomear é a violência que afasta o que é o nomeado, para ter sob a forma cômoda de um nome. Nomear é o que faz do homem essa estranheza inquietante e perturbadora, que estorva os outros seres vivos e até mesmo os deuses solitários que dizem ser mudos. (…) Somos tentados a crer que a linguagem do poeta é a do mestre. Quando o poeta fala, é uma fala soberana, fala daquele que se lançou no risco, diz o que jamais foi dito, nomeia o que não entende, apenas fala, de modo que ele não sabe o que diz.

É preciso analisar as palavras de Blanchot com cautela. Primeiro, ele aponta para a poderosa capacidade da linguagem. A fala move o mundo e domina as relações entre os homens. Todavia, estamos a condicionar essas relações em formas verticais: há sempre o mestre, o detentor da palavra; há sempre o servo, o ser desprovido de uma caligrafia própria: analfabeto do mundo que habita. A servidão não tem mãos nem olhos: só é convidada a ouvir.

Apesar disso, a autoridade verdadeira sobre o mundo não é dos mestres. Os guardiães do mundo são poetas. Sim, ele dirá, os poetas, estes duendes, estes seres da Natureza. Inúmeras vezes não compreendem o que escutam, entorpecem-se em irreais imagens que povoam seus olhares. Seus dedos, suas penas, suas máquinas de escrever, contudo, não se paralisam diante das incompreensões.

Roland Barthes também foi um pesquisador das imagens poéticas. Em Le Degré Zero de l’Écriture, ele nos convida a mergulhar no oceano que se abre entre o leitor e a obra. Há um passado na imagem? O leitor escuta passivamente o livro?

A palavra poética é aqui um ato sem passado imediato, um ato sem contornos, e que propõe apenas a sombra espessa dos reflexos de todas as origens que lhe estão ligadas. Assim, sob cada palavra da poesia moderna jaz uma espécie de geologia existencial, em que se reúne o conteúdo do Nome, e já não o seu conteúdo eletivo, como na prosa e na poesia clássica.

É possível que o leitor seja um co-autor da obra? Como o livro está aberto? Que tipo de ligação pode haver entre esses dois seres, separados pela língua, pelo tempo, pelo espaço?

Nem todas as pessoas estão aptas para essa reunião. Estamos sempre a conferir signos inconscientes e mensagens subliminares em tudo o que nossos desconfiados olhares enxergam. Revelar o mistério é, muitas vezes, procurado por nós. Não entendê-lo como parte indivisível do poema. Uma busca por interpretações complexas, explicações plausíveis. E a perda é inestimável: a imagem é viva e mutável. Seu único valor está no inefável.

Segundo Gaston Bachelard, em Poética do Espaço, um fenomenólogo autêntico, como são todos os artistas, não consegue perceber uma poesia de forma psicanalítica. Não há causas nos versos, as estrofes negam origens. A imagem não existe para julgamento, se o objetivo é acessá-la. A poesia nunca é reduzida às condições psicológicas de seu criador. A insanidade, presente em grande parte do mundo das artes, nada diz da obra. Não se deve encaixar a poesia em diagnósticos prematuros e infundados. Apenas olhemos para ela. Admiremo-la. E deixemos que ela possa chegar ao seu destino. O destino de todas as poesias é percorrer o sangue do seu leitor.

A Humanidade não estaria melhor nas mãos dos poetas do que na ditadura imperativa da autoajuda? Não estaríamos nos desenvolvendo mais como seres humanos se assumíssemos o grande horror do desconhecido? Dir-nos-á Avicena, citado por Octavio Paz em Versiones y Diversiones: “Um homem não sente dificuldade em caminhar por uma tábua enquanto acredita que ela está apoiada no solo; mas ele vacila – e afinal despenca – ao se dar conta de que a tábua está suspensa sobre um abismo”. 

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A única vitimização aceitável…

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A calhar…

Esse poema é o meu predileto de Pessoa. Conheço há anos e o recito como se estivesse declamando a minha própria alma. Tenho imensos ciúmes dele. Por muito tempo, quis aprisioná-lo a mim. Um segredo entre mim e o mestre. Pouquíssimos seres humanos o descobriram. Mesmo os portugueses mais apaixonados se surpreenderam quando o apresentei. Hoje, eu o deixo ir embora porque o amo. Na íntegra. Milimetricamente recuperado. Com todas as cousas em seus devidos lugares. 


Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma,
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto…
Sim o resto parece-se apenas com a vida.

Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
E não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.

Fumo, sonho, recostado na poltrona.
Dói-me viver como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das cousas
Onde sofrer seja uma cousa mais suave,
Onde viver custe menos ao pensamento,
E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.

Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,
Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos?) – Novas poesias inéditas

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